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Doutorado em Ciências Sociais

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Academic year: 2019

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Lucília da Silva Matos

Belém em festa: a economia lúdica da fé

no Círio de Nazaré

Doutorado em Ciências Sociais

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Lucília da Silva Matos

Belém em festa: a economia lúdica da fé

no Círio de Nazaré

Doutorado em Ciências Sociais

Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutor em Ciências Sociais sob a orientação da Profª. Drª. Maria Celeste Mira.

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Data do Exame:__/__/____

Banca Examinadora

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Aos meus filhos, Natália e Solano, pela presença constante e pelo amor sempre renovado.

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O processo de elaboração de uma tese, como sabemos, é permeado pela solidão. É uma solidão onde, como diz Marguerite Duras: “Nunca se está só [...] Sempre se está em algum lugar [de onde se ouvem] barulhos na cozinha, na televisão, ou no rádio, nos apartamentos vizinhos, e no prédio inteiro” (1994, p. 35). Ouvem-se, também, vozes sábias e afetuosas de professores, familiares, colegas e amigos. A essas vozes, nossa! Tenho muito a agradecer.

À Maria Celeste Mira, minha orientadora, a quem agradeço de forma muito especial, com enorme respeito e carinho pela dedicação, paciência, amizade e, sobretudo pelos caminhos de conhecimentos abertos na condução da construção dessa tese.

Ao Edmilson, pela solidariedade e força durante o percurso dessa tese. À Natália e ao Solano, tudo que eu poderia dizer em agradecimento a esses dois filhos especiais seria muito pouco, mais muito pouco mesmo, diante do que significou para mim a presença constante de suas canções, alegrias, descobertas, brigas, conversas etc. A Ana Luiza, minha neta de coração, linda menina sapeca, que me fez ter vontade de finalizar a tese para poder ver mais de perto as suas descobertas do mundo. A minha mãe Maria do Carmo Matos e as minhas irmãs, Marina e Luzia Matos, pelo amor e palavras encorajadoras sempre.

A Marina Castro por ter cuidado da nossa casa em Belém no período que eu e minha família estivemos em SP, obrigada também por ser sempre tão amiga e solidária e a Neide Conceição que nos ajudou com as tarefas domésticas em SP. Sem a ajuda dessas mulheres poderosas e maravilhosas não teríamos como nos dedicar ao estudo.

Aos queridos amigos de sala de aula (PUC) e de encontros, sempre prontos a comemorar o conhecimento: Expedito, Jorge, André e Danilo. A Clarisse pelos encontros de estudo e amizade e a Regina Alves (UFPA) pelas trocas acadêmicas.

Aos professores da PUC os quais tive a honra de ser aluna: Celeste Mira, Silvia Borelli, Edgar de Assis Carvalho e Maria Helena Villas Bôas. Ao Victor Mello por ter me aceito como aluna ouvinte da disciplina que ele mediou “Lazer e modernidade” na Universidade Federal de Minas Gerais.

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À Silvia, pela ajuda como minha procuradora junto a SEDUC e à Iraneide, por sempre se mostrar tão amigavelmente disponível para a leitura e revisão do texto dessa tese.

Aos professores Edson Farias e Eliane Gouveia (membros da banca de qualificação) pela ajuda na construção do caminho a ser trilhado na escrita da tese.

Ao Eloy Iglesias, Ronaldo Silva, Júnior Soares, Miguel Santa Brígida, Amadeu Gonçalves de Sarges, Nina Rodrigues e Piriás que com teimosia vêm fazendo do Círio uma manifestação cultural para afirmação do diálogo e das diferenças. Muito obrigada pelas entrevistas! A Hilbert Nascimento, Missar Bonna, Ivan Araújo, Cláudio Acatauassu, Sérgio, Antônio Neto, Roberto Sena, Júlio César, Missael Pedrozo, Thaís Araújo, Arnaldo Pinheiro, Raquel Conde, João Tavares, Rebeca Magno Barbosa, Ethiene, Tolentino Marçal de Vasconcelos e Lelé Grelo, por ter me concedido um tempo para falar de suas relações com o Círio, entrevistas fundamentais para esse trabalho.

Ao Oswaldo Magalhães da Silva e a Joelma Cristina Parente Monteiro, que como chefes do departamento a que pertenço – Departamento de Ginástica e Artes Corporais da Universidade do Estado do Pará (UEPA) – se empenharam na minha liberação para o doutorado. Ao Jofre Freitas Jacó, Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UEPA, pela intercessão que fez junto à PUC de grande importância para a finalização da tese.

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práticas de lazer no Círio de Nazaré, com ênfase em aspectos econômicos, políticos e culturais, mormente os sucedidos a partir de 1980, período caracterizado pela intensificação da globalização econômica e técnica e da mundialização da cultura, no qual essas transformações dão à cultura, e mais especificamente às festas populares, lugar de destaque na dinâmica sociocultural. Ressituadas por novos aparatos técnicos e pela indústria do turismo, essas festas tornaram-se grandes atrativos do mercado de bens e serviços culturais, via de regra, apoiadas pelas instituições estatais (União, estados e municípios) em consonância com agências transnacionais e a iniciativa privada interessadas nos dividendos políticos e econômicos dos negócios que giram em torno da festa e na visibilidade de determinadas cidades. Uma dessas festas é o Círio - manifestação com características próprias do catolicismo popular que acontece desde o século XVIII na cidade de Belém e que passa por um progressivo processo de espetacularização. É visível a intensificação de investimentos no Círio (e sua institucionalização por parte da diretoria da festa, sua principal organizadora, composta por leigos e sacerdotes da igreja) por empresas estatais e privadas, constituindo o que denominamos de economia lúdica da fé. A categoria de análise economia lúdica da fé diz respeito aos processos econômicos de produção, circulação e consumo de produtos, imagens, mensagens e práticas simbólicas presentes no espaço/tempo de alguns eventos populares; estes são dinamizados por práticas culturais em que a fé assume um lugar capital, mediada pelo prazer, pelo encontro, pela diversão. Os mecanismos de ordem econômica, política e cultural, contemporaneamente incorporados ao Círio pelos distintos grupos organizadores (igreja, estado, empresas, produtores culturais, etc.), e aqueles que constituem e/ou ressignificam os símbolos, práticas, espaços e temporalidades são analisados segundo a audiência ativada pela fé conferida à santa padroeira e as possibilidades de vivências lúdicas que se tornam o eixo dinamizador de um processo que mobiliza milhares de pessoas a participarem de inúmeras atividades e consumirem imagens e produtos, gerando o consequente retorno financeiro para os negócios e a recompensa social conquistada pela circulação de outro tipo de moeda: prestígio e reconhecimento dos organizadores, patrocinadores e apoiadores, dos participantes em geral e dos turistas.

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practices’ modernizations of the Círio de Nazaré, emphasizing economic, politic and cultural aspects, mainly those which occurrence begin in 1980, a period characterized by the intensification of globalization and world-wide spread culture technique, also when these transformations grant notability to culture and folk festivities within socio-cultural dynamics. Replaced by new technical devices and tourism industry, these festivities became grandly attractive to the cultural commons and services, often supported by public institutions (federal, state and city) in agreement with transnational agencies and private leading actions interested in political and economical profits involved in the festivity and in the distinction of certain towns. One of these festivities is the Círio – manifestation with unique characteristics of the popular Catholicism since the 18th century in Belém, going through a progressive process of becoming a spectacle. The intensification of investments by public and private enterprises upon the Círio is remarkable (as well as the directors’ efforts to turn it into a institution), and we shall name that as ludic economy of faith. The ludic economy of faith

category concerns the economic processes of production, circulation and sale of products, images, messages and figurative practices present in a time and space of some folk events; these are given dynamism by cultural practices in which faith gives place to a capital part, interposed by pleasure, meeting and fun. The mechanisms of social, politic and cultural order, contemporarily put into the Círio by the distinct groups of organizers (church, state, enterprises, cultural producers, etc.), and the mechanisms that compose and/or reestablish symbols, practices, spaces and temporarities, are analysed according to the audience activated by faith to the patroness saint, and to the possibilities of ludic life experiences that become the axis giving dynamism to a process that moves millions of people to participate in uncountable activities, therefore generating financial return to business, as well as social acceptance conquered by a different kind of currency: prestige and reputation of organizers, sponsors, supporters, participants in general and tourists.

