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Folia de reis: tradição e modernidade

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Academic year: 2021

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INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA

Marcos Vinícius Macedo Varella

FOLIA DE REIS: TRADIÇÃO E MODERNIDADE

Niterói 2018

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FOLIA DE REIS: TRADIÇÃO E MODERNIDADE

Monografia apresentada ao Curso de Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Bacharel em Antropologia.

Orientador: Prof.º Dr. Daniel Bitter

Niterói 2018

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Bibliotecária responsável: Angela Albuquerque de Insfrán CRB7/2318 M141f Macedo Varella, Marcos Vinícius

Folia de Reis: Tradição e Modernidade / Marcos Vinícius Macedo Varella; Daniel Bitter, orientador. Niterói, 2018.

65 f. : il.

Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Antropologia)-Universidade Federal Fluminense, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Niterói, 2018.

1. Identidade Cultural. 2. Folia de Reis. 3. Antropologia Social. 4. Tradição. 5. Produção intelectual. I. Título

II. Bitter,Daniel, orientador. III. Universidade Federal Fluminense. Instituto de Ciências Humanas e Filosofia. Departamento de Antropologia.

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-FOLIA DE REIS: TRADIÇÃO E MODERNIDADE

Esta monografia foi julgada adequada para a obtenção do Título de “bacharel” e aprovada em sua forma final pelo Curso de Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense.

Niterói, 17 de julho de 2018.

Banca Examinadora

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Prof. Dr. Daniel Bitter (Orientador)

____________________________ Prof.ª Dr.ª Gisele Fonseca Chagas Universidade Federal Fluminense

___________________________ Prof.ª Dr.ª Joana Miller Universidade Federal Fluminense

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cidade de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Mesmo com tantas dificuldades encontradas, ainda resistem a tudo e a todos.

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A minha família, que foi a principal ferramenta para jamais desistir de sonhar.

Ao meu orientador, Daniel Bitter, que é um verdadeiro guerreiro na luta pelo resgate da cultura de Folias de Reis, no Estado do Rio de Janeiro.

A Prof.ª Dr.ª Gláucia, que foi a responsável por fazer de minha vida um verdadeiro trabalho de campo, e com isso, produzindo minha própria etnografia.

Ao mestre Waldecy e os foliões do bairro Almerinda, em São Gonçalo, que foram essenciais para a construção desse discurso etnográfico.

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conhecer os grupos que produzem culturas múltiplas.

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Este trabalho é resultado de uma grande caminhada pela cultura do município de São Gonçalo, uma vez que remonta uma prática que perpassa o tempo. Antes de escolher o tema de minha pesquisa de campo, estava estudando para escrever meu livro sobre as Igrejas de São Gonçalo, o qual já foi lançado pelo selo editorial da Secretaria de Cultura do município de São Gonçalo e aprovado pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Foi, através de muitos encontros com os grupos de Folias de Reis, que resolvi ser mais participativo nas reuniões propostas pelos mesmos. Desta forma, construindo uma etnografia sobre o grupo, com a preocupação de que seus feitos não sejam esquecidos. Espero que esta pesquisa, fique para a posteridade, servindo como base para novos trabalhos de campo, sobre essa tão significativa manifestação da nossa cultura.

Palavras-Chave: 1. Identidade Cultural. 2. Folia de Reis. 3. Antropologia Social. 4.

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This work is the result of a long walk by the culture of the municipality of São Gonçalo, since it dates back a practice that transcends the time. Before choosing the theme of my field research, I was studying to write my book on the churches of São Gonçalo, which has already been launched by the editorial Department of culture seal of the municipality of São Gonçalo and approved by the Ministry of culture of the State in Rio de Janeiro. But it was through many encounters with groups of Folias de Reis that I decided to be more participatory in such meetings proposed by the same. In this way, building a Ethnography on the group in fear that their deeds be forgotten over time, where this material would be for posterity on new fieldwork.

Keywords: 1. Cultural identity. 2. Folia de Reis. 3. Social Anthropology. 4. Narrative. 5. Tradition.

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Figura 1 – Festa de Arremate com o Mestre Waldecy, a filha de Dona Almerinda que dá nome ao Bairro e o Contra Mestre

Figura 2 – A Festa de Arremate e os preparos dos instrumentos Figura 3 – Preparação para a reza da Bandeira antes do Giro Figura 4 – A Bandeira da Estrela Nova do Oriente

Figura 5 – Altar com os Santos e a Bandeira Figura 6 – A roupa do Palhaço

Figura 7 – O palhaço sentado antes de se fantasiar Figura 8 – Um Símbolo muito respeitado – pós morte Figura 9 – O Mestre Waldecy se preparando para o Giro Figura 10 – Uma nova geração na Folia de Reis

Figura 11 – Instrumentos preparados para o Giro Figura 12 – O Contra Mestre antes do Giro

Figura 13 – O sanfoneiro (centro) e o Contra Mestre (direita) Figura 14 – Mestre e Contra Mestre prontos para o Giro Figura 15 – O grupo de foliões preparados para o Giro Figura 16 – O uniforme para fazer o Giro

Figura 17 – Um encontro de Mestres: Waldecy a esquerda e Fumaça a direita Figura 18 – O Contra Mestre e a Porta Bandeira

Figura 19 – O tocador de bumbo do Giro

Figura 20 – Uma ilustre visita ao barracão com o Mestre Fumaça Figura 21 – O tocador de tarol do Giro

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FASG – Fundação de Artes de São Gonçalo

IHGN – Instituto Histórico e Geográfico de Niterói

IHGSG – Instituto Histórico e Geográfico de São Gonçalo

MEMOR – Instituto Gonçalense de Memória e Produções Culturais. NPN – Núcleo de Pesquisadores Niteroienses

SMTC – Secretaria Municipal de Turismo e Cultura UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro UFF – Universidade Federal Fluminense

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Apresentação

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Capítulo 1 - Origem da Folia de Reis 15

Capítulo 2 - A Festa de Arremate 19

Capítulo 3 - Principais elementos da Folia de Reis 24

3.1-A Bandeira 24

3.2- O Palhaço 28

Capítulo 4 - Modificações culturais na Folia de Reis 34

4.1- O choque de gerações, o encontro da tradição e a modernidade 34

4.2- A relação familiar: fortalecimento ou enfraquecimento? 47

Considerações Finais 53

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Apresentação

Este trabalho é o resultado de muitas participações e admiração pelos grupos de Folias de Reis. Antes de escolher o tema, de minha pesquisa, estava estudando e trabalhando na SMTC, e não sabia ainda, qual o campo gostaria de pesquisar para fazer meu trabalho de final de curso, ou seja, meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Após ter passado por algumas experiências realizando trabalho de campo, em diferentes áreas da antropologia, inclusive já com material para realizar outro trabalho, meu encantamento se voltou para algo que sempre fui apaixonado e que tive sempre um grande respeito. Depois de participar de muitas festas e analisá-las, através de grande crivo bibliográfico estudado no curso de antropologia, é que pude pensar em fazer um trabalho de campo de pesquisa etnográfica, o que foi extremamente gratificante e uma experiência cada vez mais intensa para a pesquisa, pois me envolvi profundamente a ponto de ser convidado e ficar “em cima do muro” para fazer o papel do palhaço ou ser padrinho da folia estudada.

Tudo tornou-se mais consolidado quando entrei em contato com materiais vastos de bibliografias da área. Sendo assim, o trabalho de campo tornou-se, ainda, mais rico, principalmente pelas experiências vividas e analisadas junto ao grupo. Muitas pessoas, não tem ideia da grande importância dessa prática cultural, uma vez que, perpassa o tempo e cria um diálogo com um modelo social vivido. As pessoas envolvidas fazem um trabalho fantástico para perpetuarem a Folia de Reis em nossa cultura popular, mesmo enfrentando uma grande dificuldade para a execução dos trabalhos.

Após quatro anos consecutivos, participando ativamente das atividades da Folia de Reis, no bairro Almerinda, com o Mestre Waldecy, e ajudando outras folias como: a do Mutuá, com o Mestre Fumaça e a do Engenho do Roçado, com o Mestre Caetano, ambos em São Gonçalo, percebi que meu trabalho de campo, foi ganhando estrutura, e as leituras feitas com as bibliografias voltadas à antropologia, multiplicou e trouxe novos questionamentos sobre toda a estrutura que abarca e dinamiza os grupos de Folias de Reis, não somente no município, mas em todos os locais do Brasil que praticam essa cultura, pois a mesma, se diferencia, e em muito, por local de prática.

