O IMIGRANTE INTERNACIONAL DE RETORNO
E SUA INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO:
Um estudo entre as Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas
Luciana Martins Anicio
Belo Horizonte
2011
O IMIGRANTE INTERNACIONAL DE RETORNO
E SUA INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO:
Um estudo entre as Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Geografia – Tratamento da Informação Espacial, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre.
Área de Concentração: Análise Espacial Orientador: Duval Magalhães Fernandes
Belo Horizonte 2011
FICHA CATALOGRÁFICA
Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Anicio, Luciana Martins
A597i O imigrante internacional de retorno e sua inserção no mercado de trabalho: um estudo entre as microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas / Luciana Martins Anicio. Belo Horizonte, 2011.
162f.: il.
Orientador: Duval Magalhães Fernandes
Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Tratamento da Informação Espacial.
1. Migração. 2. Imigrantes. 3. Mercado de trabalho – Teófilo Otoni. 4. Mercado de trabalho – Poços de Caldas. I. Fernandes, Duval Magalhães. II. Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Programa de Pós-Graduação em Tratamento da Informação Espacial. III. Título.
SUA INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO:
Um estudo entre as Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Geografia – Tratamento da Informação Espacial, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre.
Área de Concentração: Análise Espacial Orientador: Duval Magalhães Fernandes
Área de Concentração: Análise Espacial
___________________________________________________________________
Prof. Dr. Duval Magalhães Fernandes (Orientador) – PUC Minas
________________________________________________________________
Prof. Dr. Alexandre Magno Alves Diniz - PUC Minas
________________________________________________________________
Prof. Dr. José Irineu Rangel Rigotti - UFMG-CEDEPLAR
Em primeiro lugar, agradeço a toda minha família, sobretudo, meu pai, pelo incentivo e a minha mãe, pelo carinho. Aos queridos Carlos Renato, Christiane, Hilabárbara, Ana Paula, Mary, Jerusa, Sirlene, Juliana, Luciana, Adriana e amigos da SLU, pelas conversas e bons momentos. Aos amigos do UNI-BH – Leonardo, João Carlos, Alexsandra, Mário, Anderson, Itamar e Felipe – agradeço por sempre me apoiarem de alguma forma.
Ao Prof. Duval Fernandes Magalhães, pela orientação que ajudou muito no desenvolvimento da pesquisa, pela postura acessível e por acreditar em mim. Agradeço Carolina Nunan, Margareth Carvalho e Patrícia Pacetti, que participaram do levantamento da pesquisa e tiveram prontidão em me ajudar, quando precisei. Aos imigrantes internacionais de retorno e todos que responderam as entrevistas, obrigada, por tornarem possível este trabalho.
Meus agradecimentos aos professores do Programa, pelos riquíssimos ensinamentos, aos funcionários, pelo acolhimento e aos amigos que fiz e reencontrei, durante a pós-graduação. Obrigada também a Carla Andréa, funcionários e estagiários do CEEFEL, pelo aprendizado interdisciplinar que me proporcionaram.
Agradeço a CAPES, pela bolsa de mestrado e ao UNI-BH, pela base acadêmica. Por fim, um forte abraço a todas as pessoas que torceram pelo sucesso deste trabalho.
A globalização influencia nos movimentos migratórios internacionais, aonde pessoas vindas de países periféricos deslocam-se para países desenvolvidos em busca de melhores oportunidades de renda. Ao longo dos últimos 30 anos, muitos brasileiros foram ao exterior, objetivando formar uma poupança e retornar ao país para tornarem-se micro, pequenos e médios empreendedores locais, estimulando, assim, a continuidade do fluxo de migração internacional, enquanto outros não foram bem sucedidos ao voltarem para o Brasil, apresentando insucessos nos negócios ou não readaptando a vida anterior. Desde a atual crise financeira internacional, iniciada em 2008, são claros indícios crescentes de imigrantes de retorno no Brasil, que muitas vezes, voltam sem sucesso do projeto emigratório. Tais movimentos já causaram impactos socioeconômicos em alguns municípios como os das Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas em Minas Gerais. Diante desse contexto, o presente trabalho escolheu estas duas regiões para observar o processo de migração internacional de retorno, bem como analisar a inserção dos imigrantes internacionais de retorno no mercado de trabalho.
Palavras-chave: Migrações Internacionais; Imigrantes Internacionais de Retorno; Inserção no Mercado de Trabalho.
Globalization influences on international migration, where people from outlying countries move to developed countries in search of better income opportunities. Over the past 30 years, many brazilians were abroad, aiming to accumulate capital and to return the country to become micro, small and medium local entrepreneurs, thus stimulating the continued flow of international migration, while others were not well the successful return to Brazil, with failure in business or not readjusting to life before. Since the current international financial crisis, which began in 2008, are clear indications of return immigrants growing in Brazil, which often return without success of the emigration project. Such movements have caused social and economic impacts in some municipalities as of Microregions Teófilo Otoni and Poços de Caldas in Minas Gerais. In this context, this research chose these two regions to observe the process of return international migration, as well as analyze the insertion of return immigrants in the labor market return.
Keywords: International Migration; International Immigrants Return; Insertion in the Labor Market.
Mapa 1: Os 23 países com destino preferencial dos
emigrantes brasileiros, 2008 ...46 Mapa 2: Volume de Remessas em milhões de dólares por país da
América Latina e Caribe em 2007 ...51 Mapa 3: Principais Municípios da Região Sudeste e Sul do Brasil com
Concentrações de Remessas ...52 Mapa 4: Localização dos municípios de Teófilo Otoni
e Poté na Microrregião de Teófilo Otoni...63 Mapa 5: a. População Total em 2000; b. População em 2010;
c. Taxa de Crescimento Populacional – 2000 a 2010
Microrregião Teófilo Otoni ...64 Mapa 6: Localização dos municípios de Poços de Caldas e Botelhos na
Microrregião de Poços de Caldas ...81 Mapa 7: a. População Total em 2000; b. População em 2010;
c. Taxa de Crescimento Populacional – 2000 a 2010
da Microrregião Poços de Caldas ...82 Mapa 8: Distribuição Espacial dos Migrantes Internacionais,
da Microrregião Teófilo Otoni nos Estados Unidos ...104 Mapa 9: Distribuição Espacial dos Migrantes Internacionais,
da Microrregião Teófilo Otoni nos municípios de Portugal...105 Mapa 10: Distribuição Espacial dos Migrantes Internacionais,
da Microrregião Poços de Caldas nos Estados Unidos...106 Mapa 11: Distribuição dos Imigrantes de Retorno por Setor, antes de emigrarem e após o retorno, nas Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas ...114
Gráfico 1: Finalidade das Remessas enviadas pelos brasileiros...49 Gráfico 2: Montante Médio Recebido por Remessa de Acordo
com a Origem dos Recursos em abril à maio de 2004 53
Gráfico 3: Pirâmide Etária de Teófilo Otoni, 2010...69 Gráfico 4: Distribuição Percentual da população economicamente ativa
por setor de ocupação em Teófilo Otoni, 2000 70
Gráfico 5: Valor do PIB de Teófilo Otoni por setor, 2008 ...71 Gráfico 6: Pirâmide Etária de Poté, 2010 ...75 Gráfico 7: Distribuição Percentual da População Economicamente
Ativa por Setor de Ocupação em Poté ...76 Gráfico 8: Valor do PIB de Poté por setor, 2008...76 Gráfico 9: Pirâmide Etária de Poços de Caldas, 2010 ...86 Gráfico 10: Distribuição Percentual da População Economicamente
