DUAS P A L A V R A S
SOBRE OR E G I M E N L Á C T E O
O Î O -DISSERTAÇÃO INAUGURAL APRKSENTADA AESCOLA MEDICOCIRURGICA DO PORTO
PORTO
TyPOGRAPIIIA DA REAL OFFIC1XA DE S. JOSÉ Rua Alexandre Herculano
1896
ESCOLA MEDICO-CIRURGICA DO PORTO
Conselhelro-Dlrector
DR. WENOESLAU DE SOUZA PEREIRA DE LIMA
Secretario
RICARDO D'ALMEIDA JORGE
C O R P O r > O O E J X T E
PROFESSORES PROPRIETÁRIOS 1.* Cadeira—Anatomia descriptiva egeral
2.° Cadeira—Physiologia . 3." Cadeira—Historia natural dos me
dieamentos e materia medica
i." Cadeira—Pathologia externa e the
rapeutica externa
5." Cadeira—Medicina operatória li." Cadeira—Partos, doenças das mu
llieres de parto e dos recem-nas eidos
7." Cadeira—Pathologia interna e the r a p e u t i c a i n t e r n a .
8.a Cadeira—Clinica medica
9." Cadeira—Clinica cirurgia . 10.» Cadeira -Anatomia pathologica 11. Cadeira—Medicina legal, hygie «e privada e publica e toxicolo
gia
12." Cadeira—Pathologia geral se meiologia e historia medica. Pharmacia
João Pereira Dias Lebre. Antonio Placido da Costa. Illydio Ayres Pereira do Valle. Antonio Joaquim de Moraes Caldas. Pedro Augusto Dias.
Dr. Agostinho Antonio do Souto.
Antonio d'Oliveira Monteiro.
Antonio d'Azevedo Maia. Eduardo Pereira Pimenta.
Augusto Henriqued'Almeida Brandão Ricardo d'AImeida Jorge.
Maximiano A. d'Oliveira Lemos. Nuno Freire Dias Salgueiro.
Secção medica Secção cirúrgica .
P R O F E S S O R E S J U B I L A D O S
I José d'Andrade Gramacho. ' ) Dr. J o s é Carlos Lopes. . Visconde de Oliveira. P R O F E S S O R E S SUBSTITUTOS
i João Lopes Martins Junior. Vago.
Secção medica . . . .
Secção cirúrgica Cândido Augusto Corrêa de Pinho. ) Roberto Belarmino do Rosário F r i a s . DEMONSTRADOR DE ANATOMIA
A M I N H A S IRiWÂS
&m mim pmmtgê
AOS MEUS CONDISCÍPULOS
« ♦ ■40*'
A' MEMORIA DOS MEUS CONDISCÍPULOS
J o s é A i x g u s t o d e C a m p o s B r i t o
J o s é «la, S i l v a G u i m a r ã e s
n
UMA SENTIDA LAGRIMA.
E EM ESPECIAL A
1)r. Eduardo Gonçalves de Mattos T)r. çAntonio Borges Rodrigues Henrique da Silva oAmorim Vicente doAlmeida 1{ibeiro
'Dr. José Gomes de Figueiredo Sobrinho 'Dr. oAlberto Carlos Teixeira de Brito Joaquim oAlexanclrino da Conceição OAntonio Pinto Valente Junior José Corrêa da Silva
Francisco oAugusto Regalia Junior SManoel da T{ocha oAmorim
'David da 1{ocha oAmorim Eduardo <íMengo
E
oAOS mEUS TROFESSORES
E EM ESPECIAL AOS EX. s SNRS.
3 QJÉL ■ ■ a/si®/ ■ 9"
O EX.'"" SNR.
V
ANTES DE COMEÇAR
Para remate dos trabalhos académicos,
impõe-nos o regulamento d'esta Escola a
obrigação de escrevermos e deffendermos,
sobre qualquer assumpto medico ou
cirúr-gico, um trabalho, baptisado com os nomes
de these ou dissertação. Árdua e espinhosa
tarefa, a que bem desejaríamos eximir-nos,
se a lei não fosse superior á nossa vontade.
E que, na verdade, ao terminar o curso
me-dico, de todas as doutrinas ahi professadas
durante cinco annos, só se possuem
conheci-mentos geraes, bastante vagos, minguado
material para architetar um trabalho de tal
ordem.
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Assim, era tão embaraçosa situação, o
alumno é como o estadista d'um paiz, que
não pôde cobrir o orçamento sem recorrer
ao credito estrangeiro. É também em
traba-lhos alheios que o alumno vae mendigar o
material païa a confecção da sua obra.
N'isto seguimos o caminho jâ trilhado
por quasi todos os nossos collegas,
exce-ptuando um ou outro que vae arrancal-a aos
laboratórios, a cujos trabalhos está já
habi-tuado.
Não temos a pretenção de justificar a
es-colha do assumpto para a nossa dissertação ;
se nos decidimos por este, foi por o regimen
lácteo ser hoje aconselhado em variadissimos
estados mórbidos.
Sem mérito descriptor e sem recursos
- intellectuaes, o nosso trabalho, modesto e
despretencioso, resente-se certamente da falta
de desenvolvimento, que merecia.
Confessada, pois, a nossa incompetência,
apresentamos a nossa ultima prova tão
so-mente confiados na benevolência do
illus-trado jury, que ha-de julgal-a.
CAPITULO I
leite. — Soas propriedades e composição. — Origem dos diversos ele-mentos do leite.
O leite, produeto de secreção da glândula mamaria, é, no estado fresco, um liquido branco, ás vezes ligeiramen-te amarellado ou azulado, de sabor especial, agradável e adocicado.
Normalmente inodoro ao sair da glândula, excepto para a cabra e raras outras espécies, bem depressa ad-quire um cheiro sut generis, variável com a espécie.
Ainda hoje não está averiguado se esse cheiro é de-vido a algum produeto especial, eliminado pela glându-la mamaria juntamente com o leite, ou se é a consequên-cia de qualquer impureza que, externamente, tenha man-chado a teta ou o mamillo. Abona esta ultima opinião o facto de que as cabras, que pascem ao ar livre, dão um leite de cheiro muito menos pronunciado, do que as ali- " mentadas em estábulos.
O mesmo clesaccordo manifestam os chimicos, rela-tivamente á reacção. Emquanto uns, (Berzelius, Thénard, Marchand), a consideram acida, no leite fresco, outros, (Gay-Lussac, .Toly, Donné), admittem a alcalinidade. O que é certo, é que, muitas vezes, a sua reacção é ampho-terica. D'aqui a divergência d'opiniào dos illustres chi-micos.
Parece, todavia, que o leite dos carnívoros é, geral-mente, acido, e o dos herbívoros, alcalino.
A sua acidez é devida ao phosphato acido de soda e ao acido carbónico, sendo este ultimo que, desenvol-vendo-se do leite fresco, onde se encontra em solução, lhe dá o aspecto espumoso. A sua densidade, á tempera-tura de 15.», é de 1020 a 1034.
O leite é de uma grande instabilidade chimica, como bem o comprovam as diferenças, que obtiveram os chi-micos, na sua analyse.
Abandonado a si próprio, sem tomar precauções es-peciaes, em breve apresenta importantes modificações physico-chimicas. A sua reacção torna-se francamente acida, o que é devido á presença de quantidades sempre crescentes d'acido láctico, formado á custa da materia assucarada do leite, sob a influencia dos micro-organis-mos, que ahi encontram um excellente meio de cultura e podem desenvolver intensamente a sua actividade chi-mica.
E', pois, necessário, para réalisai" a sua analyse quantitativa e qualitativa, rodear-se o chimico de certas precauções, para evitar a acção dos germens exteriores. Jíem os antisepticos, nem o calor satisfazem a esta
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necessidade, porque estes agentes fatalmente modificam por si próprios a composição do liquido.
Os chimicos vencem ainda esta barreira, recorren-do á asepsia, que lhes permitte obter um leite livre de qualquer contagio e podendo conservar-se por muito tem-po, sem alteração apreciável.
Não faremos aqui a descripção de apparelhos e pro-cessos technicos para fazer uma analyse completa do lei-te. Tão somente daremos o resultado d'essa analyse, res-peitante ao leite de mulher e d'algumas outras espécies domesticas, em que se explora este liquido orgânico, já como alimento ou medicamento, já mesmo para ser con-fiado á industria, que d'elle extrae différentes produ-ctos.
O leite obtido em condicções asepticas perde, pelo repguso, a sua apparencia homogénea e divide-se em quatro camadas sobrepostas e bem nitidas.