Estas questões, certamente não tem uma resposta, mas passaram a me preocupar como um todo, assim como outros grupos que possuem, também, dificuldades

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múltiplas, pois o resgate de uma cultura jamais poderia deixar de existir, juntamente com suas práticas. Mas infelizmente, o que podemos dizer é que, a falência de tal atividade é vista pelo número que deixou de existir, pois eram uma média de quinze grupos de folia, e hoje, só existem três.

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Devemos em primeiro momento, termos a noção de identidade cultural, junto ao objeto estudado, a Folia de Reis, o que remonta a um antigo debate no campo dos estudos desses grupos, que em sua maioria tornam-se esquecidos pelo tempo. A antropologia, enquanto um campo de conhecimento específico, desenvolveu o método etnográfico, a partir desse método, nós, pesquisadores, podemos estar em contato, intensivo e direto, com o nosso objeto de pesquisa em locais únicos. Nesta pesquisa, pretendo apresentar uma breve etnografia, de um grupo de Folias de Reis presente no município de São Gonçalo. Este grupo possui diferentes características de outros grupos que praticam a mesma atividade cultural por todos os estados do Brasil, o que nos remeterá a algumas peculiaridades que serão abordadas a partir desse pressuposto. Desta forma, será apresentado materiais coletados através de entrevistas e análises diretas feitas junto aos praticantes e participantes indiretos.

Na verdade, a Folia de Reis é uma comemoração folclórica de origem religiosa dos quadros europeus, muito cultuada e respeitada na Espanha. No Brasil, recebe vários nomes, é conhecida em muitos estados como: a Festa de Reis, reisado ou mais simplesmente como a Folia de Reis.

Andei estudando tal prática, por algum tempo, e percebi que ela em seus primórdios era uma forma de celebrar a perseverança das andanças dos 3 reis magos, em busca do Messias. Eles nem ao menos sabiam se Ele existia, mas acreditavam, pois Deus tinha destacado para eles em suas mensagens.

O que se sabe na verdade, é muito pouco, nem se tem certeza que eram reis de verdade, podem ter sido sacerdotes de uma religião alternativa na antiga Pérsia, que buscavam seus deuses em coisas que não podiam explicar.

Na verdade, nem o número de reis magos é uma certeza, pois sabe-se que eram muito ricos, poderiam ser grandes comerciantes e estes naquela época tinham grande patrimônio. Eles eram assim caracterizados, devido à grande quantidade de presentes e perfumes, que traziam em sua bagagem, e principalmente pelas riquezas de suas vestimentas, ricamente trabalhadas e chamavam a atenção das demais pessoas naquele período.

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Essas comemorações começam no dia 25 de dezembro, o que representa o nascimento de Jesus e vai até dia 06 de janeiro, data provável da partida dos reis, para volta às suas longínquas terras, segundo a Bíblia no Evangelho de Mateus. Essa tradição ganhou mais força nas terras brasileiras, principalmente no século XIX, e mantem-se viva em muitas regiões do Brasil. No Rio de Janeiro, como tudo nos leva a grandes festas, essa data se estende até o dia 20, com muitas visitações, pois é data da comemoração de São Sebastião, padroeiro da cidade. As comemorações são mais fervorosas nos estados do sudeste e do sul, mas não podemos deixar de destacar que também no nordeste existem muitos grupos. Em estados como Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, onde as religiões de matrizes africanas e o catolicismo são mais fortes, as comemorações fazem parte do calendário oficial das principais cidades.

Para essas festas são organizados verdadeiros roteiros, que consistem na visitação das casas de devotos e simpatizantes, que se incluem numa grande lista pois, as mesmas serão visitadas. Os alimentos ficam por conta do dono da casa ou responsável, que faz verdadeiros banquetes para os foliões. O mesmo também fazer doações, que podem ser de diversas formas como: roupas, alimentos, dinheiro, remédios e outras coisas, que no final dos festejos, os responsáveis pelo recolhimento devem repassar para outras folias ou igrejas de sua região. Em uma conversa, o Pai de Santo, Geleia da Rocinha, narrou que, existiam vários grupos de folias de reis, em sua comunidade. Eram 5 grupos, cada um com uma cor diferente: rosa, azul claro, verde, amarelo, vermelho. No momento que se encontravam em determinadas vielas ou becos, era um verdadeiro duelo de cantigas e piruetas de seus palhaços mascarados. Mas o importante, é que não haviam nem vencidos e nem vencedores, pois depois de algum tempo cada grupo seguia o seu caminho em direções diversas, continuando as visitações às casas. Os grupos, também, tinham outras características marcantes, pois como falei, a visitação às casas, aconteciam do dia 25 de dezembro até o dia 20 de janeiro. O Sr. Geleia contou que nunca compreendia como arrumavam forças para ficarem 24 horas representando as peregrinações dos reis magos, só se alimentando e descansando nas casas que visitavam. Lá faziam suas orações de agradecimento e de pedido de graças pelas acolhidas. Os alimentos e doações que recebiam, e em muita quantidade, eram repassados. Cada grupo era composto pelos músicos, que englobavam sanfoneiros, tocadores de bumbo,

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de pratos, de violões, de reco-recos, de flautas e rebecas, 3 palhaços vestidos com roupas bem coloridas, que personificavam os soldados com suas vestimentas suntuosas

e que marcavam a riqueza.

A designação de cada membro do grupo, como: bandeireiro ou alferes de bandeira, tinha a função de carregar a bandeira do grupo, respeitosamente, como se fosse a bandeira de um país. Essa pessoa, geralmente, era o componente de melhor conduta no seio do grupo; o mestre ou embaixador, é o principal personagem da folia. É ele quem organiza a logística do grupo e responsável por todo o conhecimento passado para os foliões.

Existe, também, a figura do festeiro, que é como se fosse um presidente fundador do grupo, e é em sua casa, que os membros do grupo costumam se reunir para tratar de todos os pormenores das visitações. É de lá, que sai a bandeira, para ser benzida na igreja, quando começam e terminam os festejos. As canções, são hinos que muitas vezes só eles conseguem entoar, por serem quase inaudíveis, em virtude do caos sonoro, provocado pelos instrumentos, e em respeito as casas onde visitam. Outro motivo, também, é que aos poucos, as cantigas foram sendo adequadas aos idiomas de matrizes africanas, tornando quase impossíveis seus reconhecimentos.

Algumas das características marcantes são as cantigas de apresentação e de despedida dos grupos às casas que visitam, pois essas nunca mudam.

Na verdade, são múltiplas, as atenções para o significado. O que pude perceber, ao longo do trabalho de campo, foi visões e significados totalmente diferentes, inclusive, entre os membros do grupo. Um bom exemplo, é a chamada para o Rei Mago Baltazar, sempre enaltecido e colocado como um negro de destaque para alguns foliões. O Pai de Santo, Geleia da Rocinha, que apenas é um admirador, mas não participante dos eventos, não citou, em nenhum momento, tal colocação. Foi neste momento, que refleti sobre a condição e troca de informações dentro do trabalho, pois a construção de uma etnografia, tem uma forte presença, para diagnosticar as observações nas convivências dentro e fora, mas com rigor social sempre presente, onde seus membros diferenciam, e em muito, nas condições de diversidades de classes sociais.

Perceber claramente o significado transmitido pelos foliões, nos remete a algo de extrema nostalgia e respeito mútuo, pois a hierarquização presente norteia o diálogo

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entre todos. No momento, em que o mestre está falando algo, jamais alguém o interpela, e ficam prestando muita atenção na sua sabedoria, pois é considerado o grande guardião do conhecimento sobre a Folia de Reis.

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Na verdade, a celebração simboliza o encerramento das saídas da Folia no ano, e todos os trabalhos que antecedem e que os preparos são rigorosamente cobrados pelos mestres. A minha pesquisa de campo foi feita no bairro Almerinda, em São Gonçalo, sobre a Bandeira da Estrela do Oriente, do Mestre Waldecy. Vale destacar que, uma vez que é consagrado o arremate, os foliões realizam uma festa a fim de agradecer todos os ganhos ofertados à bandeira, doados pelos devotos que receberam a folia em suas casas. Nesse sentido, o arremate dos ganhos poderia ser estendido, não apenas em retribuição aos devotos convidados, mas também a outros grupos de Folias de Reis, de todo o Estado, pois existe um ritual de ajuda mútua entre eles. Percebi que, quando sobram, grande parte das doações são distribuídas para a realização de outras festas, pois nem todas as bandeiras conseguem o suficiente para a execução dos eventos. Inclusive, eu mesmo apadrinhei muitas festas de folias, como: a do Mestre Waldecy e do Mestre Caetano, que conseguiram poucas doações.