Ativa por Setor de Ocupação em Poços de Caldas ...87 Gráfico 11: Valor do PIB de Poços de Caldas por setor, 2008 ...88 Gráfico 12: Pirâmide Etária de Botelhos, 2010...93 Gráfico 13: Distribuição Percentual da População Economicamente
Ativa por Setor de Ocupação em Botelhos ...94 Gráfico 14: Valor do PIB de Botelhos por setor, 2008 ...95
Gráfico 15: Distribuição dos Entrevistados por Estado Civil Atual e por Sexo
Nas Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas, 2009...100
Gráfico 16: Escolaridade dos Imigrantes de Retorno
das Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas ...101 Gráfico 17: Motivos dos entrevistados das
Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas para saírem do Brasil ...102 Gráfico 18: Distribuição Percentual dos Entrevistados, segundo
tipo de contato no exterior, nas Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas ...103 Gráfico 19: Distribuição Percentual dos Retornados por Setor das áreas de estudo das Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas, antes de emigrarem ...107 Gráfico 20: Distribuição Percentual dos Setores de Ocupação no exterior nas
Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas...108 Gráfico 21: Distribuição Percentual da Situação de Ocupação de
Trabalhos, antes de emigrar e no ano 2009, após o retorno... 111 Gráfico 22: Distribuição Percentual dos Retornados por Setor das áreas de estudo das Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas, em 2009, após o retorno ... 113
Tabela 1: Distribuição absoluta e relativa dos migrantes
brasileiros, segundo o país de residência ...46 Tabela 2: Índice de participação dos migrantes
Retornados na população total, por municípios selecionados
Com mais de 100.00 habitantes em 2000 ...55 Tabela 3: IDH Municipal, IDH Educação, Longevidade, Renda dos municípios da Microrregião Teófilo Otoni 65
Tabela 4: Evolução da População Total, urbana e rural
(1970 a 2010) em Teófilo Otoni ...68 Tabela 5: Estrutura Etária e Razão de Dependência de
1991, 2000 e 2010 em Teófilo Otoni ...70 Tabela 6: Investimentos Municipais em Teófilo Otoni no ano de
2000 a 2007 ...71 Tabela 7: Nível Educacional da População Jovem,
1991 e 2000, em Teófilo Otoni ...72 Tabela 8: Nível Educacional da População com 25 anos
ou mais, 1991 e 2000, em Teófilo Otoni ...73 Tabela 9: Indicadores de Longevidade, Mortalidade, Fecundidade de
Teófilo Otoni ...73 Tabela 10: Evolução da População Total, urbana e rural
(1970 a 2010) em Poté ...75 Tabela 11: Estrutura Etária, 1991, 2000, 2007, em Poté ...75 Tabela 12: Investimentos Municipais em Poté no ano de 2000 a 2007...77 Tabela 13: Nível Educacional da População Jovem,
1991 e 2000, em Poté ...78 Tabela 14: Nível Educacional da População com 25 anos ou mais,
1991 e 2000, em Poté ...79 Tabela 15: Indicadores de Longevidade, Mortalidade,
Fecundidade em Poté ...79 Tabela 16: IDH Municipal, IDH Educação, Longevidade,
Renda dos municípios da Microrregião de Poços de Caldas 83 Tabela 17: Evolução da População Total, urbana e
rural (1970 a 2010) em Poços de Caldas ...85 Tabela 18: Estrutura Etária e Razão de Dependência de 1991, 2000, 2007 de Poços de Caldas ...87 Tabela 19: Investimentos Municipais em Poços de Caldas no ano de
Tabela 21: Nível Educacional da População com 25 anos
Ou mais, 1991 e 2000, em Poços de Caldas ...90 Tabela 22: Indicadores de Longevidade, Mortalidade,
Fecundidade em Poços de Caldas 91
Tabela 23: Evolução da População Total, urbana e rural
(1970 a 2010) em Botelhos ...93 Tabela 24: Estrutura Etária, 1991, 2000, 2007, em Botelhos ...94 Tabela 25: Investimentos Municipais em Botelhos no ano de 2000 a 2007 ...96 Tabela 26: Nível Educacional da População
Jovem de Botelhos...97 Tabela 27: Nível Educacional da População com 25 anos ou mais,
1991 e 2000, em Botelhos...97 Tabela 28: Indicadores de Longevidade, Mortalidade,
Fecundidade em Botelhos...98 Tabela 29: Entrevistados das Microrregiões Teófilo Otoni
e Poços de Caldas, segundo o sexo, 2009 ...99 Tabela 30: Idade do entrevistado das Microrregiões Teófilo Otoni
e Poços de Caldas, 2009 ...100 Tabela 31: Atividades de Ocupação, antes de Emigrar ...108 Tabela 32: Atividades de Ocupação no Exterior ...109 Tabela 33: Comparativo da Situação de Ocupação
antes de emigrar e em 2009, após o retorno ... 112 Tabela 34: Atividades de Ocupação, após de Emigrar ... 115
Figura 1: Visualização do município de Poté... 117
Figura 2: Influência do fenômeno emigratório internacional na escolha do nome do comércio... 117
Figura 3: Residências com recursos da emigração internacional... 117
Figura 4: Prédio com recursos de emigração internacional. ... 118
Figura 5: Investimentos Imobiliários com recursos da emigração internacional... 118
Figura 6:Visualização do Bairro Jardim América, loteamento e construção de imóveis feitos com recursos enviados por um emigrante empreendedor que reside nos Estados Unidos ...126
Figura 7: Residências do Bairro Jardim América...126
ADESCOP – Agência de Desenvolvimento Sócio-Econômico BDMG – Banco de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais CEPAL – Comissão de Estudos para América Latina e Caribe
FUMIN /BID – Fundo Multilateral de Investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento
IBGE– Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada OIM – Organização Internacional para as Migrações
PNUD – Programa de Nações Unidas para o Desenvolvimento
SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
SENAC – Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial SENAT – Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte SESI – Serviço Social da Indústria
1. INTRODUÇÃO ...14
1.2 Considerações Iniciais e Justificativa ...15
1.2 Objetivos ...18
2. MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS: REFLEXÕES TEÓRICAS E GLOBALIZAÇÃO ...20
2.1 Migrações Internacionais e contexto geral ...20
2.2 Perspectivas Sistêmicas das Causas e Características das Migrações...21
2.3 A Geografia e suas categorias de análise nos estudos de Migrações Internacionais ...32
2.4 Migrações Internacionais e Globalização ...38
3. MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS NO BRASIL CONTEMPORÂNEO...41
3.1. Perfil das Migrações Internacionais Brasileiras ...44
3.2. Os Sub-sistemas de Emigração do Brasil ...46
3.3. Remessas ...50 3.4. Migração de Retorno ...59 4. METODOLOGIA...59 4.1. Procedimentos de Pesquisa...59 4.2. A Pesquisa de Campo ...61 4.3. A Coleta de Dados...61
4.4. Procedimentos de Tratamento e Análise de Dados...62
5. PANORAMA SOCIOECONÔMICO DAS ÁREAS DE ESTUDOS...63
5.1. Panorama socioeconômico dos municípios em estudo da Microrregião Teófilo Otoni...63
5.2. Panorama Socioeconômico dos municípios em estudo da Microrregião de Poços de Caldas ...81
6. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ...100
6.1. Análise e Discussão dos Resultados Quantitativos ...100
6.2 Análise e Discussão dos Resultados Qualitativos ... 116
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS ...134
REFERÊNCIAS...137
ANEXO...144
1 INTRODUÇÃO
1.1 Considerações Iniciais e Justificativa
Os processos migratórios sempre fizeram parte da história da humanidade, especialmente nos últimos 500 anos nas Américas. A migração internacional tem em suas bases, carências políticas, sociais e econômicas que, freqüentemente, levam os membros de uma sociedade a deslocarem-se do país de origem.
No Brasil contemporâneo, destacam-se dois importantes momentos das imigrações internacionais: o período entre o final do século XIX a meados do século XX, quando o país recebeu os imigrantes europeus e japoneses para atenderem a demanda crescente da mão-de-obra na agricultura, além dos refugiados da Segunda Guerra Mundial e o período de migração recente (a partir de 1980), compreendendo também a emigração de brasileiros.
