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Academic year: 2021

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parentalidade e as questões de gênero

Lisandra Espíndula Moreira - Psicóloga, mestranda do Programa de Pós-graduação de

Psicologia Social e Institucional da UFRGS.

Henrique Caetano Nardi - Professor do Departamento e do Mestrado em Psicologia Social e Institucional da UFRGS. Coordenador do Laboratório de Psicologia e Políticas Públicas

Endereço eletrônico: [email protected]

Eixo:3 - Gênero, sexualidade, etnia e geração

Nesse trabalho buscamos por meio de uma compreensão genealógica1 refletir sobre as implicações de gênero presentes no exercício da parentalidade. Entendemos esse conceito enquanto função parental, ou seja, o(s) adulto(s) que se responsabiliza(m) por organizar e prover as necessidades da criança que assume(m) como filho(a)2. O objetivo está em entender como o exercício dessa função torna-se generificado e quais as suas implicações para a parentalidade, entendida aqui como construída história e socialmente.

Além disso, tendo em vista o que podemos chamar de colagem histórica de conceitos como gênero, sexo e sexualidade, a generificação dessa função – mitificada através da maternidade - associa-se à matriz heterossexista. Dentro de tal cenário, colocaremos em questão tanto a mitificação da parentalidade feminina, através dos discursos direcionados

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Trabalhamos com a noção de genealogia com base nas teorizações de Foucault (1999), que propõe uma diferenciação em relação a uma abordagem puramente histórica. A história teria como objetivo a busca das “origens”, inserindo-se numa lógica linear. Em contraposição, uma abordagem genealógica possibilita constituir um saber histórico das lutas e ao invés da origem, busca a proveniência – conjunto de falhas, fissuras, acontecimentos e sua inscrição nos corpos – assim como o ponto de emergência – o surgimento como fruto de uma luta de forças, desnaturalizando sentidos.

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O vínculo que representa a relação entre as categorias de pais e filhos, como propõe Zambrano (2006) pode ser desdobrado em quatro elementos: 1) o vínculo biológico, dado pela concepção e origem genética; 2) o parentesco, vínculo que une dois indivíduos a uma genealogia, determinando o seu pertencimento a um grupo; 3) a filiação, reconhecimento jurídico desse pertencimento de acordo com as leis sociais do grupo em questão; 4) a parentalidade, o exercício da função parental, implicando cuidados com alimentação, vestuário, educação, saúde, etc. que se tecem no cotidiano em torno do parentesco. Nesse sentido, podemos pensar que o maior parte das possibilidades de ligação entre um adulto e uma criança é social. Sendo que tais elementos que compõem essa ligação podem aparecer combinados de diferentes formas, conforme as escolhas de uma determinada cultura em uma determinada época, estabelecendo pesos diferentes para cada um deles.

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às mulheres mães. Para pensar os limites desse discurso, problematizaremos a homoparentalidade enquanto um exercício “impensável” dessa função.

Nesse sentido o uso para esse trabalho do termo parentalidade também tem um efeito importante, tendo em vista que é a possibilidade de se referir a essa função sem especificar sexo, gênero ou sexualidade da pessoa que a desempenha, colocando em questão a dicotomia presente ao se falar em maternidade e paternidade. Segundo Uziel et all (2006) essa terminologia, apesar da pouca usualidade no cotidiano, foi estabelecida a partir do vocabulário francês (traduzida do original parentalité) com o intuito mesmo de evitar a generificação do termo, própria da língua portuguesa.

Por outro lado, se nos detemos no termo utilizado para a parentalidade feminina, ou seja, a maternidade, percebe-se que existem muitos sentidos associados especificamente a esse termo e que o diferencia da parentalidade masculina. A justificativa utilizada para tal diferenciação está relacionada com a questão biológica/natural de que somente as mulheres têm a capacidade de gerar uma criança. Nesse sentido, a anatomia feminina e a capacidade de gerar uma criança concederiam às mulheres as habilidades necessárias para o cuidado infantil, sendo essa a resposta pela responsabilização materna em relação aos cuidados infantis.

