Pamela Dominique de Oliveira
Renato Massaharu Hassunuma
Patrícia Carvalho Garcia
Sandra Heloísa Nunes Messias
Antraz
Estrutura Bioquímica e
Pamela Dominique de Oliveira
Aluna de Graduação do Curso de Biomedicina da Universidade Paulista - UNIP, campus Bauru
Renato Massaharu Hassunuma
Professor Titular do Curso de Biomedicina da Universidade Paulista - UNIP, campus Bauru
Patrícia Carvalho Garcia
Coordenadora Auxiliar do Curso de Biomedicina da Universidade Paulista - UNIP, campus Bauru
Sandra Heloísa Nunes Messias
Coordenadora Geral do Curso de Biomedicina da Universidade Paulista – UNIP
1ª. Edição / 2020 Bauru, SP
Antraz
Estrutura Bioquímica e
© Renato Massaharu Hassunuma.
Conselho Editorial:
PROFA. DRA. DANIELAPEREIRACATANZARO
Doutora em Ciências, área de concentração: Biologia Oral pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) - Universidade de São Paulo (USP)
PROFA. DRA. MICHELEJANEGITZACORCI-VALÉRIO
Universidade Paulista – UNIP, campus Bauru
Design:
Renato Massaharu Hassunuma.
Créditos das figuras da capa e contracapa:
Figura desenvolvida a partir do arquivo 1tzo.pdb referente ao heptâmero do antígeno protetor do Bacillus anthracis determinado por técnica de difração de raios-X em resolução de 3,6Å, sendo utilizado o software RasMol 2.7.5.2.
CIP – Brasil. Catalogação na Publicação O482a
Antraz: Estrutura bioquímica e patogenia das toxinas. / Pamela Dominique de Oliveira, Renato Massaharu Hassunuma, Patrícia Carvalho Garcia, Sandra Heloísa Nunes Messias. – Bauru. Canal 6, 2020.
37 f. : color.
ISBN 978-65-86030-12-9
1. Antraz. 2. Toxinas bacterianas. 3. Bioquímica. I. Oliveira, Pamela Dominique de. II. Hassunuma, Renato Massaharu. III. Garcia, Patrícia Carvalho. IV. Messias, Sandra Heloísa Nunes. V. Título
Pamela Dominique de Oliveira Prof. Dr. Renato Massaharu Hassunuma Profa. Dra. Patrícia Carvalho Garcia Profa. Dra. Sandra Heloísa Nunes Messias
Sumário
1. Bacillus anthracis ... 07
2. Antraz ... 10
3. Diagnóstico do antraz ... 13
4. Antraz e o bioterrorismo ... 17
5. Toxinas do Bacillus anthracis ... 20
6. Antígeno protetor ... 21
7. Heptâmero do antígeno protetor ... 23
8. Fator edema ... 25
9. Fator letal ... 27
10. Patogenia ... 29
Bibliografia e sugestões de leitura ... 32
Anexo 1: padrão de cores ... 35
Antraz
Estrutura Bioquímica e
Patogenia das Toxinas
1.
Bacillus anthracis
O Bacillus anthracis é uma bactéria anaeróbica facultativa, em forma de bastonete, Gram positiva, de 1-1,5 x 3-10 μm de tamanho (figura 1) e formadora de esporos (figura 2). São patógenos comuns em animais de fazenda (por exemplo, cabritos, gados, carneiros e cavalos) e silvestres (como hipopótamos, elefantes e búfalo do Cabo) em contato com solo contaminado com a forma de esporo. É raro em seres humanos, ocorrendo principalmente por exposição à produtos animais (por exemplo, couro, carcaças e pelos) (Bacillus, 2019; Bush; Perez, 2017; McAdam, Sharpe, 2010).
O termo antraz, a doença causada pela bactéria, deriva da palavra grega para carvão, devido à formação de uma escara enegrecida em sua forma cutânea. A virulência do B. anthracis deve-se a presença dos plasmídeos pXO1 e pXO2. O plasmídeo pXO1 codifica as exotoxinas: antígeno protetor (codificado pelo gene pag), fator letal (codificado pelo gene lef) e fator de edema (codificado pelo gene
cya). Estas três proteínas organizam-se combinando antígeno protetor e fator edema ou antígeno protetor e fator letal, sendo que o
antígeno protetor é o elemento que permite a entrada das demais toxinas nas células do hospedeiro (Spencer, 2003).
