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Reformas pró-capital na educação escolar : a reestruturação do ensino médio pelo programa de educação integral de Pernambuco

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Academic year: 2021

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JADILSON MIGUEL DA SILVA

REFORMAS PRÓ-CAPITAL NA EDUCAÇÃO ESCOLAR: A REESTRUTURAÇÃO DO ENSINO MÉDIO PELO PROGRAMA DE EDUCAÇÃO INTEGRAL DE

PERNAMBUCO

RECIFE 2013

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JADILSON MIGUEL DA SILVA

REFORMAS PRÓ-CAPITAL NA EDUCAÇÃO ESCOLAR: A REESTRUTURAÇÃO DO ENSINO MÉDIO PELO PROGRAMA DE EDUCAÇÃO INTEGRAL DE

PERNAMBUCO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Pernambuco, como parte dos requisitos necessários para obtenção do título de Mestre em Educação.

Orientador: Daniel Alvares Rodrigues

RECIFE 2013

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Catalogação na fonte

Bibliotecária Maria Janeide Pereira da Silva, CRB-4/1262

S586e Silva, Jadilson Miguel da.

Reformas pró-capital na educação escolar : a reestruturação do ensino médio pelo programa de educação integral de Pernambuco / Jadilson Miguel da Silva . – Recife: O autor, 2013.

125 f. : 30 cm.

Orientador: Daniel Alvares Rodrigues.

Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Pernambuco, CE. Programa de Pós-graduação em Educação, 2013.

Inclui bibliografia.

1. Educação – Aspectos Econômicos. 2. Educação – Ensino Médio. 3. Pernambuco – Ensino Integral. 4. UFPE - Pós-graduação. I. Rodrigues, Daniel Alvares. II. Título.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE EDUCAÇÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

REFORMAS PRÓ-CAPITAL NA EDUCAÇÃO ESCOLAR: a

reestruturação do ensino médio pelo programa de educação integral de

Pernambuco.

COMISSÃO EXAMINADORA

_____________________________________________ Prof. Dr. DANIEL ALVARES RODRIGUES

1º Examinador/Presidente

_____________________________________________ Prof. Dr. DANTE HENRIQUE MOURA

2º Examinador

_____________________________________________ Profª. Drª. CLARISSA MARTINS DE ARAÚJO

3ª Examinadora

_____________________________________________ Profª Drª ERIKA SURUAGY ASSIS DE

FIGUEIREDO 4ª Examinadora

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AGRADECIMENTOS

O curso de mestrado representou em nossa trajetória um considerável amadurecimento teórico, acadêmico e político. Ao longo dessa jornada, destacamos o Centro de Educação da UFPE como o lugar, por excelência, que nos possibilitou as vivências acadêmicas, políticas, lúdicas e artísticas. Foi no CE onde vivenciamos, mesmo anteriormente ao curso de mestrado, uma universidade mais aberta a pensar as questões sociais. O diálogo entre universidade e movimentos sociais se deu de forma mais intenso neste centro.

Aqui tivemos nossos primeiros contatos com as elaborações teórico políticas que se colocam numa perspectiva de transformação da realidade, a partir das contradições do modo de produzir a vida que está em voga. Alargamos nossa compreensão sobre o processo educativo-formativo, que antes julgávamos tão restrito ao espaço escolar.

Assim, foram muitas as pessoas com as quais tivemos relações que repercutiram consideravelmente na nossa formação e, consequentemente, na consecução deste estudo.

Agradecemos, desta forma, aos companheiros do GEPMARX – Grupo de Estudos e Pesquisas Marxista da UFPE -, sobretudo a figura de seu coordenador e nosso orientador Daniel Rodrigues, pelo exemplo de intelectual engajado com as lutas sociais. Destacamos ainda o companheirismo dos colegas Alberto Cordeiro, Leandro Fontes e João Lopes também do GEPMARX. Agradecemos às contribuições obtidas com os companheiros do GEMOC – Grupo de Estudos sobre a Modernidade do Capital – sobretudo as pessoas de Maurício Gonçalves e Jocsã Carlos. Agradecemos aos envolvidos no Projeto Espaço Socialista que tem promovido debates importantes no Recife, sobretudo o coletivo do GEMARX. Agradecemos ao amigo Jetson Lourenço pela presença importante no desenvolvimento desse estudo e nas atividades político-acadêmicas. Não poderia esquecer a companheira Ana Pessoa, com a qual dividimos angústias típicas da pressão dos prazos acadêmicos. Agradecemos ainda às professoras Clarissa Martins, Erika Suruagy e Socorro Abreu pela participação e contribuição em nosso trabalho. Agradecemos também a todos os amigos da Turma 29 do PPGE e todos os demais amigos. E, por fim, destacamos o conforto e a doçura do seio familiar tão importante para mim ao longo de todos os meus anos.

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RESUMO

As reformas que se operam no âmbito da educação formal, especificamente na educação escolar, apresentam, no seio de uma sociedade capitalista, um caráter classista e estão articuladas ao movimento global de transformação das bases produtivas desse modo de produção da vida. Por sua vez, a regulação das relações sociais mediadas pela ação do Estado vai funcionar como uma tarefa necessária ao rearranjo das condições de recomposição da acumulação do capital. A partir da crise estrutural e cada vez mais profunda deste último, as reformas, seja no âmbito educacional ou em outras esferas, são expressões das estratégias de encobrimento das contradições inerentes a esse sistema e, ao mesmo tempo, execução de um programa fundamental para a consecução do seu avanço. Este estudo abordou a reforma expressada pela reestruturação do Ensino Médio na rede estadual de Pernambuco através do Programa de Educação Integral. Para aprofundar a compreensão da natureza dessa reforma, buscamos investigar determinantes históricos de ordem econômica, política e ideológica, munidos da hipótese de que o referido programa foi criado na intenção de atender aos requisitos político pedagógicos, postos a partir da crise do capital mais recente, para a educação dos trabalhadores. Pudemos, assim, localizar as relações dessa reforma específica ao conjunto de reformas educacionais conservadoras que vem se dando no país em diferentes momentos. Por sua vez, essas reformas estão articuladas aos desígnios de uma educação cada vez mais orientada no sentido de dar respostas à vida produtiva capitalista atual. Efetivou-se uma pesquisa bibliográfica no campo da pesquisa educacional que analisa as relações entre Trabalho e Educação. Posteriormente, à luz das categorias teóricas e analíticas – modo de produção, relações sociais, forças produtivas, luta de classes – demos impulso a análise documental e a realização de entrevistas com sujeitos envolvidos na gestão do Programa de Educação Integral de Pernambuco. Por fim, concluiu-se que a reestruturação do Ensino Médio através do Programa de Educação Integral guarda fortes relações com os aspectos das reformas educacionais impulsionadas pelas injunções do capital, em suas estratégias de saída de sua crise. Longe de ser uma escola que veio ofertar uma educação centrada na emancipação humana em relação ao trabalho alienado, o projeto em curso representa uma aproximação mais eficaz entre a educação e a vida produtiva capitalista nos limites atuais.

Palavras-chave: Crise do Capital - Reforma Educacional - Ensino Médio - Programa de Educação Integral

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ABSTRACT

The reforms that we have seen inside formal education systems, especially those ones performed inside the schools, presents, inside a capitalist society patterns, a very clear feature of a specific social class. Those reforms are related to the way we produce life into a capitalism society. For its turn, the State social regulations is necessary to get the conditions of a free development of capitalism back. From the latest structural capitalism crisis till now, the reforms at education area or other social areas, works as strategies to hide the capitalist contradictions. At the same time, they help capitalism development, besides of the crisis. This research analyzed the reform that occurred at Pernambuco Public High School System through its Integral Education Program. In order to understand deeply this reform we aimed to investigate ideological, political and historical causes. We headed the investigation with the hypothesis that this educational program was created under political and educational circumstances originated because of capitalism recent crisis. So, we could understand the relations between this specific reform and the other ones that have been performed in different historical moments. These reforms are concerned to a kind of education project that aims to follow the capitalist requests. We have done a bibliography research in the specific area of education named Work and Education. Then after, handing some theoretical and analytical categories – social relations, means of production, social class fight – we have done a documental analyze and some interviews with professionals from Pernambuco Integral Educational Program. We concluded that the transformations at high school features through Integral Educational Program have much to do with the features that have been seen in the general transformations causes by capitalism crisis and its way to recover from it. In fact, that’s not a new kind of school that promotes the human autonomy. It is an affective school that fits the education in a private logic.

