ROBERTA CAVALHEIRO HAUSHAHN
CONCEPÇÕES DE AGRESSIVIDADE NO ÂMBITO DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Ijuí, 2007
ROBERTA CAVALHEIRO HAUSHAHN
CONCEPÇÕES DE AGRESSIVIDADE NO ÂMBITO DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Educação nas Ciências da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUI, como requisito parcial à obtenção do título de mestre.
Orientador: Prof. Dr. Luís Fernando Lofrano de Oliveira Co-orientadora: Profª. Drª. Cláudia Luíza Caimi
Ijuí, 2007
RESUMO
O presente trabalho trata das concepções de agressividade no âmbito da educação infantil. Toma-se como referencial a psicanálise freudo-lacaniana, o que permite considerar a agressividade uma tendência estruturante do eu. O ponto de partida deste estudo são os questionamentos de professoras de educação infantil em relação às manifestações agressivas de seus alunos, evidenciando uma carência de discussões e informações sobre este assunto. O objetivo central do trabalho consiste em constatar o discurso que perpassa o contexto escolar a respeito da concepção de agressividade e suas implicações na educação infantil. Para tanto, entende-se como essencial definir a noção de agressividade procurando diferenciá-la da de violência, a partir de referenciais oriundos do senso comum, da filosofia, da psicologia e, principalmente, da psicanálise. A fim de compreender o âmbito da educação infantil, busca-se também identificar as especificidades e os pressupostos básicos deste segmento do ensino. Além da pesquisa bibliográfica, utilizam-se como metodologia os grupos focais destinados à escuta de professoras de educação infantil da rede municipal de ensino de Panambi/RS acerca da agressividade na primeira etapa da educação básica. Assim, destacam-se concepções da agressividade como resultado das influências do meio, como fase do desenvolvimento ou como forma de expressão. A partir desse resultado, inferem-se implicações advindas das diferentes concepções de agressividade presentes no discurso dos professores, analisando-se a possibilidade de a educação conceber a agressividade como decorrência de um processo de constituição do eu.
ABSTRACT
The present paper deals about the aggressiveness conceptions in the extent of the infantile education. It is taken as referential the freud-lacaniana psychoanalysis, what allows considering the aggressiveness a building tendency of me. Part of the teachers' questions of infantile education in relation to their students' aggressive manifestations, evidencing a lack of discussions and information on this subject. The central objective of the paper consists of verifying the speech related to the school background regarding the aggressiveness conception and their implications in the infantile education. So, we understand as essential to define the aggressiveness notion trying to differentiate it from violence, from referential originating from the common sense, from philosophy, from psychology and, mainly, from psychoanalysis. In order to understand the extent of the infantile education, we also look for to identify the specificities and the basic presuppositions of this segment of the teaching. Besides the bibliographical research, it is used as methodology the focal groups destined to listen to teachers of infantile education from the municipal net of teaching of Panambi / RS concerning the aggressiveness in the first stage of the basic education. So, are highlighted conceptions of the aggressiveness as a result of the influences of the environment, as phase of the development or as expression form. From this result, implications that come from the different present aggressiveness conceptions are inferred in the teachers’ speech, analyzing the possibility of the education to conceive the aggressiveness as consequence of a process of constitution of the me.
DEDICATÓRIA
Às crianças que, ao “destruir” seus lobos e monstros, geram inquietações e questões a nós adultos.
Às professoras de educação infantil que, com criatividade e sensibilidade, procuram desvendar a infância.
AGRADECIMENTOS
Ao Programa de Pós-Graduação Mestrado em Educação nas Ciências, pela acolhida de meu tema de pesquisa.
Aos professores do colegiado do curso e, em especial:
ao Professor Luís Fernando Lofrano de Oliveira, meu orientador, pelo entusiasmo relacionado ao estudo direcionado às questões da agressividade, bem como pelo espaço propiciado para meu crescimento enquanto pesquisadora;
à Professora Cláudia Luíza Caimi, minha co-orientadora, por ser fundamental para que minhas indagações tomassem forma de pesquisa.;
à Professora Noeli Valentina Weschenfelder, porque além de escutar minhas angústias durante o processo de escrita, motivou-me a continuar pesquisando temas relacionados à infância;
à Professora Ângela M. Schnneider Drügg, pela clareza, objetividade e precisão em suas contribuições.
À minha supervisora, Tânia M. de Sousa Borba, porque ao acompanhar minha vida profissional, escutou as indagações iniciais a respeito do tema deste estudo.
Ao Carlos, meu marido, pelo incentivo incondicional relacionado aos meus empreendimentos e pela oportunidade de sonharmos juntos e vivermos com cumplicidade este momento tão especial de nossas vidas.
Aos meus pais que, em todos os momentos, acreditaram que eu pudesse atingir meus objetivos, vibrando a cada pequena conquista.
Ao meu querido irmão, familiares e amigos que foram suporte em momentos felizes e difíceis no decorrer deste período de estudos.
Às amigas Édina F. Simão e Seomara T. Menegazzi que tanto me inspiraram para o ingresso neste curso, acompanhando-me e apoiando-me nesta caminhada.
Aos colegas de curso e, em especial, às participantes da comunidade de leitoras Crisálida (Grupo de Estudos sobre a Infância e a Juventude), com quem compartilhei leituras, escritos, preocupações, alegrias e, principalmente, aprendizagens.
Às proprietárias da Escola de Educação Infantil Jardim de Infância Futuro Feliz, Inge Schneider e Romi Schneider Pomina, pela oportunidade de trabalho na área de Psicologia Escolar, onde se formularam os primeiros questionamentos que fomentaram esta pesquisa.
À Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Panambi/RS, através da secretária de Educação e Cultura, Nara Viviane Gräff e à Coordenadora de Educação Infantil, Ana Paula Cardias, pelo entusiasmo com que receberam a proposta de trabalho e por possibilitarem as condições necessárias para que a pesquisa se realizasse com as professoras da rede municipal de ensino.
Às professoras da rede municipal de Educação Infantil que aceitaram o convite para participar da pesquisa, com suas concepções, experiências e indagações.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 08
1 AGRESSIVIDADE – DO SENSO COMUM À PSICANÁLISE ... 12
1.1 Considerações iniciais sobre a agressividade... 13
1.2 A agressividade na teoria psicanalítica... 18
1.2.1 Apontamentos sobre o processo civilizatório... 19
1.2.2 O complexo de Édipo – inserção na cultura... 22
1.2.3 A teoria das pulsões... 23
1.2.4 Estádio do espelho e a constituição do eu... 28
1.2.5 Instâncias responsáveis pela consciência moral... 32
1.2.6 Sobre a pulsão de morte... 34
1.2.7 A vida em sociedade... 38
2 A EDUCAÇÃO INFANTIL E SUAS ESPECIFICIDADES... 42
2.1 A escola como lugar da infância – a educação do futuro cidadão... 44
2.2 “Emílio” – A educação de um bom selvagem... 49
2.3 Escolas de educação infantil: medidas de proteção à infância... 53
2.4 Especificidades da educação infantil brasileira na contemporaneidade... 58
2.5 A criança da educação infantil na atualidade... 64
2.6 Considerações sobre a educação a partir de leituras psicanalíticas... 67
3 A AGRESSIVIDADE NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO INFANTIL... 75
3.1 A viabilização dos espaços de fala – apontamentos sobre a metodologia... 75
3.2 A criança e a agressividade sob o olhar das educadoras... 80
3.3 O que fazer com a agressividade?... 92
3.4 Implicações da agressividade no processo educativo... 107
3.5 Agressividade – uma mensagem a ser lida... 115
CONSIDERAÇÕES FINAIS... 119
REFERÊNCIAS... 127
INTRODUÇÃO
Agredir, agressão, agressivo, agressividade... Tais palavras estão cada vez mais presentes no âmbito escolar, através do discurso de professores que se apresentam preocupados e perplexos frente às manifestações de agressividade apresentadas pelas crianças. Este é um tema que suscita muitos questionamentos aos profissionais da educação e que transparece através de suas queixas.
Constatamos tais preocupações, primeiramente, através do cotidiano das clínicas de psicologia, as quais recebem freqüentemente o encaminhamento de crianças e adolescentes, geralmente por indicação da escola, em função da agressividade. Chama a atenção o quanto as manifestações agressivas mobilizam as escolas e os educadores, a ponto de recorrerem a outro profissional para que possam lidar com essas questões. Entre outros fenômenos, o que é relacionado com agressividade ganha destaque, pois denuncia um certo limite à educação. Faz-se necessário buscar alguma alternativa, em outros campos do conhecimento que, talvez, possam dar uma resposta ao que parece fora do controle.
