As
Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa
Stricto Sensu em Educação
DIREITOS HUMANOS: UMA ANÁLISE DA CONCEPÇÃO DE
POLICIAIS EM FÓRUNS VIRTUAIS
Brasília - DF
2013
SIMONE FRANCESKA PINHEIRO DAS CHAGAS
DIREITOS HUMANOS: UMA ANÁLISE DA CONCEPÇÃO DE POLICIAIS EM FÓRUNS VIRTUAIS
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação.
Orientador: Prof. Dr. Carlos Ângelo de Meneses Sousa
12,5 cm
7,5 cm 7,5cm
Ficha elaborada pela Biblioteca Pós-Graduação da UCB 11/04/2013
C433a Chagas, Simone Franceska Pinheiro das.
Direitos humanos: uma análise da concepção de policiais em fóruns virtuais. / Simone Franceska Pinheiro das Chagas – 2013.
88 f.; il. : 30 cm
Dissertação (mestrado) – Universidade Católica de Brasília, 2013. Orientação: Prof. Dr. Carlos Ângelo de Meneses Sousa.
1. Direitos humanos. 2. Educação. 3. Segurança pública. 4. Ética profissional. 5. Ensino à distância. I. Sousa, Carlos Ângelo de Meneses, orient. II. Título.
Dissertação de autoria de Simone Franceska Pinheiro das Chagas, intitulada “DIREITOS HUMANOS: UMA ANÁLISE DA CONCEPÇÃO DE POLICIAIS EM FÓRUNS VIRTUAIS”, apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Educação da Universidade Católica de Brasília, em 06/02/2013, defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada:
______________________________________________ Prof. Dr. Carlos Ângelo de Meneses Sousa
Orientador
Programa de Pós-Graduação em Educação - UCB
__________________________________________ Profª. Drª. Simone Aparecida Lisniowski
Examinadora externa Faculdade de Educação - UnB
______________________________________________ Profª. Drª. Lêda Gonçalves de Freitas
Examinadora interna
Programa de Pós-Graduação em Psicologia - UCB
______________________________________________ Prof. Dr. Geraldo Caliman
Examinador interno
Programa de Pós-Graduação em Educação – UCB
AGRADECIMENTOS
A Deus por ter me dado forças nas horas de dificuldade, cuidando de mim e guiando meus passos em todos os momentos.
Ao meu orientador Carlos Ângelo de Meneses Sousa, por ter primeiramente me acolhido enquanto orientanda e, posteriormente, conduzido minhas atividades com paciência, dedicação e profissionalismo.
Às minhas irmãs Francielma e Sandra, minhas amigas, companheiras e maiores incentivadoras.
Ao meu chefe e amigo, Coronel da Polícia Militar do Pará, Artur José de Figueiredo
RESUMO
CHAGAS, Simone Franceska Pinheiro das. Direitos humanos: uma análise da concepção de policiais em fóruns virtuais. 2013. 88 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2013.
A presente dissertação tem como objeto uma pesquisa acerca da concepção dos profissionais de segurança pública sobre direitos humanos em fóruns virtuais. Ela tem como objetivos: identificar as concepções dos profissionais de segurança pública quanto aos direitos humanos; relacionar as concepções dos estudantes com a concepção de DH apresentada no Plano Nacional de Educação em DH; e avaliar se as concepções dos alunos atendem às expectativas do proposto na ementa da disciplina Direitos Humanos, Ética e Cidadania. A metodologia utilizada contemplou a análise a partir dos fóruns da disciplina Direitos Humanos, pertencente ao curso de tecnólogo em Segurança e Ordem Pública de uma instituição de Ensino Superior. A principal questão a ser investigada é qual a concepção dos alunos policiais de uma instituição de Ensino Superior de Brasília relacionada ao tema direitos humanos, avaliando se ela é positiva ou negativa e quais os impactos dessa concepção segundo o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. Ao final, ficou evidente que a percepção dos alunos ora está de acordo, ora conflita com os preceitos dos Direitos Humanos, seja por falta de conhecimento teórico, seja por influência de valores pessoais relacionados ao senso comum ou a questões religiosas.
ABSTRACT
This thesis has as its object a study about the design of public safety professionals on human rights in virtual forums. It aims to identify the conceptions of public safety professionals on human rights; relate the students' conceptions of DH with the design presented in the National Education DH and assess whether the conceptions of students meet expectations proposed in the Menu discipline Human Rights, Ethics and Citizenship. The methodology used included analysis from the forums discipline of Human Rights, belonging to the technologist course in Public Order and Security of a Higher Education Institution. The main issue to be investigated is the design of which students cops a Higher Education Institution of Brasilia related to the theme Human Rights, assessing whether it is positive or negative and what the impacts of this design according to the National Plan for Human Rights Education. In the end, it was evident that the students' perceptions sometimes agrees and sometimes conflicts with the precepts of human rights, either for lack of theoretical knowledge is influenced by personal values related to common sense or religious issues.
LISTA DE SIGLAS
DH – Direitos Humanos
DUDH – Declaração Universal dos Direitos Humanos
GDF – Governo do Distrito Federal
MJ – Ministério da Justiça
PM – Polícia Militar
PMERJ – Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro
PMDF – Polícia Militar do Distrito Federal
RDE – Regulamento Disciplinar do Exército
SENASP – Secretaria Nacional de Segurança Pública
SÚMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 11
A FORMULAÇÃO, A DELIMITAÇÃO E A JUSTIFICATIVA DO PROBLEMA DE PESQUISA ... 12
1.1 O PROBLEMA ... 13
1.2 A JUSTIFICATIVA ... 13
2 OBJETIVOS ... 15
2.1 GERAL ... 15
2.2 ESPECÍFICOS ... 15
3 REVISÃO DE LITERATURA ... 16
3.1 QUESTÕES DE SEGURANÇA PÚBLICA... 16
3.1.1 As Instituições de Segurança Pública ... 17
3.1.2 Direitos Humanos dos Profissionais de Segurança Pública ... 19
3.1.2.1 Direitos Constitucionais e Participação Civil ... 19
3.1.2.2 Valorização da Vida ... 20
3.1.2.3 Direito à Diversidade ... 21
3.1.2.4 Saúde ... 22
3.1.2.5 Reabilitação e reintegração ... 23
3.1.2.6 Dignidade e Segurança no Trabalho ... 23
3.1.2.7 Seguros e auxílio ... 24
3.1.2.8 Assistência Jurídica ... 24
3.1.2.9 Habitação ... 25
3.1.2.10 Cultura e Lazer ... 26
3.1.2.11 Educação ... 26
3.1.2.12 Produção de conhecimentos ... 27
3.1.2.13 Estruturas e Educação em Direitos Humanos ... 28
3.1.2.14 Valorização profissional ... 28
3.2 EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS ... 30
4 A METODOLOGIA ... 38
4.1 DEFINIÇÃO, DESCRIÇÃO E JUSTIFICATIVA DO TIPO DE PESQUISA ... 38
4.2 CONTEXTUALIZAÇÃO E SUJEITOS PESQUISADOS ... 38
4.3 DEFINIÇÃO E JUSTIFICATIVA PARA ESCOLHA DO INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS ... 39
4.3.2 Categorização de dados ... 40
5 ANÁLISE DE DADOS ... 42
6 CONCLUSÃO ... 74
REFERÊNCIAS ... 78
ANEXO A – PORTARIA INTERMINISTERIAL Nº 2, DE 15 DE DEZEMBRO DE 2010. ... 84
1 INTRODUÇÃO
O projeto aborda os aspectos relacionados aos direitos humanos na visão dos alunos do Curso Tecnologia em Segurança e Ordem Pública (TecSop) de uma Instituição de Ensino Superior do DF. Todos os alunos matriculados no curso pertencem à Polícia Militar do Distrito Federal, mais especificamente à classe das Praças, composta por sargentos, cabos e soldados.
