ECLI:PT:TRP:2016:5699.15.0T8OAZ.A.P1.1C
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Relator Nº do Documento
Miguel Baldaia Morais rp201610245699/15.0t8oaz-a.p1
Apenso Data do Acordão
24/10/2016
Data de decisão sumária Votação
unanimidade
Tribunal de recurso Processo de recurso
Data Recurso
Referência de processo de recurso Nivel de acesso
Público
Meio Processual Decisão
Apelação confirmada
Indicações eventuais Área Temática
5ª Secção, (livro De Registos N.º 635, Fls.109-120) . Referencias Internacionais
Jurisprudência Nacional
Legislação Comunitária
Legislação Estrangeira
Descritores
processo especial de revitalização; prazo para conclusão das negociações; natureza; princípio do contraditório; decisão surpresa;
Sumário:
I - O prazo fixado no nº 5 do artigo 17º-D do Código da Insolvência e da Recuperação de
Empresas, para a conclusão das negociações tendentes à revitalização do devedor, é perentório ou preclusivo.
II - Decorrido tal prazo sem que as negociações estejam concluídas, o processo negocial fica encerrado, não podendo ser homologado o plano que, ainda assim, venha a ser aprovado, por ocorrer uma violação não negligenciável de regras procedimentais.
III - O sentido útil do nº 3 do artigo 3º do Código de Processo Civil é o de que, previamente ao exercício da liberdade subsuntiva do juiz no concernente à indagação, interpretação e aplicação das regras de direito, deve este facultar às partes a dedução das razões que considerem
pertinentes, perante um possível enquadramento ou qualificação jurídica do pleito, ou uma eventual ocorrência de exceções dilatórias, com que elas não tenham razoavelmente podido contar.
IV – Como assim, sob o enfoque da referida normatividade, o julgador apenas está constituído no dever de observar a contraditoriedade quando esteja em causa uma inovatória e inesperada questão de direito que não tenha, de todo, sido perspetivada pelos litigantes de acordo com um adequado e normal juízo de prognose sobre o conteúdo e sentido da decisão.
Decisão Integral:
Processo nº 5699/15.0T8OAZ-A.P1
Origem: Comarca de Aveiro, Oliveira de Azeméis – Instância Central – 2ª Secção de Comércio, Juiz 2
Relator: Miguel Baldaia Morais
1º Adjunto Des. Jorge Miguel Seabra
2º Adjunto Des. José Sousa Lameira*Sumário
I - O prazo fixado no nº 5 do artigo 17º-D do Código da Insolvência e da Recuperação de
Empresas, para a conclusão das negociações tendentes à revitalização do devedor, é perentório ou preclusivo.
II - Decorrido tal prazo sem que as negociações estejam concluídas, o processo negocial fica encerrado, não podendo ser homologado o plano que, ainda assim, venha a ser aprovado, por ocorrer uma violação não negligenciável de regras procedimentais.
III - O sentido útil do nº 3 do artigo 3º do Código de Processo Civil é o de que, previamente ao exercício da liberdade subsuntiva do juiz no concernente à indagação, interpretação e aplicação das regras de direito, deve este facultar às partes a dedução das razões que considerem
pertinentes, perante um possível enquadramento ou qualificação jurídica do pleito, ou uma eventual ocorrência de exceções dilatórias, com que elas não tenham razoavelmente podido contar.
IV – Como assim, sob o enfoque da referida normatividade, o julgador apenas está constituído no dever de observar a contraditoriedade quando esteja em causa uma inovatória e inesperada questão de direito que não tenha, de todo, sido perspetivada pelos litigantes de acordo com um adequado e normal juízo de prognose sobre o conteúdo e sentido da decisão.*
Acordam no Tribunal da Relação do Porto:
I- RELATÓRIO“B…, Ldª” intentou o presente processo especial de revitalização ao abrigo do disposto nos arts. 17º-A e seguintes do Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas (CIRE), vindo a ser sido proferido despacho inicial no dia 14 de dezembro de 2015.
de credores, prevista no art. 17º-D, nº 2 do CIRE, a qual foi publicitada no portal CITIUS no dia 22 de janeiro de 2016.
Foi requerida a prorrogação do prazo para as negociações por 30 dias, nos termos previstos no nº 5 do art. 17º-D do CIRE, o que foi publicitado no portal CITIUS no dia 28 de março de 2016.
Por requerimento apresentado em 2 de maio de 2016 (cfr. fls. 413 e seguintes) foi junto o plano especial de revitalização, o qual não vinha acompanhado das declarações de voto, nem do resultado da votação.
Por despacho exarado no dia 3 de maio de 2016, o administrador judicial provisório foi notificado para apresentar o resultado da votação e as declarações de voto, sendo que, por requerimento de fls. 493 e seguintes, veio juntar tais elementos, deles resultando que a diligência de abertura dos votos se realizou no dia 24 de maio de 2016 e bem assim que os credores votaram em vários dias (concretamente nos dias 2, 3, 5, 11, 12, 13 e 16 todos do mês de maio de 2016), tendo votado o plano de revitalização 98,06% dos credores, dos quais 50,95% votaram favoravelmente e 49,05% votaram contra.
Em 3 de julho de 2016 veio a ser prolatada sentença na qual se decidiu:
“a) - Considerar expirado o prazo previsto pelo art. 17º-D, nº 5 do CIRE, com a consequente não homologação do plano de revitalização apresentado;
b) - Determinar o encerramento do processo nos termos previstos pelo art. 17º-G, nº 1;
c) - Nos termos previstos pelo art. 17º-G, nº 2 do CIRE, por força do encerramento do processo, determina-se a extinção de todos os seus efeitos”.
