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Os moradores de rua e o trabalho: o limiar deste mundo complexo

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Academic year: 2018

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Resum o: Neste breve ensaio buscaremos dis-cutir a questão do trabalho com o definidor das vidas dos m oradores de rua, suas im plicações e impactos diante dos mesmos, bem como seu sentido e representação. Tentarem os esta-belecer conexões com o m undo do trabalho e a população em situação de rua, encontrando o ponto de equilíbrio entre estes dois m undos.

Pa la v r a s- ch a v e: Moradores de rua, Traba-lho, Exclusão Social

Ab st r a ct : This brief paper discussing t he quest ion of defining work in t he hom elesses lives, it s im plicat ions and im pact s on t hem , as well as it s m eaning and represent at ion. I t t ries t o est ablish connect ions wit h t he world of work and t he populat ion at st reet , f in din g t h e balan ce bet w een t h ese t w o worlds.

Ke yw or ds: hom elesses, Labor, Social Exclu-sion

Os m oradores de rua e o trabalho: o lim iar deste m undo

com plexo

The hom elesses and working: the threshold of this world

com plex

Los residentes de las calles y el trabajo: el um bral de este

m undo com plej o

Le sans dom iciles fixes et le travail: le seuil de ce m onde

Com plexe

Silvana Garcia de Andrade Lim a*

Carlos Am érico Leit e Moreira* *

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I ntrodução

O pr esen t e artigo tem como obj etivo discu-tir o fenôm eno do m orador de rua que faz do espaço público sua m orada e da sua presen-ça um a das expressões da exclusão social, bem com o sua confluência com a questão do trabalho. Sobreviver das ruas se expressa com o elem ento da sociedade contem porânea. É um fenôm eno social e se consolida devido à naturalização da pobreza e da questão social, perpassa tam bém pela questão do desem -prego estrutural.

Pensar essa população é pensar um a ca-tegoria social que tem por característica bá-sica a m ultidim ensionalidade, isto é, várias facetas de um a só realidade. Nesse sentido, a rua abriga um a diversidade de histórias de vida difícil de ser observada de um só ângulo. Desta form a, os problem as identificados, as políticas públicas e as pesquisas voltadas para este grupo devem tam bém ser antes de tudo, m ultifacetadas, ou seja, não devem ser tratadas a partir de um a área do conheci-m ento, específica, ou de forconheci-m a setorial, sob o risco de não se alcançar estas pessoas e seus verdadeiros problem as. (Ferreira; Ma-chado, 2007, p.05) .

De m aneira geral, observa-se nas grandes cidades do país, e m esm o em outros países, um a população flutuante que pernoita em vários locais e que são consideradas pessoas em situação de rua. Os cenários das grandes cidades do m undo apresentam atualm ente essa característica.

Segundo as Nações Unidas todos aqueles que não só vivem na rua, m as tam bém estão em condições que não atendem a necessida-des e padrões m ínim os de habitabilidade, isto é, que m oram em cortiços e favelas sem o m ín im o d e d ig n id ad e são con sid er ad os

hom eless. No m undo estim a- se em cem m i-lhões essa população, sendo que destes, vinte m ilhões viveriam na Am érica Latina. (Vieira, 1992).

Todos esses aspectos devem ser tom ados com o referência neste estudo para com pre-enderm os com o é o universo do m orador de rua, seus desejos, suas aspirações, seu m odo de se relacionar com o m undo do trabalho, enfim , seu m undo, que é m uito particular e decerto destoa com o do senso com um .

O Brasil, os Moradores de Rua

e o Trabalho

No fim do século XX com a reestruturação global do capit alism o, m anifest am - se as t ransform ações societ árias, na com plexida-de da dim ensão econôm ica, sociopolít ica e cult ural e se observam as m udanças dos núm eros da pobreza, evidenciando novas cat egor ias com o os “ sem - t r abalho” e os “sem-lugar”. No Brasil da contem poraneidade, conform e nos coloca Carvalho,