Figura 1 – Bacillus anthracis
Fonte: U.S. Army Medical Research Institute of Infectious Diseases photo. File:Anthrax cells.jpg. 2009 jul 08 [Acesso 2019 nov 28]. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anthrax_cells.jpg. Imagem registrada em domínio público.
Figura 2 – Esporos do Bacillus anthracis
Fonte: Centers for Disease Control and Prevention. File:Anthrax spores (5940425745).jpg. 2016 sep 07 [Acesso 2019 nov 28]. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anthrax_spores_(5940425745).jpg. Imagem registrada em domínio público.
2. Antraz
O Bacillus anthracis causa uma doença denominada antraz ou carbúnculo, que pode ocorrer em três formas diferentes: A. Antraz cutâneo: corresponde a 95% das infecções.
▪ Operíodo de incubação dura de um a sete dias, podendo se estender por até 60 dias. Caracteriza-se pela formação inicial de uma
pápula indolor ou pruriginosa.
▪ O período prodrômico é caracterizado por uma pápula inflamatória que evolui em 48 horas para uma vesícula, que em seguida
transforma-se em uma pústula com centro amarelado.
▪ Noperíodo de estado, dois a três dias após a formação da lesão, forma-se a lesão característica da doença com úlcera com centro
enegrecido e borda edemaciada e inflamada (figuras 3 e 4), acompanhada de linfadenipatia, febre discreta e bom estado geral.
▪ Aevoluçãogeralmente é espontânea com cicatrização e cura, com mortalidade de 10 a 20%. Raramente evolui para bacteremia;
B. Antraz inalado: os esporos inalados são levados por fagócitos até linfonodos causando mediastinite hemorrágica:
▪ O período prodrômicodura 1 a 6 dias, e se assemelha com uma infecção comum de vias aéreas superiores, com febre, tosse e dor
torácica ou abdominal.
▪ No período de estado, ocorre início abrupto de febre elevada, hipóxia, sudorese e insuficiência respiratória.
▪ Frequentemente na evoluçãoda doença, ocorre bacteremia, choque séptico e morte em 1 a 2 dias em 100% dos casos;
C. Antraz gastrointestinal: ocorre devido à ingestão de carne mal cozida contaminada. Ocorrem náuseas, febre, dor abdominal, vômito, diarreia sanguinolenta intensa. A mortalidade é de 50% (Brasil, 2005; Bush; Perez, 2017; McAdam, Sharpe, 2010).
Figura 3 – Lesão cutânea
Fonte: Centers for Disease Control and Prevention. File:Anthrax PHIL 2033.png. 2009 mar 30 [Acesso 2019 nov 28]. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anthrax_PHIL_2033.png. Imagem registrada em domínio público.
Figura 4 – Lesão cutânea no pescoço
Fonte: Centers for Disease Control and Prevention. File:Cutaneous anthrax lesion on the neck. PHIL 1934 lores.jpg. 2009 mar 30 [Acesso 2019 nov 28]. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cutaneous_anthrax_lesion_on_the_neck._PHIL_1934_lores.jpg. Imagem registrada em domínio público.
3. Diagnóstico do antraz
O diagnóstico do Bacillus anthracis pode ser feito por meio de :
▪ Anamnese:verificar história ocupacional e fatores de exposição;
▪ Coloração de Gram e cultura (figura 5): podem ser realizadas a partir de amostras de lesões cutâneas, líquido pleural, líquido
cefalorraquidiano ou fezes;
▪ Biópsia (figura 6): de forma geral, as lesões por antraz são caracterizadas por áreas de necrose e inflamação exsudativa rica em
neutrófilos e macrófagos. O diagnóstico é confirmado pela presença de cadeias de bactérias Gram-positivas de tamanho grande, localizadas no meio extracelular;
▪ Radiografia torácica (figura 7) ou tomografia computadorizada: o antraz inalado causa focos hemorrágicos na região do
mediastino, causando seu alargamento. Observa-se também a presença de linfonodos hilares e peribrônquicos hemorrágicos e aumentados;
▪ Punção lombar: em casos de sinais meníngeos ou de alterações no estado mental;
▪ Teste de anticorpos por imunofluorescência e reação em cadeia da polimerase (PCR) (Bush; Perez, 2017; McAdam, Sharpe, 2010).