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Figura 1 - Foto representativa do suposto achado da imagem de Nossa

Senhora de Nazaré por Plácido ... 38

Figura 2 - Imagem de Nossa Senhora de Nazaré ... 44

Figura 3 - Logomarca da campanha para arrecadação de doações financeiras

para a construção da “Casa de Plácido” ... 48

Figura 4 - Cartaz da campanha para a construção da Casa de Plácido ... 48

Figura 5 - Folder (frente e verso) da campanha para a construção da Casa

de Plácido ... 49

Figura 6 - Mapa da planta geral da cidade no ano de 1791, ilustrando o

itinerário do primeiro Círio no ano de 1793. ... 55

Figura 7 - Mapa do trajeto atual da procissão do Círio e Trasladação. Em

destaque, alguns monumentos ... 61

Figura 8 - Basílica de Nazaré em construção ... 63

Figura 9 - Basílica Santuário na atualidade ... 66

Figura 10 - Composição de imagens que demonstram as mudanças na

dimensão urbana e nos hábitos, em Belém. ... 75

Figura 11 - Rua 15 de Novembro - edifício do London Bank e, logo a

seguir, o do Banco Commercial ... 76

Figura 12 - Largo de Nazaré, posteriormente chamado de Praça Justo Chermont. Hoje, totalmente modificada, passou a ser conhecida como Praça Santuário. “Observa-se em primeiro plano o pavilhão central; ao fundo a Igreja de Nazareth na versão construída em 1852, à direita um dos coretos de ferro

desaparecidos ... 79

Figura 13 - Rua que expressa um tipo de paisagem onde viviam as classes populares em Belém. “Rua dos Cearenses”. Trata-se, provavelmente, de um trecho atual da Avenida Ceará [...], no atual bairro de Canudos, antes do arruamento determinado por

lei em 1912 ... 82

Figura 14 - Rua Conselheiro João Alfredo ... 83

Figura 15 - Aspectos do Theatro da Paz: a) Lateral; b) Interior do teatro,

após a reforma de 1905; c) Exposição no foyer do teatro ... 84

Figura 16 - Prédio da Camisaria Paraense (Rua João Alfredo entre a

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Figura 18 - Bar Estrella de Nazareth era um tradicional estabelecimento situado na Av. Nazareth. Sua fachada era voltada para a Praça Justo Chemont – antigo largo de Nazareth e atual Praça

Santuário ... 89

Figura 19 - Passagem do Círio de Nazaré pela Av. da República, atual Av.

Presidente Vargas em direção à Av. Nazareth ... 90

Figura 20 - Aspecto da procissão do Círio de Nazaré, na passagem da

Berlinda pelo Largo de Sant’Ana ... 91

Figura 21 - Estrada de Nazareth, cruzamento com a Av. Generalíssimo Deodoro. À esquerda em primeiro plano, pequeno trecho da Praça Justo Chermont. Ao fundo, ao centro, o tradicional arco

armado para os festejos do Círio ... 91

Figura 22 - Estrada de Bragança, posteriormente mudada para Av. Tito Franco e atual Almirante Barroso. Imagem de 1907 – o trem

de Ferro Bragança e caminho da estação do Entroncamento ... 92

Figura 23 - Antiga Diretoria da Festa do Círio com Dom Irineu Joffly ... 104

Figura 24 - Organização da diretoria da festividade de Nossa Senhora

de Nazaré (2010) ... 170

Figura 25 - Foto após reunião (06/072009) em que participaram membros da DF, Senador Flexa Ribeiro, Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, com o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes,

para acertar o evento do Círio no Rio de Janeiro ... 182

Figura 26 - Material de divulgação do Círio no Rio de Janeiro ... 182

Figura 27 - Foto de Dilma Rousseff (Ministra da Casa Civil e pré-candidata à sucessão presidencial do Brasil em 2010) ao lado de Ana Júlia Carepa (Governadora do Pará) durante a

procissão do Círio de Nazaré em 2009.. ... 185

Figura 28 - Feira de Brinquedos de Miriti – Praça Waldemar Henrique, em 2008: A. Praça de alimentação. B. Um dos stands de venda

de Brinquedos de Miriti ... 187

Figura 29 - Feira do Círio: Feira de Artesanato organizada na lateral da Basílica Nossa Senhora de Nazaré, momentos antes de inauguração, evento que integra a cerimônia de abertura do

Círio de Nazaré ... 187

Figura 30 - Manifestações. A. Auto do Círio. Foto: Maurício Vianna. B. Auto

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Figura 32 - Carro da Rede Celpa, Patrocinadora Oficial modalidade “Plus”

durante a Romaria Rodoviária ... 196

Figura 33 - Cartão postal. Material publicitário da Companhia Vale no Círio 2008. Na parte superior direita do postal podemos ver o Selo Oficial do Círio 2008 ... 202

Figura 34 - Selo Patrocinador Oficial do Círio. A. Ano de 2009. B. Ano de 2010. ... 206

Figura 35 - Promesseiros da corda pagam promessas ... 219

Figura 36- Homenagem do Banco do Brasil ... 221

Figura 37 - Moto Romaria. A. Ano de 2007. B. Ano de 2009 ... 225

Figura 38 - A. Concurso da bicicleta mais enfeitada; B. Ciclo-Romaria. ... 226

Figura 39 - A-B. Círio das Crianças ... 226

Figura 40 - Romaria da juventude. ... 227

Figura 41 - Centro Arquitetônico de Nazaré (CAN), Praça Justo Chermont, chamada atualmente de Praça Santuário ... 232

Figura 42 - A. Centro da Praça Santuário, fila para ver a imagem da Santa que fica exposta, após o segundo domingo do mês de outubro, para visitação. B. Concha Acústica, com a logomarca da Vale, patrocinadora oficiais do Círio de 2007 e patrocinadora do Círio Musical ... 237

Figura 43 - Área do arraial com o parque armado no período do Círio 2009 ... 238

Figura 44 - Arraial de Nazaré, bares que funcionavam durante o ano e localizavam-se no final do arraial, próximo à saída da Av. Gentil Bitencourt ... 238

Figura 45 – A-B. Feira de vendas de artigos religiosos das comunidades e paróquias armada na lateral do CAN ... 241

Figura 46 - A-B. Algumas “lojinhas” da feira do SEBRAE na lateral da Basílica. Os produtos artesanais foram organizados a partir de suas características (Madeira, Fibra, Moda, Diversidade, etc) ... 241

Figura 47 - Arco de Nazaré Círio 2008 ... 245

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Quadro 1 - Elementos Essenciais do Círio segundo a pesquisa realizada pelo IPHAN para Registro do Círio Como Patrimônio Imaterial do Brasil

no Livro de Registro das Celebrações ... 157

Quadro 2 - Manifestações associados ao Círio que não são organizados pela Diretoria da Festa ... 157

Quadro 3 - Númeo de citações sobre o Círio/Diretoria da Festa de Nazaré/ Basílica Santuário de Nazaré publicadas em jornais impressos e portais, rádio e TV no ano de 2007 ... 176

Quadro 4 - Diretorias e funções ... 178

Quadro 5 - Alguns eventos realizados por iniciativa da diretoria da festa com apoio de políticos para divulgação do Círio em nível nacional ... 183

Quadro 6 - Programação do Círio 2009 no Rio de Janeiro, no mês de agosto de 2009 ... 184

Quadro 7 - Apoiadores Oficiais do Círio de Nazaré e seus segmentos de negócios (2009 e 2010) ... 197

Quadro 8 - Empresas Patrocinadoras Oficiais do Círio de Nazaré e seus respectivos segmentos de negócios (2003 a 2010) ... 198

Quadro 9 - Quantidade de Patrocinadores Oficiais por ano ... 199

Quadro 10 - Sequência das principais romarias do Círio e ano de origem ... 213

Quadro 11- A corda e o tempo do Círio no período de 1983 a 2005 ... 216

Quadro 12- Eventos educativos e de lazer organizados pela diretoria da festa durante a quinzena festiva ... 228

Quadro 13 - Eventos organizados pela DF para o lançamento de produtos associados ao Círio ao longo do ano ... 229

Quadro 14 - Avaliação da atratividade dos recursos turísticos de Belém em função dos mercados geográficos ... 249

Quadro 15 - O Círio e o diálogo com os diversos setores que representam a economia da cultura no Brasil (alguns exemplos) ... 252