Inconformada com essa decisão, veio a requerente interpor o presente recurso, o qual foi admitido como apelação, a subir nos próprios autos e com efeito meramente devolutivo. Com o requerimento de interposição do recurso apresentou alegações, formulando, a final, as
seguintesCONCLUSÕES:A. Foram violados, entre outros, os arts. 195.º, 3.º, 6.º n.º 1 do Código de Processo Civil ex vi art. 17.º e arts. 17.º-D, n.º 5 e 215.º do Código da Insolvência e da
Recuperação de Empresas.
B. O recurso ora apresentado tem na sua génese a sentença da Meritíssima Juiz a quo que não homologou o plano de revitalização da recorrente “B…, LDA.” e consequentemente declarou encerrado o processo nos termos do art. 17.º-G, n.º 1 do CIRE.
C. Entende a recorrente que a Meritíssima Juiz a quo decidiu assente em erro na interpretação e aplicação do art. 17.º-D, n.º 5 do CIRE uma vez que o prazo de três meses não é um prazo peremptório, podendo ser ultrapassado, desde que justificadamente.
D. Ora, conforme refere e bem a Meritíssima Juiz a quo “o prazo para as impugnações terminou no dia 29 de Janeiro de 2016. Iniciou-se o prazo de dois meses para as negociações. O prazo foi prorrogado por mais um mês. O prazo de três meses terminou no dia 29 de Abril.” (destaque nosso).
E. Por requerimento datado de 30 de Maio de 2016 veio o Exmo. Senhor Administrador Judicial Provisório juntar as declarações de voto sobre o plano de revitalização em questão.
F. Da leitura da acta de abertura de votos que teve lugar no dia 24 de Maio de 2016 resulta que votaram o plano de recuperação 98,06% dos credores sendo que 50,95% dos credores votaram favoravelmente o plano de recuperação e 49,05% votaram contra.
G. No seguimento das declarações de voto juntas pelo Exmo. Senhor Administrador Judicial Provisório e tendo em consideração o resultado da votação do plano de revitalização apresentado que reuniu 50,95% dos votos favoráveis foi, por despacho datado de 1 de Junho de 2016, aprovado o referido nos termos e para os efeitos dos arts. 17.º-F, n.º 3 e 212.º, n.º 1 do CIRE.
H. Por sentença, datada de 27 de Junho de 2016, a Meritíssima Juiz a quo decidiu não homologar o plano de revitalização apresentado por “considerar expirado o prazo previsto pelo art. 17.º-D, n.º 5 do CIRE”, tendo ainda determinado o encerramento do processo nos termos do art. 17.º-G, n.º 1 do CIRE e, bem assim, nos termos do n.º 2 do mesmo artigo a extinção de todos os seus efeitos. I. Alega, para o efeito, que “o tribunal oficiosamente não deve homologar o plano, em caso de violação não negligenciável de regras procedimentais ou das normas aplicáveis ao seu conteúdo, qualquer que seja a sua natureza e ainda quando, no prazo razoável que estabeleça, não se verifiquem as condições suspensivas do plano ou não sejam praticados os actos ou executadas as medidas que devem preceder a homologação”.
J. No entanto entende a recorrente que o prazo de três meses previsto no art. 17.º-D, n.º 5 do CIRE não tem, salvo melhor e mais douta opinião, natureza peremptória.
SENÃO VEJAMOS:
K. É o próprio art. 17.º-D, n.º 5 do CIRE a prever a sua eventual prorrogação pelo que, por esse motivo, e s.m.o., não pode considerar-se que o prazo estabelecido é de natureza peremptória. L. Atribuir-se natureza peremptória ao prazo estabelecido no art. 17.º-D, n.º 5 do CIRE seria contrariar totalmente, e subverter até, o espírito do legislador aquando a introdução, em 2012, do PER visto que nos termos do art. 17.º-A, n.º 1 do CIRE, um processo especial e que se destina a permitir a qualquer devedor que, comprovadamente, se encontre em situação económica difícil ou em situação de insolvência meramente iminente, mas que ainda seja susceptível de recuperação, estabelecer negociações com os respectivos credores, de modo a concluir com estes acordo conducente à sua revitalização económica, facultando-lhe a possibilidade de se manter activo no giro comercial.
M. Trata-se de um processo negocial extrajudicial do devedor com os credores, com a orientação e fiscalização do administrador judicial provisório, tendo como corolário chegarem a acordo com vista à sua revitalização, sendo uma oportunidade para promover a reestruturação da empresa.
N. O que se pretende, fundamentalmente, é a conclusão do processo com a aprovação, pela maioria dos credores, de um plano que permita a manutenção sustentada da empresa, que se traduza em perdas mais reduzidas para os credores, evitando-se os efeitos sociais e económicos negativos que advêm da liquidação de uma empresa.
O. Nestes termos, o conjunto das normas reguladoras do PER visa proteger o devedor, evitando um eventual processo de insolvência com todas as consequências nefastas que isso acarretaria para a devedora, desde logo o encerramento da actividade comercial.
P. O PER está consagrado em termos muito flexíveis, embora fixando um determinado
procedimento e publicidade, bem como prazos curtos, num processo de natureza urgente, nos termos do art. 17.º-A, n.º 3 do CIRE, que se pretende de rápida conclusão, tendo em conta, nomeadamente, os efeitos da sua instauração previstos no art. 17.º-E do mesmo diploma legal. Q. E o art. 17.º-G, n.º 1 dispõe que “caso o devedor ou a maioria dos credores prevista no n.º 3 do artigo anterior concluam antecipadamente não ser possível alcançar acordo, ou caso seja
ultrapassado o prazo previsto no nº 5 do art. 17º-D, o processo negocial é encerrado, devendo o administrador judicial provisório comunicar tal facto ao processo, se possível, por meios
electrónicos e publicá-lo no portal Citius”.
R. Ora, “(…) art. 17.º-G do CIRE apenas contempla a hipótese de o processo negocial ser
obrigatoriamente encerrado no caso de as negociações terminarem (antecipadamente ou por ser ultrapassado o prazo previsto no n.º 5, do art. 17.º-D) sem que tivesse sido possível aprovar o plano de recuperação” cfr. Ac. RL de 10.04.2014, proc. 8972/13.9T2SNT.L1-7, in www.dgsi.pt.
