ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO-FINANCEIRO DAS UNIVERSIDADES COMUNITÁRIAS DE SANTA CATARINA, POR MEIO DE
ÍNDICES-PADRÃO
AMERCI BORGES DA ROSA
FLORIANÓPOLIS 2020
ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO-FINANCEIRO DAS UNIVERSIDADES COMUNITÁRIAS DE SANTA CATARINA, POR MEIO DE
ÍNDICES-PADRÃO
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Administração, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Administração.
Orientador: Professor Sandro Vieira Soares, Dr.
Florianópolis 2020
Dedico este trabalho a todas as pessoas que me incentivaram, mantendo-se ao meu lado nessa caminhada, ajudando-me de forma incondicional. O caminho foi difícil, mas valeu o esforço. Com muita dificuldade, muito estudo e muitas horas de solidão, foi possível concluir esta pesquisa.
AGRADECIMENTOS
Agradeço, a DEUS, por permitir que, nas horas mais difíceis, JESUS estendesse sua santíssima mão, e me ajudasse a continuar persistente; a MARIA SANTÍSSIMA que, como intercessora junto ao Pai, como toda mãe que sabe das dificuldades dos seus filhos, intercedeu junto a Deus por mim.
Minha Esposa Elisandra Ritta; meus filhos, Alice, Pedro e Gustavo, por suportarem, nesses anos dedicados ao mestrado, minha ausência, e, com paciência e compreensão, permaneceram comigo, me ajudando, apoiando-me, enfim, nas horas mais complicadas, aceitando ficar em casa por minha causa.
Ao professor Dr. Mauricio Andrade de Lima, por aceitar o desafio, indo além de apenas orientar, estendendo-me a mão nos momentos em que as dificuldades aumentavam, caminhando junto, muito mais que só ensinando, mas, como um verdadeiro mestre, estimulando-me na caminhada: vá em frente; tu consegues!
Meus pais, em memória, Joaquim Geraldo da Rosa e Bernardina Borges da Rosa, por me concederem viver, encaminhando-me para uma vida correta e de luta sem desistência.
Meus irmãos, Aderval, Adelir, Aderlei, Ademir, Maria de Fátima, Maria Aparecida, Maria Lúcia, Adaime, Adécio e Maria do Rosário, por todo cuidado e ajuda na minha formação como pessoa e como profissional.
Minha esposa Elisandra e minha sobrinha Andréia, nas correções ortográficas, e meu sobrinho Leonardo pela tradução dos resumos para o inglês.
Meus amigos Rafael Bavaresco Bongiolo e Manuel Fernandes Neto, pelas incansáveis palavras de apoio, e meu amigo Prof. Dr. Sandro Vieira Soares, pelo apoio incondicional, ajudando nas dúvidas e mostrando também o caminho da conquista.
Por último, porém não menos importante, agradeço aos professores da banca, por aceitarem o convite e, em aceitando-o, contribuírem com minha pesquisa.
RESUMO:
A presente pesquisa teve como objetivo principal mensurar o desempenho econômico-financeiro das universidades comunitárias de Santa Catarina, por meio de índices-padrão, no período de 2010 a 2017. Para a realização da pesquisa, foram considerados os demonstrativos contábeis das Instituições Comunitárias de Ensino Superior - ICES, adotando-se uma abordagem quantitativa. Trata-se, assim, de uma pesquisa descritiva, na qual adotou-se, como estratégia, um estudo de caso múltiplo. Quanto ao período referente aos dados coletados, considera-se esta pesquisa como longitudinal; e quanto à coleta de dados é considerada uma pesquisa documental. Quanto à literatura, foi feito um levantamento bibliográfico, para a pesquisa bibliométrica, nas bases internacionais, usando-se o ProKnow-C, e para as bases nacionais, esse levantamento foi feito usando-se o mesmo critério de seleção da literatura internacional. Quanto à definição da amostra, esta foi estruturada a partir das entidades vinculadas ao sistema ACAFE, selecionando-se aquelas consideradas fundações públicas, resultando em 13 universidades, por apresentarem a mesma característica contábil, tornando possível comparar os demonstrativos contábeis. Os dados para composição da pesquisa foram coletados nos demonstrativos contábeis de cada instituição, sendo considerados todos os demonstrativos das 13 universidades selecionadas. Quanto ao tratamento dos dados estes, inicialmente, foram tabulados em planilhas do Excel, para, em seguida, serem realizados os cálculos dos indicadores e avaliados segundo a metodologia de avaliação de empresas, definida por Matarazzo (2017). Os resultados apontaram que essas instituições operam com uma média de 45,90% de capital de terceiros, 112,24% de imobilização de capital próprio, e 87,62% de imobilização de recursos não correntes. Apontaram, ainda, que indicadores de liquidez vêm operando com indicador acima de 1,00, e indicadores de rentabilidade vêm operando com rentabilidade positiva, embora tenha se observado entidades com rentabilidade negativa. O estudo ainda apontou que as ICES vêm operando com indicadores satisfatórios, mesmo ocorrendo entidades com indicadores não satisfatórios. Como conclusão, verifica-se que o cenário das ICES catarinenses merece atenção por parte dos gestores, considerando-se que os índices de liquidez, mesmo apresentando-se acima de 1,00, estão muito próximos de 1,00. Os indicadores apontaram que existe uma tendência de diminuição por parte dos indicadores de capital; de acréscimo por parte dos indicadores de liquidez e de rentabilidade, e que apenas o indicador de giro do ativo apresentou tendência de diminuição.
Palavras-Chave: Índice-padrão. Sistema ACAFE. indicador econômico-financeiro, Universidades comunitárias.
ABSTRACT
The present research had as main objective to measure the economic-financial performance of the community universities of Santa Catarina, through standard indexes, in the period from 2010 to 2017. For the accomplishment of the research, the accounting statements of the Community Teaching Institutions were considered Superior - ICES, adopting a quantitative approach. It is, therefore, a descriptive research, in which a multiple case study was adopted as a strategy. As for the period referring to the collected data, this research is considered as longitudinal; and as for data collection, it is considered a documentary research. As for literature, a bibliographic survey was made, for bibliometric research, on international bases, using ProKnow-C, and for national bases, this survey was made using the same selection criteria as international literature. As for the definition of the sample, it was structured from the entities linked to the ACAFE system, selecting those considered public foundations, resulting in 13 universities, for presenting the same accounting characteristic, making it possible to compare the accounting statements. The data for the composition of the research were collected in the financial statements of each institution, considering all the statements of the 13 selected universities. As for the treatment of the data, these were initially tabulated in Excel spreadsheets, and then the calculations of the indicators were carried out and evaluated according to the company valuation methodology, defined by Matarazzo (2017). The results showed that these institutions operate with an average of 45.90% of third-party capital, 112.24% of fixed assets, and 87.62% of fixed assets of non-current resources. They also pointed out that liquidity indicators have been operating with an indicator above 1.00, and profitability indicators have been operating with positive profitability, although entities with negative profitability have been observed. The study also pointed out that ICES have been operating with satisfactory indicators, even though there are entities with unsatisfactory indicators. As a conclusion, it appears that the scenario of the ICES in Santa Catarina deserves attention from the managers, considering that the liquidity ratios, even presenting above 1.00, are very close to 1.00. The indicators pointed out that there is a downward trend on the part of the capital indicators; increase by the liquidity and profitability indicators, and that only the asset turnover indicator showed a downward trend.
Keywords: Standard index. ACAFE system. Economic and financial indicator. Community universities.
