Direito Internacional
Privado
Joyce Lira
PARTE I
2) Direito Internacional Privado: reflexões sobre o Brasil. Aula 5 – Codificações e Brasil.
a) Codificações nas Américas
“Os esforços para a codificação do DIPr nas Américas por meio de convenções têm duas raízes históricas diferentes. Uma remonta aos primeiros congressos da América espanhola que visaram à defesa da independência frente às potências européias e à consolidação dos princípios do direito internacional
destinados a regular as relações mútuas entre as novas repúblicas. A outra
tem sua origem na tradição européia e nos pensamentos dos grandes internacionalistas do velho mundo que projetaram uma codificação global do direito internacional para regular o convívio pacífico das nações.” Jürgen Samtleben
- Alteração do DIPr as Américas:
Organização dos Estados Americanos – OEA (atividade internacional) e o trabalho das CIDIPs (Conferências Interamericanas de Direito Internacional Privado);
iniciativas do Mercosul com repercussão no DIPr;
reforma da legislação interna de DIPr em alguns países.
- Meados do século XIX: acolhida na América Latina, numa tentativa de uniformizar toda a matéria através de grandes codificações.
- Andrés Bello: primeiro estudioso do Direito Internacional Privado na América Latina que, em seu livro Principios de Derecho das Gentes, 1832, adotou extremado territorialismo.
- Territorialismo (Bello): “as leis de cada Estado regiam todos os assuntos que se desenvolviam no território do país, e ainda se estendiam aos atos realizados no estrangeiro, sempre que houvesse alguma conexão pessoal ou territorial com o próprio Estado.” (Nadia de Araujo)
- América Latina e papel de vanguarda na unificação do DIPr: adoção das ideias de Mancini no século XIX.
- Peru (1875): circular-convite conclamando os demais governos a se reunirem em um congresso de jurisconsultos, com o objetivo de harmonizar as legislações dos diversos países.
- Conferência de Lima (1877-78): Tratado de Lima (regras uniformes em matéria de DIPr). Ex.: adotou o critério da nacionalidade para reger o estado e a capacidade das pessoas (o domicílio variável ou estabelecimento da pessoa fora do país de nascimento não faz perder seu caráter de estrangeiro).
- “O tratado teve pouca aceitação por causa de sua opção pelo critério da nacionalidade, especialmente porque o domiciliar era o mais usado pela maioria dos países presentes.” (Nadia de Araujo)
- Gonzalo Ramirez: jurista e professor uruguaio, partidário do princípio do domicílio, e que elaborou, em 1897, um outro projeto de código de DIPr.
- Congresso de Montevidéu (1889/90): uma iniciativa de uniformização da Argentina e do Uruguai, que resultou em oito tratados em diversas áreas, especialmente no Direito Civil Internacional. O Brasil compareceu à conferência, e também as delegações da Bolívia, Chile, Paraguai e Peru.
- Domingos de Andrade Figueira (delegado do Brasil): discordou das conclusões da conferência, em especial quanto ao tratado de Direito Civil Internacional (incompatibilidade de regras sobre o estatuto pessoal – nacionalidade, nas regras brasileiras; domicílio, nas regras do Tratado).
- Revisão dos Tratados de 1889 (1939 e 1940): Segundo Congresso Sul-americano de Derecho Internacional Privado de Montevidéu, tendo como resultado o Tratado de Direito Civil Internacional de Montevidéu, de 1940, ainda hoje em vigor na Argentina, no Uruguai e no Paraguai.
- Brasil: estava presente, mas não aprovou o Tratado, por três razões:
adoção do critério do domicílio para reger o estatuto pessoal, enquanto o Brasil adotava o critério da nacionalidade;
adoção da lei do local da execução para reger as obrigações, enquanto éramos partidários do sistema do local da celebração;
divergência em matéria de sucessões, tendo o tratado adotado o critério da pluralidade sucessória enquanto o Brasil filiava-se à corrente universalista.
Obs: sucessão – indivíduo brasileiro que reside em outro país e lá falece, ou deixa bens em outro país – interesse de DIPr.
- 1ª Conferência Pan-Americana (Washington, 1889): Depois da 2ª Reunião de 1901, a 3ª Reunião ocorreu no Rio de Janeiro, em 1906. Para sediar o evento, foi construído o Palácio Monroe.