S. Constitui um facto assente que as negociações levaram à aprovação do plano de revitalização com 50,95% dos votos, alcançando o fim visado pelo legislador com a previsão do processo em causa.
T. Deve, por isso, ser considerada negligenciável a ultrapassagem do prazo para a conclusão das negociações uma vez que, apesar de tudo, foi satisfeita a totalidade dos interesses em presença, isto é, os do devedor, os dos credores e os da comunidade em geral.
U. Não foi alegado e provado por nenhum credor o prejuízo que lhe adveio pelo facto de as negociações durarem mais 17 dias (!!!),contados desde a data do término dos três meses (29.04.2016) até ao fim da votação (16.05.2016), pelo que os pedidos de não homologação concretizados pelos credores deveriam ter sido indeferidos por falta de fundamento legal. V. Salvo melhor e mais douta opinião, a aprovação de um plano de revitalização, com a
manutenção em actividade da devedora, agora em termos de poder recuperar e vir a cumprir as suas obrigações, é, certamente, mais favorável para a sociedade e para os credores, do que a manutenção daquela, mas numa situação económica difícil ou mesmo de insolvência iminente que a levou a requerer o PER.
W. Ora, “tendo sido alcançada a aprovação de um plano de revitalização, nos termos em que o foi (…) afigura-se-nos contrário ao espírito da lei e aos objectivos do legislador permitir que apenas razões de ordem formal obstem à sua aceitação e, eventual, homologação” como aconteceu nos presentes autos, cfr. Ac. RL de 09.12.2014, proc. 62/14.3TYLSB-A.L1, in www.dgsi.pt.
X. Mais, “se as negociações se prolongarem para além do prazo fixado para o efeito e, apesar disso ou provavelmente até por causa disso, culminarem com a aprovação do plano, não parece que esta circunstância – só por si – deva conduzir à recusa da homologação do plano de
recuperação aprovado”. Cfr. Ac. RL de 10.04.2014, proc. 8972/13.9T2SNT.L1-7, in www.dgsi.pt. Y. “Ora, o que a lei não autoriza é que se violem os princípios fundamentais estruturantes do processo em análise, como o é, desde logo, o da igualdade de todos os credores – par creditio creditoris. Já não assim, é de crer, se se verificar um insignificante prolongamento do prazo, justificado com a necessidade de chamar todos os credores, sobretudo aqueles que não
intervieram nas negociações, a exercer o seu direito de votar o PER, na intenção de congregar a maioria qualificada à sua aprovação, destarte satisfazendo não só os interesses privados mas também os interesses públicos subjacentes e motivadores da abertura do processo de
negociação”, cfr. Ac. RG de 09.04.2015, proc. 958/14.2TBGMR.G1, in www.dgsi.pt.
Z. Assim, se “por outro lado, e ainda ressalvado o devido respeito, não se concorda que estejamos perante um prazo de caducidade (cfr. Luís Carvalho Fernandes e João Labareda ob. cit. pág. 161) porquanto é o princípio primeiro da Resolução do Conselho de Ministros n.º 43/2011 que
expressamente refere que “o procedimento corresponde a um compromisso assumido entre o devedor e os credores envolvidos e não a um direito”, cfr. Ac. RG de 09.04.2015, proc.
958/14.2TBGMR.G1, in www.dgsi.pt.
AA. Veja-se que muitos dos votos que tiveram lugar depois do dia 29 de Abril de 2016,
nomeadamente nos dias 3, 11 e 12 de Maio de 2016, dos credores “C…, LDA.”, “D…, LDA.”, “E…, LDA.”, “F…, S.A.”, “G…, LDA.”, “H…, LDA.”, “I…, S.A.”, “J...,LDA”, “K…, LDA.” e “L…, LDA.” foram votos favoráveis.
BB. A decisão de não homologação constituiu uma decisão surpresa, injusta e depreciadora da participação e dos interesses dos credores da recorrente, fazendo incorrer o Tribunal a quo, ainda que de modo não querida, em parte do problema e não da solução.
preterir os votos dos credores que, admitidos a votar, viabilizaram o plano de revitalização. DD. Não homologar o plano depois do esforço enorme levado a cabo pela recorrente junto dos seus credores com base numa interpretação errónea da lei fazendo prevalecer um entendimento meramente formal em detrimento da matéria representada pela manifesta intenção dos credores, em prazo, de permitirem a recuperação da entidade comercial em vista ao ressarcimento dos créditos reclamados, constituiu, isso sim, uma entorse ao espírito da lei.
EE. A recorrente não ignora que o Tribunal possa recusar oficiosamente, como fez a Meritíssima Juiz a quo, a homologação do plano no caso de violação não negligenciável das regras
procedimentais nos termos do art. 215.º do CIRE, aplicáveis ao PER por força do art. 17.º-F, n.º 5 do CIRE.
FF. Ora, a Meritíssima Juiz a quo entendeu ser não negligenciável a violação de uma norma imperativa, como é, no seu entender, com o qual discordamos, o art. 17.º-D, n.º 5, o que,
consequentemente, terá acarretado a produção de um resultado que a lei não autoriza, porquanto a violação de uma norma imperativa consubstancia uma nulidade.
GG. Transcreve a Meritíssima Juiz a quo as palavras LUÍS A. CARVALHO FERNANDES E JOÃO LABAREDA: “violação não negligenciável (…) verdadeiramente do que se trata para decidir se ela justifica ou não a recusa de homologação de um plano aprovado pelos credores - que é afinal de contas aquilo que está em causa – é de avaliar a relevância, ou não, da violação constatada” (destaque nosso).