Ao trabalharmos em uma assessoria de psicologia escolar, direcionada a uma escola de educação infantil, constatamos que as indagações a esse respeito passam a tomar o foco das preocupações e queixas das professoras. A agressividade vai tornando-se o centro de uma nova experiência de trabalho.
As professoras relatam a dificuldade em trabalhar com alunos que se manifestam com atitudes agressivas, alegando que, mesmo usando várias alternativas e estratégias para o controle de tais situações, não obtêm sucesso em suas tentativas. Elas mostram um “não saber” em relação a esse fenômeno. Proibir brincadeiras que envolvam atitudes agressivas acaba sendo, muitas vezes, uma das formas utilizadas com o intuito de amenizar a agressividade presente entre as crianças, pois há o receio de que essas brincadeiras agressivas estejam incentivando a violência e, por isso, devem ser banidas. Percebemos uma certa imprecisão no uso dos termos violência e agressividade.
A agressividade que se evidencia no brincar e na fantasia das crianças marca com mais veemência esse “não saber” das educadoras. Matar, por exemplo, é considerada uma atitude errada. Como a escola iria consentir tal brincadeira? Ao mesmo tempo, reconhecem que parece haver uma necessidade por parte da criança de destruir determinado personagem, aniquilar aquele que a ameaça, mesmo que seja através de seu brincar.
Compreender que essa manifestação indica a existência de uma agressividade no pequeno ser humano não é tão simples, pois a noção de infância vem carregada de significações relativas à pureza, ao angelical, ao naturalmente bom. Começamos a nos questionar sobre quais possibilidades de se lançar um olhar diferenciado à questão da agressividade, se o discurso pedagógico ainda permanece com essa concepção de infância.
Essa trajetória vai indicando um tema a ser pesquisado. Tal temática, pertinente e atual, encontra espaço e suporte para ser discutida no Mestrado em Educação nas Ciências, cuja proposta amplamente interdisciplinar vai dando forma ao que antes eram apenas questionamentos.
Em vista dessas considerações iniciais, esta pesquisa tem como objetivo central identificar as concepções de agressividade no contexto da educação infantil e suas implicações no processo educativo. Tendo esta finalidade definida, optamos por discutir o
tema a partir do conceito de agressividade em psicanálise, dos principais fundamentos da educação infantil e do discurso dos professores de educação infantil.
Primeiramente, buscamos conceituar o termo agressividade, procurando diferenciá-lo do conceito de violência, a partir do senso comum, da filosofia e, com maior ênfase, da psicanálise freudo-lacaniana. Com base neste referencial, a agressividade é apresentada como uma tendência estruturante do eu. Para trabalhar com essa concepção, procuramos fazer uma retomada de como a questão da agressividade é apresentada e vai sendo elaborada na obra freudiana. Dentro ainda dessa discussão, as formulações de Lacan a respeito dessa temática são determinantes para o entendimento da agressividade como decorrência de um processo de constituição do eu.
Num segundo momento deste trabalho, constatamos que é imprescindível trazer alguns apontamentos acerca do universo da educação infantil, procurando identificar alguns pensamentos que constituem a base da educação direcionada às crianças da faixa etária pertencente a esse segmento do ensino. Como nosso objetivo se refere às concepções de agressividade no âmbito da educação infantil, entendemos ser pertinente o estudo dos seus fundamentos e das suas especificidades. Para essa discussão, recorremos a autores clássicos, como Rousseau, assim como a historiadores e estudiosos do campo da educação infantil.
Para identificarmos o que perpassa o discurso escolar a respeito da concepção de agressividade e das suas implicações no processo educativo, parece adequado e pertinente dar espaço para os sujeitos envolvidos diretamente com a problemática, pois o lugar do qual o sujeito enuncia-se tem relação com a sua verdade, com o seu posicionamento frente aos outros, dentro de uma rede de linguagem. O fato de esta pesquisa estar calcada na teoria psicanalítica, a qual pode ser definida como uma experiência que provém da palavra, justifica tal abordagem. Nesse sentido, além da metodologia ser composta por revisão bibliográfica, optamos também pela coleta de dados através de grupos focais, nos quais foi possível a escuta
das professoras de educação infantil, da rede municipal de ensino de Panambi/RS, que aceitaram o convite para debater sobre o tema principal deste trabalho, a agressividade na educação infantil. Na terceira parte da pesquisa, há referências às falas dessas educadoras, ilustrando a discussão realizada.
Ao discutirmos sobre a agressividade no âmbito da educação infantil, a aproximação da teoria com o campo empírico é inevitável. Nessa etapa da análise são levantados questionamentos que se referem às conseqüências advindas das concepções de agressividade no discurso pedagógico, procurando analisar as implicações de uma imprecisão das noções de violência e agressividade. Para finalizar, é problematizada a possibilidade de a educação conceber a agressividade como decorrência do processo de constituição do eu, ou seja, como movimento da formação de um pólo de enunciação e, portanto, de criação.
O tema central deste capítulo é o conceito de agressividade. Para falar sobre agressividade, podemos tomar vários caminhos. Podemos optar pela via jurídica, a partir dos crimes de agressão, a partir das patologias que geram comportamentos agressivos ou, ainda, a partir do senso comum, pois em geral há muitas falas a esse respeito, mas, quase sempre, com pouca fundamentação. Ao iniciar essa discussão, buscamos os significados mais gerais do termo “agressividade”, estabelecendo diferenciação com a palavra “violência”, já que ambas, em vários momentos, são tomadas como sinônimas. Entendemos como fundamental essa definição por supor que a falta de precisão pode gerar conseqüências, pois a forma como se concebe algo determina comportamentos e posicionamentos frente a determinado fator.
Para definirmos o que é a agressividade, é necessário identificar, primeiramente, o que se refere ao senso comum. Realizamos essa busca a partir do uso de dicionários e enciclopédias generalistas de grande circulação. Em seguida, buscamos a etimologia desses termos, pois a origem das palavras pode contribuir para o entendimento de seus significados. A filosofia é outro campo do conhecimento no qual buscamos fundamentação para ampliar a noção de agressividade. O interesse da filosofia pelo tema é apresentado através dos estudos de Hannah Arendt, em função da consistência de sua obra “Da violência”. Apesar dessa obra focalizar-se na questão do poder e da violência, é possível, a partir dela, tecermos algumas considerações sobre o foco deste estudo. Também recorremos aos estudos da psicologia sobre a agressividade, a partir das pesquisas de Konrad Lorenz, autor que se destaca dentro da sua área por buscar respostas sobre esse tema. Com maior ênfase, apresentamos os estudos psicanalíticos sobre a agressividade, formando a maior parte deste capítulo, pois esse é o referencial predominante de meu trabalho. Além disso, é nesse campo teórico que se
identificam maior coesão e consistência no que se refere às especificidades do termo agressividade, inclusive na distinção do uso da palavra violência.
1.1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE A AGRESSIVIDADE
Inicialmente, podemos ter uma rápida definição do termo agressividade, buscando o seu significado em dicionários de grande circulação. De acordo com a Grande Enciclopédia Larousse Cultural (1988), agressividade é definida como “tendência a atacar, a provocar” (p. 116). No dicionário de Celso Pedro Luft (1987), essa palavra é apenas citada como um substantivo relacionado ao adjetivo agressivo, o qual é conceituado como aquele que envolve ou denota agressão. Já agressão é apresentada como “1. Ação ou efeito de agredir v. 2. Investida física. 3. Ferimento; surra. 4. Provocação; insulto; ofensa.” (p. 16)
Muitas vezes, o termo agressividade acaba sendo usado como sinônimo de violência. Conforme a Grande Enciclopédia Larousse Cultural (1988), violência é “1. Qualidade ou caráter de violento. 2. Ação violenta: cometer violências. 3. Ato ou efeito de violentar.” (p. 6.084) Ao verbete “violento”, apresenta a seguinte explicação: “1. Que atua com força, com ímpeto; forte, impetuoso (...). 2. Em que se usa força bruta: ação violenta. 3. Colérico, irascível, arrebatado: gênio violento. 4. Intenso, veemente (...). 5. Contrário ao direito, à justiça, à razão: decreto violento.” (p. 6.084) No dicionário de Celso Luft, o verbete violência é complementado com a seguinte definição. “2. Constrangimento físico ou moral.” (p. 574)
Etimologicamente1, identificamos grandes diferenças. A palavra “agressivo” vem do latim: “gradior” que significa movimento para frente. Outra definição etimológica encontrada para o verbo agredir2 esclarece que, em latim, “ad” significa “na direção de”, e “gradí” se refere a “ir, caminhar”, fazendo observar que possui a mesma origem etimológica de
1
Cf. site www.sedes.org.br/Departamentos/formacao_Psicanalise/angustia_superego.htm.