No fundo do vaso forma-se uma camada delgada, muito mais branca que a camada superior, constituída por phosphate- tricalcico.
A camada immediatamente superior é ainda branca, formada de partículas muito tenues em suspensão, dan-do, tratada pelos ácidos, um precipitado abundante, gru-moso, de caseina.
A terceira camada é opalina, ligeiramente amarel-lada e reduz a quente o licor de Fehling, como uma so-lução de glucose. Contem esta camada um assucar parti-cular, a lactose ou assucar de leite, caseina e outras subs-tancias albuminóides. Precipita também pelos ácidos e pelo calor.
do leite, sob a forma de glóbulos gordurosos, que sobem á superficie do leite, em virtude do seu pequeno peso es pecifico.
Encontramse no leite, a par de uma grande quan tidade d'agua, dissolvidos ou em suspensão, diversos outros elementos, como : caseína, albumina, gordura, as
sacar de leite, e ainda sem, fermentas, gazes e vestígios de
matérias extractivas, nomeadamente a urea.
Em 1000 partes de leite existe uma media de 130 partes de principios sólidos e 870 d'agua.
Os principios sólidos são:
Matérias albuminóides 4 % gordas . . . . 2,5 „ Assucar de leite . . . 4,5 „ Saes mineraes 2 „
Eis a composição cbimica, media, d'algumas espécies diferentes :
Segundo as analyses de Veruois e Becquerel
ESPÉCIES
PRINCÍPIOS POU 1:000
Aifiiu Mfttortafl flxMH Deiirtichuto C/iHoimt Albumina Munt.iíitfft A.*» IHir du loi Ce i ) H J !■«■«-I l l C O f i
Mulher .
Jumenta.
Vacca . .
Cabra . .
Ovelha. .
889
890,1
845,6
873,2
832,3
110,9
109,8
154,3
126,7
167,6
1032,6
1034,5
1033,3
1033,5
1040,9
39,2
35,6
33,1
24,8
69,7
13,2
26,6
18,5
63,3
44
51,3
43,6
50,4
42,4
38,3
39,4
1,3
5.2
6,1
6,2
7,1
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Segundo as analyses de llirt
KSPKCIES PRINCÍPIOS POR 100
Agtin Cue «hi ft .Albumina. G «rd uri* ,„«,„,. I M I
Mulher . . J 87,09 Vacca . . . 87.41 Ovelha . . . 81^63 Cabra . . J 86,91 Jumenta. . 90,04 i 0,66 3,01 4,09 2.87 0,60 2,35 0,75 1.42 1,19 1,55 3,90 3,66 5.83 4,09 1,29 6,04 4,82 4,86 4,45 6,25 0,49 0,70 0,73 0.86 0,31
A analyse das cinzas revelou a Wildenstein : (Para 1:000 partes de cinzas de leite de mulher)
Chloreto de sódio 10,73 „ „ potássio 26,33 Potassa 21 44 Cal 18,78 Magnesia 0;87 Acido phosphorico 19 00 Acido sulfúrico 2 64 Silica vestígio*
Schmidt encontrou em 1.000 partes de cinzas: Sódio . . . . Potássio . . . Chloro . . . . Oxido de cálcio . „ de magnésio Acido phosphorico „ sulfúrico . Oxido de ferro . Silica . . . . * *
Tem-se discutido muito sobre o numero das maté-rias albuminóides do leite, sem que se tenha até hoje chegado a accordo. Uns, com Maquer á frente, preten-diam que a caseina fosse a única substancia albuminóide do leite, outros que ahi existem mais albuminóides.
Maquer, em 1778, definiu o leite-como uma verda-deira emulsão. "Le fromage, dizia elle, fait fonction de mucilage qui sert à tenir la partie huileuse suspendue; le lait, peut-être à juste titre nommé une emulsion anima-le dans laquelanima-le anima-le beurre, anima-le fromage et anima-le petit lait te-nant en dissolution le sucre de lait ne sont qu'intime-ment mêlés et peuvent se séparer d'eux-mêmes par une espèce d'analyse spontanée.,, Entre os adeptos d'esta opinião contam-se Fourcroy, Berzélius, Liebig e outros.
MULHER VACCA 4,21 6,38 31,59 24,71 19,06 14,39 18,78 17,31 0,87 1,90 19,00 29,13 2,64 1,15 O'IO 0,09 vestígios 0,09
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Mais tarde os trabalhos de chimicos celebres, como Boucbardat e Quevenne, Hoppe Seyler, Morin e ainda Danilewski e Radenhausen, fizeram cair a velha doutrina de Maquer, mas não conseguiram conjurar a diver-gência, por isso que ainda não determinaram com certe-za o numero das substancias albuminóides, que se en-contram no leite.
Em 1857, Boucbardat e Quevenne constataram, pela primeira vez, a albumina no leite, filtrando-o muitas ve-zes e submettendo o liquido quasi límpido, que obtinham, á acção do calor, que o turvava mais ou menos. Hoppe Seyler também obteve um precipitado, aquecendo a 75° o leite filtrado atravez de um uretère humano.
Se precipitarmos a caseína do leite pelo sulfato de magnesia á saturação, e filtrarmos, o liquido filtrado pre-cipita a 60.° pela acção do calor. Mas se tomarmos duas porções de leite, um fervido, outro não fervido, precipi-tarmos a caseína pelo sulfato de magnesia e filtrarmos, dos dois líquidos filtrados somente precipitará o segun-do, porque no primeiro a albumina já tinha precipitado pelo calor. Estas experiências, e muitas outras, parecem autorisar-nos a admittir como demonstrada a presença da albumina no leite.
Quevenne e Boucbardat tomaram o producto de-sembaraçado da caseína e da albumina, que já não pre-cipitava pelos ácidos nem pelo calor, e trataram-o pelo tannino e por um excesso d'alcool a 90.°, obtendo um pre-cipitado, a que deram o nome de alòuminose. Para Du-claux esta substancia seria análoga a outra, descripta já por Morin em 1854, sob o nome de galactina.
precipitado pelo calor e pelos ácidos, uma substancia não precipitavel pelo bichloreto de mercúrio, que não cora de vermelho pelo nitrato acido de mercúrio, mas que precipita pelo reagente de Millon em flocos insolúveis na agua e no alcool, mas solúveis n'um excesso de rea-gente, substancia a que deram o nome de ladoproteina, e que consideram análoga á albuminose de Bouchardat e Quevenne, pois-que, como ella, precipita pelo alcool, pelo tannino e pelo reagente de Millon. A lactoproteina tem ainda uma substancia idêntica no soro de leite, a
proteína de Hammarsten.
Kirchner admitte a identidade das peptonas com a proteína do soro de leite, e d'ahi conclue a preexistência das peptonas no leite.
Finalmente Danilewski e Radenhausen consideram a caseína como uma mistura de caseoalbumina e de pro-talbina, que se poderiam separar pelo calor a 50.°, no qual a primeira é insolúvel. Admittem uma outra albu-mina nos glóbulos gordos, e quatro matérias albuminóides no soro separado pelo acido phosphorico. Deram a estas substancias o nome de orroproteina, albumina do soro, lacto-syntoprotalbina e lacto-syntogene.
Julgam também que, com estes albuminóides, exis-tem uma peptona verdadeira, uma pseudopeptona e syn-togene.
Duclaux crê qne a albumina do leite, a caseína e a lacto-proteina não são mais que caseína em diversos graus de solução. Para elle o leite normal conteria ca-seína nos três estados de suspensão, solução e colloidal.
Assucar de leite.—O assucar de leite, cuja descoberta,
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denominação de mamia ou nitrum sen lactis, obtem-se con-centrando soro de leite pela evaporação e abandonando-o a si próprio. Oystalisa em prismas orthorhombicos in-colores, de sabor um pouco adocicado, solúveis em 6 partes d'agua fria e em 2,5 d'agua fervente, insolúveis no alcool e no ether. Desvia para a direita o plano de - polarisação, e tem um poder rotatório de 49°,3.
Constituido por união da glucose e da galactose, com eleminaçào de uma molécula d'agua, desdobra-se n'aquellas duas substancias pela acção dos ácidos diluí-dos. Reduz o licor de Fehling, mas o seu poder redu-ctor é dois terços do da glucose. Submettido á influen-cia do fermento láctico, transforma-se em acido láctico.
Não se tendo encontrado a lactose em outra parte do organismo, alem do leite, occorre perguntar de que modo ella se formará ahi.
Para muitos physiologistas está bem averiguado que o assucar de leite tem a sua fonte d'origem na glucose do sangue.