No período até a década de 1960, em que o Brasil foi, por muitas décadas, considerado “um país de imigração”, era discutido no meio político, os impactos positivos e negativos que a colonização por estrangeiros implicava ao país, em detrimento do “elemento nacional”. Com isso, quando houve a ditadura militar no Brasil (1964-1985), as políticas de atração de imigrantes transformaram-se, em políticas de controle, resultando em leis autoritárias e restritivas como, por exemplo, a Lei 6815 de 1980, ou seja, o “Estatuto do Estrangeiro”. No entanto, com o fim do Regime Militar e a promulgação da Constituição Federal de 1988, fundada em respeito à dignidade humana, à cidadania e à prevalência dos direitos humanos nas relações internacionais, o Estatuto do Estrangeiro, que não considera os direitos dos migrantes, encontra-se sem nenhuma base constitucional para sustentá-lo.
Com o restabelecimento da democracia, no início da década de 1990, esforços foram empreendidos no sentido de eliminar a herança autoritária da legislação relativa à migração, mas sem muito sucesso.
Nesse ínterim, num contexto de globalização – no que se refere facilidades de comunicação e deslocamentos espaciais - muitos brasileiros começaram a deixar o país e novos grupos começaram a chegar ao Brasil, especialmente vindos de países fronteiriços. A nova realidade migratória mundial e regional levou a que, em 2006, o governo começasse a elaborar e a discutir com a sociedade, por meio de Consulta Pública, uma nova lei migratória (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL PARA AS MIGRAÇÕES, 2010, p. 12).
Embora o Brasil continue recebendo imigrantes, sobretudo de países fronteiriços, o atual período de migração (1980 até hoje), é marcado, nos dois primeiros decênios, pela emigração de brasileiros em busca de melhores condições de vida no exterior. Dessa forma, o Brasil torna-se de um país de destino a um país de origem. Isso se deve à nova dinâmica do capitalismo, onde a globalização é caracterizada pela reestruturação econômica e internacionalização do capital e nesse sentido, os novos migrantes não buscam exclusivamente a sobrevivência como os imigrantes do início do século passado, mas são atraídos pela possibilidade de manter ou elevar seu padrão de vida nas cidades globais.
A origem do imigrante internacional brasileiro varia bastante. Enquanto, alguns brasileiros que se dirigem ao Japão partiram de estados, onde há uma representativa colônia de descendentes de japoneses, no caso do Paraguai, a procedência dos imigrantes brasileiros é de estados fronteiriços onde há forte participação do setor agrícola na economia local. Já em relação aos outros países como Estados Unidos, Portugal e Espanha, há predominância de pessoas com a última residência em Minas Gerais. Em estudos como Martes (2005), 42% dos entrevistados na pesquisa feita no Estado de Massachusetts nos Estados Unidos declararam residir em Minas Gerais, enquanto no trabalho realizado em Portugal por Rossi (2004), aponta 30% dos entrevistados residentes deste Estado. Para Espanha, Fernandes e Nunan (2008) indicam que o Estado de Minas Gerais foi apontado como última Unidade da Federação de residência por 12% dos entrevistados, em sua maioria, originários da cidade de Poços de Caldas.
Aliás, Minas Gerais foi reconhecida, como ponto de partida dos emigrantes, pela CPMI – Comissão Parlamentar Mista do de Inquérito da Emigração do Senado Federal, que realizou no estado, duas das três audiências públicas previstas no seu programa de trabalho, uma em Governador Valadares e a outra em Poços de Caldas. Vale acrescentar que Governador Valadares é a cidade no território brasileiro onde se iniciou o fluxo migratório para os EUA. A importância do Estado de Minas Gerais está muito relacionada a aspectos históricos que ligam a cidade de Governador Valadares à migração para os Estados Unidos.
A maioria dos emigrantes brasileiros dirige-se para os Estados Unidos em razão das possibilidades de trabalho e das redes de relações que disseminam informações sobre o mercado de trabalho e criam mecanismos que facilitam o processo de emigração. Segundo Siqueira (2006), a região de Governador
Valadares, em Minas Gerais, contribui com o maior número de migrantes e mantêm uma remessa regular de dólares que influencia a economia local (principalmente comércio e construção civil) e dão nova configuração ao estilo de vida local.
A migração de brasileiros para o exterior consiste no projeto de trabalhar alguns anos, poupar o que ganhou e voltar para o Brasil, tendo assim aumentado o montante dos rendimentos. Nesse projeto, a pessoa é incentivada pela perspectiva de reduzir o tempo para realizar planos como comprar a casa própria, o carro ou montar um negócio, já que se permanecesse no Brasil, a realização desses planos seria em um tempo bem maior e para alguns, seria impossível. Nas cidades globais, os imigrantes acreditam na possibilidade de cumprir seus objetivos, mesmo em ocupações que não exigem muita qualificação.
É evidente que o sucesso ou fracasso do projeto acima mencionado definirá o tempo de permanência no exterior ou retorno ao país de origem. A decisão de voltar estará condicionada, não só à situação no local de destino, mas também às alterações na situação econômica e social na região de origem. Enquanto o emigrante permanece no país de destino, busca-se manter laços afetivos com os que ficaram no Brasil, além de fornecer auxílio material, vias remessas, reforçando no compromisso com o retorno e na possibilidade única de realizar os sonhos que embalaram a partida.
Contudo, ao chegar de volta ao Brasil, a re-inserção no mercado de trabalho pode ser penosa, visto que a nova realidade não guarda ligação com o que foi deixado para trás. Muitos imigrantes internacionais de retorno fazem investimentos sem assessoria e conhecimento da economia e do mercado, resultando na perda de toda a poupança realizada durante os anos de emigração. Ao longo dos últimos 30 anos, enquanto alguns brasileiros conseguiram ir ao exterior, formar uma poupança e retornar ao país para tornarem-se micro, pequenos e médios empreendedores locais, estimulando, assim, a continuidade do fluxo de migração internacional, outros não são bem sucedidos ao voltarem para o Brasil, apresentando insucessos nos negócios ou não readaptando à vida anterior, retornando assim, à condição de emigrantes nos EUA.
De acordo com Organização Internacional para as Migrações (2010), são claros os indícios de retorno, que se supõe acentuada na atual crise financeira internacional, iniciada em 2008, e nas políticas crescentemente restritivas dos países recebedores de fluxos. Tais movimentos já causaram impactos econômicos e sociais
em alguns municípios, como os das regiões de Teófilo Otoni e Poços de Caldas, em Minas Gerais.
A propósito, o presente trabalho escolheu as Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas, tendo como pano de fundo, duas realidades sócio-econômicas distintas e com histórico regional de processos migratórios diversos, para observar a migração internacional de retorno e seus impactos nos municípios, bem como analisar a inserção dos imigrantes de retorno no mercado de trabalho.
Para o desenvolvimento desse estudo, foram executadas duas etapas. Na primeira etapa, foi aplicada a pesquisa quantitativa da PUC MINAS1, nos municípios de Poços de Caldas e Botelhos da região de Poços de Caldas e Teófilo Otoni e Poté da região de Teófilo Otoni, objetivando mostrar um quadro geral do perfil do imigrante de retorno e sua experiência migratória. Na segunda etapa, foi aplicada a pesquisa qualitativa, pela autora da dissertação, em Botelhos e Teófilo Otoni, tendo em vista a visibilidade do fenômeno migratório nos dois municípios. Essa etapa visou aprofundar a discussão da temática, dando ênfase à percepção da inserção no mercado de trabalho dos emigrantes internacionais que voltaram, após a crise internacional de 2008.
