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O REFERENDO E O DIREITO DE AUTODETERMINAÇÃO DOS POVOS

No documento O conflito das Ilhas Malvinas (páginas 51-54)

Em meados 2012 foi anunciado para o início do ano seguinte, 2013, o referendo sobre a soberania das ilhas. Realizado em março, o referendo é descrito como uma tentativa do Reino Unido de conter as crescentes reinvindicações da Argentina quanto ao retorno das negociações do território. (BUSTAMANTE, 2013).

Os motivos do referendo são justificados no site do governo britânico. Além do que foi descrito no parágrafo anterior, também é definido: “os habitantes terão uma voz mais efetiva internacionalmente, promovendo sua identidade cultural e defendendo seu direito de autodeterminação.” (THE UNITED KIGNDOM GOVERNMENT, 2013c, tradução nossa). 23

Questionados sobre sua vontade de permanecer sob soberania britânica, os 90% habitantes – alguns nativos e outros que lá vivem há um longo período de tempo, responderam de forma esmagadora a favor do Reino Unido, com um resultado de mais de 98% a favor de permanecer britânico. (BRITISH BROADCASTING CORPORATION BRASIL – BBC, 2012).

23 Texto original: The Islanders will have a more effective voice internationally, promoting their cultural

identity and making the case for their right to self-determination. (THE UNITED KIGNDOM GOVERNMENT, 2013c)

O resultado completamente favorável para o Reino Unido não é reconhecido legalmente pela Argentina, que alega ser um ato unilateral, e que independente de qual fosse o resultado já havia declarado anteriormente que esse não mudaria em nada a questão quanto às ilhas. (OPERA MUNDI, 2013a)

O Governo das Malvinas (FALKLAND ISLANDS GOVERNMENT, 2013f), em seu site, usa o argumento do direito de autodeterminação dos povos com a Carta da ONU, que no seu Artigo 1 afirma como um dos propósitos e princípios: “Desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no respeito ao princípio de igualdade de direitos e de autodeterminação dos povos [...]” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1945) e com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que em seu artigo XXI proclama sobre o direito de autodeterminação:

1. Toda pessoa tem o direito de tomar parte no governo de seu país, diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos. 2. Toda pessoa tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país. 3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1948).

O referendo foi realizado nos dias 10 e 11 de março de 2013, e o apoio da população foi muito grande, conforme apresentado a seguir nas Figuras 6 e 7.

Figura 6 – Criança assiste a desfile; Figura 7 – Habitante comemora ao votar.

Fonte: Bustamante (2013)

Nos dias da consulta popular houve desfiles nas ruas e as pessoas se vestiam a com as cores e algumas roupas que eram a bandeira do Reino Unido,

conforme demonstrado nas Figuras 6 e 7, onde é mostrado um menino está com o rosto pintado observando a passagem de um desfile e na segunda imagem, um kelper (como são chamados os habitantes pelos britânicos) comemora ao votar no Prédio da Prefeitura.

O argumento da Argentina contradiz o do Reino Unido, assim explicado: “Para a Argentina, um referendo sobre autodeterminação não pode aplicar-se a uma população que não foi colonizada e sim ‘implantada’ pelo Reino Unido nas ilhas já que os antigos habitantes foram expulsos.”. (OPERA MUNDI, 2013b).

No documento mencionado nos capítulos anteriores da Embaixada Argentina em Londres a explicação é ainda mais minuciosa, além de explicar o que foi dito no parágrafo anterior, ainda afirma que o direito de autodeterminação não é para qualquer comunidade, e sim para os povos, o que os atuais habitantes não são um povo. Expões que as ilhas se diferenciam de um caso clássico de colonialismo, pois o povo que estava lá, não foi dominado, e sim expulso, para ser trazida esta nova população. Por fim, afirma que os habitantes são britânicos, porém o território não. (EMBAJADA ARGENTINA LONDRES, 2013a).

O Governo das Malvinas declara que a sua população não é implantada. Que as imigrações para povoar as ilhas foram voluntárias, e que esta população esta assentada nas ilhas a quase 180 anos, comparando-se assim as populações da América do Sul, que também foram formadas por imigrações há um longo período de tempo. (FALKLAND ISLANDS GOVERNMENT, 2013g).

O governo britânico declara total apoio aos habitantes e afirma que eles são britânicos por assim escolherem ser. Novamente é usado o argumento da Carta das Nações Unidas. E esclarece que qualquer tentativa do governo argentino de ameaçar os habitantes das ilhas ou sua economia, não será bem sucedida. Que o governo do Reino Unido lamenta as atitudes dos argentinos de não terem interesse nas negociações pelas áreas de pesca e melhor relacionamento com as Malvinas. (THE UNITED KINGDOM GOVERNMENT, 2013b).

A Argentina também é acusada de, nos últimos anos, tentar coagir os malvinenses a se tornarem parte do território argentino através de intimidações quanto possíveis processos das empresas petrolíferas e ameaças quanto a licenças parar transporte até a ilha, como utilização de espaço aéreo e utilização de portos por navios que tinham as ilhas como destino. E, por fim, um dos pontos mais importantes desta declaração é que não haverá negociações sobre o assunto da

soberania das ilhas a não ser que e somente quando os habitantes das ilhas assim o desejarem. (THE UNITED KINGDOM GOVERNMENT, 2013b).

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner fez um pedido ao Papa Francisco para que ele interviesse na questão da disputa das ilhas. Porém o pontífice não se pronunciou sobre o assunto, e primeiro ministro do Reino Unido, David Cameron afirmou ainda que a população já deixou claro sua vontade, se mencionando o referendo. E que o Papa estava errado ao fazer uma declaração em 2012, antes de ser eleito, chamando de Usurpação Britânica o que ocorreu nas ilhas em 1833. (JONES, 2013).

No tópico a seguir serão trabalhadas as declarações dos demais países e de algumas Organizações Internacionais quanto à disputa.

4.3 POSIÇÃO DOS DEMAIS PAÍSES E DAS ORGANIZAÇÕES INTERNANCIONAIS

No documento O conflito das Ilhas Malvinas (páginas 51-54)