Key-words: Integral Educational Program – Educational Reforms – Crisis of the Capital – High School

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LISTA DE ABREVIATURAS

BM – Banco Mundial

CEEGP - Centro Experimental de Ensino Ginásio Pernambucano FMI – Fundo Monetário Internacional

ICE - Instituto de Co-Responsabilidade pela Educação

KIPP - Knowledge is Power Program (O conhecimento é um programa de poder) LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação

OCDE - Organização para Cooperação e o Desenvolvimento Econômico OMC – Organização Mundial do Comércio

ONU - Organização das Nações Unidas OS - Organização Social

PDCA - Plan, Do, Chack, Act (Planejamento, Execução, Avaliação e Ação) PNE - Plano Nacional de Educação

POCENTRO - Programa de Desenvolvimento de Centros de Ensino Experimental TEAR - Tecnologia Empresarial Aplicada à Educação

TEO - Tecnologia Empresarial Odebrecht

Tese - Tecnologia Empresarial Socioeducacional TIC - Tecnologias da Informação e Comunicação

TWI - Training within Industry (Treinamento dentro da Indústria)

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SUMÁRIO

AGRADECIMENTOS

INTRODUÇÃO...10

CAPÍTULO 1: O CAPITAL E SUAS CRISES: REPERCUSSÕES SOBRE O TRABALHO E A FORMAÇÃO DO TRABALHADOR...16

1.1 Breve nota acerca das crises do capital e suas saídas...16 1.2 A saída da crise pelas mudanças na organização social do trabalho: a

reestruturação produtiva... 1.3 ...20

1.4 As crises e o Estado capitalista: reformas e rebatimentos nas políticas sociais, em especial na educação...28 1.5 O neoliberalismo na recomposição do capital em crise e suas incursões na

educação...36

CAPÍTULO 2: A AGENDA PARA A EDUCAÇÃO NA SAÍDA DA CRISE DO CAPITAL E O EMBATE CONTRA-HEGEMÔNICO...44 2.1 A escola e a formação para o trabalho assalariado: sua gênese e funcionalidade ao capitalismo...44 2.2 A retomada da Teoria do Capital Humano como mecanismo de saída da crise do capital pela educação...53 2.3 A Sociedade do Conhecimento: um mote recorrente que recai sobre a educação na saída da crise...59 2.4 O Relatório da Comissão Internacional sobre a Educação para o Século XXI da UNESCO...62 2.5 Formação baseada nas competências para a empregabilidade...72 2.6 Um embate contra-hegemônico no campo da educação: formação humana na perspectiva socialista...75 2.6.1 Politecnia e escola unitária...78

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CAPÍTULO 3: SOBRE A METODOLOGIA...85

3.1 Delimitação do campo da pesquisa...87

3.2 Delimitação dos sujeitos...87

3.3 Natureza e organização da pesquisa...88

3.4 Procedimento de análise...90

CAPÍTULO 4: O PROGRAMA DE EDUCAÇÃO INTEGRAL DA REDE ESTADUAL DE PERNAMBUCO: UMA SAÍDA DE ATENDIMENTO ÀS INJUNÇÕES DO CAPITAL NA PAUTA EDUCACIONAL...91

4.1 O modelo de escola charter: o protótipo do Programa de educação Integral...91

4.2 Os Centros de Ensino Experimental: o projeto piloto do Programa de Educação Integral...94

4.2.1 A proposta pedagógica dos Centros de Ensino Experimental...97

4.2.2 A gestão nos Centros de Ensino Experimental...100

4.3 O Programa de Educação Integral...102

4.3.1 A proposta pedagógica do Programa de Educação Integral: a continuidade da educação interdimensional...108

4.3.2 Resiliência, Autoajuda e Criatividade...112

4.3.3 A gestão tecnicista do Programa de Educação Integral...114

CONSIDERAÇÕES FINAIS...118

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INTRODUÇÃO

A dissertação aqui disposta consiste no resultado de nossa pesquisa sobre a materialização da reforma educacional realizada através do Programa de Educação Integral da rede estadual de Pernambuco. Ela foi realizada durante nosso curso de mestrado no Programa de Pós Graduação em Educação, na Universidade Federal de Pernambuco. Essa pesquisa buscou versar sobre o referido programa, localizando-o como componente de um conjunto estratégico de reformas pró mundialização do capital, operadas também no campo educacional e ainda em pleno curso no país. Logo, foi na vinculação dessa reforma representada pelo Programa de Educação Integral com um movimento histórico, econômico e político mais amplo, o fio condutor que nos permitiu explicitá-lo em seus mais internos processos, escamoteados numa aparência enganosa.

Segundo Neves (2004) os anos de 1990 e os anos iniciais de 2000 comportam um conjunto de reformas na educação escolar brasileira. Essas reformas se colocam na busca de adaptar a escola aos objetivos econômicos, políticos e ideológicos do projeto burguês mundial nessa etapa do capitalismo monopolista-financeiro. Destarte, o Programa de Educação Integral consiste num projeto educacional que está posto sob essa tendência hegemônica, com suas devidas particularidades.

Assim, ocorreu que a ampliação da reforma sobre o ensino médio na rede estadual após 2008, concretizando-se através da criação do Programa de Educação Integral, ainda guardou consigo os fundamentos político pedagógicos trazidos para a rede estadual por meio do projeto piloto dos Centros de Ensino Experimental, iniciado em 2004, que iniciou o processo de reforma sobre o ensino médio da rede.

Dessa forma, as mudanças no tempo da jornada de trabalho escolar, a reorganização das relações de trabalho dos docentes com esse programa, a rearrumação curricular, bem como outras de caráter pedagógico que atingiram diretamente o cotidiano da comunidade escolar, causaram impactos e expectativas entre professores e alunos. Ademais, a áurea promissora com que se revestiu essa reforma em melhorar os resultados da educação pública da rede estadual tem chamado atenção não apenas dos docentes e discentes, mas também de outros governos estaduais e até mesmo de um segmento da mídia.

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Ao passo que estávamos inseridos nos meandros dessa reforma que se abateu sobre o ensino médio, como professor da rede pública estadual, pudemos vivenciar in loco os desdobramentos da mesma na totalidade do projeto político pedagógico escolar. Houve mudanças plausíveis na organização pedagógica escolar, com a inserção de disciplinas complementares assim como projetos e parcerias na gestão com agentes externos. Essa percepção favoreceu um florescer de questões sobre o fenômeno em curso. Tudo isso influenciou, direta e indiretamente, no surgimento de perguntas pelas quais pudemos orientar nosso estudo. Dessa forma, buscamos desenvolver um estudo no âmbito da universidade por julgar a ultrapassagem do senso comum, através do conhecimento acadêmico científico, uma forma de conhecimento importante e também ferramenta de transformação da realidade. Segundo Minayo (2010) A escolha de um tema não emerge espontaneamente, da mesma forma que o conhecimento não é espontâneo. A escolha do tema surge de interesses e circunstâncias socialmente condicionadas. É, pois, fruto de determinada inserção no real.

