OS MODELOS ATÔMICOS:
CONSTRUINDO A
ESTRUTURA DOS ÁTOMOS
Flavio Leandro de Souza
sites.google.com/site/fleandrosouzaufabc
O Átomo de Dalton
Para Dalton, o átomo era o menor constituinte de qualquer
elemento químico, uma entidade indivisível,
indestrutível. Um átomo de um dado elemento não poderia jamais se transformar em um átomo de outro elemento.
Costuma-se representar o átomo de Dalton por uma
esfera, mas na verdade na época não havia qualquer possibilidade de estudar individualmente um átomo, que dirá estabelecer sua “forma”.
O melhor que se pode fazer é dizer qual o “tamanho típico”
de um átomo: da ordem 10-10 m.
Em particular, uma pergunta totalmente sem resposta era:
porque átomos se combinavam apenas em determinadas maneiras formando diferentes compostos químicos?
O Átomo de Thomson
Thomson descobriu a existência de
uma partícula menor que o átomo, que podia ser “arrancada” do átomo em determinadas condições.
O elétron era muito mais leve do que
o átomo em si. Logo, ele imaginou que os elétrons seriam pequenas partículas negativas circulando em órbitas esféricas dentro do átomo.
O restante do átomo seria uma esfera
positivamente carregada, já que
sabia-se que o átomo, como um todo, era eletricamente neutro.
Rutherford descobriu que a maior parte da massa do
átomo tinha que estar concentrada num “caroço”, ou
núcleo atômico, que é muito menor do que o átomo como um todo.
Como o átomo como um todo é neutro, este núcleo tinha
que ser necessariamente positivo.
O Átomo de Rutherford
10
-10
m
10
-14
m
A composição exata do núcleo
atômico só foi estabelecida na década de 1930, com a
O modelo de Rutherford parecia consistente do
ponto de vista clássico: o núcleo era positivo, os elétrons eram negativos, logo a força elétrica de atração resultante seria o similar à força
gravitacional, que garante que os planeta girem ao redor do Sol. Daí o nome de modelo planetário
para o modelo de Rutherford.
Segundo as leis de Newton, essa órbita poderia
ser circular ou elíptica. Vamos considerar a órbita como circular por simplicidade. A órbita elíptica complicaria as contas, e não modificaria as conclusões.
O essencial é perceber que o movimento do
elétron é acelerado. Isso terá consequencias dramáticas!
Um elétron a uma distância r do núcleo atômico gira ao redor
do núcleo com uma certa frequencia que depende da sua velocidade e do raio r.
A energia deste elétron é a soma de sua energia cinética e energia
potencial:
rm
kZe
=
v
2
F
=
k Z e
2
r
2=
O problema do modelo de Rutherford vinha da teoria
eletromagnética, construída por Maxwell.
No eletromagnetismo, prova-se que:
Toda carga acelerada irradia um onda eletromagnética. Quando a carga executa um movimento períodico,
a frequencia da radiação emitida é igual à do movimento periódico.
Isso significa que o átomo de Rutherford não
é estável. O elétron emitiria radiação
eletromagnética, perdendo energia, e caindo em direção ao núcleo.
Segundo o modelo de Rutherford, o átomo
Uma onda é uma perturbação periódica que se
propaga no espaço.
Exemplo: “ondas” na superfície da água, ondas
sonoras.
O exemplo mais simples de uma onda é uma onda senoidal.
amplitude
Comprimento de onda (l): é a distância na qual o onda se repete;
Dimensão: [l] = [comprimento] = L ; Unidades: m, ….
Freqüência (f): número de ciclos por segundo [f=n/s]
[ f ] = [tempo]-1 = T-1 ; Unidades = usualmente, s-1 = Hz (Hertz)
Ondas eletromagnéticas
O que são ondas eletromagnéticas?
São radiações que são produzidas pela oscilação de campos
magnéticos e elétricos que se propagam (no vácuo) com
velocidade
c
= 3 x 10
8m/s .
Ondas eletromagnéticas
Maxwell descobriu as ondas eletromagnéticas quando resolveu, no caso
mais simples (vácuo) as equações do eletromagnetismo (que foram mais tarde chamadas de equações de Maxwell).
Calculando a velocidade destas ondas, Maxwell descobriu a relação:
Colocando os valores para e0 e m0, encontrou o resultado extraordinário,
que concordava com a velocidade da luz no vácuo, conforme medida na época.