Figura 5 – Cultura do Bacillus anthracis
Fonte: U.S. Army Medical Research Institute of Infectious Diseases photo. File:Anthrax culture.jpg. 2009 jun 20 [Acesso 2019 nov 28]. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anthrax_culture.jpg. Imagem registrada em domínio público.
Figura 6 – Bacillus anthracis no liquor. Coloração de Gram.
Fonte: File:Gram Stain Anthrax.jpg. 2005 nov 25 [Acesso 2019 nov 28]. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Gram_Stain_Anthrax.jpg.
apud Jernigan JA et al. Bioterrorism-related inhalational anthrax: the first 10 cases reported in the United States. Emerg Infect Dis. 2001
Nov-Dec;7(6):933-44. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2631903/. Imagem registrada em domínio público.
Figura 7 – Radiografia de paciente infectado pelo Bacillus anthracis. As setas pretas apontam focos hemorrágicos no mediastino.
Fonte: File:Anthrax - inhalational.jpg. 2005 feb 19 [Acesso 2019 nov 28]. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anthrax_-_inhalational.jpg. Imagem registrada em domínio público.
4. Antraz e o bioterrorismo
O antraz ganhou repercussão na mídia devido aos ataques bioterroristas que ocorreram nos Estados Unidos em 2001. Inicialmente, três cartas contaminadas com a bactéria foram enviadas pelo correio a um membro do congresso americano e duas para representantes de meios de comunicação. As três cartas estavam com datas de 11 de setembro de 2001, a mesma dos atentados contra alvos em Washington e Nova York. A primeira carta chegou ao âncora da NBC Tom Brokaw (Figura 8), que fez com que sua assistente Erin O’Connor de 38 anos contraísse a forma cutânea da doença (FBI, 2001).
O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) classifica o antraz como um agente de bioterrorismo de categoria A, pois é de maior risco, pode ser rapidamente disseminado e transmitido, pode causar alta mortalidade, causar pânico público e necessita de ação especial para atendimento público, como vacinação em massa (figura 9). Nas práticas de bioterrorismo, os esporos são moídos em um pó fino, que os tornam uma potente arma biológica (McAdam, Sharpe, 2010).
Figura 8 – Primeira carta contaminada pelo Bacillus anthracis enviada por bioterroristas em 2001
Fonte: U.S. Army Medical Research Institute of Infectious Diseases photo. File:Anthrax cells.jpg. 2009 jul 08 [Acesso 2019 nov 28]. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anthrax_cells.jpg. Imagem registrada em domínio público.
Figura 9 – Vacina contra o Bacillus anthracis
Fonte: Wood D. File:Anthrax vaccine for Airmen assigned to high-threat areas.jpg. 2017 jan 03 [Acesso 2019 nov 28]. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anthrax_vaccine_for_Airmen_assigned_to_high-threat_areas.jpg. Imagem registrada em domínio público.
5. Toxinas do
Bacillus anthracis
Existem duas toxinas principais do B. anthracis, denominadas toxina edemaciante (EdTx) e toxina letal (LeTx). Cada uma delas é constituída por duas subunidades proteicas A e B, que devem estar ligadas para exercer sua função. Na toxina edemaciante (EdTx), a subunidade A é constituída pelo fator edema (EF) e a subunidade B pelo antígeno protetor (PA). O EF corresponde à subunidade ativa da EdTx, sendo responsável por induzir o acúmulo intracelular de adenosina monofosfato cíclico (cAMP), o qual provoca extravasamento de líquido para o meio extracelular. Esta saída de líquidos causa o edema característico da lesão do carbúnculo (Prince, 2003).
Na toxina letal (LeTx), a subunidade A é composta por uma proteína denominada fator letal (LF) e a subunidade B pelo antígeno protetor (PA) (Prince, 2003). A LeTx interage diretamente com células do sistema imunológico, principalmente macrófagos, induzindo a liberação de mediadores pró-inflamatórios, tais como o fator de necrose tumoral-α (TNF-α) e a interleucina-1β (IL-1β), desencadeando uma intensa resposta inflamatória. O LF corresponde à subunidade ativa da LeTX, sendo capaz de clivar peptídeos como as proteínas-cinase ativadas por mitógenos (MAPKK). A inativação das MAPKKs levam à inibição da proliferação e diferenciação celular das células-alvo, além de estímulo à apoptose (Silva; Horta; Alencastro; Pinto, 2009).
