Histeria, luto e sedução generalizada
Gustavo Adolfo Ramos Mello Neto Propor a neurose como patologia das relações amorosas não é nada novo. Isso está em Freud que, sabemos, a vê como alteração da capacidade de amar e trabalhar.
O objeto da pulsão, que Freud teoriza nos Três Ensaios (1905/1990), introduz algo muito complexo na própria idéia de pulsão. A fonte e a finalidade, de algum modo, não trazem nenhuma complicação, nada que a sexologia da época não pudesse resolver com seu aporte médico. O objeto, contudo, traz o outro e, sobretudo, retira o sujeito da pura individualidade e o posiciona nas relações amorosas que, como sabemos, são relações complexas, que levam em conta história e sociedade. A neurose, pois, aí se coloca como uma forma do sujeito posicionar-se nessas relações, seja do ponto de vista de sua constituição, seja do ponto de vista atual.
Do primeiro ponto de vista, o da constituição, a histeria vê-se teorizada enquanto
constituída a partir de certa forma de relação com os objetos primitivos. Em Freud há uma ênfase no complexo de Édipo; o sujeito frente à sexualidade, isto é, às relações amorosas adultas sofre uma regressão, buscando posicionar-se em relações pretéritas, infantis de natureza incestuosa, que já deveriam ter sido ultrapassadas. De forma simplificada, é o que temos em Dora (Freud, 1905/1990) que, frente ao dizer sim ou não às propostas amorosas do senhor K, “prefere” a regressão, por meio de sintomas. É bem verdade, contudo, que, em “A sexualidade feminina”, Freud questiona-se se realmente o complexo de Édipo é o núcleo fundamental das neuroses e isso devido ao fato de que as relações pré-edipianas com a mãe ganham um papel de inesperada importância na teoria do desenvolvimento da mulher. Seja como for, Freud propõe, então, considerar o complexo de Édipo de forma mais abrangente e ver nele todas as relações da criança com ambos os pais.
Esse é um caminho retomado por um sem-número de autores pós-freudianos, que vão desde um Judd Marmor (1953, apud Ramos, 2008) com a surpreendente idéia de que a histeria deriva de uma fixação oral e não genital até uma Uti Ruprecht Schampera (1995, apud Ramos, 2008), que propõe um triângulo não edipiano no desenvolvimento da criança.
Do ponto de vista do atual, passemos a ele, temos também que desde os anos 50, os
Freud, pois já não se apresenta na forma de sintomas, mas aparece, sobretudo, como uma neurose de caráter. Isto quer dizer que sua manifestação é no modo de ser, e ser é ser com o outro. São pessoas insatisfeitas, que não evitam as relações objetais, mas sofrem muito dentro delas. Alfredo Namnum (apud Laplanche, 1974, cit. p. Ramos, 2008) chama a atenção para o fato de que (desde os anos 50) a histeria se apresenta principalmente na forma de relações conjugais conturbadas.
É, então, bastante chamativo que tanto a teoria psicanalítica quanto o fenômeno analisado por ela caminharam, depois de Freud, no sentido de enfatizar as relações. O que se expõe em seguida é uma proposta de interpretação da histeria que vai justamente por esse caminho de inclusão do outro no arsenal explicativo.
Parte-se da Teoria da Sedução Generalizada (TSG), de Jean Laplanche.
A proposta de base é a de que entre a criança e o adulto existe uma assimetria capaz de provocar todo um movimento. Tanto adulto como criança vivem certa passividade, no sentido de que ambos são afetados; o adulto é afetado por seu inconsciente e a criança, devido a sua imensa dependência, é afetada pelo adulto, que lhe destina mensagens inconscientes (para si mesmo) que ela não poderá decifrar inteiramente. A imagem que está aí é aquela bem conhecida do paciente de Freud que presencia o coito dos pais, excita-se com ele, porém não pode compreendê-lo. Trata-se, pois, do que Laplanche denomina mensagem enigmática do outro. É uma mensagem traumática, excessiva e que aparece na forma de enigma. O não decifrado que permanece apesar da tentativa que faz o infante de metabolização do conteúdo da mensagem será, pois recalcado, dando origem ao que Freud nomeou Inconsciente. Essa é uma teoria que aceita literalmente a idéia de recalcamento primário, em que este seria fruto da falha em traduzir. Essa última faria de nós hermeneutas eternos, pois o enigma resultante estaria sempre pressionando para ser decifrado. Substancialmente, esse enigma poderia ser contido numa fórmula genérica: “que quer o outro adulto de mim”, que é o que aparece na transferência e, sobretudo, na neurose. Ora, pode-se bem pensar que essa última seja um produto possível dessa tentativa tradução.
