FUNDAÇÃO INSTITUTO DE PESQUISAS ECONÔMICAS
ISSN 1234-5678
Simão Davi Silber e Rosana Curzel apresentam as contribuições da aplicação de modelos do tipo Equilíbrio Geral Aplicado (EAG) ao estudo de diversas questões econômicas.
Daniela Corrêa e Gilberto Tadeu Lima iniciam a série de três artigos que analisarão o processo de internacionalização de empresas brasileiras.
Iraci del Nero da Costa, em seu terceiro artigo sobre Caio Prado Júnior, revelou a profunda contribuição do historiador à compreensão da história socioeconômica brasileira.
Diva Benevides Pinho, em seu primeiro artigo sobre a importância das cooperativas para o desenvolvimento sustentável brasileiro, desenvolve uma crítica que aponta para problemas das estatísticas sobre o tema.
Fernanda Cardoso, partindo da evidência de que os países apresentam, na verdade,
Em Nota de Conjuntura, Rodrigo Celoto e Fernando Homem de Melo fazem uma indagação: o que falta para se iniciar um novo ciclo de crescimento econômico? Rodrigo Celoto analisa os resultados das finanças públicas no primeiro bimestre
do ano de 2007, comparativamente ao mesmo período do ano de 2006, destacando uma melhora. José Francisco de Lima Gonçalves avalia os instrumentos mais relevantes da
política monetária brasileira, bem como seus respectivos desempenhos dentro de um cenário internacional de abundância de capital. Simão Davi Silber, diante da manutenção da tendência superavitária da balança comercial, examina seu papel na apreciação da taxa de câmbio.
análise de conjuntura
temas de economia aplicada
INFORMAÇÕES FIPE É UMA PUBLICAÇÃO MENSAL DE CONJUNTURA ECONÔMICA DA FUNDAÇÃO
ISSN 1234-5678
CONSELHO CURADOR
Hélio Nogueira da Cruz (Presidente) André Franco Montoro Filho Andrea Sandro Calabi Joaquim José Martins Guilhoto Ricardo Abramovay Maria Cristina Cacciamali Simão Davi Silber DIRETORIA
DIRETOR PRESIDENTE
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Eduardo Haddad DIRETOR DE CURSOS
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Dante Mendes Aldrighi SECRETARIA EXECUTIVA
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SUPERVISÃO EDITORIAL E PRODUÇÃO Eny Elza Ceotto EDITOR CHEFE
Gilberto Tadeu Lima CONSELHO EDITORIAL
Ivo Torres Lenina Pomeranz Luiz Martins Lopes José Paulo Z. Chahad Maria Cristina Cacciamali Maria Helena Pallares Zockun Simão Davi Silber ASSISTENTE
Maria de Jesus Soares PROGRAMAÇÃO VISUAL E COMPOSIÇÃO
Sandra Vilas Boas
Nº 319 ABRIL DE 2007
AS IDÉIAS E OPINIÕES EXPOSTAS NOS ARTIGOS SÃO DE RESPONSABILIDADE EXCLUSIVA DOS AUTORES, NÃO REFLETINDO A OPINIÃO DA FIPE ANÁLISE DE CONJUNTURA
nota de conjuntura ... 3 RodRigo RodRigues Celoto, FeRnando Homemde melo
finanças públicas ... 5 RodRigo Celoto
política monetária ... 7 José FRanCisCo de lima gonçalves
setor externo ... 9 simão davi silbeR
TEMAS DE ECONOM IA APLICADA 11 ... os modelos de Equilíbrio Geral Aplicado (EGA): como
surgiram e quais são seus atributos?
simão davi silbeR, Rosana CuRzel 15 ... internacionalização produtiva de empresas brasileiras:
caracterização geral e indicadores
daniela CoRRêa, gilbeRto tadeu lima 19 ... repensando o modelo interpretativo de Caio Prado Júnior (parte III)
iRaCi del neRo da Costa 24 ... Brasil: cooperativas e desenvolvimento sustentado - I
diva benevides PinHo 28 ... o mito da convergência: estariam os países
desenvolvidos chutando a escada?
abril de 2007
análise de conjuntura
emergentes, o País teve algum crescimento do PIB
per capita, com manutenção do superávit externo e
absoluto controle do processo inflacionário. De outro lado, ainda na controvérsia monetária, manifestações de preocupação com a excessiva apreciação cambial, suas conseqüências a médio prazo (“desindustria-lização”) e a sustentabilidade da balança comercial têm ocorrido.
Como dito acima, não há sinais de reversão desse favorável cenário internacional, e o Brasil deveria se aproveitar disso. Poderíamos, com cautela, testar nossos limites de crescimento, afrouxando a política monetária para permitir uma valorização ainda maior, ou para permitir uma certa depreciação sem deixar de cumprir a meta inflacionária de 4,5%. As recentes quedas do risco-País, agora em torno de 1,5% ao ano, favoreceriam essa mudança de postura. Maiores ta-xas de crescimento e emprego seriam extremamente benéficas ao País. Não estamos mal, mas poderíamos estar em uma situação bem melhor.
Um afrouxamento da atual política monetária, agora, colocaria o País em um círculo virtuoso de situação fiscal cada vez melhor e com mais crescimento. Evi-dentemente, essa mudança seria feita com cautela e responsabilidade, sem descuidar, em absoluto, do grande ganho nacional, que foi o controle do processo O momento econômico brasileiro, em vários
con-textos, é bastante bom. Evidentemente, o quadro da economia internacional é bastante favorável, e em muito contribui para esse ótimo momento econômico. Dependendo da continuidade desse cenário interna-cional favorável o Brasil poderá entrar e permanecer em um grande ciclo de crescimento econômico. Pelo menos por enquanto não há sinais de uma mais significativa deterioração da economia internacio-nal. Portanto, uma adicional melhoria na economia brasileira (crescimento e emprego) depende mais de nós, de nossa política econômica, do que da situação externa.
O Brasil pós-1999 já avançou em várias áreas. Ele já fez um razoável ajuste fiscal, realizou um formidável ajuste externo (superávit em transações correntes em poucos anos) para um nível de endividamento externo praticamente irrelevante, desinflou a econo-mia pós-desvalorização cambial de 2002 (de 12,5% em 2002 para 3,1% em 2006 para o IPCA, ficando bem abaixo do centro da meta inflacionária de 4,5%), assim como efetuou alguns ajustes institucionais, ainda que incompletos, nas áreas tributária e de pro-teção de contratos. É certo que existe a controvérsia do eventual conservadorismo da política monetária (juros reais elevados e apreciação cambial). Se não de forma ideal, pois ficou bem abaixo dos demais países
RodRigo RodRigues Celoto (*)
FeRnando Homemde melo (**)
nota de conjuntura: os bons indicadores
abril de 2007
inflacionário. Adicionalmente, manteria a enorme expansão, já começada, nos mercados de crédito e de capitais. Talvez não valha a pena duvidar da manu-tenção do cenário internacional favorável e perder o momento econômico para acelerar a economia, impedir uma valorização ainda maior do câmbio e fazer uma enorme economia fiscal.
O que falta? Se associado a isso efetuarmos as refor-mas previdenciária, tributária e do judiciário, que diminuam a ineficiência da interferência do Estado na economia, poderemos ganhar um pouco a mais em termos de crescimento potencial e embalar um ciclo de crescimento econômico que ansiosamente estamos aguardando por mais de vinte anos.
(*) Economista do Grupo de Conjuntura da FIPE (e-mail: [email protected]). (**) Coordenador do Grupo de Conjuntura da FIPE (e-mail: [email protected]). 1 As opiniões contidas nesta nota são de responsabilidade dos
autores, mas também expressam as opiniões apresentadas nas reuniões do Grupo de Conjuntura da FIPE.
abril de 2007
tabela 1 – resultado do Tesouro Nacional - R$ milhões
Jan-Fev 2006 2007 % 07/06 Receita Total 84.134 95.243 13,2% Receitas do Tesouro 66.409 75.137 13,1% Receita da Previdência 17.522 19.914 13,6% Receita do Banco Central 203 191 -5,5% Transferências 15.708 17.026 8,4% Receita Líquida 68.425 78.216 14,3% Despesa Total 60.830 63.077 3,7% Despesas do Tesouro 35.826 36.402 1,6% Pessoal e encargos 18.102 19.052 5,3% Custeio e Capital 17.655 17.282 -2,1% Transfer. ao Banco Central 69 68 -0,6%
Despesas da Previdência Social 21.667 26.406 21,9% Despesas do Banco Central 197 269 36,6%
Resultado Primário Governo Central 7.596 15.139 99,3%
Tesouro Nacional 14.875 21.709 45,9% Previdência Social (7.285) (6.492) -10,9%
Banco Central 6 (78) -1459,6%
Resultado Primário Governo/PIB 2,13% 3,94% 85,0%
Fonte: STN.