“ considerar a t essit ura hist órica recen-t e se faz em m eio a dois pr ocessos est rut urais fundant es e em curso que, cont radit oriam ent e, se art iculam com perspect ivas polít icas dist int as: o pro-cesso de dem ocr at ização [ . . . ] , cons-t icons-t uindo o Escons-t ado Dem ocrácons-t ico, am pli-ado pela via da polít ica, e o processo de inserção do Brasil à nova ordem do capit al [ . . . ] que conv er t e o m er cado em ú n ico cr it ér io de r ealidade [ . . . ] . ( Carvalho, 2005, p. 01)

Nessa perspect iva, se m anifest am inú-m eros conflitos na sociedade decorrentes da quest ão social, que diz respeit o às desigual-dades sociais produzidas pela sociedade ca-pit alist a, e encont ra sua origem na cont ra-dição ent re produção colet iva do t rabalho e apropriação privada do produt o desse t ra-balho. “ Gera, assim , um a acum ulação da m i-séria relat iva à acum ulação do capit al, en-cont rando- se aí a raiz da produção/ repro-dução da quest ão social na sociedade capi-talista” ( I am am oto, 2001a, p.16)

Podem os afirm ar que a sociedade do capi-tal vai ainda m ais além , descartando aqueles que não a interessam , com o coloca Baum an, “outro aspecto, m uito m ais sem inal – em bora esteja longe de ser reconhecido e abordado – , é que na área do planeta com um ente com -preendida pela idéia de “sociedade” não há um com partim ento reservado ao refugo hu-m ano” (Bauhu-m an, 2005, p.21). O ser huhu-m ano passou a ser t ão descar t áv el quant o os dejetos, os restos, o lixo.

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pessoas se relacionam com o m undo de for-m a a rej eit ar o out ro, logo que o desej o ces-se; t ais relações se t ornam quase “ coisas”, m ercadorias. “A m ercadoria é, antes de m ais nada, um obj et o ext erno, um a coisa que, por suas propriedades, sat isfaz necessida-des hum anas, sej a qual for a nat ureza de-las, provenham do est ôm ago ou da fant a-sia”. ( Marx, 1998, p.41) .

A sociedade capit alist a acaba por coisi-ficar as pessoas, dando a elas um a im por-t ância que não é relapor-t iva a si, m as ao que elas possuem ou podem oferecer ao out ro. Dest a form a, desvalorizando o indivíduo e suas relações com o out ro.

No im aginário popular, t er um t rabalho e subsist ir a part ir dele é fundam ent al, pois dest a feit a é possível ent rar na ciranda da sociedade do capit al.

O trabalho pro m orador de rua é m ais difícil por causa do preconceito (...), eu não arranjo um em prego por não ter rou-pas adequadas, um calçado bom . Com certeza se eu chegar prum a entrevista de em prego vestindo essas roupas eles não vão deixar nem eu entrar, eles jul-gam pela aparência.(...) O m orador de rua em pregado, não precisava ser nem de carteira assinada, m as ele tendo um em prego fixo que tivesse um a boa renda ele deixaria de ser um m orador de rua ou ent ão só ele gost ando m uit o da r ua. (Wellington, 24 anos)

Dest e m odo, o hom em é o prim eiro ser que conquistou certa liberdade de m ovim en-t os em face da naen-t ureza. Aen-t ravés dos ins-t inins-t os e das forças nains-t urais em geral, a na-tureza dita aos anim ais o com portam ento que eles devem t er para sobreviver. O hom em , ent ret ant o, graças ao seu t rabalho, conse-guiu dom inar em part e, as forças da nat ure-za, colocando- as a seu serviço.

Os animais também trabalham e produzem, porém som ente para atender as exigências práticas im ediatas, exigências m ateriais dire-tas dos m esm os ou de seus filhotes, portan-to, não podendo ser livres ao trabalhar, pois a atividade dos m esm os é determ inada uni-cam ente pelo instinto ou pela experiência li-m itada que podeli-m ter. A grande diferença entre os dois reside no planejam ento da ação,

na capacidade que o hom em tem de proj etar seu trabalho, possuindo a escolha de com o alcançar seus obj etivos.

