UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA ELÉA LOPES LINDEMAYER
O CONFLITO DAS ILHAS MALVINAS:
MOTIVOS QUE CAUSARAM O RESSURGIMENTO DO TEMA E POSSIBILIDADES DE RESOLUÇÃO
Florianópolis, 2013
O CONFLITO DAS ILHAS MALVINAS:
MOTIVOS QUE CAUSARAM O RESSURGIMENTO DO TEMA E POSSIBILIDADES DE RESOLUÇÃO
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Relações Internacionais e aprovado em sua forma final pelo Curso de Relações Internacionais, da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Orientador: Paulo Roberto Ferreira, Me
Florianópolis, 2013
Dedico este trabalho aos meus pais e ao meu irmão.
Agradeço primeiramente à minha família por todo apoio. Aos meus pais por terem me proporcionado tudo. Pelo estímulo que me deram ao longo da elaboração deste trabalho, com suas preocupações e carinhos. Por estarem sempre presentes e participativos com grande disposição.
Aos meus amigos, por todo ânimo que me passaram ao longo deste trabalho. Ao João Victor, pela paciência, companhia e incentivo. À minha colega Myoren, pela companhia na faculdade e pela ajuda com traduções.
À professora Fabiana por toda disposição ao longo do ano.
Ao professor Márcio Voigt pela orientação no projeto do trabalho e posteriormente por ter se posto a disposição e me ajudado em alguns momentos.
Ao professor Paulo Roberto, pela orientação, por sua disposição, presença e apoio.
Este trabalho teve como objetivo principal a analise da possibilidade atual de resolução do conflito entre Reino Unido e Argentina quanto a soberania das Ilhas Malvinas, que apesar de ser um conflito que nunca cessou, passou um longo período sem tanta importância como há atualmente. Através de uma pesquisa exploratória, qualitativa, bibliográfica e documental, procurou-se apresentar aspectos históricos importantes relatados pelos dois lados envolvidos, desde o descobrimento, analisando em especial a Guerra de 1982, até os dias de hoje, uma vez que a historicidade encontrada é muito subjetiva. Analisou-se também a posição de países não envolvidos diretamente, mais especificadamente Brasil, Chile e Estados Unidos, e a participação de Organizações Internacionais, principalmente a Organização das Nações Unidas (ONU), pois o Comitê de Descolonização é, atualmente, a quem a Argentina mais recorre, e o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) que pretende aplicar restrições ao comércio com as Malvinas pela não resolução do conflito. A análise final se deu por estudo dos fatos relatados, principalmente o fator econômico que envolve as ilhas, uma vez que foi confirmada uma grande quantidade de petróleo explorável na região. Foi concluído que a solução do conflito atualmente é improvável, uma vez que não há diálogo entre os países e nenhum dos envolvidos se dispõe a ceder seus interesses em realção ao território.
This essay had as main objective the analysis of the possibility of resolving the current conflict between the United Kingdom and Argentina in the question about the sovereignty of the Falkland Islands, which despite been an conflict that had never ceased , went a long time without much importance as there is today. Through an exploratory, qualitative, bibliographic and documental, sought to present important historical aspects reported by the two sides involved, since the discovery, in particular examining the War of 1982, until the present day, since the historicity found is very subjective. Also examined the position of countries not directly involved, more specifically Brazil, Chile and the United States, and the participation of International Organizations, particularly the United Nations (UN) as the Decolonization Committee is currently the one that Argentina refers more and the Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) that want to apply restrictions on trade with the Falklands because the not resolved conflict. The final analysis was made by the study of the events reported, especially economic factor that surrounds the islands, since it is confirmed a large amount of exploitable oil in the region. Was completed that the denouement of the conflict is improbable, since the country involved don´t have any negotiation about the case, and none of them is willing to submit their will about the territory. Key Words: Falklands, United Kingdom, Argentina.
BBC – British Broadcasting Corporation BGS – British Geological Survey
CIA - Central Intelligence Agency MERCOSUL – Mercado Comum do Sul OEA – Organização dos Estados Americanos ONU- Organização das Nações Unidas
OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte TELÁM - Agencia Nacional de Noticias
TIAR – Tratado Interamericano de Assistência Recíproca UNASUL – União de Nações Sul-Americanas
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 11
1.1 EXPOSIÇÃO DO TEMA E PROBLEMA ... 11
1.2 OBJETIVOS ... 12 1.2.1 OBEJTIVO GERAL ... 13 1.2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ... 13 1.3 JUSTIFICATIVA ... 13 1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 14 1.4.1 QUANTO A NATUREZA ... 14
1.4.2 QUANTO AOS OBJETIVOS ... 14
1.4.3 QUANTO A ABORDAGEM DO PROBLEMA ... 14
1.4.4 QUANTO AOS PROCEDIMENTOS ... 15
1.5 ESTRUTURA DA PESQUISA ... 15
2 ILHAS MALVINAS: CARACTERÍSTICAS E HISTÓRIA ATÉ O CONFLITO DE 1982 ... 17
2.1 ASPECTOS GEOGRÁFICOS E ECONÔMICOS DAS ILHAS MALVINAS ... 17
2.2 HISTÓRICO DO DESCOBRIMENTO DAS ILHAS MALVINAS ATÉ A RETOMADA BRITÂNCIA 20 2.3 TENTATIVAS DE NEGOCIAÇÃO DE 1833 A 1982 ... 27
3 GUERRA DE 1982 E SEUS DESDOBRAMENTOS ... 33
3.1 MOMENTO HISTÓRICO DO REINO UNIDO E DA ARGENTINA ... 33
3.2 O CONFLITO... 35
3.3 OS DEMAIS PAÍSES E AS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS ... 39
3.4 ANÁLISE TEÓRICA ... 44
4 SITUAÇÃO ATUAL E POSSIBILIDADES DE RESOLUÇÃO ... 48
4.1 A QUESTÃO DAS MALVINAS APÓS A GUERRA DE 1982 ... 48
4.2 O REFERENDO E O DIREITO DE AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS ... 51
4.3 POSIÇÃO DOS DEMAIS PAÍSES E DAS ORGANIZAÇÕES INTERNANCIONAIS SOBRE A QUESTÃO ... 54
4.3 ANÁLISE DA POSSIBILIDADAE DE SOLUÇÃO DO CONFLITO CONSIDERANDO O MOMENTO ATUAL ... 57
1 INTRODUÇÃO
Neste capítulo será apresentado o tema e o problema do trabalho, os objetivos, a justificativa, metodologia da pesquisa, e a estrutura dos capítulos.
1.1 EXPOSIÇÃO DO TEMA E PROBLEMA
As Ilhas Malvinas ou Falklands levantam questões de disputa sobre seu domínio entre Reino Unido e Argentina desde os anos de 1700. Isso foi agravado no ano de 1833, quando os britânicos expulsaram a população e o governo argentino das ilhas. Em 1982, os argentinos invadiram as ilhas tentando reaver o território, mas foram derrotados em 10 semanas pelas forças britânicas, enviadas para resolver esta questão. Desde esta época, o petróleo já era um dos motivos do interesse na região.
Os interesses destas disputas são diferentes em cada época. A localização das ilhas, próximo ao continente Sul Americano, e uma das poucas passagens entre o Oceano Atlântico e o Pacífico, demostra a importância que o arquipélago teria no passado, mas esta importância é perdida em parte com a construção do Canal do Panamá, finalizado em 1914.
Mais recentemente em 1993 a empresa de medições geológicas, British
Geological Survey confirmou a existência de uma grande área de reserva petróleo
em torno do arquipélago, onde empresas britânicas já estão explorando as riquezas desde 2010. Motivo este que pode ter trazido à tona novamente a tentativa da Argentina de reaver a região e o desinteresse o Reino Unido em diálogos de negociação. (BANDEIRA, 2012). A Argentina considera as ilhas uma parte integrante de sua Plataforma Continental, assim, condena a exploração, pois o extrativismo desta riqueza caberia somente a ela ou a empresas previamente autorizadas.
O arquipélago que se localiza a 480 km da costa da Argentina é formado por diversas ilhas, das quais se destacam a Grande Malvina e Soledad. A história dessa região é coberta por divergências, levantando questionamentos inclusive quanto à data e autoria do descobrimento.
Este trabalho apresentará esta história, desde os anúncios de descobrimento, as primeiras colonizações, e a ocupação britânica de 1833 que mudou a situação política das ilhas para a qual elas se encontram até hoje. Também será trabalhado a Guerra de 1982, quando em uma ação nacionalista o governo militar que governava a Argentina retomou as ilhas, o que levou a um conflito armado que durou apenas algumas semanas, terminando com a rendição das forças argentinas.
