Aspectos dinˆ
amicos de sistemas astrof´ısicos discoidais
Campinas 2015
Instituto de F´ısica Gleb Wataghin
Ronaldo Savioli Sum´e Vieira
Aspectos dinˆ
amicos de sistemas astrof´ısicos discoidais
Tese apresentada ao Instituto de F´ısica Gleb Wataghin da Universidade Es-tadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obten¸c˜ao do t´ıtulo de Doutor em Ciˆencias.
Orientador: Alberto Vazquez Saa.
Coorientador: Marcus Aloizio Martinez de Aguiar.
Este exemplar corresponde a`
vers˜ao final da tese defendida pelo aluno Ronaldo Savioli Sum´e Vieira e orientada pelo Prof. Dr. Alberto Vazquez Saa
Campinas 2015
Biblioteca do Instituto de Física Gleb Wataghin Valkíria Succi Vicente - CRB 8/5398
Vieira, Ronaldo Savioli Sumé,
V673a VieAspectos dinâmicos de sistemas astrofísicos discoidais / Ronaldo Savioli Sumé Vieira. – Campinas, SP : [s.n.], 2015.
VieOrientador: Alberto Vazquez Saa.
VieCoorientador: Marcus Aloizio Martinez de Aguiar.
VieTese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Física Gleb Wataghin.
Vie1. Astronomia dinâmica. 2. Galáxias espirais. 3. Relatividade geral (Física). 4. Discos de acreção de buracos negros. I. Saa, Alberto Vazquez,1966-. II. Aguiar, Marcus Aloizio Martinez de,1960-. III. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Física Gleb Wataghin. IV. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: Dynamical aspects of discoidal astrophysical systems Palavras-chave em inglês:
Dynamical astronomy Spiral galaxies
General relativity (Physics) Black-hole accretion disks
Área de concentração: Física Titulação: Doutor em Ciências Banca examinadora:
Alberto Vazquez Saa [Orientador] Júlio Cesar Fabris
Tatiana Alexandrovna Michtchenko Arlene Cristina Aguilar
Pedro Cunha de Holanda
Data de defesa: 22-05-2015
Programa de Pós-Graduação: Física
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Neste trabalho analisamos aspectos dinˆamicos de sistemas astrof´ısicos que possuem uma componente discoidal proeminente. Estudamos o movimento de part´ıculas de teste (estrelas) que cruzam discos gal´acticos bidimensionais e axialmente sim´etricos, obtendo uma f´ormula para o envelope das ´orbitas que depende somente da densidade superficial Σ do disco. Essa f´ormula nos d´a uma terceira integral de movimento aproximada para o sistema. Tamb´em analisamos a estabilidade das ´orbitas circulares equatoriais nesses discos, chegando `a condi¸c˜ao de estabilidade vertical Σ > 0. Esse formalismo ´e estendido para discos tridimensionais, assim como para a relatividade geral (em que obtivemos que a condi¸c˜ao de energia forte ´e suficiente para a estabilidade vertical das ´
orbitas circulares em discos infinitesimais, no caso est´atico e axialmente sim´etrico). Trabalhamos tamb´em com a aproxima¸c˜ao p´os-newtoniana (1PN), obtendo o formalismo hamiltoniano para uma distribui¸c˜ao arbitr´aria de mat´eria, assim como as corre¸c˜oes 1PN nas frequˆencias epic´ıclicas radial e vertical para configura¸c˜oes estacion´arias e axialmente sim´etricas e a terceira integral de movimento aproximada para discos infinitesimais (estacion´arios). Outro resultado obtido foi a dependˆencia das frequˆencias epic´ıclicas com a curvatura riemanniana do espa¸co-tempo para distribui¸c˜oes suaves de mat´eria-energia, no caso est´atico e axialmente sim´etrico em relatividade geral.
A segunda parte desta tese corresponde aos resultados para discos de acre¸c˜ao. Analisa-mos o movimento de part´ıculas de teste na m´etrica de Kehagias & Sfetsos (solu¸c˜ao esfericamente sim´etrica da gravita¸c˜ao de Hoˇrava no caso em que o espa¸co-tempo ´e assintoticamente plano), na regi˜ao de parˆametros em que a singularidade central ´e nua. Por fim, estudamos a espessura dos discos de acre¸c˜ao super-Eddington obtida por simula¸c˜oes globais recentes de radiation magnetohy-drodynamics em relatividade geral. O resultado foi comparado com modelos de discos slim para taxas de acre¸c˜ao similares, levando `a conclus˜ao de que o estado final (estacion´ario) dos fluxos de acre¸c˜ao gerados por essas simula¸c˜oes ´e um disco slim, e n˜ao um disco espesso, como seria esperado pelas caracter´ısticas das configura¸c˜oes iniciais do tipo Polish Doughnuts usualmente adotadas.
In this work, we analyze dynamical aspects of astrophysical systems containing a promi-nent discoidal compopromi-nent. We study the motion of test particles (stars) which cross bidimensional, axially symmetric galactic disks, obtaining a formula for the orbits’ envelope which depends solely on the disk’s surface density. This formula gives us an approximate third integral of motion for the system. We also analyze the stability of equatorial circular orbits in these disks, arriving at the vertical stability condition Σ > 0. This formalism is extended to three-dimensional disks, as well as to general relativity (in which we obtained that the strong energy condition is sufficient for vertical stability of circular orbits in infinitesimal disks, in the static and axially symmetric case). We also worked with the post-Newtonian approximation (1PN), obtaining the Hamiltonian formal-ism for an arbitrary matter distribution, as well as the 1PN corrections to the radial and vertical epicyclic frequencies for stationary and axially symmetric configurations, and the approximated third integral of motion for (stationary) infinitesimal disks. Another result obtained was the depen-dence of the epicyclic frequencies on the Riemannian spacetime curvature for smooth matter-energy distributions, in the static and axially symmetric case.
The second part of this thesis corresponds to the results concerning accretion disks. We analyzed the motion of test particles in the Kehagias & Sfetsos metric (spherically symmetric solution to Hoˇrava’s gravity in the case in which the spacetime is asymptotically flat), in the parameter region in which the singularity is naked. Finally, we studied the thickness of super-Eddington accretion disks, obtained via recent global radiation magnetohydrodynamics simulations in general relativity. The result was compared with slim-disk models for similar accretion rates, leading to the conclusion that the final (stationary) state of accretion flows generated by these simulations is a slim disk, and not a thick disk, as it would be expected by the characteristics of the usually adopted Polish Doughnuts initial configurations.
Resumo vii
Abstract ix
Agradecimentos xvii
1 Introdu¸c˜ao 1
1.1 Gal´axias discoidais . . . 2
1.1.1 Caos e integrabilidade em modelos gal´acticos . . . 4
1.2 Discos de acre¸c˜ao ao redor de objetos compactos . . . 13
2 Discos finos newtonianos (bidimensionais) 17 2.1 Preˆambulo: discos tridimensionais . . . 18
2.1.1 Orbitas circulares e aproxima¸c˜ao epic´ıclica . . . .´ 20
2.1.2 Integrabilidade e terceira integral de movimento . . . 23
2.2 Discos infinitesimalmente finos (bidimensionais) . . . 28
2.2.1 Orbitas circulares e estabilidade vertical . . . .´ 31
2.2.2 Discos finos como casos limite de discos tridimensionais . . . 37
2.2.3 Per´ıodo e amplitude caracter´ısticos das oscila¸c˜oes . . . 38
2.2.4 Integrabilidade na regi˜ao pr´oxima a uma ´orbita circular est´avel . . . 38
2.2.5 Teorias modificadas da gravita¸c˜ao . . . 47 xi
3.1 Densidade superficial do disco e terceira integral . . . 54
3.2 Testes com potenciais simples . . . 57
3.3 Teorias modificadas da gravita¸c˜ao . . . 63
3.4 Conectando as f´ormulas: I3 e a aproxima¸c˜ao adiab´atica . . . 64
3.4.1 Amplitudes intermedi´arias . . . 67
3.4.2 Terceira integral e modelos dinˆamicos . . . 71
4 Discos relativ´ısticos 73 4.1 Formalismo hamiltoniano para o fluxo geod´esico . . . 76
4.1.1 Redu¸c˜ao isoenerg´etica . . . 78
4.2 Discos finos est´aticos e axialmente sim´etricos . . . 82
4.2.1 Parˆametros f´ısicos do disco bidimensional . . . 86
4.2.2 Estabilidade vertical de ´orbitas circulares . . . 88
4.3 Outros sistemas com superf´ıcies de descontinuidade . . . 96
4.3.1 Cascas esf´ericas . . . 99
4.4 Camadas de mat´eria em gravita¸c˜ao newtoniana . . . 102
5 Aproxima¸c˜ao p´os-newtoniana (1PN) 105 5.1 Formalismo p´os-newtoniano . . . 106
5.1.1 Dinˆamica hamiltoniana p´os-newtoniana . . . 108
5.1.2 Equa¸c˜ao de Liouville e mecˆanica estat´ıstica . . . 115
5.2 Discos est´aticos e axialmente sim´etricos . . . 116
5.2.1 Orbitas circulares . . . .´ 118
5.3 Discos estacion´arios e axialmente sim´etricos . . . 125 xii
5.3.2 Discos finos estacion´arios . . . 130
6 Frequˆencias epic´ıclicas e curvatura riemanniana 135 6.1 Frequˆencias epic´ıclicas em espa¸cos-tempos est´aticos . . . 137
6.1.1 Orbitas circulares e frequˆencias epic´ıclicas . . . .´ 139
6.2 Curvatura riemanniana . . . 143
6.3 Frequˆencias epic´ıclicas e curvatura . . . 147
6.3.1 Solu¸c˜oes de v´acuo (espa¸cos-tempos Ricci-flat) . . . 151
6.3.2 Mat´eria autogravitante e condi¸c˜oes de energia . . . 154
7 Geod´esicas circulares na gravita¸c˜ao de Hoˇrava 159 7.1 M´etrica de KS . . . 162
7.2 Equa¸c˜oes de movimento e formula¸c˜ao potencial . . . 164
7.2.1 Movimento geod´esico em KS . . . 166
7.2.2 Comportamento qualitativo do potencial efetivo . . . 174
7.3 Discos de acre¸c˜ao e estimativas para ω . . . 177
7.4 Diagramas de mergulho (embedding diagrams) . . . 180
7.4.1 Geometria ´optica . . . 180
7.4.2 Diagramas de mergulho – caso geral . . . 181
7.4.3 Diagramas de mergulho em KS . . . 184
8 Sobre a espessura dos discos de acre¸c˜ao ao redor de buracos negros 191 8.1 Discos de acre¸c˜ao . . . 192
8.1.1 O limite de Eddington . . . 193 xiii
8.1.3 Estimativas para grandezas: equa¸c˜oes alg´ebricas . . . 195
8.2 Discos slim num´ericos e compara¸c˜oes com o modelo anal´ıtico . . . 199
8.2.1 An´alise de estabilidade local: Curvas-S . . . 207
8.3 Compara¸c˜ao com simula¸c˜oes 2D globais . . . 213
9 Considera¸c˜oes finais 221
Referˆencias Bibliogr´aficas 229
APˆENDICES 247
A Hipersuperf´ıcies singulares tipo-tempo 249
B On The Stability Of Circular Orbits in Galactic Dynamics: Newtonian
Thin Disks 255
C A Simple Formula for the Third Integral of Motion of Disk-Crossing Stars
in the Galaxy 261
D Circular geodesics of naked singularities in the Kehagias-Sfetsos metric of
Hoˇrava’s gravity 271
Agrade¸co primeiramente a meus pais, Rosa e Francisco, pelo apoio e suporte durante todos esses anos.