Daí, Maxwell descobriu que a luz é uma radiação eletromagnética. Descoberto isso, conseguiu uma explicação muito simples para a
existência de diferentes cores: o comprimento de onda.
Lembrando a velocidade da luz, e a
relação entre velocidade e frequencia de uma onda:
A Luz
Newton foi o primeiro a perceber que a “luz branca” é
uma mistura de todas as cores, usando um prisma.
Lembre-se: o mesmo efeito é responsável
O que curva a luz ao passar de um meio
para outro (do ar para o vidro, e do vidro para o ar) é um fenômeno chamado
refração, que você estudará mais adiante.
O ângulo de refração depende do
comprimento de onda, por isso cores
diferentes refratam por ângulos diferentes, e o prisma conseque separar as cores da luz branca.
Microondas, raios-X, ondas de rádio, radiação gamma... são todos nomes para ondas eletromagnéticas de diferentes comprimentos de onda.
O espectro eletromagnético é o conjunto de radiações com todos os comprimentos de onda possíveis.
Uma reflexão interessante: o que é uma antena de rádio? É um equipamento
que consegue de alguma forma “absorver” ondas de rádio.
Por exemplo, uma rádio que opera em 100MHz detecta, por suas antenas,
uma radiação de comprimento de onda
O Espectro Eletromagnético
λ
=
c
f
=
3
×
10
8m
/
s
100
×
10
6Hz
=
3
m
O olho humano possui células chamadas de cones,
que estão “sintonizadas” para absorver ondas
eletromagnéticas de frequencia corresponde às três cores básicas: vermelho, azul e verde.
Estes sinais são processados pelo cérebro, que os
interpretam como “cores”. Misturas entre as cores “primárias” são percebidas como novas cores.
Newton descobriu uma forma de “enganar” o olho humano, provando que
efetivamente o cérebro interpreta a combinação das cores como a cor branca!
O Espectro Eletromagnético
http://www.youtube.com/watch?v=b3NXsgjPSQo
Note que não há nada de fisicamente diferente ou especial nas frequências
que denominamos “vermelho”, “verde” ou “azul”. O que elas tem de especial é principalmente que nossos olhos conseguem detectá-las!
Pergunta: é possível produzir tinta branca misturando tintas de cores
Em resumo: a luz é uma onda eletromagnética.
As características essenciais de uma onda que precisamos manter em mente
são:
ondas são extensas, ao contrário de partículas que são localizadas
ondas são caracterizadas por amplitude, frequência, comprimento de onda,
e velocidade da onda
ondas interferem entre si (veremos mais sobre isso adiante)
ondas transmitem energia
No eletromagnetismo, prova-se que:
Toda carga acelerada irradia um onda eletromagnética. Quando a carga executa um movimento períodico,
a frequencia da radiação emitida é igual à do movimento periódico.
f
∼
1
r
3/2E
∼
−
1
r
Ao emitir radiação, o elétron tem que perder energia. Isso significa que r diminui. Logo, ele passa a emitir radiação com maior
frequencia, caindo ainda mais rapidamente até...
Obviamente não é isso que acontece no mundo real!
O modelo de Rutherford claramente precisa ser substituido por algo mais
consistente.
Para conseguir isso, tivemos antes que estudar, pela experiência, a forma
como os diferentes átomos absorvem / emitem radiação eletromagnética... e descobrimos coisas muito interessantes!
Após Bunsen inventar o
aparelho que leva seu nome, vários cientistas passaram a fazer a seguinte experiência: passavam a luz emitida por uma chama de
Se a luz emitida fosse branca, uma mistura de todas as cores, esperaríamos
ver um “arco-iris” contínuo de cores ao girar a luneta.
Mais ainda: o conjunto de cores que são observadas depende do elemento
Outra observação: a luz emitida do sol não
era absolutamente “branca”: faltavam algumas cores!
Observando com atenção, você verá sutis
CONCLUSÕES
Gases puros de um determinado elemento, quando queimados liberam luz
que é uma mistura de algumas cores (frequências) específicas.
O conjunto de frequências emitidas por um determinado elemento é chamado
de espectro de emissão deste elemento.
O espectro de emissão é diferente para diferentes elementos. Ele é como uma
“impressão digital” daquele elemento.
Gases puros frios, ao serem atravessados por luz, absorvem luz de algumas
frequências específicas. O conjunto destas frequências é o espectro de absorção.
Para cada elemento, o espectro de emissão é igual ao espectro de absorção.