Hoje, com aproximadamente 3 mil habitantes, as ilhas estão passando por momentos de disputas entre britânicos e argentinos novamente. Em fevereiro de 2013, os habitantes das ilhas participaram de um referendo no qual votariam a favor ou contra a continuidade da administração britânica no território. O resultado, que foi publicado pela rede British Broadcasting Corporation (BBC) em 12 de março de 2013 e mostrou um total de mais de 98% dos votos a favor desta continuidade, foi rejeitado pelo governo argentino, o que teria levado a presidente Cristina Kirchener pedir inclusive a intervenção do Papa Francisco na questão, algo porém, que não surtiu efeito.
A Argentina buscou incessantemente reabrir o tema sobre o território com o Reino Unido, principalmente no governo da atual presidente, Cristina Kirchner. Porém, o Reino Unido, alegando que a vontade da população é o que deve prevalecer, nega qualquer diálogo sobre a negociação da região. O referendo anteriormente citado justificou-se para dar legitimidade à estas afirmações.
Analisando as perspectivas históricas e os possíveis interesses dos países envolvidos, este trabalho pretende discorrer, analisando as influências políticas nos momentos de conflito e os interesses econômicos e estratégicos de cada um. Estes estudos levam a seguinte questão principal: Há possibilidade de resolução do conflito nos tempos atuais?
1.2 OBJETIVOS
Tendo em vista os aspectos históricos e os atuais interesses, apresentam-se os objetivos deste trabalho de conclusão de curso.
1.2.1 OBEJTIVO GERAL
O Objetivo Geral deste Trabalho de Conclusão de Curso é analisar se há possibilidade de resolução do conflito entre Reino Unido e Argentina sobre as Malvinas.
1.2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Visando ter uma análise ampla sobre as visões dos países envolvidos, os objetivos específicos deste trabalho a serem desenvolvidos são:
- Conhecer a história da região, Guerra das Malvinas e dos países envolvidos;
- Pesquisar motivos que levam ao interesse atual dos países na região; - Estudar possíveis resoluções do conflito.
1.3 JUSTIFICATIVA
O tema do presente trabalho foi escolhido pela importância histórica do conflito. Surgido há quase de três séculos, o conflito já foi tanto diplomático como bélico, refletindo sempre nas relações dos países envolvidos e em alguns casos países próximos ou relacionados. O estudo deste assunto se torna interessante para análise dos pontos de vista de cada país, justificando seus comportamentos.
A escolha deste assunto justifica-se pelos aspectos históricos, despertado, principalmente, devido às controvérsias na historicidade registrada por cada país envolvido quanto à região.
O tema também se torna importante para as Relações Internacionais, uma vez que volta a disputa dos países devido à descoberta do petróleo explorável na região, demostrando assim os interesses econômicos e as novas controvérsias nas visões de quem deve obter a soberania do arquipélago.
Torna-se importante para o Brasil, devido sua proximidade com das ilhas e o interesse de paz na região. O Brasil apoia a Argentina quanto a Soberania no arquipélago. Ajudou a Argentina em 1982 com aparatos militares. Em Londres, através de representantes, tentou evitar um conflito continental, o que levaria uma
guerra armada no continente e mais próximo de seu território. Assim como não apoiou uma possível nova ocupação partindo da Argentina. Também há registro de uso de submarinos com poderes nuclear durante o conflito, que poderia ser trazido até o continente.
Atualmente, mesmo passados mais de 30 anos da Guerra, a região continua militarizada e com exercícios militares regularmente, o que causa certa tensão nos países próximos, incluindo o Brasil.
1.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A seguir serão apresentadas as classificações para a pesquisa que será feita para elaboração deste Trabalho de Conclusão de Curso.
1.4.1 QUANTO A NATUREZA
A pesquisa para elaboração deste trabalho é de natureza básica assim definida por Gehardt e Silveira (2009 p. 34) como uma pesquisa que pretende gerar novos conhecimentos, sem aplicação prevista.
1.4.2 QUANTO AOS OBJETIVOS
É uma de pesquisa exploratória, já que pretende analisar a possibilidade de uma resolução do conflito tendo em vista os interesses e motivos de cada lado envolvido, assim definida: “Trata-se de abordagem adotada para a busca de maiores informações sobre determinado assunto. [...] Tem a finalidade de formular problemas e hipóteses para estudos posteriores.” (MARTINS, 2000 p.30).
As informações foram buscadas em livros e principalmente nos sites de notícias e dos governos dos países, que relatam cada um, a sua visão sobre os acontecimentos.
1.4.3 QUANTO A ABORDAGEM DO PROBLEMA
A pesquisa qualitativa não se preocupa com representatividade numérica, mas, sim, com o aprofundamento da compreensão de um grupo social, de uma organização, etc. [...] A pesquisa qualitativa preocupa-se, portanto, com aspectos da realidade que não podem ser quantificados, centrando-se na compreensão e explicação da dinâmica das relações sociais. (Gehardt; Silveira, 2009 p.31).
Por ser uma pesquisa para um trabalho que se preocupa em explicar os fatos, analisar as interesses e motivos, e estudar uma possibilidade de resolução, encaixa-se nesta definição.
1.4.4 QUANTO AOS PROCEDIMENTOS
Os procedimentos adotados para a pesquisa são bibliográficos, com pesquisas em livros, notícias, artigos e sites dos governos, empresas, organizações e outras instituições envolvidas.
A pesquisa bibliográfica é um apanhado geral sobre os principais trabalhos já realizados, revestidos de importância, por serem capazes de fornecer dados atuais e relevantes relacionados com o tema. (MARKONI; LAKATOS, 2010, p.142).
E documentais, uma vez que em alguns sites também constam leis, declarações e documentos oficiais dos governos e das empresas.
1.5 ESTRUTURA DA PESQUISA
Este trabalho é dividido, além desta introdução, em três capítulos e as considerações finais. No primeiro capítulo será apresentada a história da região conforme cada país envolvido a relata, até o conflito de 1982.
No segundo capítulo será apresentada a Guerra de 1982 e analisada através de teorias o motivo da invasão argentina e a resposta britânica. Também será relatado como ficaram as relações exteriores entre Reino Unido e Argentino, o posicionamento dos demais países e das Organizações Internacionais, a imagem interna dos países após o conflito e como isso refletiu na política interna.
No terceiro capítulo, será feito uma análise sobre a soberania britânica, como outros conflitos foram resolvidos e se há possibilidade de Reino Unido e Argentina encontrarem uma resolução atualmente, levando em consideração a
intervenção, principalmente, da Organização das Nações Unidas (ONU), a exploração do petróleo, a autodeterminação da população e a posição geográfica das ilhas.
Considerando que há pelo menos dois nomes para os lugares que serão citados no trabalho, um em inglês e outro em espanhol, para padronização, serão usados os nomes que o Brasil usa, em apoio à Argentina: Malvinas, e não Falklands. Os trechos citados em outra língua são traduzidos no corpo do texto e o original apresentado em nota de rodapé.
Serão usadas datas que constam nos sites do Governo das Ilhas Malvinas, e no site de notícias TELÁM, a Agência Nacional de Notícias da Argentina, que é indicada pelo governo para conhecer a história do conflito, na ausência dos dados nos respectivos sites, as informações serão buscadas em sites de notícias ou relacionados ao assunto.
Nos sites do Governo das Malvinas e da Embaixada da Argentina em Londres são apresentados documentos expondo os fatos históricos pelos seus pontos de vista e explicações atuais sobre as posições dos países e organizações.
Sites de notícias serão usados para coletar dados recentes, como, por exemplo, do Referendo que aconteceu no início do ano de 2013 nas ilhas.
2 ILHAS MALVINAS: CARACTERÍSTICAS E HISTÓRIA ATÉ O CONFLITO DE 1982
Neste capítulo será feita uma introdução quanto aos aspectos geográficos e políticos das ilhas e posteriormente sobre a história até o conflito de 1982. Também serão apresentadas as Resoluções aprovadas pela ONU chamando os países para uma negociação pacífica. Estes aspectos serão abordados para melhor compreensão dos próximos capítulos que tratarão da Guerra de 1982 e a análise quanto a atual possibilidade de resolução do conflito.
2.1 ASPECTOS GEOGRÁFICOS E ECONÔMICOS DAS ILHAS MALVINAS
As Ilhas Malvinas (Falklands em Inglês) são um arquipélago localizado a 483 (quatrocentos e oitenta e três) quilômetros do continente americano, mais de 13000 (treze mil) quilômetros do Reino Unido e aproximadamente 1300 (um mil e trezentos) quilômetros do Círculo Antártico (onde também há um território britânico ultramarino). (FALKLAND ISLANDS GOVERNMET, 2013a).
