REDUÇÃO DO CONSUMO FOLIAR DE Alabama argillacea (Hüebner, 1818) OCASIONADO PELA LIBERAÇÃO DE Podisus nigrispinus (Dallas, 1851) EM PLANTAS DE ALGODOEIRO EM
CONDIÇÕES DE CAMPO.
J.E.M Oliveira1, S.A. de Bortoli2, A.M. Vacari3, J.E. Miranda4, J.B Torres5 (1) Departamento de
Fitossanidade – Laboratório de Biologia e Criação de Insetos, FCAV/UNESP, 14884-900, Jaboticabal, SP. FAPESP e-mail: [email protected] (2) Departamento de Fitossanidade – Laboratório de Biologia e Criação de Insetos, FCAV/UNESP, 14884-900, Jaboticabal, SP. (3) Departamento de Fitossanidade – Laboratório de Biologia e Criação de Insetos, FCAV/UNESP, 14884-900, Jaboticabal, SP. (4) Embrapa Algodão, Rua Osvaldo Cruz, 1143 Centenário Caixa Postal 174 58107-720, Campina Grande, PB. e-mail: [email protected] (5) DEPA – Fitossanidade, UFRPE, Av. Dom Manoel de Medeiros, s/n, Dois Irmãos, 52171-900 Recife, PE.
RESUMO
Avaliou-se o efeito da liberação do predador Podisus nigrispinus, visando à redução do consumo foliar de lagartas de terceiro instar do curuquerê-do-algodoeiro Alabama argillacea em baixa e alta infestação (uma ou três lagartas por planta), em três idades fenológicas de plantas de algodoeiro (vinte, quarenta e sessenta dias após a emergência - DAE). Plantas de algodoeiro foram engaioladas (cinco plantas/gaiola), sendo cada planta infestada com uma ou três lagartas de A. argillacea, em seguida liberada uma ninfa ou uma fêmea adulta do predador. A redução populacional da praga, favorecida pela presença do predador, refletiu em menor consumo foliar em plantas com baixa densidade da praga nas três idades fenológicas, apresentando desfolha relativa máxima de 4% e mínima de 1%, independente da idade do predador, em relação às plantas sem a presença do predador, apresentando desfolha relativa de 10, 9 e 5% em plantas com 20, 40 e 60 DAE, respectivamente. Em plantas com três lagartas e 20 DAE apenas adultos do predador favoreceram a redução da desfolha (7%), enquanto que em plantas com 40 DAE ninfas favoreceram uma redução de 4% e adultos 3%. Em plantas com 60 DAE, a desfolha relativa foi semelhante na presença ou na ausência do predador.
INTRODUÇÃO
Na fase larval o curuquerê-do-algodoeiro, Alabama argillacea (Hüebner, 1818) (Lepidoptera: Noctuidae), considerado praga-chave do algodoeiro, alimenta-se das folhas da planta e, por esta razão, configura-se como a principal praga desfolhadora dessa cultura. Quando em altas densidades pode desfolhar completamente as plantas, reduzindo consideravelmente a produção (Jácome et al., 2001; Quirino e Soares, 2001). O seu ataque, dependendo da intensidade, pode provocar perdas consideráveis, sendo observadas ocorrências freqüentes em qualquer local onde se plante o algodoeiro, bem como em qualquer estágio fenológico da cultura.
Estudos têm demonstrado que o desenvolvimento e o consumo foliar de A. argillacea pode ser influenciado diretamente e sofrer variações de acordo com o tipo e o grau de resistência do genótipo testado (Ferreira e Lara, 1999; Lara et al., 1999; Santos e Boiça Júnior, 2001) e pelo efeito do ataque do inimigo natural (Oliveira et al., 2001; Boiça Júnior et al., 2002; Santos e Boiça Jr., 2002).
A utilização de percevejos predadores destaca-se como uma ferramenta econômica e ecologicamente viável para o controle biológico do curuquerê. Dessa forma, os percevejos predadores do gênero Podisus têm recebido destaque como agentes de controle biológico, sendo isso devido à sua constante presença em áreas de cultivo (De Clercq et al., 2000), além da possibilidade de sua utilização através de liberações inundativas, e também pela facilidade de criação em laboratório.
No Brasil, estudos visando o uso de Podisus nigrispinus (Dallas, 1851) (Heteroptera: Pentatomidae) para o controle do curuquerê-do-algodoeiro são ainda exíguos e recentes, mas Santos et al. (1995 e 1996), Oliveira et al. (2001), Oliveira et al. (2002), Boiça Júnior et al. (2002) e Santos e Boiça Jr. (2002) mostraram que a fase larval de A. argillacea, como presa, permite o desenvolvimento satisfatório desse predador, devido à localização das larvas no “dossel” das plantas e por apresentarem cinco instares larvais com duração relativamente longa, variando de 9 a 17 dias.
A área foliar da planta e a densidade populacional da praga alvo são fatores importantes e que podem afetar diretamente a procura pela presa e a taxa de predação (Oliveira et al., 2001). Dessa forma, estudos devem ser conduzidos visando obter informações a respeito da predação de A.
argillacea por P. nigrispinus, em relação a diferentes estágios fenológicos da cultura, de forma a
observar e quantificar a participação desse predador na regulação populacional da praga e na redução do consumo foliar ocasionado pela liberação do predador no agroecossistema em foco.