2
Cf. nota de rodapé do livro “Jogo de posições da mãe e da criança: ensaio sobre o transitivismo”, de Jean Berges e Gabriel Balbo (2002, p. 125).
congresso, digressão e “gradus”, palavra latina sinônimo de passo, estágio, grau. Já a palavra “violência”, a partir do latim seria “violentia”, que significa fúria e impetuosidade.
Na filosofia, recorremos à obra de Hannah Arendt (1970), “Da violência”, na qual a autora estabelece uma relação entre o conceito de poder e de violência. Nesse estudo, Arendt faz referência a teóricos que se dedicaram ao estudo da agressividade humana, os polemólogos. A polemologia surgiu a partir da união de vários especialistas das ciências naturais: biólogos, fisiólogos, etnologistas e zoólogos com o objetivo de entender a agressividade no comportamento humano.
Para esses cientistas, o que ocorre com os humanos não difere muito daquilo que ocorre entre os animais. Arendt complementa, afirmando que, a partir de uma pesquisa realizada nas áreas sociais e naturais, o comportamento violento pode ser uma reação mais “natural” do que se supunha até então. Todavia, afirma que não é possível fazer uma exata correlação entre a agressividade e os demais instintos, os quais se evidenciam por necessidades orgânicas e também estímulos externos. Esses instintos não desaparecem, não cessam, pois a sua satisfação pode ser considerada vital. Já a agressividade, caso não seja provocada, ou seja, instigada, pode ser reprimida. Essa repressão poderia gerar acúmulo de energia e, a partir disso, eventuais explosões.
A agressividade, definida como um impulso instintivo, desempenharia o mesmo papel funcional no âmago da natureza que os instintos sexual e nutritivo no processo vital do indivíduo e da espécie. Mas ao contrário destes instintos, que são ativados por irresistíveis necessidades orgânicas por um lado, e por estímulos externos por outro lado, os instintos agressivos no reino animal parecem independer de tal provocação; ao contrário, a ausência de provocação leva aparentemente à frustração do instinto, à “repressão” da agressividade que, de acordo com os psicólogos resulta em uma acumulação de “energia” cuja eventual explosão será mais perigosa. (ARENDT, 1970, p. 34)
Konrad Lorenz (1903-1989), prêmio Nobel em 1973, é um dos pesquisadores que se destaca na tentativa de explicar a agressividade, sendo um precursor dessa discussão na psicologia. Lorenz é considerado o fundador da etologia, ciência que faz um estudo
comparativo dos comportamentos humano e animal. Em seu livro “Sobre a agressão” (1963)3, afirma a existência de um papel positivo da agressividade na sobrevivência da espécie, como o afastamento de competidores e a manutenção do território. Sustenta a idéia de que a agressividade, no ser humano, poderia ser orientada para comportamentos socialmente úteis. Explica, em seu livro “Por trás do espelho: uma pesquisa por uma história natural do conhecimento humano” (1973)4, que a luta e a guerra têm uma base inata no homem, a qual, mesmo assim, pode sofrer alterações. Para Lorenz, o comportamento agressivo não pode ser explicado behavioristicamente, ou seja, é um comportamento inato que não depende de estímulos, é adquirido sem a aprendizagem.
De acordo com os estudos desse pesquisador, esse suporte agressivo resultaria em poucos danos, mas em função do desenvolvimento cultural e tecnológico foram produzidos instrumentos, armas que multiplicaram o poder ofensivo do homem. Segundo Arendt, a razão é o que torna o homem mais perigoso do que qualquer outro animal, ou seja, justamente o que diferencia os homens dos animais, que é a capacidade de raciocínio, de reflexão, de planejamento, é o elemento que leva o homem a cometer as maiores atrocidades. “É o uso da razão que nos torna perigosamente ‘irracionais’” (ARENDT, 1970, p. 34). A autora afirma que, freqüentemente, associa-se a agressividade somente ao irracional, ao que não faz parte do humano, como se fosse do mundo animal. Na natureza, os animais sobrevivem através da caça, precisam matar para se alimentar, assim como necessitam usar suas defesas para se autopreservar. Já o homem, o qual se encontra fora do registro da natureza, mas inserido na cultura, usa sua razão para cometer as maiores atrocidades, de acordo com suas conveniências. Não há nada de irracional em grande parte dos atos violentos humanos, como a tortura, a guerra ou um crime premeditado. Contudo, Arendt afirma que quando a violência
3
Cf. COBRA, Rubem Queiroz. O técnico da agressividade e fundador da Etologia. Página de educação e
comportamento. Disponível em: http://cobra.pages.nom.br.ecp-lorenz.html. Acesso em 17 nov. 2005.
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perde a função de autopreservação, quando não há uma provocação natural, passa a ser irracional, tornando os humanos mais bestiais que os outros animais. “Utilizar a razão quando esta é usada como uma armadilha não é ‘racional’; assim como utilizar uma arma em autodefesa deixa de ser ‘irracional’ (ARENDT, 1970, p. 37)”.
A autora ainda ressalta que irracional seria a serenidade e o distanciamento frente às situações difíceis, pois a ausência de emoções não causa e nem promove a racionalidade, a apatia, sim, seria desumana. O que retira a característica de humano não são as emoções, mas a ausência destas. Portanto, o oposto de emocional não é o racional.
Arendt também se refere a autores como Sorel, Pareto e Fanon, os quais, muito antes de Lorenz teorizar sobre a função estimuladora da vida desempenhada pela agressividade, glorificavam a violência. Para esses autores, a violência está ligada à criatividade, a uma força criadora, pois a destruição e a criação seriam duas faces da mesma moeda. Contudo, Arendt faz a seguinte ressalva. “A prática da violência, como toda ação, transforma o mundo, mas a transformação mais provável é em um mundo mais violento” (ARENDT, 1970, p. 43). Aceitar a visão de que a violência é algo instintivo é uma maneira de conformidade com a destruição, como se não houvesse outra saída para compreender atitudes violentas do ser humano, pois não passaria de uma herança biológica, algo orgânico. Sendo essa a realidade, não haveria nada a ser modificado.
A resignação de que somos “instintivamente violentos” faz com que o homem se curve a uma inexorabilidade igual à da morte. Faz dela seu “destino biológico” ou o princípio e o fim de seu destino psíquico, social ou cultural. Não há, portanto, violência instintiva, porque falar de violência é falar de uma intenção de destruir. (VILHENA, 2002, p. 184)
Vilhena vale-se da definição de violência de Jurandir Freire Costa, autor do campo da psicanálise que se destaca por dedicar-se a temas sociais. Em seu livro “Violência e psicanálise”, propõe a seguinte diferenciação entre agressividade e violência. A violência
seria “[...] o emprego desejado da agressividade, com fins destrutivos” (2003, p. 39). A agressividade seria apenas um instrumento de um desejo de destruição. Apesar de fazer parte da constituição da violência, a agressividade não é o único fator responsável pelos atos violentos. Complementa essa definição, explicando que a violência animal ocorre devido a uma necessidade e a que é realizada pelos humanos é regida pelo desejo.
Para Costa, a ação agressiva ganha significado de ação violenta a partir da percepção do sujeito que sofreu a violência ou de algum observador externo de que o sujeito autor da violência possui o desejo de destruição. Portanto, para ele, não há violência instintiva, pois se está falando de uma intenção de destruir e de um reconhecimento de um ato como violento.
Quando a ação agressiva é pura expressão do instinto ou quando não exprime um desejo de destruição, não é traduzido nem pelo sujeito, nem pelo agente, nem pelo observador como uma ação violenta (COSTA, 2003, p. 40).