(a) Tesouro Nacional
A receita total do Tesouro cresceu 13,2% no primeiro bimestre do ano comparativamente ao mesmo período do ano passado, sendo de 13,1% e 13,6%, respectiva-mente, o crescimento das receitas do Tesouro e da previdência.
A receita do Tesouro caiu de 19,55% do PIB no primei-ro bimestre de 2006 para 18,62% do PIB no primeiprimei-ro bimestre de 2007.
As despesas totais subiram 3,7%, sendo que os gastos com pessoal e encargos subiram 5,3%, benefícios pre-videnciários subiram 21,9% e custeio e capital caíram 2,1%. A despesa total do governo central subiu de 16,42% do PIB no primeiro bimestre do ano passado para 17,8% do PIB no primeiro bimestre deste ano. O resultado primário do Governo Central ficou em R$ 15,13 bilhões contra R$ 7,6 bilhões no ano de 2006, o que representou um aumento de 2,13% do PIB para 3,94% do PIB.
(b) Necessidade de Financiamento do Setor Público O superávit primário do setor público no primeiro bimestre do corrente ano foi de R$ 20.13 bilhões (5,24% do PIB) contra R$ 7,8 bilhões (2,19 % do PIB) no mesmo período do ano passado. O governo central teve um superávit de R$ 14,46 bilhões (3,76% do PIB), os governos regionais R$ 6.4 bilhões (1,67% do PIB) e as estatais tiveram um déficit de R$ 0.76 bilhões (0,20% do PIB).
As despesas com juros nominais no primeiro bimestre foram de R$ 24,9 bilhões (6,49% do PIB) contra R$ 31.27 bilhões (8,79% do PIB) no mesmo período de 2006. O governo central teve uma despesa com juros de R$ 18,9 bilhões (4,92% do PIB), os governos regio-nais R$ 6.2 bilhões (1,63% do PIB) e as estatais tiveram uma receita R$ 0.248 bilhões (0,06% do PIB).
O resultado nominal ficou em R$ 4,8 bilhões (1,25% do PIB) contra R$ 23,48 bilhões (6,60% do PIB) no mesmo período de 2006.
RodRigo RodRigues Celoto (*)
abril de 2007
tabela 2 – necessidades de financiamento do setor público
R$ milhões Correntes % PIB
2006 2007 2006 2007
Discriminação Jan-Fev Ano Jan-Fev Jan-Fev Ano Jan-Fev
Nominal 23 481 69 883 4 799 6,60 3,01 1,25 Governo central 19 670 74 475 4 458 5,53 3,21 1,16 Governo federal1/ 14 571 65 760 3 894 4,09 2,83 1,01 Bacen 5 100 8 716 564 1,43 0,38 0,15 Governos regionais 1 656 16 606 - 171 0,47 0,71 -0,04 Governos estaduais 1 456 13 740 272 0,41 0,59 0,07 Governos municipais 200 2 867 - 443 0,06 0,12 -0,12 Empresas estatais 2 155 -21 199 512 0,61 -0,91 0,13 Empresas estatais federais 3 104 -17 954 1 137 0,87 -0,77 0,30 Empresas estatais estaduais - 996 -3 419 - 639 -0,28 -0,15 -0,17 Empresas estatais municipais 46 174 14 0,01 0,01 0,00 Juros nominais 31 276 160 027 24 935 8,79 6,89 6,49 Governo central 26 252 125 827 18 923 7,38 5,42 4,92 Governo federal1/ 21 147 117 283 18 436 5,94 5,05 4,80 Bacen 5 105 8 544 487 1,43 0,37 0,13 Governos regionais 5 485 36 322 6 260 1,54 1,56 1,63 Governos estaduais 4 545 30 110 5 719 1,28 1,30 1,49 Governos municipais 940 6 212 541 0,26 0,27 0,14 Empresas estatais - 461 -2 121 - 248 -0,13 -0,09 -0,06 Empresas estatais federais - 543 -4 410 - 632 -0,15 -0,19 -0,16 Empresas estatais estaduais 50 2 060 345 0,01 0,09 0,09 Empresas estatais municipais 32 229 39 0,01 0,01 0,01 Primário -7 795 -90 144 -20 136 -2,19 -3,88 -5,24 Governo central -6 582 -51 352 -14 465 -1,85 -2,21 -3,76 Governo federal -13 861 -93 589 -21 034 -3,89 -4,03 -5,47 Bacen - 6 172 78 0,00 0,01 0,02 INSS 7 285 42 065 6 492 2,05 1,81 1,69 Governos regionais -3 829 -19 715 -6 431 -1,08 -0,85 -1,67 Governos estaduais -3 089 -16 370 -5 448 -0,87 -0,70 -1,42 Governos municipais - 740 -3 345 - 984 -0,21 -0,14 -0,26 Empresas estatais 2 616 -19 077 760 0,73 -0,82 0,20 Empresas estatais federais 3 648 -13 544 1 770 1,02 -0,58 0,46 Empresas estatais estaduais -1 046 -5 479 - 983 -0,29 -0,24 -0,26 Empresas estatais municipais 14 - 55 - 26 0,00 0,00 -0,01 Fonte: BCB.
(*) Economista do Grupo de Conjuntura da FIPE E-mail: [email protected]
abril de 2007
Quando esta nota for a público, o COPOM estará por anunciar, em sua terceira reunião em 2007, se a taxa Selic continuará a ser reduzida com parcimônia (0,25%), com mais parcimônia (0,00%) ou com menos parcimônia (0,50%). Minha expectativa, que não é igual à minha preferência, hoje, é que a redução seja de 0,25%.
Na reunião de maio de 2006, a ata falava em eventual parcimônia. Na reunião de julho, falava em maior parcimônia. Na primeira reunião do ano, em janeiro, o ritmo de redução da taxa foi alterado de 0,50% para 0,25% (cabe lembrar que a decisão não foi unânime entre os membros do COPOM), inaugurando a era da maior parcimônia que vinha sendo anunciada há meses. A parcimônia se repetiu na reunião de março de 2007, quando a taxa foi a 12,75%.
Com isto, o processo de relaxamento da política mo-netária iniciado em outubro de 2005, quando a taxa caiu de 19,75% para 19,50%, acumula uma redução de 700 pontos-base (até março). O COPOM usa dois argumentos para justificar a parcimônia. De um lado, existe razoável incerteza sobre o ritmo em que a de-manda reage à redução dos juros. De outro, reduções menores permitiriam aumentar a magnitude total da redução.
A taxa de inflação medida pelo IPCA caiu de 12,53% em 2002 para 3,14% em 2006, com as expectativas apontando para 3,8% em 2007, segundo ano con-secutivo abaixo da meta de 4,50%. O efeito que tal desinflação teve sobre a renda real, aliado à política de transferências do Governo Federal e a sinais de vida no mercado de trabalho, teve papel preponderante na reeleição do Presidente Lula. E, mesmo sem o pragmá-tico Pallocci, Lula confirmou seu afastamento do PT e
de outros interesses não liberais ao progressivamente transformar o ministro da Fazenda Guido Mantega em seu inverso.
É óbvio que parte do sucesso se deve à domesticação das expectativas. Assim, o lado “subjetivo” e auto-refe-renciado do regime de metas de inflação é compatível com níveis de inflação que prevaleceram até 2003. O que teria levado então a inflação a um nível mais baixo? Em primeiro lugar, a desinflação não foi exclu-sivamente brasileira, foi mundial, com as exceções de praxe. Em segundo lugar, o aumento dos preços de
commodities que o Brasil poderia exportar (em quantum)
a uma taxa de câmbio cadente gerou fortes superávits comerciais apesar do aumento das importações e de seu – importante – papel na contenção dos preços internos. Em terceiro lugar, a abundância de liquidez internacional, fruto do endividamento norte-ameri-cano, do ciclo expansivo das empresas e do apetite chinês por dólares, completou o quadro. Talvez o melhor indicador da onda de otimismo dos últimos anos seja a queda do risco dos chamados emergentes. Não foi apenas a nossa dívida externa que foi zerada, mas a de quase todos.
Assim, 2006 foi o ano em que o “pecado original” teria desaparecido. Na verdade, desde o fim de 2005, países emergentes colocaram títulos no exterior denominados em sua própria moeda. Entre 2005 e 2006, a valorização do Real foi tamanha que os IGPs, base de contratos que buscavam garantir valores em dólares (foram os indexadores adotados nos contratos de concessão quando das privatizações) redundaram em reajustes negativos dos preços de alguns serviços. Comemorou-se o fim da inércia inflacionária.