Vejamos que essa proposta não é dessexualizante como outras que enfatizam a mãe provedora. Mesmo assim, fica o histórico problema de se a causa da histeria é ou não o complexo de Édipo.
A experiência nos leva a dizer que sim, pois o sintoma histérico e mesmo o quadro todo quando interpretado seguidamente desse ponto de vista responde bem ao tratamento.
Mas, sabemos também que a oralidade aí é muito forte e a relação da histérica com a mãe é de muita dependência.
A tentativa de tradução do enigma do outro antecede, pois, qualquer estádio psicossexual organizado. Digamos, então, que qualquer dessas organizações é tradução conseguida parcialmente. Desse ponto de vista, então, o fantasma é produto do esforço de decifração, portanto, o que causa as neuroses é também produto. Pode-se, então, pensar que se o resultado desse esforço não for o fantasma, não se tem uma neurose, mas se está no reino das psicoses.
Se a oralidade e também a genitalidade edípica estão fortemente impregnadas no fenômeno histérico, é talvez porque ambas são sexuais e a sedução é o que as enlaça. Há sedução oral, como há sedução genital e é possível pensar que, partindo dos pais, ambas são edipianas. A criança está colocada para o adulto genitor em posição de passividade e nela são “introduzidas” mensagens tanto orais como genitais provindas do adulto. As mais fundadoras, digamos, seriam as mais primitivas, as mais fragmentárias e parciais, desse modo, o genital seria menos importante (ver Laplanche, 2007). Mas, não se pode esquecer que o genital infantil é também sexualidade parcial, fálica. Também não se pode esquecer que o oral na histeria é um oral genitalizado e vice-versa. Isso quer dizer então que a organização neurótica é algo já bem complexo e estruturado.
Mas, a experiência também mostra que o neurótico não é apenas “realização de desejo”, cumprimento do fantasma, mas é alguém que tem a perda como uma espécie de tônica no seu discurso, no plano da enunciação, do interpretado. Como, então, perda com sedução generalizada?
A princípio pode-se pensar que toda sedução comporta uma perda, pois na sedução “promete-se” o que não se tem e não se cumpre, senão não seria sedução. É algo para se pensar. Mas, o fato é que se propõe aqui que o neurótico vive o enigma do outro – que o pressiona toda a vida – na forma de um luto, um luto que já iniciado, mas que segue indefinido, daí os estados depressivos freqüentes. A perda, digamos, de algum modo dá uma tradução para a mensagem do outro e o luto temporaliza, isto é, propõe um momento na história de uma relação. Além disso, o luto é presença do objeto, mas presença na forma de excesso e a perda (ou morte) impõe um enigma, na verdade, irrespondível: “por que não me quis?”. No trabalho analítico é interessante observar que isso aparece na vida atual. Isto é, o sujeito se nos aparece sofrendo pela perda de um namorado, de um amante, de um marido ou de uma amiga e, por vezes, de um grupo e um ideal. Muitas vezes a elaboração desse luto adulto é o começo de elaborações bem
mais essenciais. Outras vezes, quando o paciente vem a nós não traz nada disso, no entanto, é interessante notar que o objeto atual e sua perda surgem no decorrer no tratamento, fazendo emergir todo o drama explícito que outros trazem desde o começo. É possível pensar que esse objeto não é nem mais menos que um deslocamento da figura do analista, cuja função é explicitar esse drama e, através da abstinência analítica, propiciar a sua superação.
Bibliografia
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FREUD, S. “Tres ensayos de una teoría sexual”, in Obras completas, vol. VII. Trad.José Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1990 [1905].
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LAPLANCHE, Jean. Inceste et sexualité infantile. In : Sexual. Paris : PUF, 2007.
LAPLANCHE, Jean. Novos fundamentos para a psicanálise. Trad. Cláudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
RAMOS (MELLO NETO), Gustavo Adolfo. Histeria e psicanálise depois de Freud. Campinas, SP, Editora da UNICAMP, 2008.