- Movimento codificador americano: formação da Comissão Internacional de Jurisconsultos, embrião do atual órgão da OEA, a Comissão Jurídica Interamericana, sediada no Rio de Janeiro.
- Reunião da Comissão de Jurisconsultos (Rio de Janeiro, 1912): formação de sub-comissões para proceder à análise dos projetos de dois códigos - Direito Internacional Público (Epitácio Pessoa) e Direito Internacional Privado (Lafayette Rodrigues Pereira). Baixa repercussão dos projetos e abandono deles em razão da 1ª Guerra Mundial.
- Reuniões retomadas em 1927 (Rio de Janeiro): apresentação do Projeto do Código Bustamante.
- Código Bustamante: fruto da reunião realizada em Havana, em 1928. Foi incorporado ao direito brasileiro em 1932, estando vigente ainda em outros quatorze Estados. Pouco conhecida e pouco usada pelos tribunais. No Brasil, foi utilizada também como fonte para os países não signatários, servindo para suprir lacunas da legislação interna.
- Fase posterior (OEA, anos cinquenta): atualização dos tratados existentes na América Latina, com vistas à integração econômica latinoamericana. Aproximação da metodologia utilizada pela Conferência de Haia (diplomas setoriais e temáticos).
- Convocação da primeira Conferência Especializada Interamericana sobre Direito Internacional Privado pela Assembleia Geral da OEA (1971): Até hoje, sete conferências foram realizadas (Conferências Interamericanas Especializadas sobre o Direito Internacional Privado, chamadas de CIDIPs, números I, II, III, IV, V, VI e VII), e em todas elas foi adotada a metodologia de reuniões técnicas setoriais, com aprovação de várias convenções.
- CIDIP I (Panamá, 1975): primeiro passo para a renovação do movimento uniformizador latinoamericano.
Objetivo principal: desenvolver uma estrutura jurídica adequada em matéria comercial, para estimular o desenvolvimento dos processos de integração regional, (aprovação de oito convenções sobre os mais diversos tópicos, dos quais destacam-se a arbitragem comercial e as cartas rogatórias).
- CIDIP II (Montevidéu, 1979): continuidade à trajetória iniciada no Panamá nas áreas de Direito Comercial e Direito Processual Internacional.
Importância: elaboração da Convenção sobre Normas Gerais de Direito Internacional Privado, que regula a base do sistema conflitual interamericano, sendo uma convenção única no seu gênero.
- CIDIP III (La Paz, 1984): aprovadas quatro convenções.
recomendações para futuros estudos na área de menores e para que no campo de compra e venda internacional se ratificasse a Convenção de Viena da UNCITRAL.
- CIDIP IV (Montevidéu, 1989): adoção de três convenções abarcando os temas da restituição internacional de menores, dos alimentos e do transporte internacional de mercadorias.
Recomendação para a convocação da CIDIP V, com objetivo de continuar os trabalhos, especialmente na área dos contratos internacionais, assunto sobre o qual foram aprovados apenas os princípios gerais, visto que não houve tempo hábil para discutir uma convenção.
-CIDIP V (Cidade do México, 1994): aprovadas duas convenções - a primeira, sobre contratação internacional; e a segunda, sobre os aspectos civis e penais do tráfico de menores.
Convenção sobre contratação internacional representou grande avanço no continente por conta da adoção do princípio da autonomia da vontade e, subsidiariamente, a regra de conexão dos vínculos mais estreitos. Só foi ratificada por dois países (México e Venezuela).
- CIDIP VI (Washington, 2002): Aprovação de uma Lei-Modelo Interamericana sobre Garantias Mobiliárias e dois documentos uniformes para o transporte rodoviário.
Relevância: Bastante inovadora em relação à metodologia utilizada pelas conferências anteriores, que executavam a uniformização através de convenções internacionais de conflitos de leis, pois optou pela técnica de Lei-Modelo, ou seja, pela uniformização do direito material, mas de caráter não-vinculante. O documento único de transporte é, também, um exemplo de verdadeira unificação (ideia de utilização em todos os países do continente, para os transportes rodoviários).
