O Programa de contingenciamento da PETROBRAS na Amazônia
Leonardo Muniz Carneiro (UFAM) [email protected]
Resumo
Com o vazamento de óleo ocorrido na Baia de Guanabara em março de 2000, houve uma mudança de posição muito importante da PETROBRAS, no sentido da busca pela excelência na gestão ambiental e segurança operacional. Foram desenvolvidos programas específicos na área ambiental e de segurança nas operações petrolíferas, que geraram centenas de projetos com um custo total de aproximadamente US$ 1,2 bilhão, no período de 2000 a 2003. Um destes projetos, atrelado ao Programa de Contingenciamento, foi o de construção de nove Centros de Defesa Ambiental espalhados pelo Brasil, sendo um deles em Manaus, para atender às operações da PETROBRAS na vasta região Amazônica. O presente trabalho descreve como foi desenvolvido a operacionalizado o Centro de Defesa Ambiental da Amazônia, detalhando todas as etapas de planejamento, desenvolvimento e verificação do projeto. Faz também um resumo sobre os impactos ambientais ocasionados por vazamentos de óleo, os métodos existentes para minimização dos impactos ambientais, os principais equipamentos e materiais utilizados para contenção e recolhimento de óleo, o planejamento para atuação em emergência e no final aponta o caminho que o autor julga necessário trilhar para esta incessante busca: a excelência.
Palavras-chave: Meio Ambiente, Programa e PETROBRAS
1- Histórico
Em janeiro de 2000 houve o vazamento de cerca de 1,3 milhão de litros de óleo combustível na Bahia da Guanabara, Rio de Janeiro, devido ao rompimento de um duto submerso, nos fundos de um dos principais cartões postais brasileiros e berço de um ecossistema riquíssimo. Iniciadas as ações de combate à contingência, a PETROBRAS logo percebeu que os recursos que dispunha para a contenção e recolhimento do óleo eram insuficientes, tendo providenciado de emergência, a compra de grande quantidade de materiais e equipamentos além da mobilização de centenas de empregados próprios e contratados.
Apesar de todos os esforços despendidos a mancha de óleo se dividiu em várias partes tendo atingido áreas de sensibilidade ambiental, tais como os manguezais e praias do fundo da Baia da Guanabara, a área turística da ilha de Paquetá, criatórios de peixes, e outras áreas.
Estes impactos causaram uma enorme repercussão na mídia nacional e internacional, justamente em um cenário de conscientização crescente do cidadão brasileiro para a área ambiental, além de grandes perdas econômicas e da imagem para a PETROBRAS junto à sociedade.
Como decorrência de todos estes eventos, a PETROBRAS instituiu o Programa de Excelência em Gestão Ambiental e Segurança Operacional, envolvendo ações abrangentes na área de treinamento de recursos humanos, compra de equipamentos, estabelecimento de uma ampla
carteira de projetos, revisão de procedimentos operacionais e investimento em confiabilidade de operações.
Este programa, cuja sigla, é PEGASO é o mais extenso dedicado à área ambiental que já houve no Brasil, significando investimentos da ordem de US$ 1.200.000.000,00 em três anos, com o objetivo de alcançar a excelência da PETROBRAS na área ambiental e na segurança de suas operações.
Foi dividido em quatro áreas principais: Programa de Contingenciamento, Programa de Segurança de Processo, Qualidade de Vida e Resíduos e Áreas Impactadas. Este artigo vai abordar o desdobramento do Programa de Contingenciamento na Região Amazônica.
2- Primeiras ações realizadas
O Programa de Contingenciamento da PETROBRAS na Amazônia, objeto deste trabalho constou das seguintes ações iniciais:
− Revisão dos planos de contingenciamento local e plano de contingenciamento regional, de acordo com a norma PETROBRAS N-2644 e usando ferramentas de análise de riscos; − Construção do Centro de Defesa Ambiental da Amazônia (CDA-AMAZÔNIA) na
Refinaria Isaac Sabbá (REMAN);
− Compra de equipamentos e embarcações para a contenção e coleta de óleo, agentes de bioremediação, bóias para armazenamento temporário de óleo, embarcações de apoio, equipamentos para proteção individual, etc...
− Contratação de empresa (ALPINA/BRIGGS) especializada na operação dos citados equipamentos e em ações de combate a vazamentos de óleo;
− Estabelecimento de um plano abrangente de treinamento de todos os envolvidos em um possível vazamento através de cursos especiais teóricos e práticos e treinamentos simulados.