A Figura 1, apresentada a seguir encontra-se em um documento da Embaixada Argentina em Londres e mostra a distância das ilhas entre Argentina e Reino Unido, um dos pontos questionados pela Argentina quanto ao direito de soberania.
Figura 1 – Distância das ilhas para Argentina e Reino Unido
Fonte: Embajada Argentina Londres (2013a)
O arquipélago é formado por aproximadamente 200 (duzentas) ilhas e rochedos. As duas principais ilhas são Soledad e Gran Malvina. Em espanhol, o canal que separa estas ilhas é chamado de San Carlos. (BANDEIRA, 2012).
A soberania das ilhas pertence a Coroa do Reino Unido. Assim, a Chefe de Estado é a Rainha Elisabeth II, como explicado a seguir na definição de um território ultramarino britânico:
[...] é um território pertencente por colonização, conquista ou anexação à Coroa Britânica, Australiana ou Neozelandesa.
Nos territórios britânicos ultramarinos, a Rainha é representada por Governadores, ou em alguns casos por Comissários, Administradores ou Residentes, que são responsáveis pelo Governo Britânico para o governo dos países em questão.
O Reino Unido é responsável pela segurança dos territórios ultramarinos e pelas suas relações exteriores e assuntos relacionados à defesa. A maioria dos territórios ultramarinos tem seu próprio governo eleito. (THE BRITISH
MONARCHY, 2013, tradução nossa).1
As Malvinas são citadas na lista dos territórios ultramarinos britânicos e a Coroa é representada pelo Governador Nigel Haywood, e Keith Padgett é o Chefe Executivo. O Governador é escolhido pela monarquia, e este escolhe o Chefe Executivo.
A Figura 2, apresentado a seguir apresenta a geografia das ilhas. Figura 2 – Mapa das Ilhas Malvinas.
Fonte: Central Intelligence Agency – CIA (2013)
1 Texto original: An overseas territory is a territory belonging by settlement, conquest or annexation to
the British, Australian or New Zealand Crown.
In British overseas territories, The Queen is represented by Governors or in some cases by Commissioners, Administrators or Residents, who are responsible to the British Government for the government of the countries concerned.
The United Kingdom is responsible for the security of the overseas territories and for their foreign affairs and defense-related matters. Most overseas territories have their own elected government. (THE BRITISH MONARCHY, 2013)
As cidades são ligadas por estradas, há um aeroporto e um porto internacional, tanto para carga como para turismo, além de mais quatro aeroportos menores. (CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY – CIA, 2013).
O acesso à internet é possibilitado em quase todo território das ilhas através de satélites e boa parte da energia é gerada por turbinas de vento. (FALKLAND ISLANDS GOVERNMENT, 2013b).
Seus habitantes têm fortes raízes no local e com a cultura britânica, pois as famílias estão lá em média há nove gerações. Estes habitantes são em sua maioria de descendência britânica, mas há também registros de mais de 60 nacionalidades diferentes entre os imigrantes. (FALKLAND ISLANDS GOVERNMENT, 2013c).
A bandeira das ilhas, apresentada na Figura 3 a seguir, retrata sua ligação com o Reino Unido. Com a própria bandeira desse na ponta esquerda, também está presente um carneiro, símbolo do que já foi um dia a principal atividade econômica das ilhas, o navio Desire, primeira embarcação a descer nas ilhas, e a frase “Deseje o certo” (tradução nossa). (CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY – CIA, 2013).
Figura 3 – Bandeira das Ilhas Malvinas
Fonte: Central Intelligence Agency – CIA (2013).
Mais aspectos da população e sua ligação com o Reino Unido, incluindo a vontade dos habitantes de permanecer sob sua soberania, principal argumento
usado pelo governo britânico para permanecer com o território, serão apresentados no Capítulo 4.
As Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul estão há aproximadamente 1000 (mil) quilômetros das Malvinas e também são territórios britânicos ultramarinos. Como a maioria de suas ilhas são inabitáveis por serem rochedos, não há população residente e, por este motivo, são administradas por um Comissário que reside em Stanley, capital das Malvinas. Somente há duas bases de pesquisa britânica da Antártica. (SOUTH GEORGIA AND SOUTH SANDWICH ISLANDS, 2013a).
O Reino Unido possui soberania dessas ilhas desde 1908 e em 1982, sofreram invasões de forças argentinas como as Malvinas, pois faziam parte do arquipélago. Essas ilhas se tornaram um território ultramarino distinto em 1985. (SOUTH GEORGIA AND SOUTH SANDWICH ISLANDS, 2013b).
Atualmente as Ilhas Malvinas possuem uma população de mais de 3000 pessoas, que residem principalmente em Stanley, capital das ilhas, localizada na Gran Malvina. A economia é baseada em agricultura, criação de ovelhas e turismo. O governo das ilhas vende, desde 1987, licenças de pesca para barcos estrangeiros em sua Zona de Pesca Exclusiva. Estas licenças rendem aproximadamente US$ 40.000.000,00 (40 milhões) por ano. Juntamente com as rendas das outras fontes de economia, as ilhas se tornaram autossuficiente economicamente, mas a defesa é realizada pelo exército do Reino Unido. Uma pesquisa revelou a existência de petróleo explorável na região, com uma estimativa produção de até 500.000 (quinhentos mil) barris por dia. (FALKLAND ISLANDS GOVERNMENT, 2013d).
No tópico a seguir será analisada a história das ilhas, levando em conta a historiografia encontrada nos sites dos governos da Argentina, do Reino Unido e das Malvinas, ou nos sites sugeridos por eles. As controvérsias são inúmeras e cada lado é subjetivo na avaliação dos fatos.
2.2 HISTÓRICO DO DESCOBRIMENTO DAS ILHAS MALVINAS ATÉ A RETOMADA BRITÂNCIA
As controvérsias sobre a história das ilhas existem desde seu descobrimento, iniciando assim as questões sobre a soberania da região. No site do Governo das Malvinas (FALKLAND ISLAND GOVERNMENT, 2013e) a data de descoberta é registrada em 1592 e o primeiro desembarque oficial é em 1690. Nesta
expedição que as ilhas recebem o nome em inglês, quando o capitão John Strong batiza o canal que divide as duas ilhas principais em homenagem ao Conde de Falkland com o nome de “Falklands Sound”. Esta expedição chegou às ilhas a bordo do navio Desire, anteriormente citado como um dos símbolos presentes na bandeira do país.
O Governo da Argentina não tem em seu site uma parte especial para as Malvinas, mas indica o site de notícias da Agência Nacional de Notícias da Argentina, o TELÁM, para conhecer a história e os fatos, que juntamente com a Universidade Nacional de Lanús reuniu documentos, fotos e notícias.
A primeira data registrada da história das ilhas é de 1520, quando a região teria sido avistada pelo navegador português Fernão Magalhães, a serviço da Coroa Espanhola. O nome em espanhol vem dos franceses, que também haviam registrado sua existência e a batizaram de “Les Iles Mouines” em homenagem ao porto francês St. Malo, de onde saiam as expedições na época. (AGENCIA NACIONAL DE NOTICIAS, 2013a).
No site da Embaixada Argentina no Reino Unido é possível encontrar um documento sobre as ilhas intitulado de “Ilhas Malvinas. Argentina, seus direitos e o diálogo necessário”. 2
Neste documento, primeiramente é apresentado o argumento da distância das ilhas para a Argentina e para o Reino Unido, como mostrado no começo deste capítulo. Na continuação, são tratados os assuntos históricos. Alegando sua descoberta, é relatado que desde os anos de 1520 as ilhas já aparecem nos mapas da Espanha e sua soberania foi reconhecida por diversos países, inclusive pelo Reino Unido com vários tratados dos séculos XVII e XVIII. (EMBAJADA ARGENTINA LONDRE, 2013a).
Em 1740 é registrada a passagem do Lorde Anson em uma viagem de exploração, e ele solicita ao Reino Unido para considerar as ilhas como uma fase preliminar para estabelecer uma base próxima ao Cabo Horn. (FALKLAND ISLANDS GOVERNMENT, 2013e).
O Cabo Horn, na época, era de extrema importância marítima, sendo uma passagem entre os Oceanos Atlântico e Pacífico, podendo assim o país que o dominasse, controlar o comércio e a navegação dos demais. Esta importância é
2 Texto Original: Islas Malvinas. Argentina, sus derechos, y el diálogo necesario. (EMBAJADA
diminuída, porém não perdida por completo em 1914, quando o Canal do Panamá é construído. (BANDEIRA, 2012, p. 162).