Esta pesquisa tem como base conceitos de Direito Constitucional e Direitos Humanos enquanto ferramentas importantes para assegurar direitos e garantias fundamentais.
O interesse desta pesquisadora com o tema direitos humanos e segurança pública nasceu do exercício da atividade como profissional da área de segurança pública há quase 11 anos. O exercício da função trouxe diversos questionamentos principalmente sobre os limites do respeito aos direitos humanos e sua correta aplicação, bem como o sentimento do profissional em também ser sujeito desses direitos.
Na sociedade atual, os indivíduos se apresentam tendencialmente mais conhecedores de seus direitos, o que exige do Estado profissionais cada vez mais capacitados e comprometidos com suas atribuições. Os indivíduos assimilam informações e as interpretam de maneira veloz e a sociedade tem necessidade e curiosidade de entender os processos de mudanças e aperfeiçoamento das pessoas responsáveis por sua proteção.
Quando se realiza uma análise da própria formação das polícias, por exemplo, no Brasil, a história apresenta processos de recrutamento e doutrina que primavam pela repressão e pela violência. Os indivíduos escolhidos para compor a segurança dos primeiros vilarejos eram escolhidos pelo porte físico avantajado, bem como pela característica de ser violento. Nesta perspectiva, como fazer com que os funcionários responsáveis pela aplicação da lei respeitem os direitos humanos se eles próprios não se sentem sujeitos de direito?
Para Balestreri (1998), o policial enquanto pedagogo da cidadania conhece os direitos do cidadão e auxilia este no exercício desses direitos. Este projeto, a partir da análise da visão de policiais extraída de fóruns virtuais do curso de Tecnólogo em Segurança e Ordem Pública pretende verificar se estes possuem uma visão de direitos humanos que os habilitem a de fato serem pedagogos da cidadania.
A FORMULAÇÃO, A DELIMITAÇÃO E A JUSTIFICATIVA DO PROBLEMA DE PESQUISA
O Curso de Tecnólogo em Segurança e Ordem Pública surgiu no ano de 2008 como uma iniciativa do Governo do Distrito Federal para desenvolvimento do programa “Policial do Futuro”. Considera-se o curso uma iniciativa pioneira, pois se destina a capacitar profissionais de segurança pública prontos para atuar no reestabelecimento da ordem pública e com ética e dignidade no trato do cidadão. Como requisito para o acesso ao curso se exige conclusão do Ensino Médio e aprovação, conforme critérios adotados no edital, no vestibular que ocorre semestralmente.
Dentre os objetivos do Curso de Tecnólogo em Segurança em Ordem Pública temos o de preparar o policial para atuar de forma ética, responsável e movido por ideais de justiça, fraternidade e democracia.
Assim é sabido que, através de vários acontecimentos noticiados nas mídias, o desejo de uma atuação policial a partir desses ideais, especialmente tendo como base os direitos humanos, infelizmente não é uma realidade no cotidiano, sobretudo junto às populações menos favorecidas. Assim é necessário, em qualquer trabalho de formação de policiais, conhecer e trabalhar as suas concepções de direitos humanos, pois é com base na mesma que estes pautam suas práticas. Tal necessidade se impõe devido à exigência de que existam práticas que consolidem a cidadania em um regime democrático.
e a necessidade de averiguar, a partir do curso desenvolvido em uma instituição de Ensino Superior de Brasília - DF como parte do Projeto Policial do Futuro, de iniciativa do Governo do GDF, na perspectiva de qualificar mais de cinco mil policiais militares, qual a concepção de direitos humanos dos alunos policiais por entender que, a partir dessa identificação, teremos uma possível matriz de leitura para outras realidades que envolvem esses importantes atores na consolidação de uma efetiva democracia.
1.1 O PROBLEMA
Qual a concepção de direitos humanos dos alunospoliciais do TeCSop?
1.2 A JUSTIFICATIVA
Para a Academia, a importância do estudo do tema se reflete ao somar-se a crescente tematização de estudos sob a perspectiva dos direitos humanos, mas sobretudo por focar a visão dos policiais, perspectiva ainda pouco pesquisada. Assim, a pesquisa se insere nos estudos que voltam seu empenho no sentido de transversalizar o tema direitos humanos sob a ótica da criação de uma educação continuada na área.
Para a sociedade, o pleno exercício da democracia e da cidadania depende de políticas públicas compromissadas na educação continuada dos funcionários do Estado responsáveis pela aplicação da lei. Nessa perspectiva, é necessário identificar e fazer uma análise sobre qual a concepção dos funcionários do Estado responsáveis pela aplicação da lei quando da defesa dos direitos humanos e cidadania. Teoricamente este estudo possui a relevância de adensar as pesquisas sobre a relação entre os direitos humanos e os processos formativos, isto é, a educação.
qualificações diferenciadas. A Matriz Curricular Nacional, que é um documento criado pelo Ministério da Justiça com o intuito de fornecer subsídios teórico-metodológicos para orientar processos formativos de profissionais de segurança pública, defende que os temas relacionados aos direitos humanos sejam transversalizados em seus diversos eixos de atuação nos quais os profissionais de segurança pública atuam.
2 OBJETIVOS
2.1 GERAL
Analisar a concepção dos profissionais de segurança pública em relação ao conceito de Direitos Humanos (DH).
2.2 ESPECÍFICOS
a) Identificar as concepções dos profissionais de segurança pública quanto aos Direitos Humanos;
b) Relacionar as concepções dos estudantes com a concepção de DH apresentada no Plano Nacional de Educação em DH;
3 REVISÃO DE LITERATURA
Este item apresenta, em 02 (dois) subitens, a revisão de literatura sobre o tema dos Direitos Humanos e segurança pública. Cada título corresponde a um eixo de reflexão: Questões de Segurança Pública e Educação em Direitos Humanos.
No primeiro eixo abordaremos questões envolvendo a segurança pública que servirão para compreender um pouco a realidade da segurança pública e de seus profissionais no Brasil. Identificar quais os direitos humanos dos profissionais de segurança pública auxiliará na compreensão de como o sentimento de ser também sujeito de direitos humanos pode influenciar em seu trato com o cidadão.
O segundo eixo envolverá a educação em direitos humanos na perspectiva do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, contemplando desde a importância do compromisso das instituições de Ensino Superior em participar da criação de uma cultura enquanto difusoras de conhecimentos e de práticas que levem ao exercício pleno da cidadania. Abordaremos ainda as diretrizes previstas no referenciado plano para a Educação em Direitos Humanos dos profissionais de segurança pública.
3.1 QUESTÕES DE SEGURANÇA PÚBLICA
Neste item será feito um estudo sobre as instituições de segurança pública e sua previsão legal, bem como serão listados os direitos humanos dos profissionais de segurança pública.
Aqui foram contempladas questões chave para o objeto desse estudo, pois ele apresenta reflexões sobre as instituições de segurança pública e seus valores, bem como contextualiza as polícias dentro da perspectiva do Estado Democrático de Direito.
dos direitos dos cidadãos? Discutir esse aspecto é relevante para a pesquisa, pois espera-se que influencie diretamente na concepção dos policiais acerca dos direitos humanos.
3.1.1 As Instituições de Segurança Pública
Conforme artigo 144 da Constituição da República Federativa do Brasil do Ano de 1988, a segurança pública é dever do Estado e responsabilidade de todos os cidadãos (BRASIL, 2011). Dentre os órgãos que compõem a segurança pública estão as Polícias Federal, Militar, Civil, Rodoviária Federal, Ferroviária Federal, bem como os Corpos de Bombeiros Militares.