Depressão na histeria: uma dialética da paixão
Viviana Velasco Martínez Sim, amo!1A proposta aqui é discutir o amor como sintoma na histeria e a depressão como uma das suas manifestações.
A necessidade extrema de amor, na histeria, implica em constantes perdas e decepções amorosas, do que supomos decorrer a depressão. No entanto, para Ostow (1966), a histeria seria a própria defesa contra a depressão. Para evitar o agravamento, o outro, tomado como objeto de amor hipersexualizado, funcionaria como eficiente antidepressivo, embora sempre temporário porque insuficiente. Desenrola-se, assim um drama em torno da impossibilidade de satisfazer demandas fantasmáticas de amor. E de que amor se trata?
O amor edípico, dirão alguns autores. Feigenbaum (1926) indicará nessa trama a presença de amores e desamores. Uma costureira que, cedo, descobre, por um abraço fraterno forçado, os segredos da exuberante anatomia masculina. Teme e rejeita esse irmão, no entanto, ama um outro que, pouco antes de morrer de câncer, lhe entrega uma aliança de presente, com o que ela desmaia; ama também o pai que igualmente morre cedo e diz ser rejeitada pela mãe, que ama apenas o irmão, aquele que a abraça... Temos também, os amores que decepcionam. A paciente de Cuevas (1996) justifica a sua procura por amantes, por se sentir insatisfeita no casamento. Também neste caso, temos um cenário que se repete: um pai morto, irmãos que parecem substituí-lo eroticamente e uma mãe que rejeita.
É interessante apontar que nessas cenas edípicas com o pai ou irmão, como seu representante, a mãe aparece como alguém que rejeita e maltrata. Tratar-se-ia de uma vitimização conveniente para encobrir ou justificar o “crime” do desejo incestuoso? Quanto à insatisfação nos relacionamentos, Ostow (1966) considera que o investimento libidinal genital excessivo na histeria é uma forma de atenuar a dor psíquica, porém, alimenta a fantasia de ter adquirido um pênis, motivo pelo qual o sexo deve ser rápido ou sem orgasmo. Frente à insatisfação e nova ameaça de depressão é preciso culpar o parceiro e, quem sabe, um novo amor para mitigar a dor.
Fessler (1950, apud Martínez e Mello Neto, 2007) também nos fala de decepção amorosa. A impossibilidade de ter filhos, quando chega o climatério, instalaria uma
espécie de histeria, pois a realidade indicaria que não é mais possível fantasiar pela restituição fálica através de um filho do pai.
Amores triangulares, incestuosos e proibidos, a histérica fantasia sua realização e sua interdição simultaneamente na forma de um amor sempre fracassado.
Mas há também outros amores extremos. Desde os textos sobre a feminilidade de Freud, a histeria não se refere apenas a uma sedução fantasmática do pai, mas toma a mãe como objeto de amor e de satisfação, e como conseqüência de frustração. Destacamos assim as perdas, do objeto e do seu amor causando uma ferida narcísica, do que decorrem as tentativas constantes, na histeria, de substituir sempre por um outro, aí está o analista, como promessa de satisfação, além de edípica, pré-edípica também.
Será precisamente essa ferida narcísica que causará a depressão. Segundo Wallerstein (1981, apud Martínez e Ramos Mello, 2007), a menina não pode sustentar a fantasia de possuir fálica e ativamente a mãe e, mesmo quando ela abandona esses impulsos fálicos e desloca a libido para o pai e depois para outros homens, a mudança para a condição receptiva provocaria a depressão. No caso da histeria, defesas patológicas são acionadas e conflitos antigos impedem o abandono da ligação fálica com a mãe. O oral estaria na origem dessa depressão.
Já, para Ostow (1966), a oralidade na histeria seria um indicativo de que o investimento libidinal da função genital não funciona mais como um antidepressivo, o ego, então, procurará desesperadamente recuperar os objetos de cuidado. Oralidade e dependência marcantes farão com que o amor escolhido possa ser identificado com a figura materna de quem se exige em excesso. Contudo, o que pareceria ser um novo calmante, esconde novas angústias, pois surge a ameaça de fusão.
