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Estudos sobre os vlogs: uma proposta de análise multimodal 1

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Academic year: 2021

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Estudos sobre os vlogs:

uma proposta de análise multimodal

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Tiago E. Moura2

Resumo: Esta pesquisa pauta-se no trabalho com vlogs,

especificamente sobre os elementos multimodais que o compõe. O objetivo deste trabalho é verificar como se constrói os elementos multimodais em um vlog. Como subsídios, utilizam-se as teorias sobre gêneros do discurso de Bakhtin (1997) e os multiletramentos de Rojo (2012). Metodologicamente, procedeu-se à pesquisa bibliográfica e análise qualitativa das informações teóricas e, ainda, à análise multimodal de um vlog de alta popularidade. Os resultados apontam a importância dos elementos multissemióticos para a compreensão integral de um gênero digital como o vlog.

Palavras-chave: Vlogs. Multiletramentos. Multimodalidade

Introdução

A tecnologia está presente na sociedade desde o início, atuando como espécie de “mediação tecnológica do conhecimento”. Martin-Barbero (2006) já afirmava que a revolução tecnológica não introduzia somente novas tecnologias na sociedade, mas também novos modos de relacionamento entre os processos simbólicos.

O advento do computador, da internet e das interfaces digitais tem sido instrumento de interação humana por meio da linguagem. De acordo com Jenkins (2009) as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (doravante TDIC) têm sido responsáveis por mobilizar elementos multimodais nos eventos online pelo seu caráter de ampliação dos modos de linguagem, cultura da imagem e do som e cultura da velocidade.

A capacidade autônoma de comunicação, os novos modos de relacionamento entre processos simbólicos e os novos processos de mediação do conhecimento

1 Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Literatura / A palavra do Seminário Internacional de

Tecnologia, Educação e Sociedade, realizado pela Faculdade Tecnológica [Fatec] de

Itaquaquecetuba, SP, no período de 27 a 30 de março de 2019.

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poderiam ser relacionados nas ações sociais, linguísticas e cultuais dos vlogs, assim chamados alguns vídeos de canais específicos do website Youtube.

Com base neste contexto, o tema deste estudo pauta-se no trabalho com vlogs e os elementos multimodais em sua composição. Nesta direção, o objetivo desta pesquisa é verificar como se constrói os elementos multimodais em um vlog.

Metodologicamente, a abordagem para análise aqui proposta está pautada no âmbito dos pressupostos teóricos advindos dos estudos bakhtinianos de linguagem e a multimodalidade à luz de Rojo (2012) e Kress e Van Leeuwen (2010). Pautaremos nossa análise nos mecanismos composicionais, estilísticos e temáticos em vlog intitulado Tutorial para a Felicidade, com vistas a verificar os mecanismos que compõem os elementos multimodais.

1 Sociedade, educação e tecnologias digitais

Para Coll e Moreneo (2010), a evolução das TDIC foi possível graças à criação do computador em 1940 e depois com a interligação dessas máquinas digitais com a internet. Isso possibilitou um novo estágio de desenvolvimento da sociedade, surgindo assim a Sociedade da Informação (doravante SI).

Segundo Castells (2006), a SI tem sido um período histórico cuja característica está centrada na revolução e na reinvenção tecnológica em curtos espaços de tempo. Para o autor, atualmente a tecnologia tem a capacidade de “mudar o fluxo da informação a partir da capacidade autônoma de comunicação, reforçada mediante as tecnologias digitais de comunicação, realça substancialmente a autonomia da sociedade com respeito aos poderes estabelecidos” (CASTELLS, 2006, p. 231).

Essa capacidade autônoma de comunicação, acrescida pelas TDIC, se deve pela evolução dos computadores e também pela expansão da internet, especificamente pela capacidade de obter e compartilhar informações de modo instantâneo sem limite geográfico.

Jenkins (2009) afirma que o período de 1994 a 2003 é classificado como os primórdios da internet, ou web 1.0. Nessa época, os usuários comuns foram atraídos para a web para se relacionarem com outras pessoas (bate-papos, fóruns, sites de

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exemplo), para pagamento de contas (on-line banking), para notícias, para pesquisas e também para a Educação (início de plataformas e-learning).

Para Melo Junior (2007), a evolução da tecnologia web 1.0 e as novas pesquisas sobre hardware e software trouxeram enormes mudanças de como, quando e onde o indivíduo teria acesso à internet e seus recursos online. Assim, após o ano de 2003, nasceu a cultura online participativa, ou web 2.0, possibilitando a publicação, o compartilhamento e a organização de diferentes tipos de mídias

Após a Web 2.0, surgiu o conceito de Web 3.0, cunhado por John Markoff. É a atual fase da internet e tem por características organizar toda a informação disponível na internet, não somente para os seres humanos, mas também para máquinas e inteligências artificiais.

Diante desse cenário, Coll e Moreneo (2010) propõem novas ferramentas e novas perspectivas para a Educação ao ressaltarem a usabilidade e adaptabilidade em que os recursos estão inseridos.

