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A renúncia do Papa tem um significado político

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Academic year: 2021

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A renúncia do Papa tem um

significado político

Henrique Carneiro

A r e n ú n c i a d o P a p a é apresentada como uma decisão p e s s o a l , d e v i d o à i d a d e . Evidentemente, é preciso buscar as razões de fundo para um g e s t o i n é d i t o n o s a n a i s r e c e n t e s d a I g r e j a e q u e enfraquece ainda mais a sua credibilidade.

Os pontificados ficam historicamente identificados com alguns dos fatos ou decisões mais importantes que marcaram esses períodos. O Papa Pio XII, contemporâneo do nazismo e aliado de Hitler na sua ascensão ao poder, ficou indelevelmente marcado por essa aliança. Mais no passado, o que resta na memória popular de Papas como Rodrigo Borgia, ou Alexandre VI, senão a reputação cruel e devasso, que nomeou o próprio filho Cesare Borgia, além de muitos outros parentes, como cardeais? De Júlio III, a nomeação como cardeal-sobrinho do amante de 17 anos, Innocenzo.

De Joseph Ratzinger, o Bento XVI, o elemento mais marcante de seu pontificado, antes da renúncia, parecia que iria ser a denúncia pública da pedofilia no clero. Poderá essa renúncia tirar o foco desse problema e sua sucessão lançar uma cortina de fumaça que oculte a série de escândalos?

Trago nestes breves comentários, de alguém que não é um vaticanólogo, apenas algumas evidências disponíveis para qualquer leitor de jornais de que essa renúncia não é um raio em céu claro. Que evidências são essas?

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As de que o Vaticano viveu no pontificado de Bento XVI uma crise já antiga de perda de influência social e política, agravada pela perda da credibilidade moral com os escândalos de pedofilia. Mas ao se tratar dessa instituição, não se deve esquecer que ela é, do ponto de vista financeiro, uma das maiores multinacionais do planeta, com investimentos em bancos, corporações, reservas de ouro, etc. (MANHATTAN, 1983 mostrou a dimensão dessa fortuna).

No ano passado, a Igreja Católica viveu outra crise com as revelações de corrupção e negociatas feitas a partir dos documentos vazados pelo mordomo do Papa, no que ficou conhecido como Vatileaks. Dessa vez, a culpa não era do mordomo, que foi preso, processado, condenado e depois perdoado.

O Banco do Vaticano (o “banco mais secreto do mundo” como diz a revista Forbes (JORISH, 2012) é o IOR (Instituto das Obras da Religião), fundado em 1942. Nesse período o Vaticano vinha de uma colaboração com o regime nazista, por parte de Pio XII, mas, ainda antes disso, de uma colaboração mais estreita com Mussolini, que concedeu ao Vaticano em 1929 a assinatura do Tratado de Latrão com o estado italiano.

Esse tratado, também conhecido como Concordata foi o que permitiu o reconhecimento do Vaticano como um Estado dentro de outro Estado, incluindo a gestão das próprias finanças e a manutenção da influência política sobre a Itália que ficava com o catolicismo como religião oficial, o ensino confessional nas escolas públicas e outras vantagens ao clero. Só em 1978, houve uma alteração que tornou a Itália uma República laica e o divórcio foi aprovado.

Rompendo o isolamento em que o Vaticano havia ficado desde a vitória da república italiana em 1870, Mussolini concedeu também vultosas indenizações à Igreja. Parte desse dinheiro foi aplicado em Londres em aquisições imobiliárias que hoje alcançam o valor de cerca de meio bilhão de libras esterlinas,

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embora o valor real permaneça secreto, apesar das denúncias recentes do jornal Guardian (LEIGH; TANDA; BENHAMOU, 2013). Os interesses econômicos do Vaticano também estão sendo afetados pela crise global, o que levou inclusive que em 2012 ocorresse o maior déficit fiscal em muitos anos no Vaticano, de cerca de 19 milhões de dólares (VATICAN, 2013). Nessa crise também incide o custo financeiro com os processos por pedofilia.