José FRanCisCode lima gonçalves (*)
abril de 2007
O Real se valorizou mais do que outras moedas em relação ao dólar. Isto significa que há algo específico que diferencia o Brasil de seus assemelhados. Pode ser que o Brasil tenha sido o favorecido preferencial do aumento dos preços das commodities, o que não exclui o estímulo do diferencial de juros internos e externos sobre a valorização do Real e sobre os efeitos benéficos (em curto prazo) sobre os preços internos dos tradeables.
O artigo de Bevilaqua, Mesquita e Minella2 afirma
que errar para baixo é como errar para cima, desde que dentro dos limites da meta. Aliás, reforçam, se o erro é só para cima, não se está convergindo para a meta, o que, combinado com o novo valor do PIB, sua composição e crescimento, pode sugerir que a meta está alta...
A divulgação do PIB segundo a nova metodologia pelo IBGE apenas fortaleceu a posição do Bacen, levando o Ministério da Fazenda a uma sinuca se-guida de uma reformulação. A política monetária não foi tão restritiva, dado o maior crescimento do PIB. A solvência do setor público é melhor do que se imaginava. Diga-se de passagem, as alterações na Diretoria do Bacen revelam sua maior autonomia de fato do que um passo para algo menos ortodoxo. A idéia é fazer algo com o câmbio dentro dos limites do regime de metas. Neste, a Selic marca a inflação e as compras de câmbio marcam as reservas. Algo como comprar câmbio combinando instrumentos, questão mais operacional do que conceitual, pode afetar a taxa sem que se rompa o compromisso com as metas. Há vários fatos inegáveis, como a queda da inflação. Em primeiro lugar, o crescimento das exportações tem sido explicado muito mais pelo aumento dos preços do que do quantum. Sabe-se que temos tanto controle sobre tais preços como temos sobre as decisões da China sobre suas reservas.
Em segundo lugar, o crescimento das importações em ritmo maior do que o das exportações vem tirando pontos do crescimento do PIB. Não se deduza daí
que caberia zerar as importações. Algum comércio é melhor do que nenhum comércio. O ponto é que para que exista o que vender, há que se produzir. De outro lado, para que se possa comprar, há que se ter como pagar.
Em terceiro lugar, entre 2003 e 2006 as importações de bens de consumo duráveis cresceram em quantum 200%, contra 48% nos bens intermediários e 66% nos bens de capital. Tais números não são conclusivos, mas são sugestivos.
A política monetária caminha para aquilo que Mishkin preconiza ao defender que só há trade off entre inflação e desemprego circunstancialmente: como nenhum banco central consegue determinar o nível de produto, o máximo a fazer é controlar a inflação de modo a favorecer o ambiente para as de-cisões de investir. O problema é que há um colateral, lá como aqui. Lá, a ameaça de recessão. Aqui, o efeito do câmbio sobre a estrutura da oferta.
Lá e cá, uma escolha a ser feita.
1 Dados até 13 de Abril de 2007.
2 Brazil: taming inflation expectations. Bacen, Working Paper Series 129, janeiro de 2007.
(*) Professor do Departamento de Economia da FEA-USP. (E-mail [email protected])
abril de 2007
Os resultados do setor externo da economia brasileira no primeiro trimestre de 2007 confirmam a continui-dade de uma tendência superavitária do balanço de pagamentos, iniciada em 2003 e que deve permanecer pelo menos para os próximos dois anos. O dinamis-mo do crescimento da economia mundial é uma das causas principais para explicar o bom desempenho do setor externo. Com uma taxa de crescimento do PIB de aproximadamente 5% ao ano, a economia mundial não tinha tal desempenho desde o início dos anos sessenta. Adicionalmente, a entrada da Chi-na Chi-na OMC em 2001, condicioChi-nada a uma abertura às importações, deu um novo impulso ao mercado mundial de commodities, favorecendo as exportações de países como Brasil, Argentina, Austrália, Canadá, Nova Zelândia e África do Sul. A melhoria das contas externas é um fenômeno que ocorreu para um grande número de países e não se restringe somente ao caso brasileiro. A título de ilustração, basta indicar que em 2006 os países em desenvolvimento acresceram às suas reservas internacionais US$ 650 bilhões. No caso brasileiro, o grande destaque continua sendo o desempenho comercial. As exportações brasileiras atingiram, nos últimos doze meses encerrados em março de 2007, um valor de US$ 142 bilhões, contra importações de US$ 96,5 bilhões, o que dá um saldo comercial de US$ 45,5 bilhões. Em termos de taxas de crescimento, o maior dinamismo está do lado da importação, que está crescendo a uma taxa de 26% ao ano, enquanto que a exportação está crescendo a 16%. Mantido este padrão, o País deverá encerrar o ano com um superávit comercial inferior a US$ 40 bilhões. De qualquer forma, será um resultado muito vistoso e contribuirá para um ajustamento adicional do balanço de pagamentos. O superávit de transações correntes deverá ser menor que o observado em 2006, quando atingiu US$ 13,5 bilhões, devendo se situar
próximo de US$ 10 bilhões. A redução do superávit comercial decorre de dois fatores. O primeiro, é que o crescimento da demanda interna está se acentuando, o que provoca aumento das importações; em segundo lugar, uma taxa de câmbio próxima a R$ 2,0 representa uma restrição importante para a exportação de vários setores industriais e favorece as compras externas. Mesmo assim, o saldo comercial continua elevado, pressionando a taxa de câmbio em direção à apre-ciação. Nem a intervenção maciça do Banco Central no mercado a vista e futuro de moeda estrangeira tem impedido a valorização do Real. Desde o início de 2006 até hoje, o Banco Central já comprou US$ 55 bilhões, e a moeda brasileira não pára de se valorizar. No começo de abril, as reservas do Banco Central já se situavam em US$ 111 bilhões, com a possibilidade de se terminar o ano de 2007 com reservas próximas a US$ 150 bilhões. O custo fiscal de tal estratégia não é desprezível. Tendo que esterilizar as compras de moeda estrangeira por meio da colocação de dívida interna no mercado, o diferencial de taxas de juros entre o mercado interno e externo coloca uma des-pesa adicional de aproximadamente R$ 5 bilhões decorrentes do aumento de reservas acumuladas nos últimos cinco meses.
Quais são os fatores subjacentes a esta tendência inexorável de apreciação cambial? Em primeiro lugar, deve-se apontar que a própria melhoria das contas externas contribuiu para a percepção de um menor risco e deixou de pressionar a taxa de câmbio. Basta acompanhar a trajetória da taxa de câmbio e do spread dos títulos brasileiros no exterior na última década para se constatar que a trajetória do câmbio foi a trajetória do risco. As grandes desvalorizações cambiais de 1999, 2001 e 2002 coincidem com a rápida deterioração da confiança no País, levando a drásticas desvalorizações cambiais.
simão davi silbeR (*)
abril de 2007
Os artigos da seção Análise de Conjuntura foram escritos entre 13/04 e 16/04/07.
Além disso, a revisão das contas nacionais brasileiras mostrou alguns aspectos mais favoráveis da economia brasileira: o tamanho e o crescimento do PIB eram maiores do que as estimativas anteriores, e a relação dívida/PIB do governo foi reduzida para o patamar de 46%. O crescimento da economia não era de 2,7% no último quadriênio, mas sim de 3,3% e com pers-pectivas de crescimento acima de 4% em 2007. Com fundamentos macroeconômicos mais sólidos, e na ausência de turbulências internacionais, houve uma redução adicional do risco País, contribuindo para a apreciação cambial. Em segundo lugar, a redução do risco não foi acompanhada no mesmo ritmo pela re-dução da taxa SELIC. Dada a condição de arbitragem de juros internacional, o Banco Central poderia ter sido um pouco menos cauteloso no ritmo de redução da taxa básica de juros. Em meados de abril de 2007, a condição de paridade de juros coberta no Brasil indicava a possibilidade de uma taxa de juros pró-xima a 11% e não 12,75% ao ano. Essa taxa reduziria a atratividade de aplicações financeiras em moeda nacional.
De qualquer forma, não há garantia de que a redução dos juros tenha atualmente um papel significativo sobre a taxa de câmbio, já que o superávit cambial brasileiro é exclusivamente comercial e não financeiro. Deve-se destacar que desde setembro de 2005 o Banco Central tem sistematicamente reduzido a taxa básica de juros a cada reunião do COPOM. Em vinte meses, a taxa de juros já foi reduzida em 7% (de 19,75% para 12,75%) sem que se conseguisse reverter à tendência de apreciação do Real.