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1- Participação de capitais de terceiros avaliação da tendência ... 77
Gráfico 2 - Composição do endividamento ... 78
Gráfico 3 - Imobilização do patrimônio social ... 79
Gráfico 4 - Imobilização dos recursos não correntes ... 80
Gráfico 5 - Liquidez geral ... 81
Gráfico 6 - Liquidez corrente ... 82
Gráfico 7 - Liquidez seca... 83
Gráfico 8 - Giro do ativo ... 85
Gráfico 9 - Margem líquida ... 86
Gráfico 10 - Rentabilidade do ativo ... 87
Gráfico 11 - Rentabilidade do patrimônio social ... 88
Gráfico 12 - Índices-padrão médio de capital por região ... 89
Gráfico 13 - Índices-padrão médio de liquidez, por região ... 91
Gráfico 14 - Composição do endividamento por região... 92
Gráfico 15 – Índice-padrão médio de rentabilidade por região ... 93
Gráfico 16 - Índice-padrão médio do giro do ativo por região ... 94
Gráfico 17 - Índice de capital de terceiros médio x média do índice-padrão ... 95
Gráfico 18 – Índice de composição do endividamento x índice-padrão médio ... 96
Gráfico 19 - Grau de imobilização x índice-padrão médio ... 97
Gráfico 20 - Imobilização dos recursos correntes médios x índice-padrão médio ... 98
Gráfico 21 - Índice de liquidez geral médio x índice-padrão médio ... 98
Gráfico 22 - Índice médio de liquidez corrente x índice-padrão médio ... 99
Gráfico 23 - Liquidez seca média x índice-padrão médio ... 100
Gráfico 24 - Giro do ativo médio x índice-padrão médio ... 101
Gráfico 25 - Margem líquida média x índice-padrão médio ... 102
Gráfico 26 - Rentabilidade média do ativo x índice-padrão médio ... 103
Gráfico 27 - Rentabilidade do patrimônio social médio x índice-padrão médio ... 104
Gráfico 28 - Média geral das notas por região ... 106
Gráfico 29 - Médias das categorias de índices, por região ... 110
Gráfico 30 - Média dos índices de capitais... 114
Gráfico 31 - Médias dos índices de liquidez por região ... 118
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 - Sugestões de índices para avaliação de desempenho ... 32
Quadro 2 - Quadro-resumo de índices ... 41
Quadro 3 - Sugestão de indicadores para terceiro setor ... 43
Quadro 4 - Relação dos indicadores x pesquisas ... 45
Quadro 5 - Indicadores ajustados para análises das ICES ... 59
Quadro 6 - Conceitos atribuídos aos índices, segundo sua posição relativa ... 63
Quadro 7- Relação das ICES componentes da amostra ... 68
Quadro 8 - Sites das ICES componentes da amostra ... 69
Quadro 9 - Conceitos atribuídos aos índices, segundo a sua posição relativa... 72
Quadro 10 - Modelo de avaliação de índices financeiros ... 73
Quadro 11 - Avaliação das categorias de índices financeiros ... 73
Quadro 12 - Índice-padrão para o setor ... 76
Quadro 13 -Posição consolidada do setor, por nota ... 105
Quadro 14 - Média ponderada das entidades x categoria, por ano ... 107
Quadro 15 - Média ponderada dos indicadores, por ICES ... 112
Quadro 16 - Média ponderada dos índices de liquidez das entidades, por ano ... 116
LISTA DE FIGURAS
Figura 1- Objetivos da análise das demonstrações contábeis ... 34
Figura 2 - Usuários das demonstrações contábeis divulgadas ... 36
Figura 3 - Divisão das estruturas dos indicadores ... 39
LISTA DE TABELAS
Tabela 1- Ranking do capital de terceiros em relação ao patrimônio social ... 90
Tabela 2 - Posição relativa dos indicadores de capital ... 108
Tabela 3 - Posição relativa dos índices de liquidez ... 109
LISTA DE SIGLAS
ACAFE - Associação Catarinense das Fundações Educacionais BP - Balanço Patrimonial
CC - Código Civil
CF - Constituição Federal
CFC - Conselho Federal de Contabilidade
CONAES - Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior CPC - Conceito Preliminar de Curso
DFC - Demonstração dos Fluxos de Caixa DRE - Demonstração do Resultado do exercício
ENADE - Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes FHC - Fernando Henrique Cardoso
GERES - Grupo Executivo para a Reformulação da Educação Superior GTRU - Grupo de Trabalho Universitário
ICES - Instituições Comunitárias de Educação Superior IES - Instituições de Educação Superior
IGC - Índice Geral de Curso
INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais ITG - Interpretação Técnica Geral
LDBEN - Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional MEC - Ministério da Educação e Cultura
MP - Ministério Público
PAIUB - Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras PARU - Programa de Avaliação da Reforma Universitária
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 8
1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA E PROBLEMA DE PESQUISA ... 8
1.2 OBJETIVOS ... 13 1.2.1 Objetivo geral ... 13 1.2.2 Objetivos específicos... 14 1.3 JUSTIFICATIVA DO ESTUDO ... 14 1.5 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA ... 16 1.6 ORGANIZAÇÃO DA PESQUISA ... 16 2 REVISÃO DA LITERATURA ... 18
2.1 A UNIVERSIDADE COMO ORGANIZAÇÃO COMPLEXA E SUA GESTÃO ... 18
2.2 A CONTABILIDADE VOLTADA PARA FUNDAÇÕES E O SURGIMENTO DAS PRESTAÇÕES DE CONTAS ... 24
2.3 A CONTABILIDADE COMO GERADORA DE INFORMAÇÕES E A GESTÃO POR MEIO DE INDICADORES ... 33
2.4 ÍNDICES A SEREM USADOS PARA ANÁLISE DOS DEMONSTRATIVOS DAS ICES ... 43
2.4.1 Estrutura de capital ... 47
2.4.1.1 Participação de capitais de terceiros, endividamento ... 47
2.4.1.2 Composição do endividamento ... 48
2.4.1.3 Imobilização do patrimônio líquido, patrimônio social... 49
2.4.1.4 Imobilização dos recursos não correntes ... 50
2.4.2 Indicadores de liquidez... 50
2.4.2.1 Liquidez geral ... 51
2.4.2.2 Liquidez corrente ... 52
2.4.2.3 Liquidez seca ... 53
2.4.3.1 Giro do ativo ... 55
2.4.3.2 Margem líquida ... 56
2.4.3.3 Rentabilidade do ativo ... 57
2.4.3.4 Rentabilidade do patrimônio social ... 57
2.5 ÍNDICES-PADRÃO: O USO DA ESTATÍSTICA PARA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS ... 61
3 METODOLOGIA ... 64
3.1 ESTRATÉGIA DA PESQUISA ... 64
3.2 OBJETO DO ESTUDO ... 66
3.3 COLETA DE DADOS ... 69
3.4 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE DADOS ... 70
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ... 75
4.1 ANÁLISE DOS INDICADORES POR MEIO DO ÍNDICE-PADRÃO ... 75
4.1.1 Análise dos índices de capital por meio do índice-padrão ... 77
4.1.2 Análise dos índices de liquidez por meio do índice-padrão ... 80
4.1.3 Análise dos índices de rentabilidade, por meio do índice-padrão ... 84
4.1.4 Análise comparativa dos indicadores por região ... 88
4.1.5 Análise comparativa das ICES por meio do índice-padrão médio ... 94
4.2 ANÁLISE DOS INDICADORES DOS GRUPOS POR MEIO DE NOTA ... 104
4.3 ANÁLISE DOS INDICADORES POR NOTAS ... 111
4.3.1 Análise dos indicadores de capital por nota ... 111
4.3.2 Análise dos indicadores de liquidez ... 115
4.3.3 Análise dos indicadores de rentabilidade ... 118
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 124
1 INTRODUÇÃO
Neste capítulo é abordada a parte introdutória desta pesquisa, iniciando pela contextualização do tema da pesquisa, seguida da apresentação dos objetivos gerais e específicos, e finalizando com a justificativa do trabalho.
1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA E PROBLEMA DE PESQUISA
As Instituições de Ensino Superior - IES desempenham um papel público fundamental e característico, considerando que resultam da união das pessoas para prover a educação. Nesse sentido, o Estado possibilita que as sociedades civis atuem, em colaboração com os interesses públicos, visto que assumem outro papel dentro da sociedade, cedendo lugar ao público não estatal, criando uma cooperação entre o Estado e a sociedade (LÜCKMANN; CIMADON, 2015).