Buscamos aprofundar a compreensão das circunstâncias que determinaram as condições de implementação da reforma educacional para o ensino médio na rede estadual de Pernambuco, tendo como corte o Programa de Educação Integral de Pernambuco. Para isso, primeiramente supúnhamos que o que realmente levou à criação da “nova” escola para o ensino médio não era necessariamente a vontade de “salvar” a escola pública do suposto caos em que se encontrava. Muito menos consistiu em impulso a vontade de oferecer uma educação de melhor qualidade social para os filhos e filhas da classe trabalhadora, principal demanda da escola pública no contexto brasileiro e pernambucano.

Assim, surgiu a primeira hipótese de que essas mudanças estavam articuladas a um movimento maior, e seus determinantes não eram apenas frutos de uma conjuntura local, mas, por outro lado, de determinantes sócio-econômicos e ideo-políticos que ultrapassavam as fronteiras do próprio estado de Pernambuco e do próprio país. Abrimos, dessa maneira, a trilha de um estudo cujo caráter de totalidade dialética não poderia estar ausente.

Os fundamentos da reforma sobre o ensino médio, materializada na particularidade do Programa de Educação Integral de Pernambuco, tinham como pano de fundo todo um processo histórico vinculado, sobremaneira, à própria crise do capital, despontada nos anos 1960-70. As estratégias que a classe capitalista

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dominante lançou mão na recomposição da acumulação do capital provocou um reordenamento no conjunto das relações sociais capitalistas nas últimas décadas em nível mundial. A educação não ficou ilesa a esse processo. Diante da crise do capital, a conjuntura levou às mudanças na organização do Estado e na educação do trabalhador.

Ao dissecarmos os traços que estão presentes no Programa de Educação Integral de Pernambuco, num primeiro momento, percebemos que a determinação real dessa reforma, de fato, não foi aquilo que o discurso governamental e empresarial espalhou aos quatro ventos: uma educação de melhor qualidade para o aluno da escola pública simplesmente. Percebemos que foi, em linhas gerais, a necessidade de ofertar uma escola e uma educação mais adequada aos requisitos e anseios atuais do capital que forneceu a lenha para a fogueira dessa reforma.

A questão primária que nos ocorreu então foi: Quais os reais determinantes da reestruturação sobre o ensino médio na rede estadual através do Programa de Educação Integral de Pernambuco? Daí, buscamos conhecer e analisar determinações sócio-históricos, políticas, econômicas e ideológicas para darmos conta de forma mais densa da compreensão da reforma pela qual está passando a educação básica, mais especificamente o ensino médio propedêutico na rede estadual.

Como modo de precisarmos o caminho de nosso estudo chegamos à hipótese central, mais elaborada, de que o projeto de reforma educacional que consiste no Programa de Educação Integral de Pernambuco está posto no intuito de atender com maior efetividade às injunções emanadas do capital em sua agenda político pedagógica para a formação da força de trabalho frente ao contexto de enfrentamento da crise de acumulação capitalista, nos limites da particularidade regional.

Na execução dessa tarefa, nosso estudo buscou elementos da discussão teórica acumulada no campo de trabalho e educação, pela nossa aproximação com a perspectiva desse campo e por julgar ser o mesmo capaz de oferecer categorias para desvelar nosso objeto nos termos em que colocamos nossas questões. As relações trabalho/capital e suas implicações nos processos educacionais são de grande relevância nas pesquisas do campo de trabalho e educação e o nosso estudo se insere nesse âmbito. Ainda nesse campo, conseguimos extrair

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fundamentos que nos ajudaram a apontar alternativas à reforma em curso, pois a mesma consiste numa influência da lógica do capital sobre a educação.

Ao tratarmos do Programa de Educação Integral, cabe uma breve menção nesse espaço - pelo seu caráter de complementaridade temática - a dois estudos recentes realizados aqui no estado de Pernambuco. Trata-se dos estudos de Leite (2009) e de Henry Junior (2010). O primeiro tratou da forma como se deu o processo de parcerias no setor educacional na rede estadual de Pernambuco entre o governo e a iniciativa privada através de um estudo de caso sobre o Ginásio Pernambucano, que se transformaria no primeiro Centro de Ensino Experimental, protótipo do programa por nós estudado. O segundo estudo, ideologicamente alinhado aos anseios conservadores sobre o campo educacional, versou sobre as possibilidades de se replicar na íntegra o modelo dos Centros de Ensino Experimental, tal como previa a proposta na fase inicial do projeto. Este último trata-se de um estudo arquitetado em torno de perguntas elaboradas acerca dos percalços à ampliação do projeto dos Centros Experimentais. Ao respondê-las, o autor apresenta uma forte argumentação calcada em mensurabilidade técnica apontando que seria possível o modelo para toda a rede estadual. Apresenta, assim, um estudo técnico com uma forte semelhança ao de uma consultoria educacional privada.

De nossa parte, ao estudar a reforma educacional realizada através do Programa de Educação Integral, pensamos que ajudamos na compreensão mais totalizadora do objeto, que leva em conta as bases materiais que sustentam esse tipo de reforma educacional. Ao mesmo passo, se oferece elementos teóricos e políticos de complementaridade, aprofundamento e de confronto aos dois estudos citados acima, que versaram sobre temáticas extremamente próximas. Assim, intentamos explorar um movimento da realidade do objeto que o considera como um produto histórico, cujas raízes múltiplas estão assentadas em processos de alcance mundial.

Para darmos norte ao estudo, elaboramos como objetivo geral: explicitar as relações e nexos estabelecidos entre a reestruturação em curso do ensino médio pelo Programa de Educação Integral com a proposta do capital de formação da força de trabalho com vistas ao enfrentamento da crise. E, como objetivos específicos, estabelecemos: 1) Analisar a concepção de educação para o ensino médio presente no Programa de Educação Integral; 2) Identificar as influências teórico políticas

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presentes na implementação dessa reforma educacional; 3) Evidenciar os aspectos políticos-pedagógicos do referido programa;

Para desenvolvermos o percurso de nosso estudo lançamos mão, em termos metodológicos, de uma pesquisa calcada no materialismo histórico dialético, cujo caráter de totalidade da realidade é importante. É na apreensão das múltiplas determinações onde encontramos uma possibilidade concreta de desvelar os movimentos mais internos da realidade. Ainda utilizamos a pesquisa documental e a entrevista semi-estruturada como instrumentos metodológicos necessários para o percurso da pesquisa.

Como forma de apresentação de nosso estudo, estruturamos a dissertação em três capítulos, na intenção de promover uma mais clara explicitação de nosso objeto. Os capítulos, na forma em que se sucedem, procuram fundamentar uma compreensão dialética, na medida em que fornecem elementos mais abrangentes para um posterior desvendar de movimentos internos, mais particulares. No mesmo compasso, a leitura pode fazer uma espécie de caminho inverso, no sentido de encontrar determinantes dos aspectos e movimentos mais internos numa realidade que é mais ampla, mais totalizadora.

Desse modo, resgatamos no primeiro capítulo um dado que pode ser considerado o grande impulsionador das transformações operadas na organização social do trabalho, na ação estatal e na reforma de ordem política caracterizada pelo avanço do neoliberalismo: trata-se da crise do capital. A partir desse ponto, pudemos localizar uma grande referência para balizar a nossa análise para mais adiante, pois é o modo de produção capitalista que regula as relações sociais atuais.

No segundo capítulo, atentamos em fazer as mediações dessa crise do capital com a educação. Através das transformações no Estado, na base produtiva e na política, pôde-se alcançar a esfera educacional através de elaborações político-teóricas norteadoras que ajudaram nas reformas da educação dos trabalhadores. Ainda nesse capítulo, fizemos um resgate histórico das relações entre a escola e o modo de produção capitalista, como mais um suporte na compreensão de nosso objeto. Por fim, ele ainda traz um apanhado conciso sobre as contribuições do campo de estudos de Trabalho e Educação. Ao compreendermos o programa por nós analisado como um projeto conservador de uma ordem capitalista cada vez mais controladora, surgiu a forte necessidade de apontar perspectivas em

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contraposição ao quadro da realidade encontrada. Nesse ínterim, foi nos estudos desse campo onde encontramos elaborações de uma agenda contra-hegemônica.