6. Antígeno protetor
O antígeno protetor (PA) recebe esta denominação porque anticorpos produzidos contra esta proteína protegem animais contra a toxina e também por sua utilização em vacinas (McAdam, Sharpe, 2010). A estrutura do antígeno protetor pode ser observada na figura 10, sendo formada pelos seguintes domínios:
▪ Domínio 1 (em amarelo matiz): abrange os resíduos de aminoácidos 1 a 258. É formado por uma grande área formando um
sanduíche de folhas beta preguedas, algumas outras folhas beta e alfa-hélices curtas. Observa-se também a presença de um par de íons cálcio (esferas em cinza) nesta região;
▪ Domínio 2 (em rosa matiz): abrange os resíduos de aminoácidos 259-487. É formado por um barril de folhas beta com topologia de
chave grega modificada, um segundo conjunto de folhas beta e duas alfa-hélices;
▪ Domínio 3 (em azul matiz): abrange os resíduos de aminoácidos 488-595. É formado por uma folha beta pregueada formada por 4
fitas e quatro alfa-hélices;
▪ Domínio 4 (em verde matiz): abrange os resíduos de aminoácidos 596-735. É formado por um sanduíche de folhas betas e três
alfa-hélices (Petosa, Collier, Klimpel, Leppla, Liddington, 1997);
A figura 10 foi desenvolvida a partir do arquivo 1acc.pdb referente ao antígeno protetor do Bacillus anthracis determinado por técnica de difração de raios-X em resolução de 2,1Å, sendo utilizado o software RasMol 2.7.5.2. Mais informações sobre o padrão de cores do comando Colours e do padrão CPK encontram-se no anexo 1. O script desenvolvido para esta figura está apresentado no anexo 2.
Figura 10 – Antígeno protetor Fonte: Os autores, 2019. Domínio 1 Domínio 2 Domínio 3 Domínio 4
7. Heptâmero do antígeno protetor
Após ser ativado, sete cópias do antígeno protetor se unem para formar um heptâmero, com formato de anel, na superfície celular. Esta estrutura forma um pré-poro mediado pelo pH que permitirá a entrada dos fatores edema e letal no citoplasma da célula hospedeira (Lacy, Wigelsworth, Melnyk, Harrison, Collier, 2004; McAdam, Sharpe, 2010; Mourez et al., 2002; Nablo et al., 2013; Prince, 2003). O heptâmero pode ser observado na figura 11, desenvolvida a partir do arquivo 1tzo.pdb referente ao heptâmero do antígeno protetor do Bacillus anthracis determinado por técnica de difração de raios-X em resolução de 3,6Å, sendo utilizado o software RasMol 2.7.5.2. Nesta figura, cada cópia do antígeno protetor encontra-se no modo spacefill e colorida em uma cor: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul celeste, azul e púrpura. O script desenvolvido para esta figura está apresentado no anexo 2.
Figura 11 – Heptâmero do antígeno protetor Fonte: Os autores, 2019.
8. Fator edema
O fator edema (EF) recebe este nome devido ao fato de causar o efluxo de água das células, causando o edema intersticial. Sua ação está explicada no Capítulo 9 – Patogenia. O fator edema pode ser observado na figura 12, desenvolvida a partir do arquivo 1k8t.pdb referente ao fator edema do Bacillus anthracis determinado por técnica de difração de raios-X em resolução de 2,6Å, sendo utilizado o software RasMol 2.7.5.2.
Nesta figura, observa-se os domínios do fator edema:
▪ Domínio CA (em vermelho alaranjado): abrange os resíduos de aminoácidos 249-349 e 490-622. É formado por nove alfa-hélices,
uma folha beta pregueada e uma fita beta;
▪ Domínio CB (em azul celeste):abrange os resíduos 350-489. Possui três alfa-hélices e duas folhas beta;
▪ Domínio helicoidal (em verde mar):abrange os resíduos 660-800. É formado por um conjunto de sete alfa-hélices;
▪ Área de conexão entre o domínio CAe o domínio helicoidal (em magenta): abrange os resíduos 635-659, onde são observadas duas
fitas beta (Drum et al., 2002).
O script desenvolvido para esta figura está apresentado no anexo 2.