Nesses grupos inserem-se as Instituições Comunitárias de Ensino Superior – ICES, consideradas entidades privadas, conceituadas e reguladas pela Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece determinações sobre os conceitos de entidades universitárias comunitárias. Esta lei classifica as IES em: a) particulares em sentido restrito, b) comunitárias, c) confessionais, e d) filantrópicas. Além desses requisitos, uma IES, para ser considerada comunitária, deve atender o disposto no art. 3º da Lei nº 12.881/2013, isto é, estar organizada em torno de: práticas administrativas necessárias para coibir vantagens pessoais ou coletivas; um conselho fiscal dotado de competências; prestação de contas, que atenda as normas brasileiras de contabilidade; publicidade das prestações de contas por meio eficaz; prestação de contas de todos os recursos públicos; e participação, no conselho, por meio de representantes dos docentes, estudantes e técnicos administrativos.
Para Schmidt (2010), a comunidade e o comunitário são categorias de grande relevância no contexto, o discurso do comunitário vem sendo objeto de discussões, por diversos organismos ideológicos. Pensar no público estatal não é tão fácil assim, pois requer a construção de uma política de mudança cultural, e o processo político dirá se o estado está preparado para avançar em definições, que favoreçam um modelo de política estatal e agreguem as entidades civis. Para Lückmann e Cimadon (2015), as ICES são instituições de natureza público-privada, isto é, são consideradas públicas, contudo não na mesma dimensão
de IES, mantidas com recursos públicos, mas constituída por meio de um modelo público privado.
A Associação Catarinense das Fundações Educacionais – ACAFE, representa as ICES dentro do território catarinense. O sistema ACAFE representa 16 instituições, constituídas sob a forma de fundações privadas e públicas, com o objetivo de fornecer serviços educacionais para a comunidade na qual está inserida. A ACAFE, constituída em 02 de maio de 1974, é uma sociedade civil sem fins lucrativos que congrega as fundações educacionais criadas no estado de Santa Catarina por lei dos poderes públicos estadual e municipais. Tem como objetivo promover o intercâmbio administrativo técnico e científico entre as IES comunitárias de Santa Catarina, buscando soluções para os problemas relacionados à pesquisa, extensão e administração (ACAFE, 2019).
Com essa organização, a ACAFE busca o desenvolvimento das microrregiões de SC, em que as ICES filiadas têm por obrigação o cumprimento da sua função social, desenvolvendo, sem ônus para os beneficiários, programas e projetos de assistência à comunidade, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida, inclusão social e a construção da cidadania. Segundo levantamento feito em fevereiro de 2019, são 53 cidades atendidas, 142.293 alunos matriculados nos cursos de graduação e pós-graduação, 4.694 projetos de pesquisa, 2.193 laboratórios, 925 cursos de graduação, 1.282 grupos de pesquisas. As Universidades Comunitárias, que compõem o Sistema ACAFE, participam ativamente na promoção do desenvolvimento do estado e de suas regiões (ACAFE, 2019).
As universidades associadas ao sistema ACAFE atuam longe dos grandes centros, pois, conforme citado por Lückmann e Cimadon (2015), essa é uma de suas principais características, podendo-se constatar este fato verificando-se as regiões onde elas estão instaladas1: na região Norte: Jaraguá do Sul (CATÓLICA), Joinville (UNIVILLE), Mafra
(UNC); na região Oeste: Chapecó (UNOCHAPECÓ), Joaçaba (UNOESC) e Caçador (UNIARP); na região Serrana: em Lages (UNIPLAC); na região Sul: Orleans (UNIBAVE), Criciúma (UNESC) e Tubarão (UNISUL); na região do Vale do Itajaí: Brusque (UNIFEBE), Rio do Sul (UNIDAVI), Itajaí (UNIVALI), e Blumenau (FURB); na região da Grande Florianópolis: Florianópolis (UDESC) e São José (USJ).
Essas universidades, por estarem instaladas em diversas regiões, acabam desempenhando um papel importante no cenário educacional, econômico e, ainda, social no
1 Foram considerados os municípios, onde esta instalada a matriz de cada ICE, para isso foram verificados pelo
estado de Santa Catarina. Fazendo-se uma comparação das receitas dos municípios2 sedes das
ICES, com as receitas geradas pela instituição3, constata-se que essas instituições possuem
uma grande representatividade na cidade onde estão instaladas. No ano de 2017, por exemplo, as receitas representavam: na região Norte, 10,14%; na região Oeste, 41,55%; na região do Planalto, 11,58%; na região Sul 65,27%; e, na região do Vale do Itajaí, 24,24%.
Outro indicador importante é a relação entre o PIB de 2016 dos municípios (IBGE, 2019) sede destas ICES comparado às receitas geradas, no mesmo ano, por essas instituições. Nesse sentido, comparando-se o PIB do município sede com a receita bruta gerada pela instituição, chegou-se ao seguinte resultado: região Norte 0,75%, região Oeste 3,43%, região do Planalto 1,18%, região Sul 4,94%, região do Vale do Itajaí 1,98%, observando-se que, em algumas regiões, esta relação é mais forte.
Além da representatividade dessas entidades, vista pela ótica do PIB ou pela comparação da receita municipal com a receita das instituições, pode-se, ainda, considerar as informações levantadas no CENSO 2018, realizado pelo INEP, as quais permitem verificar a representatividade das ICES no contexto educacional catarinense. No total de 93 universidades, INEP (2018), 16 são do sistema ACAFE, ou seja 17,20% das Universidades são do sistema ACAFE.
Nesse contexto, assim como em qualquer empresa, independentemente do seu porte ou segmento da qual faça parte, ou em qualquer nível de gestão, seja estratégica ou operacional, também no setor das ICES de Santa Catarina, a informação é algo bastante relevante na sua condução (KOS et al., 2014). A informação, na verdade, deve ser entendida como um elemento-chave para se trabalhar com problemas relacionados também à administração (MOREIRA et al., 2013). Nesse sentido, portanto, os dados contábeis, por sua própria natureza, têm a função de criar informações precisas para seus usuários, ou seja, a contabilidade tem como função elementar fornecer informações por meio de relatórios, auxiliando as organizações a gerenciar seus negócios (ABREU et al., 2016).
Segundo a Interpretação Técnica Geral - ITG 2000, aprovada pela Resolução do Conselho Federal de Contabilidade - CFC no 1.330/11, que dispõe sobre a Escrituração
Contábil e a responsabilidade dos contadores, todas as empresas, independente do porte e da natureza, devem elaborar escrituração contábil, observando a legislação e as normas aplicáveis.
2 As receitas dos municípios onde as ICES estão instaladas foram retiradas do site:
<http://portaldocidadao.tce.sc.gov.br/home.php>, por meio de consulta à receita corrente líquida de cada município, no dia 20 de abril 2019.
Assim, com as informações obtidas pelos demonstrativos financeiros, as empresas podem realizar análises econômico-financeiras para mensurar e gerir o seu desempenho. A análise econômico-financeira pode ser entendida, conforme Lee, Lin e Shin (2012), como um tipo de análise que interpreta as operações passadas de uma organização, realizada com o intuito de prever seu futuro, trazendo, assim, informações importantes para a tomada de decisão do gestor da empresa. Segundo Tavares e Silva (2012), o uso de indicadores econômico-financeiros para avaliação do desempenho de empresas não é um fato novo, pois sua utilização já vem sendo desenvolvida há mais de cem anos. Os indicadores econômico-financeiros são os elementos que, tradicionalmente, representam o conceito de análise de balanço. São cálculos matemáticos efetuados a partir dos demonstrativos financeiros, criando indicadores que ajudam no processo de gestão da empresa, em seus aspectos patrimoniais, financeiros e econômicos (rentabilidade) (PADOVEZE, 2015).