- Aproximação dos sistemas jurídicos (civil law e common law) na América e uniformização de regras
- “O método utilizado nas convenções pode ser chamado de misto, pois conta com normas não só conflituais, como também substantivas, promovendo a uniformização de algumas normas de direito material dos países latino-americanos.” (Nadia de Araujo)
- Outras características das convenções originadas das CIDIPs: concepção universal;
permissão para reservas apenas de caráter especial
inserção de cláusulas de interpretação para a sua futura aplicação pelos juízes nacionais
adoção de método de trabalho similar à Conferência da Haia de Direito Internacional Privado com a elaboração de convenções sobre temas específicos, em vez de um código abrangente
método de trabalho que favorece a uniformização do DIPr
- CIDIP VII ( 2003 início – Parte I em Washington): acompanhou a nova metodologia de trabalho do CIDIP VI, com a elaboração de uma lei modelo.
- Direito do Consumidor: área pouco regulamentada no DIPr. Por isso, foi incluída como tema de interesse da CIDIP VII, ao lado da questão dos registros eletrônicos.
- Direito do consumidor: “o Brasil apresentou um projeto de Convenção de lei aplicável aos contratos internacionais com os consumidores, de autoria da Professora Claudia Lima Marques. No entanto, em sessão plenária de 09.10.2009, a CIDIP VII avançou apenas no tópico relacionado a registros eletrônicos, tendo aprovado um Regulamento Modelo para Registro, regulamentando a Lei Modelo Interamericana sobre Garantias Mobiliárias aprovada na CIDIP VI. O tópico de proteção ao consumidor não avançou.” (Nadia de Araujo)
- Avanços promovidos pelas CIDIPs: novo formato de codificação, com normas de DIPr materiais; normas flexíveis; normas alternativas e normas narrativas.
- Exemplos de regra material:
Convenção sobre o Regime Legal das Procurações para serem utilizadas no exterior, de 1975 (cria formalidades próprias às procurações internacionais);
Convenção sobre Conflitos de Leis em Matéria de Sociedades Mercantis (define o que seja “lei do lugar de sua constituição” – art. 2º)
- Exemplo de norma de caráter material:
Convenção Interamericana sobre Restituição de Menores de 1989 (art. 3º) - define o que seja o direito de custódia e o direito de visita.
- Exemplo de regra alternativa:
Convenção sobre Obrigação Alimentar de 1989 – a lei aplicável será aquela que for mais favorável ao credor, em busca do objetivo maior, que é o de assegurar a efetivação da obrigação alimentar (art. 6º).
- Exemplo de norma de caráter alternativo:
Interamericana sobre Conflito de Leis em Matéria de Adoção, de 1984 (art. 4º) – em regra, questões como a capacidade e outros requisitos pessoais do adotante serão regidos pela lei do seu domicílio. Entretanto, se a lei da residência habitual do adotado tiver requisitos mais rígidos, esta é que deverá ser aplicada, em benefício do adotado (finalidade é a proteção do menor).
- Exemplos de normas narrativas (importante avanço na codificação interamericana): Convenção Interamericana sobre Restituição de Menores de 1989 (art. 1º) - define como objetivo maior da convenção assegurar a pronta restituição dos menores ao país de sua residência habitual, que tenham sido transportados ilegalmente para outro país.
Convenção sobre Obrigação Alimentar de 1989 – determinação de que “toda pessoa tem direito a receber alimentos sem distinção de nacionalidade, raça, sexo, religião, filiação, origem, situação migratória ou qualquer outro tipo de discriminação” (Art. 4º).
Convenção sobre o Tráfico Internacional de Menores, de 1994 (art. 1º) -estabelece como seu objetivo a proteção dos direitos fundamentais e dos interesses superiores do menor, devendo os Estados garantir a proteção do menor, sempre levando em conta seus interesses superiores, e assegurar sua pronta restituição.
- Importância das normas narrativas (Erik Jayme) – dupla função: regulamentar determinados casos e permitir a criação de uma ordem de valores, pela qual podem ser medidas pelas jurisdições nacionais.
- Problemas atuais: baixa aplicação efetiva das normas de DIPr oriundas dos trabalhos das CIDIPs e OEA. No Brasil, aponta-se como bem efetiva a Convenção Interamericana sobre Cartas Rogatórias (muito utilizada pelo STJ).
b) Codificação no Mercosul
“O Mercosul é uma organização intergovernamental e, ao contrário da União Européia, não possui instituições dotadas de supranacionalidade. Atingiu até agora o estágio de união aduaneira imperfeita.” (Nadia de Araujo)
- Força das decisões de seus órgãos: precisam valer-se do processo tradicional do Direito Internacional Público de incorporação de tratados internacionais.