Pelo menos as experiências de Cl. Bernard, a este respeito, são concludentes.
P. Bert e Schutzenberger, porem, julgam ter des-coberto nas tetas da vacca em lactação uma substancia lactogene, á custa da qual se formaria o assucar de leite. Thierfelder, por sua vez, fazendo digerir a glândula ma-maria n'uma estufa, á temperatura de 18°, obteve as-sucar de leite á custa de uma substancia preexistente na glândula, a que chamou substancia saccharpgene, dis-tincta da substancia glycogene.
Glóbulos gordos do leite.—Quando se abandona o leite
branca, espessa, constituída pela materia gorda em sus-pensão no leite, a qual, examinada ao microscópio, apre-senta uma enormidade de glóbulos, cujo diâmetro oscilla entre 2,10 e 20 micras, variando com a espécie. Esta ca-mada é constituída pelo creme ou nata.
Debate-se ainda hoje a questão de saber se estes glóbulos carregados de matérias gordas tem, ou não,* membrana propria, isto é, se a matéria gorda se encon-tra no estado d'emulsão, ou não.
Primeiro considerados por Tréviranus (1817) como puros glóbulos de gordura, e por Weber formados de ca-seum e manteiga, foram em 1829 comparados por Henle, segundo os seus" caracteres ópticos, a simples vesículas adiposas, cuja membrana seria de natureza caseosa.
Mais tarde (1837) Donné, que primeiro tinha admit-tido uma membrana de natureza especial, abandonou es-ta opinião e considerou-os como glóbulos de gordura nus, fundado em que, tratando o leite pelo ether, todos os glóbulos desappareciam. Considerava, pois a materia gorda como uma simples emulsão.
Dumas repetiu as experiências de Donné e chegou a resultados diversos, vendo que o ether puro não ata-cava o glóbulo. Das suas experiências conclue que existe uma membrana de natureza caseosa em volta do glóbu-lo. Partilharam esta opinião Mitscherlich, Lehmann e outros.
Hoje ainda encontram-se os chimicos divididos em dois campos.
Uns, com Béchamp na vanguarda, admittem membra-nas envolventes nos glóbulos de gordura, divergindo,
■M
comtudo, da opinião de Dumas, quanto á natureza da membrana.
Sendo para este, como já vimos, caseosa, é para Béchamp e sequazes uma materia albuminóide especial, pertencendo propriamente ás vesículas. Chegam a esta conclusão depois d'observarem que a membrana é insolu *vel no sesquicarbonato d'ammoniaco e mesmo n'uma so lução diluída de potassa. Portanto, para estes, o leite não é uma emulsão.
A' frente do outro grupo collocase Duclaux, que não pode admittir a existência de tal membrana. Se os partidários de Béchamp se fundam, para comprovar a existência de membrana, em que é necessário submetter o leite a uma agitação violenta para obter a manteiga, ou massa gordurosa compacta, fracturar a membrana para por a gordura em liberdade, Duclaux julga que é desne cessário invocar a existência de membrana especial, por que o leite, como emulsão, obedece ás leis de estabilida de das emulsões.
Para os glóbulos chegarem á superfície do liquido é necessário, diz elle, que tenham vencido a resistência que lhe offerece a viscosidade do meio, graças á sua me nor densidade, força que calcula em um decimo milésimo de miligramma para os glóbulos maiores.
Para se agglutinarem devem triumphal" da resistên cia das lamellas de soro ; finalmente as forças capillares actuam poderosamente sobre os glóbulos, dandolhes a forma espherica e constituindo em volta d'elles uma mem brana elástica, membrana'que é formada pela propria subs tancia, sem modificação chimica nem de textura, e que deve a sua elasticidade ás forças a que está submettida.
Conclue dizendo que a batedura, a que se submette o leite, tem simplesmente por fim vencer a resistência das lamellas de soro e assegurar o contacto dos glóbulos bu-tyrosos. Para estes, portanto, a gordura encontra-se no leite no estado d'emulsào.
Os glóbulos de gordura são uma combinação dos ácidos gordos com a glycerina, que perde uma molécula' d'agua. Os ethers assim formados entram nas proporções seguintes:
Butyrina, caproïna, caprina . . 2 Oleina . 30
Margarina 68 Estearina vestígios
Na manteiga existem ácidos gordos voláteis, princi-palmente os ácidos butyrico e coproico, que lhe dão o seu gosto e cheiro particulares.
A manteiga soffre transformações especiaes sob a influencia do tempo, da luz, do oxygenio e dos micróbios. E' a estes agentes que se deve o ranço da manteiga.
*
Coagulação do leite.—Já tivemos occasião de dizer
que o leite, abandonado a si próprio, coagulava, isto é, formava grumos brancos, cada vez mais espessos e resis-tentes, que, reunindo-se uns aos outros, constituíam o coagulo.
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Esta massa branca é constituída por caseína e gor-dura. A massa liquida restante é mais ou menos turva, amarello-esverdeada, e contem saes, assucar de leite? gordura e alguma caseína solúvel.
A reacção do leite é agora francamente acida, de-vido ao acido láctico que, em quantidade sempre cres-cente, precipita a caseína.
A grande cifra de acido láctico provem de uma trans-formação da lactose, sob a influencia de um micróbio em bastonete, arredondado nas extremidades, ao qual Pasteur deu o nome de vibrião láctico. Este micróbio segrega um fermento solúvel, uma diastase, que opera a transforma-ção da lactose em acido láctico.
Escherich ainda assignalou a existência d'outro micro, organismo anaeróbio facultativo, que chamou bacterium
lactis œrogeties e que gosa da mesma propriedade.
A acidificação do leite não é a única condição para que a caseina precipite. Com efeito, Artirus e Pagés fazem distinguir a precipitação da caseina pelos saes mi-neraes e a sua caseiflcação por um fermento solúvel es-pecial, o fermento lab, coalho ou pexina, que opera as mo-dificações experimentadas pelo leite na digestão gástrica e no fabrico dos queijos.
Este fermento encontra-se no estômago dos mamife-ros em lactação d'onde se pode obter por maceração da mucosa gástrica na glycerina. Segundo alguns auctores encontra-se também no estômago d'animaes adultos, no dos peixes até, a darmos credito ás animações de Oh. Kichet.
d'elabora-çâo da mucosa gástrica, o verdadeiro coalho só existi-ria no estômago dos mamiferos em lactação.
O das outras mucosas é, como diz Hammarsten, um profermento, que só adquire as propriedades de verda-deiro coalho sob a influencia do acido láctico a l°//ou do acido chlorhydrico.
A acção d'esté fermento é différente da do acido láctico; actua directamente sobre a caseina, porque o lei-te coagula por 'elle mesmo em solução alcalina, ou de-sembaraçado da lactose.
A sua acção é variável com a quantidade emprega-da, com o tempo e com a temperatura.
A 40° attingè o seu máximo, tornando-se nullo a 75°.
Agora, estudados os fermentos, vejamos por que ma-canismo se opera a coagulação, que modificações impri-me o lab ferimpri-mento ao leite. E' Hammarsten quem nos responde.
De uma longa serie de experiências concluiu que a coagulação da caseina exige a presença dos saes de cál-cio e, sobre este facto, edificou sua theoria.
O fermento lab actua decompondo a caseina em duas substancias albuminóides, — o caseum, que preci-pita pelos saes de cálcio, e a proteína em suspensão no soro de leite.
Arthus e Pages fizeram as suas experiências sobre o próprio leite e verificaram que, sob a influencia do fer-mento, se passavam dois phenomenos — a transformação chimica da caseina e a precipitação pelos saes de cal.
Das suas observações resulta ainda que o leite, antes de coagular, se torna coagulavel pelo calor.
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Mas, se precipitarmos os saes de cal, o leite já não experimenta a acção do fermento, já não coagula; torna-se, todavia, coagulavel pelo calor. E' que a easeina se desdobra em uma, substancia caseogene, coagulavel a 80°, e a albuminose, substancia albuminóide do soro de leite, não precipitarei pelos ácidos acético e carbónico, nem pelo ehloreto de sódio em pó, mas precipitavel pelo sulfato d'ammoniaco em excesso.
A combinação, insolúvel, da substancia caseogene com o sal de cálcio, constitue o caseum.
A coagulação é favorecida pelos ácidos e saes ai--calino-terrosos, e retardada pela ebulição. Os alcalis cáusticos destroem o fermento.