As informações sobre o fechamento de câmbio indi-cam que a apreciação indi-cambial está ligada ao superávit comercial e não ao financeiro: nos últimos doze meses encerrados em fevereiro de 2007, o fechamento de câmbio comercial foi superavitário em US$ 58 bilhões, enquanto que o fechamento de câmbio financeiro foi deficitário em US$ 22 bilhões. O crescimento
da economia mundial tem permitido um aumento significativo dos preços e do quantum exportado pelo Brasil. Desde meados de 2002, o preço internacional das commodities cresceu 70% e o dos produtos ma-nufaturados 40%. Se adicionarmos que o quantum exportado cresceu a uma taxa de 10% ao ano, tem-se a explicação para o grande afluxo de dólares no Brasil. Esta constatação sugere que, mesmo com uma taxa de juros próxima à paridade, dificilmente haveria um mudança significativa do patamar da taxa de câmbio.
(*) Professor da FEA-USP. (E-mail: [email protected])
abril de 2007
simão davi silbeR (*)
Rosana CuRzel (**)
os modelos de Equilíbrio Geral
Aplicado (EGA): como surgiram
e quais são seus atributos?
1temas de
economia aplicada
Modelos de Equilíbrio Geral Aplicado (EGA) ou Computável (EGC) são instrumentais de análise de políticas econômicas – também considerados, por alguns, os sucessores da estrutura de modelagem de Insumo-Produto.
Em termos gerais, os modelos econômicos2 se
classifi-cam em dois tipos: os específicos e os de usos gerais. Os modelos específicos são construídos para analisar um único problema econômico ou uma situação parti-cular, e os de uso geral são desenvolvidos para análise e previsão da economia como um todo. Os modelos específicos são de duas ordens: os macroeconométri-cos e os multissetoriais; os de uso geral são divididos em econométricos, modelos aplicados de equilíbrio geral e integrados.
Os modelos macroeconométricos são aqueles que estudam os agregados macros, apresentam resultados globais e são direcionados para previsão e simulação de variáveis econômicas e descrevem as relações entre os agregados. Os multissetoriais são os que usam a te-oria do insumo-produto e são construídos geralmente com informações econômicas para uma determinada região dividida em setores produtivos.
No caso dos modelos econométricos de uso geral, estes consideram o lado monetário do sistema econômico, ou seja, a moeda afeta a produção – além de possuir as mesmas características dos macroeconométricos. Os modelos EGA, também considerados uma versão moderna do modelo walrasiano de uma economia competitiva – embora esta, para usar as palavras de Castilho (1994, p. 2), seja uma definição que se deve “à existência de um equilíbrio simultâneo para todos os
mercados e a interdependência entre eles” –, incorporam
variáveis macro e microeconômicas e tentam captar as interdependências existentes entre os agentes de uma economia. Neles, o lado real do sistema econômico é considerado e a quantidade de moeda não influencia os preços relativos, de modo que as mudanças nestes são captadas pelos índices de preços. A moeda não afeta a produção porque tem a função de meio de troca e reserva de valor na teoria neoclássica. Esta classe de modelagem é derivada da teoria de otimi-zação microeconômica, com atenção voltada para o comportamento individual. E os modelos integrados são os que tentam mesclar os econométricos com os EGA. Feita uma visão panorâmica da tipificação dos modelos econômicos, passaremos a tratar especifica-mente dos modelos EGA.
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Os modelos EGA têm sido utilizados para avaliar uma grande quantidade de questões, como, por exemplo, para analisar os efeitos de mudanças nos impostos, consumo público e pagamentos da previdência so-cial, tarifas no comércio internacional, políticas de meio ambiente, tecnologia, preços internacionais de commodities sobre as variáveis macroeconômicas, industriais, regionais, do mercado de trabalho e do meio ambiente; questões relacionadas ao impacto da criação da Alca (Silber e Curzel, 2006, 2007a e 2007b); de um acordo entre o Mercosul e a União Européia; impactos globais das negociações comerciais; impac-tos de curimpac-tos e longos prazos dos gasimpac-tos governamen-tais sobre a pobreza; identificação de ganhadores e perdedores de uma reforma fiscal; impactos de uma desoneração tributária sobre o capital; impacto da duplicação e/ou existência de determinada rodovia; custo do descaso para com as rodovias federais; custos e benefícios da criação de pedágios; qual o consumo de energia previsto no longo prazo; impactos de mudanças tecnológicas sobre mercado de trabalho, e mais uma infinidade de outros questionamentos cujas respostas dependem de um bom planejamento econômico. Todas essas podem ser dimensionadas por meio da modelagem de EGA (informação verbal).3
Assim, pelo fato de serem tão flexíveis e detalhados podem se adequar às diferentes realidades econô-micas dos países. Tentaremos, a seguir, resumir um pouco da história do surgimento dos modelos EGA e mencionar alguns dos mais utilizados no Brasil desde o final dos anos 1990.
História Mais do Que Concisa
A idéia de um sistema econômico de equilíbrio tem origem no Tableau Économique de Quesnais, depois em Ricardo e Marx,4 mas as bases teóricas foram
desen-volvidas por Walras nos Elements d’economie politique
pure. A base de dados é proveniente das matrizes de
insumo-produto concebidas por Leontief, e a forma-lização do sistema de equilíbrio foi elaborada por Arrow e Debreu.5
A década de 1960 foi muito importante no desenvol-vimento de modelos econométricos de grande escala para a economia como um todo, e tais modelos davam
menos importância à teoria econômica e muito mais às séries de tempo. Neles, o papel das teorias de oti-mização do comportamento dos agentes econômicos estava limitado aos testes das variáveis nas equações de regressão. Já os modelos EGA incluem especifica-ções claras acerca do comportamento dos diversos agentes econômicos – famílias, empresas, governo, exportadores, importadores e seus desmembramentos –, descrevem como as decisões de oferta e demanda determinam os preços dos bens e fatores, e produzem resultados numéricos. Podem ser construídos para regiões de um país e também para vários países. Leif Johansen realizou o estudo pioneiro da constru-ção de um modelo multissetorial para a economia norueguesa aplicando a estrutura de equilíbrio geral, onde existem indústrias minimizadoras de custos e famílias maximizadoras de utilidade. A resolução do sistema walrasiano é feita linearizando-se as equações e apresentando os resultados em forma de taxas de crescimento. Posteriormente, Scarf desenvolveu um algoritmo mais sofisticado para a resolução de uma grande variedade desses modelos.
Porém, é na década de 1970 que se iniciam as discus-sões sobre os usos dos modelos de EGA, bem como dos econométricos. Dois foram os fatores que impul-sionaram tais discussões. O primeiro foi decorrente de três mudanças no cenário internacional: a alta nos preços do petróleo, a mudança no sistema monetário internacional e a elevação das taxas de salário real. Essas alterações levaram as economias dos países para fora de suas tendências, de maneira que os modelos econométricos não eram suficientes para captar os diferentes efeitos desses choques nas economias, en-quanto que os de EGA apresentavam novidades em termos dos efeitos desses choques. O segundo fator estava relacionado à própria habilidade (dos mode-ladores de EGA) no manuseio de informações mais detalhadas sobre a economia e, portanto, os resultados interessavam àqueles preocupados com questões se-toriais, regionais, de emprego, educação, distribuição de renda, bem-estar social e meio ambiente.
Existe uma multiplicidade de modelos EGA, o que torna difícil sua classificação. O que se observa é que o
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tipo de preocupação é que define a escolha do melhor modelo a ser utilizado – ou, até mesmo, a ser constru-ído, de modo a satisfazer a necessidade de encontrar respostas para o problema, ou, pelo menos, para um melhor conhecimento da abrangência e dimensão do mesmo. Ainda assim, Fochezatto (1999) os divide em cinco grupos: Johansen; Harberger, Scarf, Shoven e Whalley (HSSW); Banco Mundial (BM); Jorgenson; Ginsburgh, Waelbroeck e de Manne (GWM). De todo modo, não será agora que trataremos das mais diver-sas classificações, ou seja, nos restringiremos a alguns daqueles que se inscrevem na tradição de Johansen, especialmente porque grande parte da experiência brasileira recente foi aí originada.
Ainda na década de 1970 o governo australiano fi-nanciou um grupo de pesquisadores para construir um sistema de análise de políticas econômicas e disso resultou o modelo ORANI – o qual teve como base o modelo de Johansen –, considerado um marco na literatura, principalmente porque serviu como base para o uso em diversos países. Do desenvolvimento e aprimoramento do próprio ORANI foi gerado o MONASH ao longo dos anos 1990. Surgiu também regionalizado: MONASH-MRF.