Nessa perspectiva, as instituições aqui citadas possuem origem quase bicentenária. Em especial, abordaremos as Polícias Militares. Essa instituição, que já foi oriunda das guardas imperiais e sempre teve como foco a proteção dos governantes a quem sempre serviu, passou por diversas modificações quanto ao seu regimento e organização.
Cercada de polêmicas quanto à sua forma de atuação, pois é detentora do poder legal de fazer o uso da força física e das armas de fogo, o Estado passou a criar limites para esse poder. Este, que possui natureza jurídica de direito público, delega poderes a esses agentes para que possam agir em seu nome.
Segundo Lamgruber (2003, p. 23):
[...] A tensão entre emprego da força e respeito aos direitos individuais e coletivos é constitutiva das instituições policiais, está presente desde as suas origens e se manifesta, de diferentes maneiras, nas polícias de todas as sociedades democráticas. Isso torna imprescindível, em qualquer parte do mundo, a existência de mecanismos de controle, internos e externos, capazes de fazer convergir os dois pólos em tensão, garantindo o comedimento, a legalidade e a legitimidade do uso da força policial [...]. Nessa perspectiva, há uma grande preocupação por parte dos órgãos de controle externo em vigiar os detentores desse poder. Assim, as Corregedorias de Polícia, Ministérios Públicos, Organizações Não Governamentais e a própria sociedade se encarregam de cobrar do Estado uma ação maior de limitações aos abusos cometidos por essa instituição.
Estados que compõem a Federação. Constitucionalmente, não têm caráter militar, sendo essa condição estabelecida em suas respectivas constituições estaduais.
Historicamente há um desgaste da imagem das Polícias Militares que se desenhou através de um panorama criado por anos e anos de denúncias sobre abuso de autoridade, violações de direitos humanos e corrupção.
Um questionamento explorado por Lamgruber (2003) é a imagem de desconfiança criada como consequência da violência e corrupção das ações dos PMs. A citada autora apresenta relato de moradores de bairros de classe média do Rio de Janeiro, os quais afirmam que preferem encontrar um bandido a um policial, mil vezes. Se precisassem, o último recurso a ser acionado seria a polícia.
A justificativa para tais declarações provém de denúncias envolvendo esses profissionais de segurança pública com tráfico de drogas, sequestros, venda ilegal de armas, roubos, dentre outros.
Trabalhar a perspectiva de que a polícia é reflexo da sociedade pode levar à defesa da máxima de que cada sociedade tem a polícia que merece. Se por um lado os indivíduos que compõem a polícia são oriundos dessa mesma sociedade, por outro, há os que defendem que o comportamento reprovável das polícias advém de uma cultura brasileira, onde todos, independente de classe social, querem levar vantagem em alguma coisa.
O comportamento acima citado pode ser explicado por diversas teorias, como por exemplo a reprodução das relações de poder existentes em nossa sociedade, o Coronelismo, pode ter sido fruto de um período muito recente que é a Ditadura Militar, das desigualdades econômicas, educacionais e do modelo do projeto social.
Em uma tentativa de justificar o acima exposto, Lamgruber (2003) afirma que: [...] segmentos progressistas das próprias polícias, atribui o descaminho das instituições policiais brasileiras ao regime militar sob o qual o país viveu durante 21 anos (1964-1985). A subordinação direta das PMs ao exército, a prevalência da doutrina de segurança nacional e a mobilização de ambas as polícias para a repressão política, num contexto de suspensão dos direitos civis, teriam deixado marcas profundas, ainda não superadas, na lógica, na organização e nas práticas das instituições brasileiras de segurança (LAMGRUBER, 2003, p. 51).
3.1.2 Direitos Humanos dos Profissionais de Segurança Pública
No esforço de fazer com que os profissionais de segurança pública se sentissem também sujeitos de direitos, o Ministério da Justiça (MJ), em parceria com a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH), criou a Portaria Interministerial nº 2 de 15 de Dezembro de 2010 com o objetivo de estabelecer Diretrizes Nacionais de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos dos Profissionais de Segurança Pública.
A referida portaria, pouco divulgada entre as instituições, aborda as questões que se seguem.
3.1.2.1 Direitos Constitucionais e Participação Civil
A Portaria Interministerial nº 002/2010 recomendou adequar os regulamentos disciplinares, quase todos derivados dos Regimentos do Exército, para que todos se adequassem aos preceitos constitucionais de nossa Carta Magna de 1988. Buscou também assegurar a liberdade de expressão e opinião inclusive nos ambientes virtuais e nas redes sociais.
Repare no texto do Regulamento Disciplinar do Exército – R-4:
[...] Art. 35. O julgamento e a aplicação da punição disciplinar devem ser feitos com justiça, serenidade e imparcialidade, para que o punido fique consciente e convicto de que ela se inspira no cumprimento exclusivo do dever, na preservação da disciplina e que tem em vista o benefício educativo do punido e da coletividade.
[...] § 3º O militar poderá ser preso disciplinarmente, por prazo que não ultrapasse setenta e duas horas, se necessário para a preservação do decoro da classe ou houver necessidade de pronta intervenção (BRASIL, RDE, 2002, p.10).
Agora, vejamos o que diz o Regulamento Disciplinar da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (RDPMERJ):
[...] Art. 38 - O início do cumprimento da punição disciplinar deve ocorrer com a distribuição do Boletim da OPM que publicar a aplicação da punição. §1º - O tempo de detenção ou prisão, antes da respectiva publicação em Boletim, não deve ultrapassar 72 horas.
Os dois exemplos acima ilustram o que os militares chamam de “prisão à disposição do comandante”, ou seja, a privação de liberdade dar-se-á a critério da autoridade policial militar. Agora vejamos um trecho do texto constitucional abaixo:
[…] Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
[...] LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal;
[...] LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes;
[...] LVII - ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória;
[…] LXI - ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei (BRASIL, 2011).
Nota-se uma série de contradições entre os Regimentos Internos e a Constituição quanto à restrição da liberdade, a presunção da inocência e o direito ao devido processo legal.
A cidadania, segundo a referida portaria, seria exercida também através da participação em escalas de serviço que permitissem ao profissional o direito ao exercício do voto.
3.1.2.2 Valorização da Vida
Segundo a portaria (Vide Anexo A), a valorização da vida do profissional será garantida através do respeito às diferenças de gênero, afirmando que os equipamentos individuais devem contemplar as diferenças físicas entre homens e mulheres, ajustando-se às suas especificidades.
É um item que aborda a questão da importância da logística para o perfeito andamento da atividade policial. Para que possa atuar em conformidade com a norma vigente, o policial deverá estar com equipamentos modernos e com prazo de validade em dia e isso inclui a frota de veículos.
tem como compromisso a capacitação do policial militar e que será objeto desta pesquisa.
Além do TecSop, destacamos a Rede Nacional de EAD, desenvolvida pelo Ministério da Justiça através da Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), criada em 2005 em parceria com a Academia Nacional de Polícia, desenvolvendo ações no sentido de capacitar profissionais de segurança pública em todo o Brasil.
A rede permite uma flexibilidade na educação continuada desses profissionais, superando a dificuldade de tempo para frequentar o curso e a dificuldade financeira, visto serem ofertados cursos gratuitamente. Bolsas de estudo denominadas “Bolsa formação” são oferecidas como forma de incentivo.