Figura 1 – Festa de Arremate com Mestre Waldecy, a filha de Dona Almerinda que dá nome ao Bairro e nosso saudoso contra mestre.

Nessa perspectiva, a Festa do Arremate seria um espaço de sociabilidade que permite a criação e a manutenção de alianças entre as folias por meio de convites mútuos. Mestre Waldecy conta que, antes da festa, vai à casa de cada mestre de folia ou a suas respectivas festas do arremate para convidá-los pessoalmente para a sua. No

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período em que eu acompanhava a Folia, a festa do Waldecy sempre foi organizada no mês de julho, próximo à data natalícia do mestre.

A organização das festas do arremate está vinculada aos santos de devoção dos foliões. Sabendo disso, os integrantes da Bandeira Estrela Nova do Oriente, organizam-se, anualmente, para comparecer aos encerramentos. Mestre Horizonte, da folia de reis Irmandade São Cristóvão, de Papucaia, realiza seu arremate no fim de semana próximo ao final do mês de maio, Dia de Nossa Senhora de Fátima (13 de maio). Mestre Fumaça, da Bandeira Nova Flor do Oriente, do município de São Gonçalo, faz seu festejo no primeiro final de semana de dezembro, próximo à data de Santa Bárbara, santa de devoção da família do mestre, Dia de Santa Maria Madalena, mesma santa de devoção do mestre João, da Bandeira Estrela Dalva do Oriente, de Jacarepaguá, que atualmente sai de Vila Isabel, do Morro dos Macacos. No caso destes dois últimos mestres, eles se preocupam em marcar a data de seus eventos em distintos finais de semana para não haver conflito de datas e, concomitantemente, enfraquecimento das festas. Desde o final de 2008 até 2018, período em que tenho acompanhado mestre Waldecy e sua bandeira, consegui compreender, melhor, como essas três festas são fundamentais para alicerçar as redes de sociabilidade e solidariedade entre os grupos. Há também as festas de Mestre Caetano, no Engenho do Roçado, também em São Gonçalo, Mestre Waldir, da Bandeira Estrela da Guia, de Campo Grande, e a da Bandeira Três Reis Guiados por São Jorge, do mestre Jorge de Itaboraí, realizadas no mês de maio (mês de Nossa Senhora), mas esses arremates não integram o corpo de festas de presença obrigatória.

Podemos perceber, que outra dimensão de sociabilidade presente no arremate, é a reciprocidade obrigatória (MAUSS, 2003), com o oferecimento e o comparecimento à festa de uma folia organizadora, pois a prática do convite gera a relação de comprometimento. Assim, ao ser convidado para uma Festa do Arremate, por um mestre, criam-se condições para um comprometimento moral e ético de aceitar e retribuir o convite. Além disso, gera-se a obrigação de se organizar uma festa tão boa quanto, e se possível melhor, que àquela para a qual o grupo de Folia de Reis foi convidado. Tais qualidades, mostram o quanto a festa do arremate se torna um circuito, que relaciona a Folia de Reis organizadora, as folias convidadas, os devotos, as coisas oferecidas e os santos para quem são oferecidas as coisas, sendo também um campo de disputa de autoridade, prestígio e reputação. Podemos também perceber, uma grande

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disputa entre as referidas, pois existem diferenças entre: fantasias, bandeiras, instrumentos e, até mesmo, na forma de transporte. Desta forma, fica evidente, as diferenças sociais, que são visíveis nas apresentações.

Figura 2 – A Festa de Arremate e os preparos dos instrumentos.

A Festa do Arremate é, portanto, um fato social total (MAUSS, 2003), que relaciona as mais variadas esferas que compõem o social: dimensões econômicas, estéticas, morais, religiosas, materiais, espirituais, visíveis, invisíveis, mundanas, extramundanas se entrelaçam para configurar a festa como um fato social total (BITTER, 2010, p. 67). A vantagem do uso dessa noção está em evidenciar, por exemplo, que as dimensões econômicas desse empreendimento não podem ser compreendidas a partir do modo como o Ocidente moderno concebeu o campo autônomo da economia. Aqui, trocas de dom e mercado entrelaçam-se, pessoas trocam com divindades e antepassados, e assim por diante. Mas não podemos esquecer, também, que questões políticas, também estão presentes, pois na maioria das vezes, existem relações com o poder público, tanto na esfera executiva como na legislativa, pois os mestres estão sempre buscando recursos junto a estes.

Esse evento é o encerramento das saídas das bandeiras nos períodos de giros ou jornadas com os foliões, mas, como podemos ver, existem relações entre esses dois ritos das folias de reis que reafirmam laços de devoções e aumentam a circulação dos objetos

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e dons entre devotos, foliões e santos. É nesse circuito de objetos e de trocas com os santos que podemos nos aproximar da questão da quarta obrigação tratada por Maurice Godelier sobre a obra de Marcel Mauss:

Em todas as sociedades – sejam ou não divididas em categorias, castas ou classes – vemos humanos oferecendo dons a seres que eles consideram seus superiores: potências divinas, os espíritos da natureza ou os espíritos dos mortos. A eles dirigem preces, oferendas e às vezes até sacrificam bens ou mesmo a vida. É a famosa quarta obrigação constitutiva do dom que Mauss mencionou sem desenvolver completamente e que, em geral, foi esquecida por seus comentaristas (GODELIER, 2001, p. 25).

Foi no mês de julho, de 2016, que meu trabalho de campo ganhou corpo, pois, mesmo sobre forte chuva, estive presente na Festa de Arremate de Mestre Waldecy. E percebi, que antes da chegada da folia convidada, sobre o comando do Mestre Fumaça, a preocupação dos foliões estava grande, pois aguardavam ansiosos, a apresentação do outro grupo. Nesta festa, o número de pessoas presentes, não era grande, pois o tempo não favorecia em nada, mesmo assim, o encontro e os preparativos foi uma verdadeira maravilha, onde mesmo com chuva torrencial, os fogos de artifício, não falharam e o brilho nas apresentações tornaram-se ainda maiores devido as dificuldades e a superação das mesmas, onde os esforços não eram medidos para que tudo ocorresse em perfeitas condições. Isto foi visto, claramente, no sorriso dos integrantes que compareceram e abrilhantaram todo aquele momento.

Jamais poderia esquecer de relatar, a simbologia da presença das Bandeiras na Festa de Arremate, principalmente por ser um dos momentos mais belos da festa. O respeito e o tratamento das mesmas, transcendem a tudo, pois se tornam um momento único, uma vez que cada bandeira tem a sua forma e seus ornamentos. Vale ressaltar, que relatos com maior significância, serão descritos no próximo capítulo, que dará destaque às Bandeiras.

Assim sendo, a construção de uma etnografia pautada no estudo desses grupos, nos remete a uma grande troca de elementos que são resgatados dentro da Folia de Reis e suas dimensões socioculturais.

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Capítulo 3 – Principais elementos da Folia de Reis

3.1 – A Bandeira

Na verdade, a representação do sagrado frente a Folia de Reis, tem múltiplas significações, principalmente nos objetos que as singularizam, a exemplo da Bandeira. Daniel Bitter (2010) já chamou a atenção para a importância da Bandeira, elemento máximo da Folia de Reis, e a máscara dentro das folias. Ambos os elementos, passam

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por processos rituais para serem produzidos, utilizados, guardados e, até mesmo, desfeitos. Da mesma forma, os demais objetos rituais, como as fardas, os bonés-capes e os instrumentos também passam por esses processos no período dos giros e das Festas do Arremate. A indumentária, por exemplo, é feita unicamente para a utilização da folia nos períodos de saídas rituais, no momento em que não é mais utilizada, fica no altar juntamente com outros santos de devoção na sede da Bandeira Estrela Nova do Oriente, no bairro Almerinda, no município de São Gonçalo.

Figura 3 – Preparação para a reza da Bandeira antes do Giro.