Alem dos plienomenos já citados, pode ainda o pre-cipitado de caseína redissolver-se por um fermento solú-vel, segregado por alguns micróbios, fermento que Du-claux chamou casease. Esta casease pode ser em excesso tal sobre o coalho, que o leite fique liquido, descorado e não coagule. A caseína é então transformada em uma substancia não coagulavel pelo calor, nem pelo coalho ; não precipitando pelos ácidos, mesmo a quente, nem pelo ferro-cyaneto do potássio e pelo acido acético ; mas pre-cipitavel pelo alcool em excesso e pelo bichloreto de mercúrio.
Duclaux deu a esta substancia o nome de mseona, porque as suas reacções a approximam das peptonas.
Se, alem da diastase, se fizerem actuar também os micróbios, estes vão modificando o meio liquido, decom-põem a caseona. dando origem a outros productos de transformação mais avançada, como sejam a leucina, ty-rosina, compostos ainmoniacaes, ácidos gordos, etc.,
pro-duetos variáveis quantitativa e qualitativamente com a espécie microbiana, que se fez actuar.
Estudadas as propriedades physico-chimicas do leite, vem a propósito dizermos duas palavras sobre a secre-ção láctea e sua glândula secretora.
As glândulas mamarias, em numero de duas na mu-lher, em maior numero nos animaes, são constituídas pela reunião d'acinos, a cada um dos quaes se segue um ca-naliculo excretor. Os acinos agrupam-se para constituir lóbulos, que a seu termo se reúnem para formar os lo-bos, a cada um dos quaes se segue um canal, chamado galactophoro. Os lobos, e portanto os canaes galactopho-ros, são em numero de 10 a 14.
Cada acino, formado por um fundo de sacco arre-dondado ou ovóide, de 0,mm060 de diâmetro, apresenta
uma parede propria, revestida de um epithelio, a cuja actividade é devida a secreção do leite. Estudemos, pois, este epithelio na glândula em actividade e em repouso.
Na glândula em repouso elle é formado de cellulas polyedricas ordinárias, mas durante o periodo de activi-dade da glândula passam-se n'elle modificações importan-tes.
Partsch e Heidenhain, a quem se deve o conheci-mento d'estas modificações, dizem que. as cellulas polye-dricas se intumecem, tornam-se claras, os núcleos mul-tiplicam-se e apparecem gottas de gordura no interior
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do protoplasma, salientando-se para a abertura do fundo de sacco, até se destacarem. O protoplasma dissolve-se e a gordura é posta em liberdade.
A parte profunda da cellula, que não foi destruída, continua a crescer e regenera a cellula epithelial alte-rada.
Assim ficou batida a velha doutrina da infiltração das--cellulas por gordura, que, crescendo constantemente em quantidade, substituía o protoplasma, ficava envolvi-da por uma membrana, que se rompia a seu turno, sain-do depois, com os detritos da membrana, .posta em liber-dade. A cellula assim destruída era substituída por ou-tra sujeita ás mesmas phases.
Antes, porém, de se darem estes phenomenos, e no principio do trabalho physiologico da glândula mamaria, as cousas passam-se diversamente. As cellulas augmen-tam de volume, tornam-se esphericas e transparentes, com multiplicação de núcleos, dando origem aos glóbulos de
colostro.
Este é acido, amarellado, toriiando-se branco ao quarto dia, viscoso, de uma densidade media de 1056. Contem albumina, pouca caseína, que vae augmentando á medida que aquella desappareGe, manteiga, lactose e uma maior quantidade de saes, do que o leite. Não coa-gula pelo fermento lab e, segundo Arthus e Pagès, não contem albumina. Differindo a principio bastante do leite, o colostro vae-se modificando pouco á pouco, até se tornar verdadeiro leite.
Comparando o quadro seguinte, devido a Clemm, com o quadro analytico do leite, ver-se-ha a diferença que existe entre um e outro.
44 PARA 1:1 Agua Partes solidas Caseína . . . Albumina. . Manteiga. . . Lactose . . . Saes mineraes
Qual é a origem dos diversos princípios do leite? Sabemos que a gordura é um producto d'elaboraçào da protoplasma cellular, mas ainda hoje é muito contes-tável quaes sejam as substancias que lhe dão origem. Attendendo a que o leite pode conter muito mais gor-dura do que existe nos alimentos absorvidos—facto demonstrado para os herbívoros, e a que essa gordura pode augmentai' com uma alimentação azotada, seria justo concluir que a gordura do leite se forma á custa
das matérias albuminóides. Isto, porem, não está demons-trado e Woit mesmo crê que a gordura, uão podendo ser toda fabricada na glândula, seja em parte trazida pela circulação.
A caseína não existe no sangue e, segundo a maior ptóte dos autores, formar-se-ia na glândula á custa da albumina do sangue. Dahnhardat julga ter isolado uni fermento, que produziria essa transformação no próprio leite á custa da sua albumina,
00 PARTIAS 2 Dias au tes do termo 858,00 142,00 80,00 80,00 43,00 5,40 2 Dias depois do nascimento 4 Dias depois 867,00 133,00 21,82'( vestígios \ , 48,63 60,99 não deter-minados 879,85 120,15 35,33 48.97 41,18 2,09
4o
Pajece que o assucar de leite se forma à custa da glucose, sem que, todavia, o facto esteja demontrado.
Caberia aqui fallar da influencia do systema nervoso sobre a secreção láctea. E' certo, porem, que o pequeno numero de experiências e factos isolados, que hoje pos suímos, não permittem tirar conclusão alguma a tal res peito.
■ *
* *
Já em outro logar apresentamos o quadro da com posição cliimica de différentes leites. A' simples inspecção d'esse quadro se reconhece immediatamente que, qual quer que seja a proveniência do leite, existem n'elle, qua litativamente, sempre as mesmas substancias. Quantita tivamente, porem, lia grandes diferenças n'esses ele mentos, o que tem um grande valor sob o ponto de vista da alimentação, principalmente do recemnascido.
São muito variadas as causas que influem na quanti dade e qualidade do leite.
Pelo que diz respeito á mulher, a raça' parece em nada influir sobre a secreção láctea. As mulheres robus tas tém um leite mais rico em agua e menos em assucar e caseína. Nas mulheres novas ha grande riqueza de princípios sólidos, nas de mais edade ha augmente d'agua.
O numero de partos tem alguma influencia sobre o leite. Nas multíparas, a par de maior abundância, ha no leite mais assucar e manteiga.
Nos animaes, a raça e as condições d'alimentaçao exercem uma grande influencia sobre a secreção láctea. Durante o período de lactação, o leite vae experi mentando algumas variações, de somenos importância, na sua composição.
Para a mulher, em seguida ao parto, o leite é co lostral. A partir do segundo dia os corpúsculos de colos tro vão diminuindo, para desapparecerem no fim de duas a três semanas, quando muito.
O assucar, que pode faltar nos primeiros dias, vae augmentando n'este período. Ao quarto mez as variações são nullas, ou quasi nullas, e o leite conservasé assim durante muito tempo.
Essas ligeiras modificações podem resumirse assim: A proporção maxima d'agua é n o . . . . 4.° mez.
„ minima „ ,!••■• 15 prim.08 dias.
„ maxima d'assucar „ . . . . 10.° mez. „ minima „ , , ■ • • • primeiros dias. Ao 19.° mez ha um grande augmente na riqueza dos princípios sólidos, signal de que em breve cessará a lactação.
Earissimas vezes se tem observado a volta das re gras durante o aleitamento ; todavia o facto pode darse. Incriminouse esse leite, accusandoo de impróprio para a alimentação da creança, e attribuindolhe as más di gestões, vómitos e diarrhea d'essas creanças.
A analyse do leite, n'essa época, só revela uma pe quena diminuição d'agua e um accrescimo de sete a oito grammas de caseina, que é insignificante para produzir
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taes desarranjos, a não ser que se admitta a existência
de certos productos novos, ou uma modificação na sua
quantidade.
A influencia das relações sexuaes durante a
ama-mentação, posto que muito exagerada, não tem outros
inconvenientes, que não sejam a voita provável das
re-gras e a possibilidade de uma gravidez.
O estado de gravidez não suspende necessariamente
a secração láctea.
Muitas mulheres, e quasi todos os animaes,
amamen-tam até proximo do fim de uma nova gravidez.
A composição do leite é pouco variável, só a
man-teiga é em maior quantidade.
Em muitas mulheres gravidas a quantidade do leite
diminue consideravelmente, até se tornar insufflciente.
Por aqui se vê quanto é difficil calcular a
quantida-de quantida-de leite, que poquantida-de produzir diariamente uma mulher,
ou os animaes. Para aquella pode-se determinar a cifra
real, pesando a creança antes e depois de mamar. Ao 7.°
mez- a mulher produz cerca de 900 grammas de leite.