Figura 12 – Fator edema Fonte: Os autores, 2019. Domínio CA Domínio CB Domínio helicoidal Área de conexão
9. Fator letal
O fator letal (LF) recebe esta denominação devido ao fato de causar a morte celular por meio da destruição de proteínas-cinase ativadas por mitógenos (MAPKK). Sua ação é melhor explicada no Capítulo 9 – Patogenia. O fator letal pode ser observado na figura 13, desenvolvida a partir do arquivo 1j7n.pdb referente ao fator letal do Bacillus anthracis determinado por técnica de difração de raios-X em resolução de 2,3Å, sendo utilizado o software RasMol 2.7.5.2.
Nesta figura, observa-se os domínios do fator letal:
▪ Domínio I (em ciano): abrange os resíduos de aminoácidos 1-262. É formado por um conjunto de 12 alfa-hélices, 4 fitas beta
formando uma folha pregueada, e mais 5 alfa-hélices e duas fitas beta espalhadas pelo domínio;
▪ Domínio II (em cinza):abrange os resíduos 263-297 e 385-550. Possui oito alfa-hélices e oito fitas beta;
▪ Domínio III (em marrom):abrange os resíduos 303-382 e é formado por um conjunto de 5 alfa-hélices;
▪ Domínio IV (em púrpura): abrange os resíduos 522-776, onde são observadas 12 alfa-hélices e quatro fitas beta (Pannifer et al.,
2001).
O script desenvolvido para esta figura está apresentado no anexo 2.
Figura 13 – Fator letal Fonte: Os autores, 2019. Domínio I Domínio II Domínio III Domínio IV
10. Patogenia
O processo de invasão do Bacillus anthracis em células hospedeiras está representado na figura 7:
A. O processo tem início a partir da ligação do antígeno protetor de 83 kDa (PA83) com o receptor de toxina de antraz (ATR); B. A seguir ocorre a ligação do complexo PA83-ATR com a furina, uma protease presente na superfície celular;
C. A furina cliva a PA83, formando o fragmento PA63que permanece ligado ao ATR e um fragmento 20kDa que é removido; D. Ocorre a ligação de outros complexos PA63-ATR, formando um heptâmero (PA63)7;
E. Em seguida o fator edema de 89 kDa (EF) liga-se ao heptâmero (PA63)7, formando a toxina edemaciante (EdTx); F. Esta ligação promove a endocitose, que traz a toxina para interior de um endossomo;
G. Ocorre uma redução no pH do endossomo que altera a conformação do heptâmero (PA63)7;
H. A partir dessa nova conformação o heptâmero (PA63)7é utilizado como canal para entrada do EF no citossol; I. No citoplasma, o EF liga-se à calmodulina (CaM) e ao íon cálcio (Ca2+);
J. O FE ativo converte a adenosina trifosfato (ATP) em monofosfato de adenosina cíclico (AMPc);
K. O AMPc é uma molécula sinalizadora que estimula o efluxo de água da célula, causando o edema intersticial; L. O fator letal (LF) também pode-se ligar ao heptâmero (PA63)7, formando a toxina letal (LeTx)
M. Esta ligação promove a endocitose, que traz a toxina para interior de um endossomo;
N. Ocorre uma redução no pH do endossomo que altera a conformação do heptâmero (PA63)7;
O. A partir dessa nova conformação o heptâmero (PA63)7é utilizado como canal para entrada do LF no citossol; P. No citoplasma, o LF destrói as proteínas-cinase ativadas por mitógenos (MAPKK);
Q. A destruição das MAPKK promove a morte celular por mecanismos não conhecidos (McAdam, Sharpe, 2010; Mourez et al., 2002; Nablo et al., 2013; Prince, 2003).