Assim que entramos na sede, em um corredor do lado esquerdo, deparamo-nos com o altar, local em que repousa a Bandeira Estrela Nova do Oriente, ficando exposta e com velas acesas referenciando a mesma e os santos presentes. A visitação pode ser feita sempre com a presença do mestre, que conta vários episódios referentes a condução da mesma, visto que ela é uma espécie de elemento protetor para todo o grupo, e vou além, para todos que acreditam na sua força como proteção espiritual, independente do crivo religioso de quem participa indiretamente.

As cores da farda da Bandeira Estrela Nova do Oriente são verde e branco. Segundo o mestre, a escolha da cor deu-se:

Waldecy diz que quando menino, trabalhava muito no campo, onde o verde estava sempre muito presente, mas não somente

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foi o sentido da escolha, uma vez que muito cansado, foi descansar debaixo de uma árvore e teve um sonho dizendo que um dia ele sairia daquele local, formaria sua família e teria uma missão à cumprir. E depois disso, jamais deixou de realizar suas obrigações, com muito afinco e respeito, pois alega que suas conquistas são graças aos trabalhos junto a Folia de Reis, que jamais deixaram de ser realizados, mesmo passando por grandes dificuldades, pois são nelas que ganham mais forças para fazer os eventos, pois minha Bandeira jamais deixará desamparado.

A Bandeira do mestre Waldecy, foi entregue ao mesmo por uma mãe de santo que confeccionou sete bandeiras. Ele tem muito orgulho de ser uma espécie de guardião para ela, pois como mesmo diz, viu muitas folias se encerrarem e, guarda até hoje as bandeiras das que deixaram de sair. Se preocupa muito com o que significa a mesma, para ele e para outras pessoas que compreendem o verdadeiro significado destas.

Na verdade, a Bandeira é algo simbólico que foge a compreensão de muitos, principalmente para os que não conhecem o ritual. O mestre relatou que:

A responsabilidade de ser guardião de uma bandeira é muito importante, pois mesmo com uma folia deixando de existir, sua bandeira jamais pode ser deixada de qualquer forma, pois quem tem suas obrigações sobre ela será punido severamente. Não devemos brincar com o que não conhecemos, pois traremos problemas para a nossa vida. Eu mesmo guardo a Bandeira de uma folia que acabou. Mas sei muito bem o que vou ter que fazer para dar fim na mesma, pois ela tem um dono, e este, sabe, certamente, como ela deve ser tratada. Por isso, sempre falo com os meus foliões a importância pela Bandeira, pois ela é a alma da Folia de Reis.

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Figura 4 – A Bandeira da Estrela Nova do Oriente.

A Bandeira é algo que realmente significa muito para o grupo, pois seu simbolismo possui grande valor espiritual. Ela atua como elemento integrante das bonanças adquiridas por cada folião que está amparado pelo seu fazer protetor, fornecendo frutos permanentes que os levam as práticas referenciadas na folia, abarcando toda a propriedade do simbólica. Além de protegê-la, a Bandeira precisa compreender os códigos e as formas de distribuição das bênçãos operadas pelos santos, sem transgredir nenhuma das interdições rituais (RADCLIFFE-BROWN, 1973). Aproprio-me da categoria de Radcliffe-Brown no que diz respeito às interdições rituais, pois, ao transgredir qualquer regra do corpo do fundamento, o folião estaria colocando não apenas ele, mas todos os devotos e mais a Bandeira em uma situação de fragilidade ritual, tornando todos os envolvidos nas saídas em potenciais alvos de magias.

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Figura 5 – Altar com os Santos e a Bandeira.

Para exemplificar essa questão, cito uma experiência de campo ocorrida com o mestre, onde em uma saída, por uma rua, juntamente com os foliões, ao passar por um bar, notou algo de errado, uma vez que apareceu um homem, do nada, negro e alto, e tentou a todo o custo, impedir a passagem da Bandeira. Naquele momento percebi, que não era um homem comum, e precisava cruzar a Bandeira frente ao mesmo. O homem pulava muito, o que dificultava executar a tarefa, foi numa distração, deste homem, que conseguimos cruzar a Bandeira. Naquele momento, ele parou e deixou o grupo passar sem problemas e para nossa surpresa, seu sumiço foi de imediato.

A bandeireira é a responsável pelo grupo e tem de conhecer o fundamento da folia, não permitindo nenhuma transgressão para com esse objeto ritual. O silêncio e a postura irredutível de total confiança e respeito denotam a questão da seriedade em não se separar da Bandeira e nem a tratar como simples objeto. O santo tem de ser levado pela bandeireira até a casa dos devotos e com total apreço nas festas, uma vez que jamais o mestre deixa a Bandeira entrar em seu recinto sem a reza e nem sair do mesmo através da mesma prática, como sempre relatou: “A Bandeira está acima do homem e

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dos seus propósitos, pois ela representa os santos, e sendo assim, cada momento é de extremo respeito e obrigação”.

3.2 – O Palhaço

A figura que sempre está no centro de discussões severas é a do palhaço, pois seu significado foge as regras representadas em cada Estado, uma vez que prescreve as regras. Em alguns lugares, o palhaço não representa um conhecimento profundo religioso, visto que, crianças fazem este papel sem se preocuparem com a simbologia existente no Estado. Em meu trabalho de campo, nunca presenciei uma criança na figura do palhaço, só adultos.

O palhaço da Folia é outro personagem que também precisa dominar os códigos do fundamento, pois ele é o guardião da Folia. Ele precisa operar com tais conhecimentos para realizar suas performances corporais e verbais, através de falas curtas e versos. A apresentação do palhaço dá-se em um período específico em meio às realizações dos giros da folia. Em geral, após o recebimento da Bandeira pelo devoto dentro da casa, ocorre a distribuição de comida para os visitantes e, logo em seguida, depois de todos terem comido, o mestre faz soar seu apito, arrebatando a atenção de todas as pessoas. É nesse momento, que os palhaços pedem licença para suas chegadas. Suas apresentações limitam-se à varanda da casa, pois, como o palhaço representa o perseguidor de Cristo, um soldado de Herodes, e assim, não pode ter contato com a Bandeira. Eles entoam e rimam os versos, que ora são desenvolvidas por meio do improviso, ora são baseadas em livretos populares, conhecidos como cordel. Os palhaços destacam-se entre os demais foliões por ostentar fantasias coloridas e máscaras que remetem ao grotesco, com seus dentes e chifres animalescos. O fator mais importante é que o palhaço, necessariamente, tem de dominar os códigos contidos no fundamento, pois seu lugar liminar (TURNER, 2013) na folia pode colocar tanto ele quanto os demais foliões em risco (BITTER, 2010; CHAVES, 2009; PEREIRA, 2009).

Quando era menino, em São Gonçalo, tinha medo de quando palhaço passava, geralmente atrás da bandeira ou no final da folia, pois não compreendia o porquê, mesmo fora do carnaval, existiam palhaços. Nunca consegui descobrir quem estava por traz da máscara.

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A farda e a máscara do palhaço destacam-se por não serem guardadas próximas aos demais objetos da Folia. Enquanto a Bandeira, que é a materialização do santo e elemento fundador da Folia de Reis, é depositada no altar, a máscara distancia-se dessa categoria por ser de uso pessoal do devoto que vai se fardar de palhaço. Cáscia Frade (1997) já destacava o caráter pessoal da indumentária em sua pesquisa. A máscara do palhaço, geralmente é produzida pelo próprio folião, e sua durabilidade pode variar de acordo com o material utilizado em sua fabricação. Hoje, a máscara é confeccionada por encomenda, onde seu custo não é nada barato, podendo ultrapassar até o valor de quinhentos reais, como relata o mestre Waldecy.

Figura 6 – A roupa do Palhaço.