Earas vezes excede nm litro ; comtudo algumas
mulhe-res, que amamentam duas creanças, podem fornecer 1500
Digestibilidade do leite. — Leite crû e leite cosido. Já nos referimos ao lab fermento, que existe no es-tômago dos mamíferos em lactação, bem como ao profer-mento dos animaes adultos, que determina a transfor-mação em coalho sob a influencia do sueco gástrico. Egual-mente tocamos, de passagem, nas modificações da ca-seína pelos ácidos e fermentos.
A principal transformação do leite no estômago é a Gaseificação, determinada pelo fermento lab, d'onde re-sulta o desdobramento da caseína. Já vimos que é ne-cessária a presença de saes de cálcio, para que a mate-ria caseogene precipite.
Alguns, auetores admittem que uma parte da ca-seína não soffre a caseificação e experimenta, como a albumina dissolvida, a peptonisação, sem ser coagulada pelos ácidos do sueco gástrico.
A lactose, segundo Dastre, desdobrar-se-ia em ga-lactose e glycose sob a influencia de certos micróbios que existem no intestino.
A saliva desempenha também um papel importante na digestão gástrica do leite, oppondo-se, pela sua alca-linidade, á formação do acido láctico no estômago, o
í
50
qual tornaria o caseum duro, compacto e retracta. To-davia a saliva era grande quantidade perturba a acção do lab fermento, por causa da sua alcalinidade.
Pelo que respeita á albumina e á caseina, a digestão do leite vae completasse no intestino, por acção do sueco pancreatico.
A duração da digestão gástrica do leite é .curta. Richet affirma que. no fim de uma hora, mal se encon-trariam alguns vestigios no adulto, no caso de integri-dade do estômago. Esta é também a opinião de Dujar-din-Beaumetz. Para as creanças não haveria diferença com o leite de mulher e com o de jumenta, cuja compo-sição se aproxima do da mulher. Com o de vacca seria mais lenta.
O leite, quando bem digerido, deixa uma quantida-de insignificante quantida-de residuos, produz ordinariamente cons-tipação de ventre, propriedade que se aproveitou com vantagem no tratamento de algumas diarrheas.
Ainda que pouco importantes, algumas diferenças existem entre a digestibilidade do leite crû e do leite co-sido. Este é mais lentamente digerido, porque a ebulição retarda a coagulação, em virtude da eliminação do acido carbónico fazer precipitar os saes de cálcio.
Esta diferença, porem, torna-se muito insignificante quando em vez de levar á ebulição o leite, se mantém somente a uma temporatura de 68." durante seis minu-tos.
Alimentação da creança ao seio, mixta e pelo biberon. O leite, alimento essencial è único, que se dá ás creanças nos primeiros mezes depois do nascimento, pode ser fornecido pela mãe, por uma mulher extranha ou por um animal. Nos primeiros dias, quando o leite se encon-tra ainda no estado colosencon-tral, é costume dar-se ás crean-ças uma pouca d'agua assucarada, abuso contra o qual pro-testam Tarnier e Budin. Melhor seria addicionar a esta agua um pouco de leite de vacca, ou jumenta.
Até aos quatro mezes estabelecem os auctores que as ^ creanças devem mamar oito vezes de dia e duas de noite ; a partir d'essa epocha deve-se ir diminuindo o nu-mero de vezes. Relativamente á quantidade de leite, que deve tomar a creança, encontramol-a na tabeliã se-guinte, obtida por Bouchaud na Maternidade de Paris.
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Leite tomado por uma crcança alimentada pela mãe
DATAS 1.» Dia . . . O o ú. „ . . . Q o O. „ . . . Até ao 1.° mez 2." e 3." 4.° e 5.° „ 7.» 30 150 440 550 600 6 a 700 a 800 800 900 Quando a amamentação passa alem de 15 a vinte minutos, significa pobreza de leite. A alimentação muito abundante pode determinar a diarrhea.
Quando a mulher não pode amamentar o filho, ha-veria vantagem em utilisar o leite de jumenta, por ser
o que tem uma composição mais próxima do da mulher. Como, porem, este leite é mais caro e não é fácil de ad-quirir-se recorre-se ao de vacca, que se deve ferver por espaço de 15 minutos, para annullar a acção dos micró-bios pathogenies que por ventura possa conter.
Como este leite é mais rico em matérias fixas, que o da mulher, aconselham alguns auctores, entre elles Ca-zeaux, que se lhe addicione agua na proporção de três quartas partes na primeira semana, metade nos três pri-meiros mezes e de uma quarta parte até ao sexto mez, podendo depois dar-se puro. Este preceito tem utilidade para as matérias proteicas, que são menos atacáveis pelos suecos digestivos da creança, que as do leite de mulher.
Tem-se addicionado ao leite agua de cevada, gom-mosa, gelatinosa e distillada. Wist aconselha que se junte á agua assucarada a,5%, nos casos de digestões difficeis, alguns saes; havendo constipação cinco centigrammas de bicarabonato de soda ; se existe diarrhea, uma co-lher de chá d'agua de cal.
Este leite pode ser ministrado, por um copo, uma colher, ou pelo biberon. Este processo, hoje muito gene-ralisado, não tem inconveniente algum, attenta a faci-lidade com que se desinfecta, em virtude de ser o instru-mento de simples manejo.
A's vezes usa-se de uma amamentação mixta. Hoje está muito em uso o aleitamento das creanças por uma ama. Umas vezes é a penúria de leite da mãe, que a obriga a entregar o filho ao seio de uma mulher extranha; as mais d'ellas, porem, é por uma questão de luxo. Quando isso aconteça, o máximo escrúpulo deve presidir á escolha da mulher extranha, que ha de alimen-tar a creança com o seu próprio leite. Quantas se apre-sentam com creanças, inculcando-se mães d'ellas sem nunca o serem!
M
essa escolha. O que mais convém averiguar-se é o seu
estado de saúde; a prova da qualidade do leite ser-nos-ha
dada pelo estado do próprio filho. Ainda assim pode
fa-zer-se um exame rápido, tirando algumas gottas de
leite e recolhendo-a n'uma colher de prata ou n'um vidro.
O leite deve mostrar-se opaco, e não soroso, o que seria
signal de pobreza.
Pode-se commetter um erro, tomando por mau um
leite bom. Isto acontece quando o leite provem de um
seio, que não tem amamentado ha muito tempo, o que
muitas mulheres fazem para deixar engurgitar os seios
e apresentarem um peito mais bello.
tëicro-organismos do Leite
O leite constitue um excellente meio de cultura para os micróbios como bem o comprovam a sua composição cliimica, a sua riqueza em matérias assucaradas e azo-tadas. Não é necessário permanecer muito tempo fora da glaudula, para se dar uma enorme multiplicação de ba-ctérias, o que é confirmado pelos seguintes factos :
Leite examinado uma hora depois de recolhido con-tinha 9500 bactérias por centímetro cubico; no fim de uma contaram-se 63500000. Os micróbios multiplicam-se ainda com maior intensidade, se o leite for submettido a certas temperaturas. A' temperatura de 35°, no fim de 21 horas, um centímetro cubico contem 180000000.
Comprehende-se perfeitamente que, se a maior parte d'ellas são inoffensiveis, outras sejam pathogenicas.
Já, fallando das transformações do leite, citamos alguns microbios; agentes d'essas modificações. Outros,
porem, são capazes de operar os mesmos phenomenos. Hueppe descobriu o bacillus acidi lactici, que actua como o vibrião láctico de Pasteur ; Escheric estudou o bacterium
56
lactîs aerogenes, cuja acção é idêntica. Entre os fermentos
aeróbios citaremos o género tyrotrix,—(tenuis, filifor mis,
distortus, geniculatus, turgidus, scaber e virgula). Dos
anae-róbios o tyrotrix urocephalum, claviformis, catenula. *
* *
O ponto mais importante d'esté capitulo é, sem du-vida, o estudo dos micróbios pathogenicos. O leite pode servir de vehiculo a estes agentes zymoticos e determi-nar doenças graves.
A mais frequente é a infecção tuberculosa, que se en-contraria cinco vez em cem. O leite de cabra, ainda que nâo completamente indemne, seria menos vezes portador do bacillo da tuberculose.
Qualquer manifestação tuberculosa da vacca pode dar ao leite uma virulência grande.
A doença das tetas, a pommeliére, é a mais perigosa, porque se occulta debaixo da melhor apparencia de uma vacca.