Agrade¸co ao Professor Alberto Saa pelo aceite de orienta¸c˜ao. Agrade¸co ao Javier Ramos-Caro pela amizade e parceria cient´ıfica.
Agrade¸co aos Professores Marek Abramowicz e W lodek Klu´zniak, do Nicolaus Copernicus Astronomical Center, pela orienta¸c˜ao durante meu per´ıodo sandu´ıche em Vars´ovia.
Agrade¸co `a Joice, pelo companheirismo e compreens˜ao neste ´ultimo ano de douto-rado.
Agrade¸co a todos os meus amigos que, direta ou indiretamente, fizeram com que este per´ıodo de doutorado fosse menos sofrido.
Agrade¸co aos funcion´arios do IFGW e do IMECC, que permitiram um ambiente prop´ıcio para a realiza¸c˜ao deste trabalho.
Por fim, agrade¸co `a FAPESP, projetos 2010/00487-9, 2013/01001-0 e 2013/09357-9, assim como ao CNPq, pelo apoio financeiro.
Introdu¸c˜
ao
Sabemos que sistemas discoidais s˜ao muito presentes em astrof´ısica. Podemos citar aqui dois casos representativos: o primeiro deles mais pr´oximo de nossa realidade, gal´axias espirais (van der Kruit & Freeman 2011), e o segundo os discos de acre¸c˜ao, por exemplo, ao redor de objetos compactos (estrelas de nˆeutrons e buracos negros, Frank, King, & Raine 2002, Abramowicz & Fragile 2013. Incluimos tamb´em nesta lista, por completeza, singulari-dades nuas). Enquanto gal´axias s˜ao sistemas em que a gravita¸c˜ao newtoniana funciona bem, o mesmo n˜ao pode ser dito de discos de acre¸c˜ao orbitando objetos compactos. Esses sistemas precisam de uma descri¸c˜ao relativ´ıstica (Abramowicz & Fragile 2013), ou pelo menos pseudo-newtoniana atrav´es do potencial de Paczy´nski-Wiita (Paczy´nsky & Wiita 1980, Abramowicz 2009). A descri¸c˜ao pseudo-newtoniana, contudo, n˜ao leva em conta os efeitos de spin do buraco negro, de modo que esse fenˆomeno s´o aparece no cen´ario relativ´ıstico.
Existe outra diferen¸ca importante entre esses sistemas: enquanto gal´axias s˜ao sistemas autogravitantes, nos quais cada componente contribui para o campo gravitacional total, discos de acre¸c˜ao s˜ao geralmente tidos como sistemas em que a componente discoidal n˜ao interfere no campo gravitacional gerado pelo objeto central, podendo assim ser consi-derados fluidos de teste (Frank et al. 2002, Abramowicz & Fragile 2013). No que segue, comentaremos com um pouco mais de detalhes cada um desses dois cen´arios. A apresenta¸c˜ao n˜ao pretende ser uma revis˜ao completa da literatura, mas sim uma introdu¸c˜ao para os temas abordados nos cap´ıtulos seguintes.
1.1
Gal´
axias discoidais
´
E sabido desde o s´eculo XVIII que nossa gal´axia, a Via L´actea (ou a Gal´axia), tem a forma de um disco (Carroll & Ostlie 2006, L´epine 2008). O Sol se encontra a cerca de 8 kpc do centro da Gal´axia (McMillan 2011), cujo disco tem um raio aproximado de 15 kpc (L´epine 2008, Oliveira & Saraiva 2014). Uma introdu¸c˜ao informal `a estrutura da Gal´axia pode ser encontrada em L´epine (2008), enquanto uma apresenta¸c˜ao um pouco mais t´ecnica (ainda introdut´oria) pode ser vista em Carroll & Ostlie (2006). Uma outra referˆencia ´e Binney & Merrifield (1998). Modelos atuais da distribui¸c˜ao de massa na Gal´axia apresentam diferentes componentes, como a de um disco fino, um disco espesso, um bojo central (de formato esferoidal) e halos esparsos de estrelas e mat´eria escura (usualmente tomados como esf´ericos ou esferoidais; contudo, h´a debate na literatura hoje em dia sobre a esfericidade ou at´e mesmo a triaxialidade do halo de mat´eria escura – ver Helmi 2004, Law, Majewski, & Johnston 2009, Deg & Widrow 2013, Ibata, Lewis, Martin, Bellazzini, & Correnti 2013). Os modelos de massa descritos acima podem ser encontrados em Binney & Merrifield (1998), Binney & Tremaine (2008). Os parˆametros desses modelos est˜ao em constante aprimoramento devido a estudos cada vez mais precisos, como resumido em McMillan (2011).
No entanto, n˜ao ´e apenas a nossa gal´axia que apresenta uma componente discoidal proeminente. Uma vasta quantidade de gal´axias discoidais j´a foi observada no c´eu, com suas propriedades catalogadas (Carroll & Ostlie 2006, van der Kruit & Freeman 2011). A extens˜ao vertical dos discos estelares dessas gal´axias varia muito; no entanto, esses discos s˜ao geralmente bastante achatados (ver por exemplo van der Kruit & Freeman 2011, se¸c˜oes 3.5 e 3.6). A mat´eria est´a concentrada em uma regi˜ao com espessura pequena se comparada `a extens˜ao radial do disco; em alguns casos essa raz˜ao ´e menor que 0.1 (van der Kruit & Freeman 2011). Sistemas desse tipo geralmente apresentam uma estrutura espiral com um padr˜ao de rota¸c˜ao em rela¸c˜ao ao disco, composta de estrelas mais novas (Carroll & Ostlie 2006, se¸c˜ao 25.3). Essa estrutura espiral, no entanto, tem densidade apenas ligeiramente maior que a densidade m´edia do disco para o mesmo raio galactocˆentrico, de modo que a modelagem desses bra¸cos ´e feita atrav´es de perturba¸c˜oes lineares no perfil axialmente sim´etrico do disco. Modelos de massa axialmente sim´etricos tˆem sido amplamente utilizados durante as ´ultimas
d´ecadas para a explica¸c˜ao das curvas de rota¸c˜ao de gal´axias espirais, mesmo no caso em que o disco apresenta um padr˜ao espiral conhecido. Trabalhos pioneiros apontaram, baseados nas curvas de rota¸c˜ao de gal´axias espirais, a necessidade de raz˜oes massa-luminosidade crescentes com o raio (Rubin & Ford 1970), que mais tarde foram substitu´ıdas pela hip´otese de um halo de mat´eria escura (Athanassoula, Bosma, & Papaioannou 1987, Kent 1987). Modelos axialmente sim´etricos do tipo “disco estelar + disco gasoso + bojo + halo de mat´eria escura” (ou variantes dessa decomposi¸c˜ao) foram utilizados para explicar as curvas de rota¸c˜ao de uma enorme gama de gal´axias espirais (Begeman 1987, de Blok & McGaugh 1997, de Blok, McGaugh, & Rubin 2001, de Blok, Walter, Brinks, Trachternach, Oh, & Kennicutt 2008, Gonz´alez, Plata-Plata, & Ramos-Caro 2010, Rodrigues, Letelier, & Shapiro 2010). Alguns resultados recentes que incluem os bra¸cos espirais foram obtidos para a Gal´axia (Sofue, Honma, & Omodaka 2009). Para uma revis˜ao dos m´etodos de observa¸c˜ao das curvas de rota¸c˜ao de gal´axias espirais, ver Sofue & Rubin (2001).
O movimento de estrelas em gal´axias discoidais ´e um exemplo do movimento de part´ıculas de teste, j´a que as intera¸c˜oes gravitacionais entre estrelas individuais podem ser desprezadas para sistemas estacion´arios (ver por exemplo Binney & Tremaine 2008, assim como o cap´ıtulo 2 desta tese). Essa aproxima¸c˜ao n˜ao colisional nos permite ent˜ao considerar o campo gravitacional que age na estrela como sendo o gerado por uma distribui¸c˜ao cont´ınua de mat´eria, em lugar da distribui¸c˜ao discreta de N corpos autogravitantes. Tal situa¸c˜ao pode ser descrita pela gravita¸c˜ao newtoniana (Binney & Tremaine 2008), de forma que a distribui¸c˜ao da densidade de mat´eria determina o potencial gravitacional atrav´es da equa¸c˜ao de Poisson, permitindo assim a descri¸c˜ao do movimento das estrelas pela hamiltoniana
H = 1 2p
2+ Φ (1.1)
em um referencial inercial, onde ~p ´e o momento linear da part´ıcula e Φ o potencial gravitacio-nal do sistema. O objetivo principal desta tese ´e estudar aspectos dinˆamicos do movimento de part´ıculas de teste em sistemas contendo uma componente discoidal proeminente, o que inclui as gal´axias discoidais aqui mencionadas.