Esse debate em relação ao peso da biologia na questão das condições possíveis para as mulheres, tão estruturante do movimento feminista, que por vezes parece estar ultrapassado, com expressões tão emblemáticas como “não nascemos mulheres, nos tornamos mulheres” (Beauvoir, 1967), na questão da maternidade sempre retorna de alguma forma. Provavelmente pelo fato, ainda incontestável, de que só as mulheres podem “dar a luz”. No entanto, apesar dessa constatação que associamos à ordem natural, uma análise genealógica sobre a parentalidade feminina, ou seja, sobre os cuidados da mãe dispensados à criança, vemos que muito pouco permanece semelhante ao longo da história na forma como se exerce esse cuidado. Ou seja, as transformações e rupturas analisadas no

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modo como a maternidade se exerce, especificamente nas sociedades ocidentais, apontam para uma função construída historicamente e que reflete os modos de pensar e viver numa determinada época.

Uma análise clássica desses cuidados, dentro da perspectiva feminista, é o estudo de Badinter (1998) sobre a construção do amor materno. Analisando a França do século XVII e principalmente XVIII, período caracterizado pela prática materna de entregar os filhos às amas-de-leite e que se contrapõe às práticas atuais de cuidado materno. Ao analisar tal período, Badinter (1998) propõe o questionamento do amor materno, enquanto um sentimento feminino natural e universal, salientando que conforme a sociedade valorize ou deprecie a maternidade, a mulher será em maior ou menor medida uma “boa” mãe.

A autora mostra que o “amor materno” foi sendo construído no final do século XVIII, no cruzamento de três discursos: 1) econômico – que através da demografia mostrava a importância da população para um país; 2) filosófico – que através das idéias de igualdade e felicidade do Iluminismo favorecia-se o desenvolvimento do amor e da sua expressão; 3) dos intermediários - passando as mulheres a interlocutoras privilegiadas dos homens e elevadas ao nível de responsáveis pela nação, ao mesmo tempo objeto de súplica e acusação.

Partindo dessa análise podemos traçar um paralelo em relação a essa discursividade sobre a importância materna e a emergência da figura do Estado nas sociedades modernas. Ou seja, numa perspectiva mais ampla, essa ruptura com algumas práticas de cuidados e a construção de uma discursividade direcionada às mulheres, enquanto mães, caracteriza-se como um dos elementos que configuram historicamente o processo de gestão da vida, a biopolítica analisada por Foucault (1988), constituído pela sujeição dos corpos e controle das populações.

Com o passar dos anos, essa discursividade em torno da maternidade foi tomando novas formas e características específicas conforme o cenário local. Atualmente, pode-se

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analisar alguns movimentos que representam uma intensificação dos investimentos que têm como foco mulheres mãe no exercício de sua parentalidade. Tal movimento tem como base algumas transformações mais amplas que Meyer (2006) resume em quatro elementos: 1) a racionalidade neoliberal – pressupondo que os indivíduos têm o direito e o dever de manter, gerir e potencializar seu próprio bem-estar, portanto, a responsabilidade por gerar e criar filhos saudáveis passa a ser social e culturalmente definida como projeto de vida de cada mulher; 2) a globalização – que em conjunção com a racionalidade neoliberal atinge as mulheres de modo particular, ficando evidenciada a “feminização da pobreza”; 3) o desenvolvimento tecnocientífico – que, atravessado por uma verdade essencialista e universal a respeito da maternidade e do cuidado infantil, produzem instrumentos de controle e mensuração; 4) a multiplicação de sujeitos de direito – que visibiliza dilemas na noção de direitos universais quando fraturados entre direitos da mulher, direitos sexuais e reprodutivos, direito da criança e do adolescente e, em alguns países, também do feto.