Nessa mesma tradição dos modelos australianos surgiu, no Brasil, uma sucessão deles. O pioneiro foi o modelo PAPA, construído para os estudos de plane-jamento e análise de políticas agrícolas, descendente direto do ORANI. Os descendentes diretos do modelo MONASH são: o EFES, também na versão regional, e o EFES-IT, com uma desagregação dos fluxos comerciais brasileiros para cinco regiões. Vários tiveram origem no MONASH-MRF: O B-MARIA (Brazilian Multis-sectoral And Regional/Interregional Analysis), por exemplo, foi o primeiro modelo brasileiro inter-regio-nal, o B-MARIA-27, o B-MARIA-SP, o B-MARIA-RS, o SPARTA (São Paulo Applied Regional Trade Analysis), e o B-MARIA-IT. Em próximas edições deste boletim teremos oportunidade de apresentar alguns desses modelos brasileiros mais utilizados. A origem do mo-delo GTAP (Global Trade Analysis Project) também é o modelo de Johansen.
A fonte dos dados dos modelos EGA – bem como o
equações – é derivada das matrizes I-P, das Matrizes de Contabilidade Social (MCS) e de outras bases, como as Contas Nacionais, busca, na literatura, estimações econométricas e inclusive conjecturas baseadas na teoria econômica. A construção do modelo vai depen-der do problema que se quer analisar. Por exemplo, o GTAP (Global Trade Analysis Project) – arquitetado no início dos anos 1990 – pode ser utilizado no tratamento das questões relacionadas à liberalização global do comércio sob os auspícios da OMC, aos impactos dos acordos regionais de comércio, às conseqüências eco-nômicas da redução da emissão de dióxido de carbono na atmosfera e até impactos econômicos domésticos de choques ocorridos em economias externas. Como pudemos ver, apesar de os primeiros modelos de EGA terem surgido na década de 1960, foi somente a partir da década de 1980 que tiveram evolução, e isto se deu principalmente por razões práticas como o aperfeiçoamento dos métodos numéricos de solução dos modelos e a própria informática. Tais fatos permi-tiram a queda no custo do tempo de processamento, maior rapidez no processamento das informações, bem como o aparecimento de novos softwares para a solução de modelos cada vez maiores. Uma vez que os modelos são os “laboratórios” dos economistas, diferentes implementações de medidas econômicas podem ser testadas sem que seus efeitos (custos e/ou benefícios sociais) sejam sentidos diretamente no sistema econômico e, assim, proporcionam o conhecimento dos impactos quantitativos ou cho-ques exógenos sobre a economia, permitindo, dessa maneira, a formulação de políticas mais adequadas. Em suma, pela própria capacidade (acima descrita) destes modelos EGA de captar as respostas dos agen-tes econômicos às políticas, assim como pelo fato de apresentar as interligações entre os setores econômi-cos num sistema de equações, são muito demandados para análises e elaboração de políticas. E é isso o que os órgãos privados e públicos do mundo, inclusive do Brasil, vêm fazendo.
1 Agradecemos as sugestões do Prof. Dr. Gilberto Tadeu Lima, principalmente pela idéia do formato deste texto, que representa,
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mental analítico – ou, em outras palavras, fazer o instrumental ser melhor compreendido (até porque não é possível dominar o detalhamento de todos os campos do conhecimento) e, daí, mais utilizado etc.. Esperamos ter alcançado alguma fração desse desejo. Agradecemos também as sugestões dos Profs. Joaquim Guilhoto e Eduardo Haddad, muitas delas por ora não consi-deradas por questões de espaço e tempo.
2 É bastante apropriada a seguinte transcrição: “(...) os modelos econômicos seriam os laboratórios de testes dos economistas. Os modelos teriam, portanto, não o objetivo de apresentar resultados precisos (o que seria impossível num teste de laboratório) mas o de minimizar os erros, ou maximizar os resultados, de políticas econômicas que efetivamente venham a ser implementadas.” (Guilhoto e Fonseca, 1990, p. 447). 3 Extraídas das notas de aulas do Prof. Dr. Eduardo A. Haddad,
durante o curso de Modelagem de Equilíbrio Geral Aplicado, no II semestre/2005, FEA/USP.
4 Marx considerava a idéia do Tableau Économique a mais brilhante da Economia Política, e mais tarde Leontief construiria o que ele próprio denominou de Tableau Économique dos Estados Unidos para o período de 1919 a 1929 em seu estudo estatístico Quanti-tative Input-Output relations in the economic systems of the United States. (Ver Guilhoto, 2001).
5 Arrow e Debreu (1954) e Debreu (1959, apud Fochezatto, 1999). Bibliografia
Dixon; Parmenter. Computable general equilibrium modeling for policy analysis and forecasting. In: Amman, H. M., Kendrick, D. A., Rust, J., Handbook of computational economics. Amsterdam: Elsevier Science, 1996, cap. 1, p. 3-85.
Domingues, Edson P. (2002). Dimensão regional e setorial da integração brasileira na Área de Livre Comércio das Américas. 2002. Tese (Dou-torado), IPE-USP. São Paulo.
Fochezzato, Adelar. Estabilização, ajuste estrutural e eqüidade no Brasil: uma análise contrafactual com um modelo de EGA, 1994/97. 1999. Tese (Doutorado), FCE/UFRGS. Porto Alegre.
Guilhoto, Joaquim J. M. Um modelo computável de equilíbrio geral para planejamento e análise de políticas agrícolas (PAPA) na economia brasileira. 1995. Tese (Livre-Docência), Esalq/USP. Piracicaba. Guilhoto, Joaquim J. M.; Fonseca, Manuel A. R. As principais
cor-rentes de modelagem econômica e o caso brasileiro. Anais do XII Encontro Brasileiro de Econometria, 1990, p. 447-470.
Haddad, Eduardo A. Retornos crescentes, custos de transporte e cresci-mento regional. 2004. Tese (Livre Docência), FEA/USP. São Paulo. Hasegawa, M.M. Políticas públicas na economia brasileira: uma
aplicação do modelo MIBRA, um modelo inter-regional apli-cado de equilíbrio geral. 2003. Tese (Doutorado). ESALQ/USP. Piracicaba.
Silber, Simão D.; Curzel, Rosana. Os ganhos para o Brasil de uma área de livre comércio nas Américas: resultados prévios de uma análise de equilíbrio geral. Informações FIPE, n. 305, fev. 2007a.
_______. Impactos da formação da ALCA sobre as economias brasileira e a argentina: ajustes adicionais na base de proteção tarifária. Informações FIPE, n. 304, jan. 2007b.
_______. Uma simulação dos impactos da formação da ALCA sobre as economias brasileira e argentina. Informações FIPE, n. 303, dez. 2006.
(*) Professor da FEA/USP. E-mail: [email protected] (**) Doutoranda em Integração da América Latina pelo PROLAM/USP. E-mail: [email protected]
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daniela CoRRêa (*)
gilbeRto tadeu lima (**)
internacionalização produtiva de
empresas brasileiras: caracterização
geral e indicadores
1. Introdução
A seqüência de três artigos que com este se inicia des-creve e analisa as experiências de internacionalização das empresas brasileiras Marcopolo e Grupo Gerdau, inserindo-as em um contexto mais amplo que inclui o censo de capitais brasileiros no exterior do Banco Central do Brasil e pesquisas empíricas anteriores acerca da internacionalização produtiva de empresas locais. O desempenho das empresas no mundo globa-lizado depende cada vez mais de sua capacidade de inserção no mercado internacional, algo corroborado pela experiência das empresas aqui analisadas. Neste primeiro artigo realizar-se-á uma caracteriza-ção geral do investimento direto brasileiro no exterior (IDBE), de acordo com dados obtidos por meio do Censo de Capitais Brasileiros no Exterior, do Banco Central do Brasil (BCB). No segundo, a ser publicado na edição de maio deste boletim Informações FIPE, serão apresentadas algumas análises sobre os determinan-tes da internacionalização produtiva e dados gerais sobre a internacionalização das empresas brasileiras. No último artigo dessa seqüência serão discutidas as experiências de internacionalização das empresas Marcopolo e Gerdau.
Apesar do relativo atraso ante alguns países em está-gio semelhante de desenvolvimento, é cada vez maior o número de empresas brasileiras que abandonam o modelo tradicional exportador e passam a internacio-nalizar suas atividades produtivas. Muitas empresas nacionais parecem ter percebido que, na maioria das vezes, é mais simples e efetivo iniciar a produção em outro país do que contornar os obstáculos logísticos
e legais envolvidos em uma operação de venda para o exterior. (Corrêa e Lima, 2006).