Ao referir-se a esse caráter interpretativo para definir se é ou não violência, Costa recorre ao conceito de ruthlessness, de Winnicott. Esse conceito remete à idéia de crueldade ou desumanidade que o bebê teria em relação a sua mãe, pois esta é para a criança apenas como o material nutritivo é para o animal. A agressividade do bebê recém-nascido é amoral. “É a mãe que devolverá ao bebê o sentido de ‘maldade’ ou ‘inocuidade’ de sua agressividade puramente instintiva” (COSTA, 2003, p.41). A mãe, na maioria das vezes, não vê propósito agressivo nos gestos espontâneos nem na voracidade do bebê, e acaba acolhendo a vitalidade e o amor voraz, retribuindo a partir de cuidados e carinho.
A partir da leitura desses autores que se dedicaram ao estudo da violência, assim como da agressividade, observamos uma certa indistinção entre esses dois termos. Há tentativas de diferenciação, mas identificamos a necessidade de avanço nesses estudos, ou seja, eles podem ser ampliados. A agressividade, sendo tomada como sinônimo de violência, pode ser tratada e considerada de uma determinada maneira. A concepção que se tem a respeito de um
determinado assunto permite que se tome uma posição, indicando a atitude a ser tomada. Questionamos, portanto, se essa indiferenciação pode ou não trazer conseqüências.
Na tentativa de definição do conceito de agressividade, nesta etapa do trabalho, a discussão é calcada na psicanálise. Essa referência passa a ser norteadora desta pesquisa devido à formação da pesquisadora, que se deu no curso de Psicologia da UNIJUÍ, cujo programa tem sua fundamentação na teoria psicanalítica. Portanto, neste capítulo, são apresentadas algumas considerações a respeito do conceito de agressividade dentro desse campo teórico.
1.2 A AGRESSIVIDADE NA TEORIA PSICANALÍTICA
A obra freudiana foi sofrendo transformações à medida que seu campo conceitual foi se enriquecendo a partir das experiências clínicas de Freud, imbricadas com os seus desdobramentos teóricos. Vários conceitos foram sendo reformulados, novos significados, novas articulações, novos termos, entrelaçados com o que já estava teorizado anteriormente. Essa produção é uma prova de que o conhecimento não é estanque, não se fecha, não se esgota, mas vai se construindo à medida que o pesquisador continua investigando, refletindo, elaborando. Esses desdobramentos também foram ocorrendo com o conceito de agressividade.
De acordo com Mezan (1982)5, os últimos vinte anos da obra freudiana foram dedicados ao estudo do fenômeno da agressividade, a partir do conceito de “pulsão de morte”. Mesmo assim, ainda antes de 1920, em vários registros já se constata o reconhecimento da existência da agressividade na vida psíquica. Mezan auxilia na identificação de tais momentos: na transferência negativa, nas resistências à terapia, no dito espirituoso hostil e na
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Este autor destaca-se em função da consistência de sua obra “Freud: a trama dos conceitos” (1982), na qual realiza um apurado estudo a respeito do desenvolvimento dos principais conceitos da teoria freudiana.
relação edipiana. Porém, a concepção de agressividade vai se modificando devido à conclusão de que não há uma independência das tendências agressivas, ou seja, elas não são totalmente isoladas das demais pulsões. Identifica-se a co-existência de tendências à ligação e à separação, de conservar e destruir. Eros e Tânatos estão interligados e não são mais considerados oposições.
Para avançarmos no tema em questão – a agressividade – percebemos a necessidade da compreensão e do desenvolvimento de algumas idéias chaves: as pulsões, a compulsão à repetição, a formação do eu e o processo civilizatório do homem.
1.2.1 Apontamentos sobre o processo civilizatório
Freud (1930) situa a civilização como o conjunto de obras, organizações e instituições que afastam o homem do estado animal dos seus ancestrais. Teria duas finalidades principais: proteger o homem contra a natureza e regular as relações dos homens entre si. Segundo Millot (1995), o primeiro objetivo foi alcançado, mas o segundo não obteve tanto êxito.
Pensando na história da civilização, a partir da análise de Freud, presente no início de sua obra, é possível observar que a crueldade e o instinto sexual estão ligados intimamente na vida de seus ancestrais. Até então, não havia muitos estudos sobre essas relações, a não ser o fato de serem ressaltados os elementos agressivos da libido.
No texto “Moral sexual ‘civilizada’ e doença nervosa moderna” (1908), Freud chama atenção para o fato de que a cultura se baseia na renúncia que cada indivíduo faz em relação à plenitude de seus poderes e suas inclinações agressivas.
Nossa civilização repousa, falando de modo geral, sobre a supressão dos instintos. Cada indivíduo renuncia a uma parte dos seus atributos: a uma parcela do seu sentimento de onipotência ou ainda das inclinações vingativas ou agressivas de sua personalidade. Dessas contribuições resulta o acervo cultural comum de bens materiais e ideais. Além das exigências da vida, foram sem dúvida os sentimentos
familiares derivados do erotismo que levaram o homem a fazer essa renúncia, que tem progressivamente aumentado com a evolução da civilização (FREUD, 1980, p.192).
O fato de os homens cederem dessa forma seria motivado por Eros, ou seja, pela possibilidade de se preservar a vida, contribuindo assim para o desenvolvimento cultural. Na época em que escreveu esse texto, Freud criticava a severa moral vitoriana. Para ele, a extrema renúncia às satisfações pulsionais seria a causa de doenças e, principalmente, das neuroses.
A experiência nos ensina que existe para a imensa maioria das pessoas um limite além do qual suas constituições não podem atender às exigências da civilização. Aqueles que desejam ser mais nobres do que suas constituições lhes permitem são vitimados pela neurose. Esses indivíduos teriam sido mais saudáveis se lhes fosse possível ser menos bons (FREUD, 1980, p. 197).
Os tabus que recaíam sobre a sexualidade, segundo ele, bloqueavam a investigação científica, ou seja, a interdição ao sexo também recaía no pensamento. Entendemos que o autor aponta alguns riscos que corriam os homens, ao esforçarem-se para se adaptar às exigências culturais. Segundo ele, estariam querendo ser superiores, sobre-humanos, acima de suas condições estruturais e, por isso, poderiam adoecer. Será que também estava se referindo à interdição das tendências agressivas? Que conseqüências teriam tais interdições? Qual o destino das pulsões ligadas à agressividade? Millot, pautada nos escritos freudianos, auxilia no esclarecimento dessas questões:
Homo homini lupus: é a agressividade humana que, erguendo os indivíduos uns contra os outros, representa uma ameaça para toda a comunidade e obriga a civilização a desviar a libido de seu fim primitivo para contrabalançar as forças dissolventes das tendências agressivas (MILLOT, 1995, p. 111).
Portanto, o sacrifício das tendências sexuais e agressivas é, primeiramente, considerado causador de doenças. Posteriormente, Freud conclui que não seriam as restrições
impostas pela civilização que trariam danos à psique e, dessa forma, não acreditava mais em uma prevenção das neuroses. Passou a considerar que fatores intrínsecos à constituição psíquica do ser humano, por si só, seriam responsáveis pelo desencadear de determinadas manifestações neuróticas.
No texto “Reflexões para os tempos de guerra e morte” (1915), escrito seis meses depois do início da Primeira Guerra Mundial, Freud afirma que não existe homem bom ou ruim, pois os “impulsos primitivos” da humanidade não desaparecem em nenhum dos indivíduos. Tais sentimentos malignos ficariam no inconsciente, a espera de momentos em que pudessem ser colocados em prática. A educação e a cultura teriam o papel de substituir as más inclinações do homem por uma tendência a fazer o bem. As moções primitivas sofreriam uma certa evolução até a vida adulta. Elas seriam inibidas, dirigidas para outras metas, mudariam seus objetos e se voltariam, em parte, sobre os mesmos. Isso aconteceria a partir das formações reativas: o egoísmo se transformaria em altruísmo, a crueldade, em compaixão. Nesse período, ele considerava que a reforma das pulsões fosse resultado de alguns fatores inatos, como o fato de pulsões egoístas se transformarem em pulsões sociais, pela necessidade do ser humano em ser amado, assim como de fatores externos que consistiam na educação e nas exigências do meio cultural. “A sociedade civilizada, que exige boa conduta e não se preocupa com a base instintual dessa conduta, conquistou assim a obediência de muitas pessoas que, para tanto, deixam de seguir suas próprias naturezas” (FREUD, 1980, p. 321).
Em várias etapas de suas elaborações, Freud se refere às tendências agressivas como moções primitivas, selvagens,... Para ele, o homem primitivo seria marcado por características malignas, destrutivas, repleto de sentimentos egoístas e impulsos cruéis.