2 Os multiletramentos e os gêneros discursivos

Para Rojo (2012), os novos cenários e as novas tecnologias propõem impactos e transformações no modo com que os indivíduos interagem com a linguagem. As plataformas digitais propõem liberdade de produção que permitem maior demanda de textos multimodais. No entanto, tais práticas de linguagem nestes cenários exigem novas abordagens e novas técnicas para lidar com a disseminação das TDIC, tendo em vista que os gêneros discursivos (BAKHTIN, 2016) e os elementos da multimodalidade (KRESS; VAN LEEUWEN, 2010) em sua estrutura.

De acordo com Bakhtin (2011), os gêneros discursivos estão envolvidos na maneira como o ser humano compreende a realidade, isso porque “as formas da língua e as formas típicas dos enunciados, isto é, gêneros do discurso, chegam à nossa experiência e à nossa consciência em conjunto e estreitamente vinculadas” (BAKHTIN, 2011, p. 283).

Segundo Rojo (2012), essa reconfiguração (e criação) de vários gêneros discursivos se dá, sobretudo, devido aos ambientes digitais estarem organizados por diferentes códigos, aplicativos (texto, som, imagem, animação, ferramentas de comunicação etc.), dispositivos digitais (computadores, videogames, tocadores de

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mp3, mp4, tablets, celulares etc.), diferentes redes de conexão (internet, wifi, bluetooth e etc.) e, inclusive, diferentes técnicas (clicar, cortar, copiar, arrastar etc.).

Rojo (2012) propõe os multiletramentos por meio de duas perspectivas:

multiplicidade cultural e multiplicidade semiótica. A respeito da multiplicidade

cultural, a autora afirma a necessidade da “desconstrução” do mito do que é

considerado culto/inculto. Em várias sociedades, o conceito de cultura é dividido por nichos como popular, erudita, canônica e de massa, porém nem todas recebem o mesmo prestígio.

Já sobre a multiplicidade semiótica, ou multimodalidade, Rojo (2012) explica que os textos são formados por múltiplas linguagens que exigem do leitor e do produtor diferentes recursos para a compreensão textual em sua totalidade. A autora explica ainda que a utilização da multimodalidade em um texto é fundamental para se compreender os diferentes sentidos em determinados contextos, organizados a partir de aspectos linguísticos, temáticos, estruturais e contextuais.

3 Regularidades na composição dos vlogs

Antes de verificar as características multimodais em um vlog, é importante propor uma breve discussão sobre o objeto deste estudo: o vlog. O termo tem sua origem na palavra webblog ou blog, pois segundo Komezu (2010), os blogs tiveram sua origem em 1999 por meio do software Blogger, página virtual criada para hospedar informações em diferentes mídias.

Nessa direção, Dorneles (2014, p. 13) considera que o vlog:

É uma espécie de canal de vídeo em que os vloggers compartilham suas respectivas produções audiovisuais. Os vlogs, assim como os blogs e flogs, são uma evolução dos antigos diários de cabeceira. Muitos deles são intimistas e autobiográficos (DORNELES, 2014, p. 13).

Segundo Dorneles (2014), houve uma evolução de gêneros de suporte impresso para suporte digital que, conforme o avanço da tecnologia, foi tendo evoluções pelos diferentes ambientes virtuais, como blogs, flogs e, agora, vlogs.

O surgimento dos vlogs se dá a medida que a tecnologia digital foi evoluindo e os meios de comunicação virtuais foram se tornando acessíveis a todas as

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camadas sociais. Isso ampliou a interação mediada pelas tecnologias digitais. Na visão de Ataliba (2017), com o surgimento de inúmeras redes sociais, no início dos

anos 2000, surge a necessidade da criação de espaços virtuais para a postagem3 e

hospedagem de textos verbais e não-verbais (texto escrito, músicas, vídeos, imagens e outras).

Até o início dos anos 2000, o vlog já propunha diferentes finalidades em seu uso, como o relato de experiência (diários), a crítica (posicionamento) que se amplia o conjunto de tipos e especificidades com a chegada do Youtube em 2005. Segundo Ataliba (2017), os vlogs podem ser considerados gêneros discursivos por envolver diversas características propostas pela teoria bakhtiniana. Na perspectiva de Bakhtin (2011), todo o gênero é construído sob dimensões extraverbais ao incluir os modos de produção e de circulação e, inclusive, os fatores sócio-históricos e valores construídos socialmente.

Sabe-se que a internet tem tido papel fundamental no modo como é

produzido os textos – desde um texto verbal escrito à um texto multimodal

multimidiático. Além do modo de produção, a internet também tem alterado o modo de circulação que, provavelmente, pode ter contribuído para que as informações vinculadas à internet alcançassem às grandes massas.