Jeanneau (1985, apud Martínez e Mello Neto, 2007), por sua vez, se refere a um vazio que apenas ameaça de depressão, decorrente da intervenção do pai, separando a fusão da menina com a sua mãe. O pênis do pai, que falta à mãe, privaria a criança de um apoio homossexual constitucional, de tal maneira que a identificação com a mãe seria insuficiente. Contudo, pelo pênis contido na mãe, a fantasia de completude implicaria no risco de uma devoração mútua. Cena primária, oralidade exacerbada e satisfação alucinatória marcam a histeria para o autor, e a ameaça de abandono é a causa do sofrimento.
De Matos (1985) também se refere a um estilo oral nas relações na histeria. Para o autor, haveria na infância uma depressão não resolvida e encoberta por um compromisso neurótico — eis a histeria —, implicando na procura incessante por um
objeto externo que satisfaça, dando a ilusão de perfeição e completude para preencher um vazio do objeto interno fragilmente constituído. Mesmo que se estabeleça uma relação precoce com suficiente e até excessiva satisfação pulsional, ela é meramente funcional. Haverá, então, constantemente um conflito entre a demanda de amor e uma recusa agressiva do objeto que, se sabe, negará a satisfação desejada. Assim a histérica, continua De Matos (1985:375), “ao mesmo tempo em que está à procura permanente do amor do outro, o recusa”. O amor, então, nunca chega e a espera por ele cria uma expectativa angustiante que alimentará insônias, anorexia, inquietudes e múltiplos investimentos, ou até indiferença, como forma de silenciar o sofrimento. A ausência do objeto capaz de satisfazê-la e a falta de relações amorosas a manterá indefinidamente à beira da depressão.
Há, finalmente, os amores excessivos de uma mãe por sua filha.
Pequena, abraçada à mãe, para dormir, como sempre — relata uma paciente — vê a mãe tocar os genitais e lhe pergunta: “mãe, o que faz tua mão aí?”, rapidamente a mãe retira a mão e diz: “onde? que mão? nada! Finge dormir e a mãe novamente se toca, então senta abruptamente e apontando para os genitais da mãe afirma: “aí, mãe, aí!”
O que está aí para essa menininha que continua se interrogando anos depois na sua análise? Prazer e horror parecem se entrelaçar nesse abraço erótico com a mãe.
As idéias de Jeanneau (1985, apud Martínez e Mello Neto, 2007) nos auxiliam. A mãe da histérica, diz ele, utiliza o corpo da filha para se satisfazer sexualmente, procurando para si alguma reparação narcísica ou recuperação fálica e para instalar nesse corpo suas decepções masturbatórias. É, pois, no terreno do vínculo corporal e erótico que a criança reencontrará sua mãe e um sentimento de estranha solidão na presença do outro. O corpo da histérica é, então, um corpo solicitado e excitado, mas ao mesmo tempo, decepcionado precocemente. O autor se refere aos cuidados da mãe.
Temos assim algo da ordem do impossível, onde cuidado e proteção, desejo e excesso, oralidade e genitalidade, se contrapõem e se encontram para produzir o amor na histeria como um sintoma conciliador. Se a procura por amor está em torno da procura de satisfação edípica, ou mesmo de recuperar o objeto perdido do narcisismo, haveria aí, talvez, uma tentativa de recuperar a sim mesmo como fonte de auto-satisfação. E perder assim mesmo impõe o fracasso antecipado de qualquer possibilidade de luto, um amor seria a salvação. Talvez, graças a esse amor que sempre se espera e se perde, a histérica evite uma psicose, mas deixe como rastro uma melancolização, ou depressão narcísica. Tratar-se-ia, finalmente, de um percurso em que com cada amor, além das satisfações
fantasmáticas edípicas — aí está a transferência erótica —, procure-se em si mesmo a recuperação do corpo materno.
Referências
Cuevas P. A. Some changes observed in a clinical case. International Journal of Psycho-Analysis. 73(2): 221-226, Sum.,1992.
De Matos A. C. De l’hysterie a la depression. Revue Francaise de Psychanalyse. 49(1): 374-379, 1985.
Feigenbaum, D. A case of hysterical depression. Mechanisms of identification and castration. Psychoanalytic Review. 13: 404-423, 1926.