Apesar das inovações tecnológicas e das conquistas dos movimentos feministas, não houve uma facilitação no exercício da parentalidade, mas uma complexificação dessa tarefa, tornando-a cada vez mais intensa e abrangente. A proliferação desses discursos acontece em diferentes instâncias da cultura que tratam de ensinar as mulheres a serem mães de acordo com um modelo. Dentre essas, algumas políticas públicas, como, por exemplo, a diferenciação entre a licença maternidade e paternidade, programas e políticas de educação da família como o Bolsa Família (programa nacional), o Primeira Infância Melhor - PIM (programa do estado do Rio Grande do Sul). Em conjunção com as políticas públicas, há uma grande difusão de prescrições e ensinamentos veiculados pela escola, pelo posto de saúde, pelas associações (Rotary, Lyons, clubes de mães) e centros comunitários, assim como há o papel da mídia que tem como fatia de mercado revistas direcionadas às mulheres mães outros manuais de cunho cientificista dirigidos ao grande

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público. O conjunto destes elementos interiores ao dispositivo propagam e legitimam os enunciados-verdades que definem e constituem a maternidade.

O programa Escola, por exemplo (que hoje faz parte do Programa Bolsa-Família), analisado por Klein (2005), tem como objetivo “sedimentar a educação como o direito mais essencial para a inclusão social, proporcionando suplementação mensal de renda às famílias que vivem em situação crítica de pobreza” (KLEIN, 2005), para que mantenham os filhos freqüentando a escola. Para tanto, posicionam as mulheres mães como figura central dessa política, incitando-as, quase que exclusivamente, a cuidar da sua saúde e da sua prole, amamentar segundo as regras atualmente vigentes ou até mesmo a responsabilizar-se integralmente pelo acompanhamento e fiscalização da educação das crianças.

Da mesma forma, o programa parece “naturalizar” a não participação do pai na vida familiar, assumindo e admitindo a ausência ou incapacidade do pai biológico no que se refere à educação dos filhos. Uma justificativa possível para essa forma de implantação da política pública pode estar relacionada com a interpretação estatística da população de baixa renda (foco do programa), que apresentaria um grande número de “famílias chefiadas por mulheres” ou “mulheres chefe de família” (conforme discussão de Fonseca, 2000). No entanto, a questão de gênero fica mais explícita quando, mesmo em famílias onde a mãe não está presente, privilegia-se outra figura feminina da família, evitando-se que seja direcionado ao pai (tanto os investimentos educativos quanto o auxílio financeiro). Reforça, dessa maneira, que essa função do cuidado só pode ou deve ser executada por mulheres.

A politização da parentalidade feminina pode ser pensada também como uma forma de controle e sujeição dessas mulheres a um modo de viver, tendo em vista que a discursividade em torno da maternidade:

Articula, explícita e intensamente, problemas sociais contemporâneos a certos modos de sentir e de viver a maternidade, permitindo descolar tais problemas dos contextos e processos sociais nos quais são gerados para vincular sua

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solução a determinados tipos de relação mãe-filho e ao exercício de uma dada forma de maternidade (MEYER, 2005).

Através dessa análise, fica evidente que a questão de gênero é essencial para o estudo da parentalidade, tendo em vista que os sujeitos são posicionados de forma bastante diferenciada no exercício dessa função conforme o sexo, gênero e sexualidade que lhe forem atribuídos. Conforme problematizado por Butler (2003), gênero passa a ser entendido como uma performance: “efeito de uma prática reguladora que busca uniformizar a identidade por via de uma heterossexualidade compulsória” (p.57); ou seja, a univocidade do sexo, a coerência interna do gênero e a estrutura binária para o sexo e gênero são consideradas ficções reguladoras que consolidam e naturalizam regimes de poder. Não existe uma substância ou identidade de gênero por trás das expressões de gênero. O que entendemos como gênero está constantemente sendo “constituído performativamente, pelas próprias expressões tidas como seus resultados” (BUTLER, 2003, p.16).