Como marco desse pensamento, podemos nos referir a “Totem e tabu” (1913), obra em que Freud, embasado em Darwin, retrata a horda primitiva como modo de vida dos primórdios. Haveria um pai extremamente severo, o qual é assassinado pelos seus filhos. Em
seguida, comemoram comendo o pai, retratando uma busca de identificação, pois necessitam incorporar sua força. Posteriormente, se apresenta o sentimento de culpa, o arrependimento, o que torna o pai morto mais forte que antes, exigindo-se a criação de um totem. A partir daí, surgem as proibições, as interdições. Um pacto entre os irmãos passa a ser necessário, pois a rivalidade entre eles, em função do poder e da posse das mulheres, coloca em risco o grupo. Então passou a se instaurar a proibição do assassinato e se abdicou das mulheres do grupo, pois nenhum devia ou podia ser como o pai.
Segundo Freud, em seu trabalho “O mal-estar na civilização” (1930), haveria um impulso erótico interior que ordena os seres humanos a unirem-se em uma massa. Contudo, ele acredita que esse fenômeno ocorre devido a um sentimento de culpa. Esse sentimento, que os irmãos da horda primitiva sentem após o assassinato do pai, hipoteticamente, cada indivíduo desenvolveria com o complexo de Édipo.
1.2.2 O complexo de Édipo – inserção na cultura
Freud, a partir da filogenética, explica a estrutura que perpassa a vida de cada homem de maneira individual através de um processo semelhante: o complexo de Édipo. A idéia da horda primitiva, segundo Millot (1995), nunca foi provada, mas Freud não abre mão dela por observar que o complexo de Édipo aconteceu de forma universal, repetindo-se em todos os seus analisados. A abundância de amor e ódio em relação aos progenitores, a hostilidade entre irmãos e a necessidade de abdicar-se de algumas satisfações para a permanência em sociedade mantinham-se presentes.
Com o complexo de Édipo, Freud já admite que haja uma conjunção de desejos amorosos e hostis no início da vida de cada ser humano. A passagem pelo Édipo se dá entre dois ou três anos, tendo caráter universal. Esse conceito percorre toda a obra freudiana, sendo
de 1910 a primeira inserção com essa terminologia. Já em 1897, em uma carta que escreve a Fliess, refere-se ao mito grego de Édipo-Rei, como algo que lhe teria acontecido: sentimentos de amor em relação a sua mãe e ciúmes em relação ao seu pai.
Entender o conceito psicanalítico complexo de Édipo implica entender que o menino teria como objeto de desejo sua mãe e, portanto, rivalizaria com seu pai. Com a ameaça de castração, deixaria de desejar essa mulher que é do pai, passando a identificar-se com ele e ficaria livre para querer outra mulher que não fosse a sua mãe. Constata-se que a hostilidade e o amor ficam bem próximos. Já na menina, o complexo se inicia quando ela se percebe inferior em relação ao menino, pois já se sente castrada por constatar que não tem pênis. Isso gera uma hostilidade em relação à mãe por esta não lhe prover o falo, como tem o pai. Passa, por conseguinte, a desejar o pai. Porém, percebe que, para ter o pai, precisa identificar-se com a mãe. A dissolução do Édipo na menina não é tão clara como no menino, pois é como se ficasse em aberto, não resolvido, o que traria particularidades à psique feminina. Esse fenômeno estaria presente na vida de todos, mas tais recordações estariam sob efeito do recalque, o que dificultaria o acesso a essas lembranças ao consciente. Essa hostilidade apresentada na relação edipiana é identificada por Mezan (1982) como uma das maneiras como Freud aborda a questão da agressividade.
1.2.3 A teoria das pulsões
Por estarem amor e ódio tão próximos, essa ambivalência de sentimentos e desejos recebe um esclarecimento somente a partir da teoria das pulsões. Já em 1890, Freud indagava-se sobre a origem da força de viver do indagava-ser humano e sobre a fonte da força dos sintomas neuróticos, demonstrando que já suspeitava que se tratava de um mesmo tipo de força. Acaba concluindo que a pulsão pode ser conceituada como uma força constante, considerando-a um
conceito fronteiriço, ou seja, que está entre o anímico e o somático, como se fosse um representante psíquico dos estímulos provenientes do interior do corpo, alcançando a alma.
Muitas vezes, o conceito de pulsão é confundido com instinto, sendo usado, com freqüência, como um sinônimo. Em parte, isso acontece devido às traduções equivocadas que são feitas desse termo usado por Freud. É pertinente cogitar, também, a idéia de que a busca pela cientificidade da psicanálise desencadeasse essa tendência em usar termos mais próximos à biologia, ou seja, relativos às ciências exatas. Ao definir a diferença entre tais terminologias, é possível afirmar que o instinto se refere ao mundo animal, às necessidades orgânicas de cada ser. O animal, por exemplo, pensando de modo geral, logo ao nascer, vai, de forma instintiva, buscar os alimentos necessários a sua subsistência. Já o ser humano precisa ser apresentado por outro ser humano àquilo que vai satisfazer as suas necessidades. Dessa forma, apesar de haver a necessidade de alimentação, por exemplo, ele vai desejar alimentar-se com um ou outro alimento, não tendo uma forma específica ou determinada para satisfazer a fome de todos os seres humanos. Assim como em outras situações, nota-se que há algo diferente que move o homem no seu viver, ou seja, a pulsão é sua mola propulsora. O instinto, portanto, além de prescindir da alteridade, é pré-determinado, ao passo que a pulsão se organiza na mediação com o outro, nas relações sociais que ocorrem mesmo antes do nascimento do bebê humano, a partir da linguagem parental.
Como outros conceitos freudianos, o conceito de pulsão também foi se desenvolvendo durante toda sua obra. Na chamada primeira teoria das pulsões, Freud utiliza-se de duas categorias: as pulsões do eu ou de autoconservação e as pulsões sexuais. As pulsões do eu seriam exatamente relacionadas à conservação do próprio indivíduo, abarcando as grandes necessidades, como de alimentar-se, de defender-se, ou seja, das funções de importância vital. Já o segundo grupo, destinado às pulsões sexuais, seriam aquelas ligadas à sexualidade e à conservação da espécie, quando não deslocadas para uma das vias consideradas perversas.
Neste primeiro dualismo pulsional, as pulsões sexuais estavam ligadas exclusivamente ao princípio do prazer, as quais dificilmente se submeteriam a uma educação, trazendo ameaças ao equilíbrio do funcionamento psíquico.
Freud inicia um afrouxamento nessa dualidade com a noção de narcisismo, de 1914. Esse conceito é fundamental para o entendimento da constituição psíquica do sujeito. O narcisismo se refere ao fenômeno em que o indivíduo atribui ao seu corpo um tratamento semelhante ao que daria ao corpo de um objeto sexual. Segundo ele, todo ser vivo teria um egoísmo inerente à pulsão de autoconservação, procurando desvincular o narcisismo da idéia de perversão. O narcisismo é considerado estruturante do eu, pois no texto freudiano é afirmado que o eu não está presente desde o início da vida do indivíduo. Este primeiro investimento pulsional, chamado por Freud de auto-erotismo, participa desta estruturação.
Com essas elaborações, o autor inicia uma nova concepção acerca do dualismo pulsional, pois começa a afirmar que tanto as pulsões do eu como as sexuais atuam em união, com interesses narcisistas. Não mais haveria motivo para separação tão abrupta entre pulsões sexuais e pulsões do eu, pois o eu também passa a ser considerado objeto sexual. Em 1915, Freud escreve “Os instintos e suas vicissitudes”, obra na qual apresenta, com mais nitidez, esclarecimentos sobre a pulsão, considerado um conceito cabal para a teoria psicanalítica. É interessante que, logo no início desse texto, ele faz uma ressalva referente às tentativas de definir-se e conceituar, afirmando que o progresso científico não tolera nenhum tipo de rigidez e, nem ao menos, as definições.
Cada pulsão possui uma meta, um objeto, uma fonte e uma força. A meta de cada pulsão é invariável, mas o caminho que será usado para alcançar a meta pode ser diverso. É pelo objeto que se atinge a meta, ou seja, a satisfação. O objeto é o que mais sofre variações, não precisando ser sempre algo exterior, pois pode ser alguma parte do próprio corpo. A fonte é entendida como o processo somático, o qual provém do interior de um órgão. A força se
configura pelo seu fator motor, sendo a medida da exigência de trabalho imposto ao aparelho psíquico.