− Desenvolvimento de um sistema informatizado para auxílio em situações de emergência. Considerando a enorme área de abrangência de atuação, além das dificuldades inerentes à região, tais como a falta de rodovias, a existência de períodos de cheias e secas dos rios, ao intenso tráfego de navios e balsas carregadas com petróleo e derivados por milhares de quilômetros de rios, o trabalho de preparação e a logística para atendimento a contingência na Amazônia é extremamente complexa e diferente de todos os demais programas existentes no Brasil.
Considerando também a grande repercussão que pode haver, até mesmo em termos mundiais, de uma ocorrência de vazamento de óleo na maior reserva de biodiversidade do planeta, é imprescindível a excelência na preparação para atendimento a contingência pela PETROBRAS na Amazônia.
Não existe no mundo uma área similar à Amazônia, com os riscos de vazamentos de óleo decorrentes das operações de transporte, produção e refino de petróleo e derivados, que possuam um programa de contingenciamento conforme o que vem sendo implementado. Em termos mundiais existe a experiência no Alaska (Owens & Douglas 1999) de um programa parecido mas com a diferença de que as bases somente funcionam no verão.
O Programa de Contingenciamento da PETROBRAS na Amazônia iniciou-se em Manaus em março de 2001 logo após o vazamento na Baia da Guanabara e sob uma enorme pressão da PETROBRAS e da sociedade por resultados imediatos. Foi iniciado com a revisão dos planos de contingenciamento locais, com o objetivo de estabelecer os critérios mínimos para a implementação e manutenção destes planos, de forma a facilitar a interação entre os diferentes planos existentes dentro da área operacional, obter a necessária eficácia nas ações de controle e combate a contingências, estabelecendo também ações administrativas e operacionais, atribuições, responsabilidades e recursos necessários para tal.
Um plano de contingência (Hosty 1992) pode ser descrito como uma avaliação do potencial de acidentes e o desenvolvimento de seqüência de eventos para fazer frente aos acidentes possíveis. Para ser facilmente utilizado, o mesmo deve ser cuidadosamente escrito. A norma PETROBRAS que orienta a elaboração dos planos de contingência é a N-2644 que orienta para os seguintes itens a serem incluídos:
− Introdução; − Objetivo;
− Considerações gerais;
− Normas e regulamentos aplicáveis; − Área de abrangência;
− Caracterização das instalações;
− Organização para controle de emergência - OCE; − Organograma;
− Atribuições e responsabilidades; − Desencadeamento das ações; − Comunicações;
− Recursos internos e externos;
− Gerenciamento do plano e dos anexos.
Está claramente definido nos planos, que o combate a vazamento deve ser feito por pessoal especializado e treinado, sua execução deve ter sempre prioridade máxima, a coordenação deve ser centralizada (Kuhaneck & O’ Malley 1999), exercida em tempo integral e com dedicação exclusiva e que acidentes com significativo impacto ambiental devem ser comunicados aos órgãos públicos. Não é considerada a possibilidade de simultaneidade de eventos, deve-se sempre dar especial atenção especial à segurança dos envolvidos e que a rapidez nas ações é essencial.
Para subsidiar a elaboração dos planos foi realizado um estudo detalhado da logística da região, tais como localização dos aeroportos, estradas, portos, foram feitas fotografias aéreas, terrestres e fluviais, houve a aquisição de imagens de satélites, mapas náuticos, mapas de sensibilidade, normas técnicas da área de petróleo, dentre outras ações.
Foram feitos também o dimensionamento e atualização das listagens dos recursos disponíveis para combate a vazamentos de óleo, tais como barreiras de contenção, equipamentos recolhedores de óleo, embarcações, aviões, helicópteros, caminhões, empresas prestadoras de
Esta quantidade muito grande de informações deve ser organizada em um banco de dados que desse suporte e facilitasse o uso de todos estes dados (Plourde & Dix 1999), isto foi feito através de um banco de dados corporativos com dados de todas as áreas de atuação da PETROBRAS e um bancos de dados locais nas unidades de negócio da região norte.
Em 2000, em caráter de urgência, foi construído o Centro de Defesa Ambiental da Amazônia, iniciando-se a sua operação em dezembro, com os recursos existentes na UN-REMAN (figura 1) e com a chegada de novos recursos complementares enviados pela PETROBRAS.