Parte desse movimento de internacionalização das empresas nacionais, acentuado nos últimos anos, e caracterizado por transações cada vez mais surpre-endentes – como a recente aquisição da mineradora canadense Inco pela Companhia Vale do Rio Doce – deve-se a fatores conjunturais, como o modesto crescimento da economia brasileira nos últimos anos. Há que se considerar ainda a desvalorização do dólar, que encareceu os produtos brasileiros no mercado ex-terno, ao mesmo tempo que barateou as importações, fazendo com que muitas empresas nacionais passas-sem por um processo de estrangulamento. Algumas dessas empresas enxergaram na internacionalização uma alternativa para manter os bons resultados com o câmbio desfavorável. As empresas que se expandem internacionalmente deixam de depender apenas do desempenho do mercado local, sujeito a flutuações políticas e financeiras, e ao diversificar seus ativos são capazes de amenizar possíveis contratempos em um segmento específico.
O processo de internacionalização de uma empresa começa a se desenrolar quando esta decide iniciar suas atividades em outro país, o que pode acontecer via controle total de ativos pela empresa entrante, ou por meio de operações de joint-ventures com em-presas sediadas no país onde pretende ingressar. A internacionalização produtiva é uma importante estratégia para contornar as restrições estabelecidas sobre a importação em diversos países, como a im-posição de elevadas alíquotas tarifárias, de cotas, ou barreiras sanitárias. A opção por uma estratégia de
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inserção em mercados internacionais deve levar em conta os objetivos das empresas, além de dimensões estratégicas em relação a recursos e capacidades das mesmas, mas o fato é que atuar em variados merca-dos aumenta a capacidade de sobrevivência em face das dificuldades impostas pelo ambiente altamente competitivo da atualidade.
A internacionalização deve ser vista como um meio essencial para o aumento da competitividade inter-nacional das empresas, promovendo o desenvolvi-mento dos países e facilitando o acesso a recursos e mercados, e a reestruturação econômica. Em linhas gerais, a internacionalização das empresas é impor-tante para assegurar e expandir mercados para seus bens e serviços. O acesso a mercados maiores forta-lece a competitividade das empresas multinacionais pelas economias de escala, por meio dos efeitos de especialização de aprendizado e pelo fornecimento de uma maior base financeira para reinvestimentos e desenvolvimento tecnológico. (Alem e Cavalcanti, 2005). Particularmente no caso brasileiro, o acesso a mercados financeiros em condições mais favoráveis representa um forte estímulo ao processo de inter-nacionalização. A situação do Brasil é bem menos vantajosa neste sentido do que a das economias asiá-ticas, por exemplo, beneficiadas por elevadas taxas de poupança doméstica e dotadas de características que lhes proporcionam grau de investimento por parte das agências classificatórias mundiais. Para um país como o Brasil, que não dispõe de tal vantagem, e tem de pagar sobretaxa de risco financeiro devido ao país de origem, a internacionalização pode se tornar um meio de escapar das taxas de juro internas proibitivas e obter financiamento internacional mais propício do que conseguiria sem se internacionalizar. (Ricupero e Barreto, 2007).
Recentemente foi divulgado um índice elaborado pela Fundação Dom Cabral (FDC), que buscou avaliar o grau de internacionalização das empresas brasilei-ras. Para a construção do índice foram considerados sete critérios, a saber: (1) vendas no exterior/vendas totais; (2) ativos permanentes no exterior na cadeia produtiva/ativos totais da empresa; (3) empregados
no exterior/número total de empregados; (4) número de regiões com atividades externas/número total de regiões; (5) atividades no exterior/número de ativida-des possível; (6) número de mercados onde a empresa é listada/número máximo de mercados acessíveis às empresas brasileiras da amostra; (7) número de anos desde o estabelecimento da primeira subsidiária de produção ou operações da empresa no exterior/nú-mero de anos desde o estabelecimento da primeira subsidiária de produção ou operações no exterior da amostra de empresas. As empresas receberam uma nota que variou de zero a um para cada critério e, portanto, a pontuação máxima que poderiam alcançar é sete. O Gráfico 1, abaixo, reproduz as notas obtidas pelas dez empresas mais bem classificadas, conforme os critérios anteriormente mencionados.
gráfico 1 - as dez empresas mais internacionacionalizadas
Gráfico 1 - As dez empresas mais internacionalizadas
Fonte: Elaboração própria com base em pesquisa da Fundação Dom Cabral (www.fdc.org.br) * resultado anterior à operação de aquisição da Inco
4,223 3,605 3,512 3,454 3,129 2,969 2,944 2,842 2,838 2,263 0 1 2 3 4 5 6 7 GERDAU ODEBRECHT CVRD* PETROBRAS MARCOPOLO SABÓ ANDRADE GUTIERREZ WEG EMBRAER TIGRE
Fonte: Elaboração prórpia com base em pesquisa da Fundação Dom Cabral (www.fdc.org.br).
* resultado anterior à operação de aquisição da Inco.
Para a seqüência de artigos que com este se inicia, optou-se pela caracterização do processo de interna-cionalização das empresas Marcopolo e Gerdau, dois casos de reconhecido sucesso, com o objetivo de en-tender alguns determinantes estratégicos que levaram essas empresas a buscar a diversificação da localização de sua produção. As empresas selecionadas estão entre as cinco mais internacionalizadas, conforme ranking divulgado pela FDC.
2. Caracterização Geral do IDBE
Foram bastante significativas as oscilações do fluxo de IDBE nos últimos anos. De acordo com dados de relatório da UNCTAD (Conferência das Nações
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Unidas para o Comércio e Desenvolvimento) de 2004, em 2000 o fluxo de investimento brasileiro no exterior atingiu cerca de US$ 2,3 bilhões, e no ano seguinte caiu significativamente, finalizando o ano em US$ 2,2 bilhões negativos. Já em 2002, o País foi a principal fonte de IDE da América Latina, registrando saída de US$ 2,5 bilhões. No ano seguinte, os fluxos voltaram a cair consideravelmente, acompanhando a tendência de fracas performances na região. Em 2004, os investimentos no exterior alcançaram os US$ 9,8 bilhões, o que firmou o País como um dos quatro principais investidores em mercado externo entre os emergentes e o principal da América Latina. Porém, apenas duas grandes operações foram responsáveis por uma parcela considerável desse salto no volume de investimentos diretos brasileiros no exterior (IDBE): a fusão entre a brasileira Ambev e a belga InterBrew e os empréstimos intercompanhia de empresas brasileiras para suas filiais no exterior. Em 2005, os investimentos apresentaram nova queda em relação ao ano anterior, e não passaram dos US$ 2,5 bilhões.
Existe, atualmente, uma grande expectativa em relação aos números para o ano de 2006, em que os investimentos diretos das empresas brasileiras no exterior devem superar, pela primeira vez, os investi-mentos estrangeiros no País. De acordo com os dados divulgados pelo BCB em 2006, os investimentos bra-sileiros no exterior acumulados até outubro daquele ano chegaram aos US$ 22,8 bilhões, contra US$ 13,6 bilhões de investimentos estrangeiros no País. Parte significativa do valor estimado, cerca de US$ 13,2 bi-lhões, refere-se à compra da empresa canadense Inco pela Companhia Vale do Rio Doce. Porém, mesmo subtraído este montante, o resultado líquido é quase igual ao recorde nacional até então.
De modo geral, o IDBE está fortemente concentrado no setor terciário da economia, ainda que entre 2004 e 2005 – pela primeira vez, desde que o censo de capitais começou a ser divulgado, em 2001 – tenha se mani-festado uma tendência à desconcentração, em favor do setor primário. Este setor, que em 2001 detinha quase 4% do estoque total de IDBE, e em 2003 chegou
a representar apenas 0,58%, fechou o ano de 2005 com cerca de 5,2% do total investido por brasileiros no exterior. O setor secundário, por sua vez, que em 2001 detinha pouco mais de 8% do estoque de IDBE, em 2005 teve sua representatividade reduzida para apenas 3,67% do total. O setor terciário, que em 2001 respondia por 88,01% do IDBE, e em 2003 chegou a representar 95,16% desse total, teve sua participação ligeiramente reduzida em 2005, terminando o ano com 91,1% do total. (Corrêa e Lima, 2006).
De acordo com relatório da UNCTAD (2006), entre as 100 maiores transnacionais não financeiras dos países em desenvolvimento em 2004, apenas três eram brasileiras: a Petrobras (12ª), a CVRD (25ª), e a Metalúrgica Gerdau S.A. (33ª), contra uma grande maioria de empresas sediadas em países asiáticos. O relatório trazia ainda o cálculo do índice de transna-cionalização das empresas, obtido pela média das seguintes razões: (i) ativos no exterior/total de ativos, (ii) vendas no exterior/total vendas, e (iii) empregos no exterior/emprego total. De acordo com esses cri-térios, o índice de transnacionalização da Petrobras, da CVRD e da Gerdau eram, respectivamente, 14,3%, 40,9% e 42,9%.