Neste aspecto, José William Vesentini (2000) explica a teoria geopolítica3 de Alfred T. Mahan, onde é esclarecido quanto a visão da época quanto ao “fardo do homem branco” e a importância dada aos europeus de comandar ou “civilizar” o mundo através do colonialismo, tornando-o assim, algo positivo. Também é explicado sobre a concepção do poder marítimo:
A chave para a hegemonia mundial, segundo Mahan, estaria no controle das rotas marítimas, essas “veias por onde circulam os fluxos do comércio internacional”. A posse de grande poder marinho, dessa forma, seria indispensável para um Estado que almejasse tornar-se importante potência mundial. (VESENTINI, 2000, p. 17).
Após a observação do Lorde Anson, os britânicos chegam ao território somente em 1765, porém os franceses já haviam estabelecido colônia no ano anterior na Ilha Gran Malvina e fundaram a cidade de Puerto Soledad. Essa colonização foi comandada por Louis Antoine de Bougainville, um diplomata e explorador. Os britânicos alegam que desconheciam essa colonização francesa quando se instalaram na Ilha Soledad, onde fundam a cidade de Puerto Egomont e declaram as ilhas de posse da Coroa Britânica. (FALKLAND ISLANDS GOVERNMENT, 2013e).
Não houve conflito direto. Porém, no ano de 1766, a Coroa Espanhola reclama destas ocupações e os franceses se retiram diante de um acordo. Os britânicos, com a visão da importância geográfica das ilhas, que além de serem próximas ao Cabo Horn também são próximas da América do Sul, permanecem. (AGENCIA NACIONAL DE NOTICIAS, 2013a).
Segundo o documento da Embaixada Argentina em Londres, não havia habitantes nas ilhas na época de sua descoberta, então os primeiros habitantes foram os franceses em 1764, que, após o reclame da Espanha, se retiraram do território e assim reconheceram a soberania sobre o território. Ainda no documento, conta um registro de que, entre 1767 até a independência da Argentina, houve 32 governadores Espanhóis nas ilhas, que eram dependentes das autoridades
3
Esta matéria é explicada pelo autor como a que “tem como preocupação fundamental a questão da correlação de forças [...] no âmbito territorial, com ênfase no espaço mundial” (VESENTINI, 2000, p. 10) e também esclarece que os primeiros estudiosos geopolíticos foram militares, explicando assim as visões de domínio.
espanholas em Buenos Aires. Por fim, o fato da ausência de habitantes na descoberta é um argumento para a Argentina quanto à autodeterminação da população que será analisado no Capítulo 4. (EMBAJADA ARGENTINA LONDRES, 2013a).
No ano de 1770, a Espanha, que ainda controlava a cidade de Puerto Soledad, toma também a cidade de Puerto Egmont, mas no ano seguinte, com uma negociação envolvendo Reino Unido, França e Espanha, a cidade volta para o poder dos britânicos, que em 1774 retiram-se das ilhas. (FALKLAND ISLANDS GOVERNMENT, 2013e).
A decisão dos britânicos de deixarem as ilhas nesta época é explicada pelo governo do Reino Unido como uma reorganização nacional devido à guerra de independência dos Estados Unidos. (MAIA, 2007). Os espanhóis também retiram suas ocupações em 1811, devido às guerras de independências de suas colônias na América Latina. Assim, o domínio das ilhas pela Coroa Espanhola passa para a Província de Buenos Aires. (BANDEIRA, 2012).
Antes de sua independência, o território que pertencia à Espanha era chamado Cuenta do Prata e abrangia as províncias de Buenos Aires, Entre Rios, Corrientes, Santa Fé, Chaco, Formosa, Missões e o que hoje são Paraguai e Uruguai. Este território, a partir de 1776 passa a formar o Vice-Reino da Prata 4. O processo de independência da Coroa começa em 1810, como reflexo da invasão Napoleônica à Espanha. (ARGENTINA, 2013a).
No ano de 1806, o Reino Unido via a América Latina como uma possibilidade para compensar as perdas comerciais devido ao bloqueio continental de Napoleão Bonaparte na Europa, que tinha por objetivo principal prejudicar o Reino Unido militar e economicamente. (CERVO; BUENO, 2011).
Este interesse se reflete em duas invasões, como Jorge Ramos Abelardo (2012, p. 548), historiador argentino, explica em seu livro, que foram feitas tentativas de domínio dos britânicos nos anos de 1806 e 1807, mas não nas ilhas, e sim no continente, com duas invasões não bem sucedidas a Buenos Aires. Os invasores foram bem recebidos por algumas famílias, mas enfrentaram resistência de “gaúchos5, crioulos6 e regimentos espanhóis” e, assim, foram derrotados.
4 Vice-Reino criado pela coroa Espanhola para melhor administração da região, considerando seu
crescimento econômico e importância estratégica (ARGENTINA, 2013a).
Somente em 1816 as Províncias Unidas do Rio da Prata são declaradas independentes da Coroa Espanhola. Em 1826, a República da Argentina é formada e em de 1831 as províncias de Bueno Aires, Santa Fé e Entre Rios são aderidas pelo Pacto Federal, formando a Argentina como conhecemos hoje. (ARGENTINA, 2013b). O Estado Argentino é reconhecido pelo Reino Unido em 1825, mas sem nenhuma menção às Malvinas. (AGENCIA NACIONAL DE NOTICIAS, 2013a).
No ano de 1820, o governo das ilhas passa para Buenos Aires com sua independência. O fato é noticiado no jornal “The Times” sem apresentar nenhum protesto do governo britânico quanto à notícia (EMBAJADA ARGENTINA LONDRES, 2013a). Este ponto é relatado como um aceite do governo britânico quanto à soberania de Buenos Aires.
Antes de fazer parte da República da Argentina, em 1826, Buenos Aires faz uma tentativa de colonização nas ilhas, mas falha. O governo da Argentina também faz uma tentativa em 1829, com a nomeação do Comissário Louis Vernet para governar o território e cria o Comando Político e Militar das Ilhas Malvinas. Esta ocupação é bem sucedida, mas reclamada pelos britânicos, que em 1833, retornam com uma expedição militar e expulsam os argentinos (ARGENTINA, 2013a).
Este ponto é muito controverso nas historiografias, sendo possível encontrar um documento no site Oficial do Governo das Malvinas intitulado de “História Falsa sobre as Ilhas Falklands/Malvinas frente à Organização das Nações Unidas: Como a Argentina enganou à ONU em 1964 – e segue fazendo” (PASCOE e PEPPER, 2012, tradução nossa) 7, que discorre sobre a verdadeira ocupação e interesses de Louis Vernet nas ilhas. Segundo esse documento, esse Comissário era na verdade um comerciante de Buenos Aires, que, junto com um amigo, Jorge Pacheco, um militar a quem o governo devia muito dinheiro devido à Guerra de Independência, resolveu investir nas ilhas.
Assim, a primeira excursão foi sob o governo de Don Pablo Areguati, que também ficou encarregado de governar as ilhas. Essa foi a expedição que falhou em 1823, havendo inclusive um barco britânico que foi pirateado pelos gaúchos que habitavam as ilhas para roubar suprimentos. Com interesse de não perder todos os
6 Crioulo é a palavra usada para denominar os brancos nascidos em colônias Europeias,
particularmente na América (ARGENTINA, 2013a).
7 Texto original: Historia falsa sobre las Falklands/Malvinas ante la Organización de las Naciones
Unidas: Cómo la Argentina en gañó a la ONU en 1964 – y sigue haciéndolo (PASCOE e PEPPER, 2012).
investimentos, Louis Vernet promoveu outra excursão em 1826 e, ao chegar, recebeu apoio para montar assentamento de britânicos que estavam atracados na ilha durante o inverno. Esta excursão foi mais bem sucedida, porém é registrado que Vernet pagava os gaúchos com um dinheiro que ele mesmo criou e vendia o que era trazido do continente a valores muito altos e nesta moeda. Assim os habitantes passaram a ter um alto endividamento com o governador, o que levou a um descontentamento, dando margem a um argumento por parte dos britânicos de que os gaúchos não resistiram à ocupação em 1833. (EMBAJADA ARGENTINA LONDRES, 2013a).
Este aspecto é difícil de avaliar quanto à veracidade, pois cada governo conta uma história distinta. Segundo o governo da Argentina, além de legítimo, o governo de Louis Vernet também era autentico e reconhecido, tendo desenvolvido nas ilhas uma economia com a criação de gado e serviços prestados a navios de pesca e caça que passavam pelas ilhas. (EMBAJADA ARGENTINA LONDRES, 2013a).