HH. Os mesmos autores acrescentam que “aqui chegados parece razoável atender ao critério geral que a própria lei processual utiliza no art. 201.º do C. P. Civil [actualmente art. 195.º do CPC]. O que importará é, pois, sindicar se a nulidade observada é susceptível de interferir com a boa decisão da causa, o que significa valorar se interfere ou não com a justa salvaguarda dos
interesses protegidos ou a proteger – nomeadamente, no que respeita à tutela devida à posição dos credores e do devedor nos diversos domínios em que se manifesta – tendo em conta o que é, apesar de tudo, livremente renunciável” (LUÍS A. CARVALHO FERNANDES E JOÃO LABAREDA, Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas Anotado, Manual da Propriedade
Horizontal, Quid Juris, 2005, pág. 119).
II. Ora, no caso em concreto, a relevância da ultrapassagem do prazo previsto no art. 17.º -D, n.º 5 do CIRE reconduziu-se, precisamente, à aprovação do PER que é o objectivo fulcral de todo este instituto, sendo por isso inimaginável a recusa da homologação do referido plano com todas as consequências já explicitadas supra para todos os intervenientes.
JJ. Destarte, o voto contra a aprovação do PER não pode ser entendido como não participação nas negociações.
KK. Nunca é demais repetir que o prazo de três meses foi ultrapassado em 17 dias (!!!) tendo advindo desse circunstancialismo, e em jeito de consequência, a aprovação do plano.
LL. A recusa da Meritíssima Juiz a quo deve-se apenas a razões de ordem formal.
MM. “Considerados os interesses públicos que subjazem ao processo, o primado da vontade das partes que constitui o seu princípio estruturante, e as características de flexibilidade e eficiência que o enformam, se se vier a reconhecer que todos estão de boa fé e não usaram de expedientes dilatórios, (…) não deverá o plano de revitalização aprovado deixar de ser homologado, sendo de excluir a natureza peremptória ao prazo estabelecido no n.º 5 do art.º 17.º-D do CIRE, (…)” cfr. Ac. RG de 09.04.2015, proc. 958/14.2TBGMR.G1, in www.dgsi.pt.
NN. Deve por isso ser proferida nova decisão que homologue o plano de revitalização aprovado pelos credores, o que desde já se requer.
OO. Foi ainda violado o princípio do contraditório por não ter o Tribunal a quo notificado o Exmo. Senhor Administrador Judicial Provisório nem a recorrente para se pronunciarem acerca da demora na conclusão das negociações e por ter decidido a não homologação do plano sem que a
recorrente tenha tido a possibilidade de se pronunciar.
PP. Findo o referido prazo de três meses deveria a Meritíssima Juiz a quo ter fixado um prazo judicial para que fosse esclarecida a demora e posteriormente homologado o plano, o que não fez. Prosseguindo:
QQ. Aquando a aprovação do plano em 01.06.2016 foram os credores notificados para “se pronunciarem querendo e em 10 dias, sobre a homologação/ não homologação do plano”.
RR. No que concerne à nulidade do despacho por violação do Princípio do Contraditório, importa referir que os credores “M…”, “N…, S.A.” e “O…, S.A.” requereram a não homologação do plano. SS. Já a credora “P…, S.A.” requereu a homologação do plano.
TT. No entanto, e perante a posição assumida pelos credores “M…”, “N…, S.A.” e “O…, S.A.” impunha-se à Meritíssima Juiz a quo o exercício do contraditório antes da tomada de qualquer decisão, o que não se verificou, tendo a mesma violado um princípio basilar em direito, o Princípio do contraditório.
UU. Dispõe o art. 3.º, n.º 3 do Código de Processo Civil que “O juiz deve observar e fazer cumprir, ao longo de todo o processo, o princípio do contraditório, não lhe sendo licito, salvo caso de manifesta desnecessidade, decidir questões de direito ou de facto, mesmo que de conhecimento oficioso, sem que as partes tenham tido a possibilidade de sobre elas se pronunciarem.”
VV. Está aqui em causa a aplicação do princípio da igualdade de armas, que decorre da Lei Fundamental, no seu art. 20.º e na própria Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, Jornal Oficial das Comunidades Europeias, C 364/1,
http://www.europarl.europa.eu/charter/pdf/text_pt.pdf, no seu art. 47.º.
WW. Com efeito, se perante o julgador ambas as partes estão em igualdade, ambas devem ter idêntica oportunidade de expor as suas razões, além de que a melhor fiscalização da actividade de uma das partes é a sua sujeição à pronúncia da parte contrária, tudo resultando em favor da
procura da decisão mais justa.
XX. É também preconizado como princípio pelo Ali / Unidroit Principles Of Transnational Civil Procedure, ponto 3 (Procedural Equality of the Parties), in
www.unidroit.org/instruments/transnational-civil-procedure.
YY. Tal princípio tem uma incidência concreta, relativamente a toda e qualquer questão suscitada no processo, e não apenas um carácter genérico, por referência ao processo na sua globalidade. ZZ. Não há ponta de dúvida de que a violação influiu na decisão que veio a ser tomada dado que a Meritíssima Juiz a quo decidiu-se pela não homologação do plano sem que a recorrente fosse notificada para exercer o contraditório relativamente aos credores em questão nem tão pouco para “dizer de sua justiça” relativamente à decisão de não homologação que veio a ser por si tomada. AAA. Assim, a violação do princípio do contraditório constitui uma omissão judicial grave, e porque influiu, está demonstrado, no exame e consequente decisão da causa encerra uma nulidade processual prevista no art. 195.º do Código de Processo Civil, a qual se argui desde já para todos os legais efeitos.
BBB. Tudo isto demonstra o desajuste da decisão recorrida.