Os escândalos de pedofilia, além do custo moral, têm um preço econômico com os processos e indenizações, que só nos EUA, chegaram a três bilhões de dólares em mais de três mil processos abertos, com 3.700 clérigos denunciados, 525 presos, a maioria dos quais condenados e cumprindo penas.

Desde os anos de 1950 até hoje cerca de seis mil sacerdotes já foram denunciados nos Estados Unidos por abusos sexuais contra c r i a n ç a s , o q u e e q u i v a l e a 5 , 6 % d o t o t a l d o c l e r o estadunidense (SCHAFFER, 2012). Figuras de proa da Igreja, como o líder dos Legionários de Cristo, no México, Marcial Maciel forma denunciados por pedofilia e outros abusos.

Bento XVI protegeu setores diretamente nazistas do clero, como o bispo Richard Williamson, negacionista do Holocausto que havia sido excomungado por João Paulo II, e cuja excomunhão foi revogada por Bento XVI em 2009. Apesar disso e de ter atendido aos interesses de setores ultraconservadores da Opus Dei e do Caminho Neocatecumenal, cerrando fileiras com partidos como o PP na Espanha para impor os planos de austeridade e flertando com a extrema-direita europeia, Bento XVI teria desagradado a esses setores ao tentar reconhecer parte dos escândalos de pedofilia para buscar limpar a reputação da Igreja. Isso levou um colunista de El País a avaliar que a renúncia foi resultado da pressão desses setores ultraintegristas (MORA, 2013).

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renúncia acrescenta uma nota ainda mais decadente a um Papa que dedicou seu pontificado a um apostolado de intolerância e repressão contra homossexuais, mulheres, muçulmanos e movimentos sociais. Num momento de crescimento da extrema direita católica na sua faceta mais fascista, como o caso do terrorista católico norueguês Breivik, o Papado de Ratzinger foi um ponto de apoio para a homofobia, o racismo, o sexismo, a i n t o l e r â n c i a e a p e r d a d e d i r e i t o s s o c i a i s d o s trabalhadores.

É provável que se jogue com a carta de Il Gattopardo, de Lampedusa, “mudar para tudo continuar igual”, mas para isso, os recursos da inteligência publicitária da Igreja podem contar com novidades, como o primeiro Papa não europeu da história, o que não deixará de manifestar mais uma vez um dos sintomas maiores da crise global do catolicismo, sua condição essencialmente branca e ocidental. Um Papa negro ou latino-americano não conseguirá alterar esse fato: a Ásia e a África permanecem imunes à religião imperial que o sistema de estados europeu trouxe em sua colonização global.

A participação do Vaticano nos interesses globais do capitalismo também não deve deixar a Igreja imune à onda de revolta anticapitalista que cresce especialmente nas duas margens do Mediterrâneo.

A recente aprovação pela Câmara Baixa do Parlamento francês da união matrimonial homossexual é só mais um sintoma de que os interesses patriarcais, misóginos e machistas do clero também estão perdendo lugar na definição da ordem legal e do quadro dos direitos civis do século XXI.

A última monarquia absolutista europeia, o Vaticano, sofre no gesto de renúncia daquele que foi consagrado como o “vigário de Cristo”, ou seja, o seu substituto, uma derrota simbólica profunda, pois demonstra falta de coragem e obstinação em carregar uma cruz até o final. A convivência de um novo Papa com o ex-Papa também esvazia a mística monárquica individual

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desse vicariato místico, dividindo em dois o corpo do substituto de Cristo na Terra.

Referências bibliográficas:

JORISCH, Avi. The Vatican Bank: The Most Secret Bank In the W o r l d . F o r b e s , 2 6 j u n . 2 0 1 2 . D i s p o n í v e l e m : http://www.forbes.com/sites/realspin/2012/06/26/the-vatican-ba nk-the-most-secret-bank-in-the-world/

LEIGH, David; TANDA, Jean François; BENHAMOU, Jessica. How the Vatican built a secret property empire using Mussolini’s millions. The Guardian, Monday 21 January 2013. Disponível em: http://www.guardian.co.uk/world/2013/jan/21/vatican-secret-pro perty-empire-mussolini?INTCMP=SRCH

MANHATTAN, Avro. The Vatican Billions. Chino, CA: Chick Publications, 1983.