1.1.1
Caos e integrabilidade em modelos gal´
acticos
A maior parte desta tese ´e focada em configura¸c˜oes axialmente sim´etricas. ´E sabido que a dinˆamica no potencial da hamiltoniana (1.1) ´e n˜ao integr´avel no caso geral, sendo a integrabilidade uma situa¸c˜ao especial (ver por exemplo Tabor 1989). No entanto, embora o sistema apresente regi˜oes ca´oticas, existem ilhas de estabilidade nas quais as ´orbitas s˜ao regulares, em particular ao redor das ressonˆancias principais correspondentes a pontos fixos est´aveis da hamiltoniana. A descoberta de regi˜oes ca´oticas coexistindo com regi˜oes de ´orbitas regulares em hamiltonianas com dois graus de liberdade (Henon & Heiles 1964), que representam sistemas discoidais, ocorreu mais ou menos na mesma ´epoca em que o teo-rema KAM foi obtido (Kolmogorov-Arnold-Moser, que descreve o comportamento dos toros invariantes do sistema hamiltoniano ao ser adicionada uma pequena perturba¸c˜ao n˜ao in-tegr´avel ao potencial; ver por exemplo Tabor 1989, de Aguiar 2011 ou Contopoulos 2002 e referˆencias). Um pouco antes, estudos te´oricos (Contopoulos 1960, 1963) e num´ericos (Ol-longren 1962) em sistemas axialmente sim´etricos demonstraram a existˆencia de uma terceira integral de movimento I3 (al´em da energia e do momento angular azimutal) para ´orbitas
fora do plano equatorial mas pr´oximas `a ´orbita circular equatorial correspondente (energia baixa comparada `a da ´orbita circular), sob condi¸c˜oes bem gerais. Ficou ent˜ao comprovada a existˆencia de uma terceira integral de movimento para ´orbitas quase circulares, sendo que as regi˜oes ca´oticas somente apareceriam para energias altas. Para uma revis˜ao do assunto, ver Contopoulos (2001, 2002). Como referˆencias na ´area de dinˆamica gal´actica, tanto para um primeiro estudo quanto para estudos mais avan¸cados, podemos citar os livros de Contopoulos (2002), Binney & Tremaine (2008) e Bertin (2014). Artigos de revis˜ao de alguns aspectos de dinˆamica gal´actica, focando em problemas de interesse atual, podem ser encontrados em Efthymiopoulos, Voglis, & Kalapotharakos (2007) e Efthymiopoulos (2010). Sobre caos em sistemas dinˆamicos citamos Lichtenberg & Lieberman (1992) e Ott (2002), e sobre o for-malismo hamiltoniano nos referimos principalmente aos livros de Tabor (1989), Ott (2002) e de Aguiar (2011), assim como aos cap´ıtulos correspondentes dos livros de Contopoulos (2002) e Binney & Tremaine (2008).
axialmente sim´etricos, em particular nas ´orbitas que cruzam o plano equatorial. Supondo que o disco seja axialmente sim´etrico, existem duas integrais de movimento: a energia E e o momento angular azimutal da part´ıcula Lz. Assim, a hamiltoniana (1.1) se reduz a uma
hamiltoniana com dois graus de liberdade nas coordenadas cil´ındricas (R, ϕ, z):
H = 1 2 p 2 R+ p2z + Φ(R, z) + L 2 z 2R2, (1.2)
onde pR e pz s˜ao os momentos canˆonicos associados `as coordenadas R e z, respectivamente,
e Φ ´e o potencial gravitacional do sistema. Desse modo, temos que o movimento no plano equatorial da gal´axia (z = 0, onde aqui consideramos potenciais pares com respeito a z) ´e integr´avel, pois possui apenas um grau de liberdade (Tabor 1989). No entanto, assim como a presen¸ca de barras ou bra¸cos espirais introduz mais um grau de liberdade no sistema (a coordenada ϕ deixa de ser c´ıclica), a hamiltoniana axialmente sim´etrica que descreve ´orbitas fora do plano equatorial tamb´em depende de mais uma coordenada (a coordenada vertical z). O nosso interesse ent˜ao recai sobre as ´orbitas que n˜ao s˜ao equatoriais, mas que de certa maneira se mantˆem pr´oximas desse plano. O objetivo principal ´e estudar a forma dos envelopes das ´orbitas regulares que existem na regi˜ao pr´oxima a ´orbitas circulares, correspondente `a ilha de estabilidade principal das se¸c˜oes de Poincar´e. Geralmente isso ´e poss´ıvel para energias pequenas quando comparadas ao m´ınimo do potencial, j´a que, conforme aumentamos a energia da ´orbita, o ponto fixo na se¸c˜ao de Poincar´e correspondente passa a representar n˜ao mais a ´orbita circular e sim uma das ´orbitas peri´odicas de per´ıodo 1 que cruzam o disco. Essas ´orbitas, por serem regulares, admitem ent˜ao uma terceira integral de movimento aproximada, de modo que o movimento passa a ocorrer em um toro bidimensional (Tabor 1989, de Aguiar 2011).
Embora o problema da terceira integral de movimento venha sendo tratado na literatura desde 1960 (Contopoulos 1960, 1963) atrav´es de aproxima¸c˜oes polinomiais para a terceira integral nas regi˜oes regulares do espa¸co de fases, a maioria dos estudos nessa linha tratou de sistemas com potenciais suaves, tanto na obten¸c˜ao dessas aproxima¸c˜oes (Con-topoulos 1960, 1963, 2001, 2002, Bienaym´e & Traven 2013) quanto de modelos gal´acticos integr´aveis (de Zeeuw 1985, 1988, Dejonghe & de Zeeuw 1988, de Zeeuw & Hunter 1990)
e de potenciais com terceiras integrais expl´ıcitas (Hietarinta 1987). Recentemente, diferen-tes m´etodos num´ericos tˆem sido desenvolvidos para a obten¸c˜ao das vari´aveis de a¸c˜ao-ˆangulo correspondentes a ´orbitas regulares em potenciais gal´acticos, bem como para a constru¸c˜ao dos toros invariantes associados a essas vari´aveis de a¸c˜ao (Kaasalainen & Binney 1994a,b, McMillan & Binney 2008, Binney 2012a, McMillan 2012, Sanders 2012, Sanders & Binney 2014, e referˆencias), que s˜ao de grande importˆancia para o estudo de modelos dinˆamicos da Gal´axia. Nesses modelos, usados na an´alise dos dados de surveys da Gal´axia (Binney 2011, McMillan 2012, Binney & Sanders 2014), a fun¸c˜ao distribui¸c˜ao depende das trˆes inte-grais de movimento (Binney 2010, Binney & McMillan 2011, Binney 2012b). Esses m´etodos s˜ao extremamente eficazes para o tratamento estat´ıstico dos dados obtidos (Binney 2011); contudo, a complexidade das manipula¸c˜oes envolvidas n˜ao nos leva `a resposta de quest˜oes mais fundamentais, como por exemplo a natureza f´ısica da terceira integral de movimento (quando existente) e o dom´ınio de validade dessa integral (no espa¸co de fases, por exemplo). Aproxima¸c˜oes polinomiais respondem a quest˜ao do dom´ınio de validade mas n˜ao as quest˜oes sobre a natureza da terceira integral, fornecendo um formalismo matem´atico em que os coe-ficientes dos termos de uma certa ordem da expans˜ao s˜ao obtidos impondo que a integral de movimento comute com a hamiltoniana at´e aquela ordem (Contopoulos 2002). Assim, ´e dif´ıcil obter uma interpreta¸c˜ao f´ısica para essa terceira integral de movimento a partir dessas expans˜oes.
Outro fator que n˜ao nos permite dar uma interpreta¸c˜ao direta `a terceira integral I3 ´e o fato de ela n˜ao ser uma integral de movimento “natural”, no sentido de que ela n˜ao
est´a associada a um grupo de simetrias do sistema. A integral I3 vem, fundamentalmente,
do teorema KAM que garante regi˜oes de integrabilidade ao redor de ´orbitas peri´odicas. O comportamento gen´erico do sistema ´e, no entanto, n˜ao integr´avel, com alguns exemplos de sistemas integr´aveis (que, no caso gal´actico, foram citados no par´agrafo anterior). Assim, para buscarmos uma interpreta¸c˜ao f´ısica para essa integral devemos ter em conta que dife-rentes tipos de sistema devem ser analisados separadamente, e as conclus˜oes obtidas para uma classe de configura¸c˜oes podem n˜ao ser v´alidas para outra. Tamb´em n˜ao esperamos que essa “interpreta¸c˜ao f´ısica” seja traduz´ıvel em uma palavra ou em um conjunto de palavras (como energia, momento angular, momento linear, etc.), mas sim que essa integral de movimento
possa ser relacionada a quantidades f´ısicas relevantes para o sistema em quest˜ao. Nosso ponto de interesse aqui s˜ao sistemas discoidais. Claramente, ao buscarmos resultados para potenciais gen´ericos discoidais com enfoque em observ´aveis f´ısicos, precisamos abrir m˜ao de algum recurso. O que decidimos abandonar foi a busca por express˜oes exatas, e focamos em integrais aproximadas. H´a diferentes maneiras de obter essas integrais; trabalharemos princi-palmente com a aproxima¸c˜ao adiab´atica (Binney & Tremaine 2008). Esta ´e uma abordagem que nos permite obter terceiras integrais de movimento aproximadas de maneira relativa-mente direta, principalrelativa-mente quando trabalhamos com amplitudes pequenas ao redor da ´orbita circular equatorial; no entanto, o dom´ınio de validade dessa aproxima¸c˜ao ´e restrito, de modo que ela ´e v´alida somente para amplitudes muito pequenas (Binney 2010, Binney & McMillan 2011, Vieira & Ramos-Caro 2014). Algumas modifica¸c˜oes nessa aproxima¸c˜ao, baseadas em argumentos f´ısicos, foram propostas para estender o dom´ınio de validade da inte-gral, como por exemplo a corre¸c˜ao no termo centr´ıfugo das ´orbitas n˜ao-equatoriais, somando ao momento angular azimutal um m´ultiplo da a¸c˜ao vertical na hora de obter predi¸c˜oes para os envelopes das ´orbitas (antes calculados somente a partir da invariˆancia adiab´atica da a¸c˜ao vertical, sem mexer no termo centr´ıfugo), como em Binney & McMillan (2011). No entanto, apesar do grande ganho no tamanho do dom´ınio de amplitudes verticais agora poss´ıveis de serem explicadas atrav´es de tal procedimento, essa abordagem continua com um parˆametro livre que precisa ser ajustado separadamente para cada ´orbita (e sem interpreta¸c˜ao f´ısica, o que dificulta sua estimativa – ver Vieira & Ramos-Caro 2014). Procuramos ent˜ao, atrav´es principalmente da aproxima¸c˜ao adiab´atica aplicada a sistemas discoidais, obter express˜oes para os envelopes das ´orbitas estelares quase equatoriais que dependam somente das quan-tidades f´ısicas do sistema, sem recorrer `a inser¸c˜ao de parˆametros adicionais, que teriam um papel fenomenol´ogico e n˜ao de primeiros princ´ıpios.