- Três maneiras de solucionar controvérsias no Mercosul:
1ª) a via institucional, quando o litígio é entre os Estados, através da arbitragem regulada pelo Protocolo de Olivos;
2ª) a via judicial, quando está em questão a utilização e interpretação de uma norma do Mercosul já incorporada, quando os interesses são privados;
3ª) a via arbitral, quando os interesses privados são resolvidos pela arbitragem comercial.
- A maioria dos protocolos ligados ao DIPr incluem-se na parte relativa ao conflito de jurisdições e à cooperação internacional.
- Protocolos que contêm normas destinadas a resolver conflitos de leis no sentido amplo (incluindo-se a cooperação jurídica internacional):
o Protocolo de Las Leñas, sobre cooperação e assistência em matéria civil, comercial, trabalhista e administrativa;
o Protocolo de Ouro Preto sobre medidas cautelares;
o Protocolo de São Luiz, sobre matéria de responsabilidade civil emergente de acidentes de trânsito;
o Protocolo de Buenos Aires sobre jurisdição internacional em matéria contratual; o Protocolo de Santa Maria, sobre a jurisdição internacional em matéria de consumo;
- Protocolo de Las Leñas: jurisprudência no STF e posteriormente no STJ.
- Este Protocolo permite que decisões estrangeiras sejam enviadas diretamente ao país para cumprimento por meio de cartas rogatórias (o que ocorre somente após o exequatur pelo STJ, após a EC nº45/2004).
- O STF, enquanto ainda competente, era contrário à ideia de concessão de exequatur por meio de carta rogatória.
“O entendimento do STF começou a mudar a partir da década de 90, máxime quando o Brasil ratificou alguns tratados internacionais de cooperação interjurisdicional, como é o caso do Protocolo de Las Leñas, no âmbito do Mercosul. Vide: (…) A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal orienta-se no sentido de considerar insuscetíveis de cumprimento, no Brasil, as cartas rogatórias passivas revestidas de caráter executório, ressalvadas aquelas expedidas com fundamento em atos e convenções internacionais de cooperação interjurisdicional, como o Protocolo de Las Leñas (STF. Decisão na CR 7.913, Relator Ministro Celso de Mello. Publicada no DJ de 11.09.1999)” Lucas Cavalcante de Lima.
Ex.: DESPACHO (Presidente do STF): O Juiz do Tribunal Coletivo de Instância Única da 2ª Vara de Família da Comarca Judiciária de San Martin, Província de Buenos Aires, Argentina, roga a seguinte
diligência: "... a inscrição da sentença proferida neste processo quanto ao Casamento contraído no Ofício do Registro Civil das Pessoas Naturais 13º Subdistrito BUTANTA
-República Federativa do Brasil - Estado de São Paulo - transcrito no Livro 87, fls. 161, Termo nº 1002, do 12 de agosto de 1976, do Tabelião Titular do Registro Civil, Bacharel Benedicto Antonio Dufrayer Silva, entre os nubentes JUAN CARLOS FUNES e EGLE APARECIDA MAMEDE..." (fl. 09). O PGR opinou pela concessão do exequatur, nestes termos: "... verifica-se que a rogatória em questão se ajusta aos termos do Protocolo de Las Lenãs, assinado entre os Governos do Brasil, da Argentina, do Paraguai e do Uruguai e promulgado pelo Decreto nº 2.067, de 12 de novembro de 1996, que em seu artigo 19 prevê a execução de sentenças por carta rogatória. Assim, como não há nenhum motivo de impugnação, o Ministério Público Federal opina pela concessão da ordem. ..." (fl. 39). O objeto desta
carta rogatória não atenta contra a soberania nacional ou a ordem pública. Ante o exposto, concedo o exequatur (art. 225, RISTF). Encaminhem-se os autos à Justiça Federal no Estado de
São Paulo para as providências cabíveis. Publique-se. Brasília, 10 de novembro de 2004. Ministro NELSON JOBIM Presidente. (CR 11722, Relator(a): Min. PRESIDENTE, Decisão Proferida pelo(a) Ministro(a) NELSON JOBIM, julgado em 10/11/2004, publicado em DJ 22/11/2004 PP-00026)
- Permissão expressa para concessão do exequatur para medidas de caráter executório na Resolução nº 9/2005 do STJ, sua importância foi reduzida.