Os versos da ladainha não são os únicos elementos rituais utilizados para a proteção dos palhaços. Antes das saídas da Folia da sede, a Bandeira de Reis é passada pelo corpo dos foliões fardados de brincantes. Neste momento, o único elemento que

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não entra em contato com a bandeira é a máscara. Nas palavras do antropólogo Daniel Bitter:

Os palhaços são tipos sempre cercados de obrigações, regras e restrições, bem como de prescrições. Quando mascarados, eles costumam ser impedidos de entrar em igrejas ou em outros lugares considerados sagrados, ou de se aproximarem demasiadamente da bandeira ou de imagens de santos. Eles também não devem fazer as refeições junto dos foliões. Considera-se, por vezes, perigoso tocar em suas vestes ou máscaras, e o motivo de tanto cuidado e de certo rigor das regras de poluição se deve aos múltiplos significados a eles atribuídos. Algumas interpretações relacionam o palhaço com o Diabo e com outras imagens negativas. Podem ainda estar relacionados a Exu e, desse modo, evidencia-se também alguma associação com o mundo dos espíritos. Trata-se, afinal, de um pólo simbólico, multivocal, para usar a expressão de Turner (1962). Como propõe o autor, os seres ambíguos são indefinidos e posicionados além da estrutura social. Isso os torna desobrigados a cumprir certas normas sociais, o que os coloca em estreita relação com os poderes não-sociais ou associais da vida e da morte (BITTER, 2010, p. 151-152). As máscaras são objetos ligados ao mundo dos espíritos. Tal caráter mágico faz com que sejam relacionadas às proibições e restrições, tendo poder de desencadear indesejadas situações rituais (RADCLIFFE-BROWN, 1973), também interpretadas como causadoras de perigo (DOUGLAS, 1966). Seus usos fazem com que sejam concebidas como causadoras de desordem ou de outra ordem (TURNER, 2013), podendo proporcionar o caos a todos que estão ao seu entorno. Por isso, há a necessidade de compreender, cumprir e não transgredir as regras contidas no fundamento.

Dentre os foliões, o palhaço é o primeiro a retirar sua máscara e farda no momento da entrega da bandeira. Esse evento ocorre ao final da Festa do Arremate, que simboliza o término das saídas rituais da Bandeira. Quando a última Folia de Reis visitante retira sua bandeira do altar anfitrião e retorna para suas moradias.

Daniel Bitter identifica tais gestos corporais como pedidos de perdão do brincante por exercer esse papel ritual: Trata-se, afinal, de um ritual de conversão religiosa, um batismo simbólico, com efeitos morais. Aí reside precisamente sua ambivalência simbólica (BITTER, 2010, p. 153).

O palhaço não pode, simplesmente, desrespeitar as proibições rituais por ser identificado como uma figura transgressora. Se acaso um palhaço comete algum deslize ritual, por não compreender o corpo de conhecimento contido no fundamento, ele é

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repreendido por seu mestre ou pelo mestre anfitrião no mesmo momento. O palhaço defronta-se com um conjunto de obrigações rituais que limitam sua performance e regulamentam suas práticas, se grotescas ou não. Ele precisa ter o domínio do fundamento para não colocar em jogo seu prestígio e o de sua folia. Por isso, não é qualquer pessoa, sem conhecimento, que pode ser palhaço, pois depende, também, de estudos de rituais e até leituras de livros, e isto relato, pois fui convidado pelo Mestre Waldecy. O mesmo me mostrou que existem formas perigosas para a realização de tal trabalho, pois é uma função muito difícil para ser executada de qualquer forma.

Figura 7 – O palhaço sentado antes de se fantasiar.

O mestre, em uma das suas conversas informais, relatou-me que uma vez, na roça, na estrada, em direção a um sítio, viu o palhaço se afastando diversas vezes do grupo, e é claro, da Bandeira. Sendo assim, foi chamado a sua atenção inúmeras vezes, onde o mesmo não se importou. Depois de um tempo, com o grupo se distanciando, os foliões escutaram muitos gritos e, voltaram devido a notarem a ausência do palhaço. Ao ser encontrado, o mesmo estava com sua roupa toda rasgada com grande cheiro de enxofre e, com a presença de uma forte fumaça. Assim o mestre argumentou:

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Não se pode ficar longe da Bandeira em sua função. Assim, o castigo veio rápido. Brincar com algo tão sério, não se pode fazer, pois não conhecemos bem as forças do mal, mas elas existem. Foi o que aconteceu com você. Espero que isso tenha te colocado na linha e que não se repita, pois se tivesse escutado e não ficasse longe da Bandeira, nada disso teria acontecido.

A figura do palhaço e suas vestimentas são tão representativas, que até para lavá-las e tocá-lavá-las são feitas rituais e rezas para esta finalidade, por uma experiência passei, quando estava no barracão, onde a roupa estava na corda e iria tocá-la. Logo fui advertido pelo mestre que não o fizesse, pois precisaria de conhecimento de causa e ter as mãos lavadas por aroeira e sal grosso, para afastar os espíritos ruins, e resguardar a pessoa para que nada acontecesse de mal, onde o obedeci imediatamente.

Figura 8 – Um símbolo muito respeitado – pós morte.

Na substituição do palhaço, uma vez da morte do folião anterior, que tinha esse papel, percebi algo que foi bastante importante para a construção deste trabalho. Como observador, notei que no giro de 25 de dezembro de 2017, na preparação do palhaço, o mesmo não deixou ser fotografado e nem quis falar nada, respeitando tal atitude e postura do mesmo no evento. Inclusive, este integrante era novo e não o conhecia de encontros anteriores. Perguntei, então, ao mestre e o mesmo disse que não me

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preocupasse, pois não era nada em relação a minha pessoa, mas a responsabilidade e o respeito daquele folião em sua função, principalmente, devido ao horário e a caminhada pelas encruzilhadas.

Capítulo 4 - Modificações culturais na Folia de Reis

4.1 – O choque de gerações, o encontro da tradição e a modernidade

A cultura é dinâmica, como mecanismo adaptativo e cumulativo. A cultura sofre mudanças. Traços se perdem, outros se adicionam, em velocidades distintas nas diferentes sociedades. Desta forma, a Folia de Reis vem sofrendo essas modificações,

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principalmente no que tange ao conhecimento sobre tal prática cultural, onde algumas ainda resistem. Infelizmente, outras deixam de existir e se perdem com o tempo.

Dois mecanismos básicos permitem a mudança cultural: a invenção ou introdução de novos conceitos, e a difusão de conceitos a partir de outras culturas. Há também a descoberta, que é um tipo de mudança cultural originado pela revelação de algo desconhecido pela própria sociedade e que ela decide adaptar. A mudança acarreta normalmente em resistência. Visto que os aspectos da vida cultural estão ligados entre si, a alteração mínima de somente um deles pode ocasionar efeitos em todos os outros. Modificações na maneira de produzir podem, por exemplo, interferir na construção e transferência de responsabilidades produzidas por um grupo.

O Mestre Waldecy Marcelino mostra claramente, e chama a atenção, para os componentes de sua folia, a Estrela Nova do Oriente, no bairro Almerinda, em São Gonçalo, pois a persistência os leva a permanência das atividades do grupo, e sem esta seria impossível a manutenção de seus trabalhos.

Nos preparativos o mestre sempre está cobrando aos foliões, comprometimento com os seus afazeres, visto que, o número reduzido e outras dificuldades, trazem para o grupo prejuízos para a confecção do trabalho final. O mesmo, sempre cobra o horário e a seriedade. Não permito brincadeiras com algo tão sério. Minha responsabilidade é grande, e não posso perder o foco, pois sou cobrado e vocês sabem muito bem por quem! A resistência à mudança representa uma vantagem, no sentido de que somente modificações realmente proveitosas, e que sejam por isso inevitáveis, serão adotadas evitando o esforço da sociedade em adaptar, e depois rejeitar um novo conceito. É muito difícil a aceitação de modificações por um grupo que preserva as tradições. Vejo claramente, a posição do mestre, pois mesmo com tantos problemas, como a própria luta contra o alcoolismo, agora curado, continua trabalhando seriamente, cumprindo suas obrigações com o grupo.

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Figura 9 – O Mestre Waldecy se preparando para o Giro.

O ambiente exerce um papel fundamental sobre as mudanças culturais, embora não único. Os homens mudam sua maneira de encarar o mundo tanto por contingências ambientais quanto por transformações da consciência social, principalmente, em relação a construção de algo que é claramente voltado a manutenção da tradição. Devendo seguir um modelo que sofre modificações, mas não fogem das práticas voltadas a sua tradição.

O processo de adaptação de uma cultura às exigências do seu meio ambiente, existe no momento em que esses são compatíveis ao seu crescimento e não pela sua extinção. Exige também a interação desse grupo com outros, que lhe são anteriores, mas

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que não fazem com que os mesmos larguem sua base da tradição construída durante toda a sua história.