CCC. Foram violados entre outros os artigos 17-A e 17-D do CIRE e 195 do CPC e o princípio da proporcionalidade nos termos alegados.*Foram apresentadas contra-alegações pelo credor “N…, S.A.”, pugnando pela improcedência do recurso.*Dispensados os vistos legais, cumpre decidir.***
II- DELIMITAÇÃO DO OBJETO DO RECURSOO objeto do recurso é delimitado pelas conclusões da alegação do recorrente, não podendo este tribunal conhecer de matérias nelas não incluídas, a não ser que as mesmas sejam de conhecimento oficioso – cfr. arts. 635º, nº 4, 637º, nº 2, 1ª parte e 639º, nºs 1 e 2, todos do Cód. Processo Civil.
Porque assim, atendendo às conclusões das alegações, são duas as questões solvendas: . determinar se o prazo estabelecido no nº 5 do art. 17º-D do CIRE para a conclusão das
negociações do plano de revitalização assume (ou não) natureza de prazo perentório, importando o seu decurso o encerramento do processo;
. determinar se, em caso de resposta afirmativa à questão anterior, a sentença recorrida enferma de vício de nulidade por o tribunal a quo não ter notificado o administrador judicial provisório nem a recorrente para se pronunciarem acerca da demora na conclusão das negociações e, bem assim, por ter decidido a não homologação do plano pelo decurso do prazo do prazo das negociações sem que a recorrente tenha tido a possibilidade de se pronunciar sobre essa matéria.***
III- FUNDAMENTOS DE FACTOA factualidade a atender é a que dimana do antecedente relatório.***
IV - FUNDAMENTOS DE DIREITOIV.1- Da qualificação jurídica do prazo estabelecido no nº 5 do art. 17º-D do CIRE
Como é consabido, o processo especial de revitalização (PER) foi introduzido no nosso
ordenamento jurídico pela Lei nº 16/2012, de 20.04, que aditou os artigos 17.º-A a 17.º-I ao Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas[1].
Trata-se, como tem sido assinalado[2], de um processo urgente que visa combater o
desaparecimento prematuro de agentes económicos do tecido empresarial que, não obstante as dificuldades financeiras que atravessam, sejam economicamente viáveis.
Deste modo, o PER tem como finalidade, em momento anterior ao da insolvência, permitir ao devedor que se encontre em situação económica difícil ou em situação de insolvência iminente, mas cuja recuperação seja ainda possível, estabelecer negociações com os respetivos credores de modo a alcançar um acordo com estes tendente à sua recuperação (cfr. art. 17º-A, nº 1).
Ora, essas negociações devem ocorrer dentro de um determinado lapso temporal que, por via de regra, é de dois meses, prevendo a lei a possibilidade de o prazo para as concluir poder ser prorrogado por um período adicional de um mês.
Dispõe, com efeito, o nº 5 do art. 17º-D que “findo o prazo para impugnações, os declarantes dispõem de um prazo de dois meses para concluir as negociações
encetadas, o qual pode ser prorrogado, por uma só vez e por um mês, mediante acordo prévio e escrito entre o administrador judicial provisório nomeado e o devedor, devendo tal acordo ser junto aos autos e publicado no portal Citius”.
Portanto, como emerge do inciso transcrito, o prazo a quo para o decurso das negociações inicia-se com o termo que é fixado para se poder impugnar os créditos (ou seja, de acordo com o nº 3 do art. 17º-D, cinco dias úteis após a publicação da lista provisória de créditos no Portal Citius), prazo esse que, in casu, teve o seu início no dia 29 de janeiro de 2016, verificando-se o seu dies ad quem em 29 de abril desse mesmo ano, posto que o prazo para as negociações foi prorrogado por um mês. Certo é que nessa data não se mostrava ainda junto aos autos o resultado das negociações (registando-se que a diligência de abertura de votos somente teve lugar no dia 24 de maio de 2016), o que conduziu o tribunal a quo a proferir decisão de não homologação do plano com a consequente declaração de encerramento do processo nos termos do nº 1 do art. 17º-G[3], decisão essa que se ancorou no entendimento de que o aludido prazo assume natureza perentória, pelo
que, uma vez ultrapassado, não pode o plano de recuperação do devedor ser homologado. É exatamente neste ponto que se situa o âmago do objeto do presente recurso, já que é
primordialmente em relação à afirmação da natureza perentória desse prazo que se reporta, em termos úteis, a divergência recursiva apresentada pela apelante, que esgrime argumentação no sentido de que o mesmo não assume a apontada natureza.
A questão tem sido largamente debatida na jurisprudência pátria, perfilando-se, essencialmente, dois posicionamentos sobre tal temática.
Assim, para uns esse prazo não tem natureza perentória, pelo que prolongando-se as negociações para além do período legalmente fixado, e alcançado o pretendido acordo com os credores, esta circunstância não constitui fundamento para recusar a homologação do plano de recuperação aprovado[4]. Outros, porém, vêm advogando que o mencionado prazo assume inequivocamente natureza perentória e preclusiva pelo que o seu decurso implica o encerramento do processo[5]. Esta última posição (que se apresenta como majoritária) vem sendo sufragada, como se deu nota, pelo STJ, o qual foi chamado a pronunciar-se sobre a aludida problemática, ao abrigo do disposto no art. 14º, nº 1, 2ª parte, em resultado, precisamente, da oposição de julgados que se vinha registando na jurisprudência das Relações.
Consequentemente, na resolução da enunciada questão, haverá, naturalmente, que ter em particular consideração o sentido decisório que vem sendo trilhado por aquele Alto Tribunal que, reiteradamente, vem considerando que o prazo para a conclusão das negociações tendentes à revitalização do devedor, fixado no nº 5 do art. 17º-D, é perentório ou preclusivo.
Na sustentação desse posicionamento vem-se convocando, desde logo, a exposição de motivos da proposta de Lei n.º 39/XII (que deu origem à iniciativa legislativa que criou o processo especial de revitalização) onde expressamente se refere que “o processo terá o seu início com a manifestação de vontade do devedor e de, pelo menos, um dos seus credores, no sentido de se encetarem negociações, que não poderão exceder os três meses [sublinhado nosso]. Durante este período, suspendem-se as ações que contra si sejam intentadas com a finalidade de lhe serem cobradas dívidas, assegurando-se, assim, a existência da necessária calma para reflexão e para criação de um plano de viabilidade para o devedor que se encontre em negociações”.