O trabalho inicia fazendo uma apresentação do contexto teórico das Migrações Internacionais e explica a realidade dessa temática no cenário da globalização e no Brasil. No capítulo 3, mostra a metodologia aplicada para pesquisa. No capítulo 4, é feita a caracterização da estrutura sócio-econômica das regiões em questão. No capítulo 5, aborda o perfil sócio-demográfico e a experiência emigratória dos imigrantes que retornaram às regiões e analisa os mecanismos nas cidades, com maior probabilidade do fenômeno migratório em relação aos pólos regionais, para a inserção dos imigrantes de retorno no mercado de trabalho.
Ao final dessa pesquisa, espera-se diagnosticar a realidade das famílias de migrantes nas regiões de Teófilo Otoni e Poços de Caldas, e desta forma subsidiar ações que possibilitem a implementação de políticas e projetos que visam readaptação e o aperfeiçoamento do imigrante de retorno no mercado de trabalho.
1
1.2 OBJETIVOS
1.2.1 Objetivo Geral
O objetivo geral é analisar a migração internacional de retorno nas microrregiões estudadas e verificar a inserção dos imigrantes de retorno no mercado de trabalho.
1.2.2 Objetivos Específicos
a) Conhecer a realidade da migração internacional de retorno nas regiões pesquisadas, considerando aspectos econômicos e culturais locais.
b) Analisar, por meio das entrevistas quantitativas e qualitativas, as motivações que levaram à emigração, as expectativas em relação às oportunidades que seriam encontradas no local de destino, as razões para o retorno e a situação encontrada quanto à inserção no mercado de trabalho.
c) Mostrar os impactos da crise internacional, iniciada em 2008, na migração de retorno em duas regiões.
d) Investigar as políticas e projetos criados nos municípios Poté da Microrregião Teófilo Otoni e Botelhos da Microrregião Poços de Caldas que viabilizem a inserção do imigrante internacional de retorno no mercado de trabalho.
e) Contribuir para a discussão acerca da importância de intervenções e políticas públicas que visem adaptar o imigrante internacional no mercado de trabalho.
2 MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS: REFLEXÕES TEÓRICAS E GLOBALIZAÇÃO
2.1 Migrações Internacionais e o contexto geral
De uma maneira geral, define-se migração como uma mudança permanente ou semi-permanente de residência. Não importa a distância e o esforço para se movimentar. O importante é que o ato migratório terá um lugar de origem, um lugar de destino e uma série de obstáculos intervenientes (LEE, 1980).
A abordagem processual e sistêmica dos fenômenos migratórios tornou-se bastante difundida entre os pesquisadores de 1970, conforme Fazito et al. (2008). Kritz, Lin e Klotnik (1992) explicam que, mais recentemente, tal abordagem contribuiu para consolidar a idéia de que o sistema migratório internacional seria uma rede de países ligados por interações migratórias, cuja dinâmica é amplamente condicionada por uma variedade de redes que conectam atores migrantes em diferentes níveis de agregação.
A partir dessa noção, novas contribuições teóricas e metodológicas foram feitas, como cita Fazito et al. (2008), no sentido de aprofundar a perspectiva sistêmica das migrações, sobretudo o caso das teorias sobre redes e capital social, teorias dos sistemas mundiais e a teoria da causalidade cumulativa. Aliás, a perspectiva sistêmica das migrações será tratada mais detalhadamente no decorrer do presente trabalho, visando abordar as contribuições de alguns pesquisadores e identificar as que mais condizem com o estudo de caso em Teófilo Otoni e Poços de Caldas.
Para Fazito et al. (2008), as migrações constituem processo social e histórico, sendo que as causas e conseqüências dos deslocamentos só podem ser adequadamente compreendidas quando analisadas em uma perspectiva integrada e processual. O autor relata que a proposta da análise sistêmica das migrações na demografia visa interpretar os deslocamentos populacionais no espaço, respeitando sua dinâmica histórica e social.
A migração é entendida como o processo essencialmente coletivo, apresentando unidade e coerência entre os eventos do ciclo da vida e os significados percebidos e atribuídos ao longo de experiência (de indivíduos e grupos
sociais). Sayad (1998) define a migração como uma denúncia das relações de poder no âmbito das sociedades (Estados/Nações), que só se pode anunciar por meio de uma prática camuflada, mascarada, de dissimulação – ou seja, para se denunciar um paradoxo se faz necessário um contra-paradoxo que, em si mesmo, como o reflexo num espelho, é também uma outra forma não resolvida.
Fazito (2005) explica que embora, contemporaneamente, a maior parte dos fluxos migratórios corresponda minimamente à generalidade das estruturas econômicas nas sociedades capitalistas, muitos deslocamentos são inicialmente impulsionados e sustentados por outras causas estruturais – que podem ser puramente formais, dada a topologia de um sistema de migração em particular.
Outros fluxos determinados por constrangimentos de ordem econômica podem convergir para processos migratórios sustentados por causas estruturais diversas, como a Emigração Internacional de Governador Valadares, sustentada por uma cultura migratória consolidada e articulada por redes sociais (SOARES, 2002; FUSCO, 2001). Siqueira (2006) explica que os relatos e os investimentos dos primeiros emigrantes da cidade, na década de 60, instigavam os desejos dos que ficavam, de experimentar da mesma aventura. Foram esses primeiros migrantes que estabeleceram uma rede de relações, conforme a autora, permitindo a emigração na década de 80.
Massey et al. (1987) reforça as redes sociais como fundamentais para a consolidação do processo da migração, considerando o desequilíbrio estrutural entre regiões de origem e destino como desencadeador da migração que após iniciada, é sustentada por um fluxo de trocas, fortalecendo estratégias migratórias. Para o autor, a migração intensificada, pelas redes sociais, ocorre independente do tempo de duração dos fluxos migratórios, além de ser reforçada pela ação dos retornados.
Importante ressaltar que os mecanismos de migração se estendem para além dos próprios migrantes e de suas condições particulares de existência, considerando também os vínculos destes com os não-migrantes e o campo social no qual se inserem (FAZITO et al., 2008).
2.2 Perspectivas Sistêmicas das Causas e Características das Migrações
De acordo com Fazito (2005), a intensificação das migrações internacionais, a partir de meados do século XIX, deve-se a sobreposição de inúmeros fatores: criação de mão-de-obra excedente não absorvida pela economia européia; disponibilidade de terra e capital, além de forte demanda por trabalho nas Américas; progresso técnico-científico e “encurtamento” das distâncias pelos novos meios de comunicação e transporte. Diante do quadro traçado, ocorre a emergência e consolidação das investigações demográficas consagradas às migrações ao longo dos séculos XIX e XX.
As análises sobre as migrações, segundo Fazito (2005), encontram-se, desde o início, emaranhadas nos laços instauradores da Economia Política empirista e positivista, visto que de forma geral, o migrante deveria ser um indivíduo racional, que escolhe uma determinada estratégia de custo-benefício mais favorável ao seu progresso no campo social (dominado pelas estruturas econômicas concernentes ao estado contemporâneo de nossa sociedade).
O presente trabalho faz uma revisão bibliográfica das principais contribuições teóricas e metodológicas dos estudiosos sobre Migrações: Leis de Migrações, Fluxo e Refluxo, Teoria Neoclássica, Teoria Histórico-Estrutural, Teoria do Mercado Dual de Trabalho, Teoria dos Sistemas Mundiais e Teoria das Redes Sociais.
2.2.1 As Leis das Migrações
De acordo com Nunan (2006), um dos primeiros autores a formalizar uma teoria para explicar e caracterizar os movimentos migratórios foi Ravenstein, em 1885, que em seu estudo sobre as migrações internas na Grã-Bretanha, enumerou uma série de “leis empíricas da migração”, generalizando o processo de deslocamento populacional, levando em conta variáveis como distância, tecnologia, sexo, condição econômica e outras. Muniz (2002) ressalta que o motivo econômico é a principal causa dos processos migratórios.