No terceiro capítulo trazemos com maior profundidade a construção metodológica de nossa pesquisa. Isso ajuda, sobretudo, na compreensão do quarto capítulo que se aproxima da materialização da reforma sobre a educação, através de uma análise mais esmiuçada do Programa de Educação Integral de Pernambuco. Buscamos resgatar os moldes precursores dessa reforma, bem como evidenciar os aspectos políticos pedagógicos desse programa. Localiza-se, nesse capítulo, uma análise mais empírica daquilo que vínhamos tecendo num âmbito mais geral.

Por fim, registramos nossas considerações finais, e indicamos os estudos e documentos fundamentais em nossa pesquisa na lista de referências.

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CAPÍTULO 1 – O CAPITAL E SUAS CRISES: REPERCUSSÕES SOBRE O TRABALHO E A FORMAÇÃO DO TRABALHADOR

O Programa de Educação Integral acompanha as tendências de reforma operadas no âmbito da educação formal das últimas décadas. Por sua vez, essas reformas educacionais estão relacionadas ao movimento mais geral de crise global do capital e de suas estratégias de recomposição a partir dos anos de 1970. Assim, as bases materiais de produção do sistema capitalista bem como as relações capital/trabalho nos oferecem as condições de apreensão dos nexos e determinações da educação escolar nas últimas décadas, especialmente nos anos correntes. Sem essa vinculação, todavia, podemos cair num problema de compreender essa educação formal por fora das relações sociais. Portanto, poderia ser uma compreensão que abordaria a educação sem levar em conta a disputa de projetos que perpassa o campo educacional. Assim, é pela opção de considerar as repercussões do modo de produção capitalista, que guiaremos nossa análise.

1.1 Breve nota acerca das crises do capital e suas saídas

O capitalismo, modo de produção sob o qual vivemos hoje, se colocou como modo de produção da vida aos poucos, em contraposição ao feudalismo. Sua gênese e desenvolvimento inicial entre alguns estudiosos é fruto de muita polêmica. Existem argumentos diversos, desde os que apontam o fortalecimento do comércio e das cidades como determinante para o advento do capitalismo até os que localizam na forma de propriedade dos meios de produção, a terra em específico, tais determinantes (SWEEZY, 1977). Há aí, portanto, uma controvérsia sobre as causas que alçaram primeiramente a Europa Ocidental para o capitalismo e, consequentemente, o restante do mundo. O estopim estaria na produção ou na circulação? Ou haveria uma concomitância desses fatores? Esse, pois, é um debate entre pesquisadores que ainda rende muitas explicações, mas que tem importância para entendermos a sociedade atual em sua gênese e também fundamentar o contexto maior no qual se encontra o objeto de nossa pesquisa, visto que é nas múltiplas relações estabelecidas entre o nosso objeto e o modo de produção

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capitalista que nos debruçaremos para compreendê-lo em seu movimento real e histórico.

O que é certo é que uma vez consolidado o capitalismo como modo de produção da vida, algo posto sob muitas resistências e conflitos, o mesmo logrou ao longo de um tempo relativamente pequeno um alcance sobre todos os recantos e sociedades do planeta, levando consigo seu modus operandi e suas contradições para os mais diversos povos, acomodando-se e entrando em conflito com o modo anterior de produzir a vida destas sociedades. Assim, o capital atingiu um nível tal de hegemonia que, baseadas no senso comum, as pessoas pensam ser este o eterno e único modo de produzir as condições necessárias à vida humana. Houve, assim, uma consequente naturalização do capitalismo e das relações sociais dentro de seus limites.

No entanto, há algo com que o capital tem se defrontado frequentemente em sua história, causando sempre grandes transtornos e transformações nas estratégias de sua acumulação e, consequentemente, na vida dos trabalhadores: são as crises. Essas, por sua vez, são frutos das contradições das leis históricas que regem o próprio capital, são inerentes ao mesmo e colocam na ordem do dia a urgência de estratégias para a continuação de sua acumulação e vigência. A crise, assim, não surge de algo externo ao sistema do capital, mas sim nas entrelinhas da própria dominação do capital sobre o trabalho. Ou seja, a condição de não realização das mercadorias produzidas, caracterizada numa superprodução advinda, sobretudo, do avanço das forças produtivas em contradição com as relações sociais, tem sempre ocasionado transformações na totalidade das relações sociais no modo de produção capitalista. Alia-se a isso, mais recentemente, a intensa concorrência internacional com o movimento de mundialização do capital.

Mas não é como fruto das próprias contradições do capitalismo que a crise é explicitada pelos intelectuais engajados com a hegemonia burguesa. A exemplo da crise dos anos 1970-90, forjaram-se sempre elaborações para dar conta daquilo que supostamente se constituía nas suas causas.

No olhar vesgo da burguesia, a crise atual, uma vez mais, aparece como um desvio das leis ‘naturais do mercado’. A pedra de toque dos neoconservadores está na crítica à excessiva intervenção e agigantamento do Estado e, postula-se, como remédio, a volta da ‘regulação’ do mercado e as políticas monetaristas. (FRIGOTTO, 2010, p.84)

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Como se num movimento de idas e voltas, outrora, na crise de 1929, o que se viu foi a orientação de o Estado assumir a responsabilidade da regulação de um mercado irresponsável que jogara a economia capitalista mundial num moinho de distúrbios. Agora, evidencia-se o suposto afastamento do Estado para um suposto bem estar do mercado.

Para Karl Marx (2006), estudioso no qual baseamo-nos fundamentalmente, estudar a regularidade das leis que são inerentes ao capital e as contradições que tendem a levá-lo a crises, foi um trabalho de uma vida inteira, mas que até hoje nos ajuda a elucidar as questões que discorreremos nessa pesquisa. Assim, ao analisarmos a acumulação histórica capitalista, a primeira característica que salta aos olhos é a subsunção do trabalho ao capital. O caráter pernicioso dessa relação tem reservado ao trabalho, fundamento ontológico da produção da vida pelo homem com a natureza, um aviltamento do sentido humano do mesmo. O homem, enquanto ser social e histórico que se constrói através do trabalho, não tem reconhecido neste uma forma de engrandecimento pessoal e alargamento de suas possibilidades humanas. O trabalho no advento do capital torna-se estranhado, alienado, ou seja, algo que não contribui para a instituição da vida de forma humanizadora, mas antes, coisifica os homens e suas relações. Dessa forma, de antemão, podemos apontar que as saídas das crises capitalistas estão sempre diretamente relacionadas a arrochos para a classe trabalhadora e mudanças outras para a classe dominante, em nome da manutenção de uma maneira de produzir a vida em que os limites da lógica da mercadoria parecem insubstituíveis. As crises, sempre necessárias ao capital como uma forma de dar um salto adiante, é um processo também caracterizado pela destruição das forças produtivas então disponíveis. Nesse sentido, as transformações atingem o conjunto das relações sociais, incluindo também a própria classe dominante. A questão é que os benefícios dessas reestruturações sempre geram e concentram as riquezas fundamentalmente nas mãos da classe dominante, ao passo que intensifica a exploração sobre a força de trabalho.