Emerge, assim, do referido trecho que foi propósito confesso do legislador sujeitar as negociações a um prazo estanque. Isso mesmo veio a ser vertido em letra de forma, já que, como resulta indelevelmente da concatenação entre o nº 5 do art. 17º-D e os nºs 1, 2 e 3 do art. 17º-G, o texto legal aponta decisivamente no sentido do caráter essencial do prazo em causa, dado que o prazo (normal) de dois meses apenas pode ser prorrogado (por um mês) uma única vez e de forma consensual formalizada.
Acresce que não se pode desconsiderar que estamos em presença de um prazo estabelecido no âmbito de um procedimento marcado pela urgência na sua tramitação (n.º 3 do art. 17°-A), não fazendo, por isso, sentido admitir que o mesmo possa ficar sujeito à idiossincrasia ou vicissitudes de cada caso, tanto mais que durante a sua pendência operam determinados efeitos processuais que limitam consideravelmente o exercício dos direitos dos credores da requerente devedora. De facto, por mor do disposto no nº 1 do art. 17º-E, o credor, logo após a prolação do despacho de nomeação do administrador judicial provisório, encontra-se impedido de instaurar quaisquer ações para cobrança de dívidas contra o devedor requerente e, durante todo o tempo por que perdurarem as negociações, ficam suspensas, quanto a ele, as ações em curso com idêntica finalidade.
Compreende-se, nessa medida, a atribuição de natureza perentória ao mencionado prazo, porquanto a compressão [rectius, limitação no exercício] dos direitos dos credores tem que ser
reduzida à menor expressão temporal possível, o que, a esta luz, também induz à bondade da ideia que confere essencialidade preclusiva ao prazo legalmente previsto para as negociações.
Daí que, sob um tal contexto teleológico das normas de direito adjetivo envolvidas, se nos afigure que a prorrogação do prazo por mais um mês legalmente admitida (ainda assim de forma
consensual solenizada) deve ser vista como uma concessão de uma oportunidade final e não como manifestação da inexistência de uma baliza temporal fixa. Enfim, como tem sido aduzido pelos sequazes desta tese (que igualmente acolhemos), o processo de revitalização pressupõe uma atuação célere e delimitada no tempo, de molde a que a situação do devedor fique definida
rapidamente (inclusivamente com vista a impedir que o processo se possa tornar num mecanismo dilatório utilizado pelo devedor, em subversão do propósito da lei), o que justifica a perentoriedade do prazo em causa.
Destarte, é apodítico concluir que a prejudicialidade que o prazo das negociações tem sobre os direitos dos credores da requerente devedora determina que a sua ultrapassagem não possa, contrariamente à argumentação expendida pela apelante, ser considerada violação meramente negligenciável de regras procedimentais para os efeitos do disposto no art. 215º (ex vi do n° 5 do artigo 17°-F), isto é, uma violação menor. Ao invés, trata-se de uma violação não negligenciável[6], precisamente porque tal ultrapassagem entra em colisão com o princípio geral da possibilidade de fazer submeter imediatamente o património do devedor aos fins da satisfação das suas dívidas. Registe-se que idêntico posicionamento vem sendo seguido pela doutrina que se tem pronunciado sobre a questão[7], que enfatiza, em particular, que se está em presença de um prazo corrido, comungando a fase negocial do caráter de urgência que é genericamente atribuído ao processo de revitalização pelo art.17º-A, n.°3.
Isso mesmo é sublinhado, verbi gratia, por CARVALHO FERNANDES e JOÃO LABAREDA, que a este propósito escrevem que «nos termos em que está concebido, trata-se de um prazo de
caducidade, razão pela qual, se o acordo só for obtido para além dele, não pode já ser homologado por violação não negligenciável da lei – art. 215.°, aplicável por imperativo do art. 17.°-F, n.°5. Aliás, segundo a disposição expressa do art. 17.°-G, n.°1, o processo negocial é encerrado se for ultrapassado o prazo aqui estabelecido.
Por esta mesma ordem de razões, para poder ser válido e eficaz, o acordo de prorrogação entre o devedor e o administrador terá de ser concluído antes de terminado o prazo inicial, exatamente porque doutra forma há a caducidade que não é reversível».
Concluímos, assim, na esteira da doutrina e jurisprudência majoritária (mormente do STJ), que o prazo fixado no nº 5 do art. 17º-D do CIRE, para a conclusão das negociações tendentes à revitalização do devedor, é perentório ou preclusivo, não se nos revelando convincente, de jure condito, o argumentário aduzido pela posição contrária, maxime perante a assinalada ratio essendi da consagração desse prazo.
Consequentemente decorrido o mesmo sem que as negociações estejam concluídas, o processo negocial fica encerrado, não podendo ser homologado o plano que venha, ainda assim, a ser aprovado, por ocorrer uma violação não negligenciável da referida regra procedimental, dada a sua natureza cogente.
Como assim, revertendo ao caso sub judicio, perante o enunciado substrato factual, vemos que quando o processo negocial ficou concluído estava já ultrapassado o prazo (máximo) de três meses fixado na lei para a conclusão das negociações.
Daí que, tal como se entendeu no ato decisório sob censura, se impunha o cumprimento do
processo negocial, não havendo, por conseguinte, plano de recuperação válido para homologar. Improcedem, pois, as conclusões A a NN.*IV.2 – Da nulidade da decisão por inobservância da contraditoriedade e por constituir uma decisão-surpresa
Como se deu nota, a apelante suscita nas suas alegações recursórias, ainda que subsidiariamente, a questão da nulidade da decisão recorrida, porquanto, segundo advoga, a mesma foi prolatada sem prévio cumprimento do princípio do contraditório relativamente à questão da natureza jurídica do prazo estabelecido no nº 5 do art. 17º-D, sendo certo que tal ato decisório constituiu uma decisão-surpresa ao afirmar a perentoriedade desse prazo com o consequente encerramento do processo.