Art. 2º É atribuição do Presidente homologar sentenças estrangeiras e conceder exequatur a cartas rogatórias, ressalvado o disposto no artigo 9º desta Resolução. Art. 3º A homologação de sentença estrangeira será requerida pela parte interessada, devendo a petição inicial conter as indicações constantes da lei processual, e ser instruída com a certidão ou cópia autêntica do texto integral da sentença estrangeira e com outros documentos indispensáveis, devidamente traduzidos e autenticados.
Art. 4º A sentença estrangeira não terá eficácia no Brasil sem a prévia homologação pelo Superior Tribunal de Justiça ou por seu Presidente.
- O Acordo de Arbitragem Comercial Internacional do Mercosul (1998): Conselho do Mercado Comum – Decisão CMC 3/98 (assim como o equivalente entre Mercosul, Chile e Bolívia — Decisão CMC 4/98).
pode ser considerada como verdadeira convenção internacional de arbitragem; de maneira detalhada, estabelece regras e princípios para as arbitragens processadas em seu âmbito;
útil para a multiplicação dos intercâmbios comerciais na região;
deixou às partes a liberdade de determinar as normas de procedimento e a lei aplicável à substância do litígio.
- Adoção da autonomia da vontade como norma de DIPr:
“Art. 10. As partes poderão eleger o direito que se aplicará para solucionar a controvérsia com base no direito internacional privado e seus princípios, assim como no direito do comércio internacional. Se as partes nada dispuserem sobre esta matéria, os árbitros decidirão conforme as mesmas fontes”.
- Autonomia da vontade nos contratos internacionais:
princípio geral do direito, reconhecido pelos países civilizados; tendência mundial
c) DIPr no Brasil
-Codificação:
Historicamente, ainda na época do Império, as normas de DIPr vigentes eram as de Portugal;
Nessa fase, eram encontradas normas de DIPr na Constituição e no Código Comercial — no qual havia normas de conflito de leis para os contratos;
O marco das normas de DIPr na era republicana foram as normas de Introdução ao Código Civil de 1916;
O país ganhou um conjunto autônomo de regras específicas para a disciplina, fortemente influenciadas pela técnica europeia do conflito de leis;
Houve isolamento do Brasil, por força dessa norma, diante dos demais países da América Latina, tendo em vista a adoção do critério da nacionalidade para o
estatuto pessoal (o Brasil era o único país na América Latina a seguir esse
- Lei de Introdução ao Código Civil de 1942, hoje denominada Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro – LINDB: modificou a situação de exclusão do Brasil diante das normas de DIPr adotadas na América Latina.
- A maior modificação promovida pela LINDB foi a substituição do critério da
nacionalidade pelo critério domiciliar, alinhando finalmente o Brasil aos demais
países da América Latina.
- O DIPr positivo brasileiro continua regulado pelas noções clássicas do século XIX, com base no sistema de regras de conexão bilaterais rígidas.
- Enquanto se espera uma mudança na legislação, resta aos tribunais modernizar o DIPr e tentar incorporar as novas tendências.
- O único exemplo de uma norma de DIPr brasileira de caráter material se faz presente na sucessão internacional.
- O critério da nacionalidade deixou de ser o regente do estatuto pessoal e do direito de família, mas ainda existe a exceção prevista no § 1º do art. 10 da LINDB:
Art. 10. A sucessão por morte ou por ausência obedece à lei do país em que
domiciliado o defunto ou o desaparecido, qualquer que seja a natureza e a situação
dos bens.
§ 1º A sucessão de bens de estrangeiros, situados no País, será regulada pela lei brasileira em benefício do cônjuge ou dos filhos brasileiros, ou de quem os represente, sempre que não lhes seja mais favorável a lei pessoal do de cujus.