Quadro 16 - Setores Culturais do Brasil ... 254

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AM Amazonas

ASJ Associação do Senhor Jesus

ASSEMB Associação de Empresas Minerdoras e Metalurgia de Barcarena BA Bahia

BASA Banco da Amazônia

CAN Centro Arquitetônico de Nazaré CELPA Centrais Elétricas do Pará

CESUPA Centro Universitário do Estado do Pará CNBB Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil CNI Confederação Nacional das Indústrias

CNFCP Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. CRB Conferência dos Religiosos do Brasil

DEIP Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda

DF Diretoria da Festa de Nazaré

DIEESE Departamento intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos EMBRAFILME Empresa Brasileira de Filmes

EMBRATEL Empresa Brasileira de Telecomunicações EMBRATUR Instituto Brasileiro de Turismo

FIEPA Federação das Indústrias do Estado do Pará FIESP Federação das Indústrias do Estado de São Paulo FUNARTE Fundação Nacional de Artes

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBM InternationalBusiness Machines

IBMC Instituto Brasileiro de Marketing Católico IMBRAC Instituto Brasileiro de Comunicação Cristã INRC Inventário de Referencia Cultural

IPHAN Instituto do patrimônio Histórico e Artístico Nacional

JK Jucelino Kubitschek

MA Maranhão MASP Museu de Artes de São Paulo MINC Ministério da Cultura

MPF Ministério Público Federal

ONG Organização não Governamental

OSPAN Obras Sociais da Paróquia de Nazaré PA Pará

PARATUR Companhia de Turismo do estado do Pará PB Pernambuco

PDA Plano de Desenvolvimento da Amazônia PDT Plano de Desenvolvimento do Turismo

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PROINT Programa Integrado de Apoio ao Ensino Pesquisa e Extensão PSDB Partido da Social Democracia Brasileira

PSOL Partido Socialismo e Liberdade

PT Partido dos Trabalhadores

RADAM Radar da Amazônia

RMB Região Metropolitana de Belém

RS Rio Grande do Sul

SC Santa Catarina

SEBRAE Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas SECON Secretaria de Economia

SEMMA Secretaria Municipal de Meio Ambiente

SEPLAN Secretaria de Estado de Planejamento e Desenvolvimento Econômico SESI Serviço Social das Indústrias

SP São Paulo

SUDAM Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia TUCA Teatro da Universidade Católica de São Paulo UFPA Universidade Federal do Pará

UNAMA Universidade da Amazônia

UNESCO Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura

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AGRADECIMENTOS ... 5

RESUMO ... 7

ABSTRACT ... 8

LISTA DE FIGURAS ... 9

LISTA DE QUADROS ... 12

LISTA DE SIGLAS ... 13

INTRODUÇÃO ... 17

PARTE I - DA DEVOÇÃO POPULAR TRADICIONAL A MASSIFICAÇÃO DA DEVOÇÃO: ALGUNS ASPECTOS DA CONFIGURAÇÃO HISTÓRICA DO CÍRIO DE NAZARÉ CAPÍTULO 1 - O SENTIDO/SIGNIFICADO DA ATUALIZAÇÃO DO MITO FUNDADOR DO CÍRIO DE NAZARÉ ... 34

1.1 - A imagem: um achado caboclo? ... 39

1.2 - A institucionalização da devoção a Nossa Senhora de Nazaré: a invenção da tradição do Círio ... 51

1.3 - As “fugas da santa” e os sentidos que passa a ter o lugar de devoção ... 59

CAPÍTULO 2 - O CÍRIO DA BELLE ÉPOQUE AMAZÔNICA: PROJETO MODERNIZADOR E REFORMA CATÓLICA ... 69

2.1 - Cidade Moderna: luxo e distinção de classe no Círio de Nazaré ... 71

2.2 - Reforma católica e os impactos na festa ... 95

CAPÍTULO 3 - O POPULAR MASSIVO NO CÍRIO DE NAZARÉ ... 109

3.1 - Apontamentos sobre o processo de urbanização de Belém a partir das políticas desenvolvimentistas e o Círio de Nazaré ... 110

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CAPÍTULO 4 - O ENTRECRUZAMENTO ENTRE ECONOMIA,

LUDICIDADE E FÉ ... 133

4.1 - A globalização econômica e técnica e a mundialização da cultura como contexto da categoria economia lúdica da fé ... 136

4.2 - Relações entre igreja católica, cultura, turismo e lazer ... 143

4.3 - Cultura, desenvolvimento e Patrimônio Imaterial ... 152

CAPÍTULO 5 - ORGANIZAÇÃO DA FESTA: A ESPETACULARIZAÇÃO DO CÍRIO DE NAZARÉ ... 165

5.1 - A formação atual da Diretoria da Festa de Nazaré e as relações entre alguns agentes envolvidos na organização espetacular do Círio ... 169

5.2 - Projeto Patrocinador Oficial do Círio: business e fé ... 192

CAPÍTULO 6 - ECONOMIA LÚDICA DA FÉ: CÍRIO, NOVOS EVENTOS, LUGARES E PRÁTICAS DE CONSUMO ... 210

6.1 - Círio: novos eventos e lugares ... 212

6.2 - Do arraial ao Centro Cultural ... 230

6.3- Turismo e economia da cultura no Círio de Nazaré ... 246

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 260

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INTRODUÇÃO

O Círio de Nazaré contemporâneo, manifestação cultural abrangente e mobilizadora de amplas parcelas da sociedade paraense, que cada vez mais se configura como evento expressivo do calendário turístico em âmbito nacional e internacional, acontece no mês de outubro na cidade de Belém1. É resultado de todo um processo sócio-histórico, que mostra as teias de interdependência constituídas pela presença da igreja católica na Amazônia, assim como a presença do Estado (colonial, imperial e republicano), do mercado e de amplas parcelas da população local. É a partir da relação de interdependência configurada em relações não raramente conflituosas, que exigem negociações entre vários campos sociais, que o Círio de Nazaré vem se constituindo e se transformando historicamente.

Durante o período do Círio a cidade de Belém vive momentos de intensa transformação, resultante de uma multiplicidade de eventos, que tem como eixo central a procissão principal do Círio, uma manifestação com um forte apelo religioso que, como todos os eventos cuja base vem do catolicismo popular2, tomou dimensões que extrapolam a esfera do sagrado. O sagrado e o profano aqui estão imbricados nas celebrações. Neste sentido, na maioria das vezes, a fronteira entre um e outro se torna imperceptível. Para Mary Del Priore, festas profanas e sagradas caminham juntas. “É como se dentro de uma festa religiosa existisse uma profana e vice-versa” (DEL PRIORE, 2000, p.19).

Embora haja um compartilhamento das práticas entre os agentes do catolicismo popular (leigos, não especialistas do sagrado) e do catolicismo oficial (hierarquia da igreja – especialista do sagrado) (MAUÉS, 1999), não significa, necessariamente, que estes

1 Nos dias atuais, a expressão Círio é utilizada tanto para nomear a procissão principal que acontece no

segundo domingo do mês de outubro, como também para tratar um conjunto de celebrações que ocorrem durante a chamada “quadra nazarena” ou “quinzena festiva”. Neste trabalho, ao nos referirmos ao evento como um todo, chamaremos de Círio, e ao evento específico chamaremos de Procissão Principal do

Círio ou simplismente Procissão do Círio. Essa manifestação acontece em vários municípios do Pará e em

diversas cidades brasileiras. Nestas últimas, os eventos são organizados, via de regra, por imigrantes paraenses.

2 Utilizamos neste trabalho a expressão “catolicismo popular” com base na construção teórica formulada por

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agentes não disputem o controle sobre o capital simbólico presente no Círio. É assim que os diversos grupos organizados em campos dotados de autonomia relativa, mas regidos por regras próprias (BOURDIEU, 2005), vêm historicamente disputando concepções de como organizar essa manifestação, fato que neste trabalho é analisado para além do próprio Círio, uma vez que expõe formas de afirmar valores e concepções de mundo e de cidade numa permanente tensão e negociação entre grupos de forças desiguais na realização da festa.