Oitam-se exemplos de creanças, cujos pães eram ro-bustos e saudáveis, succumbirem a tuberculoses intesti-naes, mesentericas ou meningeas, depois do uso de leite de vaccas afectadas d'essa doença. Dupré e Lécuyer ci-tam duas observações de pneumonias em creanças que fizeram uso de leite infectado.
A febre aphtosa das vaccas communica ao leite
per-turbações gastro-intestinaes e emmagrecimento. Lelest crê que esta transmissão somente se faz, havendo lesões ulcerosas nos mamillos.
Ha ainda divergências relativamente ao carbúnculo. Chambrelent e Moussons dizem ter recolhido as bactérias do carbúnculo no leite, depois de terem inoculado o car-búnculo ás fêmeas em lactação, e que o producto d'essas colturas, inoculado em animaes, lhes communicava a doença. Koubassoff nega o facto. Posto que o sueco gás-trico annule as propriedades do bacillo, pode elle não ex-perimentar a acção d'esse meio em certos estados gás-tricos, chegar ao intestino e ahi desenvolver-se facil-mente.
Nos logares, em que se depositam a fezes dos typho-sus,-podem inquinar-se as aguas e determinarem epide-mias àe febre typhoïde n'aquelles que se abastecem d'essas aguas. Em muitos casos de epidemias locaes viu-se a doença desapparecer, logo que se deixou de fazer uso do leite, sendo as aguas, de que se serviram para lavar os vasos destinados ao leite, a origem da infecção.
A escarlatina e a cliphteria podem também ser vehi-culadas pelo leite. Abundam numerosas ebservações em abono do facto.
- * *
O leite perde ás vezes a sua côr branca e torna-se vermelho, amarello ou azul. Estas mudanças que dão ori-gem aos leites corados, são devidas á actividade de certos micróbios chromogeneos. O leite amarello deve a sua côr
58
ao bacterium synxanthum, que o torna primeiramente acido e depois fortemente alcalino. O bacillus cyanogenus, sob a forma de bastonetes, dá ao leite a cor azul ardósia e, quando elle se torna acido pela acção do fermento láctico, azul intensa.
Observa-se muico frequentemente este phenomeno, sobretudo na Aliem anha, durante os grandes calores es-tivaes.
Muitos micróbios dão ao leite a côr vermelha ; taes são o
saccharomyces ruber, o bacterium lactis erythrogenes, o mi-crococcus prodigiosus, o bacterius mycoides roseus.
*
Antes de encerrarmos este capitulo, vamos ainda re-ferir-nos a outras modificações, que imprimem os micro-organismos ao leite, fazendo d'elle um agente therapeu-tico. Queremos fallar do Koumys, do Képhir e da
Gala-zyma.
O Koumis, leite de jumenta fermentado, é d'uma côr branca azulada, um pouco acido e alcoólico, espumoso quando se conserva em garrafas e apresentando três graus de força diferente. O leite experimenta uma du-pla fermentação—a fermentação acida, que precipita a ca-seína, e a fermentação alcoólica, que desenvolve alcool e acido carbónico. A bebida gazosae alcoólica que d'ahi re-sulta diffère do leite ordinário, quando é fresca, em conter uma proporção de 1 a 2 por cento d'alcool e de 0,75 por
cento d'acido carbónico, proporção que se encontra quasi duplicada no Koumys de cinco mezes. Prepara-se ordina-riamente misturando duas partes de leite de jumenta com uma do de vacca, sobre as quaes se faz actuar o
sac-charomices cerevisiœ.
O Kephyr é um liquido branco como o leite, espu-moso como o champanhe, d'onde lhe veio- o nome de champanhe lácteo do Cáucaso ; tem saber agridoce um pouco picante, devido á presença dos ácidos láctico e carbónico. Esta fermentação do leite é devida a uma le-vadura e a uma bacteria, a disporá caucasica, que deter-minam três phenomenos — uma fermentação láctica, uma fermentação alcoólica e a dissolução e peptonisação da caseina.
A G-alazyma, que resulta da fermentação do leite provocada pela addição d'assucar de canna e d'uma le-vadura, é espumosa, um pouco acida, carregada d'acido carbónico e contendo cerca de um por cento d'alcool, d'onde lhe veio o nome de leite de champanhe.
CAPITULO V
Asepsia do Leite
Para que o leite se torne inofensivo, é necessário exterminar os micróbiospatliogenicos, que podem ser por elle veliiculados e pruduzir graves desordens orgânicas. Por três processos se chega a este fim — a ebulição, a
jpasteurisagão e a esterilização.
A ebulisação tem a propriedade de destruir os ba-cillos de Koch, a par de muitos outros microorganis-mos patliogenicos.
Eadicando-se rapidamente depois de preconisada no congresso de tuberculose (1884), e pela Academia de medicina de Paris em 1889 e 1890, não deixou de ter os seus impugnadores. Reichman accusa o leite fervido de ser menos facilmente peptonisado na creança, e Laurent imputa-lhe numerosas perturbações digestivas. Estes in-convenientes seriam devidos á grande redução de vo-lume que soífre o leite, fervendo ao ar livre, a qual lhe lhe faz perder os gazes e alguns princípios albuminosos. Thomaz (de Génova), ao contrario, viu o leite
fer-Vido produzir excellentes resultados em creanças, que o não toleravam d'outra forma.
Seja como fôr, pela esterilisação colocamo-nos ao abrigo d'accidentés graves. '
A pasteurisação do leite consiste em submettel-o a uma operação análoga á que Pasteur estabeleceu para a conservação dos vinhos e das cervejas. O leite é levado a uma temperatura de 70.° e resfriado rapidamente.
Na industria realisa-se esta operação por vários pro-cessos, de que citaremos somente o de Fjord, cujo appa-relho consiste em dois reservatórios concêntricos, o in-terno para o leite e o exin-terno para o vapor d'agua. Um agitador põe constantemente o leite em contacto com a parede do reservatório, onde se aquece, passando depois para um refrigerante.
O leite, assim preparado, conserva-se muito tempo e pode ser tranportado a distancia em vasos esterilisa-dos por uma corrente de vapor d'agua.
Segundo Duclaux, por esta operação o leite só con-serva os fermentos, que o coagulam, emquanto que os fermentos lácticos e os micróbios, que o acidificam, des-apparecem completamente.
As bactérias pathogenicas não resistem, em geral, a esta temperatura, como acontece aos bacillos de Koch, que são destruidos a um calor de 68.° durante meia hora, aos d'Eberth de 70 a 75.°, e aos pneumococos de 55 a 60.°
O leite pasteurisado não determina perturbações al-gumas e é bem tolerado.
A esterilisação tem o logar de honra na asepsia do leite.
63
As suas garantias são, pelo menos, eguaes ás dos outros processos, tendo, alem d'isso, a vantagem sobre elles de poder realisar-se no seio das famílias, para pe-queníssimas quantidades de leite. As suas qualidades di-gestivas são quasi eguaes ás do leite natural.
Prepara-se na industria submettendo-se o leite á temperatura de 110.° e mais, por meio de vapor d'agua sob pressão, em apparelhos especiaes/ sem que elle ex-perimente a ebulição.
No seio das famílias recorre-se a processos simpli-ficados.
Mergulliam-se recipientes de uma capacidade de 100 a 200 grammas n'um banho-maria fechado, cuja agua é levada á ebulição durante 40 minutos ; o nivel da agua não deve exceder o meio dos recipientes, ficando estes assim mergulhados na agua fervente e no seu vapor. Estes frascos devem sei1 munidos d'uma rolha d'algodao
esterilisado, ou de um obturador de caotchuc, para im-pedir a entrada dos germens atmósphericos, que seriam arrastados pela condensação produzida pelo resfriamento do leite. A cada frasco pode ser adaptada uma mama-deira e a criança receber d'ahi mesmo o leite quando te-nha de recorrer-se ao aleitamento artificial.
O leite esterilisado a cerca de 100.° tem a cor e o gosto do leite ordinário ; a temperaturas mais elevadas torna-se côr de café com leite e de gosto desagradável. O primeiro deve ser preferido.
O leite esterilisado approximar-se-ia muito,'segundo Chavanne, do leite de mulher ; as granulações de caseína seriam mais finas e, por isso mesmo, de mais fácil di-gestão.
*
* *
Submettendo o leite á acção de uma tenperatura de 52.° no vacuo e uma pressão de 10 centímetros de mer-cúrio, obtem-se um novo producto semi-fluido, o leite
con-densado, que não experimenta alteração alguma nos
seus- elementos essenciaes, a não ser a perda d'agua. Para cada litro de leite addicionam-se 75 grammas d'as-sucar. E' utilisado diluido em agua.