Martínez, V. e Mello Neto, G. Pathos histérico: depressão e teatralidade. Psychê, 20:79-98, jan-jun, 2007.
Ody, M. De l’opposition entre hystérie et dépression. Revue Francaise de Psychanalyse. 50(3): 905-921, may-jun, 1986.
Ostow, M. The struggle against depression. Canadian Psychiatric Association Journal. 11(Supl): 193-207, 1966.
O amor oral e fálico na histeria
Francielle G. C. Gomes Viviana Velasco Martínez Esta exposição tem por objetivo compreender a constituição da histeria feminina decorrente de um amor ambivalente e clivado dos pais, que desejavam um menino. Enfocamos, nessa temática, os pontos de fixação nas fases oral e fálica e os desdobramentos no amor (ou desamor), na histeria, como importante componente. Em 1907, o pai da psicanálise se refere à histeria como um estado amoroso excessivo: “O histérico exagera o amor do objeto e se torna, por isso, incapaz de se movimentar: ele se fixa” (p. 130). Dez anos depois, Freud (1917) vai se referir a um retorno empreendido pelas suas pacientes histéricas ao momento em que eram crianças de peito. Já em 1931, nos fala da sua suspeita de que em torno da etiologia da histeria estaria a ligação predominante da menina com a mãe.
Contudo, a histeria também estaria relacionada a situações menos regredidas e, portanto, genitais. Uma das idéias de Freud, que nos interessa, é a de que tomaria por histérica qualquer pessoa em quem “... uma oportunidade de excitação sexual despertasse sentimentos preponderantes ou exclusivamente desprazerosos” (1905: 37). Além dessa idéia, que surge no caso Dora, temos todo um percurso, na clínica de Freud, que aponta para a etiologia do pai.
As definições de Freud, portanto, se referem tanto aos aspectos edípicos, como os pré-edípicos, nas formas de amor da histérica.
Laplanche e Pontalis (1987) dão um contorno bastante interessante para a histeria, tratar-se-ia da “predominância de um certo tipo de identificação e de certos mecanismos (...), e no aflorar do conflito edipiano que se desenrola principalmente nos registros fálico e oral” (p. 211).
De qualquer forma, temos, em torno da etiologia da histeria, o estabelecimento de uma relação da criança com o adulto e essa relação terá algumas especificidades e conseqüências.
Aulagnier (1979) se refere à expectativa em relação ao sexo1 do bebê como o primeiro ponto de ruptura que pode surgir entre o desejo dos pais pelo filho, presente nos
1 Embora a autora utilize o termo “sexo”, talvez fosse mais adequado
substituílo por “gênero”. Isso, porque — nos apoiamos nas idéias de Laplanche (2007) — o sexual é o fragmentário, o polimórfico perverso, ligado à pulsão sexual de morte, já o gênero vem da cultura com suas elaborações defensivas, entre elas o próprio complexo edipiano.
enunciados construídos por eles em relação a este último, e o corpo real do bebê. “O primeiro ponto de ancoragem — afirma a autora — que pode, dramaticamente, tornar-se o primeiro ponto de ruptura entre esta sombra e este corpo é representado pelo sexo” (1979:111). Nessa ruptura, estaria precisamente a histeria como uma “solução”.
Por sua vez, Mayer (1989) considera que as expectativas dos pais postas no sexo que terá a criança serão determinantes na organização sexual, já que, dependendo daquelas, o bebê poderá ser idealizado ou, mesmo, rejeitado.
Nesse aspecto, temos, então, que o desejo dos pais pela criança e pelo sexo desta, influencia a qualidade do investimento libidinal que ela receberá a partir de seu nascimento, festejado ou não pelas ilusões dos pais. Isto nos permite localizar na fase oral o primeiro desarranjo no desenvolvimento psicossexual da menina que poderá vir a se tornar histérica. Tomamos assim a fase oral, porque em termos de organização psicossexual esse estádio é o primeiro cenário para as relações entre a criança e o adulto.
Assim vemos surgir complexos desdobramentos, entre eles o da identificação, por exemplo, com as figuras parentais que rejeitam e que meses de espera idealizaram o seu bebê.