MAS POR QUÊ?
Não havia nenhuma explicação para o fato de que átomos de determinado elemento só pudessem emitir/absorver luz de determinadas frequências.
Balmer, em 1885, descobriu por tentativa e erro uma fórmula que previa as
frequencias do espectro do Hidrogênio. A concordância dos valores da fórmula com o espectro observado chegava a ser 0,1%.
Se existe uma
fórmula, deve
haver uma teoria
c
=
λ ν
Usando que:
Chega-se a:
Para n muito grande,
o termo 1/n² desaparece:
O limite previsto pela fórmula de Balmer foi realmente observado no espectro do Hidrogênio.
Trata-se de uma linha não-visível, na região do ultravioleta.
Em 1906 e 1908, Lyman e
Paschen encontraram mais linhas no
Fórmula de Balmer
Temos portanto um cenário
radicalmente diferente daquele previsto pelo modelo de
Rutherford, baseado nas leis de Newton e do Eletromagnetismo! Estes previam um espectro de emissão contínuo, com emissão de frequências progressivamente menores, até o colapso do átomo.
Por outro lado, as leis da espectrocopia sugeriam que havia alguma ordem pos trás do espectros atômicos.
Mas que ordem era esta?
Radiação Térmica
A solução começou a surgir ao analisar outro fenômeno, a radiação térmica.
Ao invés de estudar a luz emitida por um gás puro (ou seja, essencialmente por átomos individuais), busca-se entender a radiação emitida por corpos macroscópicos.
Quando uma radiação incide em um corpo, parte é refletida e parte é
absorvida. Corpos de cor clara refletem a maior parte da radiação visível
incidente, enquanto os corpos escuros absorvem a maior parte da radiação.
Radiação Absorvida: aumenta a energia cinética dos átomos, fazendo que
oscilem mais rápido, logo a temperatura do corpo aumenta (temperatura = energia cinética média dos átomos)
Radiação emitida: Os átomos contém partículas carregadas (elétrons) que
são acelerados pelas oscilações, assim eles emitem radiação, o que reduz a energia cinética dos átomos, diminuindo a temperatura.
A radiação eletromagnética emitida nessas circunstâncias é chamada radiação
térmica. Em temperaturas moderadas (abaixo de 600 0 C) ela não é vísivel
comprimentos de onda maiores que a luz vísivel (p.ex., infravermelho).
Quando um corpo é aquecido, a radiação térmica
aumenta e a energia irradiada se estende a
comprimentos de onda cada vez menores. Entre 600-700 0 C o corpo começa a brilhar com luz própria
chamados corpos negros.
Um corpo que absorve toda a radiação incidente é chamado de corpo negro.
Em outras palavras, um corpo negro é um corpo que não reflete nenhuma luz,
toda a luz emitida por ele é devido a sua temperatura.
Ao contrário do que um gás, um corpo negro emite radiação que se distribui
continuamente por vários comprimentos de onda. O espectro de emissão
neste caso é um gráfico cujo “cume” indica os comprimentos de onda onde se concentra a radiação do corpo negro.
A máxima emissão acontece no comprimento de onda l:m .
O comprimento de onda para qual a
radiação é máxima varia inversamente
com a temperatura
Lei de deslocamento de Wien
A Equação de Rayleigh Jeans
Lei de Rayleigh-Jeans
Tanto os teóricos quanto os experimentais concordavam com um fato
extraordinário: o espectro de radiação do corpo-negro não dependia do material ou do formato do corpo negro. Era uma propriedade universal, que deveria ser consequencia direta das leis da física.
A fórmula para o espectro foi deduzida por Rayleigh e Jeans baseado nos
princípios da termodinâmica, do eletromagnetismo e das leis de Newton.
A equação deduzida era da forma
Dados experimentais
Além de só concordar com os dados experimentais para l
muito grande (infravermelho), a lei de Rayleigh-Jeans previa um absurdo, a
Catástrofe ultravioleta:
significa que a emissão de energia por radiação de um corpo negro seria infinita!Proposta de Planck
• Em 1900 Max Plank, percebeu que o problema poderia ser resolvido se os átomos do corpo negro só pudessem emitir (ou absorver) energia (radiação térmica) em determinadas
quantidades fixas, que ele chamou de quanta (plural de
quantum);
• A relação entre a energia e a frequência de um quantum é
E = n h f
onde h é a constante de Planck (6,626 x 10-34 J s) e n um número
inteiro.