Figura 01: Foto aérea da UN-REMAN às margens do Rio Negro
Para a operação do CDA-AMAZÔNIA houve a contratação da empresa Alpina, antiga fornecedora de equipamentos de combate à poluição para a PETROBRAS, que se associou a Briggs Environmental Services Ltd., empresa internacional que atua em combate a vazamentos de óleo.
A Alpina/Briggs Defesa Ambiental S.A. disponibiliza mão-de-obra fixa, disponível 24 horas/7 dias por semana/365 dias por ano, possui escritórios em São Bernardo do Campo e Rio de Janeiro, conectados “on line” por computadores ao CDA-AMAZÔNIA e possui comunicação permanente com a Base Central da Briggs, em Abberdeen - Escócia, de onde são controlados outros Centros em todo o mundo.
Foi estabelecido um plano de trabalho para teste e acondicionamento dos equipamentos, treinamento dos operadores da Alpina/Briggs (figura 2), elaborado plano de manutenção preventiva e corretiva, foram feitos testes periódicos de todos os equipamentos, elaborados os procedimentos operacionais dos equipamentos, proteção de áreas sensíveis nas imediações da UN-REMAN, adaptadas as embarcações para recebimento de parte dos equipamentos de contenção, dentre outras ações.
Figura 02: Empregados da Alpina/Briggs testando novo equipamento
Ficou estabelecido um plano de acionamento do CDA-AMAZÔNIA para todos as unidades de negócio da PETROBRAS na Amazônia o qual subsidiou a revisão do Plano Amazônia, que é o plano de contingência regional.
Iniciou-se construção de postos satélites (figura 3) em pontos de riscos de vazamento no interior, tais como em Belém, Coari, Urucu, Porto Velho e Cruzeiro do Sul, contendo recursos mínimos para o primeiro combate, para a complementação posterior pelos recursos centralizados em Manaus. Todos os procedimentos de organização da gestão destes postos satélites aos moldes do central na UN-REMAN estão em andamento.
Estes pontos de riscos foram escolhidos para a construção das bases satélites, com base no volume de petróleo e derivados movimentados e no número de operações realizadas mensalmente, o que por si, já indicam a probabilidade e severidade de ocorrência de vazamento de óleo.
Porto Velho Manaus Cruzeiro do Sul Rio Branco Urucu Coari Oriximiná Belém Macapá
Região Norte
CDA Sede Bases Avançadas Cidades RefinoAtivo de Exploração e Produção Terminal da Transpetro Petrobras Distribuidora Poliduto e Gasoduto
Figura 03: Localização das bases satélites do CDA- Amazônia
3- Desenvolvimento do programa
Foi realizado um extenso programa de treinamento para todos os possíveis envolvidos em um vazamento o que incluiu o pessoal próprio PETROBRAS e contratados, toda a gerência de linha, membros de órgãos públicos tais como o Corpo de Bombeiros, Secretaria Municipal de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (SEDEMA), Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) e Defesa Civil, não somente em Manaus, mas também com pessoal de outros municípios amazônicos.
Estes treinamentos são baseados na International Maritime Organizatio (IMO) e são utilizados em vários países do mundo (Ly 2001), eles abrangem dois níveis que são o nível operacional para o pessoal diretamente envolvido nas operações de contingência e o de nível de comando para os gerentes, responsáveis maiores pelos resultados obtidos. Estes treinamentos vem sendo realizados nas instalações do CDA-AMAZÔNIA quando em nível operacional e fora de nossas instalações para os cursos de comando, sendo que o seu conteúdo programático é o aconselhado pela International Maritime Organization (IMO), organismo que fixa as normas internacionais de contingenciamento de vazamentos de óleo.
Com o objetivo de testar a capacidade de combate pelo CDA-AMAZÔNIA nos diversos cenários locais próximos a UN-REMAN, no Campo Petrolífero de Urucu e no Terminal do Solimões em Coari, vem sendo realizados simulados periódicos, locais e regionais.
Os simulados locais abrangeram testes sobre o tempo de instalação de barreiras nos portos, tempo de colocação de embarcações em pontos estratégicos, tempo entre a solicitação de caminhões de transporte de equipamentos e sua chegada, enfim foram feitos inúmeros testes de modo a identificar falhas nos procedimentos em todos os detalhes possíveis.