- Tal regra obedece ao art. 5º, XXXI da CRFB/88, que se preocupa com o resultado e se apresenta como direito fundamental (e princípio constitucional): “XXXI - a sucessão de bens de estrangeiros situados no País será regulada pela lei brasileira em benefício do cônjuge ou dos filhos brasileiros, sempre que não lhes seja mais favorável a lei pessoal do "de cujus";”
- A regra constitucional de sucessão é, portanto, norma de DIPr que possui caráter de norma material e unilateral (privilegia a norma brasileira de forma expressa, aplicável em favor de um grupo determinado de pessoas).
- Antes de aplicar a norma sucessória brasileira, entretanto, será necessário verificar a norma estrangeira, para a aferir se a mesma é ou não mais favorável aos nacionais brasileiros envolvidos na sucessão.
- A opção pelo direito brasileiro só ocorre quando a norma estrangeira for menos benéfica que a brasileira.
- Existe nesse contexto a demonstração da tendência constitucionalizante das normas de DIPr.
- Os Tribunais brasileiros envolvidos na aplicação de regras de DIPr têm privilegiado a interpretação baseada em princípios fundamentais quando da aplicação dos institutos próprios do DIPr.
- Exemplo: Carta Rogatória n° 8.577, STF, Argentina, julgada em 19/6/1999, Relator Min. Celso de Mello. Nesse caso, a Justiça argentina requereu oitiva de testemunhas aqui no Brasil, na sede de sua embaixada, perante um juiz argentino, que viria especialmente para a diligência. Decidiu o ministro Celso de Mello, à época presidente do STF: "Revela-se lesiva à soberania brasileira, e transgride o texto da Lei Fundamental da República, qualquer autorização, que, solicitada mediante comissão rogatória emanada de órgão judiciário de outro País, tenha por finalidade permitir, em território nacional, a inquirição, por magistrados estrangeiros, de testemunha aqui domiciliada, especialmente se se pretender que esse depoimento testemunhal — que deve ser prestado perante magistrado federal brasileiro (CF, art. 109, X) — seja realizado em Missão Diplomática mantida pelo Estado rogante junto ao Governo do Brasil".
- Apesar da baixa alteração legislativa nos temas de DIPr, o Brasil tem ratificado inúmeras Convenções nos últimos anos, bem como os Tribunais brasileiros têm aplicado as regras contidas em tais documentos. Exemplos de normas ratificadas:
Convenção sobre os Aspectos Civis do Sequestro Internacional de Crianças;
Convenção Relativa à Proteção das Crianças e à Cooperação em matéria de Adoção Internacional;
Convenção sobre o Acesso Internacional à Justiça.
- A experiência do Judiciário brasileiro tem promovido uma mudança de dentro pra fora. Observa-se a mudança de metodologia pela jurisprudência: adoção de regras materiais, no lugar de regras conflituais, em prol do objetivo de assegurar a proteção dos direitos humanos por via do DIPr.
- Para Nadia de Araujo, essa atualização da metodologia (regras de conexão) de DIPr por meio da jurisprudência é legítima, ainda que o país não seja signatário de documento que a inspire, diante do objetivo de proteção dos direitos humanos e da necessidade de superar normas ultrapassadas (como é o caso da LINDB).
- As regras que cuidam da competência internacional e da cooperação jurídica, por outro lado, tem sido incorporadas ao ordenamento jurídico nacional por meio do Novo Código de Processo Civil, o que representa um avanço e será debatido em aulas futuras, mais especificamente.
Resumo da aula:
- Codificação no DIPri na América Latina e no Brasil;
-Avanço do DIPr: do territorialismo à proteção dos direitos humanos (normas flexíveis);
- Organização dos Estados Americanos – OEA (atividade internacional) e o trabalho das CIDIPs (Conferências Interamericanas de Direito Internacional Privado);
- Mercosul e normas de integração econômica; - Cooperação jurisdicional;
- Critério de estabelecimento do direito aplicável: mudança do critério de nacionalidade para o critério de domicílio.
Fontes:
- ARAUJO, Nadia de. Direito Internacional Privado: Teoria e Prática Brasileira. 1. ed. Porto Alegre: Revolução eBook, 2016.
- LIMA, Lucas Cavalcante de. Protocolo de Las Leñas: as cartas rogatórias no Mercosul à luz da jurisprudência do STF. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/35 972/protocolo-de-las-lenas-as-cartas-rogatorias-no-mercosul-a-luz-da-jurisprudencia-do-stf/2