A mudança cultural é um fenômeno que se produz intensamente nas atuais sociedades, de tendência multicultural e cada vez mais acentuada, dada a rapidez do ritmo em que vive e dos convívios externos a que está sujeita. Ela é o resultado dessa convivência e a prova do progresso, o qual atesta o carácter não estático das culturas, que se modificam ao longo do tempo, fazendo a História dos povos. A mudança cultural começou a fazer-se sentir com mais força, ao mesmo tempo que se geraram numerosos processos de aculturação, coincidindo com a passagem das estruturas rurais a urbanas e das estruturas agrárias a industriais. A avultada deslocação de pessoas dos meios menos tradicionais para os mais tradicionais, que esse fenômeno acarreta, vai alterar o status quo da sua vida, obrigando-as a desenvolver estratégias de adaptação ao novo meio social e laboral. Hoje em dia, o fenômeno já é tão corrente que se considera que uma cultura se torna obsoleta, quando não é capaz de resolver eficazmente os problemas atuais do seu grupo, caindo na desatualização. Há, por vezes, casos de grupos que, a partir de certa altura, deixam de ser coesos culturalmente, devido a opções culturais opostas tomadas pelos seus membros. Uma manifestação cultural nessas condições, revela-se como algo que não identifica o grupo a que pertence e para resolver essa situação, só tem uma solução: a conscientização do perigo de desmoronamento que corre o grupo. Este, terá de procurar alguém que lidere uma mudança cultural capaz de voltar a torná-lo coeso. Essa mudança terá de passar obrigatoriamente por uma revisão e uma consciencialização da história do grupo, dando-lhe uma nova orientação das crenças e dos seus verdadeiros valores. Muito provavelmente, através da criação de novos rituais ou/e de novas linguagens que reorientem e deem resposta às questões de identidade do grupo. Se tal não for conseguido, é porque não há uma vontade efetiva de mantê-lo com essa identidade, não se tendo desenvolvido esforços no sentido de uma interação grupal geradora de entendimento com vista à renovação cultural, e aí o grupo deixa de ter os mesmos objetivos, os mesmos valores, sendo o mais certo desfazer-se. No caso da Folia de Reis, acredito que suas tradições se relacionam diretamente com o seu dia a dia, sua família, seu emprego, suas conquistas, pois, o modo de obrigação pala tradição religiosa, supera muitas modificações que são impostas, mas que não perduram para a ideologia do grupo.

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A mudança cultural é, hoje, um dos campos que mais ocupa a Sociologia e a antropologia aplicada, porque ela é particularmente evidente em certos meios, tais como nos processos adaptativos dos imigrantes que partiram de meios rurais e chegaram às cinturas das grandes cidades. Também acontece nas culturas rurais manifestando um certo isolamento, mas que vão sofrendo o impacto dos meios de comunicação, especialmente da televisão. O mesmo se passa na mudança de contexto cultural que vive o crescente número de estudantes que vai fazer os seus estudos, ou parte deles, para o estrangeiro. Ocorre ainda nas mudanças que acarretam a adaptação às novas tecnologias, sobretudo por parte das faixas menos jovens. Sendo assim muitas práticas são colocadas como não prioritárias nos seus estudos, um com exemplo é a Folia de Reis, pois existem poucos trabalhos sobre o assunto, e que graças a persistência de Daniel Bitter, que consegui realizar tal confecção deste, onde suas orientações foram fundamentais.

O conceito de mudança cultural também se adota em relação ao mundo tradicional, sempre que alguma cultura esteja a sucumbir por inadaptação às exigências do mundo atual, tendo de reconverter-se, se quiser salvar-se, para o que terá de utilizar estratégias de mudança da cultura do grupo, mas sem modificar suas bases culturais.

Vivemos num ritmo crescente das novas tecnologias, entre as transformações causadas por elas, existem algumas rupturas entre as gerações. As pessoas mais velhas não entendem as atitudes dos jovens de hoje. Estes, por sua vez, consideram os mais velhos desconectados com a realidade do mundo atual. Dentro da Folia de Reis essa realidade se torna um pouco diferente, pois o mestre é uma figura de destaque e é reconhecido como uma espécie de guardião da memória.

Esse é o dilema de nossa famílias. Estamos numa época em que várias gerações convivem ao mesmo tempo e no mesmo ambiente. Isso acontece no meio profissional, nas universidades, nas igrejas e em casa. A maior expectativa de vida faz com que experientes pelo tempo de vida fiquem ativos por mais tempo. Assim, aumenta o tempo de convivência com os mais novos que possuem uma menor experiência e quer aprender. Surge, então, o conflito de gerações.

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Figura 10 – Uma nova geração na Folia de Reis.

É comum cobrar das pessoas que o cercam, o respeito e o carinho com o seu próximo, assim as atividades da Folia estão permeadas, isso em uma singularidade e persistência da produção do grupo, que mesmo devida a tantas transformações e dificuldades, nunca deixa de exercer suas atividades dentro de um contexto completamente hierarquizado.

Poderíamos citar muitos exemplos para enfatizar que há um novo cenário. As fórmulas antigas de relacionamento não funcionam mais. Definir os novos integrantes com idade menos avançada como preguiçosos e alienados é muito simplista e não

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resolve, pois a cultura é diferenciada dependendo do grupo que participa, uma vez que na folia até percebemos algumas modificações, mas nada tão significativa para mudar suas bases tradicionais.

Não há como ficar passivo e indiferente diante dessa realidade. Em algum momento os mais experientes terão de se envolver com as tendências ou serão envolvidos por elas. Não há mais como viver num mundo sem tecnologia e internet. Desde sua conta bancária, comprar no supermercado, estacionar o carro, comunicar-se com alguém por celular, e-mail, redes sociais, até acender um fogão, nosso cotidiano está envolvido pelo mundo virtual. O adolescente de hoje já nasceu dentro dessa realidade. É preciso conhecer e viver no mundo em que vive o seu grupo que sofreu modificações. Mundo em que, aliás, que eles também vivem. Um bom exemplo é o próprio mestre Waldecy, que possui celular e sabe muito bem fazer muitas coisas novas de nossos dias.

O fato de as gerações conviverem num mesmo ambiente, pode contribuir para amenizar a distância entre elas e as dificuldades que cada uma possui, pois é essencial para a existência do grupo e a manutenção de sua cultura tradicional.

As novas gerações possuem muita informação, mas pouca profundidade. Precisam adquirir outro tipo de conhecimento, o pensamento crítico-reflexivo, algo em que a geração anterior pôde contribuir devido a sua vivência. Os jovens, por terem fácil acesso a todo tipo de informação e domínio da tecnologia, não podem desconsiderar o conhecimento dos mais experientes, como é o caso do mestre, pois o respeito a sua pessoa é muito grande pelo cargo que ocupa frente ao grupo.

Os mais experientes, por sua vez, precisam ser humildes e aceitarem a necessidade de se adaptarem à nova realidade, sendo menos resistentes e mais flexíveis ao novo e ao diferente. Na maioria das vezes, é muito difícil poder reverter algo não aceito pelo mestre, que não costuma voltar atrás em algumas práticas existentes.

Os fundadores precisam dos mais jovens, de sua energia, motivação, criatividade, informalidade, flexibilidade, rapidez, sua capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, sua visão de um mundo sem fronteiras, globalizado e do seu bom trânsito entre minorias.

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É fato que os mais jovens precisam dos mais experientes, de sua experiência, vivência, maturidade, conhecimento, reflexão, bom conselho, exemplo, direção, esforço e resultados comprovados. Principalmente pela função que o mesmo ocupa como líder de um grupo que permeia o tempo.

Sabemos que é inevitável o choque de gerações, mas percebi, ao longo do trabalho, que a simbologia está acima de tal fato, pois dentro desse quadro, a Folia de Reis torna-se um instrumento de propagação do elemento cultural e tradicional. O respeito é linear frente aos seus membros, que mantêm um caráter de extrema coerção diagnosticado pela referência ao líder, ou seja, o mestre, que a todo o momento é a figura de controle e do sucesso da produção do grupo. Infelizmente, muitos deixaram de existir devido ao falecimento de seu mestre. Inclusive, na folia de reis do mestre Waldecy, existem membros que vieram de outras folias, incluindo filhos de mestres. Podemos notar, nesse momento, que a tradição se torna singular e de caráter crucial frente a existência do grupo.

Neste momento, a presença da força no elemento organizador de cada folia é visto como uma espécie de “pessoa a ser seguida”, onde tudo o que acontece está voltado ao seu controle, desde a organização dos trabalhos até o final dos mesmos, com as visitações.