A estratégia utilizada visa à interação presencial e a distância desses profissionais, através do respeito às peculiaridades das diferentes instituições como Polícia Federal, Superintendência do Sistema Penal, Polícia Rodoviária Federal, Polícias Militares e Bombeiros, Guardas Municipais e outros.
Por fim, é recomendado ao Governo Federal que tenha responsabilidade no repasse de verbas aos entes federados para que possam implementar essas diretrizes.
3.1.2.3 Direito à Diversidade
O direito à diversidade é um dos destaques da portaria. Neste ponto é contemplada toda a diversidade que se exige que o policial militar respeite. Nela podemos ver a preocupação do legislador com o respeito aos direitos humanos destes profissionais dentro das instituições, independentemente de cor, raça, sexo, idade, deficiência ou orientação sexual.
O combate ao racismo é defendido como prática fundamental nas instituições policiais. A orientação sexual, talvez o maior tabu a ser vencido, é tratada como prioridade no combate à homofobia.
Propõe a valorização do profissional idoso, aproveitando seu conhecimento e experiência em setores estratégicos dentro das instituições, fazendo com que ele interaja com as novas gerações.
Por fim, defende a inclusão de profissionais que ficaram deficientes em virtude da atividade profissional, como forma de auxiliar na recuperação dos mesmos. Todas essas medidas buscam o respeito a aspectos tão pessoais do profissional. É importante frisar que a maior preocupação na formação e capacitação nas instituições policiais militares refere-se ao respeito às particularidades do cidadão, mas nem sempre ele tem esse aspecto respeitado quanto à sua individualidade.
3.1.2.4 Saúde
Pela própria particularidade da atividade policial militar, que é o policiamento ostensivo fardado, este, em geral, é o primeiro a chegar ao local de uma ocorrência. O estresse do constante perigo de vida, o medo, os baixos salários e a má alimentação são fatores que afetam a saúde do mesmo.
Nas instituições militares cresce cada vez mais o número de suicídios por um ou mais fatores desses acima citados. O acompanhamento adequado de saúde para este profissional e sua família, com políticas de prevenção e combate ao tabagismo e alcoolismo, é fundamental.
Enfim, é preciso combater todo e qualquer tipo de prática profissional e pessoal que traga reflexos à saúde física e mental, tratando como doença e não reprimindo pessoas apresentam quadros clínicos relacionados a doenças psicológicas.
3.1.2.5 Reabilitação e reintegração
Os profissionais que, por motivo do exercício de suas atribuições sofrerem lesão em caráter provisório ou permanente, devem ser encaminhados e realocados em atividades compatíveis com suas limitações físicas, como forma de não interromper bruscamente suas atividades.
A atividade laboral auxilia na recuperação física e mental de pessoa que sofra algum tipo de lesão.
3.1.2.6 Dignidade e Segurança no Trabalho
Com relação à jornada de trabalho e condições de trabalho dos policiais militares, Amêndola (2002, p. 45) afirma:
[...] A realidade que se nos apresenta hoje é que a principal solução para reduzir e controlar a violência nas cidades, em prazo mais breve, é a polícia. Não vemos outra, mesmo porque é o único órgão público com dinâmica de resposta que atenda ao atual clamor social, e que está, além disso, disponível as vinte e quatro horas do dia, faça chuva ou faça sol, frio ou calor. Seja Natal ou Carnaval.
Não conhece o chamado “feriadão”. Não funciona apenas nos expedientes
normais como inúmeras repartições públicas. Muito pelo contrário. “É
exatamente nos feriados, datas festivas e domingos de sol que a polícia preventiva (diga-se Polícia Militar) mais trabalha”.
Há que se regulamentar a jornada de trabalho dos policiais, a fim de que o mesmo possa gozar da convivência com a família e que lhe seja garantida folga e descanso adequado.
Outra preocupação é com os abusos de poder que ocorrem dentro das instituições. A hierarquia e a disciplina, que são os pilares das polícias militares, há muito permitem violações de direitos como assédio moral e sexual, bem como punições degradantes e até cruéis como forma de dar exemplo aos pares e subordinados.
Ora, o que o militar sofre durante o curso é algo que o mesmo poderá reproduzir nas ruas durante sua rotina de serviços com a população civil. Além disso, contribui para que surja no seio da tropa uma segregação natural entre os militares, taxando e excluindo de seus grupos internos os que não possuem os cursos A, B ou C de serem menos capazes de operar e desempenhar um bom policiamento nas ruas.
Uma das punições utilizadas entre os militares são as transferências de uma unidade para outra, não raro sendo transferências que envolvem cidades distantes, como forma de punir o militar. As transferências devem ser realizadas de maneira fundamentada e justificada.
Claro que esse tipo de punição não é previsto em nenhum regulamento disciplinar de nenhuma polícia no Brasil, mas ocorre veladamente e muitas vezes impunemente, criando o terror entre os policiais.
3.1.2.7 Seguros e auxílio
É necessário que os profissionais de segurança pública possuam auxílio para caso de morte ou acidente incapacitante e que esses benefícios se estendam aos seus familiares.
O direito à Assistência Social deverá ser garantido de forma a amparar o profissional e ainda a assistência psicológica.
3.1.2.8 Assistência Jurídica
O policial militar que responde a processo na justiça comum ou junto à corporação necessita de assistência jurídica adequada. A lei estimula a parceria com Defensorias Públicas, serviços de atendimento das faculdades de Direito e núcleos de advocacia, forma de garantir a adequada defesa aos militares.
justificarem suas ações junto a quem de direito. Isso não significa que estejam sempre cometendo crimes ou transgressões contra o cidadão. O que ocorre é que os órgãos de controle externo, as ouvidorias e as Corregedorias de polícia estão cada vez mais atuantes e disponibilizando mais meios para que aquele que se sinta violado em algum dos seus direitos possa denunciar.
3.1.2.9 Habitação
A lei visa garantir a implementação e a divulgação de políticas e planos de habitação voltados aos profissionais de segurança pública, com a concessão de créditos e financiamentos diferenciados.
Reportagem divulgada pela BBC em 2002 pelo repórter Rafael Gomez, traz um retrato de como vivem os policiais que moram em favelas no Rio de Janeiro. Eles são descritos como profissionais vítimas da violência, que convivem com o medo e escondem a profissão (GOMEZ, 2002).
Viver em uma favela, quase sempre dominada pelo tráfico ou pelas milícias, é para quem tem coragem. Os policiais que são descobertos pagam com a vida a ousadia.
Em matéria publicada pela Revista Isto É em 26/09/01 e intitulada “Medo Fardado”, há o depoimento de um policial militar (nome fictício para preservar a identidade do militar) que morava em favela e cuja profissão foi descoberta:
[...] Se não fosse a interferência da família, o soldado Carlos*, um carioca de 23 anos, já estaria morto. Traficantes da favela Rato Molhado, em Higienópolis, zona norte do Rio de Janeiro, invadiram sua casa para executá-lo, depois de descobrirem que ele era policial militar e não guarda municipal. Sua profissão foi descoberta depois de uma ocupação feita na favela para desbaratar o tráfico. Carlos, que servia na Barra da Tijuca, foi deslocado para o 3º BPM, no Méier, zona norte, para participar da ocupação. Desde então, sua vida virou um inferno. A família da esposa salvou sua pele garantindo aos traficantes que ele sairia da favela. Carlos então fugiu com a mulher e a filha recém-nascida. Por não terem para onde ir, acabaram dormindo dois dias no carro estacionado em frente ao batalhão, no Méier. Na quarta-feira 12, o tenente-coronel Jorge Romeu do Nascimento, do 3º BPM, solicitou oficialmente a ajuda da Associação dos Ativos, Inativos e Pensionistas das Políticas Militares e Corpo de Bombeiros (Assinap) (MELO; RODRIGUES, 2001).
policiais como forma de estabelecer uma melhoria no padrão de vida desses profissionais e mais segurança a suas famílias. Infelizmente nem todos os policiais têm condições de ingressar nesses programas considerando-se ainda a discrepância de salários ser enorme.