Figura 7 – Patogenia das toxinas do Bacillus anthracis
Fonte: Autores, 2019. Adaptado de: Mourez M et al. 2001: a year of major advances in anthrax toxin research. Trends Microbiol [Internet]. 2002 Jun [acesso 2019 nov 29];10(6):287-93. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0966842X02023697?via%3Dihub
PA
83ATR
Furina
PA
63(PA
63)
7EF
LF
CaM
Ca
2+MAPKK
Morte
celular
ATP
AMPc
Edema
H
+A
H
+B
C
D
E
F
G
H
I
J
K
L
M
N
O
P
Q
Antraz: estrutura bioquímica e patogenia das toxinas
Referências e sugestões de leitura
Bacillus anthracis [Internet]. 2001 out 24 [acesso 2019 out 29]. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bacillus_anthracis.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de vigilância epidemiológica [Internet]. 6ª ed. Brasília: Ministério
da Saúde; 2005 [acesso 2019 nov 29]. Capítulo 6. Doenças: 127-777. Disponível em:
http://portal.anvisa.gov.br/documents/33916/388729/Guia_Vig_Epid_novo2.pdf/99464018-d6d1-486b-853b-9871d6eff16f?version=1.0. Bush LM, Perez MT. Antraz [Internet]. 2017 set [acesso 2019 out 30]. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/doen%C3%A7as-infecciosas/bacilos-gram-positivos/antraz.
Drum CL et al. Structural basis for the activation of anthrax adenylyl cyclase exotoxin by calmodulin. Nature [Internet]. 2002 Jan 24 [acesso 2019 nov 30];415(6870):396-402. Disponível em: https://www.nature.com/articles/415396a.
France Presse. FBI revela o conteúdo das cartas contaminadas com antraz. Folha de S. Paulo [Internet]. 2001 out 24 [acesso 2019 out 28]; Mundo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u32205.shtml.
Hassunuma RM, Garcia PC, Messias SHN. Proteínas envolvidas em patologias: volume 1. 1ª ed. Bauru: Canal 6 Editora; 2017 [acesso 2019 nov. 30]. 53p. Disponível em: http://www.canal6livraria.com.br/pd-4edf43-proteinas-envolvidas-em-patologias-v-1.html?ct=18bb3e&p=1&s=1.
Hassunuma RM, Garcia PC, Messias SHN. Proteínas envolvidas em patologias: volume 3. 1ª ed. Bauru: Canal 6 Editora; 2018 [acesso 2019 nov. 30]. 53p. Disponível em: http://www.canal6livraria.com.br/pd-584ec5-proteinas-envolvidas-em-patologias-v-3.html?ct=18bb3e&p=1&s=1.
Lacy DB, Wigelsworth DJ, Melnyk RA, Harrison SC, Collier RJ. Structure of heptameric protective antigen bound to an anthrax toxin receptor: a role for receptor in pH-dependent pore formation. Proc Natl Acad Sci U S A [Internet]. 2004 Sep 7 [acesso 2019 nov 30];101(36):13147-51. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC516539/.
McAdam AJ, Sharpe AH. Doenças infecciosas. In: Kumar V, Abbas AK, Fausto N, Aster JC. Robbins e Cotran, bases patológicas das doenças. 8ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2010. p. 331-405.
Mourez M et al. 2001: a year of major advances in anthrax toxin research. Trends Microbiol [Internet]. 2002 Jun [acesso 2019 nov
29];10(6):287-93. Disponível em:
https://www.cell.com/trends/microbiology/fulltext/S0966-842X(02)02369-7?_returnURL=https%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0966842X02023697%3Fshowall%3Dtrue.
Nablo BJ et al. Anthrax toxin-induced rupture of artificial lipid bilayer membranes. J Chem Phys [Internet]. 2013 Aug 14 [acesso 2019 nov 29];139(6):065101. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3751978/.
Pannifer AD. Crystal structure of the anthrax lethal factor. Nature [Internet]. 2001 Nov 8 [acesso 2019 nov 30];414(6860):229-33. Disponível em: https://www.nature.com/articles/n35101998.
Petosa C, Collier RJ, Klimpel KR, Leppla SH, Liddington RC. Crystal structure of the anthrax toxin protective antigen. Nature [Internet]. 1997 Feb 27 [acesso 2019 nov 30];385(6619):833-8. Disponível em: https://www.nature.com/articles/385833a0.
Prince AS. The host response to anthrax lethal toxin: unexpected observations. J Clin Invest [Internet]. 2003 Sep [acesso 2019 nov 29];112(5):656-8. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC182215/.
Silva BV, Horta BAC, Alencastro RB, Pinto AC. Proteínas quinases: características estruturais e inibidores químicos. Quím. Nova
[Internet]. 2009 fev 5 [acesso em 2019 dez 11];32(2):453-62. Disponível em:
http://quimicanova.sbq.org.br/imagebank/pdf/Vol32No2_453_31-RV08232.pdf.