No tempo em que foram soberanos sobre as ilhas, os argentinos apreenderam três navios de pesca americanos, alegando que obtinham o controle total da região, fato que levou a resposta americana em atacar e cidade de Puerto Soledad e assim houve a quebra das relações diplomáticas entre os dois países em 1832, levando os Estado Unidos a apoiarem os britânicos, alegando que a Argentina não teria capacidade de governar o território (MARCHESE, 2012).
A expedição que chegou às ilhas em 1833 seria de rotina para manter assegurado o direito britânico sobre o território e impedir ameaças às rotas comerciais britânicas, perigo este identificado pelo episódio com os navios americanos, que seria uma ação ilegal, pois, segundo o documento do governo das Malvinas, nenhum país reconhecia a autoridade de Louis Vernet nas ilhas. As visitas da Marinha Real à região eram anuais, mas, em 1833, foi com um objetivo diferente: exigir que qualquer força estrangeira abandonasse o território, porém sem interferir na vida dos civis. Somando com o descontentamento em torno da moeda que Vernet usava, é alegado que inclusive houve apoio dos gaúchos para a retomada britânica. E que somente 26 homens foram presos no processo devido aos incidentes com os barcos americanos. É relatado que, através de um tradutor, foram explicadas para os gaúchos as mudanças e alguns inclusive continuaram trabalhando na cidade de Puerto Soledad. (PASOCE; PEPPER, 2012).
Segundo o documento da Embaixada Argentina, as famílias que estavam lá foram expulsas e proibidas de voltar. Mas muitos dos habitantes já haviam fugido no ano anterior, assustados pelos ataques com navios de Guerra dos Estados Unidos em resposta a apreensão dos barcos. A partir da ocupação em 1833, os britânicos passam a deter a soberania sobre as ilhas até os dias de hoje, com exceção das dez semanas em 1982 que ocorreram a Guerra das Malvinas. Esta ocupação é chamada pelo governo argentino de Usurpação Britânica. (EMBAJADA ARGENTINA LONDRES, 2013a).
Esta fase de disputas de territórios aconteceu também no continente e é chamada por Alessandro Warley Candeias (2005), diplomata brasileiro, como a “amputação” da Argentina, ao perder territórios para o Reino Unido (Malvinas, Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul), Brasil (Uruguai, Paraguai e a Região das Missões), Chile (Terra do Fogo, Beagle e Punta de Atacama) e Bolívia (Alto Peru). O autor explica todas estas perdas pelo motivo dos argentinos terem dificuldades em manter estes territórios uma vez que muitos eram “inóspitos e longínquos”.
A Argentina reclama a ocupação dos britânicos em toda história das ilhas. Como por exemplo, o não cumprimento do tratado de San Lorenzo de El Sacorial, assinado pelos dois países em 1790, em que o Reino Unido se comprometia com a Coroa Espanhola de não formar nenhum estabelecimento nas costas da América nem nas ilhas adjacentes já ocupadas pela Espanha, o que incluiria as Malvinas. (AGENCIA NACIONAL DE NOTICIAS, 2013a).
Além deste tratado, outro acordo que foi feito entre os dois países nesta primeira fase de disputa, mas que não envolvia assunto algum sobre as ilhas, foi Tratado de Amizade, Comércio e Navegação assinado em 1825, e um dos principais pontos é que ao Reino Unido era assegura a livre navegação pelo Rio da Prata. Neste tratado, como no reconhecimento do Estado Argentino, os britânicos não apresentam objeções quanto à soberania das ilhas, que, neste ano, pertencia à Argentina. (AGENCIA NACIONAL DE NOTICIAS, 2013a).
Já o Reino Unido alega que a Argentina não segue alguns tratados que reconheceriam a soberania britânica nas ilhas, como por exemplo, um tratado de 1771, que acordava a soberania de cada país onde havia seu respectivo assentamento. E um Tratado de Paz de 1849, que é assinado pelos dois países. Assim, de acordo com o entendimento do Reino Unido, sendo um tratado para reestabelecer a “perfeita amizade” entre os países, descarta qualquer disputa que
pudesse haver mesmo esta sendo paralela aos motivos que levaram a criação do tratado, como era o caso das Ilhas. (PASOCE; PEPPER, 2012).
Após este período, as ilhas passaram por momentos pacíficos em relação à disputa de sua soberania. Os desacordos foram levados às organizações internacionais, principalmente a Organização das Nações Unidas. O tópico a seguir mostrará estas tentativas de resolução e o comportamento dos países.
2.3 TENTATIVAS DE NEGOCIAÇÃO DE 1833 A 1982
Neste período, de 1833 a 1982, houve muitas tentativas de negociações partindo principalmente da Argentina quanto à soberania das ilhas. Neste tópico será analisada as resoluções da ONU, pois foi a Organização Internacional mais atuante, no próximo capítulo será analisada a posição de mais organizações como a Organização do Tratado do Atlântico Norte, Tratado Interamericano de Assistência Recíproca e o Mercado Comum do Sul.
Após a ocupação britânica, Stanley se torna oficialmente capital, em 1845. Outro marco importante na história da ilha só acontece em 1914, quando o Reino Unido consegue vencer forças alemãs que se dirigiam as ilhas, e assim mantem controle sobre o trafego no Cabo Horn durante a 1ª Guerra Mundial. (FALKLAND ISLANDS GOVERNMENT, 2013e).
Após a 2ª Guerra Mundial, em 1945 a Organização das Nações Unidas foi criada, e em sua Carta, no Capítulo XII, o Sistema Internacional de Tutela, e no Capítulo XIII, o Conselho de Tutela. O primeiro estabelecia, entre outras questões, que territórios tutelados deveriam ser incentivados a uma independência, passando por progresso político, econômico, social e educacional dos habitantes. O segundo deveria acompanhar esses progressos através de relatos da autoridade administrados dos territórios tutelados. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1945).
O primeiro reclame oficial feito pelo Governo da Argentina pelo então presidente, Juan Domingo Perón, para uma Organização Internacional, aconteceu em 1946, para o Conselho de Segurança da ONU. (AGENCIA NACIONAL DE NOTICIAS, 2013a).
No ano de 1960 a Assembleia Geral da ONU adota a Resolução 1514 (XV), que é a Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos
Coloniais. Essa declaração é baseada nos Direitos Humanos e na dignidade e valores da pessoa humana. Nesta declaração é esclarecida que uma população não deve ser subjugada, dominada e explorada, e que deve ser respeitado o direito de soberania de todos os seres humanos e a integridade de seus territórios. Além de outros aspectos que não dizem respeito diretamente a populações e a territórios a serem descolonizados, mas sim aos países que detém a soberania e o que esses devem fazer para incentivar os territórios sob colonização a alcançar sua independência. (THE UNITED NATIONS, 1960).
Essa resolução, 1514, é adotada, pois os resultados esperados pela Comissão de Tutela não eram alcançados, e os relatórios requeridos não eram entregues, principalmente por Espanha e Portugal (SANTOS, 2011).
A presença das ilhas na listagem dos territórios a passarem por este processo de descolonização será trabalhado no Capítulo 4, com análise do direito de autodeterminação da população, principal aspecto defendido pelos habitantes das ilhas, que deseja continuar sobre administração do Reino Unido.
Em 1965 é aprovada a Resolução 2065 quanto à questão, convidando os países para procederem com as negociações sobre a soberania das ilhas. A seguir a Resolução:
2065 (XX) Questão das Ilhas Malvinas A Assembleia Geral,
Tendo examinado a questão das Ilhas Malvinas,
Levando em conta os capítulos dos relatórios da Comissão Especial nesta Situação com consideração à Implementação da Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos Coloniais referindo-se às Ilhas Malvinas, e em particular a conclusão e recomendações adotadas pelo Comitê com referencia a este Território,
Considerando que a Resolução 1514 (XV) de 14 de Dezembro de 1960 foi motivada pelo objetivo desejado de trazer a um fim em todo lugares o colonialismo em todas suas formas, o que seria o caso das Ilhas Malvinas, Notando a existência de uma disputa entre os Governos da Argentina e do Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda do Norte a respeito da soberania das ilhas citadas,
1. Convida os Governos da Argentina e do Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda do Norte a procederem sem atraso com as negociações recomendadas pelo Comitê Especial nesta Situação com consideração à Implementação da Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos Coloniais com a visão de encontrar uma solução pacífica para o problema, tendo em mente as disposições e objetivos da Carta das Nações Unidas e da Resolução 1514 (XV) da Assembleia Geral e o interesse da população das Ilhas Malvinas;
2. Solicita aos dois Governos a reportarem ao Comitê Especial e à Assembleia Geral em sua vigésima primeira seção sobre o resultado das negociações.