As visitações são a realização da prática do ritual que reproduz e insere os foliões no tempo cosmológico dos Reis Magos. Ao fazê-las, os devotos entoam as profecias deixadas pelos Santos Reis. Foram esses santos, que incumbiram os devotos de continuarem o seu trabalho. Infelizmente, estes estão sendo reduzidos devido à falta de espaço, e, segundo o mestre Waldecy, muitos estão se convertendo ao protestantismo, o que dificulta as tradicionais visitações.

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Figura 11 – Instrumentos preparados para o Giro.

As casas que serão visitadas, são negociadas entre os anfitriões dos Santos Reis e os foliões. Geralmente, os devotos vão ao galpão do mestre Waldecy conversar sobre a possibilidade de recebê-los naquele ano. Desta forma, as visitações estabelecem uma rede de sociabilidade que abrange foliões, santos, devotos, familiares, amigos e vizinhos. Segundo Carlos Rodrigues Brandão:

A Folia não gira para cantar louvores ao Menino Jesus, nem para reconstruir, como um auto piedoso igual ao das Pastorinhas que existem no Nordeste e a que eu assisti duas vezes em Pirenópolis (Goiás), a história do Natal de Jesus. Mas ela tampouco gira para arrecadar, em 13 ou em 7 dias, dinheiro dado por alguns para uma festa comunitária de todos. O que a Folia faz é proclamar e responder por um tempo ritual diferente de trânsito entre homens e dádivas (BRANDÃO, 1981, p. 32).

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Figura 12 – O Contra Mestre antes do Giro.

A estrutura narrativa da Folia de Reis, aproxima-se do que Fredrik Barth chama de corpus de conhecimento:

What is constructed as a corpus of knowledge by these means creates a characteristic way of knowing that might be described in externalist language as poetic – a visual symphony that represents the ancestrally granted mystery of growth as something that covertly permeates nature and creates mankind‘s daily food (BARTH, 2000b, p. 5).

O que é construído como um corpus de conhecimento por esses meios cria uma forma característica de saber que pode ser descrita em linguagem externalist como poética – uma sinfonia visual que representa o mistério ancestralmente concedido de crescimento como algo tão secretamente permeia a natureza e cria alimento diário da humanidade (BARTH, 2000b, p. 5).

Assim como nas tradições de conhecimento de Barth, o fundamento é perpassado pelas três características: o corpus substantivo, que seria o conteúdo propriamente dito; os meios comunicativos, que estão ligados à forma de transmissão, visto que nas folias a tradição é passada de geração a geração. Com o passar dos anos, vem sofrendo grandes modificações.

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Figura 13 – O Sanfoneiro (centro) e o Contra Mestre (direita).

Essa missão passada de geração, é a responsabilidade que os foliões tem de levar a Bandeira/Santos Reis à casa dos devotos, anunciando o nascimento do Menino Jesus. A Bandeira de Reis é o símbolo máximo do grupo; ela é o santo, e seu nome gera identidade para os devotos. Segundo Bitter:

[…] a Bandeira, assim como outros objetos que assumem características similares, tende a ser percebida como sendo capaz de mediar, de forma orgânica, o plano dos homens no tempo presente com o plano supramundano num tempo-espaço de outra qualidade. Nesta perspectiva a bandeira vem representar o irrepresentável, tornar conhecido o desconhecido, acessível o inacessível ou ainda tornar visível o invisível (BITTER, 2010, p. 110).

Em minha pesquisa de campo, pude perceber um grande diferencial, que vem mudando de ano em ano, não só no número de pessoas, mas nas substituições que são feitas para a continuidade dos trabalhos. Foi constatado que até na representação dos

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objetos e das festas, os significados vão se transformando e se adaptando a novas formas.

Figura 14 – Mestre e Contra Mestre prontos para o Giro.

Este elemento foi percebido, no último giro que participei no ano de 2017, pois o mestre estava muito nervoso com medo da falta de foliões. O tempo passava e nada de chegar as pessoas os participantes. Foi neste momento, que o sanfoneiro do grupo chamou a atenção:

A hora está próxima e já são quase meia noite. Temos que cumprir com nossas obrigações, pois poderemos ser castigados. Mesmo com o número que tiver, vamos nos arrumar e sair no horário certo. Muitos tem problemas de deslocamento e logo estarão presentes. Mas não podemos é ficar parado vendo o tempo passar sem preparar as nossas vestimentas e instrumentos, pois iremos subir a Chumbada (São Gonçalo), e os traficantes cobram o horário certo para não subirmos tarde e não corrermos risco de vida, pois o respeito no passado era maior, isto é, eles nem saíam nas ruas quando o giro era feito naquele lugar, onde o medo não era nosso, mas sim deles.

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As dificuldades cada vez mais aumentam, principalmente pela falta de infraestrutura da própria cidade, como transporte, segurança pública, investimento para a cultura popular, o que faz com que tal prática não seja prioritária para o novo momento vivido em detrimento de gasto do Poder Público, que não tem como prioridade o incentivo a continuidade da folia.

Figura 15 – O Grupo de foliões preparados para o Giro.

Infelizmente, é muito triste quando você presente em um trabalho de campo, vê as dificuldades frente a realidade dos foliões em sua saída, pois o transporte não é o único problema para o deslocamento dos componentes, mas sim fatores sociais ligados, muito das vezes, até nos afazeres familiares, pois nem todos em certas datas, estão disponíveis para realizarem os eventos, principalmente no referente ao Natal.

Sendo assim, a construção de um modelo ideal para atender ao grupo de foliões ao todo, é algo de impossível de se realizar nos dias atuais. Isso ocorre devido à falta de recursos, que é a mola mestra para a finalização de todos os trabalhos.

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Foto 16 – O uniforme para fazer o Giro.

Em resumo, pude perceber que a realização dos giros da folia de reis em meio ao ambiente urbano não depende apenas dos foliões e devotos que receberão a Bandeira em suas casas. A dificuldade de locomoção na cidade é um fator crucial para a realização da missão sagrada que impede, muita das vezes, o mestre e seus foliões de estenderem os laços de sociabilidade para outros atores, tais como os motoristas de ônibus e vans de aluguel. Além disso, o que pudemos ver é que a maior parte dos foliões, possuem idade avançada e não podem mais fazer o que faziam, quando eram jovens. A realização do giro é o que é mais cobrado pelos filhos do Mestre Waldecy, pois este, é iniciado no dia 24 de dezembro e só termina no dia 06 de janeiro, alguns indo até dia 20, em comemoração ao martírio de São Sebastião, quando foi fundada a cidade do Rio de Janeiro. Vale ressaltar que os percursos vão além do município, uma vez que muitas visitas são feitas em Niterói e em outras localidades.

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O mestre de folia Waldecy irá completar 80 anos de idade, em 2018, e em uma das entrevistas, em meu trabalho de campo, sobre a folia de reis, do bairro Almerinda, em São Gonçalo, relatou muitas coisas interessantes, o que me ajudou, e em muito, em minha etnografia sobre o grupo estudado.

O que mais me chamou a atenção nessa pesquisa de campo, foi a construção de uma etnografia na forma de estruturar um modelo, onde há um embate na própria pesquisa, o campo e o homem, o qual devemos analisar as informações catalogadas para a execução do trabalho. E neste, é muito claro, a relação familiar entre os membros do grupo e o modelo social construído, pois a família é algo de extrema importância, mesmo não sendo parte direta dos foliões que realizam seus múltiplos trabalhos.

Foto 17 – Um encontro de Mestres: Waldecy a esquerda e Fumaça a direita.

Um bom exemplo merecedor de destaque, é o do senhor Waldecy, que é o Mestre de Folia do bairro Almerinda, nasceu em São Fidélis, tem seis filhos, sendo uma mulher e cinco homens. Infelizmente, não tive nem a oportunidade de fazer uma entrevista com eles, pois os mesmos não participam da Folia e nem seus netos. Então,

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este fato pode ser encarado como uma forma negativa de dar continuidade aos trabalhos do mestre em relação aos seus familiares diretos.