No enfrentamento das crises, essa parceria capital-trabalho se torna ainda mais dura para o último. A retroalimentação da locomotiva capitalista tem significado, historicamente, mudanças no trabalho que lhe rendem um caráter cada

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vez mais alienante e pauperizante. Às classes trabalhadoras, indispensáveis no processo de saída das crises, as reformas políticas e econômicas às tornam mais vulneráveis no que tange ao aparato das políticas sociais. Aqui, não é surpresa vermos que na mais recente erupção da crise eclodida em 2008 nos EUA e que ainda se segue, cujo epicentro hoje está nos países europeus onde os trabalhadores alcançaram um Estado de Bem-Estar Social, a redução e extinção das políticas sociais são o primeiro e principal ataque por parte dos capitalistas e suas agências sobre os trabalhadores e suas conquistas. Mas vale lembrar que essa crise é apenas a continuação da crise iniciada nos anos 1970-90 que, por sua vez, é uma sequência da própria crise estrutural do capital.

[...] a crise dos anos 1970-90 não é uma crise fortuita e meramente conjuntural, mas uma manifestação específica de uma crise estrutural. O que entrou em crise nos anos 1970 constituiu-se em mecanismo de solução da crise dos anos 1930: as políticas estatais, mediante o fundo público, financiando o padrão de acumulação capitalista nos últimos cinquenta anos. A crise não é, portanto, como explica a ideologia neoliberal, resultado da demasiada interferência do Estado, da garantia de ganhos de produtividade e da estabilidade dos trabalhadores e das despesas sociais. Ao contrário, a crise é um elemento constituinte, estrutural, do movimento cíclico da acumulação capitalista, assumindo formas específicas que variam de intensidade no tempo e no espaço. (FRIGOTTO, 2010, p.66)

As crises sempre trazem consigo uma materialidade específica, apesar de sua mesma gênese estrutural. Cada novo elemento que se coloca para enfrentar a crise em andamento se torna um obstáculo num momento posterior. Se a entrada do Estado foi a solução para a crise de 1929, posteriormente este mesmo Estado foi apontado como a causa da crise nos anos 1970-90 pelos neoliberais (FRIGOTTO, 2010). É como se fosse um jogo no qual a solução sempre se transformasse no próximo desafio. Vale lembrar, entretanto, que a crise que estamos encarando nos dias atuais tem um caráter universal - porque não se restringe a um ramo específico - e global, porque não se limita a poucos países (ALVES, 2011)

É justamente nos momentos de recomposição do capital que aparece com grande frequência a palavra reforma como algo extremamente fundamental. Torna-se algo imperativo à conTorna-secução da acumulação as reformas que atingem o âmbito econômico, político, ideológico, etc. Evidentemente que essas reformas são

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apresentadas como indispensáveis para o conjunto da sociedade, havendo aí um grande esforço de natureza ideológica para sua disseminação, aceitação e materialização. E para salvaguardar as condições necessárias para o prosseguimento da acumulação não se leva em conta se isso acarretará um maior sufoco por parte do trabalho, explorado pelo capital. Essas reformas podem adquirir uma abrangência estrutural e atingir diversos campos da nossa sociedade, em especial o campo educacional, setor de relevância na nossa pesquisa.

Por sua vez, essas reformas necessárias para assegurar os interesses hegemônicos foram implementadas pelos agentes constituídos historicamente, respaldados pela sociedade e que, sobretudo, foram indispensáveis na mediação do trajeto para esse modo de produção. O Estado Moderno e suas faces subsequentes é o agente fundamental na articulação desse processo. Geralmente colocado como um ente que não representa os interesses de qualquer classe, mas garante o convívio das diferentes classes em seu conjunto, o Estado frequentemente figura em muitas análises como uma instituição que está para além do conflito capital-trabalho. Aparece como se fosse uma coisa exterior a esse conflito, sobreposto de forma idealizada em relação à luta de classes. Entretanto, apreendendo o movimento real do Estado, percebemos seu papel fundamental na manutenção e desenvolvimento do capitalismo. É sobre o papel de mediação estatal para saída da crise que retomaremos mais adiante. Antes, porém, é adequado passarmos sobre o contexto de mudanças evidenciadas na organização da produção a partir da década de 1980, fundamentalmente caracterizada pelo incremento de uma nova base técnico-científica. Essas mudanças conformaram transformações na ação estatal e, consequentemente, nas políticas educacionais.

1.2 A saída da crise pelas mudanças na organização social do trabalho: a reestruturação produtiva

Pelas relações historicamente conformadas entre os imperativos do modo de produção capitalista e os sistemas educacionais, a reorganização evidenciada no âmbito da base produtiva no contexto de saída da crise capitalista dos anos 1970-90, apresenta-se como ponto fundamental na compreensão mais aprofundada de

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nosso objeto. Este último é, em certos aspectos, decorrência dessas mudanças. Um novo padrão de acumulação sob a advento do toyotismo estava sendo implantado em todo o globo para a reconstituição da base de produção do capital. Estava em curso, portanto, uma reestruturação produtiva.

O movimento de posição (e reposição) dos métodos de produção de mais-valia relativa denomina-se reestruturação produtiva, em que o capital busca novas formas de organização do trabalho mais adequadas à autovalorização do valor. [...] O que surge, hoje, com o novo complexo de reestruturação produtiva, cujo momento predominante é o toyotismo, é mais um elemento compositivo do longo processo de racionalização do trabalho vivo que teve origem com o fordismo-taylorismo. (ALVES, 2011, p.33,34)

Foi então na década de 80 que consideráveis transformações passaram a tomar corpo na alçada da produção. O salto tecnológico significativo, a automação, a robótica e a microeletrônica chegaram para modificar a realidade da fábrica, inserindo-se e se desenvolvendo nas relações de trabalho e de produção do capital. Esse conjunto de elementos deve ser refletido articuladamente com a ideia de que respondem propriamente à recomposição da acumulação capitalista, pois o contexto em que aparecem e se firmam é o de crise do modelo de acumulação fordista.

Não é necessário muito esforço para perceber que as relações sociais e os postos de trabalho tem sofrido, a partir daí, modificações com uma certa rapidez. Pelo fato de estar em curso uma reestruturação do tecido produtivo, as pessoas são estimuladas a adquirir novas habilidades e até valores enquanto mão de obra, que até então não era requerida. O âmbito produtivo na medida em que sofre transformações, acaba submetendo os trabalhadores a se adequarem a elas. Essas transformações são estendidas a praticamente todas as esferas da vida social.

A grande influência da economia, das novas tecnologias e da crescente importância do conhecimento desembocou na denominada sociedade da informação ou sociedade do conhecimento que é, na verdade, um elemento político ideológico importante na reestruturação do próprio capital face a sua crise. Trataremos dessa questão com mais atenção mais adiante.

O fato é que essa reestruturação, dentre outros pontos, foi marcada pela influência da economia globalizada na organização da produção e dos mercados, na interação com as tecnologias da informação, no aumento da flexibilidade da produção, nas novas tecnologias de gestão e da comercialização e, finalmente, foi

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marcada pelas mudanças organizativas que redefiniram os processos de trabalho (ANTUNES, 2011). Todos esses movimentos tiveram como peça fundamental a atuação de um ente que abordaremos com maior profundidade também mais adiante: o Estado.

É preciso não esquecer que o capitalismo, para se fortalecer como modelo de produção, apoiou-se fortemente nos Estados Nacionais. Os governos coordenavam as políticas econômicas e industriais dentro de seu domínio; estabeleciam salários mínimos e condições trabalhistas de contratação; também não vacilavam em oferecer todo tipo de privilégios às empresas e aos grupos empresariais para atraí-los para seus territórios, o que levava a esforçar-se para garantir um ambiente social sem perturbações. (TORRES SANTOMÉ, 2003, p. 15)

O processo de trabalho passa a ser guiado por novos padrões de busca de produtividade. A produção em série e de massa passa a ser substituída por uma produção flexível mais adequada às novas injunções do mercado. A hiper especialização do fordismo ganha um caráter mais generalista. No processo atual continua a especialização, mas houve, por um lado, a fusão de atividades possibilitada pela robótica e pela informática. O emprego de novos padrões de gestão da força de trabalho, a exemplo dos Círculos de Controle de Qualidade, estão na direção de uma intensificação da exploração do capital sobre o trabalho (FRIGOTTO, 2001).