Diferentemente de outros países em desenvolvimento, o governo brasileiro não definiu medidas oficiais de apoio à internacionalização das empresas nacionais, que investem no exterior por decisão própria, sem contar o suporte de uma política governamental específica dirigida a estimular, facilitar e até induzir a internacionalização. Além disso, embora não haja proibições ou restrições governamentais ao investi-mento direto no exterior, algumas normas cambiais e procedimentos legais dificultam e encarecem as transações. (Cretoiu, 2007). Enquanto isto, países como China, Cingapura e Malásia estão adotando estratégias e políticas firmes de apoio à internacionali-zação de suas empresas – como políticas que facilitam o acesso a financiamentos bancários, diminuição da burocracia e a isenção de taxas para investimentos no exterior – e já têm programas de mais de uma década com o objetivo de apoiar o investimento direto no
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exterior. Até mesmo países vizinhos como o México, a Argentina e a Venezuela já estão nessa trilha. (Al-meida, 2007).
3. Considerações finais
De acordo com estimativas da UNCTAD (2006), o universo atual das transnacionais conta com cerca de 77 mil empresas e mais de 770 mil filiais espalhadas pelo mundo. Em 2005, essas filiais estrangeiras ge-raram cerca de US$ 4,5 bilhões em valor adicionado, empregaram aproximadamente 62 milhões de traba-lhadores, e exportaram bens e serviços avaliados em mais de US$ 4 trilhões. As multinacionais dos países desenvolvidos continuam dominando o universo das transnacionais, mas a participação dos países em desenvolvimento (PEDs) tem crescido acelerada-mente. As vendas totais das transnacionais dos PEDs alcançaram cerca de US$ 1,9 trilhão em 2005, e suas atividades geraram empregos para mais de 6 milhões de trabalhadores. Em 2004, havia cinco empresas se-diadas em países em desenvolvimento na lista das 100 maiores transnacionais, todas sediadas na Ásia. A expansão dos fluxos de investimentos diretos dos PEDs e das economias em transição fornece opor-tunidades de desenvolvimento para as economias investidoras. Esses investimentos alcançaram US$ 133 bilhões em 2005, representando cerca de 17% do fluxo total de investimentos no exterior. O valor do estoque de IDE desses países no final de 2005 foi estimado em US$ 1,4 trilhão, ou 13% do total mundial. Para se ter uma idéia da aceleração do processo de internacio-nalização, basta considerar que até 1990 apenas cinco países em desenvolvimento ou em transição tinham estoques de IDE superiores a US$ 5 bilhões; em 2005, mais de 25 países já superavam esse limite.
O aumento no número e na diversidade das transna-cionais dos PEDs na última década está amplamente relacionado ao contínuo impacto da globalização so-bre suas economias. A combinação entre competição e oportunidade, fruto das políticas liberalizantes de diversos países desenvolvidos e em
desenvolvimen-to, é um condicionante particularmente importante desse processo. (UNCTAD, 2006). À medida que as economias em desenvolvimento tornam-se mais abertas para a competição mundial, suas empresas são crescentemente forçadas a competir com as mul-tinacionais de outros países, tanto domesticamente quanto no mercado externo, e o investimento direto externo pode ser um componente importante de sua estratégia. Esta competição, por sua vez, pode impelir as empresas a aprimorarem suas operações, e isto es-timula o desenvolvimento de vantagens competitivas firma-específicas, resultando no aprimoramento da capacidade de competir em mercados estrangeiros. Algumas empresas brasileiras parecem ter percebido rapidamente as mudanças processadas no âmbito mundial, e assim iniciaram cedo sua inserção no mer-cado global. Como veremos nos dois artigos seguintes, as empresas analisadas nesta seqüência de artigos, Marcopolo e Gerdau, são exemplos disso.
Referências Bibliográficas:
Alem, A. C.; Cavalcanti, C. E. O BNDES e o apoio à internacio-nalização das empresas brasileiras: algumas reflexões. Revista do BNDES, v. 12, n. 24, p. 43-76, dez. 2005.
Almeida, A. L. S. A relevância do investimento brasileiro direto no exterior para as empresas e para a sociedade. In: Almeida, André (org.), Internacionalização de empresas brasileiras – Perspectivas e riscos, Rio de Janeiro. Elsevier, 2007.
Corrêa, D.; Lima, G. T. A internacionalização produtiva das empresas brasileiras: breve descrição e análise geral. Anais Eletrônicos em CD-Rom do Workshop sobre Internacionalização de empresas: desafios e oportunidades para países emergentes, FEA-USP, Maio 2006. Cretoiu, S. L. Internacionalização de pequenas e médias empresas.
In: Almeida, André (org.), Internacionalização de empresas brasileiras – Perspectivas e riscos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.
Ricupero, R.; Barreto, F. M. A importância do investimento direto estrangeiro do Brasil no exterior para o desenvolvimento socio-econômico do país. In: Almeida, André (org.), Internacionalização de empresas brasileiras – Perspectivas e riscos. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.
UNCTAD. World Investment Report (WIR). 2006.
(*) Economista pela FEA-USP e Mestranda em Economia pelo IE-UFRJ. [[email protected]] (**) Professor do Departamento de Economia da FEA-USP. [[email protected]]
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I. Nota Introdutória
Nas duas primeiras partes deste artigo, depois de apresentarmos os argumentos básicos de Caio Prado, apreciamos alguns elementos de caráter empírico bastantes para justificar uma reconsideração do pensamento pradiano e nos preocupamos com três aspectos de nossa formação histórica: o desenvolvi-mento de uma parcela populacional desvinculada das atividades imediatamente voltadas à economia de exportação, a expressiva presença quantitativa em nossa sociedade dos não-proprietários de escra-vos e, por fim, a estrutura de posse de catiescra-vos que vigorou no correr do tempo, estrutura essa marcada pela existência de um grande número de pequenos escravistas. Com base nas evidências reunidas nesses dois tópicos iniciais, postulamos, nesta terceira parte do escrito, a necessidade de, sem deixar de lado suas imensas contribuições ao entendimento de nossa história socioeconômica, irmos além de Caio Prado; advogamos, ademais, que tal cometimento deverá ser realizado em três níveis: no metodológico, no teórico e no plano da realidade concreta. É justamente à análise de proposições concernentes aos três níveis acima referidos que vai dedicada a última parte do estudo; nela é trazida à discussão uma nova forma de capital, o
capital escravista-mercantil, à qual dever-se-ia a base
estrutural mestra da economia brasileira; esboça-se, além disso, uma categorização alternativa à de Caio Prado quanto às atividades produtivas mais relevantes empreendidas por nossos avoengos.
II. Pela Superação do Modelo de Caio Prado Júnior Façamos, antes do mais, um balanço crítico do con-junto de evidências, observações e raciocínios acima
expendidos. De tal conjunto ressalta, de pronto, que as articulações presentes na sociedade brasileira so-brepujavam largamente um mero empreendimento dirigido pelo capital comercial e imediatamente voltado para o mercado mundial e dele totalmente dependente. Neste sentido tratava-se de uma econo-mia com expressivos traços de integração endógena e que comportava uma gama diversificada de ativida-des produtivas votadas para o atendimento de suas próprias necessidades, dando-se, também, processos internos de acumulação. Disto decorria a geração, na órbita doméstica, de condições que permitiam um espaço econômico relativamente autônomo vis-à-vis à economia internacional e ao capital comercial, espaço econômico este ao qual, ademais, deve-se atribuir expressivo contributo no que tange à formação da renda e do produto. Esta visão aparta-nos, pois, da que admitimos ter sido proposta por Caio Prado Júnior, a qual marcar-se-ia por iniludível “reducionismo”. Não obstante, igualmente iniludível é o fato de que todas aquelas evidências e argumentos não conduzem à negação da sociedade escravista, ao contrário, não só a afirmavam como teriam contribuído ativamente para sua expansão e permanência entre nós. Se não, vejamos.
Iniciemos considerando as possibilidades abertas aos despossuídos que ocupavam, de maneira precária e sem qualquer título efetivo de propriedade, nesgas de terra sob as mais variadas formas (ocupantes autorizados, agregados, posseiros etc.) e que não estavam interessados em participar dos processos de acumulação ou deles viam-se excluídos por falta de recursos, de oportunidades ou em decorrência das vicissitudes da vida (doenças, empobrecimento, de-samparo em virtude da idade etc.). Tais pessoas, como
iRaCidel neRoda Costa(*)
repensando o modelo interpretativo
de Caio Prado Júnior (parte III)
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sabido, encontraram nas lides agrícolas consagradas ao autoconsumo uma forma, embora medíocre, de sobreviverem. Ora, como demonstrado por Celso Furtado para o caso das crises que se abateram sobre a economia açucareira e a da mineração (Cf. Furtado, 1970, capítulos XI - Formação do complexo econômico nordestino e XV - Regressão econômica e expansão da área de subsistência), tal arranjo – acesso ao usufruto da terra – atuava como verdadeira válvula de escape, atenuando ou evitando inteiramente o desenvolvi-mento de pressões no sentido de que se promovessem alterações estruturais na economia escravista domi-nante. Ademais, como apontado pelos estudiosos de nossa história, os grandes proprietários serviam-se de parte destes despossuídos para garantirem suas propriedades contra roubos ou a invasão de elementos indesejáveis.