Ravenstein criou sete leis de Migração que fornecem o esboço do processo seletivo que perdurará no campo científico por quase um século:
a) Migração e Distância - A grande parte dos migrantes se desloca a curta distância, ocorrendo, em conseqüência, mobilidade e deslocamentos gerais da população que produzem “correntes migratórias” que se orientam para os grandes centros comerciais e industriais absorvedores de migrantes.
b) Migração por etapas - A resultante natural dos movimentos migratórios, limitados em alcance, mas gerais em termos do País, seria que o processo de absorção ocorra da seguinte maneira: As pessoas que residem em áreas nas cercanias de uma cidade que esteja rapidamente crescendo, deslocam-se para esta, deslocam-sendo os vazios deixados pela população rural preenchidos por migrantes oriundos de distritos mais remotos, até que a força de atração de uma das cidades em rápido crescimento passe a ser sentida, gradativamente, nos mais remotos pontos do Reino. Conseqüentemente, em termos proporcionais à população natural da qual são originários, os migrantes recenseados num determinado centro de absorção crescem menos com a distância. O processo de dispersão é o inverso do de atração e apresenta características semelhantes.
c) Fluxo e Refluxo – Cada corrente migratória principal produz uma corrente inversa compensatória.
d) Diferenças Urbano-Rurais na propensão a migrar - Os naturais das cidades migram menos do que os naturais das áreas rurais do país.
e) Predomínio das mulheres entre os que migram a curtas distâncias – As mulheres parecem predominar entre os migrantes que percorrem trajetos curtos.
f) Tecnologia e Migração – O incremento dos meios de locomoção e o desenvolvimento da indústria e do comércio haviam contribuído para aumentar a migração.
g) Predomínio do motivo econômico – leis mais ou menos opressivas, tributação onerosa, clima insalubre, ambiente social incompatível e, até mesmo, coerção (tráfico de escravos, deportação para colônias penais), produziram e continuam a produzir correntes migratórias, conquanto nenhuma delas seja comparável em volume à que resulta do desejo inerente à maioria dos homens de melhorar sua situação material. (RAVENSTEIN, 1885, apud NUNAN, 2006, p. 35).
Fazito (2005) analisa que as leis de Ravenstein consolidam a representação (imagem) do migrante e da migração como conceito, no campo científico, qual seja: a migração pressupõe a racionalidade e instrumentalidade dos agentes, o sistema econômico, através das relações no mercado de trabalho, que regula os deslocamentos provocando correntes e contra-correntes, especialmente das áreas rurais para as áreas urbanas e desenvolvidas.
A análise de Ravenstein, de acordo com Ghizzo e Rocha (2008), está centrada na busca pela compreensão das correntes e contra-correntes migratórias, nas quais a “falta de braços” de um certo lugar seria suprida pela abundância de outro lugar, partindo assim, do princípio de que a migração tende a ocasionar o equilíbrio entre a oferta e a demanda de mão-de-obra.
Já Muniz (2002) acrescenta que na “lei da distância”, por exemplo, a maioria dos migrantes, sobretudo as mulheres, tenderia a realizar movimentos de curta distância, enquanto os movimentos de longa distância, representados em sua maioria por homens, se dariam apenas para as grandes cidades, tendo custos maiores tanto de ordem material e busca de informação (o que aumenta a incerteza em relação ao local de origem), quanto de ordem psíquica e de adaptação (novo habitat, novo emprego, etc.)
Para Ravenstein, como relata Muniz (2002), antes de alcançarem as grandes cidades, as pessoas, normalmente originadas de áreas rurais, passavam por cidades de pequeno e médio porte, caracterizando a chamada migração por estágios ou em cadeia. Essa migração visa reduzir os custos relacionados a viagens de longas distâncias.
Segundo Muniz (2002), Ravenstein reflete sobre a existência de “correntes e contracorrentes” migratórias, caracterizadas pela existência de movimentos populacionais de ida e vinda, ou seja, para todo grupo de migrantes que se deslocasse em determinada direção (corrente) deveria existir um movimento na direção contrária e de menor intensidade (contracorrente), que poderia ser representado pelo grupo dos chamados migrantes de retorno.
Considerando o contexto da revolução industrial no qual Ravenstein elaborou suas “leis”, Muniz (2002) deduz que a simples possibilidade de se conseguir melhores salários nas regiões urbano-industriais já bastaria para motivar a migração do campo para as cidades. O autor observa que se por um lado as “leis de migração” se aplicam razoavelmente bem aos movimentos do campo à cidade de numerosos países em processo de industrialização, por outro lado também é possível se pensar na motivação econômica como uma causadora do fluxo inverso, isto é, como uma causadora das contracorrentes migratórias originadas da cidade para o campo.
Nunan (2006) comenta que as sete leis propostas por Ravenstein foram revistas e adaptadas por Lee, quase um século depois. A autora relata que pesquisadores como Stouffer (1940), Jansen (1969), Browning e Feindt (1969) e Lee (1980) remetem diretamente à tradição empirista e positivista de Ravenstein e garantem o avanço das análises da migração rumo à formalização ou, pelo menos, ao esboço de modelos teóricos incorporadores dos deslocamentos.
2.2.2 Fluxo e Refluxo
Na primeira metade do século XX, Ghizzo e Rocha (2008) ressaltam que pouco ou nada se produziu sobre a temática dos estudos migratórios. Os autores comentam que só em 1966, o trabalho realizado por Lee ofereceu um novo paradigma nos estudos migratórios, onde sua proposição envolvia um conjunto de fatores negativos e positivos nas áreas de origem e destino dos migrantes, um conjunto de obstáculos intervenientes, entendidos como a distância a ser percorrida e uma série de fatores pessoais.
Fazito (2005) explica que para Lee, o indivíduo responde aos fatores externos (principalmente econômicos) de acordo com estratégias pré-ordenadas pelos obstáculos intervenientes, ocorrendo uma espécie de “seleção natural”, que determinará os indivíduos a serem bem sucedidos no projeto migratório, quando estes são submetidos às forças econômicas, ecológicas e psicológicas.
As principais hipóteses sobre o Volume e a Taxa da Migração com Desenvolvimento de Fluxos e Refluxos Populacionais de Lee, de acordo com Ghizzo e Rocha (2008), são:
a) Sobre o volume da migração: este varia de acordo com a diversificação entre as áreas e a população, além da capacidade de superar os “obstáculos intervenientes”. Também oscila conforme a dinâmica do setor econômico e o desenvolvimento da área ou do país;
b) Sobre o fluxo e refluxo: esta hipótese considera que, para cada corrente migratória, desenvolve-se uma contracorrente, as quais variam conforme a dinamicidade econômica de cada região. Será alta a corrente migratória quando os fatores do local de origem forem negativos e o obstáculo interveniente grande; contudo, será baixa quando os locais forem semelhantes nos aspectos condizentes ao desenvolvimento econômico; c) Sobre as características dos migrantes: os movimentos migratórios são seletivos e os migrantes que respondem à atração (fatores positivos) constituem seleção positiva, enquanto os que respondem à repulsão (fatores negativos) do local de origem, seleção negativa
(GHIZZO; ROCHA, 2008, p.103).
Para Ghizzo e Rocha (2008), o trabalho desenvolvido por Lee foi de suma importância, uma vez que formulou modelos baseados no contexto social e econômico, enfatizando-se a questão do trabalho, que correspondia às mudanças ocorridas nas estruturas econômicas dos países, principalmente aqueles em desenvolvimento, onde a modernização dos setores produtivos provocou transformações estruturais nas relações de trabalho. A principal conseqüência
destas inovações reflete na ordem da mobilidade do trabalho, quando a mão-de-obra rural – trabalho tradicional – se desloca para o espaço urbano – trabalho moderno – realizando a mobilidade denominada êxodo-rural, segundo Ghizzo e Rocha (2008). Os autores enfatizam que a utilização dos termos “fatores de atração” e “fatores de expulsão” pela literatura especializada em assuntos de população, deve-se também aos estudos de Lee.