De acordo com Perez Júnior e Begalli (2002), a análise das informações econômico-financeiras das empresas, por meio de índices, faz-se necessária para fornecer aos usuários informações úteis. Segundo, ainda, esses autores, “índice é a relação existente entre contas dos demonstrativos financeiros, a fim de evidenciar determinado ponto da situação financeira ou econômica de uma organização” (PEREZ JÚNIOR; BEGALLI, 2002, p. 235). Corroborando essa ideia, Barbosa (2010) destaca um aspecto interessante, tratando da facilidade na construção de índices formados a partir do confronto de dados das demonstrações contábeis. Esses índices podem ajudar na comparação da situação econômico-financeira com outras empresas do setor de atuação, assim como contribuir na avaliação de decisões de investimento e desinvestimento.
Conforme Camargos e Barbosa (2005), os índices contábeis considerados tradicionais pela literatura são divididos, centralmente, em três: Índices de Liquidez, de Rentabilidade e de Estrutura de Capital. Complementando, Matarazzo (2017) afirma que os índices de liquidez e de estrutura de capital procuram evidenciar aspectos da situação financeira; e os índices de rentabilidade procuram evidenciar aspectos da situação econômica. Segundo Assaf Neto (2018, p. 48), através de informações retiradas das demonstrações contábeis levantadas por uma empresa, podemos obter diversas conclusões a respeito de sua situação econômica e financeira, “como, por exemplo, se a capacidade de pagamento (liquidez) se encontra numa situação de equilíbrio ou insolvência; (...) entre diversas outras, as quais nos possibilitam verificar a relevância das demonstrações contábeis no processo de tomada de decisão.”
Nas buscas realizadas nas bases de dados internacionais, voltadas para o uso de análise econômico-financeiro em IES, observou-se que o gestor deve fazer uso de ferramentas de
gestão, no entanto, poucos estudos recomendavam o uso de indicadores econômico-financeiros, ao contrário, recomendavam outras ferramentas de gestão, sugerindo, então, que existam poucos estudos voltados para o uso de indicadores econômico-financeiros como forma de medir e gerenciar o desempenho das IES.
Em seu estudo, Rajnoha et al. (2016) afirma que deve-se fazer uso de um sistema de gestão, sugerindo o Balanced Scorecard - BSC como uma ferramenta de análise. Do mesmo modo, Schobel e Scholey (2012) sugerem o BSC, como uma importante ferramenta de gestão, afirmando que ele é capaz de vincular os objetos da empresa com os resultados financeiros. Soltes e Gavurova (2015), por seu turno, em estudo realizado, tratam unicamente da gestão da liquidez da empresa; enquanto Gomaa, Markelevich e Shaw (2011) afirmam que uma das formas mais tradicionais de análise são os indicadores financeiros, extraídos dos balanços e das demonstrações do resultado. A pesquisa realizada por Michalski (2014) aponta que o objetivo de uma entidade é a maximização do seu valor, e sugere que a gestão financeira do caixa e, consequentemente, a gestão financeira do capital de giro seja realizado de forma efetiva. Mura et al. (2015) indicam que a capacidade financeira da empresa leva à melhoria na gestão do capital; afirmando que inovação é necessário para geração do capital de giro.
Os estudos nas bases de dados nacionais tendem para o uso dos indicadores financeiros, tratando, especificamente, sobre o assunto indicador financeiro, tendo se localizado dez pesquisas, identificadas por estarem entre aquelas com mais citações, e representam os autores: Bomfim, Macedo e Marques (2013); Breitenbach, Alves e Diehl (2010); Bressan et al. (2014); Carvalho e Neto (2008); Evrard e Cruz (2016); Flach, Castro e Mattos (2017); Frezatti (2001); Lucente e Bressan (2015); Ribeiro, Macedo e Marques (2012); Teles, Gomes e Lunkes (2013). Sobre o termo índice-padrão, foram encontradas, na literatura nacional, duas pesquisas: Duarte e Lamounier (2007) e Jahara, Mello e Afonso (2016).
Ainda sobre os temas de pesquisas nas bases nacionais, as pesquisas não se limitaram apenas tratando de indicadores, embora todas tenham uma relação com o tema, pois tratam de desempenho ou de indicadores, mas todas têm uma relação muito forte com a gestão financeira das entidades, e foram diluídas nos seguintes tópicos: sistema de informações gerenciais, Duarte e Lamounier (2007); modelo Fleuriet, Carneiro Junior e Marques (2005); comparativo entre empresas, Couto, Fabiano, Ribeiro (2012); análise das demonstrações contábeis, Fanti et al. (2016); Backes et al (2009); desempenho financeiro-contábil, Ribeiro e Leite Filho(2003), Vieira et al. (2014); balanced scorecard, Fischmann e Zilber (2000); técnica de gestão financeira, Francisco et al. (2012); financiamento capital de giro, Gimenes e
Gimenes (2008); gestão financeira por fluxo de caixa, Meirelles Júnior e Sá (2008); bibliométrico sobre gestão universitária, Nuernberg et al. (2017); desempenho econômico-financeiro, Ribeiro e Leite Filho (2003), Vieira et al. (2014); modelo de alerta stress financeiro, Rosa e Gartner (2018); modelo de gestão financeira, Santos (2015); gestão financeira de curto prazo, Couto et al 2001 (2001), Santos, Ferreira e Faria (2009); decisão financeira - gestão orçamentária, Silva (2012), dinâmica do comportamento patrimonial, Silva e Costa (2003); indicadores financeiros do capital de giro, Silva e Miranda (2016); indicadores de desempenho: econômico, financeiro e de mercado, Silva et al. (2019); indicadores de desempenho econômico-financeiro e desempenho financeiro, Silva et al. (2019); análise financeira de hospital, Souza et al. (2013);
Vale destacar que os estudos encontrados, tanto nas bases nacionais como nas internacionais, apontam o uso de indicadores nos mais variados seguimentos da economia, podendo-se relacionar, entre esses, os estudos nas indústrias, nas cooperativas, nos bancos, na construção civil. Nota-se, contudo, que não se localizou estudos que sugerissem um grupo de indicadores capaz de auxiliar o gestor de IES, como forma de melhorar e atingir suas missões.
Diante deste cenário de complexidade e do desafio de apresentar uma sistemática de avaliação para as ICES por meio de índices econômico-financeiros, comparados com os índices-padrão do setor, em virtude da lacuna encontrada é que se faz a seguinte pergunta de pesquisa: Qual o desempenho econômico-financeiro das universidades comunitárias de
Santa Catarina?
1.2 OBJETIVOS
Para responder a pergunta formulada, a presente pesquisa tem os objetivos traçados e divididos em geral e específicos. O objetivo geral propõe uma visão ampla sobre o estudo a ser realizado, enquanto os objetivos específicos são pontualmente repondidos, no momento da análise dos dados.
1.2.1 Objetivo geral
Mensurar o desempenho econômico-financeiro das universidades comunitárias de Santa Catarina por meio de índices-padrão, no período de 2010 a 2017.
1.2.2 Objetivos específicos
Identificar os principais indicadores econômico-financeiros que podem ser usados pelas universidades comunitárias de Santa Catarina;
Desenvolver referenciais (índices-padrão) de comparação para as universidades, de acordo com o cálculo dos indicadores financeiros selecionados;
Utilizar uma função de valor concomitantemente aos índices-padrão.
1.3 JUSTIFICATIVA DO ESTUDO
As ICES exercem um papel fundamental no cenário educacional de SC, seja por estarem presentes em várias partes do estado, seja por seu elevado envolvimento com a comunidade local (PAIM, 2017). Assim, o desenvolvimento e os resultados das ICES representam um impacto para os estudantes e, mais ainda, para a comunidade em geral, visto que essas instituições geram, de forma direta e indireta, empregos e renda, além de contribuírem, de forma significativa, para o desenvolvimento da educação, importante meio de contribuir para o progresso de uma sociedade (ACAFE, 2019).
Sob o ponto de vista da comunidade organizada, Paim (2017) identificou, em seus estudos, que as ICES possuem um forte vínculo com ela, contribuindo com o desenvolvimento humano, levando o conhecimento, por meio da pesquisa e da extensão e buscando em seus objetivos a melhoria socioeconômica da região onde estão instaladas. Estes achados da pesquisa sugerem o papel relevante e importante para a comunidade catarinense.