O. Manonni (1994), a partir da sua experiência clínica com histéricas nos chama a atenção para essa problemática da identificação nas histéricas, que se origina no nascimento: “Essa criança não é como deveria ser (...). Nós queríamos um menino, não foi como deveria ser” (p. 87).
Mayer (1989) considera que alguns pais podem até valorizar conscientemente a identidade sexual da filha, mas inconscientemente rechaçam-na, considerando este fato como facilitador de uma organização neurótica.
Uma rejeição, por exemplo, como resultado da frustração das expectativas quanto ao sexo do bebê, terá como um dos seus desdobramentos uma virulência do conflito edípico na fase fálica, dirá Pellegrino (1987), resultado precisamente das vicissitudes da relação entre a criança e a mãe, na fase oral. “Quanto pior for esta relação, quanto menos se sentir a criança amada e protegida pela figura materna, mais se agarrará a ela, e mais devastadoras serão as paixões desencadeadas na etapa posterior (p.310).
Chegada à fase fálica, lembremo-nos de Freud (1031), um dos caminhos que pode ser seguido pela menina é o da neurose e, nele, a fantasia de desvalorização da mulher pela descoberta da falta do pênis e a repressão de “uma boa parte de suas inclinações sexuais em geral” (p. 126).
Será, então, na fase fálica que podemos circunscrever o segundo desarranjo no desenvolvimento da menina que a conduz à neurose histérica.
No desenvolvimento feminino normal a criança abandona as catexias objetais do complexo de Édipo completo, ao final da fase fálica, identificando-se com os pais. Na futura histérica, opera-se uma fixação nesta fase, a menina não abandona de todo as catexias objetais edípicas, embora reprima seu conteúdo ideativo, o que terá efeitos em sua vida afetiva posterior. Esta fixação faz com que a histérica se aproxime de eventuais parceiros sexuais com demandas infantis.
Dolto (1989) afirma que a decepção narcísica provocada pela descoberta da diferença entre os sexos é sempre manifesta na menina e que o comportamento dos pais diante desta descoberta é determinante para a possibilidade de evitar a “escolha” de um destino psicossexual histérico. No dizer da autora:
O comportamento da mãe ou pai (...) nesse estágio, pode mudar completamente o sentido narcisista dessa surpresa dolorosa, se ela é transformada em um mero ensejo para um esclarecimento sobre a sexualidade, e não de uma rejeição emocional por parte do adulto a quem a criança pede explicações (p. 55).
Para Violante (2007), é somente diante da valorização da feminilidade da menina pelos pais que esta pode superar a inveja do pênis e aceder ao desejo de ter filhos. Por outro lado, continua a autora, um destino histérico, decorre precisamente do rechaço dos pais, que subestimam sua feminilidade — desejavam um menino —, de tal maneira que o único caminho livre seria se aferrar mais à mãe (fálica), e, na fase fálica, se identificar com ela.
Assim, a histérica, embora tenha aceitado em certa medida a castração materna e a sua própria, fica presa a uma lógica fálica / castrada, onde os sintomas fálicos se misturam aos orais. São as fixações ocorridas em seu desenvolvimento decorrentes da subestimação de sua feminilidade.
Finalmente, diremos como uma síntese, que a menina, por não ter sido desejada menina por seus pais, se lança numa identificação primária representada na psique como um pictograma de rejeição, seguida pela constituição de um eu com déficit de investimento libidinal, o que torna a elaboração edípica especialmente dificultada, podendo culminar numa neurose histérica que denuncia o desejo desencontrado dos pais por uma
menininha, desejo este submetido a uma clivagem ambivalente que levará a histérica a se interrogar constantemente pelo amor sincero.
Referencias
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DOLTO, F. Sexualidade Feminina. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
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______ (1916-1917 [1915-1917]). Conferências introdutórias sobre psicanálise. ESB, vol. XVI.
______ (1931). Sexualidade Feminina. ESB, vol. XXI.
______ (1933[1932]). Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. ESB, vol. XXII.
LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean Bertrand. (1987) Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001, 4ª. Edição.
LAPLANCHE, Jean. Sexual. Paris: PUF, 2007.
MANONNI, Octave. As identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
MAYER, Hugo. Histeria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
PELLEGRINO, Hélio. Édipo e a Paixão. In: CARDOSO, Sérgio et al. Os sentidos da paixão. São Paulo: Cia das letras, 1987.