O t rabalho é a condição de um a at ividade concret a, condição básica de t oda a hist ó-ria da hum anidade, haj a vist a que a socie-dade não para de consum ir, nem de produzir. As necessidades sociais e a m aneira de com o sat isfazê- las são produt os hist óricos, por-t anpor-t o, criadas conpor-t inuam enpor-t e. “ É um a apor-t ivi-dade essencial do hom em , sua at iviivi-dade li-vre e conscient e” ( I am am ot o, 2001b, p.40) . Sob esse olhar, o t rabalho hum ano é um t rabalho incont est avelm ent e út il, sendo ne-cessário para m ant er a exist ência m at erial do ser e a sociabilidade ent re os seres hu-m anos. O aspecto reservado ao trabalho, tido com o m otor natural da sobrevivência nos re-m et e a reflet ir sobre alguns pont os, t endo em vist a que para a sociedade hum ana o trabalho tem um a carga im portantíssim a. São ancorados nesse conceit o vários sonhos, im aginários de m udança de vida, de saída de condição de crise, enfim deposit adas, m ui-t as vezes, as esperanças de um “ m ilagre” que o indivíduo aguarda que acont eça.

No que t ange especificam ent e ao m ora-dor de rua, o discurso da saída da rua est á m uit as vezes paut ado nessa alegação, sem -pre apontando para a retom ada sua dignida-de out rora perdida, at ravés da ent rada no m ercado de t rabalho. Cert os que sua t raj e-t ória de rua ou sua desgraça ese-t ão coloca-das devido a falt a de t rabalho, e t udo pode-ria ser m udado, quase com o num cont o de fadas, caso um a oport unidade de t rabalho lhes fosse oferecida.

Todavia, sabe- se que na década de 1980 houve o início da fase da descont ração das relações form alizadas de t rabalho em t odos os níveis e set ores da econom ia. Esse pro-cesso se agudiza no decênio posterior, quan-do o Brasil, m arcaquan-do por um a nova ofensiva burguesa, vai adapt ando- se ao capit alism o m undial, im plicando diret am ent e no m undo do t rabalho.

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avulso, vendedores am bulantes, guardadores de carros, ent re out ros. A drást ica dim inui-ção de ocupações nas áreas industriais, nes-se período, t am bém foi um fat or que cont ri-buiu para a expansão do exércit o de reserva ( Silva, 2006) .

Houve um a m udança expressiva na socie-dade e m uit as cat egorias foram at ingidas pelas t ransform ações no m undo do t rabalho advindas da reest rut uração produt iva, ex-pressas por Pochm ann ( 2001) quando colo-ca que, ent re 1986 e 1997, os post os de t rabalho que m ais perderam espaço foram àqueles vinculados a um a m aior qualificação profissional, em part e, ligada ao set or in-dustrial, com o por exem plo, carpinteiros, tra-balhadores em calçados, fiandeiras, t écni-cos elet ricist as, alfaiat es, m odist as. A redu-ção desses post os de t rabalho cont ribuiu para o aum ent o do exércit o indust rial de re-serva, repercutindo no fenôm eno da popula-ção em sit uapopula-ção de rua1.

Em cont rapart ida, ainda segundo o aut or, no m esm o período, out ros post os de t raba-lho tiveram am pliação, foram os trabalhado-res do com ércio, professotrabalhado-res do ensino m é-dio, t rabalhadores da const rução civil, gar-çons, padeiros, confeit eiros, t rabalhadores da pecuária e agropecuária, telefonistas, tra-balhadores de lim peza e conservação.

Em relação ao século XX percebe- se que:

A principal ocupação criada nos anos 1990 foi a de em pregado dom éstico, res-ponsável por 23% de t odas as vagas abert as. Logo depois vem a ocupação de vendedor, que respondeu por 15% do total de postos de trabalho abertos, se-guido da construção civil (10% ), dos ser-viços de asseio e conservação (8% ) dos serviços de segurança (6% ) (Pochm ann 2001b apud Silva 2006, p.165).

