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CARNEIRO, M. B.
FERNANDO CORREIA. “AMÉRICO BOAVIDA. TEMPO E MEMÓRIA, 1923-1968”. 2.ª EDIÇÃO. LISBOA: MERCADO DE LETRAS EDITORES, 2015, 382 PÁGINAS.
Carlos Alberto Alves 1
A primeira edição deste livro foi publicada em 2009, pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD), em Luanda, mas, com o passar do tempo, o autor sentiu necessidade de realizar algumas alterações, dando origem a uma nova edição, em 2015. Esta segunda edição conta com o prefácio de Maria da Conceição Neto, investigadora e professora de História na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, que destaca, desde logo, o facto de a biografia de Américo Boavida “poder criar um renovado interesse pelo género biográfico (...) nas jovens gerações de historiadores angolanos” (p. 15). Na verdade, trata-se de uma iniciativa que contribui para a história política contemporânea de Angola e de Portugal. Espero, entretanto, que esta obra seja um exemplo para que, doravante, possam surgir investigações sobre outras histórias de vida de militantes de outros movimentos de libertação que lutaram pela independência política de Angola.
Neste livro, com seis capítulos, o historiador angolano Fernando Correia dá a conhecer aos leitores a história de vida de Américo Boavida (1923-1968), médico, diplomata e guerrilheiro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), nascido em Luanda, na Ingombota.
O primeiro capítulo – “As Origens” (pp. 31-52) – trata do progenitor do biografado, Joaquim Fernandes Alves Boavida, natural de Xi Bilene, Madragoa (aldeia de Moçambique), que, por razões políticas, fixou residência, na década de 1920, em Luanda, cidade onde exerceu a profissão de enfermeiro. Aí casou com Acília Van-Dúnem de Assis, filha de António de Assis Júnior (1887-1960). Este último foi jornalista e
1 Doutor em Identidades, Práticas e Representações do Mundo Contemporâneo, especialidade em História
Política e Relações Internacionais pela Universidade de Coimbra. É professor na ilha de S. Vicente, Min-delo, Cabo Verde, África Ocidental.
advogado provisionado, natural de Luanda, tendo sido preso em 1917 e em 1927 por envolvimento em causas políticas, nomeadamente na defesa das populações nos litígios de expropriação de terrenos, o que originou o seu desterro, em 1950, para Lisboa, cidade portuguesa onde fixou residência e onde viria a falecer dez anos depois. Do casamento entre Joaquim Boavida e Acília Van-Dúnem nasceram dois filhos: Américo Boavida e Diógenes Boavida (1927-2012). Este foi o primeiro angolano a desempenhar o cargo de ministro da Justiça na República Popular de Angola (RPA), proclamada pelo MPLA em 11 de novembro de 1975, tendo sido o Brasil um dos primeiros países a reconhecer a RPA logo após a sua proclamação.
O segundo capítulo – “Angola” (pp. 53-108) – destaca a política colonial do Estado Novo e o percurso de Américo Boavida desde a infância até à idade adulta, bem como os seus estudos de Medicina na Universidade do Porto (1945-1952), cidade onde foi atleta do Futebol Clube do Porto, numa fase em que a manutenção e a defesa do Império Colonial é vital para o Estado Novo português, que teme o discurso anticolonialista e democrático. Além de anticomunista, o Estado Novo era também antidemocrata e antiliberal, temas que deviam ter sido aprofundados por Fernando Correia, assim como a influência do comunismo em África, sobretudo entre os assimilados. Este assunto devia ter sido tratado com maior profundidade pelo autor, quando aborda a questão relacionada com o Império Colonial Português, com o papel do futebol e do desporto, em geral, e do atletismo, em particular, na promoção dos assimilados, provenientes de zonas rurais, onde foram educados por missionários católicos (pelo clero secular e por congregações religiosas) e protestantes (batistas, metodistas, congregacionalistas, entre outros), tema pouco aprofundado neste livro. Na verdade, os assimilados rurais não tinham quase nenhuma ligação com a elite urbana e assimilada luandense. Em conjunto, fizeram parte do grupo que depois viria a integrar os movimentos pró-independência política de Angola, recusando a “transformação de Angola num novo Brasil”, porque “a ideia de uma comunidade lusíada não os seduzia minimamente” (p. 72). Desde 1950 – na mesma década em que Américo Boavida conclui o curso de Medicina, depois o estágio em Ginecologia/Obstetrícia em Barcelona, e trabalha como médico em Luanda (1955-1960) – que emergem grupos panfletários pró-independência de Angola. Destes grupos faziam parte assimilados (entre os quais alguns católicos e protestantes) e alguns portugueses que viviam em Luanda, numa altura em que era patente uma corrente reformista no Estado Novo em matéria política, económica
e colonial, tema este que devia ter sido tratado nesta obra, tendo em conta a ação do movimento anticolonial angolano, quer no interior quer no exterior de Angola. Entretanto, Américo Boavida, para não ser preso pela PIDE, autorizada a estabelecer-se em Angola pelo Decreto-Lei n.º 39749, de 09/08/1954, foge de Luanda entre os dias 6 e 7 de junho de 1960. No dia 8 de junho de 1960, é preso o médico Agostinho Neto (1922-1979), que será deportado para Cabo Verde.