Nessa perspectiva, ao observarmos o Círio, vemos que a cidade de Belém tem seu espaço e seu tempo ressignificados pela e para a festa. Em geral, há investimento na infraestrutura da cidade, calçamento, limpeza e iluminação das vias públicas, bem como decoração urbana com motivos relacionados ao Círio, especialmente nos ambientes onde tradicionalmente se realizam as duas principais procissões (Procissão da Trasladação e do Círio) e as muitas romarias que juntam milhares de pessoas. O arraial se enfeita com o colorido dos brinquedos, das barracas, objetos, alimentos e bebidas comercializados naquele espaço, e com o vai e vem ruidoso de comerciantes e de pessoas em busca de diversão, a qual é cada vez mais encontrada em todos os cantos da cidade nesses dias de festa. Muitas missas e celebrações com a presença da imagem da santa acontecem em igrejas, praças, em várias residências e instituições públicas e privadas. As galerias inauguram exposições temáticas. Cortejos musicais e teatrais tomam de assalto as ruas da cidade velha3. O céu cintila com os fogos que diariamente anunciam as celebrações. As pautas dos teatros são preenchidas com shows musicais e teatrais em homenagem ao Círio. A maioria dos bares e restaurantes organiza programações musicais especiais para a data e reforçam os cardápios regionais. Em várias praças são organizados shows e instalam-se feiras de artesanato. As lojas do centro comercial e dos shoppings e as bancas do comércio informal espalhadas pelas ruas e calçadas da cidade preparam-se para a data com a oferta de novas mercadorias expostas nas vitrines das lojas e nas bancas dos camelôs, cujos produtos são marcados pela reprodução dos variados elementos simbólicos da festa (a corda, a berlinda, a imagem da santa, a Basílica de

3 Dois cortejos acontecem na sexta-feira e no sábado que antecedem o segundo domingo do mês de outubro,

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Nossa Senhora de Nazaré, o brinquedo de miriti etc.)4. Após a passagem da imagem da Santa na Trasladação pelo Bar do Parque, grande número de pessoas espera o início da Festa da Chiquita, animadas por artistas e transformistas gays5. Nos diversos bairros da cidade muitos bailes são organizados a fim de receberem os romeiros. Os supermercados e feiras se programam para não deixar faltar os principais alimentos e bebidas para o já tradicional almoço do Círio. A maioria dos comerciais veiculados pelas empresas vincula o forte simbolismo do Círio aos seus produtos, enquanto os governos das várias esferas, do mesmo modo, aproveitam a ocasião para melhorar sua imagem perante a opinião pública. Os moradores da cidade limpam e arrumam suas casas à espera dos convidados, que podem ser familiares, amigos ou vizinhos, que juntos vêm festejar o dia de Nossa Senhora de Nazaré. A rede hoteleira se prepara para a chegada dos turistas. Pessoas com jeito de andar, traços e sotaques diferentes, provenientes de todas as partes do Pará, de outros Estados do Brasil e de diversos países, chegam para participar do que passou a ser chamado de “Natal dos Paraenses” 6.

Como podemos observar nessa descrição, a festividade do Círio de Nazaré se caracteriza como um fato social total (MAUSS, 1974), uma vez que impulsiona e reúne uma série de celebrações que se realiza nas diversas esferas da vida da cidade de Belém. Festividade que se renova a cada ano como um processo histórico de construção social de um espaço-tempo simbólico estruturado pela fé, pela política, pelo mercado, pelo lúdico, pela cultura e pela diversão. Ou poderíamos também dizer, a partir de ELIAS (1993), que

4 A corda é um dos elementos mais característicos do Círio de Nazaré – é o locus mais importante das

promessas. Presente no Círio desde 1855, inicialmente serviu para os romeiros ajudarem a tirar a berlinda do atoleiro. Hoje, a corda perdeu sua função original, mas é mantida pela força da tradição; mede cerca de 450 metros de comprimento e é conduzida como forma de pagamento de promessa por pessoas de ambos os sexos durante a procissão; é lugar, ao mesmo tempo, de sacrifício e de aproximação do sagrado. Isidoro Alves (1980) na década de 1970 foi o primeiro antropólogo a descrever e analisar a estrutura organizacional da Procissão do Círio, caracterizando, na época, um núcleo estruturado no interior da corda que circundava a berlinda, onde desfilavam autoridades e convidados especiais (IPHAN/MINC, 2004). O miriti é um material leve e maleável retirado do talo da folha da palmeira chamada miritizeiro ou buritizeiro, comum nas várzeas amazônicas. É talhado e pintado com muitas cores. Os brinquedos reproduzem aspectos do cotidiano e do imaginário amazônico. O brinquedo de miriti é um dos elementos que compõe a festa do Círio, sua presença remonta a séculos passados. Os artesãos que vêm de uma região próxima a Belém, Abaetetuba, comercializam os brinquedos nas procissões e na Feira do Miriti, que, a partir de 2006, passou a ser organizada pelo Sebrae, juntamente com a Associação de Artesãos de Brinquedo de Miriti de Abaetetuba.

5 A Festa da Chiquita estará presente na análise sobre o Círio na segunda parte da tese.

6 A expressão “Natal dos Paraenses” foi escrita pela primeira vez por um Cônsul norte-americano, que após ter

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o Círio, como expressão da sociedade, é constituído como um sistema de relações, um todo relacional entre grupos e indivíduos interdependentes,7 cujo envolvimento na festa e com a festa se processa a partir de cadeias formadas pelas complementaridades e conflitos na formação e expressão processual de suas concepções de mundo, de sociedade, de religiosidade etc., na produção do Círio de Nazaré8. Desenvolver uma análise a partir das configurações, numa perspectiva elesiana, pressupõe complexificar a forma como, em geral, são teorizadas as relações entre dominador e dominado. Como afirma Heinich (2001), a dominação não se dá de forma linear, apenas de cima para baixo, de fora para dentro, ela está inundada de processos de tensões e restrições, embora, com frequência, de maneira desigual, de ambos os lados.

A descrição do Círio realizada anteriormente nos remete à imagem desta festividade nos dias atuais. No entanto, muitos dos aspectos relatados vêm se processando ao longo da história dessa manifestação que teve seu início em 1700, a partir das inter-relações entre as práticas religiosas de culto a Nossa Senhora de Nazaré, trazidas pelos colonizadores e colonos que vieram de Portugal, e as práticas nativas indígenas presentes no Grão-Pará. Com o processo crescente de inter-relações, esta prática foi sendo incorporada pelos nativos e pelos colonos em novos formatos, passando a fazer parte de seu cotidiano. A partir dos processos de intensificação, complexificação e diversificação da rede de interesses e necessidades socialmente construídas nas muitas mudanças políticas, culturais e urbanas que, a longo prazo, foi se processando, os indivíduos, grupos e classes passaram a se relacionar por cadeias de interdependências ainda mais complexas, numa crescente inter-relação entre as pessoas e numa consequente diferenciação de funções (ELIAS, 1993). E o Círio, entendido como parte e ao mesmo tempo constituído por redes de relações sociais, influencia e é influenciado por essas muitas mudanças sociais.

É nesse sentido que buscaremos compreender as dinâmicas históricas do Círio, a partir da análise sobre as configurações forjadas nas relações que se processam na longa duração de existência dessa festividade, de modo que os eventos analisados na primeira parte da tese que discorrerá sobre o Círio no período que antecede a década de 1980, serão fundamentais para a

7 A noção de interdependência, como aplicada na produção teórica de Norbert Elias está intimamente

relacionada com o equilíbrio de poder, de tensões, que para ser melhor entendido exige a superação do dualismo sujeito/objeto, causa/efeito. Trata-se de relações impulsionadas por processos circulares (HEINICH, 2001) ou de relações multipolares na imbricação de agentes individuais, grupos e instituições, nos contextos de uma formação social (MICELI, 2001, p.125. In: WAIZBORT, Leopoldo et al. (Org.).

Dossiê Norbert Elias. São Paulo: Edusp, 2001).

8 Heloísa Pontes (2001) desenvolve análise no ensaio intitulado “Elias, Renovador da Ciência Social” em que

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compreensão e análise das transformações que se evidenciam a partir das duas últimas décadas do século XX até os dias atuais, quando se acelera e se complexifica a globalização econômica e técnica e a mundialização da cultura (ORTIZ, 2006c, 1996; IANNI, 1992), e que consideraremos o período principal de nosso objeto de estudo.

A mundialização da cultura revela-se no cotidiano. Cada vez mais nos sentimos cidadãos do mundo; mesmo sem nos deslocarmos, estamos interligados, independentemente de nossa vontade. Isso transparece no nosso modo de vestir, nas músicas que ouvimos, no que assistimos na televisão e no cinema, no que comemos e no modo como o fazemos etc. “A mundialização não se sustenta apenas no avanço tecnológico. Há um universo habitado por objetos compartilhados em larga escala” (ORTIZ, 2006c, p. 107). Concordando com Ortiz, diríamos que a cultura do consumo no período da globalização se destaca e é uma das principais instâncias legitimadoras dos valores e dos comportamentos.