O mencionado princípio mostra-se plasmado, em termos gerais, no art. 3º do Cód. Processo Civil, sendo que, na sua vertente de direito de resposta, o seu nº 3 expressamente dispõe que “o juiz deve observar e fazer cumprir, ao longo de todo o processo, o princípio do contraditório, não lhe sendo lícito, salvo caso de manifesta desnecessidade, decidir questões de direito ou de facto, mesmo que de conhecimento oficioso, sem que as partes tenham tido a possibilidade de sobre elas se pronunciarem”.
Como tem sido assinalado, o transcrito segmento normativo veio ampliar o âmbito da regra do contraditório, tal como era tradicionalmente entendida, como garantia de uma discussão dialética entre as partes ao longo do desenvolvimento do processo.
Isso mesmo é enfatizado por LEBRE DE FREITAS[8], segundo o qual «a esta conceção, válida mas restritiva, substitui-se hoje uma noção mais lata de contraditoriedade, com origem na garantia constitucional do “rechtliches Gehör” germânico, entendida como garantia da participação efetiva das partes no desenvolvimento de todo o litígio, mediante a possibilidade de, em plena igualdade, influírem em todos os elementos (factos, provas, questões de direito) que se encontram em ligação com o objeto da causa e que em qualquer fase do processo apareçam como potencialmente
relevantes para a decisão. O escopo principal do princípio do contraditório deixou assim de ser a defesa, no sentido negativo de oposição ou resistência à atuação alheia, para passar a ser a influência, no sentido positivo de direito de incidir ativamente no desenvolvimento e no êxito do processo».
No entanto, o entendimento amplo da regra da contraditoriedade, nos moldes afirmados na citada dimensão normativa, não pretende, obviamente, significar a limitação da liberdade de subsunção ou de qualificação jurídica dos factos pelo juiz – tarefa em que, por mor da regra enunciada no nº 3 do art. 5º do Cód. Processo Civil, continua a não estar sujeito às alegações das partes relativas à indagação, interpretação e aplicação das regras de direito.
Significa isto, portanto, que o sentido útil do nº 3 do art. 3º é o de que, previamente ao exercício dessa liberdade subsuntiva, o julgador deve facultar às partes a dedução das razões que
considerem pertinentes, perante um possível enquadramento ou qualificação jurídica do pleito, ou uma eventual ocorrência de exceções dilatórias, com que elas não tinham razoavelmente podido contar, ou seja, sob o enfoque da referida normatividade, o julgador apenas está constituído no dever[9] de observar a contraditoriedade quando esteja em causa uma inovatória e inesperada questão de direito que não tenha, de todo, sido perspetivada pelos litigantes de acordo com um adequado e normal juízo de prognose sobre o conteúdo e sentido da decisão[10].
Ora, no caso vertente, não pode considerar-se estar em presença de uma questão jurídica inesperada ou surpreendente no apontado sentido, porquanto, em consonância com o regime vertido no nº 5 do art. 17º-F, na fase judicial do PER a intervenção do julgador consiste,
primordialmente, na pronúncia sobre a verificação dos requisitos necessários para a homologação do plano de revitalização, entre os quais se conta, precisamente, o da sua apresentação dentro do período temporal legalmente fixado (posto que a sua inobservância consubstancia, como se referiu, violação não negligenciável de regras procedimentais – cfr. art. 215º ex vi do art. 17º-F, nº 5 in fine). Destarte, a possibilidade de não homologação do plano pelo decurso do mencionado prazo não surge, neste contexto, como uma nova questão jurídica que justifique uma prévia intervenção jurisdicional de observância do disposto no nº 3 do art. 3º do Cód. Processo Civil, não
consubstanciando, pois, a decisão recorrida (de não homologação do plano por ter sido apresentado já para além do prazo máximo legalmente definido) uma decisão-surpresa[11]. De igual modo, em face da perentoriedade desse prazo, não se antolha válido fundamento que justificasse a impetrada notificação do administrador judicial provisório e da ora apelante “para se pronunciarem acerca da demora na conclusão das negociações”.
A presente apelação terá, pois, de improceder in totum.***
V- DECISÃOPelos fundamentos acima expostos, acordam os Juízes deste Tribunal da Relação em julgar a apelação improcedente, confirmando-se a decisão recorrida.
Custas do recurso a cargo da apelante. Porto, 24.10.2016
Miguel Baldaia Morais
Jorge Seabra (dispensei o visto) Sousa Lameira (dispensei o visto) ______
[1] Diploma a atender sempre que se citar disposição legal sem menção de origem.
[2] Cfr., por todos, CARVALHO FERNANDES e JOÃO LABAREDA, Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas Anotado, 3ª edição, pág. 137 e seguinte e CATARINA SERRA, O
Processo Especial de Revitalização na Jurisprudência, págs. 11 e seguintes, que o carateriza como um processo híbrido que combina uma fase informal (ou negocial) e uma fase formal (judicial), ressaltando outrossim que o mesmo é dominado pela autonomia dos credores e da devedora, pela desjudicialização e bem assim pela celeridade.
[3] No qual se preceitua que “caso o devedor ou a maioria dos credores prevista no nº 3 do artigo anterior concluam antecipadamente não ser possível alcançar acordo, ou caso seja ultrapassado o prazo previsto no nº 5 do art. 17º-D, o processo negocial é encerrado, devendo o administrador judicial provisório comunicar tal facto ao processo, se possível, por meios eletrónicos e publicá-lo no portal Citius”.