Rolim e Serra (2009) corroboram por meio de seus estudos que as ICES, possuem, uma
grande participação na comunidade na qual estão inseridas, esta influência é exercida pela geração de emprego, renda, conhecimento e a formação de mão de obra. Sob contexto financeiro, estas instituições geram um impacto, no seu entorno pela geração de empregos, contratação de fornecedores, que indiretamente dependem destas instituições para manter-se no mercado.
Para Rolim e Kureski (2011), a partir de pesquisa realizada no estado Paraná, as universidades geram grande impacto na sociedade, sendo que esse impacto é maior nos países em desenvolvimento. O resultado da pesquisa apontou, ainda, um multiplicador de emprego de 2,53, significando dizer que, para cada unidade gerada em decorrência de uma IES, outras 1,34 são geradas pela economia do Paraná. Quanto aos empregos, essa relação é de 1,53, ou seja, do indicador 2,53, 1,53 são gerados pela economia do Paraná. Em outro estudo, de
Rolim e Serra (2009), os resultados apontaram que as IES geram, ainda, impactos de longo prazo, grande impacto econômico na região onde estão inseridas, visível pelas ofertas geradas por essas instituições.
Pela ótica da comunidade científica, isto é, como o tema está sendo abordado pela literatura, buscou-se fazer um levantamento bibliométrico em bases de dados internacionais. Para isso, foi usado o ProKnow-C, método que tem uma visão construtivista, onde o pesquisador participa ativamente da escolha do tema e da delimitação do portfólio bibliográfico - PB, de acordo com o interesse na pesquisa, conforme orientam Ensslin, Ensslin e Pinto (2013).
Segundo o levantamento bibliométrico realizado, identificou-se que a gestão financeira das IES, não se faz sem um instrumento para auxiliar na análise dos resultados. Caso ela não seja bem administrada pode comprometer todo o seu funcionamento, por essa razão, principalmente, a gestão dessas instituições, mediante a análise de indicadores, é defendida por vários autores, como Rajnoha et al. (2016); Schobel e Scholey (2012); Michalski (2014) e Mura et al. (2015).
Tanto nas pesquisas em bases internacionais, quanto nas bases de dados nacionais, não foram localizados, na literatura, estudos direcionados às ICES, que focassem, exclusivamente, nos indicadores econômico-financeiros, ou seja, as instituições estão sem uma base de análise formada por procedimentos econômico-financeiros. Além disso, não se constatou ocorrência de estudos, que comparassem estes indicadores com os indicadores do setor, impossibilitando o gestor de avaliar o seu desempenho, frente as demais entidades inseridas no contexto educacional.
Sendo assim, justifica-se esta pesquisa, tendo-a como necessária e relevante, fortalecida pelo objetivo de avaliar as entidades de acordo com um indicador financeiro padrão para o setor no qual está inserida. Portanto, esta pesquisa se justifica, por contribuir com a criação de um conjunto de indicadores-padrão para o setor, inexistentes ainda na literatura pesquisada, até a sua realização.
Além disso, esta pesquisa pode contribuir com outras pesquisas, como em Administração, com ênfase na gestão financeira das ICES, ampliando as possibilidades de desenvolvimento de métodos de avaliação organizacional, alinhados às exigências dos órgãos competentes. O desenvolvimento e a aplicação desta pesquisa oportunizam o aperfeiçoamento de atuação das ICES, propondo uma análise por meio dos índices-padrão para o setor, o que pode gerar relações de alinhamento aplicáveis a um universo maior de instituições, contribuindo, de forma significativa, para a gestão de outras ICES brasileiras.
Por fim, a presente pesquisa encontra relação com as temáticas de pesquisas vinculadas ao Mestrado em Administração da UNISUL, sobre o desempenho organizacional, bem como com as pesquisas voltadas para as IES, visando apresentar os modelos de gestão. Sobre a transparência das IES, esta pesquisa tem uma contribuição, pelo fato de gerar um grupo de indicadores, que podem ser usados na linha de pesquisa sobre as IES, e, ainda, ajuda na transparência dos resultados destas entidades.
1.5 DELIMITAÇÃO DA PESQUISA
Esta pesquisa está delimitada, à mensuração do desempenho econômico das ICES por meio dos índices-padrões, que foram definidos com base em Matarazzo (2017), para serem usados nas análises do desempenho das instituições. Quanto ao espaço temporal foram avaliados os anos de 2010 a 2017, foram avaliadas conforme as demonstrações contábeis apuradas neste período. Foram selecionadas as ICES que estão localizadas no território catarinense, e constituídas sobre a forma de Fundação Privada, resultando nas seguintes entidades: Unifebe, Unibave, Unidavi, Católica/SC, Uniplac, Unesc, Univille, Univali, Unc, Unoesc, Unochapecó, Uniarp e Unisul. Todas estas universidades compõe o sistema ACAFE, consideradas universidades comunitárias.
1.6 ORGANIZAÇÃO DA PESQUISA
Com o objetivo de organizar o trabalho e assim ter um melhor entendimento do estudo, esta pesquisa será distribuída em 5 capítulos, introdução, revisão da literatura, metodologia, análise e discussão dos resultados e as considerações finais.
No primeiro capítulo a introdução foi contextualizada a pesquisa, definidos os objetivos gerais e específicos, justificou-se a proposta desta pesquisa assim como a delimitação do presente estudo.
No segundo capítulo foi realizada uma revisão na literatura, e foi levantado os estudos sobre, a universidades como organização complexa e sua gestão, a contabilidade voltada para fundações e o surgimento das prestações de contas, a contabilidade como geradora de informações, e a gestão por meio de indicadores, os índices a serem usados para análise das demonstrativos das ICES, e os índices-padrão, o uso da estatística para análise das demonstrações.
No terceiro capítulo foram os aspectos metodológicos da pesquisa, visando o enquadramento da pesquisa, sendo assim foram definidas as estratégias da pesquisa, objeto do
estudo, como foram realizadas as coletadas dos dados, assim como a definição da amostra que foi usada na análise dos dados, e como foram analisados os dados.
O quarto capítulo foram apresentados os resultados da pesquisa, apresentados da seguinte forma: A análise dos indicadores por meio do índice-padrão, sendo analisados os índices-padrão por meio da evolução no período, foram agrupados por regiões, e foram comparados os índices-padrão com as ICES. A análise dos grupos de indicadores por meio de nota, nesta análise foram verificadas primeiramente as notas gerais, em seguida as notas dos grupos, comparando-se com as notas das regiões. E foram avaliados por meio de notas os indicadores, individualmente é comparado com as regiões.
No quinto capítulo, foram apresentadas as considerações finais, sendo neste capítulo fez-se um resgate dos objetivos, comparando-se com os resultados encontrados na presente pesquisa. Além disso apontou-se as limitações as propostas de pesquisas futuras.
2 REVISÃO DA LITERATURA
Na revisão da literatura são expostos os conceitos que serviram de base para fundamentar a presente pesquisa, focando-se no objetivo principal, que é analisar o desempenho econômico-financeiro das universidades comunitárias de Santa Catarina, por meio de índices-padrão, no período de 2010 a 2017.
Assim sendo, nas seções seguintes, são abordados os temas: a universidade como organização complexa e sua gestão; o surgimento das prestações de contas e a contabilidade das ICES; a contabilidade como geradora de informações; os indicadores a serem usados nas entidades; e o uso dos indicadores padrão. Para compor os estudos realizados na literatura, foram realizados dois levantamentos, um na literatura internacional, e outro na literatura nacional, sendo possível, com esses dois levantamentos, melhor entender a gestão e as formas de aplicação dos indicadores.