1398º Reunião Plenária, 16 de dezembro de 1965. (THE UNITED
NATIONS, 1965, tradução nossa). 8
Segundo o documento que se encontra no site do Governo das Malvinas, esta resolução é um convite para negociações, sem veredito sobre os méritos de cada país quanto ao reclame das ilhas. A resolução também não exigia um resultado esperado para as negociações – são citados exemplos como exigência de submeter o caso a Corte Internacional de Justiça, ou que a Argentina desistisse de seu reclame ou que o Reino Unido desse a independência ao território – neste aspecto, o Reino Unido alega também não teria infringido a resolução, e sim a Argentina em 1982 com a invasão que levou à Guerra (PASCOE; PEPPER, 2012).
Em 1974 a ONU novamente convida os países a conversarem através da adoção da Resolução 3160. A resolução é muito semelhante a anterior, 2065, inclusive essa sendo recordada ao longo do texto. Também é ressaltada a preocupação com que oito anos se passaram da Resolução 2065 sem nenhum progresso substancial ter sido alcançado nas negociações. É lembrado que para por fim à questão da soberania no território deve ser usada uma forma pacífica de solução, assim, chama os países para, sem mais demora, procederem com as negociações e reportarem para a Assembleia Geral os resultados o mais breve possível. E são feitos agradecimentos ao Governo da Argentina pelos contínuos esforços de negociação. (THE UNITED NATIONS, 1974).
8 Texto original: 2065 (XX). Question of the Falkland Islands (Malvinas)
The General Assembly,
Having examined the question of the Falkland Islands (Malvinas),
Taking into account the chapters of the reports of the Special Committee on the Situation with regard to the Implementation of the Declaration on the Granting of Independence to Colonial Countries and Peoples relating to the Falkland Islands (Malvinas), and in particular the conclusions and recommendations adopted by the Committee with reference to that Territory,
Considering that its Resolution 1514 (XV) of 14 December 1960 was prompted by the cherished aim of bringing to an end everywhere colonialism in all its forms, one of which covers the case of the Falkland Islands (Malvinas),
Noting the existence of a dispute between the Governments of Argentina and the United Kingdom of Great Britain and Northern Ireland concerning sovereignty over the said Island,
1. Invites the Governments of Argentina and the United Kingdom of Great Britain and Northern Ireland to proceed without delay with the negotiations recommended by the Special Committee on the Situation with regard to the Implementation of the Declaration on the Granting of Independence to Colonial Countries and Peoples with a view to finding a peaceful solution to the problem, bearing in mind the provisions and objectives of the Charter of the United Nations and of General Assembly resolution 1514 (XV) and the interest of the population of the Falkland Islands (Malvinas);
2. Requests to the two Governments to report to the Special Committee and to the General Assembly at its twenty-first session on the results of the negotiations.
No ano de 1976 mais uma Resolução é adotada pela ONU quanto à questão das Malvinas. Novamente chamando os países para o diálogo, agradecendo à cooperação do Governo da Argentina, a resolução 31/49 traz uma nova recomendação, diferente das soluções antigas, conforme citado a seguir:
Solicita às duas partes a absterem-se de tomarem decisões que implicariam em introduzir modificações unilaterais na situação enquanto as ilhas estão
passando pelo processo recomendado na Resolução acima mencionada 9.
(THE UNITED NATIONS, 1976, tradução nossa) 10.
O fato de este nova recomendação constar na resolução, diferenciando-se das demais aprovadas anteriormente, chama atenção pelo motivo de que no ano de 1976 a Argentina passava por uma Ditadura Militar.
Emilio Dellasoppa (1998), professor e pesquisador de Política Social, explica em seu livro que esta ditadura se instaurou em 24 de março de 1976, colocando no poder o General Jorge Videla. Sendo marcada pela extrema violência direcionada aos dissidentes, este período ficou conhecido como “Guerra Suja”, deixando mais de 30.000 (trinta mil) desaparecidos.
Com premissas de que o país enfrentava problemas como, por exemplo, alta inflação, crise sindical, violência e problemas políticos, os militares tomaram o poder derrubando a presidente Isabel Perón e foi dado o início ao Processo de Reorganização Nacional, que suspendia os direitos constitucionais para que os militares pudessem neutralizar elementos subversivos 11. Além destas atrocidades, o governo acabou com o congresso nacional e partidos políticos e anulou a liberdade de imprensa e expressão. (24 DE MARZO, 2013a).
Assim, a ONU poderia tentar precaver uma medida de nacionalismo dos militares em relação às Malvinas, como aconteceu posteriormente em 1982.
Além dos pontos anteriormente apresentados neste capítulo do documento do Governo das Malvinas sobre a Argentina quanto a ONU, como os tratados e falta de autenticidade do Governo de Louis Vernet, também são citados
9 A resolução da qual esta se referindo é a 2065 de 1965.
10 Texto original: Calls upon the two parties to refrain from taking decisions that would imply
introducing unilateral modifications in the situation while the islands are going through the process recommended in the above-mentioned resolution (THE UNITED NATIONS, 1976).
11 Dellasoppa (1998) explica que o termo “elementos subversivos” começou a ser usado para definir
uma guerrilha rural que foi combatida em Tucumán em 1975 com autorização do governo de Isabel Perón. O que no ano seguinte levou a sua retirada do poder.
outras questões justificando os as mentiras12 contadas pela Argentina, sendo doze no total. São elas:
1. Que a Espanha expressa sua reserva quanto à soberania no tratado de 22 de Janeiro de 1771 que pôs fim a crise provocada pelo ataque da Espanha em tempos de paz sobre o estabelecimento britânico em Porto Egmont em 1770;
2. Que a Argentina designou um governador às Malvinas em 1823;
3. Que a Grã Bretanha expulsou a população argentina das Ilhas Malvinas em 1833.
4. Que os habitantes argentinos opuseram resistência ante os “invasores” britânicos;
5. Que a Grã Bretanha substituiu os habitantes argentinos por súditos da coroa britânica;
6. Que não existe nenhum acordo internacional que confirme a possessão britânica das Malvinas;
7. Que a Argentina jamais tenha aceitado a possessão britânica das Malvinas;
8. Que a Argentina nunca deixou de protestar pela possessão da Grã Bretanha das Ilhas Malvinas;
9. Que o reclame da Argentina é imprescritível, isto que dizer: eterno salvo que seja desistido livremente.
10. Que os atuais habitantes das Ilhas Malvinas constituem uma povoação transitória;
11. Que a possessão britânica das Ilhas Malvinas viola a integridade regional da Argentina;
12. Que a Grã Bretanha tomou as Ilhas Geórgia do Sul e as Ilhas Sandwich
do Sul da Argentina a força. (PASCOE; PEPPER, 2012, tradução nossa). 13
Assim, os pontos 1 (um) a 7 (sete) já foram trabalhados neste capítulo. Os demais serão tratados nos capítulos seguintes, juntamente com o assunto que diz respeito.
O documento da Embaixada da Argentina sobre seu direito de soberania também tem mais assuntos a serem tratados ao longo deste trabalho.
Porém, a análise da subjetividade destes pontos pode ser feita, quanto aos tratados, por serem documentos, não há o que contestar, o que pode ser lembrado é que os dois países apresentam documentos onde um país reconheceu
12 Termo usado pelos próprios autores.
13 Texto original: 1.Que España hizo reserva expresa de su soberanía en el tratado del 22 de enero
de 1771 que puso fin a la crisis provocada por el ataque por España en tempos de paz sobre el establecimiento británico en Port Egmont en 1770; 2. Que la Argentina designó un gobernador en las Falklands en 1823; 3. Que Gran Bretaña expulsó a la población argentina de las Falklands en 1833; 4. Que los habitantes argentinos opusieron resistencia ante los “invasores” británicos; 5. Que Gran Bretaña remplazó a los habitantes argentinos con súbditos de Gran Bretaña; 6. Que no ha habido ningún acuerdo internacional que confirme la posesión británica de las Falklands; 7. Que la Argentina jamás ha aceptado la posesión británica de las Falklands; 8. Que la Argentina nunca ha dejado de protestar la posesión por Gran Bretaña de las Falklands; 9. Que el reclamo a la Argentina es imprescriptible, es decir: eterno salvo que sea desistido libremente; 10. Que los actuales isleños de las Falklands constituyen una población transitoria; 11. Que la posesión británica de las Falklands viola la integridad territorial de la Argentina; 12. Que Gran Bretaña tomó las Islas Georgia del Sur y las Islas Sandwich del Sur de la Argentina por la fuerza. (PASCOES e PEPPER, 2012).
de uma forma indireta, segundo seu entendimento, a soberania do outro quanto às ilhas.