MORA, Miguel. Los movimientos ultracatólicos ganan la partida. E l P a í s , 1 º F e b . 2 0 1 3 . D i s p o n í v e l e m : http://internacional.elpais.com/internacional/2013/02/11/actua lidad/1360588257_314838.html

SCHAFFER, Michael D.. Sex-abuse crisis is a watershed in the Roman Catholic Church’s history in America. Phylly.com, 25 J u n . 2 0 1 2 . D i s p o n í v e l e m : http://articles.philly.com/2012-06-25/news/32394491_1_canon-la wyer-catholic-priests-catholic-bishops

VATICAN posts record-high budget deficit: $19M. CBSNews, 5 J u l . 2 0 1 2 . D i s p o n í v e l e m : http://www.cbsnews.com/8301-202_162-57466929/vatican-posts-rec ord-high-budget-deficit-$19m/

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Bento XVI: um inquisidor à

frente da Igreja Católica

Rodrigo Ricupero

(Publicado no Portal do PSTU, 9 mai. 2005.) Depois de explorar até a exaustão a agonia e morte de João Paulo II, com a cumplicidade dos grandes meios de comunicação, a Igreja Católica finalmente escolheu o novo papa. Assim, entre a morte de João Paulo II e a escolha de Bento XVI, a Igreja ganhou um destaque sem precedentes na mídia internacional que, ao mesmo tempo, glorificava o falecido papa e especulava sobre quem seria seu sucessor e quais os rumos que a Igreja iria tomar.

Diferenças?

Assistimos assim um festival de informações desencontradas. A imprensa entrou em campanha, criando uma falsa polarização entre os cardeais, chamados sem muito rigor de “conservadores” ou “liberais”, e escolhendo seus candidatos favoritos. Tal situação se materializou aqui no Brasil, por exemplo, na campanha em favor do arcebispo de São Paulo, Cláudio Hummes. A realidade é que numa “eleição” extremamente rápida – sinal do amplo consenso – e antidemocrática, os cardeais indicaram o alemão Joseph Ratzinger, de 78 anos, um dos principais colaboradores de João Paulo II. Tal fato não pode causar surpresa. Num grande círculo vicioso, os cardeais com direito a voto, quase todos escolhidos a dedo por João Paulo, ao optarem por Ratzinger, sinalizaram de forma inequívoca a sua

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a m p l a c o n c o r d â n c i a c o m a m a n u t e n ç ã o d a p o l í t i c a ultraconservadora implementada nos últimos anos.

Nunca existiu entre os cardeais uma real disputa de projetos, os membros da Igreja que têm uma posição divergente, a chamada “ala progressista”, vinculada em maior ou menor medida à Teologia da Libertação (TL), nunca estiveram tão distantes de Roma como depois do papado de João Paulo II e da ação de Ratzinger, que durante os últimos 24 anos foi o responsável pela Congregação da Doutrina da Fé, novo nome dado ao Santo Ofício, a Inquisição.

“Rottweiller de Deus”

O grande inquisidor Ratzinger moveu uma verdadeira cruzada contra todas as manifestações progressistas da Igreja, o que lhe valeu apelidos como “rottweiller de Deus” e de “panzerkardinal”, referência ao famoso tanque de guerra alemão. Exemplo dessa campanha foi a luta contra a TL, taxada como marxista, cuja opção pelos pobres e por uma Igreja popular foi duramente condenada e seus porta-vozes silenciados, como no caso do brasileiro Leonardo Boff. Na área comportamental, Ratzinger, agora Bento XVI, é de um reacionarismo sem limites. Para ele, os homossexuais têm “uma forte tendência a uma maldade moral intrínseca, portanto uma inclinação que deve ser vista como uma enfermidade”. Do mesmo modo, ele afirma que a sexualidade separada da fecundidade gera uma permissividade que “corrói a moral das pessoas”.

Bento XVI também já condenou anteriormente o movimento feminista e a ordenação de mulheres, que é para ele inaceitável. O aborto, a camisinha (a abstinência sexual seria o único “método” válido para evitar a Aids), o divórcio e até mesmo o rock são alguns dos alvos do novo papa.