[4] Cfr., neste sentido e inter alia, acórdãos da Relação de Lisboa de 10.04.2014 (processo nº 8972/13.9T2SNT.L1-7) e de 9.12.2014 (processo nº 62/14.3TYLSB-A.L1) e da Relação de Guimarães de 9.04.2015 (processo nº 958/14.2TBGMR.G1) e de 17.12.2015 (processo nº
3245/14.2T8GMR.G1), todos acessíveis em www.dgsi.pt, sendo que em tais arestos se convoca como principal fundamento em sustentação da tese neles sufragada a ideia de que os interesses públicos que subjazem ao PER, o primado da vontade das partes que constitui seu princípio
estruturante, e as caraterísticas de flexibilidade e eficiência que o enformam, militam no sentido de o plano de revitalização que vier a ser aprovado, ainda que já para além do prazo fixado na lei para a ultimação das negociações entre devedor e credores, dever ser homologado, contanto se
reconheça que todos estão de boa-fé e não usaram de expedientes dilatórios.
(processo nº 1557/14.4TBMTJ.L1.S1) e de 19.04.2016 (processo nº 7543/14.7T8SNT.L1.S1), acórdãos da Relação de Coimbra de 21.10.2014 (processo nº 2081/13.8TBPBL-A.C1) e de
3.11.2015 (processo nº 4312/14.8T8VIS.C1), acórdãos desta Relação de 18.02.2016 (processo nº 1218/14.4T8STS.P1) e de 29.02.2016 (processo nº 2463/14.8T8VNG.P1 – de que foi relator um dos adjuntos no presente acórdão) e acórdãos da Relação de Lisboa de 13.03.2014 (processo nº 1904/12.3TYLSB.L1-2), de 20.11.2014 (processo n.º 14286/14.14.0T2SNT-A.L1-8) e de 5.02.2015 (processo n.º 85/14. 2TJLSB.L1-8), todos disponíveis em www.dgsi.pt.
[6] Como é sabido, a lei não definiu o que se deva entender por vícios não negligenciáveis.
Todavia, como escrevem CARVALHO FERNANDES e JOÃO LABAREDA (ob. citada, págs. 713 e seguinte), “não será (…) especialmente difícil identificar, tanto na área do procedimento como na do conteúdo, situações que, consubstanciando todas elas a transgressão do que está legalmente determinado, em todo o caso revelam diferenças notórias no que tange à tutela dos interesses em causa, às vezes com o reconhecimento expresso da própria lei”. E depois de elencarem vários exemplos, concluem que há um critério geral que é possível apontar, qual seja o de que “são não negligenciáveis todas as violações de normas imperativas que acarretem a produção de um resultado que a lei não autoriza. Diversamente, são descartáveis as infrações que atinjam simplesmente as regras de tutela particular que podem, todavia, ser afastadas com o
consentimento do protegido”. Em análogo sentido tem militado a casuística que, neste domínio, vem considerando deverem ter-se por não negligenciáveis as violações de normas imperativas que acarretem a produção de um resultado não permitido pela lei, influindo na decisão do PER – cfr., por todos, acórdão da Relação de Lisboa de 25.11.2014 (processo nº 1999/13.2TYLSB.L1) e acórdão desta Relação de 8.07.2015 (processo nº 261/14.8TYVNG.P1), ambos acessíveis em www.dgsi.pt.
[7] Assim, CARVALHO FERNANDES e JOÃO LABAREDA (in Código da Insolvência e da
Recuperação de Empresas Anotado, 3ª edição, pág. 156 e seguinte), ANA PRATA et alii (in Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas Anotado, pág. 69 e seguinte), MARIA DO
ROSÁRIO EPIFÂNIO (in Manual de Direito da Insolvência, 5ª edição, pág. 280) e NUNO SALAZAR CASANOVA e SEQUEIRA DINIS (in Processo Especial de Revitalização, pág. 81).
[8] In Introdução ao Processo Civil, Conceitos e Princípios Gerais à luz do Código Revisto, pág. 96. [9] Registe-se que a inobservância desse dever pode, efetivamente, gerar uma nulidade
processual, vício que é passível de ser arguido em sede recursória, na medida em que essa nulidade processual é consumida por uma nulidade da sentença por excesso de pronúncia (art. 615º, nº 1 al. d) do Cód. Processo Civil), dado que, sem a prévia audição das partes, o tribunal não pode conhecer do fundamento que utilizou na sua decisão.
[10] Cfr., neste sentido, LOPES DO REGO, in Comentários ao Código de Processo Civil, 2ª edição, vol. I, pág. 33, onde afirma que «a audição excecional e complementar das partes, precedendo a decisão do pleito e realizada fora dos momentos processuais normalmente idóneos para produzir alegações de direito, só deverá ter lugar quando se trate de apreciar questões jurídicas suscetíveis de se repercutirem, de forma relevante e inovatória, no conteúdo da decisão e quando não fosse exigível que a parte interessada a houvesse perspetivado durante o processo, tomando
oportunamente posição sobre ela», acrescentando, mais adiante (pág. 34), que «não deverá “banalizar-se” a audição atípica e complementar das partes, ao abrigo do [artigo 3º, nº 3 do Cód. Processo Civil], de modo a entender-se que toda e qualquer mutação do estrito enquadramento legal que as partes deram às suas pretensões passa necessariamente pela atuação do preceituado no art. 3º, nº 3».
[11] A propósito do conceito de decisão-surpresa (também denominada de decisão solitária do juiz), a jurisprudência tem considerado que a mesma ocorre se o juiz de forma absolutamente inopinada e apartado de qualquer aportamento factual ou jurídico envereda por uma solução que os sujeitos processuais não quiseram submeter ao seu juízo, surgindo, pois, a sua imprevisibilidade como marca definidora – cfr., por todos, acórdãos do STJ de 27.09.2011 (processo nº
2005/03.0TVLSB.L1.S1) e de 4.06.2009 (processo nº 09B0523), acessíveis em www.dgsi.pt,