Muito preconisado por Flamain no tratamento das diarrheas estivães, não foge ao ataque de Laurent, que o accusa de dar ás creanças uma apparencia de saúde e uma resistência fictícias, causando-llie, no fim de certo tempo, perturbações digestivas, emmagrecimento e perda de forças. Porém, a maior accusação que pode fazer-se-lbe, é de não ser elevado a uma temperatura capaz de destruir as bactérias patbogenicas.
CAPITULO VI
Falsificação do leite
As falsificações, que mais ordinariamente se
prati-cam no leite, são a desnatação e a mistura com agua,
a que os francezes chamam mouillage.
Esta é mais frequente e nem sempre pode ser
des-coberta com o lacto-densimetro, embora se encontre Uma
densidade superior a 1032.
Algum leite contem já physiologicamente muita agua
e deve, por isso, ser rejeitado.
A desnatação revela-se pelo densímetro, pela
do-sagem da manteiga e das outras matérias seccas. O
ex-tracto deva conter 21% de manteiga e não exceder 79%
das outras matérias.
A desnatação é aproveitada para o fabrica da
manteiga. O leite restante é applicado á engorda de
por-cos, na fabricação do Gruyère (queijo suisso), e, a maior
parte das vezes, misturado com 75% de leite puro, é
ex-posto á venda.
E' preciso raisturar-lhe 20% d'agua para lhe dar
a densidade de 1032.
Uma fraude muito importante, e mais difflcil de
des-cobrir é a que resulta da associação d'estas — addição
d'agua e desnatação, porque, se a agua augmenta a
densidade, a desnatação abaixa-a, e o peso do leite fica
sempre normal.
Para revelar esta falsificação empregam-se
appare-lhos especiaes, como são o cremometro de Quevenne, o
o lacto-butyrometro de Marchand e o lactoscopo de Donné
ou Feser, os quaes mostram respectivamente uma
dimi-nuição na espessura do creme, na riqueza da manteiga e
a opacidade do leite.
II PARTE
O leite é um alimento completo, existem n'elle todos os elementos, que deve conter a ração alimentar. Mas, assim mesmo, o leite não pode bastar, só por si, para a alimentação d'umadulto.quetemde desenvolver força mus-cular: é que as proporções, em que entram esses elemen-tos, não são suffleientes.
Se bastam para a creança e para os mamíferos em aleitamento, nas afecções do tubo digestivo, nos hydro-picos, em certos cardíacos e nas auto-intoxicações, é por-que esses indivíduos se conservam immoveis ou no leito, não desenvolvem actividade muscular. Para os indivíduos validos e que teem de produzir trabalho, o regimen lácteo exclusivo não poderia manter o equilíbrio nutritivo, operaria uma desnutrição, determinaria uma anemia láctea, o emmagrecimento, a perda de peso e da energia pliisica e moral.
Estas conclusões facilmente s_e deduzem, comparando a cifra dos elementos, que deve conter a ração alimentar, com que a representa os mesmos elementos no leite.
70
Na ração alimentar do adulto devem entrar :
Matérias azotadas 125 a 130 gram.
Gordura . » • 100 „
Hidrocarbonetos 300 „
Um litro de leite contem:
Matérias azotadas. . . . 37 gram.
Gordura _ 40 „
Hydrocarbonetos 50 „
A simples inspecção d'estes quadros mostra que
seria necessário dar a um adulto três a quatro litros de
leite por dia para obter a equivalência dos albuminóides,
mas que, para os princípios hydrocarbonados, seria
ne-cessária maior quantidade, seis litros pelo menos.
E' pois necessário, segundo Germain Sée, que,
obser-vando-se a dieta láctea, se aconselhe o repouso, o menor
gasto de força viva.
Sob o ponto de vista medicamentoso, está hoje bem
averiguado que o leite pode vehicular substancias
medi-camentosas, como se encontram n'elle, egualmente,
prin-cipios aromáticos e corantes, ou substancias toxicas
d'ori-gem alimentar. Mas ainda se não apurou a quantidade
de medicamento activo, que o doente absorve.
Inoculando algumas substancias pela via subcutânea,
reconheceu-se a sua presença na secreção láctea,
pro-priedade que foi aproveitada para dar ao leite
proprie-dades immunisantes contra certos virus.
Com o uso muito prolongado da dieta láctea chega
a haver bastante inappetencia para o leite, e então
torna-se necessário mostrar ao doente quaes as suas
pro-priedades alimentares e as curas, que corn elle se obtem, substituir mesmo o leite natural pelo leite desnatado. Se a continuação d'esté regimen produz a intolerância, atte-nuam-se taes inconvenientes, addicionando-lhe uma li-geira quantidade de um liquido alcoólico, ou d'agua al-calina gazosa. Quando se não possa exigir do fígado um trabalho supplementar, deve-se evitar a addição d'assu-car ao leite. As azias e fermentações com hypochlorhy-dria, devidas ao leite, combatem-se com aguas alcalinas, bicarbonato de soda, pepsina e benzonaphtol.
O acido chlorbydrico, actuando como antiseptico e como eupéptico, dá bom resultado nos estados d'hypera-cidez, provocados pelo regimen lácteo continuado, e em alguns estados d'hypochlorhydria. Applica-se uma solu-ção a /30O.
As constipações serão combatidas com os purgantes ligeiros, e as diarrheas espaçando as doses, ou com as preparações de bismutho associadas aos' antisepticos.
Eis, rapidamense os inconvenientes do regimen lácteo.
No decurso d'esta segunda parte teremos occasiào de referir os casos, em que o leite deve ser supprimi-do.
Aqui, remataremos dizendo que o regimen lácteo pode ser absoluto e mixto.
CAPITULO I
Doenças cm que se emprega o regimen lácteo, sobretudo pelas suas qualidades digestivas e nutritivas.
I
APERTO DO ESOPHAGO
Muitas vezes o leite constitue o único alimento ca-paz de se poder -administrar de um modo continuo n'esta afecção.
Debove cita o caso d'uni doente com aperto cance-roso, que gosava uma saúde regular, vindo a morrer su-bitamente de uma hemorrliagia.
II
'"-.J DOENÇAS DO ESTÔMAGO
'Dyspepsias.—Nos estados "hyperehlorhydricos está
Muitos estados dyspepticos se encontram assim
me-lhorados, se não curados. Nas dyspepsias dos urinários e
cardiacos colheram-se .resultados proveitosos com a dieta
lRCt6âi*
Sabe-se que muitas perturbações das funcções
esto-macaes estão relacionadas com as auto-intoxicações, e
que o leite, associado aos antisepticos, combate essas
ma-nifestações e obsta á insuficiência hepática e renal,
tan-tas vezes productoras d'esses estados.
Catarrho agudo da estômago.—S&o incontestáveis as
vantagens do leite n'esta afecção, já para não impor ao
órgão um trabalho exagerado com outra alimentação, já
para evitar a enorme quantidade de toxinas d'origem
alimentar, formadas no tubo digestivo. Contribue
pode-rosamente para o restabelecimento das funcções do
fíga-do e fíga-do rim, quasi sempre perturbadas n'estes estafíga-dos
gástricos. Deve ser applicado em doses espaçadas,
du-rante alguns dias, até que se possa usar a alimentação
commum.
Gastrites toxicas.—O leite deve entrar no regimen
dos doentes afectados de gastrite toxica, principalmente
quando a intolerância do estômago não permitte outro
ali-mento. Devem-se empregar pequenas quantidades, elevar
progressivamente as doses, até se chegar ao regimen
ordi-nário. N'este momento podem manifestar-se os
sympto-mas d'intolerancia gastrica
;que cessarão voltando ao
uso exclusivo do leite.
Gastrites chronicas. — ~No dizer de
Dujardin-Beau-metz, o leite presta aqui relevantes serviços ; modera a
hyperacidez, descansa o estômago inflamado e assegura
a nutrição. Prescreve-se primeiro com o. regimen
vege-75
tal, e depois com os alcalinos. Para os alcoólicos, a fim de não substituir bruscamente o seu excitante habitual, é conveniente principiar pela applicação de leites fermen-tados, o kepliyr etc., que contêm uma certa quantidade d'alcool.