De acordo com o pensam ent o de Silva ( 2006) , essas m udanças t êm int rínsecas li-gações com o fenôm eno de se m orar nas ruas, durant e est e período, haj a vist a as pesquisas2 realizadas apontarem que as

ocu-pações desenvolvidas pelos m oradores de rua, ant es de se encont rarem nest a condi-ção, eram exat am ent e aquelas que perde-ram post os de t rabalho, m as que exigiam cert a qualificação para seu exercício ( elet

ri-cist a, carpint eiro, sapat eiro, pint or, m ano-brist a, m ot orist a et c) . Por out ro lado, quan-do adent raram no m unquan-do das ruas, vincula-ram - se às ocupações cada vez m enos quali-ficadas, para dar cont a da sua necessidade da sobrevivência ( cat adores de m at eriais recicláveis, guardadores de carros, flaneli-nhas, engraxat es et c) .

Ainda sobre esse assunt o, a aut ora dis-correndo sobre as ideias de Pochm ann, afir-m a que a população de rua t eafir-m seafir-m pre at i-vidades produt ivas volt adas para segm en-tos ocupacionais não organizados, com o aci-m a descrit os, est ando est as ocupações su-bordinadas à dinâm ica do capit alism o. Esse grupo populacional insere- se no exércit o in-dustrial de reserva, principalm ente no lupem -prolet ariado ( part e da pobreza, que é apt a ao t rabalho, m as não exerce at ividades t ra-balhist as devido às próprias caract eríst icas do sist em a capit alist a que não ofert a vagas para t odos) .

Tam bém o desem prego, um dram a na tra-j et ória dos indivíduos, é um aspect o rele-vant e que faz as pessoas perderem m uit as vezes o t et o, a consideração social, e at é m esm o a aut oconsideração. A vergonha, a com iseração, o sent im ent o de derrot a e de-salent o são dram as present es nas pessoas que engrossam as est at íst icas dos inst it u-t os de pesquisa. De acordo com o que nos coloca Forrest er;

Não é o desem prego em si que é nefas-to em si, m as o sofrim ennefas-to que ele gera e que para m uitos provém de sua inade-quação àquilo que o define, àquilo que o t erm o “ desem prego” proj et a, apesar de fora de uso, m as ainda determ inan-do seu estatuto. O fenôm eno at ual do desem prego j á não é m ais aquele de-signado por essa palavra, porém , em razão do reflexo de um passado destruí-do, não se leva isso em conta quando se pret ende encont rar soluções e, so-b r et u d o, j u lg ar os d esem p r eg ad os. ( Forrest er, 1997, p.10)

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restabe-lecim ent o de t rabalho, at ravés de cursos profissionalizantes ou coisas do gênero. “Um exemplo disso são as instituições voltadas à qualificação e ao treinamento profissional, que atuam, muitas vezes, sem grande articulação entre si e de forma segmentada, gerando efi-cácia contestada” (Pochmann, 2001, p.125).

Ent ret ant o, a discussão vai para além da capacit ação para o m ercado de t rabalho, de acordo com Telles ( 1999) não há lugar para os desem pregados e excluídos no m om ent o at ual do capit alism o globalizado, a pobreza revela a incapacidade de adequação ao pro-gresso contem porâneo para aqueles que, por falt a de capacit ação ou/ e com pet ência, se t ornaram dispensáveis pela sociedade, são os cham ados “ inem pregáveis”.

Esse pr ocesso r esult a na r eflex ão da m arginalização im piedosa o qual leva os indi-víduos a considerar-se responsáveis pela con-dição de degradação em que se encontram . Julgam -se indignos e não “enquadráveis” nos padrões exigidos pelos ditam es da socieda-de. Eles se acusam daquilo de que são víti-m as. “ Pois não há nada que enfraqueça nevíti-m paralise m ais que a vergonha (...) daí o inte-resse do poder em recorrer a ela e a im pô-la; ela perm ite fazer a lei sem oposição, e trans-gredi- la sem tem or de qualquer protesto”. ( Forrester, 1997, p.12). A população de rua é ainda m ais estigm atizada, pois encarna as contradições básicas do m odo capitalista de produção, isto é, a falácia que todos têm as m esm as oportunidades, e a evidência que a produção seja social e a apropriação dos gan-hos sej a individual, estando à população de rua no cerne da questão.