Os simulados regionais abrangeram todos as unidades de negócio da PETROBRAS na Amazônia, além da sede da PETROBRAS, entidades externas, tais como a Capitania dos Portos e o Instituto de Preservação Ambiental do Amazonas (IPAAM) para teste do comando compartilhado e com o objetivo de trazer a observação externa para a melhoria contínua do Programa de Contingenciamento.
Estes treinamentos simulados são sempre seguidos por uma avaliação crítica onde são analisados os pontos positivos e os pontos para melhoria, de modo a obter sempre a melhoria contínua no atendimento à contingência, inclusive com o uso de fotografias, vídeos, observadores externos e sistema de posicionamento georeferenciado (GPS).
Além do plano de desenvolvimento dos recursos humanos para a atuação no programa está estabelecido no gerenciamento de desempenho de pessoal de todas as unidades da PETROBRAS a participação nos treinamento e a atuação em casos de vazamentos.
Foi desenvolvido pela PETROBRAS com o apoio da UN-REMAN o sistema informatizado do plano de ação em emergência (InfoPAE), que organiza e gerencia as informações para atendimento à emergências, com base em análises de risco, fotos de satélite e mapas de sensibilidade, incorporando o conhecimento técnico da PETROBRAS.
O objetivo é o de melhorar a eficiência e eficácia do combate a emergências, com base nas informações sobre a ecologia, sócio econômicas e geográficas da região, disponibilizando todos os recursos humanos e materiais necessários para a controle da emergência de forma a minimizar o tempo de resposta.
Alguns pontos relevantes são os seguintes:
− Possibilita a organização das informações em tempo de paz, segundo critério de encadeamento lógico das ações, a partir dos cenários acidentais provenientes das análises de risco, dos mapas de sensibilidade e dos Planos de Emergência;
− Agiliza as ações de controle da emergência;
− Disponibiliza todas as informações necessárias para o controle da emergência; − Permite o acompanhamento em tempo real das ações;
− Permite relatório de atividades da emergência;
− Possibilita reavaliar o plano de ação de controle da emergência nos cenários acidentais, em simulados e treinamentos.
4- Verificação do programa
Foi realizada em junho de 2002 a primeira auditoria de funcionamento do CDA-AMAZÔNIA, organizada pela sede da PETROBRAS e realizada por empresa contratada externa especializada em auditorias ambientais e que verificou o cumprimento de todos os procedimentos e fez testes de funcionamento.
Os teste de funcionamento abrangeram o funcionamento de todos os planos, desde os locais das unidades de negócio até os planos regionais, que são uma prática corrente na indústria do
A fase atual é a de avaliação dos resultados da auditoria e de todos os simulados realizados, de forma sistêmica, de modo a identificar os pontos fortes e os pontos para melhoria, para a análise crítica da alta administração sobre estado atual de implantação do Programa de Contingenciamento da PETROBRAS na Amazônia, objetivando atuar em eventuais correções.
5- Conclusões
Com a implementação do Programa de Contingenciamento na Amazônia, a PETROBRAS objetiva manter recursos humanos e materiais a disposição de eventuais emergências de modo a minimizar impactos ambientais destas ocorrências indesejáveis, assim, as situações de emergência devem estar previstas e devem ser enfrentadas com rapidez e eficácia, visando à máxima redução de seus efeitos.
Referências
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Kuhaneck, T. S. & O’Mailey, M. P. NATURALISCTIC DECISION MAKING AND TRAINING THE INCIDENTE COMMANDER - 1999 International Oil Spill Conference – Seattle – Washington - Estados Unidos da América - Março 1999.
Plourde, K. L. & Dix, M. INCIDENT COMMAND SYSTEM-BASED AREA CONTINGENCY PLANS – 1999 International Oil Spill Conference – Seattle – Washington - Estados Unidos da América - Março 1999.
Ly, J. M. OIL SPILL RESPONSE TRAINING AND EXERCISES IN NORWAY: ARE WE PREPARED - 2001 International Oil Spill Conference – Vancouver Canada – Abril 2001.
Perkins, K. T. AN INTEGRATED APROACH TO CORPORATE PREPAREDNESS -1995 International Oil Spill Conference – Long Beach - California – Estados Unidos da América – Março 1995.