Assim, o presente trabalho teve como objetivo avaliar a redução do consumo foliar em baixa e alta densidade de A. argillacea ocasionado pela liberação e capacidade de predação de P. nigrispinus e em três idades fenológicas de plantas de algodoeiro, em condições de campo.
MATERIAL E MÉTODOS
O experimento foi conduzido em campo na área experimental do Departamento de Fitossanidade da FCAV/UNESP, Jaboticabal, SP, sob latitude de 21o15’22”S, longitude 48o18’58”W e altitude de 595
metros, com temperatura média de 24,2 ± 1,5 oC, 76 ± 9% de U.R. e 224,40 horas de insolação
acumulada no período (dados fornecidos pela Estação Agroclimatológica do Departamento de Ciências Exatas/FCAV/UNESP).
Em campo foram selecionadas plantas de algodoeiro isentas de pragas e predadores. Essas plantas foram envolvidas por gaiolas retangulares (0,80 x 1,20 x 1,00m – largura, comprimento e altura), cobertas totalmente com tecido tipo ‘voil’. As gaiolas foram dispostas ao acaso, cobrindo cinco plantas de algodão, tendo suas bases envolvidas por cola stick visando impedir a migração de insetos considerados indesejáveis. Foram utilizadas plantas de algodoeiro com três idades fenológicas (20, 40 e 60 dias após a emergência – DAE). Lagartas do curuquerê-do-algodoeiro (≈ 1,5 cm; 60 ± 10 mg), correspondente ao terceiro instar, foram liberadas nas folhas superiores, empregando-se as densidades de uma ou três lagartas por planta. Em seguida foi liberada em cada planta uma ninfa ou um adulto de P. nigrispinus previamente identificados através de uma marcação no seu dorso utilizando-se caneta Magic (Figura 1). Paralelamente foram mantidas plantas engaioladas contendo as mesmas densidades de lagartas e plantas totalmente isentas de A. argillacea. As avaliações foram realizadas a cada 24 h após a liberação do predador, e mantidas até a finalização do experimento, constatada após a transformação das lagartas em pupa no tratamento testemunha. Diariamente lagartas predadas eram substituídas por outras de mesmo tamanho do início do experimento. Ao final do experimento as plantas foram colhidas para determinação da área foliar utilizando o medidor de área foliar Li-Cor, modelo LI-3000A. Simultaneamente foram instaladas repetições para avaliar a mortalidade natural e a emergência das pupas.
Os resultados do consumo foliar, para cada idade da planta, foram submetidos a ANOVA simples e as médias comparadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A área foliar foi afetada quando as plantas de algodoeiro apresentavam-se infestadas com lagartas de A. argillacea para as duas densidades testadas (uma e três lagartas/planta), sendo observado menores valores da área foliar para a maior densidade de lagarta e na ausência do
predador P. nigrispinus. Esse mesmo comportamento tem sido observado para todas idades das plantas (Figura 2). No entanto, quando se liberou ninfas ou fêmeas de P. nigrispinus nas plantas com infestação de lagartas, esse efeito tendeu a ser diminuído com plantas em baixa densidade da praga, em todas as idades testadas, e com alta densidade em plantas com até 40 dias de idade, mostrando que a redução populacional das lagartas de A. argillacea provocada pelas ninfas ou adultos de P.
nigrispinus (Figura 2) refletiu em menor consumo de área foliar por A. argillacea. Dessa forma, a idade
das plantas de algodoeiro pode afetar diretamente a taxa de predação de A. argillacea por P.
nigrispinus, indicando que em estágio de desenvolvimento inicial (menor área foliar), o predador terá
maior chance de encontro com a presa, mesmo em número reduzido. Quirino & Soares (2001), estudando o efeito do ataque de lagartas de terceiro instar de A. argillacea em diferentes partes da planta sobre o crescimento e a fenologia em diferentes idades de algodoeiros dos cultivares CNPA 7H e CNPA Precoce 2, verificaram que o mesmo é independente da idade da planta, e que influenciou significativamente na redução da área foliar.
CONCLUSÕES
Em campo, independente da idade das plantas e sua infestação por lagartas de A. argillacea o algodoeiro apresenta menor desfolha com a liberação do predador.
Na ausência do predador P. nigrispinus lagartas de A. argillacea as plantas apresentam maior porcentagem de desfolha relativa.
Figura 1. Adulto e ninfa de Podisus nigrispinus, marcados para identificação no campo, predando lagartas de terceiro instar de Alabama argillacea. Jaboticabal-SP, 2003.
Desf ol ha re la tiva (%) 0 5 10 15 20 25 30 0 predador 1 ninfa 1 adulto NC = 10% 20 40 60 20 40 60 1 lagarta/planta 3 lagartas/planta a a a a a a a a a a a b b a a a a ab
Barras sob mesma letra, para o mesmo índice de infestação, não diferem entre as idades da planta pelo teste de Tukey (p=0,05).
Figura 2. Área foliar (cm2) de plantas de algodoeiro com relação ao ataque em diferentes densidades de Alabama argillacea
e da presença ou não de seu predador Podisus nigrispinus, em condições de campo. Jaboticabal-SP, 2003.
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