Diversas festas populares a partir dos anos de 1980, com o aprofundamento da “globalização econômica e técnica” e com a “mundialização da cultura” (ORTIZ, 2005, 2006c), tornaram-se grandes atrativos de um mercado de bens e serviços culturais, via de regra, apoiados pelas instituições estatais (União, estados e municípios), em consonância com agências transnacionais como, por exemplo, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura), atraindo investimentos públicos e privados voltados a sua valorização e atração de maior número de audiência e consequente retorno financeiro para os negócios que passam a girar em torno da festa, além da legitimação social conquistada pela circulação de outro tipo de moeda: o prestígio e o reconhecimento, tanto para os organizadores, patrocinadores e apoiadores, quanto para os participantes em geral e turistas.

São visíveis, a partir principalmente das duas últimas décadas, de forma mais intensificada e institucionalizada, significativos investimentos no Círio, por parte de empresas estatais e privadas, constituindo, nessa perspectiva, o que passamos a denominar nessa tese de economia lúdica da fé. A categoria economia lúdica da fé diz respeito aos processos econômicos de produção, circulação e consumo de produtos, imagens, mensagens e práticas simbólicas presentes no espaço/tempo dos eventos populares dinamizados por práticas culturais onde a fé assume um lugar capital sendo mediada pelo prazer, pelo encontro, pela diversão.

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e reafirmam suas posições de prestígio ou de subalternidade” (ORTIZ, 2005), de modo que as manifestações festivas marcadas pela economia lúdica da fé são promotoras de distinção social, uma vez que nelas se evidencia a separação entre grupos e classes sociais. O Círio, assim como outras festas de santo no Brasil, está cada vez mais inserido nesse circuito que revela a economia lúdica da fé como condição social legitimada pela trindade fé, diversão e turismo, elementos que passam a ser valorizados por sua dimensão socioeconômica, religiosa, política e cultural na experiência contemporânea.

A partir da década de 1980, os grupos que interagem mais diretamente na festividade passaram a incorporar vários elementos ao calendário do Círio, o que fez com que este ganhasse outra amplitude espaço-temporal, haja vista que sua duração e alcance no âmbito territorial têm crescido significativamente aliados a uma estruturação cada vez mais espetacular com vistas a se aprimorar como evento turístico. O que outrora acontecia de forma mais circunscrita e concentrada no entorno da Basílica de Nazaré (o arraial), e em localidades da cidade significativas do ponto de vista arquitetônico e histórico cultural, hoje se espalha por várias localidades da cidade e até mesmo em outros municípios9. Além disso, diversas atividades no âmbito do lazer/entretenimento são estruturadas por pessoas, grupos e instituições diversos (órgãos de cultura e turismo do governo do estado e da prefeitura do município; diretoria da festa10, ONGs, instituições universitárias, empresas particulares etc.), alargando as possibilidades de vivência cultural e de consumo que passam a estar fortemente inseridas na dinâmica da cidade durante todo o período da festividade11.

Por outro lado, o investimento que o Estado e a iniciativa privada têm feito no Círio se espalha para vários outros setores da produção comercial, cultural e artística, como a música, a dança, os filmes e documentários, o artesanato, o mercado editorial, a publicidade etc. É

9 A partir de 1992, período que foi festejado o bicentenário do Círio, a imagem da santa passou a deixar a

Basílica na sexta-feira que antecede a romaria fluvial para pernoitar no município de Ananindeua, fato que dá origem às romarias rodoviárias e do traslado, que desde 2005 também inclui o município de Marituba. Os municípios de Ananindeua e Marituba fazem parte da Região Metropolitana de Belém. Todo esse processo de ampliação e decisão por onde a imagem passará, onde será homenageada, onde pernoitará etc. tem sido construído, tendo como base questões políticas, econômicas e sociais que serão tratadas, principalmente, na segunda parte da tese.

10 A Diretoria da festa é uma instituição que foi criada em 1910 a partir de um processo de tensão gerado pela

hierarquia da igreja e pelos componentes da antiga Irmandade de Nossa Senhora de Nazaré. A diretoria da festa é quem organiza o Círio até os dias atuais. É composta apenas por católicos do sexo masculino que, em geral, são pessoas que têm algum grau de influência junto a algumas instâncias políticas e/ou econômicas da região.

11 Muitos outros eventos acontecem na cidade nesse período: shows teatrais e musicais; Festival da Canção

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interessante observar que o que é reconhecido como tradicional passou a ser tratado como um bem de consumo de mercado e, no caso específico das festas religiosas, a própria fé, os objetos simbólicos em torno desta, o modo de se divertir das pessoas, tornam-se importantes fontes de lucro. Este fato não ocorre de forma isolada, haja vista ser possível afirmar que isto está presente como tendência observável em muitas outras festas que acontecem em outras cidades do Brasil, algumas das quais estão fortemente inseridas em dinâmicas próprias do catolicismo.

Como destaca Edson Farias (2005), a conexão entre matrizes culturais reconhecidas como tradicionais com o mercado do ramo do lazer (gastronomia, hospedagem, transporte de passageiros, entre outros) passam a compor determinadas pautas do desenvolvimento socioeconômico e são tomados e valorizados como fatores de modernização local e regional, superando uma visão que em determinado momento histórico relacionava essas práticas tradicionais como atraso. Desta forma, a definição de aprofundar esta pesquisa a partir da década de 1980, baseou-se na constatação da ocorrência de significativas transformações dessa festividade a partir deste período, percebidas inicialmente na leitura de diversos trabalhos teóricos sobre esse objeto de estudo, assim como na observação e participação no Círio. Baseou-se, também, em análises contidas em trabalhos de diversos autores sobre outras festas de natureza semelhante que ocorrem no Brasil, as quais também têm experimentado mudanças relacionadas às dinâmicas contemporâneas de globalização econômica e técnica e de mundialização da cultura.

É importante destacar que, via de regra, a presença das estruturas turísticas nas práticas religiosas (festas, peregrinações, etc.) faz com que a estrutura da percepção dos participantes se altere (STEIL, 2003b), uma vez que a dimensão espetacular acaba por ganhar centralidade. Assim, o lúdico e o lazer, já tão presentes nos mais variados espaços da vida cotidiana, se estabelecem e passam a orientar os comportamentos.

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pelas férias, observa que esse fenômeno é mais profundo, haja vista que as festas hoje obedecem aos calendários dos negócios. Para fundamentar seu ponto de vista, a autora lembra que o Carnaval, além dos dias oficiais, acontece durante o ano todo, nas micaretas, como são chamados os carnavais fora de época. Outros exemplos são as mais de mil festas de rodeio que ocorrem a cada ano. Nesse sentido, “A vida é uma festa. Essa é a ideia que dinamiza a sociedade de consumo” (MIRA, 2004, p. 267-268).

Nesta perspectiva, o lazer nesta tese passa a ser uma das principais categorias analíticas para problematizar as práticas festivas presentes no Círio de Nazaré na modernidade, a partir do seu entendimento como processo e produto da cultura e, neste sentido, como um elemento que envolve e está envolvido na trama das relações e contradições sociais. Na realidade, como fruto das mudanças nas relações de trabalho, das reivindicações e conquistas da classe trabalhadora no início da industrialização por um tempo livre das obrigações do trabalho, o lazer, enquanto categoria de análise social, já nasce imerso numa diversidade de concepções e valores sobre a polêmica noção de tempo livre (MATOS, 2001). Nos países desenvolvidos, após a Segunda Guerra Mundial, o lazer triunfa como lazer-mercadoria, entendido, não só, mas também, como um tempo disponível para o consumo.

No caso do Brasil, mais recentemente, principalmente no último quartel do século XX, o lazer passou a ser o jardim dos novos alimentos terrestres (MORIN, 1984, p. 69), o que Alain Corbinao “contar” a História dos tempos livres, chamou de uma moral do prazer (fun morality), que traduz a alteração dos valores e das referências (CORBIN, 2001, p. 7).