3.1.2.10 Cultura e Lazer
O acesso à cultura é um fator que deve ser concedido ao profissional através do incentivo à participação em eventos culturais, em especial cinema, teatro e outras atividades, mediante concessão de vales com desconto a ele e a sua família.
A prática de educação física deve ser estimulada como sendo fundamental para a saúde e a melhoria na qualidade de vida deste profissional. Para tal, ela deve ser ofertada dentro do próprio ambiente de trabalho, em atividades que favoreçam e integrem a participação de todos e todas.
As associações, sindicatos e outras formas de organização desses profissionais devem juntar esforços no sentido de estimular que todos possam participar de atividades esportivas.
3.1.2.11 Educação
A educação continuada deve ser adquirida através de cursos que atinjam até a graduação. A formação durante o ingresso e depois de formados deve seguir os ditames da Matriz Curricular Nacional. A referida matriz surgiu no ano de 2003 e foi consolidada em 2007, trazendo ações formativas para profissionais da área da segurança pública.
A Matriz Curricular Nacional traz a seguinte perspectiva:
Dessa maneira, a formação profissional deve contemplar temas comuns nos diversos estados brasileiros com destaque para a disciplina Direitos Humanos.
Para a maior eficácia quanto à atuação junto à sociedade, é necessária a compreensão da importância da Educação em Direitos Humanos e sua aplicação. Quanto à compreensão da estrutura social, Gomes traz a perspectiva marxista:
[...] A visão marxista da estrutura social é triangular e unidirecional, tendo o seu maior dinamismo na base – a forma histórica da produção – e o seu maior grau de cristalização na cúpula, a superestrutura, encarregada de manter unido o sistema. Desse modo, a mudança se propaga de baixo para cima, com a infra-estrutura determinado a superestrutura. Esta última, segundo a perspectiva de Althussser (1972), inclui Aparelhos de Estado (AE) e os Aparelhos Repressivos e Ideológicos do Estado (ARE e AIE). Os primeiros compreendem a chefia de Estado, o governo e a administração pública. Os Aparelhos Ideológicos do Estado incluem as igrejas, as escolas e a família, o aparato legal, o sistema político, os sindicatos, os meios de comunicação, a literatura, as artes e os esportes. Os Aparelhos Repressivos do Estado incluem a polícia, os tribunais, as prisões e as forças armadas (GOMES, 2005, p. 32).
Portanto, o caráter repressivo conferido às polícias necessita que a formação e capacitação desses profissionais seja forjada em sólida estrutura em direitos humanos. "Portanto, o caráter repressivo conferido às polícias necessita que a formação e capacitação desses profissionais seja forjada em sólida estrutura em direitos humanos. O “poder repressivo” aqui em destaque é um poder de controle social, exercido pelo Estado, que possui o monopólio legítimo do uso da força, no sentido weberiano (WEBER, 1999).
Ainda sobre esse poder, pode ser atribuída a ele a responsabilidade de ter sido criada uma imagem negativa quanto às atribuições desses profissionais. Ter a função de ser “o braço armado do Estado” significa utilizar de todos os meios legais para reprimir movimentos sociais, por exemplo.
3.1.2.12 Produção de conhecimentos
É necessário que o Estado, através de suas secretarias e órgãos similares, produza dados e estatísticas que apresentem com clareza os incidentes envolvendo profissionais de segurança pública.
refletem a quantidade de mortes dos policiais por mês e em cada município do estado. Não são apenas dados relacionados a homicídios; há ainda dados que retratam a realidade física e psicológica advinda da atividade laboral.
3.1.2.13 Estruturas e Educação em Direitos Humanos
Desde a formação inicial de ingresso do cidadão nas fileiras das corporações, devem ser criados núcleos de difusão do Plano Nacional de Direitos Humanos.
As diretrizes precisam considerar ainda questões de ordem teórica e prática que contemplem o respeito aos direitos e garantias fundamentais do cidadão, quer seja ele vítima ou agressor, bem como conscientizar o policial de que ele também é sujeito de direitos.
A formação do profissional necessita ratificar que atuar sobre preceitos nacionais e internacionais de direitos humanos é fator que fortalece as instituições policiais e não as enfraquece.
A doutrina policial militar atual defende que, em uma ocorrência policial, a ordem de prioridade de vida é a seguinte: policial, vítima e infrator, e não mais vítima, policial e infrator. Percebe-se que houve uma mudança no pensamento das corporações quanto à importância de seu profissional e à necessidade de proteção da integridade deste em primeiro plano.
3.1.2.14 Valorização profissional
Segundo Amendola (2002), a polícia pode ser definida como “saco de pancadas” pela sociedade. O autor afirma que:
[...] Segurança Pública – dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, como prescrito na Constituição da República Federativa do Brasil. Parece-nos que virou letra morta. Ou quase. E por quê?
O foco das pressões, das cobranças, das críticas, nem sempre construtivas, se volta, única e exclusivamente, contra as polícias estaduais. E em grau bem mais acentuado para a Polícia Militar, visto ser a responsável pela
A análise do autor acima citado transporta para a Polícia Militar uma grande responsabilidade por tudo o que acontece de ruim na sociedade brasileira. Soma-se a isso a influência das mídias em encontrar um culpado para justificar a violência desenfreada que assola a sociedade. O Coronel Severo, pertencente à PM do Estado de Minas Gerais, descreve a relação entre a mídia e as polícias como sendo de amor e ódio:
[...] Hoje, para ser eficaz, a polícia tem de atuar de forma legal, dentro das normas do Estado de direito, e ainda conquistar legitimidade. Legitimidade é dada pela opinião pública, e quem nos ajuda a formar a opinião pública é a imprensa. Por isso, é importante que sejamos capazes de estabelecer relações de compreensão entre repórteres e editores e policiais.
A imprensa precisa compreender que não vamos, de uma hora pra outra, com uma varinha de condão, mudar o histórico da nossa organização, que por muito tempo foi parte do aparelho repressor do Estado. A relação entre a Polícia Militar e a mídia ainda é de amor e ódio. Quando temos sucesso, queremos que a imprensa cubra nossas atividades; quando não sabemos dar a resposta adequada a um problema, gostaríamos que ela ficasse afastada (SEVERO, 2007, p. 47).
Vale ressaltar que a posição de que a legitimidade é conferida pela opinião pública não é um consenso nem entre os juristas, nem entre a opinião pública. Obviamente, todos querem se sentir valorizados profissionalmente quando se divulga um bom trabalho feito. Mas quando a PM acerta, cumpriu o seu dever. Quando erra, é taxada de incompetente, violenta e truculenta.
É necessário que haja políticas de valorização do profissional, tanto em sua saúde quanto na qualidade de vida do mesmo, bem como salários dignos e compatíveis com o risco de vida que correm em seu dia a dia.
Os movimentos grevistas que vêm se desenhando entre dezembro de 2011 e meados de 2012 são motivados por melhores condições salariais. Em entrevista à GloboNews no dia 06/02/2012, a antropóloga e Conselheira do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Jaqueline Muniz comentou os reflexos da greve ocorrida no estado da Bahia afirmando que, como todo movimento social, esta greve utilizou um grande evento como o carnaval para chamar a atenção do governo e fazer pressão.