2.1 A UNIVERSIDADE COMO ORGANIZAÇÃO COMPLEXA E SUA GESTÃO
É importante, neste momento, ressaltar a complexidade do objeto do estudo em si, isto é, a complexidade da universidade, visto que todo o planejamento, a formulação e o acompanhamento foram realizados dentro desse contexto. Nesse sentido, pelas características sui generis dessas instituições, destaca-se a importância de considerar tais aspectos para que seja factível a utilização de procedimentos que respondam a essa realidade, já que, pela incompreensão de sua própria natureza e da complexidade de seu funcionamento, seja qual for a abordagem, tende-se a correr o risco de não representar qualquer valor para elas ( LIMA et al. 2013).
Para Andrade (2002), as universidades são criadas a partir de objetivos específicos, e, ainda, observando uma hierarquia de autoridades, utilizando-se de regras específicas. Muito além disso, as instituições de ensino dedicam-se à mais complexa missão, que é a geração e a difusão do saber. Assim, fazer esta gestão constitui uma tarefa desafiadora, tendo em vista que os gestores terão que conviver com várias situações, que dificultam o seu trabalho, tais como: estabelecer e implantar metas institucionais, tratar com organizações de profissionais, de tecnologia e estrutura, e tomar decisão.
Sobre essa complexidade das IES, Meyer Júnior (2005) compartilha seu entendimento de que as universidades têm sido consideradas como as instituições mais complexas na sociedade atual. Criadas no século XII, elas constituem uma das mais importantes
organizações, tendo enfrentado, ao longo dos anos, diversas crises. Assim, os administradores, visando atravessar essas crises e alinhar as universidades nas projeções para o futuro, vêm utilizando as mais variadas abordagens de gestão. Nesse sentido, o planejamento, como uma atividade racional que envolve atribuições como: definição de problemas, exame de alternativas, decisão, ação, controle e resultados, torna-se relevante ferramenta. O planejamento implica definições de critérios para a gestão por meio de indicador de desempenho, e permite que as decisões sejam tomadas de acordo com a melhor aplicação dos recursos, para atingir os resultados esperados.
Quando se tem a oportunidade de examinar o planejamento das universidades, um dos aspectos mais relevantes, e que chama atenção, é a dicotomia entre intenção e ação (MEYER Junior, 2005). Ao examinarem o planejamento universitário brasileiro, Meyer Junior e Lopes (2004) destacam a necessidade de examiná-lo nas dimensões racional, política e simbólica, como forma de se melhor compreender sua complexidade. Com esse propósito, apontam, em seu trabalho, que o planejamento praticado nas universidades é um processo “fragmentado, assistemático e caracterizado por abordagens incrementais e ações dirigidas a situações circunstanciais. Nesse processo, suas dimensões racional, política e simbólica se mesclam de acordo com a realidade de cada universidade” (MEYER JUNIOR, 2005, p. 388).
Para Meyer Júnior (2005), o processo de gestão pode ser um ato político, devendo o gestor angariar apoio para alcançar os seus objetivos, predominando, nesse caso, a barganha, a negociação com diversos grupos de interesse, visto que os objetivos e os resultados estratégicos são resultados de negociações. No planejamento como ato simbólico, a cultura predominante é a da “cola” que mantém a universidade unida; criam-se valores, princípios, símbolos e ritos que mantêm organização em unidade, isto é, nessa dimensão simbólica, os mitos, os valores e as expectativas falam mais alto.
Vários e diversos são os problemas enfrentados pelas universidades, alguns dos quais são apontados por Meyer Júnior (2005) p. 388: “a intensa competição, a redução da demanda, o aumento de custos operacionais, a carência de recursos, a redução do apoio estatal, a evasão de alunos”, a queda da qualidade do ensino e a redução da capacidade de pagamento dos alunos. Nesse sentido, para enfrentar tais problemas, as universidades precisam contar com uma gestão ágil, e com um modelo mais adequado de gestão, relacionado, mais diretamente, com a realidade.
Diante da dificuldade de se fazer uma eficiente gestão, o gestor da IES deve fazer uso da gestão estratégica, a qual, no entendimento de Meyer Jr, Pascucci e Mangolin (2012), muitas vezes, tem sido associada a chegada de um novo reitor, ou uma nova administração,
quase sempre vinculada a um novo plano. Entretanto, fatores como incertezas e imprevisibilidade de fatores externos, associados a elementos como uma estrutura articulada, onde o trabalho essencial é desenvolvido por especialistas, têm gerado grandes desafios aos gestores das universidades. Assim, a escolha dos gestores tem ocorrido levando em consideração sua experiência na gestão de universidade e o conhecimento da gestão de organizações complexas acadêmicas. Muitas vezes, ainda, os modelos de práticas de gestão são uma cópia de outras organizações. A ausência de uma teoria própria tem feito com que se busque, em outras teorias, embasamento para a gestão das universidades, e, com isso, o modelo de gestão das ICES ficam muito próximos.
Sobre o conceito legal de ICES, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, conforme Lei nº 9.934/96, conceitua e regulamenta as determinações sobre estes tipos de instituições:
Art. 19. As instituições de ensino dos diferentes níveis classificam-se nas seguintes categorias administrativas.
I - públicas, assim entendidas as criadas ou incorporadas, mantidas e administradas pelo Poder Público;
II - privadas, assim entendidas as mantidas e administradas por pessoas físicas ou jurídicas de direito privado.
III - comunitárias, na forma da lei. (Incluído pela Lei nº 13.868, de 2019)
§ 1º As instituições de ensino a que se referem os incisos II e III do caput deste artigo podem qualificar-se como confessionais, atendidas a orientação confessional e a ideologia específicas.(Incluído pela Lei nº 13.868, de 2019)
§ 2º As instituições de ensino a que se referem os incisos II e III do caput deste artigo podem ser certificadas como filantrópicas, na forma da lei. (Incluído pela Lei nº 13.868, de 2019). (BRASIL 1996)
A Lei nº 12.881, de 12 de novembro de 2013, que dispõe sobre a definição, qualificação, prerrogativas e finalidades das ICES, e disciplina o termo de parceria e dá outras providências. As instituições de ensino superior, para serem consideradas instituições comunitárias, deverão ser organizadas conforme prevê o art. 1º da Lei 12.2881/13.
Art. 1o As Instituições Comunitárias de Educação Superior são organizações da
sociedade civil brasileira que possuem, cumulativamente, as seguintes características:
I - estão constituídas na forma de associação ou fundação, com personalidade jurídica de direito privado, inclusive as instituídas pelo poder público;
II - patrimônio pertencente a entidades da sociedade civil e/ou poder público; III - sem fins lucrativos, assim entendidas as que observam, cumulativamente, os seguintes requisitos:
a) não distribuem qualquer parcela de seu patrimônio ou de suas rendas, a qualquer título;
b) aplicam integralmente no País os seus recursos na manutenção dos seus objetivos institucionais;
c) mantêm escrituração de suas receitas e despesas em livros revestidos de formalidades capazes de assegurar sua exatidão;
IV - transparência administrativa, nos termos dos arts. 3o e 4o;
V - destinação do patrimônio, em caso de extinção, a uma instituição pública ou congênere.
§ 1o A outorga da qualificação de Instituição Comunitária de Educação Superior é
ato vinculado ao cumprimento dos requisitos instituídos por esta Lei.
§ 2o Às Instituições Comunitárias de Educação Superior é facultada a qualificação
de entidade de interesse social e de utilidade pública mediante o preenchimento dos respectivos requisitos legais.
§ 3o As Instituições Comunitárias de Educação Superior ofertarão serviços
gratuitos à população, proporcionais aos recursos obtidos do poder público, conforme previsto em instrumento específico.
§ 4o As Instituições Comunitárias de Educação Superior institucionalizarão
programas permanentes de extensão e ação comunitária voltados à formação e desenvolvimento dos alunos e ao desenvolvimento da sociedade (BRASIL, 2013).
As ICES, para serem qualificadas como instituição de ensino superior e obter a qualificação de comunitária, devem conter em seu estatuto, as seguintes normas, previstas no art. 3º da Lei nº 12.881, de 12 de novembro de 2013.