Ainda nesse texto, Freud apresenta os destinos das pulsões ou suas vicissitudes. São apresentados quatro destinos para as pulsões:
a) transformar-se em seu contrário (de atividade para passividade, de sadismo para masoquismo, de amor em ódio);
b) voltar-se para a própria pessoa, como no caso do sadismo que se transforma em masoquismo, pois a meta não se altera;
c) o recalcamento, considerada a “... pedra angular sobre a qual repousa toda a estrutura da psicanálise” (FREUD, 1980, p.26), consistiria no fenômeno de rechaçar algo da consciência e mantê-lo no inconsciente;
d) a sublimação, que é um processo inconsciente visto como o destino mais raro e mais perfeito, pois substitui um objeto sexual por um não sexual, alterando também seu objetivo, promovendo a produção de atividades valorizadas socialmente.
Pensamos que o entendimento dos destinos das pulsões seja importante para compreender a lógica da elaboração freudiana acerca da pulsão. Esse conceito toma outras proporções no decorrer de sua obra, e esta compreensão torna-se necessária, à medida que supomos que a agressividade decorre da pressão da pulsão na estruturação do eu.
Quando se fala em pulsões com referência à educação, logo se remete à sublimação, esse processo responsável pelas criações artísticas, pela vontade de saber, pela inventividade. Por mais que, nesta pesquisa, trate de assuntos diretamente ligados à educação, não trabalhamos o conceito de sublimação. Na procura das concepções de agressividade em educação infantil, atribuímos ênfase às pulsões de agressão.
Freud reluta, um bom tempo, em admitir a importância da agressividade. Já em 1908, a idéia de uma pulsão de agressão é defendida por Adler, mas Freud não leva em consideração. Como foi mencionado anteriormente, somente em 1920 ele começa a dar atenção aos fenômenos agressivos. No início da obra freudiana, a agressividade está presente quando se fala das relações entre amor e ódio, do sadismo e do masoquismo. Quando o objeto representa a sensação de prazer, há uma tendência a buscar uma aproximação com esse objeto que se ama. O inverso seria a tendência a procurar manter distância deste, e o ódio surge como inclinação à agressão. Mezan (1982) afirma que o ódio é a agressividade dirigida ao exterior, tendo sua gênese num duplo movimento de fusão e defusão, ligação e separação.
Freud afirma que ódio e agressão não podem ser aplicáveis às pulsões, mas que dizem respeito à relação do eu total com seus objetos. Tanto as pulsões de conservação como as pulsões sexuais requerem uma relação com os objetos, com o mundo externo. Primeiramente, o eu narcisista repulsa os objetos externos, pois há somente o auto-erotismo, e tudo que virá do exterior pode colocar em risco o eu que está em início de estruturação. Portanto, pode-se considerar que o ódio e a repulsa apresentam-se antes do amor no psiquismo humano, sendo fundamentais na constituição do eu.
O narcisismo estaria ligado às pulsões de autoconservação. Mas há uma época em que tanto as pulsões egóicas como as pulsões sexuais possuem interesses narcisistas e atuam em união, revertendo em amor a si mesmo. Esse tempo mítico, chamado por Freud de narcisismo primário, é marcado por uma suposta completude, um momento de total satisfação, em que mãe e bebê parecem ser apenas um, bem como no conceito freudiano de eu ideal.
1.2.4 Estádio do espelho e a constituição do eu
Para Lacan, a constituição do eu é entendida e ilustrada a partir do estádio do espelho (1949). Situado entre os seis a dezoito meses, poderia ser traduzido como “[...] uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem [...]” (Lacan, 1998, p.97).
Em função da imaturidade do sistema nervoso do bebê humano, ou seja, de acordo com as palavras de Lacan, “[...] por ser ainda mergulhado na impotência motora e na dependência da amamentação [...]” (Lacan, 1998, p. 97), a criança possui uma imagem fragmentada de seu corpo, não fazendo diferença entre seu corpo e o de sua mãe, por exemplo. O sujeito passa de um momento pré-especular para um eu constituído através da imagem especular narcisista. Somente a partir dos seis a oito meses a criança tem a sua primeira imagem unificada. O bebê observa-se no espelho e busca no olhar da mãe a confirmação de que esta imagem é sua. Como já mencionado anteriormente, o bebê humano (até os seis meses) traz sinais neurológicos e humorais de uma prematuração natal fisiológica. Então, essa imagem que vê é uma unidade ideal em relação à descoordenação profunda de sua motricidade. Por volta dos oito meses, caso duas crianças se confrontem (com dois meses e meio de diferença entre elas), constata-se um esforço de uma querer acompanhar os gestos da outra. Isso mostra que a criança vai antecipando no plano mental a conquista da unidade funcional de seu corpo ainda inacabado.
Para fundamentar esta elaboração, Lacan traz exemplos da biologia que demonstram o quanto a Gestalt possui efeitos sobre a formação de outros organismos.
[...] a maturação da gônoda na pomba tem como condição necessária a visão de um congênere, não importa de qual sexo – e uma condição tão suficiente que seu efeito é obtido pela simples colocação do indivíduo ao alcance do campo de reflexão de um espelho (LACAN, 1998, p. 99).
Constatamos, mais uma vez, o quanto as relações sociais estão imbricadas na constituição do eu, pois essa alienação ao Outro permite que a criança antecipe uma imagem de eu na qual ela se identifica. Essa alienação pode ser considerada uma condição necessária para a passagem de um corpo despedaçado para a formação da imagem de um corpo unificado, sendo uma forma de identificação.
Esse momento em que se conclui o estádio do espelho inaugura, pela identificação com a imago de semelhante e pelo drama do ciúme primordial [...], a dialética que desde então liga o eu a situações socialmente elaboradas (LACAN, 1998, p. 101).
Portanto, por mais que seja uma maturação de ordem natural, indica-se que a intermediação da cultura é indispensável, pois a constituição de seu eu se dá pelo desejo do outro. É a uma identificação estruturante que se está fazendo referência. Consideramos relevante destacar que, por mais que o autor situe o estádio do espelho como um momento, é possível afirmar que essa alienação ao Outro está presente em toda a vida do homem, pois não é um processo estanque, acabado. Em cada época do desenvolvimento humano, há alguma especificidade própria daquele período, mas não de forma pré-determinada, pois as singularidades são consideradas. A criança, por exemplo, estando nesse processo de estruturação do eu, encontra-se ainda confusa a respeito do que é o eu e do que é o outro, confundindo-se também com a sua imagem e nas relações com os que estão a sua volta.
A criança que bate diz que bateram nela, a que vê cair, chora. Do mesmo modo, é numa identificação com o outro que ela vive toda a gama das reações de imponência e ostentação, cuja ambivalência estrutural suas condutas revelam com evidência, escravo identificado com o déspota, ator com o espectador, seduzido com o sedutor. [...] Essa relação erótica, em que o indivíduo humano se fixa numa imagem que o aliena em si mesmo, eis aí a energia e a forma donde se origina a organização passional que ele irá chamar de seu eu (LACAN, 1998, p. 116).
Nesse período de transitivismo descrito por Lacan fica evidente uma ambivalência de emoções e uma agressividade estrutural do ser humano. A agressividade faz parte dessa
constituição da unidade e da imagem corporal, pois à medida que o sujeito está alienado ao outro, ele precisa opor-se para que possa constituir o seu espaço, a fim de não ser aniquilado por esse outro. De acordo com Sousa (2000), a agressividade seria o ruído do processo de constituição do eu.
A agressividade inscreve-se dentro do próprio processo de construção da subjetividade, uma vez que seu movimento ajuda a organizar o labirinto identificatório de cada sujeito. Ela deve ser entendida, portanto, dentro de um sistema “dialógico”, amparado amplamente pelo registro do simbólico Isto significa que a agressividade opera quando há reconhecimento pelo sujeito do objeto a quem ela endereça sua reivindicação agressiva. Um ato agressivo, que pode ter muitas faces e disfarces, seria simultaneamente uma resistência do Eu tentando marcar seus contornos identitários justamente quando o objeto (o Outro) ameaça seu lugar, mas também um pedido dereconhecimento e endereçamento de uma mensagem a este Outro (SOUSA, 2000, p. 146).