4 Multimodalidade em vlog: uma análise composicional

Para a análise da multimodalidade em vlog, serão utilizados como referenciais teóricos o conceito de multimodalidade de Kress e Van Leeuwen (2010), os multiletramentos à luz de Rojo (2012) e os conceitos bakhtinianos de linguagem. Escolhemos para a análise o vlog intitulado Tutorial para a Felicidade do Canal Nostalgia, criado em 2014 por Felipe Castanhari. O vídeo foi lançado no ano de 2017 e conta com mais de um milhão e meio de visualizações até o presente momento.

O primeiro momento refere-se a Thumbnail: construções verbo-imagéticas de

apresentação visual do vídeo – ou a capa do vídeo -, construídas com propósitos

específicos. Esses pequenos textos verbais e não verbais são exclusivos da

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plataforma Youtube. A ideia principal das thumbnails é chamar a atenção do leitor para a audiência dos vídeos com imagens ilustrativas e ficha técnica.

FIGURA 1: Página do Vlog

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ctDMkhL7Xes&t=5s. Acesso em 03/02/2019

Em [1] apresenta-se o assunto do vídeo com linguagem multimodal. Percebe-se o título do vídeo em linguagem verbal escrita e uma imagem reprePercebe-sentativa com as cores e as expressões faciais que complementam o título. Em [2] apresenta a descrição do vlog com alguns dados principais do conteúdo do vídeo: o título, o nome do canal, o número de visualizações, há quanto tempo foi lançado, breve descrição do vídeo.

O segundo momento diz respeito ao Conteúdo do Vídeo: nesta etapa o usuário tem acesso à produção do resultado após finalizado. O conteúdo do vídeo propõe alguns elementos multimodais em sua organização.

FIGURA 2 – Enquadramento e plano de fundo do vlog

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ctDMkhL7Xes&t=5s. Acesso em 03/02/2019

Segundo Adorno (2015), um dos elementos composicionais dos vlogs é a centralização do enunciador na tela do vídeo com similaridade do corte da imagem acima do peito. Deve-se mostrar o rosto e ombros, além do cenário ao fundo, que

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ambiente de fundo dos vídeos que compõem os diferentes cenários temáticos dos canais.

FIGURA 3 – Elementos multimodais

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ctDMkhL7Xes&t=5s. Acesso em 03/02/2019

Há ocorrência multimodais à medida que os enunciadores vão apresentando as informações. A linguagem oral e escrita ocorre simultaneamente. Segundo Rojo (2012), a fala e a escrita, numa perspectiva discursiva, constroem-se por, no mínimo, duas modalidades dentre palavras, gestos, sorrisos, animações, entonações e outros. De acordo com Kress e Van Leunween (2001), muitos textos possuem características da multimodalidade, uma vez que carregam em sua estrutura de construção pelo menos dois elementos de representação

Percebe-se hipertextos com referências a outros textos (vídeos) ou recursos ferramentais, gestos, fundo do vídeo que propõe informações complementares e os hipertextos (links e referências) como um elemento composicional resultando do processo de edição.

Considerações finais

Este estudo é parte de uma pesquisa maior que tem como objetivo verificar em que medida os vlogs podem ser utilizados como instrumentos catalizadores no trabalho com textos digitais multimodais em sala de aula. Ao verificar os elementos

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multimodais em vlogs, percebe-se que, ao redimensionar a textualização de textos

exclusivamente verbais para os textos multissemióticos, ampliamos as

possibilidades de interação sobre a organização dos textos digitais.

Este estudo também buscou romper com a concepção tradicional de linguagem que prioriza os aspectos verbais e propõe os elementos visuais como elementos tarefa secundários em um gênero discursivo. No caso o vlog, que utiliza elementos multimodais em sua tessitura, os elementos multimodais não verbais são imprescindíveis a sua existência como texto.

Referências

BAKHTIN, M. Gêneros do discurso: estética da criação verbal. 6 ed. São Paulo: Martins Fontes, p. 261-306, 2011.

MARTIN-BARBERO, J. Tecnicidades, identidades, alteridades: mudanças e opacidades da comunicação no novo século. In: MORAES, D. (Org). Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad X, 2006. p. 51-79

MELO JUNIOR, C. S. Web 2.0 e mashups: reinventando a internet. Rio de Janeiro: Braspot, 2007.

ROJO, R. H. R. Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. CASTELLS, M. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.

JENKINS, H. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2009.

KOMESU, F. TENANI, L. A relação fala/escrita em dados produzidos em contexto digital. Scripta. Belo Horizonte, PUC-Minas, v. 13, n. 24, p. 211-225, 1º sem. 2009. DORNELLES, J. P. O fenômeno Vlog no Youtube: análise de conteúdo de

Vloggers brasileiros de sucesso. 2014.

ADORNO de OLIVEIRA, G. Discursos sobre o eu na composição autoral dos vlogs. Tese. Doutorado em Linguística. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2015.

ATALIBA, A. R. Vlogs: um estudo de sequências narrativas e argumentativas das produções discentes no Ensino Fundamental. Mestrado em Linguística Aplicada. São Paulo: USP, 2017.

Referências

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