Portanto, a acumulação flexível surge como estratégia corporativa que busca enfrentar as condições críticas do desenvolvimento capitalista na etapa da crise estrutural do capital caracterizada pela crise de sobreacumulação, mundialização financeira e novo imperialismo. Constitui um novo ímpeto de expansão da produção de mercadorias e de vantagem comparativa na concorrência internacional que se acirra a partir de meados da década de 1960, compondo uma nova base tecnológica, organizacional e sociometabólica para a exploração da força de trabalho. (ALVES, 2011, p.13)

É necessário pontuar, aqui, o perigo de super dimensionar a categoria de acumulação flexível, pois o capital sempre procurou “flexibilizar” as suas condições de produção, sobretudo a força de trabalho, configurando-se esse esforço numa de suas características ao longo de seu próprio desenvolvimento histórico (ALVES, 2011, p.14). Mesmo no toyotismo combinam-se processos produtivos extremamente

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elaborados, marcados pela alta tecnologia que requer uma qualificação compatível, até processos precarizados, marcados pela desqualificação e desregulamentação. Realidades como o trabalho escravo e infantil também surgem nesse ínterim (SOUSA, 2010).

A mesma especialização flexível articula o expressivo desenvolvimento tecnológico com a desconcentração produtiva. Sai de cena, dessa forma, a grande fábrica que produz todas as peças de um determinado produto e entra a produção enxuta, ou associada. Nessa última, há uma difusão da produção de partes de uma mercadoria em diferentes lugares, mas que, no final, acaba sendo concentrada.

Cabe salientar, todavia, que o toyotismo não necessariamente sucede o fordismo em totalidade absoluta, mas mescla-se com esse, substituindo-o completamente apenas em alguns locais pontuais da economia globalizada. Além do mais, seu caráter mais conciliatório entre as classes antagônicas ajudou na ofensiva capitalista sobre o trabalho.

O toyotismo é a expressão plena de uma ofensiva ideológica (e material) do capital na produção. Ele é um dispositivo organizacional e ideológico cuja intentio recta é buscar debilitar (e anular) ou negar o caráter antagônico do trabalho vivo no seio da produção do capital. (ALVES, 2011, p. 60)

A respeito do fordismo, forma de organização social do trabalho anterior e, de certa forma, concomitante ao toyotismo, se compreende fundamentalmente como

[...] a forma pela qual a indústria e o processo de trabalho consolidaram-se ao longo do século XX, cujos elementos constitutivos básicos eram dados pela produção em massa, através da linha de montagem e de produtos mais homogêneos; através do controle dos tempos e movimentos pelo cronômetro taylorista e da produção em série fordista, pela existência do trabalho parcelar e pela fragmentação das funções; pela separação entre elaboração e execução no processo de trabalho; pela existência de unidades fabris concentradas e verticalizadas e pela constituição do trabalhador coletivo fabril, entre outras dimensões. (ANTUNES, 2011, p.25)

Recusando-se a uma produção em massa nos moldes fordistas, postulava-se que a forma flexível, associada posteriormente ao toyotismo, não estaria sujeita à alienação do trabalho nos parâmetros fordista. No entanto, há de se ressaltar a

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existência paralela entre fordismo e toyotismo, em vez de uma extinção total do primeiro.

[...] há a existência de uma combinação de processos produtivos, articulando o fordismo com processos flexíveis, ‘artesanais’, tradicionais. Em suas palavras: ‘a insistência de que não há nada essencialmente novo no impulso para a flexibilização e de que o capitalismo segue periodicamente esses tipos de caminhos é por certo correta [...] mas considero igualmente perigoso fingir que nada mudou, quando os fatos da desindustrialização e da transferência geográfica de fábricas, das práticas mais flexíveis de emprego do trabalho e da flexibilidade dos mercados de trabalho, da automação e da inovação de produtos olham a maioria dos trabalhadores de frente’. (HARVEY, 1992 apud ANTUNES, 2011, p.29)

Segundo o pensamento de Antunes (2011) há quatro fatores que desembocaram no toyotismo: a necessidade de o trabalhador atuar simultaneamente em várias máquinas, o fato da empresa ter que aumentar a produção sem aumentar a quantidade de trabalhadores, a importação para a indústria automobilística japonesa da experiência das técnicas de gestão dos supermercados americanos que resultou no método de produção kanban (produzir somente o necessário e fazê-lo no melhor tempo) e, finalmente, o alargamento dessas experiências para as empresas fornecedoras e subcontratadas. Além disso, no pioneirismo japonês, havia a necessidade de se produzir para um mercado interno que pedia produtos diferenciados e em pequena quantidade. O pioneirismo japonês não esteve sozinho, pois outros arranjos evidenciaram-se na época, mas não tão significativamente quanto o primeiro.

Surge, de fato, a partir de meados da década de 1970, um novo tipo de empreendimento capitalista em determinadas regiões do mercado mundial, uma série de experimentos produtivos representando o novo regime de acumulação flexível com o capital reencontrando-se com o seu ser-precisamenta-assim. Por exemplo, na década de 1980, rica em inovações capitalistas, salienta-se a especialização flexível, na Terceira Itália; ou o kalmarianismo, na Suécia. Entretanto, o que possui maior capacidade de expressar as necessidades imperativas do capitalismo mundial é a experiência do toyotismo no Japão. É como se, a partir daí, o capital tivesse descoberto o segredo (ou o mistério) de um novo padrão de mercadorias. (ALVES, 2011, p.17)

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Segundo Ricardo Antunes (2011) a produção no toyotismo se volta para o consumo. Diferentemente do fordismo da produção em série e de massa, a produção no toyotismo é diversificada e está sempre a postos para suprir as necessidades de consumo. A produção aqui é realizada levando-se em consideração o estoque mínimo. O just in time garante no toyotismo o melhor aproveitamento do tempo durante todo o processo de produção, do transporte ao estoque. A relação homem/máquina do fordismo se torna um tanto obsoleta. O operário deve operar com mais de uma máquina. Assim surge o trabalho em equipe. Uma equipe de trabalhadores frente a uma gama de máquinas automatizadas exigindo maior destreza e tomadas de decisões rápidas.

Um outro elemento do toyotismo é estender às empresas terceirizadas a produção de elementos básicos para posterior confecção de um produto. As empresas fornecedoras, assim, acabaram absorvendo as mesmas práticas da organização principal: o just in time, a flexibilização, a terceirização, a subcontratação, o controle de qualidade total, etc. Tudo isso resultava numa intensificação do trabalho seja na organização mor, seja nas fornecedoras. Ou seja, não passava de uma errônea impressão a compreensão de que o trabalho no toyotismo adquirira um caráter menos alienante do que no fordismo. Toda a aparente diversificação de ações no trabalho visava, no fundo, a intensificação da acumulação e a racionalização do trabalho.

[...] julgamos pertinente afirmar que a ‘substituição’ do fordismo pelo toyotismo não deve ser entendida, o que nos parece óbvio, como um novo modelo de organização societária, livre das mazelas do sistema produtor de mercadorias e, o que é menos evidente e mais polêmico, mas também nos parece claro, não deve nem menos ser concebido como um avanço em relação ao capitalismo da era fordista e taylorista. (ANTUNES, 2011, p.39)

O que ocorre acerca do toyotismo é uma aparente eliminação da separação entre elaboração e execução. Mas isso não passa de uma aparência porque não são os trabalhadores que decidem o que produzir e como produzir. Ou seja, a velha condição de venda da força-de-trabalho continua a mesma. Mas, diversamente do fordismo, no toyotismo há uma queda do número de trabalhadores da indústria (operariado fabril), ou seja, há uma redução da classe operária industrial tradicional. Isso ocorreu principalmente nos países de capitalismo central. O que veio à tona,

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então, foi o aumento de trabalhadores do setor de serviços, bem como evidenciou-se uma maior diversificação entre os trabalhadores no geral.