Art. 3o Para obter a qualificação de Comunitária, a Instituição de Educação Superior
deve prever em seu estatuto normas que disponham sobre:
I - a adoção de práticas de gestão administrativa, necessárias e suficientes para coibir a obtenção, de forma individual ou coletiva, de privilégios, benefícios ou vantagens pessoais;
II - a constituição de conselho fiscal ou órgão equivalente, dotado de competência para opinar sobre os relatórios de desempenho financeiro e contábil e sobre as operações patrimoniais realizadas, emitindo pareceres para os organismos superiores da entidade;
III - normas de prestação de contas a serem atendidas pela entidade, que determinarão, no mínimo:
a) a observância dos princípios fundamentais de contabilidade e das Normas Brasileiras de Contabilidade;
b) publicidade, por qualquer meio eficaz, no encerramento do exercício fiscal, do relatório de atividades e das demonstrações financeiras da entidade;
c) prestação de contas de todos os recursos e bens de origem pública;
IV - participação de representantes dos docentes, estudantes e técnicos administrativos em órgãos colegiados acadêmicos deliberativos da instituição. (BRASIL, 2013)
Diante dos dispositivos legais, percebe-se que essa Lei 12.881/2013 representa um marco importante, especialmente na conceitualização dos termos comunitário, relativo à instituição; e público, referente à gestão e administração. Na análise de Schmidt (2010), essas instituições têm uma forte presença do poder público municipal, e, como foram constituídas entre 1940 e 1970, não apresentam qualquer vínculo com a política neoliberal, a qual se desenvolveu a partir dos anos 1980, tendo sido estruturadas em plena vigência do estado desenvolvimentista, suprindo uma lacuna do estado, levando ao interior as universidades.
Esse tipo de universidade, como citam Schmidt (2010), Silveira (2007) e Lückmann e Cimadon (2015), são instituições formadas pela união do poder público municipal com a sociedade, além da regulamentação por parte do MEC. Sendo assim, a gestão das ICES deve envolver todos, isto é, a comunidade, os alunos, os professores. Como afirma Dias Sobrinho
(2010), a avaliação de uma IES não é uma avaliação meramente técnica, exigindo, portanto, que se estude um pouco mais sobre a gestão das universidades, e a sua complexidade.
Assim, sobre os processos de gestão, deve-se buscar a maior satisfação dos clientes, além da oferta de um produto de maior aderência, com baixo custo, conforme constatação da pesquisa de Hajdu, Andrejkovič e Mura (2014). Essa mesma pesquisa trouxe outra constatação, qual seja a de que taxa excessiva de erros gera custos adicionais, que refletem no preço do produto. Para diminuir esse impacto, as empresas devem investir em controles e avaliação constante, mediante indicadores do desempenho da entidade, fazendo com que a empresa se certifique que os processos estão sendo bem desempenhados.
Assim também concluem Rajnoha et al. (2016) em pesquisa sobre a importância de uma ferramenta de informação e conhecimento para a gestão estratégica dos negócios, a fim de apontar o desempenho. Consideram ainda, esses autores, que os controles não devem ser somente financeiros; é preciso observar também o controle dos ativos intangíveis, principalmente o conhecimento, usando-os para fortalecer a empresa Ao encontro desse mesmo entendimento, segue a pesquisa de Soltes e Gavurová (2015).
Os estudos realizados por Schobel e Scholey (2012) tratam especificamente da aplicação do BSC, percebendo-o como uma importante ferramenta de gestão. Os estudos de Soltes e Gavurová (2015) e Rajnoha et al. (2016) indicam que as entidades devem fazer uso das ferramentas de gestão, colaborando com o estudo de Schobel e Scholey (2012). Tratando do BSC para as entidades de ensino superior à distância, ficou constatado nessas pesquisas que as IES com estratégias financeiras bem definidas, e alinhadas com os resultados educacionais, direcionam-se ao sucesso, mesmo que os modelos de financiamentos venham mudar. E concluem, ainda, que o BSC pode ser uma ferramenta válida para o gerenciamento de uma universidade. Como uma variante, a pesquisa de Soltes e Gavurová (2015) faz uma relação do BSC com a ética na administração.
Para fazer a avaliação do desempenho organizacional, o gestor pode fazer uso das mais variadas ferramentas de gestão. Nesse sentido, a pesquisa de Afonina (2015) buscou evidenciar as ferramentas mais usadas para acompanhar o desempenho organizacional, apoiando-se em duas hipóteses de pesquisa, relacionadas com o uso variado de ferramenta de gestão. Como resultado obteve que a ferramenta e a técnica de gestão estratégica mais usada é a análise SWOT, detectando, ainda, que existe um uso extensivo de ferramentas e técnicas de gestão estratégica entre as empresas pesquisadas.
A pesquisa de Michalski (2014) aponta que o objetivo financeiro básico de uma entidade é a maximização do seu valor. Para isso, a administração dos recursos em caixa e dos
ativos circulantes da empresa deve ser direcionada para o atendimento desse objetivo. Sobre o aumento dos ativos financeiros líquidos, mediante o crescimento dos níveis de caixa, tanto aumentam as exigências líquidas de capital de giro, como os custos para manter e administrar a liquidez financeira (MICHALSKI, 2014).
Korutaro Nkundabanyanga et al. (2014) desenvolveram pesquisa, tratando da alfabetização financeira das pequenas empresas, num relato importante sobre o acesso ao crédito. Isso, de certa forma, tem relação como estudo de Michalski (2014), que também trata dos ativos financeiros. No estudo de Korutaro Nkundabanyanga et al. (2014), os menos alfabetizados financeiramente tendem a ter dificuldades para o gerenciamento de uma dívida, e menor probabilidade para planejar o futuro. Esse fato corrobora achado na pesquisa de Michalski (2014), ao tratar do custo para aquisição de capital de giro. Nesse sentido, pode-se dizer que uma empresa que não possui uma ferramenta de gestão financeira é considerada uma analfabeta financeira, e a entidade pode recorrer à captação de recursos, com alto custo financeiro.
O estudo de Deming, Goldin e Katz (2013), realizado nas faculdades com fins lucrativos fez comparação com as instituições sem fins lucrativos, concluindo que as instituições comunitárias podem oferecer uma educação igual ou melhor, a um custo menor. Contudo, a demanda por educação superior é maior do que os financiamentos, sendo assim, as Universidades ainda dependem muito dos recursos de incentivo aos alunos.
Administrar com poucos recursos é uma tarefa difícil para o gestor, e pode levá-lo a procurar recursos financeiros com maior custo, principalmente quando a empresa não tem uma ferramenta de gestão apropriada, que aponte as devidas necessidades e riscos que terá para a captação desses recursos. Para Brinckmann, Salomo e Gemuenden (2011), em estudo fundamentado na teoria da visão baseada em recursos, a instituição pode desenvolver competências para gerar os próprios caixas, a partir das estratégias da gestão financeira. Os recursos financeiros são recursos-chave para aquisição de novos recursos, a teoria baseada em recursos distingue: humanos, organizacional e financeiros.
Uma das formas tradicionais de análise usada pelas instituições são os indicadores financeiros, extraídos a partir do balanço patrimonial e das demonstrações de resultado. Nos Estado Unidos, foi desenvolvido o projeto eXtensible Business Reporting Language (XBRL), tendo a pesquisa de Gomaa, Markelevich e Shaw (2011) consistido em apresentar esta ferramenta de análise das demonstrações por meio de indicadores. No XBRL, projeto de dados interativos por meio de planilha, as informações ficam disponíveis aos alunos, podendo gerar as mais variadas formas de análise das informações financeiras.
Diante do que foi visto neste fragmento da literatura sobre gestão de uma entidade ou de uma empresa, pode-se concluir que os gestores precisam entender que a empresa, necessariamente, deve ter uma ferramenta que aponte para o resultado da gestão da entidade, que aponte não só os acertos, mas também as falhas. A gestão financeira é primordial para o seu funcionamento da entidade, devendo ser vista como uma fonte de recurso, capaz de gerar outras fontes de recursos para a organização. Caso ela não seja bem administrada, pode comprometer todo o seu funcionamento. A gestão realizada mediante a análise de indicadores é defendida por vários autores, como: Rajnoha et al. (2016); Schobel e Scholey (2012); Brinckmann, Salomo e Gemuenden (2011); Michalski (2014); Hajdu, Andrejkovič e Mura (2014).