Já os pontos que se referem à população das ilhas em 1833, que dizem respeito a como, ou se elas foram realmente retiradas são difíceis de analisar, já que os relatos se tornam parciais, contando o ponto de vista de cada um dos governos.
Mesmo com todas estas tentativas de resoluções buscadas pelos países e pela ONU, a Guerra ocorreu em 1982, com a invasão das Ilhas Malvinas pela Argentina para tentativa de retomada do território e das Ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul.
Com historiografia confusa, o território é disputado praticamente por toda sua história. Cada país aponta os fatos conforme melhor se adequa ao seu interesse, dificultando as análises imparciais sobre o tema. Conforme explicado na Introdução, priorizaram-se as informações e datas encontradas nos sites oficiais dos governos ou por eles recomendados. Na ausência destes dados, foram utilizadas agências midiáticas de proporções internacionais, como a BBC e o Télam. Conforme explicado no começo deste parágrafo, tentou-se apresentar pelo menos uma fonte de cada lado na tentativa de manter a imparcialidade.
Como já mencionado, o objetivo deste capítulo é conhecer melhor a história para uma possível compreensão do interesse dos países envolvidos e das causas que levaram ao conflito.
No próximo capítulo será descrito o momento histórico dos países em 1982, os motivos que levaram à invasão da Argentina, a resposta do Reino Unido, as consequências após a Guerra, o posicionamento dos países e das Organizações Internacionais, tanto da ONU como de demais que estão ligadas aos países ou à região.
3 GUERRA DE 1982 E SEUS DESDOBRAMENTOS
O principal conflito no território aconteceu em 1982. Neste capítulo será analisada a situação política dos países, os motivos que levaram a Argentina a invadir as Ilhas Malvinas, Sandwich do Sul e Geórgia do Sul, a rápida resposta do Reino Unido, e a posição de alguns países e algumas organizações internacionais. Também será apresentado o resultado que a Guerra causou para os governos. Será feita uma análise teórica para uma melhor compreensão do assunto. Por fim, o capítulo é importante pela relevância histórica do conflito, que mudou a forma de negociações pacíficas para uma guerra e até hoje tem reflexo nas negociações entre britânicos e argentinos.
3.1 MOMENTO HISTÓRICO DO REINO UNIDO E DA ARGENTINA
As Malvinas não eram uma preocupação prioritária para o Reino Unido na época. Ramos (2012) explica em seu livro que o governo britânico aspirava contar com as Malvinas a baixo custo, principalmente pelos benefícios econômicos da exploração de petróleo e da pesca krill. Tudo sem considerar uma negociação com a Argentina, e a Argentina não estava disposta a continuar aceitando a ocupação britânica. Assim, o Reino Unido elabora um novo plano, que é explicado pelo autor conforme o texto abaixo:
Os ingleses elaboraram um projeto mestre a baixo custo, frustrado em 2 de abril de 1982 pela ocupação militar das Malvinas. Esse plano consistia em “descolonizar” as Malvinas. Tratava-se de fundar da noite para o dia um novo “Estado Soberano”, o de Falkland Islands, com um primeiro-ministro (talvez o mesmo barman do único pub de Port Stanley), pedir as grandes potências uma troca de cônsules e solicitar a sua admissão nas Nações
Unidas e na OEA14. O reconhecimento diplomático da Grã-Bretanha, Estado
Unidos e demais sócios da OTAN15 europeia seria imediato. Não menos
fulminante seria o tratado que o flamante primeiro-ministro malvinês assinaria com os EUA, outorgando-lhe um contrato de arrendamento por noventa e nove anos para a construção de uma base aeronaval, que seria logo colocada a disposição dos sócios da OTAN [...] (RAMOS, 2012, p. 549-550).
14
Organização dos Estados Americanos.
O que é exposto pelo autor não acontece. O Conflito não era prioridade para o Reino Unido, e a presença de petróleo não era confirmada, assim a importância das ilhas, como demonstrado na citação, é estratégica.
Neste contexto Marina Walker (2004) mostra em seu artigo que no começo do ano de 1982, as Malvinas e o conflito estavam em 242º lugar na lista de prioridades a serem tratadas pelo Reino Unido.
A época, o Reino Unido era governado pela Primeira Ministra Margareth Thatcher, eleita em 1979. Nos primeiros dois anos de governo, Thatcher enfrentou altas taxas de desemprego, mas conseguiu melhorar os índices econômicos do país. (THE UNITED KINGDOM GOVERNMENT, 2013a). Seu governo é lembrado pelas privatizações, redução de impostos, reformas sindicais restritivas e corte de gastos estatais. (BRITISH BROADCASTING CORPORATION – BBC, 2013a). Margaret Thatcher ficou conhecida como a “Dama de Ferro” devido às medidas de austeridade que foram tomadas durante seu governo. (G1, 2012a).
O eminente historiados britânico, Eric Hobsbawm (1995), explica que a economia da época passava por vários problemas. As duas crises do petróleo (1973 e 1979) e o resultado negativo da industrialização resultaram elevação nas taxas de desemprego, fazendo as décadas de 1970 e 1980 ficarem conhecidas popularmente como as Décadas de Crise. Esses fatores motivaram um descontentamento de algumas classes a respeito da forma de governo. Nas palavras do autor:
A tendência geral da industrialização foi substituir a capacidade humana pela capacidade das máquinas, o trabalho humano por forças mecânicas, jogando com isso pessoas para fora dos empregos. (HOBSBAWM, 1995, p. 402).
Já a Argentina era governada pela ditadura militar instaurada em 1976, e no ano de 1981, o General Leopoldo Fortunato Galtieri assumiu o poder. A aceitação popular da ditadura estava muito baixa, como explicada por Wilson Cano (2000), economista brasileiro, além dos desparecimentos, anteriormente citados que podem chegar a 30.000 (trinta mil) pessoas, também foram mais de 2.300 (dois mil e trezentos) assassinados políticos e 10.000 (dez mil) encarcerados, números que foram somados pelos militares principalmente ao conter manifestações políticas e sociais. Além destes aspectos, a economia do país estava em extrema decadência. O autor explica isso conforme é apresentado em seu texto:
As principais cifras altas obtidas pelo regime militar foram as dos seus crimes, das importações, da inflação e das quebras de empresas. Em 1976-1978 o programa econômico foi muito ortodoxo: congelamento de salários, liberalização de preços, abertura comercial e desregulamentação à finança e ao capital estrangeiro. Os preços cresceram em todo o período, reforçados pela indexação econômica que se generalizou e a despeito das tentativas políticas de estabilização. Da média de 170% anuais em 1977-1979, passam a 105% em 1980-1981 e subindo para 434% em 1983”. (CANO, 2000, p. 110).
Apesar de falar das mortes, desaparecimentos e prisões, a abordagem desse texto é eminentemente econômica, explicando ao longo do livro as medidas que o governo tomou e, elucidando os motivos que levaram a essa situação. Também justifica o descontentamento da população com o governo militar, que, além da extrema violência utilizada no início do regime, traz para o país mais problemas do que aqueles que já vinham sendo enfrentados social e economicamente.
O conflito iniciou-se em abril de 1982, os acontecimentos e seus resultados serão apresentados no tópico a seguir.
3.2 O CONFLITO
Este tópico irá tratar do conflito ocorrido em 1982 entre Reino Unido e Argentina pelo domínio das ilhas, porém não irá detalhar a guerra explicando suas batalhas e todos os acontecimentos, pois o objetivo deste trabalho é compreensão dos motivos que levaram ao conflito em 1982 e o retorno do interesse atualmente.
Segundo Miguel Angel Marchese (2012, p. 85), Capitão-de-Fragata da Armada Argentina, o plano de invasão para retomada das ilhas pela Argentina começou em 1981, com a posse do Vice-Almirante Lombardo do cargo de Comandante de Operações Navais.
Navios da Argentina desembarcam primeiramente na Geórgia do Sul e depois nas Ilhas Malvinas no dia 2 de abril de 1982 e retomaram o território. Uma multidão se junta na Praça de Maio para apoiar a medida do Governo. O plano inicial era ocupar o território para negociação, porém, com o entusiasmo da bem sucedida operação, apoiada pela população, a ocupação passa a ser para combater a ocupação britânica. A Argentina estava certa da neutralidade Norte Americana, e
que não haveria reação bélica do Reino Unido. Porém no dia seguinte, a Primeira Ministra do Reino Unido, Margareth Thatcher, anuncia o envio de uma “poderosa frota” em resposta à tomada do território, e o Conselho de Segurança da ONU adota a resolução 502 exigindo, entre outros pontos, a retirada imediata das tropas argentinas das ilhas. (24 DE MARZO, 2013b).