O terceiro capítulo – “Vida de Peregrino e de Abismos” (pp. 109-142) – trata do exílio, iniciado em 1960, que levou Américo Boavida a percorrer alguns países e cidades da Europa (Lisboa, Barcelona, Londres, Paris, Estocolmo e Praga) e de África (Guiné-Conacri, Congo-Kinshasa e Marrocos). Naquele ano de 1960, alguns senadores democráticos dos Estados Unidos visitaram o continente africano, tendo aconselhado o apoio ao nacionalismo africano, uma vez que a União Soviética atuava em África, de forma a serem salvaguardados os interesses norte-americanos. Na verdade, o contacto dos Estados Unidos com os nacionalistas africanos foi um ponto de fricção entre Portugal e os Estados Unidos entre 1961-1962, altura em que Américo Boavida foi membro do Departamento das Relações Exteriores (DRE), da Comissão Política da 1.ª Conferência Nacional, e do Comité Político do MPLA, no Congo-Kinshasa, além de presidente do Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados (CVAAR), “idealizado por Viriato da Cruz [1928-1973]” (p. 115), mas aberto por “Américo Boavida e o Eduardo [Macedo] dos Santos” (p. 260), tendo contado com a colaboração dos médicos Kassessa, Vieira Lopes, Edmundo Rocha, Rui de Carvalho, Boal e Traça.
Américo Boavida e Maria Boavida (1923-2016), que com ele casou em 1958, viveram em Marrocos, entre 1964-1966, ele trabalhando no Hospital Avicene e ela como administrativa no Ministério da Educação de Marrocos. O pensamento político-diplomático de Américo Boavida em prol da independência de Angola está contido em jornais e na edição, em língua francesa, do livro Angola: Cinq Siècles de Parasitisme
Colonial, em 1966, com prefácio de Abdel Aziz Belal, docente da Faculdade de Direito
de Rabat. Esta edição “foi mais ou menos clandestina, não foi vendida, mas distribuída por vários centros e bibliotecas do país [Marrocos]” (p. 270). A edição portuguesa,
Angola: Cinco Séculos de Exploração Portuguesa, com prefácio de Miguel Urbano
Rodrigues, membro do Partido Comunista Português (PCP), foi publicada em 1967 pela Editora Civilização, em S. Paulo, Brasil, com o apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e o seu lançamento contou com a presença do embaixador argelino, Hafid
Keramam, bem como de apoiantes e simpatizantes do PCP e do PCB. O livro foi também publicado na República Federal da Alemanha, em 1970, pela Edition Suhrkamp; no Canadá, em 1972, com o patrocínio do Liberation Support Movement; e na RPA, em 1981, pela União dos Escritores Angolanos.
No capítulo quarto – “III Região Político-Militar do MPLA” (pp. 143-194) – é analisada a situação político-militar e a ação militar dos guerrilheiros do MPLA na Frente Leste, que compreendia a região político-militar da Lunda (IV Região Político-Militar) e do Moxico (III Região), no Mwié, onde Américo Boavida veio a falecer no dia 25 de setembro de 1968, durante “um ataque das tropas portuguesas” (p. 287). A permanência do casal em Marrocos necessita de mais investigação histórica e aprofundamento para perceber melhor as razões e as causas dessa presença naquele país africano, tal como a ida de Américo Boavida para a Frente Leste como responsável do Serviço de Assistência Médica (SAME) que atuava no Moxico.
O capítulo quinto – “Epílogo” (pp. 195-200) – devia ter sido integrado no final do capítulo quarto.
O capítulo sexto – “Entrevistas” (pp. 201-288) – reproduz, na íntegra, algumas entrevistas que serviram de base para a elaboração da biografia, nomeadamente as realizadas aos médicos Edmundo Rocha e João Vieira Lopes (1932-2013), que colaboraram com Américo Boavida no CVAAR; a Maria da Conceição Boavida, natural de Bragança, Portugal, que viveu em Luanda (1950-1960), depois exilada com o marido (1960-1968), e novamente em Luanda (1975-2016); a entrevista realizada a Paulo Teixeira Jorge (1934-2010), que também privou com o biografado. Deviam ter sido igualmente publicadas as entrevistas citadas em alguns capítulos da biografia, designadamente as realizadas aos portugueses Adriano Moreira, João Luz da Palma, Paulo Oliveira e Silvino Silvério Marques, e aos angolanos Julião Mateus Paulo (Dino Matross) e Justino Frederico Katuya (Mwihula).
Se, por um lado, a história de vida de Américo Boavida carece de suporte teórico sobre tempo, memória e história, por outro lado, é rica em fontes orais e documentais, reunindo bastante informação que era pouco conhecida, mas que não foi analisada com a profundidade necessária e espírito crítico, provavelmente porque o autor não teve tempo, ingrediente fundamental para a história. O livro destaca as fontes documentais consultadas nos arquivos em Portugal (pp. 289-302) e o anexo (pp. 305-382) reproduz as gravuras de Albano Neves e Sousa (1921-1995) sobre Luanda, fotografias
disponibilizadas por Maria Boavida, pelo Arquivo Histórico Militar (AHM), em Lisboa, pelo Arquivo Histórico da Universidade do Porto (AHUNP), pelo Arquivo da Polícia Internacional de Defesa do Estado/Direção-Geral de Segurança (PIDE/DGS) e pelo Arquivo da Associação Tchiweka de Documentação (ATD), em Luanda, com documentação de Lúcio Lara (1929-2016), assim como fotografias cedidas por António Eduardo Correia (Passitos).
Data de recebimento e aprovação
Recebido: 18/04/2016Received: 18/04/2016
Aprovado: 20/09/2016