Discos bidimensionais
O modelo mais simples de disco que podemos imaginar ´e um disco bidimensional axialmente sim´etrico, isto ´e, um disco sem estrutura vertical. Sua espessura ´e considerada infinitesimal, e matematicamente o representamos por uma camada de mat´eria, de modo que
a distribui¸c˜ao de densidade ´e representada por uma distribui¸c˜ao delta de Dirac na dire¸c˜ao z com suporte no plano equatorial z = 0. Essa aproxima¸c˜ao, embora simplificada demais para corresponder a modelos realistas de gal´axias, tem sido usada por diversos autores na cons-tru¸c˜ao de modelos de massa de gal´axias espirais, baseados principalmente nas suas curvas de rota¸c˜ao (Kent 1986, 1987, Sofue et al. 2009) e nos modelos para a dependˆencia radial da densidade superficial do disco baseados em fotometria (Freeman 1970). Modelos anal´ıticos est˜ao revisados em Binney & Tremaine (2008). A modelagem das curvas de rota¸c˜ao em tais sistemas envolve o movimento no plano equatorial apenas, de modo que a estrutura vertical ´e irrelevante nesse caso. ´E interessante investigar ent˜ao o movimento de part´ıculas de teste nesses sistemas, quando este ocorre fora do plano equatorial. Os estudos envolvendo o movi-mento cruzando discos bidimensionais s˜ao muito mais recentes, focando principalmente no estudo do caos em modelos axialmente sim´etricos de disco. Modelos simples como a “jun¸c˜ao” de dois peda¸cos que s˜ao integr´aveis, acima e abaixo do plano equatorial, geralmente n˜ao pos-suem uma terceira integral de movimento e, portanto, j´a exibem caos (embora cada “metade” do espa¸co admita uma terceira integral, ao cruzar o disco esse comportamento regular n˜ao ´e preservado no caso geral – ver por exemplo Hunter 2005 para uma discuss˜ao desse fenˆomeno). Estudos de caos em modelos de disco ao redor de buracos negros foram primeiramente feitos considerando um disco bidimensional com densidade de mat´eria uniforme (Saa & Venegeroles 1999). Uma discuss˜ao extensa de caos em modelos de disco fino do tipo Kuzmin, nos quais o potencial depende de apenas uma coordenada “radial” ξ =pR2+ (|z| + a)2, onde R e z s˜ao
as coordenadas cil´ındricas e a ´e uma constante positiva que d´a a escala radial do disco, pode ser encontrada em Hunter (2003, 2005). Outros modelos de discos finos tamb´em apresentam comportamento ca´otico (veja Ramos-Caro, L´opez-Suspes, & Gonz´alez 2008, Ramos-Caro, Pedraza, & Letelier 2011).
Paralelamente ao estudo de discos finos em gravita¸c˜ao newtoniana houve uma crescente busca por solu¸c˜oes exatas de disco fino em relatividade geral, como uma maneira de obter solu¸c˜oes relativ´ısticas de interesse astrof´ısico. A obten¸c˜ao de configura¸c˜oes em rela-tividade geral correspondendo a uma dada distribui¸c˜ao de mat´eria-energia ´e muito mais dif´ıcil do que a obten¸c˜ao dos perfis an´alogos em gravita¸c˜ao newtoniana, devido `a n˜ao-linearidade das equa¸c˜oes de Einstein. N˜ao ´e poss´ıvel, no caso geral, obter uma express˜ao fechada para a
m´etrica em termos do tensor de energia-momento, como acontece em gravita¸c˜ao newtoniana (j´a que a equa¸c˜ao de Poisson ´e linear no potencial gravitacional e na densidadade). Revis˜oes de solu¸c˜oes de discos bidimensionais relativ´ısticos foram publicadas em Semer´ak (2002) e em Karas, Hur´e, & Semer´ak (2004), parte delas baseadas no formalismo de superposi¸c˜ao entre um buraco negro e um disco fino (Lemos & Letelier 1994). J´a a formula¸c˜ao de discos bidimensionais em espa¸cos-tempos estacion´arios ´e apresentada em Gonz´alez & Guti´errez-Pi˜neres (2012). Um estudo detalhado de caos em modelos de discos finos (bidimensionais) relativ´ısticos ao redor de buracos negros foi recentemente publicado em uma s´erie de artigos, onde diferentes indicadores de caos foram analisados (Semer´ak & Sukov´a 2010, 2012, Sukov´a & Semer´ak 2013, Witzany, Semer´ak, & Sukov´a 2015).
Os estudos num´ericos do movimento em discos bidimensionais avan¸caram bas-tante nos ´ultimos anos, como podemos ver acima, e indicam que regi˜oes de integrabilidade como as previstas pelo teorema KAM s˜ao a regra (e n˜ao a exce¸c˜ao) nesses casos (ver, como exemplo, a Figura 1.1). No entanto, os aspectos qualitativos do movimento n˜ao-equatorial nessa classe de sistemas foram pouco abordados na literatura. Citamos aqui apenas dois exemplos: a estabilidade vertical das ´orbitas circulares equatoriais e a integrabilidade do movimento que ocorre cruzando o plano do disco. H´a aspectos do movimento, existentes no caso de sistemas hamiltonianos suaves, que n˜ao possuem atualmente uma formula¸c˜ao equiva-lente para sistemas com descontinuidade nas derivadas da hamiltoniana, como por exemplo os discos bidimensionais citados acima (e tamb´em em “sistemas com impactos”, como por exemplo aqueles em que uma for¸ca externa ´e aplicada ao sistema, gerando o mesmo tipo de descontinuidade no vetor velocidade da part´ıcula). N˜ao existe um an´alogo do teorema KAM para ´orbitas nesse tipo de sistema; os resultados sobre a integrabilidade do movimento (Kunze, K¨upper, & You 1997, Zharnitsky 2000) e os correspondentes invariantes adiab´aticos (ver por exemplo Gorelyshev & Neishtadt 2006, 2008) s˜ao recentes e ainda preliminares. Uma revis˜ao dos avan¸cos recentes nesse tipo de sistemas pode ser encontrada em Makarenkov & Lamb (2012).
Em rela¸c˜ao `as aplica¸c˜oes astrof´ısicas desse formalismo, notamos que o crit´erio de estabilidade vertical de ´orbitas circulares equatoriais em discos bidimensionais tem sido
es-Figura 1.1: Se¸c˜ao de Poincar´e para o potencial logar´ıtmico tipo-Kuzmin, Φ = V2
0 ln ξ, com ξ =
p
R2+ (|z| + a)2, representando um disco bidimensional superposto a um halo (para mais detalhes, ver
Hunter 2005). A se¸c˜ao ´e obtida para z = 0 e valores fixos de E e Lz, a energia e o momento angular azimutal
do sistema, respectivamente. Os parˆametros do sistema s˜ao Rc/a = 10, onde Rc ´e o raio da ´orbita circular
com energia igual `a energia E da se¸c˜ao de Poincar´e, e Lz/Lc(R) = 0.15, onde Lc(R) ´e o momento angular
da ´orbita circular citada acima. Vemos uma situa¸c˜ao bastante an´aloga `a prevista pelo teorema KAM e veri-ficada numericamente para diversos potenciais suaves: h´a uma ilha de estabilidade principal (correspondente `as ´orbitas em torno de R/a≈ 9, z = 0), ilhas secund´arias (correspondentes a ´orbitas peri´odicas de per´ıodo maior na se¸c˜ao de Poincar´e) e uma regi˜ao ca´otica fora das ilhas de estabilidade. Figura retirada de Hunter (2005).
tudado na literatura, principalmente no contexto de geod´esicas tipo-tempo em relatividade geral (Bardeen 1970, Voorhees 1972, Semer´ak & ˇZ´aˇcek 2000b, Karas et al. 2004). Os arti-gos pioneiros propuseram crit´erios de estabilidade razo´aveis, por´em sem uma demonstra¸c˜ao rigorosa do caso geral (Bardeen 1970, Voorhees 1972). No entanto, o crit´erio de estabilidade vertical para ´orbitas circulares proposto nesses artigos n˜ao foi mais utilizado desde ent˜ao, o que fez com que outros pesquisadores propusessem diferentes crit´erios, como por exemplo em Semer´ak & ˇZ´aˇcek (2000b), onde a descontinuidade das derivadas verticais da m´etrica foi ex-plicitamente levada em conta (por´em obtendo um resultado matematicamente inconsistente). Em gravita¸c˜ao newtoniana, o crit´erio para a estabilidade vertical de ´orbitas circulares
equa-toriais em discos bidimensionais utilizado em parte da literatura foi o da frequˆencia epic´ıclica vertical ν2 > 0 (Gonz´alez & Reina 2006, Gonz´alez et al. 2010, Pedraza, Ramos-Caro, &
Gonz´alez 2008, Ramos-Caro et al. 2008, 2011), crit´erio este v´alido para distribui¸c˜oes suaves de mat´eria (Binney & Tremaine 2008); contudo, a frequˆencia epic´ıclica vertical n˜ao est´a bem definida no caso de discos bidimensionais. Em Vogt & Letelier (2009), em um estudo sobre an´eis bidimensionais newtonianos, foi dito que o estudo das perturba¸c˜oes verticais das ´orbitas circulares ´e n˜ao-trivial justamente por causa das descontinuidades que a camada infinitesimal de mat´eria introduz na descri¸c˜ao do movimento. Isso nos faz concluir que esses crit´erios men-cionados acima n˜ao s˜ao consistentes do ponto de vista matem´atico, de forma que falta um formalismo que nos permita apresentar esse crit´erio de estabilidade de uma maneira rigorosa e definitiva. Esse ´e um dos objetivos desta tese, considerando discos tanto na gravita¸c˜ao new-toniana quanto na relatividade geral. A an´alise newnew-toniana ´e feita no cap´ıtulo 2, enquanto que a an´alise relativ´ıstica ´e apresentada no cap´ıtulo 4.