Os prim eiros anos dos séculos XXI trouxe-ram a continuidade do crescim ento do setor de serviços, enquanto as indústrias enxuga-vam seus quadros de funcionários, além de adentrar na perspectiva da terceirização de alguns setores com o alim entação, lim peza e segurança. Muito em bora os setores de ser-viços tenham absorvido os descartados pela indústria, não foi possível com pensar o gran-de núm ero gran-de contingente gran-de m ão gran-de obra, contribuindo para o aum ento do desem prego no país. Muitas m udanças afetaram , em seu conj unto, o m undo do trabalho, m anifesta-das pela precarização anifesta-das condições de tra-balho, pela redução do em prego com registro em carteira, pelo aum ento dos trabalhos tem

-porários, pela redução da proteção social e do consequent e agravam ent o da pobreza. Nesse contexto, se dá o acirram ento da ques-tão social, tendo com o pano de fundo o fe-nôm eno da população de rua que se expres-sa na sociedade contem porânea.

Out ro aspect o im port ant e a ser dest aca-do é que qualquer discussão sobre popula-ção de rua deve se fundam ent ar nas alt er-nat ivas que o poder público pode e deve oferecer a esse segm ent o enquant o polít ica pública diant e de um a sit uação t ão delicada e com plexa com o esta, entendendo que esta quest ão leva efet ivam ent e a out ros m ean-dros, com o por exem plo, o desespero social que pode conduzir à droga, à violência enfim a um cont ext o desgast ado do t ecido social. Lem brando que o desem prego const it ui um dos elem en t os de m aior dif icu ldade de ordenam ent o no at endim ent o social.

Ao cont rário de out ras experiências de polít icas públicas com o em relação ao problem a da doença e da ignorância, que regist ram a presença de sist em as de at enção à saúde e à educação, o desem pr ego no Br asil segue t r at ado com o um problem a m enor, na m aioria das vezes ident ificada pelas aut orida-des governam ent ais com o de ordem in-dividual, m ais privado do que público. ( Pochm ann, 2001, p.124)

Ao nos depararm os com um at endim ent o que t em com o pano de fundo a quest ão do desem prego, percebem os nit idam ent e a ne-cessidade do invest im ent o de serviços pú-blicos de am paro a essa cat egoria, onde pu-dessem ser abert os espaços para ações in-t egradas enin-t re as diversas políin-t icas, no sen-t ido de em poderar os indivíduos na sua au-t onom ia, com o orienau-t ação para o au-t rabalho e interm ediação de m ão de obra; atendim ento e encam inham ent o aos benefícios sociais; operacionalização de linhas de crédit o po-pular; retirada de docum entação; atendim en-t o à saúde, enen-t re ouen-t ras ações.

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em alguns aspect os para a superação da condição de rua. Ent ret ant o, o seu com pro-m et ipro-m ent o global é pro-m ais sério que apenas um elem ent o em quest ão, pois env olv e posicionam ent os perant e a vida, sobre si, subj et ividade, perda dos laços afet ivos.

A solução dos problem as econôm icos, elas não vão determ inar isso, agora isso é int eressant e porque no discurso dos m oradores de rua a questão econôm ica é que aparece com o m ais visível, só que nos at endim ent os, nas conversas, en-fim , nos atendim entos, a gente perce-be que existe um a questão m aior, m as com o a questão econôm ica é m ais pal-pável é m ais m aterial, pela escassez das coisas m at eriais ela parece m ais visí-v el, m as as quest ões subj et ivisí-v as elas são m uito m ais profundas e m uito m ais significativas na situação da rua que a questão econôm ica ( Depoim ento da as-sist ent e social Andréa Cort ez) .

No que tange a perda dos vínculos fam ilia-res, o morador de rua apresenta um isolamen-to do núcleo fam iliar que gera sérias im plica-ções, dentre elas, o fato de “não ter lugar no m undo”, não ter para onde voltar e ser am pa-rado, isto é, gera um sentim ento de estar so-zinho no m undo3. Alguns têm problem as de

dependência quím ica (álcool e drogas) antes já m encionado, que os incapacita para o tra-balho, problem as relacionados com transtor-nos m entais, sérios problem as em ocionais e de relacionamento familiar que, em última aná-lise, os afasta da dim ensão da fam ília.