2.2 A CONTABILIDADE VOLTADA PARA FUNDAÇÕES E O SURGIMENTO DAS PRESTAÇÕES DE CONTAS
Neste tópico, o objetivo é fazer uma reflexão sobre os aspectos da contabilidade voltada para as fundações. Assim, são revistos os conceitos e os fundamentos referentes à criação de uma fundação; as leis que a definem; e a obrigatoriedade das prestações de contas. Por fim, visando o objetivo principal, que é falar sobre a contabilidade para as ICES, são discutidas as normas contábeis brasileiras, específicas para este segmento, destacando-se que são aplicadas de forma diferenciada nas entidades sem fins lucrativos, mais precisamente as fundações.
A Constituição Federal Brasileira de 1988 prevê no seu art. 70 que todas as entidades, que recebem recursos públicos devem prestar contas, nascendo, aqui, a obrigatoriedade, por parte das fundações, de prestarem contas. Obviamente, este dispositivo da legislação necessita de regulamentação, por isso, logo são criadas leis ordinárias e decretos, chegando-se nas normas contábeis. Sendo assim, veja-se, inicialmente, o texto desse artigo, na íntegra, sobre as prestações de contas de que trata a CF/1988:
Art. 70. A fiscalização contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial da União e das entidades da administração direta e indireta, quanto à legalidade, legitimidade, economicidade, aplicação das subvenções e renúncia de receitas, será exercida pelo Congresso Nacional, mediante controle externo, e pelo sistema de controle interno de cada Poder.
Parágrafo único. Prestará contas qualquer pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que utilize, arrecade, guarde, gerencie ou administre dinheiros, bens e valores públicos ou pelos quais a União responda, ou que, em nome desta, assuma obrigações de natureza pecuniária (BRASIL, 1988).
Como forma de regulamentar esse dispositivo constitucional, a Lei nº 9.790, de 23 de março de 1999, que dispõe sobre a regulamentação das pessoas jurídicas de direito privado, consideradas sem fins lucrativos, como organizações da sociedade civil de interesse público, também institui e disciplina os termos de parcerias. Considerada um marco importante para o setor, esta lei deu poderes ao Ministério Público (MP) para formalizar os termos de parcerias, de organizar e regulamentar os critérios para a fiscalização e a apresentação das prestações de contas. (BRASIL, 1999).
Ressaltando que, nesta pesquisa, o objeto de estudos são as ICES, vê-se a necessidade de se entender os procedimentos a que essas instituições estão vinculadas pelo simples fato de serem consideradas Fundações Privadas. Segundo o art. 1º desta mesma Lei nº 9.790/99, alterada pela Lei n. 13.019, de 31 de julho de 2014, para uma instituição ser considerada de interesse público, ela deve ser constituída sem fins lucrativos, assim estabelecidos no parágrafo 1º:
Art. 1º [...]
§ 1o Para os efeitos desta Lei, considera-se sem fins lucrativos a pessoa jurídica de
direito privado que não distribui, entre os seus sócios ou associados, conselheiros, diretores, empregados ou doadores, eventuais excedentes operacionais, brutos ou líquidos, dividendos, bonificações, participações ou parcelas do seu patrimônio, auferidos mediante o exercício de suas atividades, e que os aplica integralmente na consecução do respectivo objeto social (BRASIL, 1999).
Cumprindo-se esse dispositivo legal, a entidade deve, ainda, cumprir outras formalidades, como constituir estatutos próprios, observando, de forma expressa, o previsto no art. 4º da já referida Lei:
Art. 4o Atendido o disposto no art. 3o, exige-se ainda, para qualificarem-se como
Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, que as pessoas jurídicas interessadas sejam regidas por estatutos cujas normas expressamente disponham sobre:
I - a observância dos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade, economicidade e da eficiência;
II - a adoção de práticas de gestão administrativa, necessárias e suficientes a coibir a obtenção, de forma individual ou coletiva, de benefícios ou vantagens pessoais, em decorrência da participação no respectivo processo decisório;
III - a constituição de conselho fiscal ou órgão equivalente, dotado de competência para opinar sobre os relatórios de desempenho financeiro e contábil, e sobre as operações patrimoniais realizadas, emitindo pareceres para os organismos superiores da entidade;
IV - a previsão de que, em caso de dissolução da entidade, o respectivo patrimônio líquido será transferido a outra pessoa jurídica qualificada nos termos desta Lei, preferencialmente que tenha o mesmo objeto social da extinta;
V - a previsão de que, na hipótese de a pessoa jurídica perder a qualificação instituída por esta Lei, o respectivo acervo patrimonial disponível, adquirido com recursos públicos durante o período em que perdurou aquela qualificação, será transferido a outra pessoa jurídica qualificada nos termos desta Lei, preferencialmente que tenha o mesmo objeto social;
VI - a possibilidade de se instituir remuneração para os dirigentes da entidade que atuem efetivamente na gestão executiva e para aqueles que a ela prestam serviços
específicos, respeitados, em ambos os casos, os valores praticados pelo mercado, na região correspondente a sua área de atuação;
VII - as normas de prestação de contas a serem observadas pela entidade, que determinarão, no mínimo:
a) a observância dos princípios fundamentais de contabilidade e das Normas Brasileiras de Contabilidade;
b) que se dê publicidade por qualquer meio eficaz, no encerramento do exercício fiscal, ao relatório de atividades e das demonstrações financeiras da entidade, incluindo-se as certidões negativas de débitos junto ao INSS e ao FGTS, colocando-os à dispcolocando-osição para exame de qualquer cidadão;
c) a realização de auditoria, inclusive por auditores externos independentes se for o caso, da aplicação dos eventuais recursos objeto do termo de parceria conforme previsto em regulamento;
d) a prestação de contas de todos os recursos e bens de origem pública recebidos pelas Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público será feita conforme determina o parágrafo único do art. 70 da Constituição Federal.
Parágrafo único. É permitida a participação de servidores públicos na composição de conselho de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, vedada a percepção de remuneração ou subsídio, a qualquer título. (Vide Medida Provisória nº 37, de 2002)(Incluído pela Lei nº 10.539, de 2002)
Parágrafo único. É permitida a participação de servidores públicos na composição de conselho ou diretoria de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público
(Redação dada pela Lei nº 13.019, de 2014)(Vigência).(BRASIL, 1999).
Observa-se, desse modo, que as normas editadas pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC) encontram respaldo nessa lei para disciplinar os procedimentos contábeis a serem adotados pelas fundações, especificamente no transcrito art. 4º inciso VII letras a, b, c e d, exclusivo, sobre as prestações de contas. Além dos procedimentos contábeis traz outras obrigações que não cabem destacar neste estudo, tendo em vista que o foco é apontar as normas contábeis para tais entidades. Contudo, há de se ressaltar a importância do inciso VII letra “b”, que trata da divulgação dos demonstrativos contábeis em meio eficaz, o que torna público tais demonstrativos, levando a entender que qualquer pessoa pode fazer as devidas análises, tendo em vista que esses relatórios, a partir da sua divulgação, tornam-se públicos.
Para a realização do termo de parceria, conforme prevê o art. 10 da Lei nº 9.790/99, deve-se observar que ele contenha: as metas e os resultados a serem atingidos; uma previsão expressa dos indicadores de avaliação do desempenho; apresentar ao poder público um relatório sobre o atendimento das metas, a execução financeira e os resultados alcançados; um acompanhamento das despesas e receitas realizadas, e, ainda, a publicação no diário oficial dos respectivos relatórios (BRASIL, 1999).
Para Silveira (2007), as fundações são entidades públicas, e por assim serem consideradas, são fiscalizadas anualmente pelo Ministério Público, o qual deve avaliar os atos praticados pela instituição, que venham gerar qualquer risco para a liquidez ou a integridade