Na medida em que [...] o fantástico progresso técnico vem demarcado pela lógica privada de exclusão, este conjunto de métodos e técnicas de organização e gestão do processo produtivo não só se inscreve nesta lógica como é um mecanismo de ampliação da mesma. Os custos humanos são cada vez mais amplamente evidenciados pelo desemprego estrutural que aumenta, atingindo sobretudo os jovens e os velhos, o emprego precário e a produção, mesmo no Primeiro Mundo, de cidadãos de segunda classe. (FRIGOTTO, 2001. p. 46)

Num pólo estão os trabalhadores mais qualificados e intelectualizados, a bordo dos processos envoltos de mais tecnologias e ocupando posições mais centrais na produção de mercadorias; no outro estão os trabalhadores mais precários. Surge a presença feminina com maior expressividade, bem como uma intensificação da subproletarização: trabalho temporário, parcial, terceirizado, etc. A classe trabalhadora torna-se mais heterogeneizada, fragmentada e complexificada. Tudo isso regado à regressão dos direitos sociais adquiridos durante o welfare state, na Europa, sobretudo.

Segundo Marx (2006), com o desenvolvimento da subsunção real do trabalho ao capital não seria o trabalhador industrial, mas uma crescente capacidade de trabalho socialmente combinada que se converte no agente real do processo de trabalho total. Assim, esse intelectual já vislumbrava, a partir de seus estudos sistemáticos sobre o capital, traços de uma tendência que passou a se concretizar no advento toyotista da produção flexível, especificamente no novo tipo de trabalho requisitado. Este último, caracterizado agora por uma polivalência, por um caráter multi-facetado (ANTUNES, 2011).

Estabelece-se um complexo processo interativo entre trabalho e ciência produtiva, que não leva à extinção do trabalho, como imaginou Habermas, mas a um processo de retroalimentação que necessita cada vez mais de uma força de trabalho ainda mais complexa, multifuncional, que deve ser explorada de maneira mais intensa e sofisticada, ao menos nos ramos produtivos dotados de maior incremento tecnológico. (ANTUNES, 2011, p.121)

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Em outras palavras, o trabalho vivo, mesmo continuando insubstituível, só tem sofrido uma intensa exploração, na medida em que avançam as técnicas implementadas na base produtiva.

O crescimento da produtividade do trabalho nas últimas décadas, por conta das inovações tecnológico-organizacionais do capital, significou uma tendência à diminuição relativa do trabalho vivo na produção social, no interior de uma ordem mercantil sob predomínio da acumulação financeirizada que preserva a obrigação de trabalhar. Longe de representar uma liberação favorável a todos, próxima de uma fantasia paradisíaca, o aumento da produtividade do trabalho social tornou-se uma ameaça, contribuindo não apenas para a rarefação do emprego, mas para a precarização dos estatutos salariais. (ALVES,2011, p.25)

É preciso pontuar que essa nova face do capital apropria-se crescentemente da dimensão intelectual do trabalho. Há uma maior captura da subjetividade dos trabalhadores que passam a ser mais integracionistas. Esse saber intelectual é subsequentemente transferido para as máquinas informatizadas, que demandam uma maior interação entre o trabalhador e a nova máquina inteligente.

O cérebro dos operários e dos empregados, não está mais livre, como no taylorismo-fordismo. Deve-se combater nos locais de trabalho e nas instâncias da reprodução social o pensamento crítico ou aquilo que Gramsci tratou como ‘um curso de pensamentos pouco conformistas’. Incentivam-se habilidades cognitivo-comportamentais pró-ativas e propositivas no sentido adaptativo aos constrangimentos sistêmicos. No plano linguístico-locucional deve-se trocar a sintaxe da luta de classes para a sintaxe da concertação social. (ALVES, 2011, p. 65)

Nesse sentido, o toyotismo é um avanço em relação à captura da “alma” do trabalho vivo. Coisa que não foi executada com tamanha precisão no âmbito fordista.

O fordismo ainda era, de certo modo, uma ‘racionalização inconclusa’, pois, embora instaurasse uma sociedade ‘racionalizada’, não conseguia incorporar à racionalidade capitalista na produção as variáveis psicológicas do comportamento do trabalhador assalariado, que o toyotismo procura desenvolver por meio de mecanismos de envolvimento estimulado do trabalho vivo. (ALVES, 2011, p.100)

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Todas essas injunções vão desaguar sobre a educação de forma implacável. Enquanto campo de formação da força de trabalho importante para atender às demandas do capital, a escola vai ser o alvo em cheio da implementação de reformas que vão operar na conformação da classe trabalhadora nesse novo contexto capitalista.

Para tratarmos das transformações advindas da organização da produção e que alcançam o campo educacional, é necessário considerarmos, antes de tudo, o papel importante do Estado na consolidação dos desígnios do capital. Isso porque cabe ao Estado o fornecimento de serviços básicos à população mediante políticas sociais de educação, saúde, previdência, etc. Essa promoção das políticas sociais, por sua vez, sofreu influências do capital em sua cruzada de recomposição devido à crise.

1.3 As crises e o Estado capitalista: reformas e rebatimentos nas políticas sociais, em especial na educação

Convém agora fazermos uma retomada da natureza e da ação do Estado dentro do modo de produção capitalista para que possamos compreender com maior precisão os tipos de mediações efetivadas por este ao longo da história que viabilizam suas relações com a economia, a sociedade e as classes sociais, bem como ajudar na elucidação das articulações tão estreitas entre os interesses do capital e a educação dos trabalhadores, no contexto de enfrentamento da crise capitalista. Os ajustes estruturais e as reformas no âmbito do Estado garantem o processo de produção e reprodução do capital, e isso é de fundamental importância.

Com o advento da modernidade, o Estado tem sido levado em consideração em análises das questões sociais porque ele reflete em sua dinâmica as contradições de classes. Assim, o Estado torna-se uma forma ampliada de socialização das condições gerais de produção (MINAYO, 2010). É das transformações ocorridas no aparelho estatal, devido ao movimento experimentado pelo sistema do capital, que partirão as disposições necessárias para se implantar reformas mais estruturais que, por sua vez, permitem reformas educacionais do tipo vivenciadas na própria experiência do Programa de Educação Integral de Pernambuco. Um Estado menos defensor do direito social e mais aberto às

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parcerias com a iniciativa privada no provimento de políticas públicas, mais focalizadas, passa a ser uma tendência marcante.

Ao ser questionado o papel do Estado no contexto das políticas neoliberais, tornam-se necessários as reformas e os ajustes estruturais do mesmo. Organizações como o FMI, o BM e a OMC trataram de implementar essa agenda, principalmente nos países considerados em desenvolvimento. Esses ajustes materializaram um ataque às conquistas dos trabalhadores e a uma privatização do serviços públicos. É importante destacar, entretanto, que a forma com que esses organismos influenciaram nas reformas na periferia do capital não foi linear. A intensidade e amplitude em cada país dependeu da realidade social, política e econômica.

É sobretudo na década de 1990, sob o período dos governos de Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, que a reforma do Estado brasileiro toma corpo, a partir das reformas estruturais adotadas como estratégias para a superação da crise do capitalismo em escala mundial. Tomam forma devido a uma sistemática subsunção da política e da economia do país à organicidade do capital globalizado. A marca neoliberal nos princípios das políticas públicas, sobretudo nas educacionais, passaram a legitimar e impulsionar as parcerias entre o setor público e o setor privado na efetivação de programas e projetos educacionais (SILVA; ANTONIO; CECILIO, 2010).