Afora isso, devem os considerar que a gran-de quest ão realm ent e resigran-de no que vem sendo debat ido pelo m eio acadêm ico nos úl-t im os úl-t em pos, que é o fenôm eno da exclu-são. Deixou- se, port ant o de falar de pobre-za e desigualdade social para se falar em “ exclusão social”, por t odos os set ores da sociedade.

No debate acadêm ico que ganhou força na década de 1980, era fundam ental a distinção entre pobreza e exclusão social que, com o coloca Escorel (1999), à época era tido com o conceito de “nova pobreza”. Essa denom ina-ção não se refere a um a nova form a de ser pobre, e sim a grupos populacionais que se pauperizaram em m assa e que poderiam até

estar inseridos socialm ente por m eio de bene-fícios assistenciais e do sistem a econôm ico, m as que acabaram por juntar-se aos já tradi-cionais pobres. Desta form a, houve o achata-m ento da classe achata-m édia e achata-m uitos destes achata-m i-graram para o lado m ais fraco da balança.

A pobreza t raz em si a quest ão da dest i-t uição, da fali-t a, do não acesso à renda, a serviços de saúde, educação, habit ação, en-t reen-t anen-t o, gera a expecen-t aen-t iva de superação da condição de pobreza at ravés do t rabalho ex aust iv o, m as honest o e da educação. Yasbek conduz esse debat e dizendo que a pobreza “ expressão diret a das relações so-ciais vigent es na sociedade e cert am ent e não se reduz às privações m at eriais. Alcan-ça o plano espirit ual, m oral e polít ico dos indivíduos subm et idos aos problem as de so-brevivência” ( 1993, p. 62,63) . Nesse dest a-que, Cast el ( 1998) favorece a denom inação “ desfiliação” em det rim ent o de exclusão so-cial, j á que para ele em prim eira análise, há um a ruptura da rede de integração prim ária, ou sej a, sist em a de regras que faz o grupo t er o sent im ent o de pert ence ao local que se vincula e não um a expulsão da sociedade com o um t odo.

[ ...] exclusão não é um a ausência de relação social, m as um conjunto de re-lações sociais particulares da sociedade tom ada com o um todo. Não há ninguém fora da sociedade, m as um conjunto de posições cujas relações com seu centro são m ais ou m enos distendidas. (...) Os “ excluídos” são, na m aioria das vezes, vulneráveis que estavam “por um fio” e que caíram . (...) dos trabalhadores qua-lificados que se t ornam precários, dos quadros bem considerados que podem ficar desem pregados.(...) Encontram -se

desfiliados, e esta qualificação lhes con-vém m elhor do que a de excluídos: fo-ram desligados, m as continuam depen-dendo do centro (Castel, 1998, p.569).

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so-ciedade e não terem acesso aos bens e servi-ços de cidadania. Já Singer (1999) coloca que a exclusão social é nada m ais que a m iscelâ-nea dos vários processos de exclusão que a sociedade enfrenta, quais sejam , a questão de gênero, de raça, de religião, dentre outros. Nesse contexto, a Política Nacional de As-sistência Social (2004, p. 36) afirma que “além de privações e diferenças de acesso a bens e serviços, a pobreza associada à desigualdade social e a perversa concentração de renda, revela-se num a dim ensão m ais com plexa: a exclusão social”. Diante de todas as argum en-tações desenvolvidas até aqui, acredito que o m orador de rua é um segm ento excluído soci-alm ente e concordo com as considerações de Escorel (1999) quando explica o m undo dos habitantes da rua a partir do processo de rup-tura desde a precarização do trabalho até a expulsão do m ercado. Esse processo de rup-tura social é, sem dúvida nenhum a, um isola-m ento do isola-m undo, das instituições, da faisola-m ília. Dest e m odo, a exclusão social é um fenô-m eno que vefenô-m se agudizando e tofenô-m ando cor-po nos últ im os anos exigindo do Est ado sua pr esença com r espost as eficazes par a a m inoração dos efeit os funest os que possa causar. Para respost ar a sociedade, a form a que t em sido encont rada para o enfrent a-m ent o das quest ões que a assolaa-m é a Polí-t ica da AssisPolí-t ência Social, aPolí-t ravés de pro-gram as assistenciais diluídos nas dem ais po-lít icas de saúde, educação, habit ação den-t re ouden-t ras.