• Para entender a quantização, considere a subida em uma rampa
versus a subida em uma escada: Para a rampa, há uma
A energia de um sistema não é uma variável contínua. A energia somente pode assumir alguns valores específicos. Dizemos que a energia, ao menos na radiação de um corpo negro, é quantizada.
CONTÍNUO DISCRETO
Radiação de Corpo Negro
Proposta de Planck
• A relação
E = n h f
conseguia resolver o problema, mas Planck não tinha nenhumajustificativa física para ela. Nada nas leis conhecidas da física justificava este tipo de restrição.
• Planck chegou a afirmar que o postulado da quantização foi
um “ato de desespero”, feito para obter uma fórmula que
concordava com o experimento. Planck era então um físico já muito experiente, e reconheceu que seria impossível
O modelo quântico de Bohr para o átomo
Em 1913, o dinamarquês Niels Bohr propôs um modelo
para o átomo de hidrogênio que se inspirava na solução encontrada por Planck para o problema do corpo negro. Este modelo solucionava os problemas do modelo de Rutherford, e explicava os resultados de espectroscopia do Hidrogênio e de outros elementos leves.
Para resolver o problema da instabilidade elétrica do
modelo atômico, Bohr utilizou os seguintes postulados:
Os elétrons se movem apenas sobre certas órbitas
permitidas, e ao fazê-lo não irradiam energia.
Os átomos irradiam quando um elétron sofre uma
transição de uma órbita para outra e a frequência f da radiação emitida está relacionada às energias das órbitas através da equação:
O modelo quântico de Bohr para o átomo
O elétron só pode girar em determinadas órbitas ao redor do núcleo, marcadas pelos círculos vermelhos da figura.
Para resolver o problema da irradiação eletromagnética que deveria acontecer com o elétron acelerado, Bohr decretou que isso não acontecia quando o elétron estava sobre uma dessas órbitas.
Num átomo de Hidrogênio em condições normais, o elétron está na órbita mais baixa, mais próxima do núcleo, como na figura.
E
1E
2E
3E
4O modelo quântico de Bohr para o átomo
Ao receber radiação
eletromagnética, o elétron absorve energia e pula para uma órbita mais alta.
Neste processo, ele absorve a seguinte quantidade de energia:
Segundo o postulado de Bohr, isso significa que ele absorve luz com uma frequência
específica:
O elétron só pode absorver a energia exata para pular para um dos níveis permitidos.
E
1E
2E
3E
4O modelo quântico de Bohr para o átomo
Δ
E
=
E
3−
E
1 No experimento de espectroscopia, isso aparece como uma linha negra no
espectro, correspondendo à luz que foi absorvida pelo Hidrogênio para que o elétron fizesse seu “pulo”.
O modelo quântico de Bohr para o átomo
Por outro lado, se o elétron está numa órbita mais alta, ele
vai naturalmente “pular” para
uma órbita mais baixa, e ao fazer isso vai liberar energia eletromagnética com frequencia igual a
E
1E
2E
3E
4O modelo quântico de Bohr para o átomo
No experimento de espectroscopia, isso acontece quando o Hidrogênio é
aquecido, o que faz os elétrons subirem para níveis mais altos de energia. Quandos eles caem, liberam luz com frequencia correspondente a:
Transições para o nível mais baixo emitem fótons com maior energia, logo com menor comprimento de onda.
Transições para o segundo nível emitem fótons com energia menor, logo com maior comprimento de onda.
AGORA UM POUCO DE MATEMÁTICA
A condição de quantização de Bohr refere-se à quantização do momento
angular:
L
=
m v r
=
n h
2
π
Isto resulta na seguinte expressão para os raios das órbitas permitidas,
r
n=
a
0n
2Z
a
0=
h
24
π
2m k e
2=
0,529
×
10
−10
m
As energias associadas a cada uma dessas órbitas é
E
n=
−
E
0Z
2n
2E
0=
2
m k
2Z
2e
4h
2=
2,19
×
10
−18
AGORA UM POUCO DE MATEMÁTICA
Os comprimentos de onda associados a estas transições permitidas são:
1
λ
=
R Z
2(
1
n
2f−
1
n
i2)
R
=
E
0hc
=
1,09
×
10
7
m
−1 Esta expressão, para Z = 1, concorda com a fórmula que havia sido descoberta
por Rydberg. A teoria de Bohr consegue prever as propriedades dos espectros dos elementos, pelo menos dos primeiros elementos da tabela periódica