Assim, não é a toa que a irmã de caridade Jeannine Gramick – que o cardeal tentou proibir de realizar serviços religiosos para gays e lésbicas – tenha declarado: “Essa escolha é

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devastadora. Evitará que o catolicismo saia da Idade Média e entre no século XXI”.

Direita em festa

A escolha do novo papa causou uma enorme decepção sobre aqueles que, dentro ou fora da Igreja, esperavam um papa mais “moderado” ou “progressista”.

Por outro lado a direita mundial saudou Bento XVI como uma verdadeira “bênção de Deus”. Para Bush, a eleição de Ratzinger é um sinal positivo para a continuidade da parceria entre os EUA e o Vaticano. Quer dizer, Bush continuará a ter um forte aliado em sua cruzada contra temas como o aborto e a parceria civil entre pessoas do mesmo sexo e um cúmplice para seu avanço recolonizador sobre o planeta.

Na Igreja, o principal dirigente da ultra-reacionária Opus Dei afirmou que o novo papa sabe que pode confiar na dedicação dos membros do grupo, afirmando que este “é um momento de grande felicidade” para toda a Igreja.

No Brasil, como não poderia deixar de ser, Severino Cavalcanti definiu a escolha como “iluminação divina”, que vai se colocar na defesa de “todos os princípios éticos e morais”. Mais uma vez, repetindo sua ladainha demagógica, Lula fez coro com seus novos “companheiros” da direita mundial, afirmando que está seguro de que o novo papa “promoverá com empenho a paz e a justiça social, ao mesmo tempo em que reavivará os valores espirituais e morais da Igreja”.

Campanha de mídia

Exatamente por saber da enorme resistência encontrada em amplos setores católicos, Bento XVI, aproveitando a enorme publicidade que marca o início do seu pontificado, já iniciou uma ação para ganhar a simpatia das massas, imitando a fórmula bem-sucedida desenvolvida por João Paulo II.

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Assim Bento XVI já andou no “papa-móvel”, fez discursos em várias línguas, aparece sorridente e beijando crianças para as câmaras. Será muito difícil, contudo, que Bento XVI consiga ganhar a popularidade de João Paulo II, os tempos são outros e a erosão entre a retrógrada Igreja Católica e seus fiéis tende a aumentar cada vez mais. Pode ser que Bento XVI seja, ao contrário do esperado, um elemento a mais de crise da Igreja Católica.

Da juventude hitlerista ao Vaticano

Joseph Ratzinger, nasceu em 1927 na Baviera, região da Alemanha de maioria católica. Filho de um delegado de polícia e de uma cozinheira, Ratzinger aos 14 anos participou da juventude hitlerista e dois anos depois serviu no exército na última fase da Segunda Guerra Mundial.

Com o fim da guerra, retornou ao seminário, tornando-se especialista em teologia, área em que construiu uma rápida e sólida carreira na Igreja. Em 1968, como professor universitário, ele se opôs radicalmente à rebelião da juventude da época e começou a pregar aberta e ferozmente contra o comunismo, chamado por ele de “a vergonha de nosso tempo”.

Quase dez anos depois, em 1977, tornou-se bispo de Munique e, na seqüência, foi nomeado cardeal. Assumiu em 1981 a presidência da Congregação da Doutrina da Fé, órgão sucessor da Inquisição. Não se trata somente de uma continuidade formal, a Congregação da Fé é a Inquisição hoje, adaptada ao século XX e XXI. Não pode mais mandar queimar vivos os “hereges”, mas pode condenar, por exemplo, um opositor como Leonardo Boff ao silêncio. Depois de ser reconduzido ao cargo por três vezes, João Paulo II determinou que ele servisse aí por tempo indeterminado, atestando sua enorme eficiência na repressão das vozes dissonantes da Igreja Católica. Muitos o consideram o grande ideólogo por trás do pontificado conservador de João Paulo II.

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Ratzinger afirmou, sobre a onda de denúncias, comprovadas, de pedofilia praticadas por padres: “Estou convencido que as notícias freqüentes sobre padres católicos pecadores (pedófilos) fazem parte de uma campanha planejada para prejudicar a Igreja Católica”.

Referências

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