Uma outra propriedade qualitativa n˜ao tratada na literatura de discos bidimen-sionais ´e a integrabilidade do movimento ao redor de uma ´orbita circular, em particular as estimativas para a terceira integral de movimento na regi˜ao composta por ´orbitas regula-res. N˜ao existe um an´alogo das aproxima¸c˜oes polinomiais para discos suaves (Contopoulos 1960, 1963, 2002, Bienaym´e & Traven 2013). Tamb´em n˜ao existem outras estimativas para a terceira integral de movimento, por exemplo, o que seria obtido por invariantes adiab´aticos (seguindo a apresenta¸c˜ao de Binney & Tremaine 2008, se¸c˜ao 3.6). Esta tese tamb´em tem o objetivo de preencher essa lacuna, ao menos parcialmente. Apresentamos os resultados da aproxima¸c˜ao adiab´atica, correspondente a uma terceira integral de movimento para ´orbitas quase equatoriais, nos casos newtoniano (cap´ıtulo 2), que leva a uma predi¸c˜ao para o envelope das ´orbitas que depende apenas da densidade superficial do disco, relativ´ıstico (cap´ıtulo 4) e p´os-newtoniano (1PN, cap´ıtulo 5), neste ´ultimo sendo tratado tamb´em o caso estacion´ario. No caso newtoniano, somos capazes de estender a predi¸c˜ao da terceira integral, obtida para discos finos, para o caso de discos tridimensionais suficientemente achatados, de modo que haja uma certa correspondˆencia entre o espa¸co com z > 0 (z < 0) do disco bidimensional e o espa¸co acima (abaixo) do disco tridimensional: a superf´ıcie z = 0 do disco bidimensional corresponde `as superficies que definem os limites verticais do disco tridimensional. Essa
hip´otese nos permitiu obter uma terceira integral de movimento em discos tridimensionais que explicasse o formato do envelope das ´orbitas atrav´es de uma fun¸c˜ao que depende ape-nas da densidade superficial integrada verticalmente. A predi¸c˜ao ´e v´alida para ´orbitas com amplitudes pr´oximas `a espessura do disco. O formalismo foi tamb´em estendido para ´orbitas dentro do disco, com amplitudes arbitr´arias, mantendo a dependˆencia apenas na densidade superficial. Os resultados para discos tridimensionais newtonianos est˜ao apresentados no cap´ıtulo 3.
Na abordagem p´os-newtoniana (cap´ıtulo 5) desenvolvemos, como ferramenta ne-cess´aria para a an´alise das ´orbitas que cruzam discos bidimensionais, um formalismo hamilto-niano para part´ıculas de teste massivas (compat´ıvel com o formalismo lagrangeano de Wein-berg 1972) v´alido para configura¸c˜oes arbitr´arias de mat´eria. Esse formalismo nos permite obter tamb´em as corre¸c˜oes p´os-newtonianas para as frequˆencias epic´ıclicas radial e vertical, inclusive no caso estacion´ario. Recentes resultados sobre a equa¸c˜ao de Liouville em sistemas p´os-newtonianos, assim como sobre a constru¸c˜ao de modelos autoconsistentes para a fun¸c˜ao distribui¸c˜ao (Ag´on, Pedraza, & Ramos-Caro 2011, Ramos-Caro, Ag´on, & Pedraza 2012), po-dem admitir uma reformula¸c˜ao a partir do formalismo hamiltoniano do cap´ıtulo 5 que facilite a obten¸c˜ao de modelos autoconsistentes p´os-newtonianos.
No dom´ınio relativ´ıstico obtivemos, atrav´es da redu¸c˜ao isoenerg´etica da hamilto-niana para part´ıculas de teste (Bertschinger 1999, Chicone & Mashhoon 2002), uma condi¸c˜ao de estabilidade vertical rigorosa para ´orbitas circulares em discos infinitesimais est´aticos. Em particular, essa condi¸c˜ao ´e garantida se o tensor de energia-momento do disco singular satis-fizer a condi¸c˜ao de energia forte (Wald 1984), como apontado em Bardeen (1970) ao analisar o caso limite de discos tridimensionais com espessura desprez´ıvel. No entanto, a teoria de distribui¸c˜oes em espa¸cos-tempos curvos (Taub 1980, Barrabes 1989, Poisson 2004) n˜ao es-tava t˜ao difundida naquela ´epoca e, al´em disso, as equa¸c˜oes de movimento n˜ao levaram em conta explicitamente a descontinuidade do campo de velocidades. Nossa opini˜ao, por-tanto, ´e de que a formula¸c˜ao rigorosa desse problema, apresentada no cap´ıtulo 4, venha a contribuir para o estabelecimento definitivo do crit´erio de estabilidade vertical para ´orbitas circulares em discos infinitesimalmente finos. Como consequˆencia dessa an´alise obtivemos,
assim como no caso newtoniano, a predi¸c˜ao para os envelopes das ´orbitas baseada na apro-xima¸c˜ao adiab´atica. O movimento em outras configura¸c˜oes com hipersuperf´ıcies singulares tipo-tempo tamb´em foi tratado em uma abordagem preliminar, levando-nos `a conjectura de que a condi¸c˜ao de energia forte sobre o tensor de energia-momento dessa hipersuperf´ıcie ´e condi¸c˜ao suficiente para a estabilidade transversal de suas ´orbitas peri´odicas, quando esta ´e invariante pelo fluxo geod´esico. Coment´arios preliminares sobre configura¸c˜oes gen´ericas de camadas finas em gravita¸c˜ao newtoniana tamb´em foram analisados no cap´ıtulo 4, refor¸cando nossa hip´otese (no caso newtoniano, a condi¸c˜ao de energia forte se reduz `a condi¸c˜ao de que a densidade superficial seja positiva para a camada de mat´eria). Uma demonstra¸c˜ao geral desse crit´erio, contudo, ainda precisa ser trabalhada.
Na situa¸c˜ao de espa¸cos-tempos com tensores de curvatura suaves obtivemos, para as frequˆencias epic´ıclicas do movimento geod´esico no caso est´atico e axialmente sim´etrico, uma rela¸c˜ao an´aloga `a existente para o caso newtoniano (Klu´zniak & Rosi´nska 2013),
κ2(R) + ν2(R) = 4πGρ(R, 0) + 2Ω2(R), (1.3)
onde κ ´e a frequˆencia epic´ıclica radial e ν a frequˆencia epic´ıclica vertical, com a generaliza¸c˜ao apropriada das frequˆencias epic´ıclicas para espa¸cos-tempos curvos apresentada em Abramo-wicz & Klu´zniak (2005). Essa rela¸c˜ao envolve invariantes relacionados ao tensor de Ricci no plano equatorial, como uma generaliza¸c˜ao da densidade ρ, e um termo que vai a zero em ´orbitas de f´otons, correspondente ao termo envolvendo Ω2 da equa¸c˜ao acima. Os resultados
para as frequˆencias epic´ıclicas est˜ao apresentados no cap´ıtulo 6.
1.2
Discos de acre¸c˜
ao ao redor de objetos compactos
Os dois ´ultimos cap´ıtulos desta tese est˜ao relacionados, direta ou indiretamente, ao estudo de discos de acre¸c˜ao ao redor de objetos compactos. Estes s˜ao usualmente tratados na aproxima¸c˜ao em que sua autogravidade ´e desprezada, de modo que o potencial gravitacional do sistema ´e gerado pelo objeto central (que pode ser uma estrela de nˆeutrons ou um buraco negro). A teoria de discos de acre¸c˜ao finos (com espessura H muito menor que o raio,
H/R 1) e estacion´arios foi proposta em Shakura & Sunyaev (1973), no contexto da gravita¸c˜ao newtoniana. Suas propriedades est˜ao revisadas em Pringle (1981). ´E suposto que a maioria das part´ıculas do disco se move em ´orbitas praticamente circulares, com uma pequena componente radial na dire¸c˜ao do objeto central. Essa velocidade radial ´e gerada devido `a viscosidade do disco, que faz com que a mat´eria v´a lentamente perdendo energia e momento angular. As propriedades do disco (perfil de temperatura, espectro da radia¸c˜ao emitida, espessura) s˜ao todas dependentes da velocidade angular do g´as, que ´e bem aproximada pela velocidade angular gerada pelo potencial do objeto central (Frank et al. 2002).
Dessa forma, o estudo do movimento circular ao redor de objetos compactos vem a ser indiretamente um estudo das propriedades de discos finos. Vale a pena, portanto, verificar o comportamento das ´orbitas circulares de part´ıculas de teste ao redor desses objetos, em particular o perfil da velocidade angular e do momento angular (que, apesar de possu´ırem uma rela¸c˜ao direta em gravita¸c˜ao newtoniana, assumem comportamentos diferentes pr´oximos `a origem para geod´esicas em teorias relativ´ısticas da gravita¸c˜ao). Particularmente, discos finos ao redor de buracos negros tˆem sua borda interior coincidente com o raio da geod´esica circular marginalmente est´avel (innermost stable circular orbit, ou ISCO). O comportamento dos discos finos em gravita¸c˜ao newtoniana (Shakura & Sunyaev 1973, Frank et al. 2002) e em relatividade geral (Abramowicz & Fragile 2013) j´a foi bastante estudado. A an´alise do movimento de part´ıculas de teste ao redor de objetos compactos em teorias modificadas da gravita¸c˜ao (ver por exemplo Kov´acs & Harko 2010), assim como em estruturas que n˜ao s˜ao esfericamente sim´etricas (como obtido recentemente para esfer´oides de Mclaurin em Klu´zniak & Rosi´nska 2013, Mishra & Vaidya 2015), podem, contudo, nos dar informa¸c˜oes sobre as diferen¸cas esperadas para esses discos em outras teorias ou para diferentes configura¸c˜oes do objeto central.