A antropóloga defende uma política dos estados para melhoria salarial e, por consequência, uma melhoria também dos antigos paradigmas como os regimentos internos, oriundos do exército brasileiro e nem mais utilizados pelas Forças
O policial precisa ser preparado para servir à sociedade, não ao Estado. Para tal, ele necessita ter a possibilidade de exercer seus direitos, de ser cidadão. Para Siqueira Junior (2007, p. 237), cidadania possui o seguinte significado:
[...] O vocábulo cidadania provém de cidade, do latim civitate. A cidadania designa aquele que possui ligação com a cidade. A palavra ciuitas significa cidade, cidadania ou Estado. Por sua vez, ciuitas deriva de ciuis. “Ciuis é o ser humano livre e, por isso, ciuitas carrega a noção de liberdade em seu
centro”. Dessa feita, cidadania carrega a percepção de liberdade.
Para a Constituição Brasileira de 1988, enquanto cidadão, o indivíduo necessita exercer plenamente seus direitos civis e políticos dentro de um Estado Democrático de Direito (BRASIL, 2011).
A concepção dos Direitos Humanos está presente na cultura dos policiais militares no que se refere à normatividade, na moralidade e no princípio legal. Já os DH trazem a ética, a vida, o respeito como princípio legal. São concepções diferentes da própria área jurídica: a convencional, positiva, tradicional e a alternativa (propriamente do direito alternativo)
É preciso dizer que não há consenso nem entre juristas, nem entre teóricos, tampouco entre a PM. O Estado vive em conflitos de poder nas mais diferentes instâncias sociais: inclusive na educação como, por exemplo, o sistema de cotas. Saindo das Instituições do Estado, a sociedade avança lentamente. Na pesquisa realizada por Márcio Pochmann (2004), ex-presidente do IPEA, demonstra claramente a preocupação com os DH e os reflexos políticos e sociais, revelaram que, embora os mais pobres tenham ascendido socialmente a ampliado sua gama de consumo, eles permaneceram conservadores no que diz respeito aos DH.
Mesmo com esse avanço econômico das classes mais pobres, não há uma mudança comportamental quanto às ações dos PM’s na mesma velocidade em que estas transformações sociais acontecem, pois o modelo de Estado possui uma outra dinâmica. Assim, com o advento das mudanças ocasionadas pelo avanço econômico, o Estado ainda acaba por defender os interesses das classes mais favorecidas economicamente, criando um paradoxo, pois este agente do estado efetivamente não defende um grupo ao qual faz parte.
Para o desenvolvimento desta pesquisa, será realizado um levantamento quanto a questões trazidas pelo Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (BRASIL, 2009). Trata-se de um compromisso entre o Estado, através de seus membros, especialmente o Poder Executivo em todas as esferas, organismos internacionais, instituições de educação superior e sociedade civil organizada.
Segundo o referido plano:
A educação em Direitos Humanos constitui um instrumento estratégico no interior das políticas de segurança pública e justiça para respaldar a consonância entre uma cultura de promoção e defesa dos direitos humanos e os princípios democráticos (BRASIL, 2009, p. 48)
Assim, os princípios consagrados no plano, no que diz respeito aos profissionais de segurança pública, contemplam aspectos relacionados a respeito e obediência à lei e aos valores morais, liberdade de exercício e opinião, reconhecimento de embates entre paradigmas, respeito a diferenças sociais e culturais, conhecimento acerca da defesa e proteção dos mecanismos de defesa dos direitos humanos, uso legal e legítimo do uso progressivo da força, respeito ao trato com as pessoas, consolidação de valores baseados na ética, dentre outros.
Aliado ao Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, a Secretaria Especial de Direitos Humanos na Presidência da República, em parceria com o Ministério da Educação e Ministério da Justiça, criou a Portaria Interministerial nº 002/2010. O referido documento apresenta diretrizes para a criação de Direitos Humanos apresentando a preocupação com a Educação Básica, Educação Superior, Educação não formal, Educação dos Profissionais dos Sistemas de Justiça e Segurança e Educação e Mídia.
Esses eixos da Portaria Interministerial nº 002/2010, aliados às linhas gerais de ação do Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos, tem como objetivo a formação de cidadãos conscientes e com princípios pautados no respeito à dignidade da pessoa humana.
A Educação de Ensino Superior apresenta diretrizes e preocupação com o Estado Democrático de Direito, e atribui como contribuição a esse tipo de ensino o compromisso com a garantia dos preceitos como a igualdade, liberdade e justiça, a universalidade do conhecimento e a construção de projetos coletivos.
Já a Educação dos Profissionais dos Sistemas de Justiça e Segurança é pautada em preceitos constitucionais previstos no artigo 144 da Constituição Federal Brasileira de 1988, que apresenta o dever do Estado e a responsabilidade de toda a sociedade.
O Plano Nacional de Direitos Humanos apresenta recomendações quanto à necessidade de cumprimento ao respeito da dignidade da pessoa humana por parte dos profissionais de segurança pública. Estes devem conhecer e respeitar os direitos e garantias fundamentais do cidadão. As ações programáticas do plano preveem ações como a capacitação desses profissionais e o estímulo à capacitação dos mesmos lato e stricto sensu nas áreas de segurança pública e direitos humanos. Contemplando e alinhando-se às diretrizes do plano em questão, os objetivos do Curso de Tecnólogo em Segurança em Ordem Pública realizado por alunos policiais da PMDF e desenvolvido por uma instituição de ensino localizada em Brasília-DF, defendem a Educação em Direitos Humanos como sendo um instrumento estratégico no interior dos órgãos de Segurança Pública e Justiça, com vistas a aliar uma cultura institucional de promoção defesa dos direitos humanos com os princípios democráticos do Estado brasileiro.
Ao desenvolver a presente pesquisa, também houve a preocupação em verificar quais as pesquisas existentes sobre a percepção dos policiais quanto aos direitos humanos, como parte normalmente constitutiva de um estado da arte sobre a temática pesquisada. Assim, foram levantadas algumas pesquisas com a finalidade de verificar como a Educação em Direitos Humanos dos profissionais de segurança pública vem sendo abordada, mesmo que em alguns casos de forma indireta pelos pesquisadores, e ratificar a necessidade e relevância de mais um estudo na área.
Na mesma publicação, Jelvez (2012) enfatiza que as ações da polícia devem ser diferenciadas das dos criminosos e que a garantia das ações policiais só se concretizará se forem ajustados os seus procedimentos operacionais mais importantes. Assim o autor defende que a polícia deve “traduzir os direitos humanos e constitucionais nas atividades específicas da atuação dos operadores de segurança pública e justiça criminal”.
Sousa e Gomes (2011) realizaram importante relato de pesquisa, intitulado “A juventude na ótica dos policiais: a negação do direito de aparência”, quanto à visão da juventude sob a ótica policial. A pesquisa, realizada com policiais militares pertencentes ao Batalhão Escola da PMDF, aponta um dado importante e preocupante: a aparência e a moda são os principais fatores que levam o policial militar a caracterizar hodiernamente o jovem. O próprio texto convida à reflexão sobre qual a relação entre apresentação pessoal de uma pessoa e a discriminação que existe em relação aos agentes do Estado na decisão de abordar ou não esse indivíduo. Desta forma, a aparência torna-se fator a ser considerado para desencadear ações preconceituosas e discriminatórias na execução da atividade fim. Tal pesquisa reforça os dados de outros estudos realizados no Brasil e no exterior (PAIXÃO, 2008; RAMOS; MUSUMECI, 2005 ;BOWLING; PHILLIPS, 2007;HAGAN; SHEDD; PAYNE, 2005 ; GELMAN, FAGAN E KISS, 2005).
