FOCO DE UM POVO
Imagine que você se encontra em Jerusalém, há dois mil anos. É a festa da Páscoa e judeus do mundo inteiro estão vindo celebrar a estação sagrada. Eles vêm de to das as direções, primeiro às centenas, depois aos milha res e, finalmente, às centenas de milhares. Quando chega o dia, uma boa parte de toda a população de judeus do mun-do está concentrada nesta cidade única. Até onde a vista alcança, os declives das montanhas estão cobertos de barracas, onde as pessoas assam o Cordeiro Pascal que, na época do Templo, era o ponto cen-tral do serviço da Páscoa.Como ordena a Torá, o Cordeiro Pascal pode ser preparado so-mente num lugar: “Sacrificarás a oferenda da Páscoa para o Senhor teu D’us ... no lugar que D’us es colher para fazer morar o Seu Nome lá” (Deuteronômio 16:2). A Torá afirma que D’us escolheria um lugar e que esse seria o único lugar do mundo onde essa oferenda poderia ser feita. E o que valia para a oferenda da Páscoa, também era válido para muitos outros aspectos importantes da vida judaica. De acordo com a regra esta belecida pela Torá, esses rituais podiam ser observados somente no “lugar que D’us escolhesse”.1 Este “lugar”
era Jerusalém.
Durante quase um milênio, desde os tempos em que foi dedica-da pelo Rei David até a sua destruição pelos romanos, Jerusalém foi o ponto focal do povo judeu.2 Havia certas coisas que somente
judeu, ele tinha de ir a esta cidade sagrada para executá-las. Como havia tantos rituais que podiam ser executados so mente em Jerusa-lém, os nossos sábios ensinam que “Jerusalém é mais sagrada que o resto da Terra de Israel”.3
Entre as mais emocionantes destas observâncias es tavam as três peregrinações anuais. Há três festividades, Sucót, Pessach e Shavuót, durante as quais, nos dias do Templo, a Torá exigia que todo judeu capaz de fazê-lo, empreendesse uma peregrinação ao “lugar escolhi-do por D’us”. A Torá assim estabelece: “Três vezes ao ano, toescolhi-dos os teus homens deverão aparecer perante o Senhor teu D’us, no lugar que Ele escolher, na Festa das Matsot (Pessach), na festa de Shavuot e na festa de Sucót” (Deuteronômio 16: 16).
Durante estas peregrinações, judeus do mundo todo afluíam em multidões a Jerusalém. Eles renovavam amizades e trocavam notí-cias. Em consequência, os judeus eram unidos e formavam um povo único.4 Mais importante ainda, tudo isto era feito dentro de um
contexto de santidade e serviço a D’us. O fato de tantas pessoas se reunirem para orar propiciava mais força religiosa e moral a cada um deles; tanto assim que durante essas peregrinações, nenhum judeu era suspeito de fazer mal a outro, de maneira alguma.5 Assim,
Jeru-salém unia o povo judeu num contexto que direcionava esta unidade para a unidade de D’us.
Isto ajuda a entender por que o “lugar escolhido por D’us” tinha de ser uma cidade. O que é uma cidade?