Nesse sentido pensar o exercício da parentalidade por casais homossexuais coloca em questão a necessidade de enquadrar essa prática também numa estrutura binária que seja inteligível. Como no caso das travestis e transexuais que, segundo Zambrano,

Por se sentirem mulheres, tanto travestis quanto transexuais consideram que as relações afetivo/sexuais com parceiros homens são hetero e não homossexuais. Com isso, os casais constituídos dessa forma são percebidos por elas como heterossexuais, contemplando as expectativas dos papéis de gênero intrafamiliares mais tradicionais...A sua posição de “mãe” é complementada pela posição de “pai” do companheiro. (p.138)

O exercício da parentalidade assumidamente através do modelo tradicionalmente associado à mulher, serve como uma forma de afirmação da sua feminilidade. Segundo Zambrano (2006) tanto travestis como transexuais, “enfatizam experiências anteriores de cuidados maternais legitimando essa capacidade parental materna, percebida por elas como instintiva” (p.139). Nesse sentido, a parentalidade exercida por travestis e transexuais parece, por um lado, colocar em questão o fator biológico associado a essa prática. No

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entanto, por outro lado, busca se afirmar possível através da reprodução dos papéis sociais atribuídos às mulheres enquanto mãe, mantendo assim o binarismo estrutural das relações de gênero.

Seguindo essa reflexão, é necessário colocar em questão a própria palavra “homoparentalidade” que tem sido utilizada para se referir a várias formas de exercício da parentalidade incluindo homossexuais, travestis e transexuais. Essa amplitude abarcada pelo conceito pode invisibilizar diferenças importantes na forma com que os sujeitos assumem essa função, como no exemplo citado acima.

Além disso, há outra ressalva importante quanto ao uso do termo homoparentalidade, conforme alerta Zambrano (2006), pois associa a “orientação sexual” (homoerótica) dos pais/mães ao cuidado dos filhos. Tal associação os próprios estudos sobre a homoparentalidade se propõem a desfazer, demonstrando que homens e mulheres homossexuais podem ser ou não bons pais/mães, da mesma forma que homens e mulheres heterossexuais. Nesse sentido, seria a capacidade de cuidar e a qualidade do relacionamento com os filhos o determinante da boa parentalidade, e não a orientação sexual dos pais. No entanto, nomear essa possibilidade de exercício da parentalidade, além de indicar uma realidade, faz com que adquira uma existência discursiva e coloca em questão a rigidez com que se pensa essa prática.

A própria noção de família merece uma importante reflexão, quando temos como pano de fundo um modelo esperado, quase sempre representado pela família nuclear. Mesmo já não sendo considerada a configuração familiar majoritária nem mesmo nas sociedades modernas ocidentais, esse modelo continua sendo dominante para efeitos de comparação com outras configurações familiares. Tal mecanismo, utilizado por algumas correntes da Psicologia do Desenvolvimento e até mesmo pela Psicanálise, produz uma norma como modelo de família, que regula não apenas a configuração familiar (família

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nuclear, pais heterossexuais casados e filhos), mas também as funções/papéis de cada indivíduo dentro dessa dinâmica.

Conforme Butler (2003) dentre os argumentos contrários ao exercício da homoparentalidade está a idéia, inspirada nas teorizações lacanianas, de que a ordem simbólica, conjunto de regras que ordenam e apóiam nossos sentidos de realidade e de inteligibilidade cultural, se instala através do ponto de referência dual. Haveria, assim, uma convicção de que a cultura teria uma transmissão segura através da procriação e parentalidade heterossexual. Mas o que é posto em dúvida é “se a heterossexualidade servirá não somente aos propósitos de transmitir a cultura, ou se a cultura será definida, em parte, como prerrogativa da própria heterossexualidade” (Butler, 2003, p.252). Nesse sentido, é necessário tratar as regras de parentesco, assim como a cultura como noções que estão mergulhadas em relações de poder, que não são redutíveis a regras. Nessa reflexão, a criança figura como:

Um lugar denso para a transferência e a reprodução da cultura, onde ‘cultura’ traz consigo normas implícitas de pureza racial e dominação... O termo cultura invocado para designar não as várias formações culturais da vida humana, mas as condições universais de inteligibilidade humana (Butler, 2003, p.233).