2.2.3 Teoria Neoclássica
Segundo Patarra (2006), a União Internacional para o Estudo Científico da População - IUSSP formou, na década de 1990, um comitê encarregado de estudar a migração internacional. O trabalho deste grupo permitiu sistematizar as principais teorias sobre a migração internacional. Nesse sentido, os autores consideraram, inicialmente, a macro e a microteoria neoclássica, a chamada nova economia da migração, a teoria do mercado dual de trabalho e a teoria do sistema mundial.
Na teoria Neoclássica, a explicação das causas das migrações baseia-se no princípio de que o mercado de trabalho é semelhante ao mercado de quaisquer outras mercadorias, compradas e vendidas, livre e regularmente, no mercado. Sendo assim, a renda é a variável determinante e a mobilidade do trabalhador se dá em função da viabilidade da renda (NUNAN, 2006). Portanto, o trabalhador migra para o local onde a rentabilidade do trabalho é maior do que no seu local de origem.
Conforme Nunan (2006), a Teoria Neoclássica é dividida em duas perspectivas: macroteórica e microteórica, sendo que ambas admitem que a migração internacional origina-se da diferença nas taxas salariais entre países e propõem que mercados de trabalho em desequilíbrio podem ter na migração um fator equilibrante. A perspectiva macroteórica contou com a contribuição de Lewis, 1963, Harris e Todaro, 1980, e a microteórica, teve os trabalhos como Sjaastad, 1980; Borjas, 1996.
Os modelos neoclássicos de decisão sobre migração, em sua maioria, como enfatiza Muniz (2002) consideram uma estrutura de custos e benefícios que são contabilizados sob o ponto de vista do indivíduo e, em alguns casos, da família. O autor acrescenta que em um contexto micro, os investimentos em educação,
treinamento e migração, normalmente são vistos como investimentos em capital humano, e visam, sobretudo, a ascensão social e a melhoria das condições de vida. No contexto acima citado, que faz parte da perspectiva microteórica, a migração internacional consiste em uma forma de investimento em capital humano, segundo Sjaastad (1980), levando em conta o somatório dos movimentos individuais. A decisão de migração deve-se a descontinuidade entre os mercados de trabalho.
A perspectiva defendida pela macroteórica neoclássica afirma que a migração internacional, como relata Nunan (2006), é causada pelas desigualdades geográficas na oferta e na demanda de trabalho, manifestadas pelas diferenças nas taxas salariais. Para os autores da perspectiva teórica como Lewis, 1963, Harris e Todaro, 1980, a resultante do deslocamento populacional se dá originalmente de países com baixos salários e com excesso de mão-de-obra para países com altos salários ou com escassez de força de trabalho.
Verifica-se que tanto na perspectiva macro ou micro, a teoria neoclássica detém a concepção de que as migrações correspondem com as respostas populacionais às demandas econômicas, restritas ao mercado de trabalho. Assim, Sjaastad (1980) explica que as migrações desempenham mecanismos de “equilíbrio de economias em transformação” ao promover a mobilização e alocação de recursos (força de trabalho) no mercado.
2.2.4 A Teoria Histórico-Estrutural
Soares (2002) comenta que em posição oposta à dos modelos de escolha racional - que concebem a migração internacional como estratégia de mobilidade livremente assumida, autonômica – estão às análises que entendem os deslocamentos humanos como estratégia de mobilidade sujeita a constrangimentos estruturais: teoria histórico-estrutural. A migração resulta das desigualdades regionais advindas do espaço transformado, do rearranjo espacial das atividades produtivas, de acordo com Singer (1973) apud Soares (2002) e dessa forma, os determinantes e conseqüências da migração devem ser remetidos a outros
fenômenos sociais, historicamente condicionados, que se relacionam com o processo de mudança estrutural em determinada formação social.
A princípio, Massey et al. (1998) relata que a teoria histórico-estrutural, preocupada com as consequências do rápido crescimento da população urbana e a penetração das forças de mercado no campo, dedicou-se apenas à migração interna, sobretudo migração rural-urbana. Somente no final da década de 1970, com a estagnação econômica mundial que põe em evidência a absorção de imigrantes como questão política relevante para os países desenvolvidos, é que as concepções histórico-estruturais passam a ser aplicadas aos fluxos internacionais de trabalhadores.
A partir da teoria neoclássica, a migração deixa de ser vista como conseqüência ou reflexo do espaço transformado para atuar como agente de transformação e a dimensão espacial é retida para possibilitar a análise de formas concretas de mobilidade da força de trabalho.
Nunan (2006) comenta que há um consenso de que os pesquisadores dessa corrente, a partir dos anos 1980, entraram em declínio, possivelmente em função do desencanto com relação aos grandes paradigmas teóricos que prevaleciam e também em função das grandes transformações econômicas, sociais, políticas e culturais no processo de transição da sociedade industrial à sociedade informacional.
2.2.5 Teoria do Mercado Dual de Trabalho
A Teoria do Mercado Dual de Trabalho (PIORE, 1979) entende que a migração internacional é causada por uma demanda permanente de trabalhadores migrantes por parte dos países desenvolvidos. Essa demanda apresenta dois principais determinantes.
O primeiro determinante diz respeito à variável “status social” que tem grande representatividade, segundo Soares (2002), uma vez que as variações salariais não ocorrem apenas pelas oscilações entre oferta e demanda de trabalho. Nesse sentido, como explica Sorte Junior (2003), os empregadores buscam incentivar a imigração de trabalhadores menos qualificados que receberiam menores salários,
enquanto as funções de maior status e com maiores oportunidades decrescimento profissional, ficariam reservados aos trabalhadores nativos.
O segundo determinante, conforme Soares (2002), remete à repercussão do dualismo, inerente ao binômio trabalho-capital, onde nas sociedades industrialmente avançadas, o mercado de trabalho divide-se no setor primário e setor secundário. Com isso, o autor relata que o mercado reserva no setor primário, os trabalhadores nativos, com salários e melhores condições de emprego e no setor secundário, a demanda é ocupada por trabalhadores com pouca ou nenhuma qualificação, que aceitam baixos salários, as condições são instáveis e faltam expectativas de melhoria social.
Soares (2002) comenta que para a Teoria Dual de Trabalho, a migração não é causada por fatores de expulsão nos países de origem, escassez de empregos ou salários baixos, e sim por fatores de atração nos países de destino, que englobariam políticas de imigração, incentivos e práticas de recrutamento desenvolvidas pelos países “desenvolvidos”, visando atender aos interesses dos empregadores e dos trabalhadores. Constata-se, como ressalta Nunan (2006), uma mudança de percepção na causalidade dos fluxos migratórios internacionais que não está na esfera da racionalidade/esforço puramente individual, mas, sim, no predomínio da inevitável demanda de trabalhadores estrangeiros (força de atração) e na primazia de fatores econômicos de natureza estrutural. Um ponto importante a considerar quando se trata da teoria do mercado dual é que a pirâmide salarial, que em última análise representa a hierarquia das ocupações, não permite ampliar o pagamento de atividades que exigem menor investimento em instrução, por exemplo, sem causar constrangimentos. Assim, a saída natural é buscar mão de obra imigrante disposta a fazer tarefas por baixos salários.
2.2.6 Teoria dos Sistemas Mundiais
Em virtude do processo simultâneo de reordenação das relações entre o centro hegemônico e demais países do mundo capitalista, conforme Portes e Bach (1985) apud Soares (2002), a teoria dos sistemas mundiais trata a migração internacional como parte de um sistema que articula os países de origem e destino
dos fluxos, buscando compreender as diferentes formas de incorporação dos países ao sistema global.