Além de uma mera concentração de pessoas, é o local onde uma civilização cresce e se desenvolve. A própria concentração de pessoas numa cidade produz um inter câmbio e crescimento de ideias. Por-tanto, não é por acaso que o crescimento da civilização, em geral, tenha emanado historicamente das suas cidades. Enquanto as terras do interior proporcionavam alimento para o corpo, as cidades pro-porcionavam alimento para a mente e a alma. Como faz notar o rabino Samson Raphael Hirsch, a palavra em hebraico que significa cidade, ir, é oriunda da mesma raiz que a palavra ur, que significa “despertar”.6 É a cidade que desperta a humanidade, produzindo os
cons-trução de cidades teve como resultado muitos dos mais importantes desenvolvimentos da civilização.7
O ponto focal da civilização judaica era desenvolver um rela-cionamento com D’us; isto também exigia uma cidade. Jerusalém tornou-se o lugar onde judeus vindos do mundo inteiro se reuniam para trocar ideias e desenvolver uma civilização, promovendo este relacionamento. Vitais para este processo foram o Templo e os mui-tos professores de Torá que moravam em Jerusalém, o que examina-remos num capítulo mais adiante. Mas, em geral, Jerusalém é que era a cidade – a “despertadora” – provocando e motivando o judeu para a sua missão. Não surpreende que os nossos sábios ensinem que Jeru salém é a mais alta realização do conceito de Cidade.8
Isto pode ser visto muito explicitamente também em relação ao “Segundo Dízimo” (Maasser Shení). Havia numerosos dízimos de todas as plantações que cresciam na Terra Sagrada, que tinham de ser oferecidos como uma espécie de imposto de renda, a fim de dar apoio aos sacerdotes (cohanim) e aos levitas, que serviam como líde-res e professolíde-res religiosos. Uma décima parte de todos os produtos que cresciam na Terra Santa constituíam o dízimo dado aos levitas, enquanto uma porção menor, conhecida como Terumá, era dada aos cohanim.
Além disso, existia o Segundo Dízimo.9 Este não era dado; o
próprio dono precisava comê-lo em Jerusalém ou resgatá-lo e gastar o dinheiro comprando alimentos na Cidade Sagrada. Aqui, a pró-pria Torá dá um motivo: “Comerás perante o Senhor teu D’us, no lugar que Ele escolher para moradia do Seu Nome, a dízima do teu trigo, vinho e óleo ... para que sempre aprendas a temer o Senhor teu D’us” (Deuteronômio 14:23).
Em vez de dar a sua dízima ao sacerdote e ao levita, o próprio dono tornava-se um “sacerdote e levita”, enquanto vivia da sua dí-zima em Jerusalém.10 Ele teria de tirar algum tempo da sua
atmosfera de Jerusalém, às orações e ao estímulo intelectual que per-meavam o ar; e seriam capazes de crescer e desenvolver-se nos cami-nhos prescritos pela Torá. Assim, o ideal seria cumprido, enquanto a totalidade do povo judeu tornar-se-ia “um reino de sacerdotes e uma nação sagrada” (Êxodo 19:6). O sistema da “Segunda Dízima” asse-gurava que todo judeu passasse pelo menos uma parte do ano como residente em Jerusalém e este deveria ser um período de regeneração espiritual para todos os membros do povo judeu.11
Havia muitas outras observâncias que podiam ser cumpridas so-mente no “lugar escolhido por D’us”, ou seja, em Jerusalém. Havia uma dízima de gado em pé que ti nha de ser comida na Cidade San-ta.12 Os primeiros frutos tinham de ser trazidos até “o lugar que D’us
escolher”, envolvendo uma cerimônia significativa.13
Estas práticas obedeciam ao importante propósito de fazer com que todo e qualquer judeu fizesse visitas periódicas a Jerusalém, ex-perimentando a renovação espiritual e a influência unificadora ca-racterísticas desta cidade.
Muitas dessas práticas diziam respeito somente aos judeus que moravam na Cidade Santa. Porém, havia outros mandamentos que afetavam aos judeus, independentemente do lugar onde morassem. Eles abrangiam o sistema dos sacrifícios. Na Torá, particularmente no início do Levítico, são prescritos muitos sacrifícios. Alguns po-dem ser realizados como oferendas, por livre e espontânea vontade, mas a razão mais comum da oferta de um sacrifício era o perdão de um pecado.