O cap´ıtulo 7 trata de geod´esicas circulares na m´etrica de Kehagias & Sfetsos (Kehagias & Sfetsos 2009), uma solu¸c˜ao esfericamente sim´etrica no v´acuo de uma teoria modificada na gravita¸c˜ao de Hoˇrava, que inicialmente foi proposta como uma teoria quˆantica da gravita¸c˜ao (Hoˇrava 2009a,b). Veremos que, no caso em que o espa¸co-tempo representa uma singularidade nua, as propriedades do movimento s˜ao bem diferentes do caso usual da
gravita¸c˜ao newtoniana/relatividade geral (Vieira, Schee, Klu´zniak, Stuchl´ık, & Abramowicz 2014). Tamb´em apresentamos nesse cap´ıtulo os diagramas de mergulho do plano equatorial da m´etrica de Kehagias & Sfetsos, tanto na geometria diretamente projetada quanto na geometria ´optica, uma ferramenta ´util para visualizar a curvatura do plano equatorial atrav´es de superf´ıcies de revolu¸c˜ao em R3.
As propriedades de discos de acre¸c˜ao finos est˜ao revisadas em Frank et al. (2002) Uma revis˜ao recente de discos de acre¸c˜ao ao redor de buracos negros, em relatividade geral, ´e apresentada em Abramowicz & Fragile (2013). Nesse artigo s˜ao mencionados diferentes tipos de solu¸c˜oes que estendem o caso de discos finos ao redor de buracos negros. Para discos opticamente espessos na dire¸c˜ao vertical, a altura do disco varia com a taxa de acre¸c˜ao. Para discos com taxas de acre¸c˜ao maiores que o limite de Eddington (ver por exemplo Frank et al. 2002), a solu¸c˜ao de discos finos n˜ao ´e mais apropriada. Existem dois tipos de modelos na literatura para esses discos: os discos espessos, ou Polish doughnuts, com H/R > 1, revisados no cap´ıtulo 10 de Frank et al. (2002) e em Abramowicz & Fragile (2013), e os discos slim, com H/R . 1, desenvolvidos em Abramowicz, Czerny, Lasota, & Szuszkiewicz (1988b), S¸adowski (2009, 2011). Embora as suposi¸c˜oes realizadas para a obten¸c˜ao desses modelos sejam muito parecidas, suas propriedades s˜ao bastante diferentes, principalmente no que se refere `a espessura. Dessa forma, um problema de interesse ´e saber qual o destino real de discos de acre¸c˜ao opticamente espessos quando sua taxa de acre¸c˜ao aumenta: eles se tornam discos espessos ou discos slim? Na falta de uma an´alise dinˆamica do espa¸co de solu¸c˜oes para os discos, a maneira mais direta de respondermos a essa pergunta ´e comparando a espessura dos discos slim (ou espessos) com as espessuras dos discos gerados a partir de simula¸c˜oes num´ericas 2D n˜ao estacion´arias em GRRMHD (general relativistic radiation magnetohydrodynamics), obtidas recentemente. No cap´ıtulo 8, comparamos as propriedades dos discos gerados por essas simula¸c˜oes (S¸adowski, Narayan, Tchekhovskoy, & Zhu 2013, S¸adowski, Narayan, McKinney, & Tchekhovskoy 2014, S¸adowski, Narayan, Tchekhovskoy, Abarca, Zhu, & McKinney 2015), ap´os o sistema entrar em um estado de quase equil´ıbrio, com os resultados para discos slim, tanto na aproxima¸c˜ao pseudo-newtoniana (Frank et al. 2002) quanto em modelos num´ericos relativ´ısticos de discos slim estacion´arios (S¸adowski 2009, 2011). Verificamos que, apesar da grande maioria das simula¸c˜oes num´ericas de GRRMHD
utilizar como condi¸c˜ao inicial um disco espesso do tipo Polish doughnut ou similar, o estado final dos discos das simula¸c˜oes mais recentes (S¸adowski et al. 2015) ´e na verdade um disco slim, com uma surpreendente semelhan¸ca entre as espessuras e as propriedades locais de estabilidade entre as simula¸c˜oes 2D (S¸adowski et al. 2015) e os discos slim num´ericos, estes ´
ultimos supostos estacion´arios e com uma estrutura vertical pr´e definida (S¸adowski 2009, 2011).
Por fim, no cap´ıtulo 9, apresentamos as considera¸c˜oes finais desta tese, assim como comentamos sobre os problemas que ficaram em aberto e que merecem uma investiga¸c˜ao mais criteriosa.
Discos finos newtonianos (bidimensionais)
Gal´axias discoidais, que apresentam uma evidente componente em forma de disco (van der Kruit & Freeman 2011), s˜ao sistemas que podem ser descritos pela gravita¸c˜ao new-toniana, pois as velocidades t´ıpicas s˜ao muito menores que a velocidade da luz (da ordem de centenas de km/s) e o campo gravitacional s´o precisa de corre¸c˜oes relativ´ısticas na vizi-nhan¸ca do buraco negro central (Binney & Tremaine 2008). Uma estimativa para a ordem de grandeza do potencial pode ser obtida atrav´es das curvas de rota¸c˜ao: a velocidade de rota¸c˜ao no regime newtoniano ´e dada por v2
c = R∂Φ/∂R ∼ Φ, onde Φ ´e o potencial
gra-vitacional e R ´e o raio galactocˆentrico, e para a maioria das gal´axias discoidais temos que vc est´a na faixa de 50–300 km/s (de Blok & McGaugh 1997, Sofue, Tutui, Honma, Tomita,
Takamiya, Koda, & Takeda 1999, de Blok et al. 2001, 2008, Sofue & Rubin 2001). Logo, temos Φ/c2 ≈ 10−6, de modo que os termos de ordem maior na m´etrica da relatividade geral
podem ser desconsiderados.
Considerando o movimento das estrelas, a aproxima¸c˜ao do conjunto das estrelas da gal´axia por um fluido cont´ınuo ´e boa, pois a for¸ca gravitacional ´e de longo alcance. Para um sistema de N estrelas de mesma massa, o tempo de relaxa¸c˜ao trelax (tempo ap´os o qual
o movimento de uma estrela ´e drasticamente afetado pelas colis˜oes com as estrelas vizinhas, em compara¸c˜ao com a aproxima¸c˜ao cont´ınua) pode ser estimado como (Binney & Tremaine 2008, se¸c˜ao 1.2)
trelax ∼
0.1N
ln N tcross, (2.1)
onde tcross ´e o tempo que a estrela leva para cruzar uma vez a gal´axia. Como gal´axias tˆem
em m´edia N ∼ 1011, correspondendo a uma massa de M ∼ 1011M
, e sua idade ´e de apenas
algumas centenas de tcross (Binney & Tremaine 2008), segue que o tempo de relaxa¸c˜ao ´e
tipicamente muito maior que a idade da gal´axia, o que justifica considerar que o movimento
das estrelas satisfaz a aproxima¸c˜ao n˜ao colisional : encontros individuais entre estrelas podem ser desprezados, de modo que o movimento destas pode ser modelado como o movimento de uma part´ıcula de teste sujeita ao potencial gravitacional gerado pela distribui¸c˜ao total de mat´eria. O potencial ´e ent˜ao calculado atrav´es da equa¸c˜ao de Poisson, onde a densidade ´e uma aproxima¸c˜ao cont´ınua para o sistema de N corpos que representam as estrelas (somada `a densidade do disco gasoso e `a do halo de mat´eria escura).
Nosso objetivo neste cap´ıtulo ´e estudar o movimento de estrelas em gal´axias dis-coidais com uma componente de disco bidimensional, em particular daquelas que orbitam “pr´oximas” a uma ´orbita circular. O estudo da estabilidade de ´orbitas circulares em poten-ciais suaves axialmente sim´etricos est´a desenvolvido em Binney & Tremaine (2008). Faremos na se¸c˜ao seguinte um sum´ario dos resultados apresentados na referˆencia acima, ressaltando os resultados v´alidos apenas para distribui¸c˜oes suaves de mat´eria. Nas se¸c˜oes posteriores deste cap´ıtulo desenvolveremos o formalismo necess´ario para a an´alise de perfis de densidade que apresentam descontinuidades do tipo “delta de Dirac” no plano z = 0, os quais represen-tam discos finos de mat´eria. A an´alise se mostrar´a qualitativamente diferente da feita para perfis de densidade suaves, tornando-se necess´aria uma reinterpreta¸c˜ao de alguns resultados presentes na literatura.
2.1
Preˆ
ambulo: discos tridimensionais
Consideramos, seguindo o formalismo apresentado em Binney & Tremaine (2008), uma part´ıcula sujeita a um potencial gravitacional suave axialmente sim´etrico Φ(R, z), onde (R, ϕ, z) s˜ao as coordenadas cil´ındricas usuais. A fim de modelarmos sistemas de discos, supomos que o potencial gravitacional tenha simetria de reflex˜ao com respeito ao plano equatorial z= 0, isto ´e:
Φ(R, z) = Φ(R,−z). (2.2)
A distribui¸c˜ao de densidade ser´a ent˜ao uma fun¸c˜ao ρ = ρ(R, z), tamb´em com simetria de reflex˜ao com rela¸c˜ao a esse plano. Ela ´e relacionada com o potencial gravitacional Φ pela
equa¸c˜ao de Poisson
∇2Φ = 4πGρ. (2.3)
A componente discoidal da gal´axia corresponde a uma distribui¸c˜ao de densidade concentrada na vizinhan¸ca do plano equatorial. O sistema pode conter tamb´em outras componentes, como um bojo central esferoidal e um halo mais disperso (de estrelas, g´as ou de mat´eria escura; para todos os efeitos, essa distin¸c˜ao ´e irrelevante no momento). No entanto, ´e importante ressaltar que, longe do bojo, a componente discoidal ´e predominante na regi˜ao pr´oxima ao plano equatorial.