A reflexão sobre a homoparentalidade é utilizada não para dizer que essa forma de parentalidade também é possível, incluindo assim também dentro da norma, mas no sentido de entender melhor os mecanismos que pressupõem um arranjo específico entre sexo, gênero e sexualidade para o exercício dessa função. Essa reflexão possibilita colocar em questão tais mecanismos, tendo em vista que um dos seus produtos é a transformação dessas parentalidades que fogem a prescrições em “impensáveis”, na tentativa de excluí-las da possibilidade de existência e do reconhecimento social. O próprio reconhecimento passa a ser um esforço de negação do que existe.

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Essa passa a ser uma questão importante nas reivindicações do movimento homossexual3 que busca o reconhecimento social, tendo em vista que Segundo Uziel, et all (2006), na maioria das vezes, a discussão sobre a parentalidade é citada dentro das reivindicações sobre a união civil por pessoas do mesmo sexo e quase sempre serve como um argumento negativo para essa reivindicação.

Nas entrelinhas, uma discussão sobre o que é e deve ser uma família, e quais são os limites toleráveis para a composição dessa instituição. É exatamente nesse contorno que a discussão se situa, visto ser essa a dificuldade central para a incorporação social e legal das uniões entre pessoas do mesmo sexo: integrar esse universo reconhecido como família. (UZIEL, 2006, p.206).

Uma alternativa encontrada pelo movimento para essa questão, como coloca Grossi (2003), é separar explicitamente a união civil da parentalidade, excluindo a questão da adoção do texto do projeto apresentado, na tentativa de facilitar a aprovação. O que se imagina é que mesmo não sendo prevista a adoção no projeto de parceria civil, em qualquer processo de adoção a orientação sexual da pessoa que quer adotar não deveria entrar em questão como um impeditivo, o que nem sempre acontece no âmbito jurídico. Além disso, nesse caso, se os adotantes forem um casal homossexual a adoção não acontecerá em conjunto, o que pode trazer problemas na questão da guarda da criança caso haja morte daquele que assumiu oficialmente a adoção.

Nessa discussão, a busca por reconhecimento do Estado tanto para a união conjugal quanto para a parentalidade, levanta muitas questões, pois confere ao Estado o poder de dar ou negar reconhecimento a formas de alianças sexuais e parentais. Como coloca Butler (2003) “o Estado se torna o meio pelo qual uma fantasia se torna literal; desejo e sexualidade são despossuídos e deslocados... não são mais assuntos privados, conduzindo a um reconhecimento universal” (p.234). Tal reconhecimento garante alguns direitos que afetam de forma direta os modos possíveis de viver a conjugalidade e a parentalidade, impedindo ou produzindo maneiras específicas para essa prática.

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No entendimento dessa questão dentro do movimento homossexual, chama atenção uma característica encontrada por Uziel (2006), que apesar dos projetos possíveis e já concretizados de parentalidade, acompanhados pelos movimentos, essa não parece ser uma questão que deva ser levantada como uma bandeira para o movimento. Alguns grupos atribuem essa evitação em tornar pública essa questão

exatamente pela tentativa de restringir ao âmbito privado, buscando se protegerem e protegerem seus filhos do preconceito da sociedade.

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Numa análise mais crítica sobre essa forma de estudar e produzir a família na realidade social pode-se pensar que esse discurso sobre a família representa uma questão política que se produz e é produzida pela matriz heterossexista, tendo em vista tanto as políticas públicas que são direcionadas à população através da família e que efetivamente posicionam de forma diferenciada os sujeitos conforme o sexo, quanto à necessidade de buscar o reconhecimento do Estado no caso de famílias homoparentais. Nesse sentido, “a família”, caracterizada por um modelo que estabelece e diferencia relações que passam a ser mais ou menos adequadas conforme a sua proximidade ou não com esse modelo, é utilizada como um meio de mediar a relação de cidadania. Mesmo que alguns arranjos familiares aconteçam diferentemente das prescrições e das determinações do Estado, as famílias que se encontram nessas posições são pensadas em relação a esse modelo, tendo restrições ou produzindo outras formas de viver.

Referências Bibliográficas

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