De acordo com o Ramban (Nachmânides), a finalidade primária do sacrifício era que, pelo envolvimento na matança de um animal, a pessoa que o fizesse também experimentasse uma morte vicária. Quando o sacerdote abatia o animal e o queimava no altar, a pessoa que o ti nha trazido se sentia como se ela mesma tivesse sido morta e queimada, por ter agido contra a palavra de D’us.14
quando uma pessoa comete um pecado, na realidade ela está se iden-tificando com eles. Por este motivo, um animal deve ser sacrificado.15
Num nível mais profundo, o homem consiste em dois elemen-tos: o animal e o divino. Estes dois elementos estão em constante conflito entre si.16 Enquanto o divino do homem o atrai para o
âm-bito espiritual, o animal o leva para o físico. Quando uma pessoa co-mete um pecado, ela deve trazer um animal como sacrifício. Por ser uma oferenda a D’us, o próprio animal é elevado; ao mesmo tempo, o animal que está no homem, que pode se identificar com o animal que está sendo sacrificado, também é elevado. O animal do homem, que o fez pecar, retorna então para o domínio do divino.17
Todos estes motivos apenas tocam a superfície do conceito dos sacrifícios, que envolve alguma das ideias mais profundas do judaís-mo. É óbvio que a totalidade do sistema sacrifical pareceria brutal e bárbara, a menos que ele fosse administrado dentro de uma atmosfe-ra religiosa perfeita. Somente uma nação do mais alto calibre moatmosfe-ral e espiritual seria digna dele. Portanto, devido à frouxidão moral e à degeneração espiritual do povo judeu, o sistema sacrificial foi final-mente abolido.18
Os sacrifícios podiam ser oferecidos num único lugar, o Templo Sagrado (Beit HaMikdash), em Jerusalém. Isto está explicitamente prescrito na Torá: “D’us escolherá um lugar para moradia do Seu Nome: para lá tu haverás de levar as tuas oferendas e sacrifícios, as tuas dízimas e os teus presentes” (Deuteronômio 12:11). Desde que o Templo foi construído em Jerusalém, não é permitido oferecer sa-crifícios em nenhum outro lugar do mundo.
Considera-se um pecado muito grave oferecer um sacrifício fora do Templo de Jerusalém.19 Mais uma vez, o motivo é que ele
preci-sa ser feito num lugar preci-sagrado ao extremo, de modo que o sistema sacrifical não se degenere em algo bárbaro e brutal. O autor do
Se-fer HaChinuch escreve que o ato de matar um animal brutalmente,
quando não for feito pelo alimento ou dentro da adoração correta a D’us, no lugar adequado, é um ato de assassinato.20 Desta maneira,
contra uma pessoa que matasse um animal como sacrifício, fora de um local sagrado e em desacordo com a lei prescrita.
Para tanto, havia um mandamento ordenando que a pessoa que ofertasse um sacrifício deveria estar ativamente envolvida em trazê--lo até o Templo em Jerusalém, como afirma a Torá, “Levarás as coi-sas sagradas que possuis e as oferendas dos teus juramentos, e irás ao lugar que D’us escolher” (Deuteronômio 12:26).21 Além disso, era
importante que todo indivíduo estivesse fisicamente presente para colocar as suas mãos sobre o seu sacrifício, antes de oferecê-lo. A pessoa podia enviar seu sacrifício a Jerusalém através de um agente ou mensageiro, mas este último não podia executar o ritual de pôr as mãos sobre a oferenda. O sacrifício podia ter validez sem esta colocação das mãos, mas o perdão não era completo.22 É claro que a
oferenda real do sacrifício podia ser feita somente por um Sacerdote (cohen).
Por isso, sempre que uma pessoa cometia um pecado que exigisse um sacrifício, ela ficava virtualmente obri gada a fazer uma peregri-nação a Jerusalém a fim de obter o perdão. Havia uma importância particular no fato de a própria pessoa precisar empreender esta pere-grinação. Ao pecar, a pessoa demonstrava que o seu relacio namento com D’us não era perfeito e nem completo; portanto, ela tinha de visitar Jerusalém para fortalecer este relacionamento. Somente em Jerusalém ela podia nova mente se tornar uma pessoa espiritualmente plena, renovando o seu compromisso, para evitar pecados no futuro.