As festas populares brasileiras passam a ser objeto de investimentos públicos e privados, voltados a sua espetacularização, com vistas à viabilização de empreendimentos lucrativos que buscam se legitimar na própria força das manifestações em termos do imaginário popular. Com esse objetivo, os agentes políticos e econômicos têm procurado dar visibilidade às cidades onde ocorrem esses eventos, mediante a avaliação sobre a maior ou menor possibilidade de se obterem dividendos políticos e/ou financeiros a partir do uso de sua força simbólica. Nesta perspectiva, algumas cidades passam a merecer destaque em nível nacional ou internacional12.

12 É o caso do Carnaval do Rio de Janeiro, de Recife e da Bahia; da Festa de São João, em Caruaru (PE) e em

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Como afirma Celeste Mira (2002, p. 4), a partir da década de 1980 se evidencia uma “retomada de manifestações tradicionais locais com o interesse da indústria do Turismo”. O turismo passa a ser uma alternativa importante para muitas cidades, sendo que, em algumas destas, o poder público e as empresas privadas passam a investir nas práticas culturais existentes como forma de gerar divisas. Neste sentido, as festas e as diversas possibilidades de lazer em torno destas passam a ser um ótimo negócio (MIRA, 2002).

Partimos, pois, do entendimento de que os processos de transformação pelos quais vem passando o Círio de Nazaré e a atual forma de organização deste evento corroboram com um formato de produção, circulação, comércio e consumo de imagens e diversões que, na contemporaneidade, dão a tônica a todo um circuito de festas brasileiras (FARIAS, 2001).

A pesquisa pretende tratar a temática do lazer/entretenimento no Círio, articulando-a como dimensão da cultura, privilegiando, no entanto, os aspectos referentes à sociedade de consumo, uma vez que, na modernidade e, mais especificamente, a partir da década de 1990, com a aceleração do processo de globalização, o lazer/entretenimento tornou-se um excelente negócio, ocupando lugar de destaque na sociedade. O aspecto lúdico do prazer proporcionado pelo lazer e a sua institucionalização sob a forma de diversão – entretenimento – passa então a ser o fio condutor de uma gigantesca indústria da diversão. Como afirma Edgar Morin: “O lazer moderno não é apenas o acesso democrático a um tempo livre [...] fornece não mais apenas um tempo de repouso e de recuperação, mas um tempo de consumo” (MORIN, 1984, p. 67).

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Embora tenhamos tomado como ponto de referência o Círio contemporâneo, nem por isso deixaremos de estabelecer um diálogo com os aspectos afetos às práticas presentes no Círio ao longo de sua história. O esforço aqui será o de primeiramente tomar algumas questões do passado referentes à celebração do Círio, de forma que se possa construir um caminho em que tais questões nos levem a melhor compreender os dilemas do presente. Os fenômenos que, à primeira vista, parecem carentes de sentido, revelam seu nexo quando postos contra uma medida de longo prazo (ELIAS, 1993). Nesta perspectiva, buscaremos traçar as continuidades sob as transformações, atentando para a multiplicidade de tempos que formam a realidade dos dias atuais, assim como as pequenas manifestações do cotidiano.

O objetivo é ressaltar as linhas de força a partir de eventos sócio-históricos significativos para este estudo: os que vão nos ajudar a entender, sobretudo, o eixo processual de encadeamento entre alguns aspectos da história da modernidade e as interseções sócio-históricas das transformações que instauram uma nova fase – a fase contemporânea do Círio de Nazaré no entrelaçamento entre economia, ludicidade e fé.

Desenvolver esta pesquisa implicou ter como cenário mais amplo a própria cidade de Belém, uma vez que o Círio está fortemente arraigado em sua história. Mais do que isso, embora o Círio seja uma festa tradicional de Belém do Pará, será apreendido para além das determinações locais, haja vista que os processos socioeconômicos e culturais da chamada mundialização impactam os acontecimentos em todos os lugares do planeta e, a rigor, não teriam como se expressar fora deles.

Como afirma Paula Montero (1993), outrora, em alguma medida, podia-se falar da existência de uma “pureza” e “autenticidade” das culturas. As crises que o mundo vem vivenciando desde a década de 1980 descortinaram a trama das relações mundiais que atravessam os sistemas culturais e políticos. Para essa autora, tornaram-se visíveis os processos que relacionam esferas culturais heterogêneas – “as tradições indígenas e a cultura de massa, as religiões populares e a produção acadêmica”.

Assim, esses movimentos, para serem bem compreendidos, nos obrigam a fazer ‘explodir’ os universos etnográficos. Fica cada vez mais evidente que a investigação antropológica não pode mais circunscrever-se a universos de observação isolados e microscópicos (MONTERO, 1993, p. 172).

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Para podermos entender essas dinâmicas que vem se processando no Círio, desenvolvemos uma pesquisa de campo através da observação direta e participante. Utilizamos alguns procedimentos: participamos do Círio no ano de 2007 e 2008, observando, a partir de olhar disciplinado pelas Ciências Sociais, os eventos festivos: as várias procissões e romarias, algumas missas realizadas durante o período do Círio, o evento de apresentação pública do manto, que anualmente é produzido para vestir a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, as programações do arraial, a cerimônia de abertura do Círio, assim como a de abertura da feira de artesanato organizada pelo Sebrae (ao lado da Basílica), a abertura e algumas programações da Feira de Brinquedos de Miriti, organizada pela Associação de Artesãos de Brinquedo de Miriti de Abaetetuba, o lançamento de algumas exposições de fotografia e artes plásticas temáticas ao Círio. Assistimos alguns shows musicais temáticos ao Círio em teatros da cidade, os shows do Círio Musical, que acontecem na Praça Santuário, o Arrastão do Círio, a Festa da Chiquita, o Auto do Círio e o almoço do Círio. Estivemos em alguns espaços de produção das várias manifestações presentes nessa festividade: ensaios e preparativos do arrastão do Círio e do Auto do Círio, na organização e instalação do parque no arraial, reuniões preparativas da organização da Procissão da Trasladação e da Procissão do Círio. Estivemos em Abaetetuba visitando as casas-ateliês dos artesãos de brinquedos de Miriti, acompanhamos a montagem e instalação da Feira de Brinquedo de Miriti. Finalmente, participamos da entrevista coletiva aos jornalistas na qual a diretoria da festa e o arcebispo de Belém apresentaram a programação geral do calendário oficial (procissões e romarias).

Registramos essas vivências e observações através da escrita no diário de campo, o qual desempenhou função fundamental de memória, uma vez que, com o passar do tempo, muitas questões importantes acabam sendo esquecidas e perdidas.

Fizemos levantamento de documentos, livros, periódicos e matérias jornalísticas sobre o Círio em bibliotecas da cidade de Belém e no Arquivo Público, além do Museu do Círio e da Loja Lírio Mimoso e através da consulta a sites de forma que constituímos, ao longo dos anos de 2006 a 2009, um expressivo acervo sobre essa festividade.

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dos eventos que compõem o Círio, assim como na ocasião dos festejos. Priorizamos entrevistar os organizadores das várias manifestações presentes no Círio: membros da Diretoria da Festa, representantes das instituições patrocinadoras, participantes e organizadores da feira do Miriti (Sebrae e artesãos), organizadores da Festa da Chiquita, do Arrastão do Círio, do Auto do Círio, além de estilistas que vêm participando da confecção de mantos da imagem da Virgem de Nazaré e que durante o Círio lançam novas coleções de moda para a ocasião.

Constituímos, também, ao longo desta pesquisa, um acervo de imagens que irão compor o texto, ajudando no processo de análise e síntese teóricas da tese, uma vez que a fotografia aliada ao texto facilita o captar e o transmitir dos gestos, das transformações do tempo, da maneira de falar, integrando-se num contínuo temporal, no processo de escrita. Como afirma Novaes, ao tratar do uso das imagens na Antropologia, as imagens fotográficas acrescentam “[...] novas dimensões à interpretação da história cultural, permitindo aprofundar a compreensão do universo simbólico, que se exprime em sistemas de atitudes por meio dos quais grupos sociais se definem, constroem identidades e aprendem mentalidades.” (NOVAES, 1998, p. 116).

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são adversas, uma vez que o tempo/espaço do doutorado é entrecruzado por variados problemas da vida cotidiana pessoal. Criativa porque nos permite, estando aqui, rodeadas pelos nossos pares, pelos livros e materiais trazidos do campo, nos aventurar na elaboração de um texto próprio, construído no confronto entre o que pensamos e o que autores e interlocutores pensam e elaboram sobre a realidade estudada, em um processo intersubjetivo que pressupõe a articulação em um mesmo horizonte teórico, os membros de nossa comunidade profissional. Tarefa que torna a nossa ação como cientista social menos ingênua, e por isso mais criativa, uma vez que esse conhecimento elaborado deverá transcender a disciplina.