Nessa perspect iva, o poder público m uni-cipal conclam ou a part icipação, at ravés do GT- Grupo de Trabalho População de Rua, as inst it uições governam ent ais e não governa-m ent ais do governa-m unicípio de Fort aleza, a figoverna-m de discut ir a criação de um a polít ica inclusiva e intersertorial para os m oradores de rua, pau-t ada na propospau-t a da polípau-t ica nacional de in-clusão para m oradores de rua, at ualm ent e em const rução por t écnicos do Minist ério do Desenvolvim ent o Social e Com bat e à Fom e. É im port ant e ressalt ar que as organiza-ções não governam ent ais – ONG’s - são ele-m ent os iele-m port ant es para o enfrent aele-m ent o da pobreza, at ravés da prest ação de servi-ços, m uit as vezes nas lacunas deixadas pelo Est ado. Algum as delas são subsidiadas pelo Poder Público que, conform e convênio fir-m ado, repassa recurso para as fir-m esfir-m as

exe-cut arem serviços sociais. Em Fort aleza, no caso dos m oradores de rua, exist e um a ins-t iins-t uição conveniada que recebe recurso m u-nicipal para t rabalhar com essa dem anda, conhecida com o Albergue Shalom .

Diant e desse cont ext o, a consolidação de um a polít ica pública para população de rua em Fort aleza passa por diversas quest ões, ent re elas a discussão ent re os set ores da sociedade civil organizada, o poder público, a vont ade polít ica, a desconst rução da im a-gem dos nôm ades da rua com o “ vagabun-dos”, a ret om ada da consciência de um indi-víduo que é suj eit o de direit o, e principal-m ent e da principal-m obilização do povo da rua que deve ser prot agonist a de sua própria hist ó-ria.

Considerações Finais

Discut ir acerca da t em át ica de pessoas em sit uação de rua à luz da quest ão do t ra-balho na sociedade brasileira, resgatando as div er sas sociabilidades desse segm en t o populacional, foi para nós um desafio árduo e com plexo, no sent ido de t ent ar com pre-ender os m eandros pelo qual se enveredam esses cam inhos.

Ent ret ant o, é inequívoco dizer que t am -bém foi fundam ental realizar esse estudo para ent enderm os as diversas t eias de relações que se est abelecem na sociedade cont em -porânea em que vivem os e os novos arran-j os econôm icos que se processam no m undo do t rabalho.

Para tanto, discutrm os acerca da tem ática m oradores de rua e ent endê- los com o indi-víduos que, apesar de est arem em m eio à m ultidão, não aparecem na m esm a, m as ape-nas t ornam - se “ pessoas” aos olhos dos ou-t ros à m edida que passam a incom odar, foi elem ent o poderoso para discussão dos ru-m os da sociedade brasileira.

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Re su m e n : En est e breve ensayo buscam os

debatir la cuestión de la definición del trabajo en la vida de los resident es de las calles, sus consecuencias y los im pactos sobre ellos, así com o su significado y represent ación. Trat é de est ablecer conexiones con el m un-do del t rabaj o y el pueblo en las calles, así com o encont rar el equilíbrio ent re est os dos mundos.

Pa la br a s- cla v e : resident es de las calles,

Trabaj o, exclusión social.

Re su m é : J’ai com m e but dans ce bref essai

discu t er à pr opos de la qu est ion de la définit ion de t ravail que la vie des habit ant s de la rue, ses conséquences et des im pact s en face d’eux , ainsi que son sens et sa r epr ésent at ion. J’ai essay é d’ét ablir des connexions avec le m onde du t ravail et les personnes à la rue, de t rouver l’équilibre en-t re ces deux m ondes.

M o t s clé s: Sans Dom icile Fix e, Em ploi,

(9)

Not as

1 Esse elem ent o pode ser com provado no cot idiano do nosso t rabalho quando conversam os com os m orado-res de rua e eles inform am suas ant igas ocupações.

2 Pesquisas realizadas em Port o Alegre ( 1994/ 1995) , Belo Horizont e ( 1998) , São Paulo ( 2000) .

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