Quando a Guerra começa, a resposta de apoio da população na Argentina quanto à invasão das Malvinas é imediata, como mostra a Figura 4 a seguir, com um grande número de pessoas em frente à sede do governo, a Casa Rosada.
Figura 4 – Multidão em frente a Casa Rosada.
FONTE: Agencia Nacional de Noticias (2013b)
Candeias (2005), explica que a Argentina esperava apoio dos Estados Unidos uma vez que ela representava um líder na luta anticomunista na América Latina. O autor evidencia também que um elemento presente na política externa
argentina é a “dificuldade de correta percepção no contexto internacional” (CANDEIAS, 2005, p. 24).
Ramos (2012, p. 550) expõe também a questão de que a Argentina esperava neutralidade dos EUA uma vez que o governo argentino havia enviado quinhentos instrutores militares para a América Central para ajudar os norte-americanos nos planos de invasão à Nicarágua e El Salvador. Além disso, a reação do Reino Unido não foi esperada, pois este estava prestes a vender parte de sua frota marinha.
A resposta do Reino Unido chega ao território entre os dias 21 e 22 de abril, iniciando o conflito direto. A Figura 5 apresenta a rota dos navios britânicos e, na coluna da direita, o local onde as embarcações General Belgrano e o HSM Sheffiel, dias depois, foram afundados.
Figura 5 – Rota dos navios britânicos.
Os prejuízos mais significativos foram nos dias 2 e 4 de maio com o afundamento dos navios, o que levou a um elevado número de mortes. Ambos os lados tiveram perdas. Para a Argentina foi a do navio General Belgrano, com 368 mortos. O Reino Unido perde seu primeiro navio após a 2ª Guerra Mundial, com número de mortos reduzido em comparação com o inimigo, foram 20 marinheiros. As batalhas também ocorreram em terra e aos poucos os britânicos retomaram o território sob domínio das forças argentinas. (BRITISH BROADCASTING CORPORATION – BBC, 2013b).
O Conflito foi noticiado pelas Agências de notícias conforme o sucesso de seu país. As notícias positivas eram exaltadas nas primeiras páginas, e as notícias sobre derrotas ou mortes eram encobridas por entrevistas ou declarações. No Reino Unido isto acontece em alguns casos pelos jornais apoiarem o governo e a resposta para a invasão. Na Argentina a imprensa era altamente controlada pelo governo por estar passando por uma ditadura militar, assim não havia representantes dos jornais nas ilhas acompanhando os acontecimentos, e sim o governo repassava para as agências o que poderia ser noticiado, tanto que a população desconhecia quando o país começou a perder a guerra. (WALKER, 2004).
Em 25 de maio a ONU se pronuncia novamente com a Resolução 505, que será trabalhada no tópico seguinte. No dia 14 de junho a Guerra tem fim com o rendimento das forças argentinas após derrotas em batalhas e perda do domínio da Capital, Stanley. (BRITISH BROADCASTING CORPORATION – BBC, 2013b).
Ao final do conflito, a soma de soldados mortos também é contraditória, mas aproximadamente 650 soldados argentinos e 255 soldados britânicos perderam sua vida na disputa. (BRITISH BROADCASTING CORPORATION BRASIL– BBC, 2012).
A resposta rápida a invasão argentina foi altamente apoiada pela população britânica, levando assim a uma mudança de aceitação quanto ao governo, transformando a imagem da “Dama de Ferro” para algo muito mais positivo, conforme explicado no texto a seguir: “Raramente o Reino Unido foi tão unido como naqueles dias de abril de 1982. [...] Margaret Thatcher, que antes da guerra era uma das mais rejeitadas líderes de governo da história britânica, foi festejada como heroína.” (PHILIPP, 2013).
Para o líder argentino, o General Leopoldo Galtieri, as consequências da derrota da guerra foram avassaladoras. Obrigado a renunciar devido a um grande
aumento de revoltas populares que voltaram a acontecer após o conflito, Galtieri deixa um governo conturbado e obrigando a Junta Militar a iniciar o processo de devolução do país para os civis. (PHILIPP, 2013).
Galtieri só deixa o poder sob muita pressão da população dois dias após o início dos protestos, em 15 de junho de 1982 (24 de MARZO, 2013d) e é preso pela “incompetência” na guerra. (BRITISH BROADCASTING CORPORATION BRASIL– BBC, 2012). A princípio, resiste muito aos protestos como relatado no texto a seguir:
15 de Junho de 1982
Marcha e repressão depois da derrota
Logo após a rendição nas Malvinas, uma multidão se mobilizou para a Praça de Maio para repudiar a ditadura. A repressão é brutal. Alguns ministros apresentam suas renúncias, mas Galtieri, soberbo, as rejeita. (24
DE MARZO, 2013c, tradução nossa). 16
No tópico a seguir serão trabalhadas as declarações de Organizações Internacionais e a posição do Brasil, dos EUA e do Chile.
3.3 OS DEMAIS PAÍSES E AS ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS
Neste tópico será apresentada a posição dos demais países no conflito e das Organizações Internacionais. Os países em questões são: o Brasil, que apoiou a Argentina, e os EUA e o Chile que apoiaram o Reino Unido. As organizações estudadas serão a ONU, a Organização dos Estados Americanos (OEA) com o Tratado de Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Cada estudo será avaliado em tópico específico para melhor compreensão. Por fim, a análise teórica do realismo será apresentada como uma forma de interpretação do conflito.
16 Texto original: 15 de junio de 1982
Marcha y represión después de la derrota
Luego de la rendición en Malvinas, una multitud se movilizó a Plaza de Mayo para repudiar la dictadura. La represión es brutal. Algunos ministros presentan sus renuncias, pero Galtieri, soberbio, se las rechaza. (24 DE MARZO, 2013c)
3.3.1 Organizações Internacionais
Durante o conflito, mais organizações internacionais estavam envolvidas, ao contrário do que aconteceu antes, quando só a ONU se manifestou sobre o assunto. Neste tópico serão apresentadas suas declarações, a análise da não resposta dos países ao TIAR e a OTAN, que teve participação no conflito.
A ONU se pronunciou sobre o conflito duas vezes, com as resoluções 502 e 505 do Conselho de Segurança. A primeira resolução foi aprovada no dia seguinte à invasão das forças da Argentina, a segunda, no dia 26 de maio, quando o conflito já estava em andamento. A seguir, a resolução 502:
Resolução 502 (1982) 3 de abril de 1982
O Conselho de Segurança,
Rememorando a afirmação feita pelo Presidente do Conselho de Segurança na 2345ª reunião do Conselho em 1º de abril de 1982 chamando os Governos da Argentina e do Reino Unido da Grã Bretanha e da Irlanda do Norte para conterem-se do uso de ameaça de força na região das Ilhas Malvinas,
Profundamente perturbado com relatórios de uma invasão em 2 de abril de 1982 das forças da Argentina,
Determinando que existe uma violação da paz na região das Ilhas Malvinas, 1. Exige uma imediata cessão de hostilidades;
2. Exige imediata retirada de todas as forças argentinas das Malvinas 3. Convoca os Governos da Argentina e do Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda do Norte a procurar uma solução diplomática para suas diferenças e a respeitar completamente o propósito e os princípios da Carta das Nações Unidas.
Adotado na 2350ª reunião 10 votos a 1 (Panamá), com 4 abstenções (China, Polônia, Espanha e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).
(THE UNITED NATIONS, 1982a, tradução nossa). 17
17
Texto original: Resolution 502 (1982) of 3 April 1982. The Security Council,
Recalling the statement made by the President of the Security Council at the 2345th meeting of the Council on 1 April 1982 calling on the Governments of Argentina and the United Kingdom of Great Britain and Northern Ireland to refrain from the use of threat of force in region of the Falkland Islands (Islas Malvinas),
Deeply disturbed at reports of an invasion on 2 April 1982 by armed forces of Argentina,
Determining that there exists a breach of the peace in the region of the Falkland Islands (Islas Malvinas),
1. Demands an immediate cessation of hostilities;
2. Demands an immediate withdrawal of all Argentine forces from the Falkland Islands (Islas Malvinas);
3. Call on the Governments of Argentina and the United Kingdom of Great Britain and Northern Ireland to seek a diplomatic solution to their differences and to respect fully the purposes and principles of the Charter of the United Nations.
Adopted at the 2350th meeting by 10 votes to 1 (Panama), with 4 abstentions (China, Poland, Spain