Mas é a reforma do Estado o ponto principal que evidencia a influência das políticas neoliberais. O Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado, de 1995, aglutina os pressupostos gerais que estabelece diretrizes e define objetivos para a reforma da administração pública. A privatização figurou como um dos eixos centrais nesse importante documento. Na educação, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) e o Plano Nacional de Educação (PNE), aprovados ainda na vigência do governo FHC, também se enquadram no contexto de consolidação das reformas. Acabam por estimular a transferência de recursos públicos para o setor privado e acenam no sentido da busca de otimização dos recursos existentes para as políticas sociais, sem ampliá-los (COSTA, 2006).

Ao retomarmos a teorização mais aprofundada sobre o Estado, é importante passarmos pelas acepções da tradição teórico-política liberal, na qual há uma tendência à compreensão do Estado como uma expressão de uma ordem social mais ou menos harmônica, e que representa a totalidade consensual da sociedade.

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Nessa compreensão de Estado, os indivíduos, independentemente da classe social, são livres para intercambiar o poder ao longo do tempo. É um entendimento que podemos dizer está aproximado às formulações de Adam Smith sobre a mão invisível do mercado, que permite a todo e qualquer indivíduo intercambiar mercadorias a depender de sua vontade própria.

O que ocorre é que em ambas as compreensões expostas acima, aquela sobre o Estado e a outra sobre o mercado, as condições concretas em que estes se assentam, bem como as relações de poder que se fazem presentes no movimento da realidade, são ofuscadas por uma explicação nebulosa e, porque não dizer, idealizada. Essa explicação não demonstra que o Estado, nas sociedades classistas, é uma expressão mediadora da dominação política.

É, na verdade, o “resumo oficial” de uma sociedade de classes e, consequentemente, não é neutro diante das lutas e dos antagonismos sociais produzidos por desigualdades e iniquidades estruturais. Da mesma forma que o mercado “realmente existente” – e não o que imaginam os teóricos liberais -, o Estado é o lugar onde sujeitos formalmente livres e iguais, mas profundamente desiguais, estabelecem relações políticas de superordenação e subordinação. (BORÓN, 1994, p. 249)

Para focarmos melhor a questão do Estado, é necessário descermos a esfera da produção, como se estivéssemos de fato “pisando no chão” para compreender as suas determinações. No processo produtivo em si, os sujeitos estão dispostos em diferentes posições e isso, além de determinar as classes fundamentais, lança as bases que vão dar na posterior configuração do Estado. Porém, para a efetivação da complexa dominação política de uma classe pela outra se requer outras mediações além da estrutura estatal, como a ideologia e o partido político, sem os quais o domínio político econômico da burguesia não poderá alcançar a totalidade da sociedade civil (BORÓN, 1994). Existe um controle ideológico sobre as premissas contraditórias e conflituosas da sociedade capitalista que é fundamental para a sua continuidade. Aqui cabe atentar para o fato de que não é a origem social dos quadros dirigentes que estabelece o traço classista do Estado, mas sua estrutura interna em funcionamento, sua anatomia funcional. Podemos considerar que

[...] a articulação concreta do Estado com a reprodução capitalista pode ser descoberta se se examinam dois tipos de seletividade

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sistêmica que se acham ‘incorporadas no seio do sistema de instituições políticas’. Estes mecanismos permitem ao Estado destilar “os interesses classistas do universo de interesses estreitos, de curto prazo...” Por outro lado, o Estado burguês deve ter uma “seletividade complementar que consiste em proteger o capital coletivo dos conflitos e interesses de natureza anticapitalista.” (CLAUSS OFFE, 1990 apud BORÓN, 1994, p. 258)

Se aprofundarmos no modo como as teorias liberais concebem a natureza do Estado, logo veremos que nestas a sociedade não é apresentada em sua organização conflituosa de classes. Uma nuvem de conciliação é sempre posta como o papel fundamental do Estado.

Por outro lado, muitas leituras marxistas apresentaram por algum tempo a compreensão do Estado permeado por um mínimo de dialética. Essas leituras marxistas encurtadas anulava o Estado de qualquer iniciativa autônoma, como se esse fosse um servo unânime da burguesia. Em uma tendência se compreendia o Estado apenas como reflexo da base econômica, sem qualquer ação própria por parte deste, era como se fosse um braço da burguesia sem qualquer musculatura, rígido e travado. Configurava-se, assim, uma vinculação entre Estado e economia que não correspondia à realidade, pois perdiam-se os múltiplos movimentos desta última. Uma outra vertente insistiu veementemente numa visão instrumental do Estado compreendendo este como o “comitê executivo da burguesia”, como se fosse unicamente atendido os interesses dessa classe (BORÓN, 1994).

Por isso, uma outra interpretação realmente alinhada à natureza do método marxista apresenta a capacidade de teorizar o Estado levando em conta toda uma riqueza de múltiplas determinações. Nenhuma determinação, em isolamento, pode dar conta sozinha da plenitude do fenômeno que é o Estado e as mediações que este opera no seio do capitalismo. De modo geral, Atílio Borón (1994) nos aponta quatro dimensões importantes na recuperação plena do significado do Estado dentro desta tradição:

1 - um “pacto de dominação” mediante o qual uma determinada aliança de classes constrói um sistema hegemônico susceptível de gerar um bloco histórico. 2 – uma aliança dotada de seus correspondentes aparatos burocráticos e capaz de transformar-se, sob determinadas circunstâncias, em um “ator corporativo”. 3 – um cenário da luta pelo poder social, um terreno onde se dirimem os conflitos entre distintos projetos sociais que definem um padrão de organização econômica e social. 4 – o representante dos “interesses

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universais” da sociedade e, enquanto tal, a expressão orgânica da comunidade nacional. (BORÓN, 1994, p.255)

Gentil Corazza (1987) traz uma interessante leitura do Estado em correlação com as relações sociais de produção de uma sociedade, ou seja, a compreensão do Estado pressupõe a compreensão das estruturas básicas de funcionamento dessa sociedade, da forma mais fundamental desta em produzir as condições de vida para todos. Por isso, aqui há um foco nas mediações entre as relações de produção e a natureza do Estado. Este último está como o resultado, um produto das relações sociais. Cabe, pois, ao Estado uma função básica de preservação dessas relações de produção. Isso significa a garantia da manutenção e reprodução de ambas as classes sociais: a capitalista e a trabalhadora. Sendo assim, o interesse do Estado não é especificamente o interesse de uma classe, mas sim os interesses que vão assegurar a continuidade dessa relação contraditória e desigual. Ao criticar as formas limitadas de compreensão do Estado que apontam uma falsa separação entre estado e sociedade, o autor adverte que:

A incapacidade de conceber a realidade social como um todo único, constituído pelas relações sociais capitalistas de produção, de que a economia, o Estado e a sociedade não são partes separáveis, mas aspectos apenas analiticamente distinguíveis, é que impede a compreensão do que seja o Estado e de sua ação sobre a economia e a sociedade. (CORAZZA, 1987, p.22)

A economia, o Estado e a sociedade são apenas aspectos analíticos de um todo que são as relações de produção. Assim, as relações sociais de produção se colocam como um ponto indispensável para superar as leituras insuficientes sobre a natureza do Estado. Esse último, figura como uma síntese dessa sociedade e sua economia, e como tal, é tão contraditório quanto as relações sociais vigentes. Assim, as modificações experimentadas na sociedade capitalista, terão repercussões na ação do Estado, tal como o que ocorreu ao longo da década de 1990 no aparelho de Estado brasileiro, para poder acompanhar as mudanças ocorridas na política e na base de produção do capital a nível mundial.

Para Engels (1980 apud CORAZZA, 1987, p22), o “Estado é, antes, um produto da sociedade”. E, para todo efeito, a sociedade em que vivemos é a

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