O empreendimento de escrita da tese se constituiu a partir de sua divisão em duas partes: na primeira delas, intitulada “Da devoção popular tradicional à massificação da devoção: alguns aspectos da dinâmica histórica na configuração do Círio de Nazaré”, temos como objetivo principal analisar o Círio de Nazaré através de alguns eventos sócio-históricos, a partir da dinâmica de interdependência – reveladora de permanentes tensões e negociações dos vários campos sociais presentes nos processos de modernização social – entre a igreja católica na Amazônia, o Estado, o mercado e as amplas parcelas da população que, ao longo da história têm influenciado e reconfigurado as práticas de organização, assim como a constituição de novas sensibilidades que dão contorno às novas formas de festejar o Círio na contemporaneidade.

Pretendemos compreender o modo como de uma cultura popular tradicional (devoção popular tradicional), no caso, o Círio de Nazaré, se transforma em uma dinâmica da cultura popular de massas (massificação popular da devoção); como, a partir do processo de racionalização modernizante – dinâmica da economia lúdica da fé –, deu-se a transformação dessa festa em um grande espetáculo. Nosso entendimento é de que o massivo é a expressão do entrecruzamento de lógicas socioculturais distintas; deve ser visto em uma perspectiva histórica, o que não significa a sobrevivência do passado, mas o reconhecimento de que as novas condições sociais que se estruturam preservam antigas matrizes culturais, ao mesmo tempo em que se expressam em um novo formato. Nesse sentido, as matrizes culturais antigas são atualizadas, reelaboradas, fazendo-se a passagem do folclórico ao massivo, do tradicional ao moderno. O massivo vem do popular; tem matrizes culturais populares e não deixa de sê-lo quando é apropriado e reelaborado pelos meios de comunicação e indústria do lazer, voltados para a massa urbana (MARTÍN-BARBERO, 2008).

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apresentar ao leitor as dinâmicas sócio-históricas que atualizam o mito. Ao tomarmos como centro de análise o mito fundador e alguns acontecimentos históricos que, muitas vezes como mito, são relembrados anualmente durante essa festividade, fazemos por acreditar que as rememorações do mito fundador são reveladoras de um processo específico de formação e construção identitárias regionais, assim como possibilitam refletir e entender com mais clareza como a Igreja Católica e o Estado formulam suas intervenções no plano da cultura.

No segundo capítulo intitulado “O Círio da Belle Époque amazônica: projeto modernizador e reforma católica” analisaremos o evento social ocorrido a partir de meados do século XIX, que se configura como propulsor de deslocamentos econômicos, sociais e culturais, de iniciativas modernizadoras na cidade de Belém e no Círio de Nazaré. Trata-se das transformações agudas que a cidade passou a experimentar em seu cotidiano através do reforço13 do processo de inserção da Amazônia no sistema capitalista mundial, a partir da atividade econômica de extração e comercialização da borracha, período de intensa urbanização e consequente crescimento populacional, conhecido como Belle Époque. No mesmo período, mas para além dele, uma vez que se estende até a década de 1960, tomaremos também como centro de análise os impactos da Reforma da Igreja Católica no Círio de Nazaré. O capítulo terá como fio condutor a análise das novas práticas culturais institucionalizadas oriundas do lazer europeu, presentes na cidade de Belém e no Círio de Nazaré e episódios ocorridos durante o processo de reforma da Igreja Católica e os seus impactos sobre a festa. A principal questão colocada para análise neste capítulo é: até que ponto, nesse período, os valores de uma cidade que se urbanizava sob a influência de práticas burguesas exógenas e da reforma católica fixaram-se e assumiram novas feições na conjugação com as práticas populares existentes? Como, a partir desse convívio tenso, foram se configurando os conflitos e as complementaridades na formação híbrida da festa?

No terceiro capítulo “O popular massivo no Círio de Nazaré”, à luz da categoria de análise popular massivo, segundo acepção de Martín-Barbero (2008), analisaremos algumas mudanças socioculturais ocorridas no Círio. Esse autor realiza uma leitura do social a partir dos meios de comunicação e cultura de massa, tomando-os numa perspectiva de reciprocidade e complementaridade através da crítica às análises que tendem a reduzir um ao outro (MARTÍN-BARBERO, 2008). Estaremos falando do final do processo de romanização, na

13 Utilizamos o termo reforço por entendermos assim como MAUÉS (1999) que essa não é a primeira ofensiva

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década de 1960 e do período desenvolvimentista populista, momento que se caracteriza por grandes saltos técnico-científicos, incluindo uma verdadeira revolução dos meios de transportes e comunicacionais. Podemos dizer que o avanço das técnicas de informação e comunicação nos permite utilizar com segurança, a partir de então, a categoria cultura popular massiva. Serão cada vez mais perceptíveis os impactos dos meios de comunicação na constituição de novas sensibilidades.

Na segunda parte da tese “Celebrar a rainha da Amazônia: uma economia lúdica da fé” analisaremos o Círio e as reconfigurações que essa festividade toma a partir da década de 1980, intensificadas nas décadas seguintes devido ao avanço da chamada globalização econômica e tecnológica e à mundialização da cultura (ORTIZ, 2005, 2006b). Segundo o autor, embora sejam reconhecidas de forma distinta, globalização e mundialização não se encontram separadas, pois o universo da cultura está intimamente relacionado com o universo material da técnica e do mercado. A mundialização pressupõe um desenvolvimento do processo tecnológico e econômico, de tal modo que podemos falar da existência de um mercado e de uma tecnologia global, definidos pelo capitalismo e presentes em todos os lugares, mas não podemos falar em uma cultura global, nem da existência de uma cultura com as mesmas características em todos os lugares. Para Ortiz, o universo da cultura é diverso e, nesse sentido, podemos falar em um processo de mundialização da cultura, que de forma ampla e diversa articula-se ao movimento de globalização da técnica e da economia.

Nesta fase do capitalismo, os bens materiais e imateriais são consumidos como mercadorias, sendo o universo do consumo referência na organização dos estilos de vida, servindo como fonte de legitimação, diferenciação e também de desigualdade. Nunca foi tão evidente perceber o quanto as manifestações culturais se tornaram objetos fundamentais do processo de acumulação, assumidos em muitas realidades locais como condição mesma para o desenvolvimento econômico.

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como megaeventos turísticos. Em linhas gerais, apontaremos as principais características que passam a fazer parte desse tipo de evento no atual período, tendo como base o Círio de Nazaré. Em seguida, analisaremos três processos sociais importantes para a consolidação da economia lúdica da fé: as relações entre a igreja católica, a cultura e o turismo; as demandas mundiais por bens e serviços culturais, a ampliação das práticas de lazer no Brasil e o imbricamento entre cultura e desenvolvimento a partir da interferência de instituições transnacionais.

No quinto capítulo, “Organização da festa: a espetacularização do Círio de Nazaré”, com o objetivo de melhor entender alguns processos evidenciados na organização do Círio que, ao nosso modo de ver, acionam os dispositivos próprios do espetáculo analisaremos como se estrutura a diretoria da festa como gestora de grande parte dos eventos do Círio; a relação desta com o Governo do Estado, Prefeitura Municipal de Belém, empresas patrocinadoras e apoiadoras e em relação aos organizadores de outras manifestações associadas ao Círio entre as quais Arrastão do Círio, Festa da Chiquita, Auto do Círio e Feira de Brinquedos de Miriti; a criação do Projeto Patrocinador Oficial do Círio de Nazaré (POCN) e o significado deste para a diretoria da festa e para as empresas patrocinadoras.

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C

APÍTULO

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O SENTIDO/SIGNIFICADO DA ATUALIZAÇÃO

DO MITO FUNDADOR DO CÍRIO DE NAZARÉ14

Tornar-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores destes mecanismos de manipulação da memória coletiva (LE GOFF, 2003, p. 422).

Todos os anos, principalmente no segundo domingo do mês de outubro, diversos veículos de comunicação, em especial os paraenses, muitas vezes a partir da colaboração de intelectuais (historiadores, antropólogos, teólogos), de padres e de membros da diretoria da festa do Círio de Nazaré, atualizam um imenso público sobre o mito de origem e fatos históricos do passado relacionados com a devoção a Nossa Senhora de Nazaré, de modo que muitas pessoas passam a conhecer e/ou rememorar o passado do Círio como um ato social do presente e do futuro.