Uma descri¸c˜ao detalhada das ´orbitas em potenciais axialmente sim´etricos pode ser encontrada em Binney & Tremaine (2008), cap´ıtulo 3 (ver tamb´em Contopoulos 2002, se¸c˜ao 3.1). Apresentamos aqui um resumo, partindo da formula¸c˜ao hamiltoniana das equa¸c˜oes de movimento, para dar base `as discuss˜oes que seguem (uma introdu¸c˜ao aos sistemas dinˆamicos e `a mecˆanica hamiltoniana, suficiente para o entendimento do texto aqui apresentado, pode ser encontrada em Tabor 1989, e uma abordagem com um enfoque mais baseado em problemas f´ısicos ´e apresentada em de Aguiar 2011).
A hamiltoniana do sistema ´e dada por
H = 1 2 (pR)2 + (pϕ)2 R2 + (pz) 2 + Φ(R, z). (2.4)
Pelas equa¸c˜oes de Hamilton (Tabor 1989) d~p dt =− ∂H ∂~q , d~q dt = ∂H ∂~p, (2.5) notamos que Lz ≡ pϕ = R2ϕ˙ (2.6)
´e uma integral de movimento do sistema. Essa grandeza, convenientemente denotada por Lz,
´e a componente z do momento angular espec´ıfico da part´ıcula em rela¸c˜ao ao centro gal´actico, tamb´em chamada de momento angular azimutal. Desse modo, a hamiltoniana (2.4) pode ser reduzida a uma hamiltoniana com um grau de liberdade a menos, eliminando a coordenada
ϕ. O movimento descrito por essa nova hamiltoniana ocorre ent˜ao no plano meridional Rz. O pre¸co a se pagar por essa simplifica¸c˜ao ´e que para cada valor de Lz teremos uma
hamiltoniana diferente, de modo que uma descri¸c˜ao completa do movimento deve abranger o comportamento das ´orbitas para diferentes valores desse parˆametro.
Definindo o potencial efetivo Φeff por
Φeff(R, z) = Φ(R, z) +
L2z
2R2, (2.7)
podemos escrever a hamiltoniana reduzida como
H = 1 2 h (pR)2 + (pz)2 i + Φeff(R, z), (2.8)
e as equa¸c˜oes de movimento ficam
˙pR = − ∂Φeff ∂R , ˙pz = − ∂Φeff ∂z , (2.9) ˙ R = pR, ˙z = pz.
Ou seja, em termos de equa¸c˜oes diferenciais de segunda ordem para R e z,
¨ R = −∂Φeff ∂R = L2z R3 − ∂Φ ∂R, (2.10) ¨ z = −∂Φeff ∂z =− ∂Φ ∂z.
2.1.1
Orbitas circulares e aproxima¸c˜
´
ao epic´ıclica
Em gal´axias discoidais achatadas, a maioria das estrelas se encontra em ´orbitas aproximadamente circulares (Binney & Tremaine 2008, cap´ıtulo 1), como esperado por
ar-gumentos dinˆamicos (a ilha de estabilidade correspondente ao ponto fixo que representa o movimento circular ´e a principal) e por estudos das curvas de rota¸c˜ao de gal´axias espirais (So-fue & Rubin 2001). Assim, ´e importante sabermos descrever esse movimento quase circular. Nesta se¸c˜ao fazemos um resumo dos ingredientes b´asicos para essa descri¸c˜ao.
Consideremos o caso particular de ´orbitas circulares no plano equatorial. Tais ´orbitas s˜ao definidas como os pontos fixos do fluxo hamiltoniano dado por (2.8). A condi¸c˜ao ˙pz = 0 ´e satisfeita ao longo de toda a trajet´oria por qualquer part´ıcula que inicie seu
movi-mento com o vetor velocidade no plano equatorial, por causa da simetria do potencial gravi-tacional [ver equa¸c˜ao (2.2)]. Assim, o plano equatorial ´e invariante pelo fluxo hamiltoniano. J´a a condi¸c˜ao ˙pR= 0 define as ´orbitas circulares e ´e equivalente a
∂Φeff ∂R (Ro,0) = 0, (2.11)
onde Ro ´e o raio da ´orbita circular. Essa equa¸c˜ao, juntamente com a defini¸c˜ao (2.7) para o
potencial efetivo, permite escrever o momento angular espec´ıfico de uma ´orbita circular em fun¸c˜ao da coordenada radial R do disco:
L2z(R) = R3∂Φ
∂R. (2.12)
Aproximando o potencial em segunda ordem pelo seu polinˆomio de Taylor ao redor do ponto (Ro,0), obtemos a aproxima¸c˜ao epic´ıclica (Binney & Tremaine 2008):
Φeff(R, z)≈ Φeff(Ro,0) + 1 2κ 2(R o)(R− Ro)2+ 1 2ν 2(R o)z2, (2.13) onde κ2(Ro) ≡ ∂2Φeff ∂R2 (Ro,0) , (2.14) ν2(Ro) ≡ ∂2Φeff ∂z2 (Ro,0) . (2.15)
apro-ximado (2.13) ficam ¨ x+ κ2x2 = 0, (2.16) ¨ z+ ν2z2 = 0. (2.17) onde κ2 = κ2(R
o) e ν2 = ν2(Ro). As equa¸c˜oes para as coordenadas radial e vertical ent˜ao se
desacoplam na aproxima¸c˜ao epic´ıclica (2.13). Se
κ2(Ro) > 0 (2.18)
dizemos que a ´orbita circular correspondente ´e est´avel radialmente, enquanto que se
ν2(Ro) > 0 (2.19)
dizemos que a ´orbita circular correspondente ´e est´avel verticalmente. A ´orbita circular ser´a est´avel (no sentido de Lyapunov, ver Arnol’d 1989) se, e somente se, κ2(R
o) > 0 e ν2(Ro) > 0.
Nesse caso, as equa¸c˜oes (2.16–2.17) representam dois osciladores harmˆonicos com frequˆencias κ(Ro) e ν(Ro), respectivamente, de modo que κ(Ro) ´e chamada de frequˆencia epic´ıclica
radial e ν(Ro) ´e chamada de frequˆencia epic´ıclica vertical do movimento perturbado. Como
dito acima, se alguma dessas frequˆencias for imagin´aria, a ´orbita circular correspondente ´e inst´avel.
A condi¸c˜ao de estabilidade radial (2.18) ´e equivalente ao crit´erio de Rayleigh (Landau & Lifshitz 2007)
dL2z dR R=Ro >0, (2.20)
onde Lz(R) ´e dado pela eq. (2.12). De fato, podemos escrever
∂2Φeff ∂R2 Ro,0 = ∂Φ ∂R 1 L2 z dL2z dR R=Ro . (2.21)
2.1.2
Integrabilidade e terceira integral de movimento
A descri¸c˜ao de ´orbitas que cruzam o plano equatorial de sistemas axialmente sim´etricos, embora seja algo poss´ıvel em princ´ıpio, ´e qualitativamente diferente da descri¸c˜ao de ´orbitas equatoriais. A simetria do sistema com respeito a z = 0 faz com que ´orbitas que se iniciam no plano equatorial (posi¸c˜ao inicial em z = 0, velocidade vertical nula) se mantenham no plano ao longo de toda sua evolu¸c˜ao temporal, a menos que uma perturba¸c˜ao externa aja sobre a part´ıcula. Desse modo, o conceito de ´orbita equatorial est´a bem definido, e portanto podemos estudar o comportamento dessas ´orbitas reduzindo o fluxo hamiltoniano ao plano equatorial.
Como Lz ´e uma integral de movimento, a hamiltoniana reduzida ao plano
equato-rial depende somente da coordenada radial (e do correspondente momento conjugado). Desse modo temos um sistema hamiltoniano com um grau de liberdade (R, com momento conju-gado pR), cuja energia ´e conservada. O sistema ´e ent˜ao integr´avel (Tabor 1989, de Aguiar
2011), e portanto as caracter´ısticas qualitativas do movimento s˜ao bem estabelecidas. Em particular, todas as ´orbitas s˜ao regulares e o comportamento do movimento ao redor de pon-tos fixos e ´orbitas peri´odicas ´e conhecido (Hale 1969, Sotomayor 1979). Todas as integrais de movimento (H e Lz) s˜ao conhecidas e possuem express˜oes gerais e fechadas para qualquer
potencial axialmente sim´etrico, de modo que o formalismo que leva `as vari´aveis de ˆangulo-a¸c˜ao ´e (formalmente) o mesmo para qualquer potencial. Isso deixa de ser verdade quando consideramos o movimento fora do plano equatorial, pois no caso geral o sistema deixa de ser integr´avel e, na regi˜ao em que as ´orbitas s˜ao regulares, n˜ao existe uma f´ormula exata para a integral de movimento que complementa H e Lz.
´
E uma consequˆencia do teorema KAM (Tabor 1989) que ´orbitas pr´oximas de uma ´orbita circular est´avel s˜ao, em geral, regulares. H´a uma gama de resultados num´ericos, para diferentes potenciais axialmente sim´etricos, que comprovam esse car´ater geral, endos-sando a validade desse resultado (Ollongren 1962, Henon & Heiles 1964, Contopoulos 2001). Al´em disso, geralmente ´e obtido numericamente que essas regi˜oes de integrabilidade s˜ao bem maiores do que as estimativas conservadoras oferecidas pelo teorema KAM, o que sugere a busca por resultados quantitativos que possam descrever essas regi˜oes que est˜ao “distantes”
da ´orbita circular correspondente.
