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CAPÍTULO 4: O PROGRAMA DE EDUCAÇÃO INTEGRAL DA REDE ESTADUAL

4.1 O modelo de escola charter: o protótipo do Programa de educação

Visando uma determinada melhoria, em termos de eficiência, no ensino e na gestão de escolas públicas, o modelo educacional chamado de escola charter tornou-se recentemente um exemplo de inovação na materialização de reformas educacionais através da formação de parcerias entre secretarias de educação, empresas, lideranças e organizações da sociedade civil. A questão fundamental é a busca pela implantação da parceria público privada como forma de atingir “melhores” resultados nos serviços públicos. Em outros termos, a implantação de uma racionalização típica da produção capitalista atual, ora transplantada para a oferta dos serviços públicos.

Essas escolas, por estarem mais livres de regulações estatais, apresentam maior autonomia para experimentar inovações advindas da lógica mercantil. Isso se faz na intenção de alcançar metas e resultados estipulados a partir de padrões, sobretudo, quantitativos. Padrões esses que são importados das tecnologias empresariais.

Os Estados Unidos foram pioneiros no modelo de escola charter, com a fundação da primeira escola em 1992, em Minesota. Foi nesse país onde essas instituições se proliferaram com maior peso e, dezoito anos após, registrava-se o

número de 4.662 escolas, abarcando mais de 1 milhão de estudantes (DIAS, 2010). Além do mais, esse modelo consistiu num fenômeno que também se replicou em outros países como Austrália, Japão, França, etc.

Em cidades americanas como Chicago e Nova Iorque, o modelo de escola charter foi um destaque nas reformas implementadas em suas redes públicas de ensino. A partir do envolvimento de fundações e organizações do terceiro setor, a gestão passou por mudanças em prol da suposta melhoria de resultados do ensino. Foi algo então muito comum a criação de organizações para fazer a co-gestão dessas escolas juntamente ao poder público.

Em Nova York, lideranças da Secretaria de Educação ajudaram na criação de uma organização sem fins lucrativos, financiada por fundações do setor privado, o ‘New York City for Charter School Excellence’, para ajudar na formação dessas escolas, além de atuar como proponente do modelo junto a pais, formadores de opinião e legisladores. (DIAS, 2010, p.13)

As especificidades da implementação dessas escolas charters em diversos locais, em termos de legalidade, não nos impedem de visualizar traços comuns a essas experiências. Elas são cogerenciadas por uma organização do setor privado sem fins lucrativos, possuem mais autonomia no recrutamento e seleção de gestores e professores que as demais escolas públicas e estimulam um perfil de forte comprometimento com as atividades escolares por parte dos alunos. A questão relacionada a auto responsabilização pela carreira do alunado que nos chama atenção aqui é: não estariam os interesses transplantados da lógica mercadológica por detrás dessa requisição de comprometimento integral dos alunos? O que nos parece, de antemão, é que essas reformas na educação escolar não estão descoladas de demandas originadas da lógica das mercadorias. Logo, o comprometimento e auto responsabilização do alunado, como diferencial em relação às escolas públicas comuns, traz embutido os fundamentos de um projeto de formação, mais atualizado com as questões solicitadas pelo mercado globalizado do nosso tempo.

A título de exemplificação, um modelo representativo das escolas charters é a rede KIPP (Knowledge is Power Program), da cidade americana de Houston.

Quando se visita uma dessas escolas, não há como não observar a cultura estabelecida, muito diferente da escola pública regular. Se um visitante entra na sala de aula, os alunos sequer viram a cabeça, mantendo-se o tempo todo concentrados nas atividades. Ao caminhar de uma sala ambiente para outra, os alunos da KIPP andam em filas organizadas. Há uma lei de silêncio mesmo nos corredores, e somente alunos da oitava série ganham o privilégio de poder conversar entre si. Nas escolas KIPP de Nova York, os alunos são proibidos de usar bonés, maquiagem, unhas postiças, brincos muito grandes e vestir calças largas no estilo ‘hip hop’. Em uma área da escola, há uma parede com os nomes das universidades para as quais os alunos planejam entrar. Frases que simbolizam a cultura KIPP são encontradas por todas as partes: ‘Se há um problema, nós buscamos a solução’. ‘Se precisamos de ajuda, nós perguntamos.’ ‘Não há atalhos. E não é uma realidade só da KIPP. É uma realidade da vida.’ ‘Trabalhe duro. Seja gentil.’ (DIAS, 2010, p.15)

É importante atentarmos que está inserido nesse projeto escolar traços de um esforço pedagógico e ideológico no sentido de influir na subjetividade dos alunos – a maioria deles pertencentes às classes sociais mais exploradas. Essa influência se trata de uma ideologia capitalista temperada à moda da produção toyotista. Não é por acaso que, na rede de escolas KIPP, 81% dos alunos provém de famílias que vivem abaixo da linha de pobreza naquele país. Desse total, 60% são negros e 35% são hispânicos (DIAS, 2010). Não é, portanto, algo de se impressionar que a escola continue com uma função importante de educar para a acomodação e aceitação das relações sociais de produção capitalista, da forma que estas estão dadas hoje. Se na época da industrialização, a escola, como vimos anteriormente, cumpria uma mediação importante na consolidação do capitalismo industrial, hoje ela ainda é igualmente relevante na consolidação do acordo entre as classes. Evidentemente, o projeto político pedagógico prevalecente sofre sensível influência da hegemonia econômica, política e ideológica do capital contemporâneo e suas consequentes configurações.

Em casos como o vivenciado em Chicago, o modelo de escola charter chega a permitir uma flexibilidade tal que qualquer pessoa que inove no campo educacional pode se tornar um “fornecedor de serviços escolares”, recebendo incentivo do governo para montar e ampliar uma rede de escolas charter de acordo com a sua experiência piloto desenvolvida.

Uma das primeiras escolas charter da cidade, Perspective chartes, é um exemplo do tipo de autonomia com resultados descrito

por Guzman. Criada em 1997 por duas professoras da rede pública da cidade, essa escola charter se destaca pelos seus resultados com alunos do ensino médio. A escola foi convidada pelo prefeito de Chicago a fazer parte do Programa Renascença 2010 e a se tornar uma rede, abrindo três novas unidades e desenvolvendo um plano para mais sete escolas até 2014. (DIAS, 2012, p.19)

Segundo Dias (2012) dos 408 mil alunos da rede pública de Chicago por volta de 2006, 20 mil eram atendidos pelas escolas de modelo charter. Com o programa de expansão chamado Programa Renascença (Renaissance 2010), se tinha como meta implantar cem novas escolas nesse modelo. Ao se espalhar nessas dimensões, a escola charter se tornou não apenas uma inspiração, mas um modelo real para que se replicasse esse tipo de escola até no Brasil. Foi o caso do projeto piloto – o dos Centros de Ensino Experimental – que desembocou, mais tarde, no Programa de Educação Integral da rede estadual de Pernambuco.

Através da iniciativa do empresariado, aliado às reformas ocorridas no aparelho de Estado sob a égide das conformações políticas neoliberais, Pernambuco saiu na frente no país no modelo de escola charter para o ensino médio. O projeto viria a servir como base de um modelo educacional replicado em outras redes Brasil afora.

4.2 Os Centros de Ensino Experimental: o projeto piloto do Programa de

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