Miranda (2009) faz uma leitura sobre a linguagem especial utilizada pelas forças policiais. Essa análise aborda a questão do surgimento de novas linguagens dentro da atividade policial, que permite grandes variações na linguística nesse campo. Foi analisada somente a linguagem utilizada no cotidiano de policiais militares do estado do Piauí, sendo que todos possuíam como escolaridade nível superior. O objetivo seria analisar os reflexos dessas linguagens na cultura organizacional da instituição.
O pesquisador concluiu que a rotina policial faz com que surjam vocábulos próprios, que se formam a partir de uma rotina de violência simbólica e situações adversas da atividade policial, aliado a fatores como idade, escolaridade e relações hierárquicas no ambiente de trabalho, devendo ser observadas com atenção e servir de subsídios para criação de políticas públicas com vistas a amenizar as práticas policiais dos agentes que atuem diretamente com o cidadão.
policiais no fórum analisado nesta pesquisa, pois as linguagens e expressões peculiares poderão ser identificadas na análise dos dados.
Por exemplo, no meio policial, a orientação é referir-se ao agressor como “cidadão infrator” e não como “bandido”, pois supostamente isso soaria como um desrespeito aos direitos humanos desse indivíduo. As novas linguagens também transformam pejorativamente a expressão “busca pessoal” (revista no indivíduo com objetivo de encontrar ilícitos) em “baculejo”. Essas palavras soam como desrespeito aos direitos do cidadão, e tais dados podem servir de indicadores de concepções dos policiais e consequentemente nos servem sobejamente para os fins de pesquisa.
Miranda (2009), em seu artigo “De pegador de bandido a Operador de Segurança Pública”, fala sobre a mudança dos modelos de polícia, da tradicional e repressiva a um modelo preventivo, pautado nos moldes de polícia comunitária, Estado democrático e no binômio polícia-sociedade. O autor aborda a mudança do comportamento das instituições policiais baseado na Constituição e nas demandas sociais, que implicam na mudança do treinamento e capacitação dos policiais militares voltados para a criação de uma polícia cidadã. Nessa perspectiva, os direitos humanos assumem papel protagonista e devem ser trabalhados nos cursos de formação, para a criação de uma cultura dentro das instituições policiais militares. Duani (2009), que integra o quadro funcional da Polícia Militar do estado de Minas Gerais, reconhecida instituição por ser referência em estudos sobre direitos humanos e atividade policial, traz reflexões sobre como são vistos os defensores dos direitos humanos e uma visão, segundo ele equivocada, de que direitos humanos é coisa pra bandido. O autor destaca em suas reflexões que não apenas o Estado é violador dos direitos humanos, e sim que qualquer indivíduo em desconformidade com os preceitos de direitos e garantias fundamentais pode ser violador desses direitos. Ele sugere que ações integradas entre a polícia e os órgãos de proteção aos direitos humanos sejam realizadas no intuito de mudar a visão errônea que existe de que direitos humanos não é coisa de polícia.
relacionadas como fundamentais na capacitação dos policiais, Direitos Humanos desponta como uma das primeiras listadas. A publicação alerta para o baixo índice de policiais que recebem formação continuada após saírem dos cursos de formação inicial. Apresenta ainda como principais dificuldades na implantação do modelo EAD na PMES a falta de acesso dos policiais a computador e Internet, exclusão digital, acesso a telecentro, mudança de concepção em relação à EAD, dificuldade de controle, falta de tempo, falta de interesse da organização e dos policiais, falta de cultura para estudo autônomo, elaboração de material e custo.
Faria (2007) investiga o apoio de policiais militares do estado de Goiás a ações de execução extrajudiciais para combater a violência. Fica evidenciada, com base nesses resultados, a importância da continuação dos cursos de Direitos Humanos nas corporações policiais, uma vez que a Educação em Direitos Humanos auxilia os agentes de segurança pública a pautarem suas ações no Estado Democrático de Direito.
Miranda (2007), ao analisar a política orientadora na formação do policial civil no estado do Piauí nos anos de 2002 a 2003, faz duras críticas à formação dada a esses profissionais, que vão desde a falta de uma estrutura logística adequada e de habilidade para o ensino dos instrutores à falta de uma sistematização do ensino. O autor destaca a democratização brasileira ocorrida na década de 80 e a necessidade então de conter os abusos de poder, que passam então a ser alvos de críticas pela sociedade, tendo os cursos de formação de policiais que se adequarem em seu papel, passando a ter função de proporcionar uma educação continuada no que diz respeito aos valores institucionais. Com o discurso de humanizar e profissionalizar o policial civil piauiense, foi estabelecido que a formação desse profissional deveria alinhar-se com as diretrizes de políticas governamentais, como o criado em 1986 pelo Ministério da Justiça, chamado Programa Nacional de Direitos Humanos, que aponta ações para o aperfeiçoamento desses cursos, que dentre as ações inclui a disciplina Direitos Humanos.
A dificuldade de sua implantação processual torna os direitos humanos frágeis, excluindo juridicamente uma parcela de cidadãos. Os direitos humanos tornam-se protetores apenas de minorias, dada a exclusão social que recai sobre a sociedade. O autor alerta para a ambivalência que ocorre dentro do Estado quanto à força simbólica dos direitos humanos. Em países como a Venezuela, o Estado apenas confere uma falsa impressão, inclusive expressa na Constituição, de que existe um governo do povo.
Adorno (2000) apresenta uma análise sobre a insegurança e os direitos humanos, fazendo uma leitura sobre as políticas públicas criadas no período primeiro Governo FHC (1995-1998). O autor analisa o paradoxo existente entre a transição de um legado de violação de direitos humanos por parte das forças policiais e os novos paradigmas dos direitos humanos, como o respeito à dignidade da pessoa humana, ao passo em que uma parte da sociedade ainda defende que “bandido bom é bandido morto”.
O autor ainda destaca a dificuldade da existência de um consenso quanto à aplicação da lei e da ordem no Brasil. Ele avalia que as ações em segurança pública nem sempre estavam conectadas entre si. As constantes articulações entre o governo e a sociedade civil deram origem ao Plano Nacional de Direitos Humanos, concretizado no ano de 1996 e priorizando combater abusos de poder praticados por autoridades públicas no exercício de suas atribuições legais.
Entre as principais ações no campo da segurança pública destacamos a criação de cursos de “reciclagem” para policiais civis e militares quanto aos direitos humanos, patrocinados pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), como forma de promover a Educação em Direitos Humanos para esses profissionais. Muito mais do que apenas mudanças na conduta policial, era necessário uma mudança política.
o processo de Educação em Direitos Humanos no Brasil, iniciada na década de 80 e seus reflexos. A participação dos governos estaduais na consolidação dessa proposta, a falta ainda de material e publicações sobre tema e a ausência de uma política em comum dificultaram esse processo. A partir da consolidação da Constituição Brasileira de 1988, abriu-se uma perspectiva para que, na década de 90, surgissem seminários, movimentos sociais, redes e outros, na defesa dos direitos humanos, principalmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Nesse momento histórico, houve a entrada do governo na luta pala promoção e defesa dos direitos humanos com o Programa Nacional de Direitos Humanos. A década de 90 trouxe preocupação em adequar o modelo educacional e a reforma curricular, como forma de consolidar a Educação em Direitos Humanos no país.
4 A METODOLOGIA
4.1 DEFINIÇÃO, DESCRIÇÃO E JUSTIFICATIVA DO TIPO DE PESQUISA
Foi realizada a pesquisa qualitativa, a qual, segundo Gil (2002), busca uma maior familiarização sobre o problema estudado e ainda a construção de hipóteses aprimorando ideias.