Isso se traduz na existˆencia de uma terceira integral de movimentoI3nessa regi˜ao,
independente das integrais de movimento cl´assicas: a energia E e o momento angular azimutal Lz. Por esse motivo, e por n˜ao existir uma f´ormula fechada para essa terceira integral de
movimento,I3 tamb´em ´e chamada de integral de movimento n˜ao-cl´assica. A obten¸c˜ao de uma
express˜ao para a terceira integral de movimento tem sido um tema de pesquisa recorrente em astronomia dinˆamica (Contopoulos 2002), ´area que estuda problemas astronˆomicos atrav´es de uma abordagem baseada em sistemas dinˆamicos. Muitos estudos foram feitos desde os trabalhos pioneiros de Contopoulos (1960, 1963) que propuseram uma expans˜ao em s´erie para a terceira integral de movimento (para uma revis˜ao, ver Contopoulos 2001) e de Ollongren (1962), que apresentou um estudo sistem´atico de ´orbitas calculadas numericamente em alguns potenciais axialmente sim´etricos, onde ´e mostrado claramente que as ´orbitas calculadas n˜ao preenchem toda a superf´ıcie de energia dispon´ıvel, mas sim ficam dentro de um “envelope” que toca a curva de velocidade zero em quatro pontos apenas. Vale ressaltar aqui tamb´em o trabalho num´erico de Henon & Heiles (1964), onde os autores demonstraram atrav´es de se¸c˜oes de Poincar´e a transi¸c˜ao do regime integr´avel para o regime ca´otico em alguns potenciais axialmente sim´etricos, fazendo considera¸c˜oes sobre as ilhas de estabilidade que vieram a se mostrar verdadeiras no caso geral de sistemas hamiltonianos `a luz do teorema KAM (ver por exemplo Arnol’d 1989, de Aguiar 2011). Os trabalhos posteriores focaram tanto na tentativa de encontrar express˜oes trat´aveis para a terceira integral em potenciais arbitr´arios (Hietarinta 1987, Bienaym´e & Traven 2013) quanto na constru¸c˜ao de modelos gal´acticos integr´aveis e nas condi¸c˜oes para que um dado potencial seja separ´avel (e portanto integr´avel: de Zeeuw 1985, Dejonghe & de Zeeuw 1988, de Zeeuw 1988, de Zeeuw & Hunter 1990).
H´a diferentes maneiras de se abordar o problema da terceira integral de movimento em potenciais axialmente sim´etricos. Nosso objetivo aqui n˜ao ´e estudar a integrabilidade do sistema como um todo, mas sim obter express˜oes aproximadas e simples que sejam v´alidas em alguma regi˜ao que envolva a ´orbita circular. Prosseguimos ent˜ao com um exemplo simples e conhecido de como obter uma terceira integral de movimento aproximada para ´orbitas cujo desvio do plano equatorial ´e pequeno. O formalismo utilizado ´e o da invariˆancia adiab´atica
da a¸c˜ao vertical, que est´a explicado em detalhes em Binney & Tremaine (2008) e ´e baseado na aproxima¸c˜ao epic´ıclica descrita acima. A ilustra¸c˜ao desse formalismo com um exemplo bem conhecido, cujos resultados j´a foram testados e comprovados (como ´e o caso da aproxima¸c˜ao epic´ıclica), ´e ´util para justificar as generaliza¸c˜oes feitas adiante para o caso de discos infinite-simalmente finos (bidimensionais), tanto em gravita¸c˜ao newtoniana quanto em relatividade geral.
Partimos da hamiltoniana aproximada, definida atrav´es do potencial efetivo (2.13). Existem duas hip´oteses que precisam ser satisfeitas: a hamiltoniana deve ser separ´avel nas coordenadas (R, z) e o per´ıodo do movimento vertical deve ser menor que o per´ıodo do movi-mento horizontal. A primeira hip´otese ´e satisfeita se o potencial efetivo tiver, por exemplo, a forma (2.13). A segunda hip´otese precisa ser testada para cada sistema e cada ´orbita, por´em ela tem se mostrado geralmente v´alida para potenciais de disco (ver Binney & Tremaine 2008).
A aproxima¸c˜ao adiab´atica est´a baseada em um resultado mais geral, a invariˆancia adiab´atica das vari´aveis de a¸c˜ao, que apresentamos brevemente a seguir no contexto de ´orbitas quase equatoriais, com foco na vari´avel de a¸c˜ao vertical Jz. Uma discuss˜ao mais
detalhada, assim como a demonstra¸c˜ao do caso geral, podem ser encontradas em Binney & Tremaine (2008), se¸c˜ao 3.6. Consideramos o movimento vertical, descrito pelo potencial aproximado (2.13). Primeiramente, notamos que a hamiltoniana correspondente ´e separ´avel nas coordenadas (R, z), e portanto integr´avel (no sentido de Liouville, ver Tabor 1989, se¸c˜ao 2.5):
H = HR+ Hz. (2.22)
As grandezas HR = HR(pR, R) e Hz = Hz(pz, z) s˜ao ambas integrais de movimento para
o sistema. Existe, assim, uma fun¸c˜ao geratriz S da transforma¸c˜ao canˆonica que leva das vari´aveis (pR, pz, R, z) para as vari´aveis de a¸c˜ao-ˆangulo (JR, Jz, θR, θz), de modo que a
hamil-toniana nessas coordenadas seja uma fun¸c˜ao apenas de JR e Jz (Tabor 1989, de Aguiar
2011). A fun¸c˜ao geratriz S = S(R, z, JR, Jz) pode ser escrita, devido `a separabilidade da
hamiltoniana, como
As vari´aveis de a¸c˜ao no potencial aproximado s˜ao dadas por Ji = ∆iS/2π (Binney & Tremaine
2008, se¸c˜ao 3.5), onde a varia¸c˜ao ∆i´e tomada ao longo de um caminho fechado no qual apenas
a coordenada θi varia. No caso de (2.23), como as vari´aveis de a¸c˜ao s˜ao constantes ao longo
da trajet´oria, temos para Jz que ∆zSR= 0 (tomada a R constante) e, portanto,
Jz =
∆Sz
2π . (2.24)
No exemplo escolhido (para mais detalhes, ver Tabor 1989, Binney & Tremaine 2008), Hz = 1 2p 2 z + 1 2ν 2z2. (2.25)
Chamando de Ez o valor de Hz ao longo da ´orbita, temos que Sz ´e dada pela solu¸c˜ao de
Ez = 1 2 ∂Sz ∂z 2 +1 2ν 2z2, (2.26) o que resulta em Sz = √ 2Z pEz− ν2z2/2 dz. (2.27)
Sendo Z a amplitude vertical do movimento, a a¸c˜ao vertical Jz (2.24) ´e ent˜ao dada por
Jz = √ 2 2π I p Ez− ν2z2/2 dz = 4√2 2π Z Z 0 p Ez− ν2z2/2 dz, (2.28)
isto ´e, Jz = Ez/ν, resultando em Hz = νJz. Em termos da amplitude Z do movimento
vertical, temos que Ez = ν2Z2/2, e portanto
Jz =
1 2νZ
2. (2.29)
O resultado acima vale para a expans˜ao do potencial efetivo ao redor do ponto de equil´ıbrio est´avel (Ro,0). No entanto, sabemos que a dependˆencia radial do potencial efetivo
faz com que a ´orbita perturbada tamb´em tenha uma componente radial, de modo que al´em do movimento vertical h´a tamb´em um movimento horizontal no plano meridional. Um dos passos para se calcular a aproxima¸c˜ao adiab´atica consiste em supor que esses movimentos s˜ao
“desacoplados”: a coordenada radial da part´ıcula ´e obtida como se esta estivesse no plano equatorial, sujeita ao potencial Φeff(R, 0). Assim, obt´em-se a fun¸c˜ao R(t) que descrever´a o
movimento radial. Quando inserida na descri¸c˜ao do movimento vertical, essa dependˆencia temporal da coordenada radial pode ser vista como uma dependˆencia temporal no poten-cial da equa¸c˜ao (2.25). A invariˆancia adiab´atica das vari´aveis de a¸c˜ao nos diz que, se a dependˆencia temporal do potencial for “lenta” o suficiente e se a hamiltoniana de cada fatia temporal for integr´avel, ent˜ao as vari´aveis de a¸c˜ao do sistema ser˜ao conservadas ao longo de sua evolu¸c˜ao temporal (ver Binney & Tremaine 2008, se¸c˜ao 3.6). No caso das ´orbitas quase circulares, a hip´otese de que as oscila¸c˜oes verticais s˜ao mais “r´apidas” que as oscila¸c˜oes horizontais nos diz que, para a hamiltoniana (2.25), a a¸c˜ao vertical Jz, dada por (2.29), ´e um
invariante adiab´atico, sendo portanto aproximadamente conservada ao longo do tempo. Isto ´e, ao introduzirmos R(t) como uma dependˆencia temporal na frequˆencia epic´ıclica vertical ν2,
obtemos um potencial que varia “lentamente” no tempo, de acordo com as hip´oteses acima. Desse modo, a express˜ao ν[R(t)]Z2[R(t)] ser´a uma constante ao longo do tempo, e portanto
Z(R) ∝ ν(R)−1/2. A express˜ao para ν ´e dada por (2.15), calculada para os diferentes va-lores de R. Escrevendo Φzz ≡ ∂2Φ/∂z2, temos ent˜ao que a amplitude vertical do movimento
pode ser escrita como uma fun¸c˜ao do raio galactocˆentrico R:
Z(R)∝Φzz(R, 0)
−1/4
, (2.30)
o que equivale a dizer que a ´orbita correspondente est´a sujeita `a terceira integral de movimento
I3(AA) = Z(R)Φ1/4zz (R, 0). (2.31)
A fun¸c˜ao Z(R) na equa¸c˜ao acima ´e, na realidade, uma fun¸c˜ao Z(R) = ˜Z(R, z, pR, pz), que
associa a cada ponto da trajet´oria a amplitude Z do envelope da ´orbita, para o mesmo raio R. Dessa maneira, a integral de movimentoI3, assim como a vari´avel de a¸c˜ao vertical, ficam
escritas em termos das coordenadas do espa¸co de fases. Substituindo a equa¸c˜ao (2.26) em Jz = Ez/ν, com pz = ∂Sz/∂z, chegamos a Jz = 1 2ν(R) h p2z+ ν2(R)z2i (2.32)