Os movimentos populacionais recentes apóiam-se na difusão das redes de comércio e de informação pelo mundo, na expansão da influência cultural dos países de destino sobre os de origem e na ampliação das expectativas de consumo até áreas remotas do planeta.
(PORTES; BACH, 1985 apud SOARES, 2002, p.16)
Soares (2002) acrescenta que a penetração de regiões periféricas pelo capitalismo provocou desequilíbrios na estrutura socioeconômica interna dessas regiões, o que conduziu às pressões migratórias, ou seja, a emigração resulta de problemas internos que foram induzidos pela expansão do sistema econômico global.
A reorganização da economia mundial, iniciado ao longo da década de 1970 no centro do sistema capitalista e chegando à periferia na década de 1980, contribuiu para a constituição de um espaço transnacional, no qual circulam, não apenas trabalhadores, mas, sobretudo, capital, mercadorias, serviços e informação. Soares (2002) enfatiza que a mobilidade do capital, mais precisamente a internacionalização da produção, tem gerado condições para a mobilidade do trabalho, que se manifestam nos seguintes processos: desenvolvimento da produção para exportação em diversos países do Terceiro Mundo, por meio de investimentos estrangeiros diretos; a transformação de grandes cidades em centros de controle e gerenciamento do sistema econômico global (Nova Iorque e Los Angeles, por exemplo); e a emergência dos Estados Unidos como principal destinatário dos investimentos internacionais diretos.
Pobreza, superpopulação e estagnação econômica, presentes nos países periféricos, não seriam suficientes para explicar a origem da migração internacional. Na visão de Soares (2002), é preciso verificar como as formas de internacionalização da produção incorporam esses países ao espaço transnacional e, ao mesmo tempo, combinam com as condições de pobreza, superpopulação e estagnação econômica. O autor explica que a elevação dos investimentos internacionais, implica na mão-de-obra barata, promove as condições que facultam a emigração de países periféricos para países centrais. A criação de novas aspirações de consumo, sem que as condições para sua satisfação estejam postas, e a preferência pela mão-de-obra feminina, considerada mais maleável, leva a força de
trabalho masculina a buscar alternativas de emprego para garantir a própria sobrevivência e preservar o status da família tradicional (SOARES, 2002)
Ao tratar os movimentos migratórios internacionais à luz das forças econômicas de natureza global, a teoria dos sistemas mundiais argumenta que a mobilidade da força de trabalho é regulada pela lógica de acumulação do capital, que cria, destrói e recria oportunidades de trabalho em diferentes partes do planeta. Para Soares (2002), há um deslocamento da ênfase sobre a racionalidade individual para as maneiras como os meios sociais afetam e modificam os comportamentos econômicos e essa mesma racionalidade.
2.2.7 Teoria das Redes Sociais
A perspectiva sobre as redes sociais na migração toma grande impulso na década de 1980, contribuindo de maneira decisiva, para uma compreensão mais processual e dinâmica dos deslocamentos e, por conseqüência, também revelou, mesmo que indiretamente, a importância dos mecanismos intermediários no processo migratório (FAZITO, 2005).
Dessa forma, a teoria das redes sociais considerou os processos sociais concretos que mostrassem o caráter seletivo da dinâmica migratória, respondendo a duas questões chaves, como relata Soares (2002): Por que alguém se torna migrante? Por que algumas pessoas de um segmento populacional, sob efeito das mesmas transformações estruturais econômicas, sociais ou políticas, migram e outras não? Tais processos sociais concretos incluiriam redes institucionais e de pessoas que, operando entre as esferas micro e macro, organizariam, de fato, a migração.
Para Massey et al. (1987), as condições que dão origem à migração podem ser totalmente diferentes das condições que a perpetuam no tempo. Ao passo que transformações estruturais nas sociedades de origem e de destino respondem pelo início dos fluxos migratórios internacionais e as redes sociais conferem a tais fluxos estabilidade, transformando-os em movimento de massa.
As redes sociais mais importantes baseiam-se em relações de parentesco, de amizade, de trabalho e na origem comum. Ou seja, os amigos e parentes que já
estão no país de destino ajudam os novos emigrantes, como relata Nunan (2006), a achar um lugar para morar, um emprego e aconselham sobre os problemas práticos da vida como: uso do transporte público, abertura de uma conta bancária, aquisição de documentos práticos, compras de roupas baratas e etc. Aqueles que migram primeiro oferecem fundos para ajudar irmãos, pais, outros familiares e amigos a mudarem para o exterior.
Massey et al. (1987) ressalta que as redes sociais não são criadas pelo processo migratório, mas adaptadas por ele e, no decorrer do tempo, são reforçadas pela experiência comum da migração. Assim, “a migração pode ser entendida como processo social, organizado por meio de redes forjadas por conexões interpessoais diárias, que caracterizam todos os grupos humanos” (MASSEY et al., 1987).
Fazito (2005) acrescenta que as redes podem ser não apenas mecanismos que possibilitam o movimento migratório, como também estruturas coletivas passíveis de reorganização, como por exemplo, os mecanismos intermediários na emigração internacional de valadarenses para os EUA, onde as agências de turismo passam a ocupar uma posição estrutural de intermediação devido a constrangimentos formais e a uma coincidência histórica bem específica.
Na perspectiva sistêmica das redes sociais, de acordo com Soares (2002), a rede migratória implica origem e destino e a compreensão do retorno como elemento constitutivo da condição de migrante que concede status ontológico à dinâmica migratória, devido à nostalgia/saudade do país de origem. O retorno remete necessariamente às relações do migrante com o tempo, espaço físico e grupo (SAYAD, 2000).
Em relação ao tempo, o migrante concebe algo como um retorno a si mesmo, um retorno ao tempo anterior à emigração, uma retrospectiva. Nessa relação está o tempo de ontem e o tempo do futuro; a representação de um e a projeção de outro são estreitamente dependentes do domínio que se tem do tempo presente, isto é, do tempo cotidiano da imigração presente. Quanto ao espaço, é preciso lembrar que ele é sempre um espaço qualificado nostálgico, carregado de afetividade. Em todas as suas formas e seus valores, em sua dimensão física ou geográfica e em suas outras qualificações sociais, a terra natal é apenas metáfora espacial do espaço social. Por fim, a relação com grupo evidencia tanto o da sociedade de origem, que foi deixado fisicamente, mas que permanece, de uma maneira ou de outra, na memória, quanto o grupo da sociedade de destino, ao qual é preciso impor-se, aprender a conhecer e dominar
Para Soares (2002), não é a rede pessoal do ator que determina a migração, mas as articulações dessa rede com outras redes sociais organizadas com o princípio de migrar, por fatores de ordem social, econômico, político, simbólico e afetivo. Soares ainda enfatiza que caso o ator não estiver inserido na rede migratória internacional, é pouco provável que a migração se dê, ou seja, é preciso que o ator tenha laços “certos” com os atores “certos”.
A migração internacional depende do perfil das conexões/laços da rede social da qual toma parte o ator; depende da posição estrutural que os fluxos “relacionais” conferem a ele nessa rede social, isto é, a rede social da qual o ator participa deve comportar vínculos que o inscrevam na rede migratória internacional para a consecução do migrar (SOARES 2002). Governador Valadares é um forte exemplo, onde se verifica a aplicabilidade das redes sociais, e segundo Fusco (1999), os emigrantes internacionais da cidade não se dispersam pelo mundo para exercer a mesma ocupação da origem, mas dirigem-se a lugares onde já se encontram à sua espera parentes, amigos e empregos.
Diante das teorias acima explicitadas, mesmo que não se possa categoricamente afirmar que uma das propostas teóricas consegue dar conta de explicar todo o processo migratório, em particular, ocorrido na Microrregião Teófilo Otoni e Poços de Caldas, o componente das redes sociais tem especial importância. Pode-se dizer que a Teoria das Redes Sociais é que a mais condiz com a realidade do fenômeno migratório contemporâneo e a presente dissertação busca analisar como os seus fundamentos se aplica aos processos migratórios que ocorrem nas áreas de estudo das Microrregiões Teófilo Otoni e Poços de Caldas.