Os veículos de comunicação, a Igreja Católica, o Estado, as empresas entre outras instituições, cumprem esse papel porque o Círio de Nazaré em Belém, como a grande festividade do catolicismo popular, está enraizado na memória coletiva e o mito fundador dessa festividade, como veremos, está presente nas práticas dos rituais que são alicerces dessa vivência festiva. Nessa perspectiva, os símbolos que deram origem à festividade são atualizados e ressignficados a partir dos dispositivos da modernidade.

14 Emprestamos de Edson Farias, para o exercício de interpretação e análise do mito fundador do Círio de Nazaré, as

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Isidoro Alves (1980) analisa o sentido do que chamou de “retórica do Círio”. Segundo esse autor, a metalinguagem presente nos escritos sobre o Círio se configura como “instrumento e controle do conhecimento” na medida em que esses discursos são organizados através de significados recorrentes, mas que nem sempre são capazes de mostrar o verdadeiro significado da festa. Ao revelar, ao repetir os acontecimentos, vão elegendo aspectos que são destacados, em detrimento de outros, e criam uma “retórica do conhecimento”. O discurso que se forjou sobre a festa expressa uma ideologia através de signos recorrentes. No entanto, o fato de haver um simulacro sobre o sentido verdadeiro da festa não significa dizer que ela tenha deixado de se expressar “no processo mesmo de sua performance” (ALVES, 1980, p. 92).

Para Maurice Halbwachs (2006) a memória não é só um fenômeno de interiorização individual, ela também é, sobretudo, uma construção social e um fenômeno coletivo. Sendo construção social ela é, em parte, modelada pela família e pelos grupos sociais. Nesse sentido, os diversos agentes sociais que celebram o Círio, a cada ano reavivam os acontecimentos que tiveram lugar em um tempo primordial, “tempo fabuloso”, sendo o passado evocado para legitimar novos acontecimentos. Os fatos escolhidos do passado inundam as questões do presente, havendo assim uma reapropriação do passado como forma de conduzir as práticas do presente e projetá-las para o futuro.

Em muitas dessas narrativas alicerçadas na memória coletiva torna-se difícil distinguir o mito da história, uma vez que se misturam realidade e fantasia, onde temos o universo dos milagres, do “maravilhoso”, expresso pelos mitos. Estes, por sua vez, manifestam-se no mundo, na vida concreta, no cotidiano dos diversos grupos sociais, recebendo permanentemente novos sentidos que, contudo, sempre são portadores de cristalizações processadas através da memória. Daí podermos concordar com Jacques Le Goff, referindo-se aos povos sem escrita, de que o primeiro domínio da cristalização da memória coletiva é o mito de origem, o qual dá fundamento à existência das etnias ou das famílias, fundamento que, segundo esse autor, é aparentemente histórico, permitimo-nos, no entanto, opinar que o fenômeno da aparência não pode ser apreendido de forma dicotomizada de seu conteúdo. Mito e significação histórica formarão sempre um par indissociável a nos desafiar no esforço interpretativo dos processos sociais. É esse o sentido que Le Goff esclarece, ao afirmar que a “história dos primórdios dos povos é como um ‘cantar mítico’ da tradição” (LE GOFF, 2003, p. 424).

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entre as classes, mas expressar-se-á, como possibilidade maior, em cristalizações correspondentes às classes, aos grupos ou indivíduos que em determinados períodos históricos exerçam o poder de definir o que deverá ser esquecido ou lembrado. Nesta perspectiva, a memória é seletiva; os “[...] esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória coletiva” (LE GOFF, 2003, p. 422).

Geraldo Coelho (1998), ao desenvolver pesquisa sobre o Círio de Nazaré, buscou conhecer as origens dessa tradição em Portugal, mostrando-nos como os elementos fundadores da devoção a Nossa Senhora de Nazaré, trazida ao Pará há mais de dois séculos, ainda no período colonial da história do Brasil, preservam traços muito próximos àqueles originariamente lusitanos. As diversas mudanças e agregações de novos elementos no Círio de Nazaré de Belém não chegaram a abalar a estrutura fundante da festa, podendo-se afirmar que o formato contemporâneo dessa festividade mantém forte semelhança simbólica com sua constituição setecentista em Portugal. Segundo esse autor, isso só foi possível porque o Círio é uma manifestação do “catolicismo devocional”; significa dizer do catolicismo popular, que não experimentou formas rígidas de controle eclesiástico, de modo que a memória coletiva pôde se afirmar e difundir preservando os símbolos fundadores do Círio na sociedade local.

Como veremos, não têm sido poucas as tentativas da igreja hierárquica (catolicismo oficial) e do Estado de “domesticar” as manifestações populares, principalmente as tidas como profanas, numa clara intenção de controlar a memória coletiva. A festividade do Círio de Nazaré em Portugal é um claro exemplo do poder de controle da igreja hierárquica sobre as manifestações populares. Essa festa, que nos séculos XVII e XVIII teve grande importância naquele país, contemporaneamente tornou-se uma expressão de importância secundária devido, entre outros fatores, ao incentivo dado pela igreja e governo portugueses à devoção a nossa Senhora de Fátima. Especialmente a partir do início do século XX e com o advento do fascismo salazarista, a devoção em Fátima, no afã de combate ideológico ao comunismo, implicou um concomitante processo de secundarização da tradição da festa de Nazaré (MAUÉS, 2008).

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entre essas duas esferas, mesmo nesse período; na maioria das vezes a relação foi de complementaridade. Podemos dizer que muitas das sínteses resultantes das tensões entre as manifestações populares e as hierárquicas foram resultantes de um processo tácito de pactuação entre classes, grupos e instituições que, mesmo sendo portadoras de forças desiguais, são obrigadas a considerar e absorver algumas formas já cristalizadas como tradição, como condição mesma do processo de reinvenção da tradição do modo como contemporaneamente contornam-se as novas práticas no âmbito da festividade nazarena em Belém.

Queremos aqui destacar um dos aspectos dessa memória coletiva anualmente relembrada: o mito fundador do Círio de Nazaré, em Belém. Fato apreendido e analisado de diferentes abordagens (VIANNA, 1968; ALVES, 980; ROCQUE,1981; MAUÉS, H., 1999; PANTOJA, 2006). Se a origem da devoção dos paraenses pela Virgem de Nazaré veio de Portugal15, trazida pelos colonos açorianos no século XVII para, primeiramente, o município de Vigia e, em seguida, para Belém. É nessa última cidade, pela importância geopolítica que desempenha, que essa devoção toma características de grandes proporções, processadas a partir de relações entre, de um lado, os atos criadores da população local (catolicismo popular) e, de outro, o catolicismo oficial, na sua estreita relação com os aparatos institucionais do Estado.

Vários documentos históricos informam que a imagem da Virgem Nossa Senhora de Nazaré teria sido achada por um caboclo muito religioso chamado Plácido José de Souza, no século XVIII, às margens do Igarapé Murucutu, situado na estrada do Utinga. Ao achar a imagem, Plácido a leva para sua casa, que ficava na estrada do Maranhão, atual Avenida Nazaré, local de parada de muitos viajantes, que logo passa a ser visitada também e principalmente por pessoas da redondeza. Assim, tem início a devoção a Nossa Senhora de Nazaré, que recebe esse nome porque a imagem achada é uma cópia da imagem venerada em Portugal (Figura 1).

15 Mito e história se entrecruzam nas abordagens sobre a origem da devoção em Portugal. Esta estaria ligada ao

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Figura 1 – Foto representativa do suposto achado da imagem de Nossa Senhora de Nazaré por Plácido. Foto: Hayanna Hálex. Fonte: A foto faz parte do banco de imagens da série especial “Curiosidade do Círio” dirigida por Paulo Rocque (Rede Brasil Amazônia de Comunicações).<www.diáriodopará.com.br/N-64524-TV+RBA+BAST>. Capturada em: 2 jan. 2010.

Imagem

Figura  1  –  Foto  representativa  do  suposto  achado  da  imagem  de  Nossa  Senhora  de  Nazaré  por  Plácido
Figura 2 – Imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Fonte: Cartaz do Círio 2009.
Figura 3 – Logomarca da campanha para arrecadação de doações financeiras para a construção da “Casa de Plácido”
Figura 5 – Folder (frente e verso) da campanha para a construção da Casa de Plácido.
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Referências

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