De tudo isto, aprendemos uma lição muito importante. O fato de uma única cidade desempenhar papel central no judaísmo não é acidental. Em muitos lugares, a Torá menciona essa cidade central – o “lugar que D’us haverá de escolher” – e ordena muitas práticas que obrigam o judeu a fazer peregrinações periódicas a este lugar. D’us sabia que, para o povo judeu ser forjado num povo digno do cum-primento da sua missão, ele teria de ter um centro assim como foco. Mesmo que a maioria destas práticas já não seja observada hoje em dia, Jerusalém ainda conserva o seu status como ponto focal do judaísmo. D’us, Ele Mesmo, determinou que Jerusalém seria a cida-de sagrada e algo cida-determinado cida-desta forma por D’us não pocida-de ser desdito. Por isso, o status de Jerusalém como cidade sagrada persis-te até hoje.24 D’us considera necessário que esse ponto focal exista
hoje em dia. Jerusalém ainda serve de foco para o povo judeu, assim como de ponto central da sua missão.
NOTAS
1. Sefer HaChinuch 487. Veja “Começos” 6, nota 1.
2. De acordo com as tradições, David capturou Jerusalém no ano de 2892 (868 a.e.c), e ela foi destruída pelos romanos em 3828 (69 e.c), ou 976 anos mais tarde. Veja “Consagração”, notas 22 e 53. Porém, de acordo com Josephus, Jerusalém manteve o seu status durante 1179 anos, veja Guerras 6:10. Também veja Antiguidades 20:10.
3. Kelim 1:8. Cf. Baba Kama 62b, Yad, Beit HaBechirá 7:14. Veja também Ketu-vot 13:11 (110b), Isaías 52:1, 66:20.
4. Yerushalmi, Chaguigá 26a, Isaías 33:20. 5. Ibid. Cf. Metsudot David (Radbaz) 266.
6. Hirsh sobre Gênesis 4: 17. Notar que Caim foi originalmente um agricultor, e que a primeira cidade foi construída por Caim como arrependimento pelo assassinato do seu irmão. Cf. Malbim ibid. O seu altar estava em Jerusalém, veja “Começos”, nota 9. 7. Veja Gênesis 4:20-22.
8. Ketubot 111b, de 2 Reis, 19:34; Tanchumá, Ki Tavó 4, de Lamentações 2:15. Cf. Likutei Maharan 280.
10. Hirsch sobre Deuteronômio 14:23.
11. Deuteronômio 14:23, Ibn Ezra, Rashbam, Sforno ad loc, Tossafot, Baba Batra 21a, s.v. “Ki”, Veja Chinuch 360, Metsudot David 256.
12. Chinuch 360.
13. Deuteronômio 26:2. Bikurim 3:1-4.
14. Ramban sobre Levítico 1:9. Veja Tanchumá, Vayicrá 8. 15. Chinuch 95.
16. Assim, o homem é como um anjo, de três maneiras, e como um animal, de três maneiras, Chaguigá 16a. Veja também Tanchumá, Vayicrá 8, Zohar 2:94b, Ramban sobre Gênesis 1 :20, Levítico 17:24, Ralbag sobre Provérbios 12:10, Shaarei Kedushá 1:1, Or HaChaim sobre Gênesis 1:21, Levítico 12:10, Likutey Amarim (Tanya) 1:1 (5b).
17. Ets Chaim, Shaar Kitsur ABYA 2 (edição Ashlag, Tel Aviv, 5720), Volume 2, página 395. Cf Ramban sobre Gênesis 2:8, 3:22.
18. Cf. Yomá 9b, 39b, Tossefta, Menachot 13:4, Yerushalmi, Yomá 1:121, Jeremias 7:11, Salmos 50:12.
19. Yad, Maassé Korbanot 19:2. 20. Chinuch 186.
21. Yad, Maassé Korbanot 18:1, Chinuch 453.
22. Levítico 1:4, 3:2, 3:8, 3:13, 4:4, 4:24, 4:29, 4:33, 16:21; Menachot 93, Yad, Maassé Korbanot 3:6,8.
23. Yomá 86b, Shemot Rabá 38:4, Pessikta 6 (60b), Yalkut 2:479. Veja também Me-nachot 110a, Taanit 2a, Megilá 31a; Rosh, Rosh HaShaná 4:14, Orach Chaim 1:5.