Para Kerlinger (2003), a pesquisa qualitativa permite ao pesquisador uma análise intersubjetiva sobre fenômenos, trazendo uma abordagem observacional, atribuindo ao pesquisador uma ação não participante à pesquisa, mas mantendo a possibilidade de responder às perguntas que se propôs a responder.
A pesquisa foi realizada com a necessária “vigilância epistemológica”, conforme Bourdieu, Chamboredon e Passeron (1999, p. 14), isto é, tendo o cuidado constante com as condições e os limites da validade de técnicas e conceitos. É preciso repensar cada operação da pesquisa, mesmo a mais rotineira e óbvia, tendo clareza de que o método científico, nesta perspectiva, é construção social do pesquisador e está eivado de suas intencionalidades, bem como do meio social em que se constituiu.
Tanto para a pesquisa qualitativa quanto para a pesquisa em educação há uma convergência quanto à complexidade das relações entre indivíduos e a diversidade de conteúdos. Assim, utilizar a pesquisa qualitativa permite um delineamento maior e específico voltado para a temática educação.
4.2 CONTEXTUALIZAÇÃO E SUJEITOS PESQUISADOS
A pesquisa teve como sujeitos parte dos policiais, alunos participantes do TecSop, do primeiro e segundo semestre do curso das turmas do ano de 2011 realizado integralmente na modalidade ensino a distância. Optou-se por se restringir a este ano, devido ao fato de que nos anos anteriores a pesquisadora possuía turmas na disciplina que serviram de base para coleta dos dados e em 2011, a mesma não possuiu turmas, sendo estas de outros professores. Assim, avalia-se que há, metodologicamente, um cuidado para um maior distanciamento, em vista de uma maior aproximação analítica. O curso teve o total de 02 turmas no referido ano. Cada turma da disciplina de Direitos Humanos, Ética e Cidadania tinha em torno de 50 estudantes, perfazendo assim o total aproximado de 100 alunos policiais. Todos os participantes destas turmas compõem o quadro funcional da PMDF e fazem parte da categoria das Praças, que abrange os subtenentes, sargentos, cabos e soldados. O curso oportuniza uma formação de nível superior aos mesmos, enquanto tecnólogos. A idade dos alunos policiais compreende a faixa de 24 a 45 anos, e existe uma predominância masculina, sendo a presença feminina diminuta. O salário de um soldado de 2ª classe é de R$ 3.603,70(três mil seiscentos e três reais e setenta centavos), conforme dados obtidos na Secretaria de Estado de Administração Pública do Governo do Distrito Federal (DISTRITO FEDERAL, 2011).
A coleta de dados, o material empírico de pesquisa, compreende, especialmente, a partir das postagens realizadas em fóruns das turmas selecionadas e de outros documentos a serem devidamente detalhados e justificados nos itens que se seguem.
4.3 DEFINIÇÃO E JUSTIFICATIVA PARA ESCOLHA DO INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS
4.3.1 Análise Documental
Para Gil (2002), a análise documental apresenta o baixo custo e a possibilidade de obtenção de dados puros, fidedignos e estáveis. O pesquisador não fica a mercê de um contato com os participantes.
O documento analisado foi o convênio firmado entre o GDF e a UCB, com vistas a verificar quais os objetivos e finalidades da criação do TecSop, bem como a previsão do público que contempla os requisitos para concorrer a uma vaga no curso. Outras documentações foram objeto de análise, como os planos da disciplina Direitos Humanos, Ética e Cidadania e parte referente aos DH do conteúdo e hipertexto da disciplina. Estes serviram de referência quando das análises realizadas.
4.3.2 Categorização dos dados
Optou-se por analisar as postagens dos estudantes seguindo os seguintes passos:
Pré-análise:
Esta técnica permitiu realizar uma leitura aberta de todas as ideias, reflexões e hipóteses, em algo que podemos comparar como brainstorming individual. É a chamada “leitura flutuante”, onde foi possível realizar uma leitura geral a respeito do tema debatido no fórum.
1) Exploração do Material:
A partir daí, formulamos hipóteses provisórias com o intuito de verificar algumas observações que servirão para categorizar os termos mais relevantes visando análise posterior. Foi realizada uma espécie de “filtragem” das postagens dos fóruns, sendo feito um recorte somente com as postagens e preservando a identidade do aluno.
2) Tratamento (categorização) e interpretação:
“TagCrowd” ou “nuvem de poeira”. O referido programa realizou uma leitura dos textos e pontuou quantitativamente quais as palavras mais recorrentes e quantas vezes ela aparece no texto. Assim, foi possível realizar uma análise quantitativa por palavra, bem como após isso particularizar a leitura e verificar em que contexto essa palavra foi dita, de forma a otimizar a visão de DH ou negá-la. A partir disso foi constituída uma análise qualitativa das palavras, em seus contextos de orações, tendo em vista os objetivos da pesquisa.
5 ANÁLISE DE DADOS
A proposta do Fórum 01, tanto no 1º quanto no 2º semestre, pedia aos estudantes que em um primeiro momento defendessem os direitos humanos e posteriormente, atacassem. Os alunos deveriam justificar em ambos os casos o porquê das opiniões.
O fórum sugeria aos estudantes que participassem de um “júri simulado”. Na primeira semana, metade da turma defenderia os direitos humanos e a outra metade contestaria; os papéis se inverteriam e esses mesmos que defenderam, contestariam na segunda semana. Essa técnica permitiu a contraposição das ideias, estimulando uma participação mais ativa e com debates mais interativos.
O Fórum 01 foi disponibilizado em uma segunda-feira e permaneceu aberto para as postagens e intervenções por um período de 15 (quinze) dias. Durante esse período, os estudantes deviam realizar no mínimo 03 (três) intervenções, sendo que uma postando sua opinião quanto ao tema, respondendo à pergunta sugerida e, posteriormente, interagindo com a postagem de outro colega. A pergunta inicial consistia no seguinte:
1) Nessa etapa você deverá intervir no mínimo 02 (duas) vezes para posicionar-se de acordo com a indicação feita para cada grupo;
2) Localize seu nome na tabela “Grupos para o 1º Fórum Avaliativo”, que
se encontra logo abaixo deste fórum;
3) Identifique qual o conteúdo dirigido ao seu grupo;
4) Para organizarmos melhor esta fase, deverão postar com a letra na cor VERDE os que DEFENDEM e em letra na cor VERMELHO os que ATACAM;
5) Para realizar a sua postagem aqueles(as) que DEFENDEM devem
iniciar dizendo “DEFENDO”, após indicar o conteúdo que foi dirigido e, em seguida, responder individualmente. Ex.: “DEFENDO. Conteúdo: 1.1
Evolução histórico-cultural dos direitos humanos no mundo – No meu
entendimento defendo os direitos humanos porque historicamente...”
Os que ATACAM devem iniciar postando o termo “ATACO”, seguido do
número do grupo e do nome do colega. Ex.: “ATACO. Grupo 01. MARIA MARIH (nome fictício) – No meu entender não concordo com a colega,
pois os direitos humanos no geral não servem...”. Essa participação
será contabilizada como primeira intervenção dessa fase;
5) O passo inicial deve ser daqueles(as) que DEFENDEM. Logo após, virão aqueles(as) que ATACAM. Após o ataque, aqueles(as) que inicialmente defenderam vão novamente se posicionar fazendo a réplica (defendendo) e, a seguir, os que atacaram farão tréplica (novamente atacando). Tudo deverá ser feito com base nos argumentos utilizados por ambas as partes e no conteúdo especificado no quadro da divisão dos grupos. Portanto, quando ocorrer a réplica e a tréplica, vocês terão cumprido o segundo passo dessa fase;