Spencer RC. Bacillus anthracis. J Clin Pathol [Internet]. 2003 Mar [acesso em 2019 nov 30];56(3):182-7. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1769905/.
Anexo 1: Padrão de cores
Cor Comando
para a cor Amostra Valores RGB Amarelo Yellow [255,255,0] Amarelo matiz Yellowtint [246,246,117]
Azul Blue [0,0,255] Azul celeste Skyblue [58,144,255]
Azul matiz Bluetint [175,214,255] Branco White [255,255,255] Ciano Cyan [0,255,255] Cinza Grey [125,125,125] Laranja Orange [255,165,0] Magenta Magenta [255,0,255] Marrom Brown [175,117,89] Ouro Gold [255,156,0] Preto Black [0,0,0] Púrpura Purple [160,32,240] Rosa Pink [255,101,117] Rosa matiz Pinktint [255,171,187] Rosa quente Hotpink [255,0,101]
Verde Green [0,255,0] Verde azulado Greenblue [46,139,87]
Verde mar Seagreen [0,250,109] Verde matiz Greentint [152,255,179]
Vermelho Red [255,0,0] Vermelho alaranjado Redorange [255,69,0]
Violeta Violet [238,130,238]
Fonte: Adaptado de Bernstein HJ, Bernstein FC. Manual RasMol 2.7.5 [Internet]. 2009 jul 17 [Acesso em 2019 nov 14]. Disponível em: http://www.rasmol.org/software/RasMol_2.7.5_Manual.html.
Quadro 1 – Padrão de cores do Comando Colours
Elemento Cor Amostra Valores RGB
Carbono Cinza claro [200,200,200]
Oxigênio Vermelho [240,0,0]
Hidrogênio Branco [255, 255,255]
Nitrogênio Azul celeste [143,143,255]
Enxofre Amarelo [255,200,50]
Fósforo, Ferro e Bário Laranja [255,165,0]
Cloro, Boro Verde [0,255,0]
Bromo, Zinco, Cobre, Níquel Marrom [165,42,42]
Sódio Azul [0,0,255]
Magnésio Verde folha [34,139,34]
Cálcio, Manganês, Cromo,
Alumínio, Titânio, Prata Cinza escuro [128,128,144] Flúor, Silício, Ouro Dourado [218, 165, 32]
Iodo Púrpura [160, 32, 240]
Lítio Vermelho tijolo [178, 34, 34]
Hélio Rosa [255, 192, 203]
Demais átomos Rosa profundo [255,20,147] Quadro 2 – Padrão de cores do padrão CPK
Anexo 2: Scripts desenvolvidos para as figuras
Figura 10 – Antígeno protetor load 1acc.pdb wireframe off cartoons select 1-258 colour yellowtint select 259-487 colour pinktint select 488-595 colour bluetint select 596-735 colour greentint select ca spacefill 200 colour cpk rotate x 190 translate y 3 zoom 170
Figura 11 – Heptâmero do antígeno protetor load 1tzo.pdb
wireframe off
select *a, *b, *c, *d, *e, *f, *o spacefill color red select *b color orange select *c color yellow select *d color green select *e color skyblue select *f color blue select *o color purple rotate y -71 rotate x 13 translate x 8 translate y 16 zoom 200
Figura 12 – Fator edema load 1k8t.pdb wireframe off cartoons select 294-349, 490-622 colour redorange select 350-489 colour skyblue select 660-800 colour seagreen select 623-659 colour magenta rotate x 90 zoom 130
Figura 13 – Fator letal load 1j7n.pdb wireframe off select 1-262 cartoons colour cyan select 263-302, 385-551 cartoons colour grey select 303-384 cartoons colour brown select 552-776 cartoons colour purple select *b cartoons off rotate z 50 rotate y 230 translate x -5 zoom 130
Em 2001, houve ataques de bioterrorismo que assustaram a população dos Estados Unidos. Cartas anônimas eram enviadas pelo correio, contendo um misterioso pó branco. Descobriu-se que as cartas continham as toxinas do bacilo do antraz, que quando inaladas, causavam uma forma pulmonar letal da doença. Este livro apresenta as toxinas do antraz, apresentado sua estrutura bioquímica e explicando como elas atuam na célula do indivíduo hospedeiro.