De maneira similar operavam, por seu turno, as es-treitas oportunidades colocadas aos que secundária e eventualmente participavam dos mercados vendendo seus parcos excedentes agrícolas ou neles encontrando escoamento para sua modesta produção de gêneros exportáveis. Parece-nos ocioso acrescentar, além disto, que tais oportunidades também trabalhavam, com respeito a este segmento populacional, de sorte a legitimar as estruturas econômicas dadas.
Estes dois estratos sociais mereceram a atenção de muitos autores dos quais lembramos, a título ilustra-tivo, tão-somente dois. Assim, lemos em obra de Jacob Gorender: “A tendência evolutiva de São Paulo foi idêntica
à de todo o país na era escravista: concentração extrema da propriedade de escravos e de terras e crescimento constante da população livre despossuída. Esta, formada de agregados e posseiros, constituía junto com os elementos minifundiários, a classe camponesa da época, a classe camponesa possível numa formação social escravista.” (Gorender, 1978, p. 300).
Este mesmo autor, depois de consignar que os “caipiras
são os agregados e posseiros a que venho me referindo”,
reme-te-nos a Maria Sylvia de Carvalho Franco para quem as comunidades caipiras “podem ser pensadas como uma
realidade autônoma”: “Entretanto, se realmente é possível distinguir um estilo de vida específico, uma integridade de cultura e de organização social nas comunidades caipiras,
não é menos verdade que essas comunidades estiveram con-cretamente inseridas em um sistema social mais amplo. Na área aqui estudada, ao lado desses pequenos núcleos houve, pelo menos desde o século XVIII, setores da sociedade que se organizaram para a produção mercantil. Sendo estes que realmente fundaram o sentido dominante das atividades de produção e da vida social, os grupos caipiras ficaram relega-dos a uma intransponível marginalidade.” (Franco, 1969,
p. 31-32). Tal “sistema social mais amplo”, obviamente, tratava-se da sociedade escravista inclusiva.
Igualmente inseridos neste “sistema social mais am-plo” estavam os que – com o apoio de um número maior ou menor de cativos ou só a contar com a mão-de-obra individual ou familiar – participavam sistematicamente dos mercados de gêneros básicos de alimentação, do setor de serviços ou se ocupa-vam em atividades artesanais. Com respeito a estes agentes, evidentemente, nada há a acrescentar, pois, efetivamente, mesmo se não tivessem escravo algum,
integravam a sociedade escravista e se comportavam
de molde a afirmá-la, mesmo quando se tratava de alforriados, alguns dos quais, como anotado, torna-ram-se proprietários de escravos.
Quanto aos cativos aos quais eram atribuídas peque-nas glebas de terra das quais derivavam sua alimenta-ção e eventuais ganhos com os quais compunham seus pecúlios, e quanto aos que “trabalhavam por conta própria” efetuando pagamentos a seus senhores, há algo a dizer. Em primeiro, é necessário repisar o cará-ter complementar com respeito ao trabalho necessário representado por tais formas de exploração da força de trabalho escrava; tenhamos presente, pois, a arguta e definitiva observação de Antonil: “Costumam alguns
senhores dar aos escravos um dia em cada semana, para plantarem para si, mandando algumas vezes com eles o feitor, para que se não descuidem; e isto serve para que não padeçam fome nem cerquem cada dia a casa de seu senhor, pedindo-lhe a ração de farinha.” (Antonil, 1974, p. 162). Em segundo
lugar, não se deve esquecer que a existência de um espaço relativamente autônomo para a vivência do cativo não representava uma restrição ao escravismo e muito menos ensejava, per se, qualquer ruptura ou enfraquecimento da escravidão. Ao contrário, como
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ocorria com a perspectiva da alforria, legitimava-o aos olhos dos próprios cativos, tornando-os presas mais “conformadas” do sistema e menos dadas a rebeldias. A plena consciência deste efeito, como sabido, foi al-cançada pelos próprios donos de escravos; vejamos um testemunho elucidativo, o do Barão de Pati do Alferes, igualmente lembrado por Jacob Gorender: “Estas suas roças, e o produto que delas tiram, fazem-lhes
adquirir certo amor ao país, distrair um pouco da escravidão, e entreter-se com esse seu pequeno direito de propriedade. Sem dúvida, o fazendeiro enche-se de certa satisfação quando vê chegar o seu escravo da sua roça trazendo o seu cacho de bananas, o cará, a cana, etc.” (Werneck, Francisco Peixoto
de Lacerda [Barão de Pati do Alferes]. Memória sobre a
fundação e custeio de uma fazenda na província do Rio de Ja-neiro. Rio de Janeiro, Eduardo & Henrique Laemmert,
1878, p. 24-25, apud Gorender, 1978, p. 263).
Atenhamo-nos, por fim ao fato de prevalecerem, em largas faixas do território brasileiro e distribuídos pelas várias “economias” que aqui se desenvolveram, plantéis com reduzido número de cativos e uma grande proporção de pequenos e médios escravistas. Poderia tal estrutura de posse descaracterizar ou al-terar a natureza do escravismo? Apontaria na direção da predominância dos mercados internos sobre os externos? Colocaria como possível a reprodução au-tônoma e independente da economia escravista como se definiu no Brasil? A resposta a tais questões é, sem dúvida, negativa. Deixando uma qualificação mais pormenorizada para o item no qual trataremos do capital escravista-mercantil, queremos deixar fixada, aqui, a opinião de que, contrariamente ao sugerido pelas perguntas acima enunciadas, a difusão de um grande número de pequenos escravistas contribuía positivamente para a legitimação e permanência da instituição entre nós, pois, comprometia com a mesma, largos contingentes da população livre, os quais viam seus interesses econômicos atrelados à manutenção do escravismo. Destarte, tanto da perspectiva econômica como da política e da história das mentalidades, não nos parece absurdo afirmar que a existência de tal perfil da estrutura de posse de cativos pode ser enca-rada, por um lado, como uma das causas explicativas do vigor e resistência do escravismo entre nós, e, por
outro, do tardio advento da abolição definitiva da escravidão no Brasil.
A conclusão maior que se impõe das considerações acima postas é imediata: todas as condições aqui reportadas, em maior ou menor escala, operaram, sempre, no sentido de afirmar e dar maior solidez ao escravismo e podem ser colocadas entre os fatores explicativos da grande resistência demonstrada por esta instituição e de sua prolongada persistência entre nós. Nada mais errôneo, pois, do que tomá-las como capazes de descaracterizar ou “arranhar” as relações escravistas então vigentes. Elas não podem ser ar-roladas, portanto, entre as causas da superação do trabalho escravo no Brasil, fato este que, não obstante, não as impediu de sobreviverem ao sistema escravista e de contribuírem, dada a supressão do escravismo, para o estabelecimento e afirmação das relações de produção emergentes.
Ora, a sociedade escravista moderna (intrinseca-mente dependente dos mercados mundiais, como evidenciaremos adiante em tópico dedicado ao capi-tal escravista-mercantil) é a própria encarnação da dependência com respeito ao mundo exterior, seja quanto à colocação de parcela substantiva do produto gerado, seja no respeitante à sua própria manutenção no tempo, pois necessitava, crucialmente, do forneci-mento externo de mão-de-obra cativa. Assim, aceita a idéia de que os elementos avocados para desqualificar o modelo de Caio Prado Júnior atuaram, sempre, de sorte a reafirmar o escravismo, vemo-nos em face de uma aparente contradição: se, num primeiro lapso, nossos argumentos contradizem o modelo em tela, num segundo passo trabalham a favor da tese central do mesmo modelo. É forçoso, portanto, enfrentarmos esta contradição aparente; ademais, de seu esclareci-mento emergirá não só a solução para o impasse no qual estamos enleados, mas, também, para as demais questões que ensejaram a redação destas notas. Par-tamos, pois, do modelo em foco.
Qual seria a grave limitação do modelo interpretativo de Caio Prado Júnior? Onde estaria seu “erro”, como perguntariam alguns? A nosso juízo tal limitação