Soma-se a essas constatações o fato de que não há uma definição quanto ao desejo, o qual somente fica visível a partir do objeto de desejo. A definição do objeto de desejo também se delimita em função do outro. O seu objeto é objeto de desejo do outro, o qual se constitui numa concorrência agressiva, sendo aí que se origina a relação entre o outro, o eu e o objeto. Ao mesmo tempo em que se define o objeto, o eu se constitui. Ilustrando essa proposição, Lacan cita uma frase de Santo Agostinho, que já antecipara sinais dessa agressividade original.
– ‘Vi com meus olhos e conheci bem uma criancinha tomada pelo ciúme: ainda não falava e já contemplava, pálida e com uma expressão amarga, seu irmão de leite.’ Assim liga ele imperecivelmente, à etapa infans (anterior à fala) da primeira infância, a situação da absorção especular: a criança contemplava, reação emocional; inteiramente pálida, reativação das imagens da frustração primordial; e com uma expressão amarga, que são as coordenadas psíquicas e somáticas da agressividade original (LACAN,1998, p.117).
Essa espécie de rivalidade e de ciúmes faz parte do processo de identificação, o qual é interminável na vida do sujeito. Esse ciúme (original) vai ao encontro daquilo que Lacan fala sobre o “Eu é um outro” (1998, p. 120), pois para dizer quem é o eu, como ele é, reporta-se ao
outro. Essa referência também é determinante na satisfação do desejo humano, que somente se torna viável a partir da mediação do desejo e do trabalho do outro.
Como mencionamos anteriormente, a constituição do eu tem relação com a constituição do objeto e, a partir desse prisma, é possível pensar numa diferenciação entre agressividade e violência. Na agressividade, há uma determinação de objeto, um reconhecimento do outro. Na violência, retomando as considerações de Arendt (1970), não há esse reconhecimento. O ato violento destitui o lugar do outro, desqualificando e anulando. Oliveira (2002) fornece mais elementos para essa distinção, levando em conta a determinação do objeto.
A agressividade é dirigida a um objeto determinado. Ora, para a determinação do objeto da pulsão, é preciso necessariamente que o sujeito constitua representações de objeto. Sem a constituição dessas representações, que requer uma passagem da pulsão pela língua, não existe possibilidade de determinar o objeto da pulsão. Ou seja, a pulsão que não passa pela língua não tem objeto. Nesta circunstância, o agir hostil do sujeito não toma a via da agressividade, uma vez que não há objeto ao qual ela possa ser dirigida. Aquém da constituição do objeto, portanto, o sujeito passa ao ato, inscreve o seu agir no domínio da violência. A violência do seu agir está justamente no fato dele dispensar a língua (OLIVEIRA, 2002, p. 225).
No terceiro capítulo, essa diferenciação entre agressividade e violência é retomada e aprofundada, considerando as suas conseqüências no campo da educação.
Ainda sobre a questão da constituição do eu, pode-se afirmar que a imagem que o sujeito tem de si e que apreende no outro é de perfeição. Quando essa imagem é ameaçada ou se desfaz, demarca um momento de quebra narcísica, desencadeando a manifestação da agressividade. Nas fases da vida humana em que há uma metamorfose libidinal, nas quais há uma certa recusa de desenvolvimento, como no desmame, no Édipo, na puberdade, na maturidade, na maternidade, a agressividade está implicada.
Pensamos que o ingresso na escola, que ocorre geralmente na educação infantil, pode também ser um desses momentos que demarcam essa quebra narcísica. O simples fato de ir para a escola pode representar um corte na relação mãe-filho. Nesse período, muitas crianças
são desmamadas para que possam freqüentar a escola de educação infantil, o que traz mais um drama, associado ao ficar sem a mãe. Além disso, as crianças se deparam com uma instituição totalmente organizada, com horários, regras e hábitos, os quais, na maioria das vezes, não fazem parte do seu cotidiano. É nesse período que a criança busca sua individuação6, construindo o seu eu e, portanto, definindo quem é o outro. Então, acreditamos que a presença da agressividade nessa fase faz parte da realidade de quem trabalha com educação infantil, sendo justificada por esse abalo que o eu sofre em todo esse processo.
A instauração do complexo de Édipo também acontece nessa fase. Mesmo que, no decorrer da vida do sujeito, ele passe por várias reedições do complexo de Édipo, o que ocorre nesse período é marcado como uma primeira interdição. É imposta uma lei, a lei do incesto, a qual é preciso respeitar, para não sofrer as conseqüências de uma possível castração. Diante de um laço social, da instituição configurada pelo casal parental, a criança se pergunta sobre o seu lugar. Concomitantemente, depara-se com a escola, que pode ser considerada como um laço social ordenado, e formula o mesmo questionamento. A agressividade apresenta-se, nesses momentos de abalos no eu, como um modo de defesa, de não ser engolfado pela alienação ao outro e para impor-se diante da eminência da castração. Sendo todo esse processo de estruturação mediado pelo outro, percebe-se que a agressividade se direciona para um objeto determinado, ou seja, não é algo desvinculado da relação com o outro. E é nessa inter-relação que algumas instâncias responsáveis pela consciência moral são engendradas.
1.2.5 Instâncias responsáveis pela consciência moral
Nas suas elaborações, Freud descreve que o homem não consegue renunciar à satisfação uma vez alcançada, porém não pode mantê-la por toda a vida. Este período
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O termo individuação refere-se a um processo de separação do bebê de sua mãe, ou seja, de diferenciação entre aquilo que é o eu e o que é o outro.
narcísico de suposta perfeição, chamado de narcisismo primário, caracterizado pelo investimento libidinal que a criança faz direcionado a si mesma, não é sustentável. Esse narcisismo perdido é substituído por uma busca incessante que se configura pelo ideal do eu que, segundo Lacan, é uma instância pertencente ao simbólico7, pois regula a estrutura imaginária do eu, presente no eu ideal. Concomitantemente, surge o narcisismo secundário, em que o sujeito vai receber a libido que anteriormente dirigiu a objetos externos.
Portanto, para que o eu se desenvolva é necessário um certo distanciamento do narcisismo primário, quando a libido precisa ser deslocada para suprir exigências externas, para a satisfação que se dá através do cumprimento de um ideal, o ideal do eu. Parece contraditório, mas o desenvolvimento do eu requer o seu empobrecimento, pois agora a prioridade torna-se satisfazer o objeto. Caso isso não ocorra, continuará considerando a si mesmo o seu próprio ideal, cristalizando uma idealização dos tempos da infância. O ideal do eu impõe difíceis condições, mas ele é necessário para a manutenção da vida em sociedade. A educação pode ser vista como uma das condições para o convívio no social. As crianças, ao serem submetidas ao processo educativo, estão sendo inseridas numa cultura que, por sua vez, possui seus ideais, sendo depositária do ideal de eu de uma coletividade.
O ideal do eu é constituído por influências dos educadores, pela herança paterna, pelos ideais da sociedade, formando o que se chama de consciência moral. O ideal de eu exige bastante do eu, favorecendo o recalcamento e incitando a sublimação das pulsões, apesar de não ter capacidade de realizá-la, de forçá-la. Esse conceito se refere ao que é valorizado no supereu. Pertencendo à segunda teoria do aparelho psíquico da obra freudiana, esse conceito foi descrito como uma instância que se constitui após a dissolução do complexo de Édipo (1924), pois quando os investimentos objetais são abandonados, as imagens parentais são desinvestidas e substituídas por uma identificação. O supereu conserva, por toda a vida, as
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Simbólico, na perspectiva desta abordagem, remete ao que é do campo da linguagem, característica especificamente humana.
referências que lhe foram transmitidas, as exigências e interdições parentais interiorizadas. É como se fosse responsável por julgar o eu, pois está intimamente relacionado à questão moral, à auto-observação e à busca de cumprimento de ideais.
Dessa forma, pode-se dizer que, sendo o herdeiro do complexo de Édipo, o supereu traz a possibilidade de controle das moções destrutivas, mesmo que essa agressão seja interiorizada, revertendo em sentimento inconsciente de culpa. É pertinente afirmar que o supereu é a internalização da autoridade. Contudo, não é qualquer autoridade, mas é uma certa identificação com as proibições, interdições e princípios daqueles que o sujeito mais ama, mais admira, ou seja, pais, professores, aqueles que se envolvem com a sua educação.