Para nossa tristeza, um outro exemplo é o do grupo de Folia do Engenho do Roçado, sobre o comando do Mestre Caetano, que encerrou suas atividades em São Gonçalo, pois sem sucessão para a execução dos trabalhos, um grupo partiu para Friburgo, iniciando um novo processo. Podemos perceber, nesse sentido, que ocorre um declínio, frente a essa expressão da cultura popular, pois existe um grande medo de grande parte dos integrantes, das Folias, que destacam que somente os símbolos e imagens irão resistir a esse contínuo processo de desgaste dos grupos de Folias de Reis que ainda resistem. Até quando isso será possível? Destaca um antigo folião, pois na própria referência familiar, o enfraquecimento pela continuidade dos trabalhos é visível. Sendo assim, fica muito difícil os mais idosos e experientes arcarem com todo o conjunto de feitos para a execução da apresentação que o grupo realiza nas datas festivas.

Figura 18 – O Contra Mestre e a porta bandeira.

Na verdade, a cultura, que realmente está viva e presente, nestas atividades, tendem a exaustão e fechamento de seus trabalhos. Eu mesmo, já acompanho esses trabalhos por mais de vinte anos, e fico muito preocupado com o que vejo, pois um grande exemplo vivido é o número de pessoas nas Festas de Arremate, momento áureo e

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de muita emoção na troca das bandeiras, um ritual de muito respeito e devoção. A cada ano que passa, vejo um número muito reduzido de pessoas presentes na ocasião, pois cheguei a presenciar uma média de três mil pessoas nas festas, e hoje, não vejo mais do que duzentas, onde muitas famílias, por inúmeros motivos, não participam mais. O pior de tudo, que não aparecem novas pessoas para substituí-los, trazendo uma grande deficiência em todos os sentidos no planejamento, execução e finalização do trabalho.

Figura 19 – O tocador de bumbo do Giro.

O respeito entre os foliões é algo majestoso e obtendo informações, com o filho do mestre, que pediu para não ser identificado, tem uma grande preocupação com seu pai, pois na sua idade, algumas atividades devem ser cortadas do seu hábito. “Não consigo fazer com que meu pai diminua o seu ritmo, pois para ele, a folia é parte de sua vida. E infelizmente, as ajudas cada vez mais estão reduzindo, tanto do público como do privado, onde muitas das vezes tem saído dinheiro do bolso dos próprios foliões para a execução dos trabalhos. Assim sendo, o número de foliões, também, estão reduzindo, pois a maioria não tem condição financeira para contribuírem de forma material. Esse é

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um momento de muita tristeza, pois não quero ver meu pai passando mal como vi em muitas das vezes, ele não tem idade para isso, se pelo menos tivesse alguém para ficar à disposição dele para ele não precisar caminhar longos percursos pedindo ajuda seria uma coisa que me deixaria menos preocupado”.

Figura 20 – Uma ilustre visita ao barracão com Mestre Fumaça.

Desta forma, podemos perceber, claramente, que na participação junto ao grupo, no trabalho de campo realizado, a convivência com o mesmo norteou alguns elementos fundamentais, que são de grande significado para o fortalecimento e o enfraquecimento do grupo. São vários os traços visíveis que as famílias estão totalmente vivenciando outros caminhos, o que faz com que a continuidade seja colocada muito distante da construção da vontade dos mestres, em continuar os seus trabalhos com pessoas capazes de realizarem suas tarefas, de forma que não prejudique a execução de todo o cronograma planejado, que já vem sendo feito por muito tempo, e na maior parte das vezes, passada de geração a geração, por membros das famílias realizadoras de todo o conjunto praticado pelos foliões.

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Figura 21 – O tocador de tarol do Giro.

No campo, verifiquei que estava equivocado no que pensava sobre o trabalho dos integrantes da Folia de Reis, uma vez que tinha em mente, que era um grande número de pessoas que trabalhavam em conjunto, para a realização dos grandiosos eventos que são planejados por um calendário anual, onde seria trabalhado somente na época das festas. No entanto, estava enganado, pois os trabalhos são realizados o ano todo. E sem sombra de dúvidas, muitos finais de semana e feriados, são aproveitados pelos foliões para fazerem seus acertos e treinarem suas cantigas e a utilização de instrumentos e pessoal para manejá-los. Também foi notado, no campo, que algumas famílias ainda resistem para que tudo dê certo, e jamais problemas atrapalharão suas atividades, que a cada ano, mesmo com a falta de ajuda, continuam a trazer muita alegria para os que ainda acreditam e respeitam a tradição da Folia de Reis.

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Para o leitor que dedicou seu tempo a este trabalho, quero deixar uma última reflexão: com base nesta monografia de final de curso de graduação em Antropologia, a Folia de Reis sobreviverá ao embate: tradição e modernidade.

Assim como a realização do Giro, que se inicia com a saída da Bandeira da sede e se encerra com a entrega da bandeira na festa do arremate, quero encerrar meu trabalho com o questionamento inicial. As Folias de Reis não se limitam ao rótulo de práticas religiosas remanescentes do catolicismo colonial, ou manifestações de festejos devocionais rurais que sobrevivem no meio urbano, mas sim, através do referencial ligado a uma tradição que rompe toda uma imposição presente nas relações sociais que, transmigram algo de colocado como sendo construído para tal, mas não construído como elemento norteador de uma crença pautada no respeito e na necessidade de sobreviver ao tempo.

Para a construção deste trabalho, o recorte escolhido foi a relação entre a tradição e a modernidade entre os grupos de Folias de Reis no município de São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro. Em ambos os momentos, há uma inter-relação de práticas envolvendo foliões, devotos e santos no ambiente urbano e rural. Como busquei apresentar, tanto para as organizações dos giros quanto das festas, há o desenvolvimento de redes de alianças através de laços de sociabilidade com os vizinhos e familiares para as saídas da Bandeira Estrela Nova do Oriente. Os pedidos de licença para a entrada dos santos na residência do devoto são permeados por um conjunto de regras de etiqueta operado pelo mestre, contramestre, outros integrantes do grupo e simpatizantes pela cultura popular e religiosa. Os palhaços também precisam compreender tais códigos para não realizarem nenhuma transgressão, ocasionando alguma indesejável situação ritual para os foliões, pois os mesmos, segundo o Mestre Waldecy, que até me convidou para o cargo que vagou com a morte do folião que fazia o papel do palhaço, mas alertou-me que não seria tão simples, pois além de estudar o livro, não poderia entregar esta responsabilidade, antes de seu tempo previsto, isto é, seu tempo obrigatório no cargo ocupado.

As festas do arremate igualmente figuram como um terreno fértil para o desenvolvimento deste trabalho. Nelas, pude observar e participar nas performances religiosas realizadas pelas folias e palhaços que visam à devoção aos santos, mas também buscam a conquista de prestígio, verificando que existe uma disputa entre as folias no que tange as melhores apresentações, ou seja, os melhores destaques. Apontei que a culminância da celebração revela, ainda, o circuito de dádivas entre os devotos da

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morada e os santos, operado através das doações de comida e donativos que corroboram para o seu desenvolvimento. Sabemos que nem todos os grupos recebem a mesma quantidade de donativos, dependendo muito dos locais que visitam, dos padrinhos que possuem e em sua relação com o Poder Público e Privado, ou seja, na busca por patrocinadores. No tocante a esta questão, podemos compreender que não se pode pensar nas realizações do arremate sem a análise dos laços sociais e religiosos realizados no período dos giros e na logística para a concretização dos festejos.

Na realização dos trabalhos de campo, percebi o quanto estes grupos rituais se esforçam para construir e manter laços de sociabilidade e solidariedade entre devotos, vizinhos, familiares, amigos, estruturando uma rede de relações sociais, pois são estes os responsáveis pela realização de todo o processo, desde o projeto de execução até a concretização do trabalho final.

Na verdade esses laços são essenciais para a realização da Festa do Arremate e dos giros da folia em meio à complexidade no município de São Gonçalo, que sofre com os precários serviços de transporte público, saúde, educação, segurança pública e outros. E foi através dessa perspectiva, que foi desenvolvido este trabalho etnográfico, apontando novas possibilidades para a conservação dessa cultura popular, que já não existe em muitos outros municípios, e que singulariza a possibilidade da continuidade desses grupos, e a manutenção, dos mesmos, com maior cuidado pelo Poder Público.

Bibliografia:

ABREU, Martha. O império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, São Paulo: FAPESP, 1999.

AGIER, Michel. Antropologia da Cidade: lugares, situações e movimentos. São Paulo: Ed, Terceiro Nome, 2010.

Referências

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