Ulcera amples. — Esta doença e o seu tratamento
pelo regimen lácteo foram bem estudados por Cruveilliier, que aconselha a doze de 60 a 200 grammas, quatro ve-zes por dia, conforme a susceptilidade do doente. O leite não ,é irritante para a ulcera, não exige trabalho diges-tivo e dilue os ácidos do sueco gástrico. Debove ainda lhe addiciona os alcalinos em alta dose para annullar a aci-dez gástrica e recorrer, somente, á digestão intestinal.
Dilatação aVestômago.—Se considerarmos
isolada-mente a dilatação d'estomago, deve ser contraindicado o regimen lácteo, constituindo a dieta secca com a antise-psia gastro-intestinal e a lavagem d'estomago a base do tratamento d'esté estado mórbido.
Mas, por detraz da dilatação d'estomago, oceulta-se muitas vezes uma alteração gástrica, e então o leite é de grande vantagem,"pelas modificações que imprime ao chi-mismo estomacal.
Cancro gástrico. — Esta afecção traz muitas vezes a
inappetencia para outros alimentos. E' então, como quan-do haja aperto quan-dos orifícios, que se impõe o regimen lá-cteo, embora apresente o inconveniente de experimentar facilmente a fermentação lacto-butyrica (G. Sée), para sustentar as forças do doente e retardar a cachexia.
Quando existe hypochlorhydria pronunciada, admi-nistrate concomitantemente uma pequena dose de solu-ção d'acido chlorhydrico, ou mesmo de pepsina.
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DOENÇAS INÎEST1NAES
Appendicite' 6 cólica appendicular. — O regimen lácteo
exclusivo satisfaz a duas necessidades imperiosas, quaes sejam evitar a accumulaçào de resíduos alimentares no coecum, e diminuir as probabilidades de auto-intoxicação pela formação de toxinas, que é maior com outro regi-men aliregi-mentar.
Duplay diz ter encontrado um caso em que a dieta láctea parecia ter feito maravilhas.
No caso de intervenção cirúrgica, é ainda o leite que deve constituir a alimentação do doente.
TtjpUUe eperityphliie.—Na typlilite simples, ou
acom-panhada de inflamação peri-cœcal, o leite está indicado desde que não haja accumulação de matérias fecaes no coecum, cuja expulsão se deve primeiramente provocar. No caso de produzir-se constipação persistente, em-pregam-se laxantes, ou addicionam-se ao leite aguas al-calinas.
Diarrheas.—-N'estes estados intestinaes o leite é
for-malmente indicado, porque constipa em virtude da insi-gnificância de resíduos sólidos, e porque subtrae o intes-tino ás causas d'irritaçào, pela sua fácil digestibilidade. Diminue o perigo das auto-intoxicações, e contribue para restabelecer o funccionamente regular do ligado e rins. Quando haja intolerância addiciona-se-lhe uma pe-quena quantidade de salicylate de bismutho. Nas diar-rheas rebeldes, nos velhos, deu a Grombault e Debove óptimos resustados,
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Dyseníeria.—Cabe aos medicos da marinha e do
exer-cito a honra de ter vulgarisado a dieta láctea no trata-mente d'esta doença, tratamento que deu causa a tantas controvérsias e asperamente condemnado por Zimmer-nau. Segundo Debove, o leite- deve ser absorvido puro até ao apparecimento de fezes solidas. Estas, liquidas no principio do regimen lácteo, tornam-se em seguida pastosas, duras e normaes. Ao mesmo tempo observa-se augmente de peso do doente. Barret confirma estes fa-ctos, fundado em numerosas observações.
Diarrhea da Cochinchina.—Na dose de dois litros a
dois e meio, distribuídos em seis doses nas 24 horas, o leite é de grande efficacia no tratamento d'esta doença, que, alem dos phenomenos de diarrhea, apresenta acci-dentes d'origem infecciosa.
A acção diurética do leite, a sua influencia sobre o emunctorio renal, foi bem estudada por Mestayer, que faz depender o prognostico da doença da quantidade d'urina eliminada.
Doenças gastro-intestinaes das creanças de mama.—
Já n'outra parte dissemos que o leite era*o alimento único das creanças nos primeiros mezes de vida extra-uterina ; mas na administração do leite commettem-se imprudências que podem dar péssimo resultado.
Uma das causas de dyspepsias é a grande quanti-dade de leite, que a creança ingere, repetindo-se as in-digestões successivamente, até apparecerem signaes de dilatação de estômago e fezes diarrheicas. Outras vezes as perturbações gástricas são devidas ao uso de certos alimentos, que se vão facultando ás creanças—a carne, feculentos e até vinho. Convém regular o numero de
vezes, que a creança deve mamar, e a quantidade de leite a absorver. D'isso já falíamos em outro logar.
Se a creança já está desmamada, o melhor é fazel-a voltar ao regimen lácteo, fornecendo-lhe leite esterili-sado.
CAPITULO I I
Doenças em que se emprega o regimen lácteo, sobretudo pela sua acção diurética e eliminadora.
I
O REGIMEN LÁCTEO NOS HYDROPICOS
Já em Hippocrates se encontra mencionado o em-prego do leite nas hydropisias, chegando á ter um bom peso na balança do prognostico d'estas afecções. Esque-cido depois, foi casualmente reliabilitado por Teissier, em 1775, perante a Academia real de medicina, em se-guida a uma cura importante.
Mas foi ephemera esta rehabilitação, porque só em 1831 Chrestien, e depois Serres, voltam a fallar dos fe-lizes resultados da dieta láctea nas hydropisias. Foram, porem, os trabalhos de Pécholier, Peter, Jaccoud e outros, que precisaram as circumstancias etiológicas das hydro-pisias e, consequentemente, determinaram a applicação do leite ao seu tratamento.
Só fallaremos aqui d'algumas hydropisias, cujo dia-gnostico etiológico é incerto. As que têem por causa al-terações renaes, cardíacas e do fígado serão tratadas quando fallarmos da pathologia d'esses órgãos.
Anasarca essencial —Na anasarca essencial em que
não ha albumina nas urinas, mas que tende a attribuir-se a uma nephrite aguda sem albuminuria, o regimen lácteo exclusivo produz a cura, ou melhoras consideráveis. Quando a alimentação for mixta, as urinas tornam-se al-buminosas.
Ascite.—Nas ascites abundantes o leite é ás vezes
ineficaz, porque a grande quantidade do derrame com-prime as veias e lymphaticos intestinaes, oppondo-se á absorpção d'aquelle liquido. E' necessário, portanto, pro-curar a descompressão d'estes vasos pelos purgantes e, nos casos extremos, pela paracentèse.
Quando o derrame de serosidáde se restabelece, não é raro observar-se intolerância para o leite, e mesmo este já não produz beneficio algum; a cifra de urina augmenta muitíssimo pouco. Pode-se então substituir o leite pela lactose, cujas propriedades diuréticas são grandes. As ascites devidas a lesões do peritoneu raras vezes cedem ao regimen lácteo, o que aggrava muito o prognostico, po-dendo crer-se na existência de uma tuberculose perito-nial.
Derrames inflamatórios das sorosas.—Os auctores citam
muitos casos de pleurisias agudas sero-fibrinosas, cujos derrames desapparecem pela acção diurética do leite. Por vezes é necessário recorrer urgentemente á thora-centeses quando os symptomas são graves e a dispnêa ameaçadora.
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■ _ Nas pericardites com derrame, a dieta láctea, com binada com vesicatórios na região precordial, deu a Kon dot resultados muito satisfatórios.
U .
O REGIMEN LÁCTEO NAS AFFECÇÕES CARDÍACAS
Nas affecções do coração o leite exerce a sua acção sobre as manifestações dispepticas, a hydropisia, a dispnêa e as palpitações. Impede as autointoxicaçóes, actuando sobre o apparelho renal, e sobre as perturba ções do fígado.
Na dispepsia cardiopathies cuja symptomatologia quasi abafa a lesão cardíaca, o regimen lácteo, associado aos meios reguladores do chimismo estomacal, pode levar a sua influencia até retardar muito a evolução da lesão cardíaca.
A gastralgia é, nos cardioaorticos, reveladora de uma alteração da mucosa estomacal, e n'estes estados cardiogastricos o leite é de reconhecida vantagem.
Mas se as perturbações dispepticas são devidas a uma irrigação insufficiente do estômago, se ha retarda mento e estase, traduzindose por uma dilatação do orgao, o regimen lácteo é contraindicado.
Na asystolia que aggrava muito as perturbações digestivas, uma administração sensata do leite é vanta josa.
_ Nas cardiopathias dispepticas, quando ha signaes de insufficiencia tricuspida, de arythmia, de tachycardia, a cura pela dieta láctea exclusiva obtemse muitas vezes