O interessante é que a dissolução do complexo de Édipo também se dá no período em que a criança está na educação infantil, justificando, mais uma vez, o quanto essa fase da vida da criança é repleta de mudanças para ela, assim como é para os educadores, os quais precisam ser suportes dessas transformações.
1.2.6 Sobre a pulsão de morte
Quando se fala em busca de satisfação ou satisfação dos desejos, parece que está se fazendo referência apenas ao princípio de prazer. Freud reconhece que o princípio de prazer deriva do princípio de constância, indicando que muitas vezes se está em busca da diminuição das tensões, ou seja, em conservar o menor nível de excitação possível.
Referente a isso, Freud começa a se perguntar pela intensidade e freqüência com que as pessoas repetem situações desagradáveis, como se houvesse uma tendência masoquista nos seres humanos. São alguns exemplos: os sonhos que repetem situações traumáticas e as brincadeiras das crianças, quando representam momentos de privação em que, na realidade, estão passivas e, no jogo, estão ativas.
Essa passagem é ilustrada pela cena de um menino de um ano e meio que Freud observava. A criança jogava o carretel, preso a um cordão, longe de si e dizia “o-o-o”, que significava “fort”, ou seja, “se foi” e, em seguida, puxava de volta “da”: “aqui está”. Seria uma forma de a criança admitir, sem protestos, a partida da mãe. Uma renúncia pulsional necessária para suportar o que sofria passivamente. No dia-a-dia, o menino era afetado por essa ação, mas no brincar, tornava-se ativo e, por isso, repetia, apesar do desprazer.
A partir dessas constatações, Freud constrói o conceito de compulsão de repetição, definindo-o como o responsável por provocar prazer em um sistema e desprazer no outro, como se existisse algo que está além do princípio do prazer. Outro exemplo se refere aos sonhos de angústia ou sonhos punitivos, que trazem um castigo pelo cumprimento de um desejo proibido, revelando, assim, o cumprimento do desejo relacionado à consciência de culpa. Fala ainda a respeito da repetição de situações idênticas pela mesma pessoa, mesmo que sejam experiências de sofrimento. Cabe citar também a resistência à cura como uma forma de permanecer na dor, a partir da apresentação da pulsão de morte. No que tange ao tema deste trabalho, é possível pensar nas brincadeiras infantis repetidas inúmeras vezes, sendo que nem sempre são acompanhadas de sentimentos ou sensações agradáveis. As brincadeiras agressivas, que tanto assustam os adultos, são exemplos: derrubar a torre que levou tempo a ser construída; “matar” os inimigos; dar sustos; levar sustos repetidas vezes; esconder-se com medo de ser encontrado; brincar de pega-pega mesmo correndo o risco de ser pego e até derrubado; destruir inúmeras vezes o monstro do game favorito; assistir muitas e muitas vezes à parte do filme mais aterrorizante; pedir aos pais para que contem a mesma história, dando ênfase ao momento de maior tensão da narrativa etc.
As considerações sobre esse traço da psique humana encontram-se no conhecido texto de Freud de 1920, “Além do princípio de prazer”, o qual traz conceitos que são considerados
um marco dentro do movimento psicanalítico. A compulsão à repetição é um desses elementos. O outro se refere à pulsão de morte.
Até então, costumava-se associar o conceito de pulsão às mudanças, à transformação, mas agora seria visto como a expressão da natureza conservadora do ser vivo. Seria um esforço desenvolvido de forma inata, no orgânico do ser humano, com o objetivo de reproduzir um estado anterior. Contudo, Freud admite que “[...] além dos instintos de conservação que impelem à repetição, poderão existir outros que impulsionam no sentido do progresso e da produção de novas formas” (FREUD, 1980, p. 54 –55).
A hipótese apresentada por Freud é de que toda a pulsão gostaria de reproduzir algo anterior. O inanimado, a morte, é o anterior à vida. Para ele, as pulsões se empenhariam por alcançar uma velha meta através de velhos e novos caminhos, lembrando que a meta de toda vida é a morte.
A formulação das pulsões de autoconservação cai por terra. Já as pulsões sexuais, segundo Freud, conservam a vida por intervalos de tempo maiores. A oposição entre as pulsões pode ser descrita pela seguinte diferenciação: uma procura e alcança o mais rápido possível a meta final da vida, e outra se lança para trás. Mesmo assim, esse caminho para trás, em geral, não leva à plena satisfação, pois é obstruído pelas resistências, colaborando para a continuidade dos recalcamentos.
A partir desse ponto de sua teorização, Freud propõe um novo dualismo pulsional: pulsões de vida e pulsões de morte. Quando se fala em pulsões de vida, procura-se relacionar às pulsões sexuais, por essas levarem a uma certa imortalidade, já que a fusão das células germinativas daria continuidade à vida. Contudo, é preciso considerar que as células se sacrificariam individualmente para se fundirem e darem vida a uma nova célula. Portanto, também há morte nas pulsões sexuais. Da mesma forma, o autor conclui que nas pulsões do eu também haveria pulsões sexuais, pois as pulsões de autoconservação seriam libidinosas.
Essas constatações demonstram a inconsistência da divisão entre pulsões sexuais e pulsões egóicas. Nessa perspectiva, é possível entender a repetição de certas atividades por parte das crianças.
A criança em geral tende a repetir ativamente o que vivenciou de maneira passiva, como tentativa de dominar o mundo exterior a que se acha submetida: este é, como vimos a propósito da pulsão de morte, o sentido dos jogos infantis que envolvem um conteúdo agressivo (MEZAN, 1982, p. 291).
As pulsões de vida e de morte passam a ter um lugar central na teoria psicanalítica. No texto “O ego e o id”, de 1923, Freud afirma que essas duas classes de pulsões se encontram entrelaçadas. Cita o exemplo do ódio que, em muitas vezes, é o precursor nos vínculos entre os seres humanos, sendo o acompanhamento do amor. Em vista dessa dificuldade em separar onde estaria atuando uma ou outra pulsão, cogita-se a idéia de que não haveria pulsões, mas uma pulsão. Essa pulsão que é constante, que está intimamente ligada à constituição do eu, move o sujeito das mais variadas formas, dependendo das especificidades de sua estruturação. No texto “Novas conferências introdutórias sobre psicanálise” (1933[1932]), mais especificamente na 32ª Conferência: “Ansiedade e vida instintual”, Freud se refere às duas classes de pulsões como: pulsões sexuais (Eros) e as pulsões de agressão. Afirma que a bondade, vista como parte da natureza humana, é mais uma ilusão de que os homens se utilizam para embelezarem e trazerem alívio para suas vidas, porém, lhes resulta em mais danos, pois não passa de um engano. Não parece, portanto, que fica claro que a bondade estaria para as pulsões sexuais, referente a Eros, assim como a maldade ou a destruição estariam para as pulsões de agressão, referente à pulsão de morte.
1.2.7 A vida em sociedade
No texto de 1930, “O mal-estar na civilização”, Freud dedica-se a uma análise crítica a respeito da cultura, a qual é definida pelo autor da seguinte forma:
[...] a palavra ‘civilização’ descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos (FREUD, 1980, p. 109).
Como já mencionamos anteriormente, para ele, os homens tiveram de abdicar da total liberdade e da felicidade por uma parcela de segurança, ou seja, a cultura passa a regular as relações, a vida em sociedade em troca de uma certa proteção. A partir do desenvolvimento cultural, a sublimação das pulsões passa a predominar como se fosse o destino imposto pela civilização.
Para viver em harmonia, em sociedade, é necessário abdicar do poder individual e considerar efetivo o poder da comunidade. Mas existem algumas tendências humanas que parecem colocar em risco a paz e a suposta tranqüilidade do convívio social. Para Freud, há uma considerável quota de agressividade na carga pulsional do ser humano, impedindo que seja vista como um ser manso e amável, ameaçando, dessa forma, a unidade da vida em grupo. “Em tudo o que se segue, adoto, portanto o ponto de vista de que a inclinação para a agressão constitui, no homem, uma disposição instintiva original e auto-subsistente, e retorno à minha opinião de que ela é o maior impedimento à civilização” (FREUD, 1980, p. 144). Dessa forma, faz pensar que não há uma pulsão que seja responsável pela inclinação agressiva, mas que essa disposição pulsional levaria a tais manifestações.
A cultura passa a consistir num esforço grandioso para que essas inclinações agressivas não predominem nos vínculos, nos relacionamentos. É como se houvesse uma permanente ameaça de dissolução da sociedade, caso essas inclinações agressivas não