2.3 A Geografia e suas categorias de análise nos estudos de Migrações Internacionais
O estudo de fenômenos migratórios no espaço é um tema de grande importância na geografia. A migração pode ser definida como a mobilidade espacial da população. Ferreira (2007) relata que essa mobilidade tem sido objeto de diferentes interpretações ao longo do tempo, expressando-se, entre outros, através dos enfoques neoclássicos e neomarxistas. A presente dissertação destaca o ponto
de vista de alguns autores que analisaram o fenômeno migratório por meio de uma ou mais das cinco categorias geográficas, a saber: espaço, região, território, paisagem e lugar.
A Geografia da População que estuda a composição, a distribuição e as migrações da população em relação ao espaço, é uma ciência desdobrada da Geografia Humana (GEORGE, 1972). Na Geografia da População, é necessário explorar a documentação setorial (efetivos, composição de população, movimentos naturais, migrações), extrair imagens descritivas (estáticas) e dinâmicas, projetando-as num espaço ponderado e qualificado por todos os elementos capazes de caracterizar esse espaço em função de sua aptidão a receber e arcar com uma população, garantindo seu crescimento e seu desenvolvimento.
A imagem que atende de maneira mais imediata às preocupações geográficas é a oferecida pelas relações entre as diversas formas de previsão demográfica sobre um espaço condicionado, concebido no plano do urbanismo (capacidade de recepção, de alojamento, de enquadramento pelos serviços) e no plano da economia como capacidade de emprego, distribuição entre os diversos setores de população ativa (GEORGE, 1972).
Como explica George (1972), o velho sonho dos geógrafos na Geografia da População consiste em exprimir didática e cartograficamente um relacionamento de aplicação universal entre os efetivos humanos e o sustentáculo físico da população. Para o autor, os movimentos de população inserem-se numa perspectiva geográfica dinâmica em função de um substrato residencial e econômico e toda análise e a representação cartográfica de um aumento demográfico desigual impõem uma comparação com as potencialidades e com as realidades dos recursos e do desenvolvimento. Ressalta-se que essas comparações permanecem no plano puramente indicativo. “No plano estático, é mais simples o cálculo de renda média local per capita, assim como o exame das formas de distribuição de renda entre as categorias sócio-profissionais e a identificação das virtualidades de desequilíbrio mais sensíveis numa conjuntura de aumento da população” (GEORGE, p.78, 1972).
O estudo das migrações das populações, como George (1972) observa, tem de vencer obstáculos peculiares do campo da documentação e da medida exata, e que se erguem tanto para o que se relaciona com as migrações internacionais como para as migrações no interior dos Estados. Cabe à geografia, pesquisar as causas regionais e locais de mobilidade da população e dos efeitos das mesmas sobre o
desenvolvimento dos pontos de partida e dos pontos de chegada. Este estudo aproxima a Geografia da População à Geografia Econômica e Social no quadro das regiões afetadas pelos deslocamentos populacionais (GEORGE, 1972). Segundo o autor, o campo de análise da geografia é vasto e dificilmente delimitável, em função da multiplicidade dos fatores de mobilidade e da diversidade específica dos mesmos, que vão desde as motivações puramente econômicas até as incitações de ordem psicológica e aos impulsos voluntários vindos do exterior (influência dos meios de comunicação de massa, por exemplo).
Uma população constitui uma entidade estruturalmente variada, cujas modulações se projetam em planos diversos: a composição demográfica, a distribuição profissional, a desigualdade do desenvolvimento cultural, de vinculação nacional, etc. Nas dosagens das diferentes categorias no interior de uma “população”, o autor cita realidades geográficas específicas em escala de região, cidade, bairro. E esta realidade geográfica pode ser considerada como uma “paisagem humana” com seus sinais exteriores, seus tipos de habitat, seus comportamentos, suas atividades profissionais, etc. A Geografia da População possui um tempo de análise e de classificação peculiares, um lugar primordial em todo estudo regional (GEORGE, 1972).
O estudo regional utiliza como principal categoria de análise, a região geográfica, que conforme o autor supracitado, é tratada como uma unidade de atividade, de povoamento homogêneo, de cultura, que confira a seu quadro, seja este também homogêneo ou, pelo contrário, heterogêneo, certa coesão e personalidade. Para George (1972), a qualificação, que embora nem sempre é a delimitação de regiões, é relativamente simples, quando se trata de unidades fortemente marcadas ou por caracteres que as opõem às regiões vizinhas. O autor comenta que uma investigação das produções e potencialidades de uma região, suas forças de atração e de expulsão das tendências demográficas e psicológicas de suas populações pode levar a uma qualificação.
Alguns estudiosos analisam os fenômenos de Migração Internacional que ocorrem em uma região. A Microrregião Governador Valadares (MG), marcada pelo fenômeno de emigração internacional, é uma das regiões que apresenta vários estudos migratórios em sua unidade. Vale citar o trabalho de Sousa e Dias (2010), sobre a referida microrregião, que abordaram questão como o sentimento de não pertencimento da sociedade ao território, ou seja, a perda de identidade territorial, o
que contribui à estagnação e esvaziamento econômico da região.
A propósito, a região é a principal categoria geográfica da presente dissertação, que também utiliza categorias como território, lugar e paisagem. Assim como o historiador Ritter, da Geografia Clássica Alemã, será feito um estudo comparativo entre regiões. Em “Die Erdkunde” (iniciada em 1817), obra que se trata de uma geografia geral comparada, o referido autor integra os aspectos físicos, históricos, políticos e culturais de algumas regiões da África e Ásia, para assim, comparar suas diferenças e similaridades2. Analogicamente, a presente dissertação visa analisar de forma comparativa, as microrregiões de Poços de Caldas e Teófilo Otoni, dando ênfase, obviamente, ao retorno do imigrante internacional e sua inserção no mercado de trabalho.
Sem dúvida, os estudos migratórios na categoria geográfica de região são muitos relevantes. Contudo, alguns autores também deram contribuições muito importantes para a Geografia, quando se preocuparam em estudar os fenômenos migratórios não só na escala de região, mas também na escala do espaço, território, lugar e paisagem. A globalização, contexto tratado mais especificamente no próximo tópico, confere para Rossini (1997), uma nova dimensão à análise e interpretação do espaço da sociedade e dos fluxos migratórios. Autores como Milton Santos da Geografia Crítica analisam o espaço dentro de uma visão histórico-geográfica de enfoque neomarxista.
Chamaremos de espaços luminosos aqueles que mais acumulam densidades técnicas e informacionais, ficando assim mais aptos a atrair atividades com maior conteúdo de capital, tecnologia e organização. Por oposição, os subespaços onde tais características estão ausentes seriam os espaços opacos. Entre esses extremos haveria toda uma gama de situações. Os espaços luminosos, pela sua consistência técnica e política, seriam os mais susceptíveis de participar de regularidades e de uma lógica obediente aos interesses das maiores empresas
(SANTOS; SILVEIRA, 2001, p. 264).
São esses espaços luminosos, produtos e a serviço do capital, que mais atraem os migrantes. Regiões e cidades também podem ser manchas ou lugares luminosos, para onde se dirigem os migrantes (FERREIRA, 2007). Para Milton Santos (1999), o espaço geográfico é um campo de ação racional.
2
Fonte: A Geografia “Clássica” ou “Tradicional”, texto organizado e disponibilizado pelo Professor Oswaldo Amorim Filho, durante a disciplina Evolução do Pensamento Geográfico do Programa de Pós-Graduação de Geografia – Tratamento de Informação Espacial da PUC MINAS em 2009.