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1 l\qq6 ui...I;....Jt..0 INVESTIMENTO ESTRANGEIRO
NOMAGREB
Disserta~ao
de Doutoramento em Ciencias Econ6micas
no Instituto Superior de Economia e Gestao
da Universidade Tecnica de Lisboa
0 INVESTIMENTO ESTRANGEIRO NO MAGREB
Disserta9ao de Doutoramento em Ciencias Econ6micas no Institute Superior de Economia e Gestao
da Universidade Tecnica de Lisboa
Helena Rato
1996
)
Agradecimentos
A presente disserta9ao foi Departamento de Investiga9ao e Nacional de Administra9ao, sem teria sido exequivel.
elaborada no ambito do Desenvolvimento do Institute cujo apoio e incentive nao
Quero, portanto, exprimir os meus agradecimentos ao Institute Nacional de Administra9ao, na pessoa do seu Presidente, Prof. Doutor Joao Jose Frausto da Silva,
a
responsavel do Departamento, Dra. Marta Tavares de Almeida,a
responsavel do Sector de Edi9oes, Teresa Potier, e a todos os outros colegas que me ajudaram das maneiras mais diversas.A minha gratidao ao Prof. Doutor Eduardo de Sousa Ferreira, meu orientador.
do IE, a saber, a prodw;:ao de excedentes financeiros e a necessidade de rentabiliza9ao do capital, sendo que este segundo elemento, comum a praticamente todas as outras teorias, pode ser associado a factores especificos de situa96es particulares, como e o caso do Magreb.
Por outro lado, a teoria da "sobreacumula9ao relativa de capital", ao estabelecer uma interrela9ao entre o IE e o processo de acumula9ao internacional de capital, fornece-nos os instrumentos para a analise do papel do IE no processo de internacionaliza9ao da acumula9ao de capital que conduziu ao actual fen6meno de globalizayaO. Esta e a problematica tratada no capitulo 2 da primeira parte. Nesse capitulo onde desenvolvemos uma metodologia apoiada em informa9oes quantificadas sobre a taxa de acumula9ao do capital produtivo nos PCD 1 s (paises capitalistas desenvolvidos) e nos PVD 1 s
(paises em vias de desenvolvimento), o IDEe o IEC, incluindo as respectivas distribui96es geograficas na origem e no destino - pudemos comprovar:
que a teoria da "sobreacumula9ao relativa de capital" permite caracterizar e compreender a 16gica global das
diversas fases por que passou o processo de
internacionaliza9ao da acumula9ao de capital, desde a 2a
Guerra Mundial;
que as companhias multinacionais foram os principais motores desse processo, desenvolvendo estrategias multiplas de capta9ao dos excedentes financeiros, de aplica9ao e gestao do IE e de promo9ao e aproveitamento do progresso tecnol6gico;
- que, no entanto, o processo e a actua9ao das multinacionais foram condicionados pelas politicas dos di versos paises, de origem e destino do IE, com destaque para o caso dos EUA dada a sua posi9ao de potencia hegem6nica, desde o fim da 2a
Guerra;
- que a 16gica de rentabiliza9ao do capital levou os fluxos de IE, nas suas diversas formas, a concentrarem-se nos PCD1s
e, muito particularmente nos membros da Triade (EUA, Japao, UE) ;
- que o IDE originario se estruturou em anglo-sax6nica), que PCD1s.
dos PCD1s e tendo por destino os PVD1s
grupos ("clusters" na designa9ao delineiam as zonas de influencia dos
Este conjunto de conclusoes orientaram o plano de trabalho da segunda parte, no sentido de consideraramos que o IE num determinado grupo de PVD1s e, essencialmente, a resultante da
capacidade destes paises para atrair o capital estrangeiro (que por sua vez depende da respecti va posi9ao e grau de integra9ao na divisao internacional do trabalho) por urn lado, e da situa9ao relativa dos PCD1s (principais parceiros
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Consequentemente, antes de entrarmos no assunto, propriament~ dito, do IE no Magreb tivemos de analisar o processo de integra<;:ao do Magreb nas rela<;:oes econ6micas internacionais, com o obj ecti vo de determinarmos a forma como esse processo influenciou o modelo de especializa<;:ao das economias magrebinas. Nessa analise, que ocupa todo o capitulo 3, pudemos constatar que:
a posi<;:ao geo-estrategica seculos' urn factor decisi vo dos respectivos paises;
do Magreb foi, ao longo dos· na hist6ria politico-econ6mica
a coloniza<;:ao francesa foi urn elemento determinante no modelo de especializa<;:ao das economias magrebinas, condicionando, inclusive, as op<;:oes de desenvolvimento dos governos, nos diversos paises do Magreb depois de reconquistada a independencia;
no periodo mais recente, o modelo de especializa<;:ao dos paises magrebinos foi fortemente influenciado pela crises petroliferas e do endividamento externo;
- o grau de dependencia econ6mica desses paises em rela<;:ao a Uniao Europeia reflecte-se na estrutura de composi<;:ao das respecti vas balan<;:as comerciais, pelo que as politicas da Comunidade em rela<;:ao aos PTM's (Paises Terceiros Mediterranicos) sao, igualmente, factores explicativos do grau de especializa<;:ao das economias magrebinas.
Por fim, no capitulo 4, tratamos do caso especifico do IE no Magreb, partindo da analise da evolu<;:ao da posi<;:ao dos membros da Triade - hegem6nicos nas rela<;:oes com o Magreb -no processo de internacionaliza<;:ao da acumula<;:ao de capital. Nesse contexto, demos particular aten<;:ao a situa<;:ao da Fran<;:a, com relevo para o papel da sua politica externa mediterranica, designadamente, na defini<;:ao da politica de coopera<;:ao da CEE/UE com os paises do Ma·greb e os outros PTM's. Alem destes condicionantes de ordem externa, a estrategia do IE no Magreb foi, tambem, analisada a luz dos condicionantes de ordem interna, entre os quais destacamos:
vantagens comparativas e competitivas; modelos de
desenvol vimento e de especializa<;:ao; politicas de investimento e grau de endividarnento externo. Pudernos, assirn, compreender as razoes porque a contribui<;:ao do investirnento estrangeiro, para o desenvol vi men to econ6mico do Magreb, e globalrnente pouco significativa, embora esse contribute esteja sub-avaliado devido as deficiencias das fontes de recolha de informa<;:oes e, rnais recentemente, devido a importancia crescente das "novas formas de investirnento estrangeiro. Com efeito, segundo as informa<;:oes disponiveis, no caso da Tunisia e de Marrocos, as "novas forrnas" de investirnento. estrangeiro tern privilegiado as vantagens competi t i vas de ordern inferior, correspondendo a estrategia
de deslocaliza9ao de actividades trabalho intensivas da Uniao Europeia para paises com mao-de-obra barata, designadamente em regime de sub-contrata9ao ou de trafego de aperfei9oamento passivo. Consequentemente, produziu-se uma altera9ao da estrutura de composi9ao do comercio externo daqueles paises magrebinos, que pode ser utilizada como indicador coadjuvante da caracteriza9ao da situa9ao do investimento estrangeiro no Magreb, seguindo uma abordagem similar
a
levada a cabo por urn grupo de economistas belgas (Bernard. e al., 1994) , num estudo efectuado para o "Bureau du Plan" sobre as deslocaliza96es de empresas.Resta-nos esclarecer porque decidimos nao incluir no estudo nem a Libia nem a Mauritania, uma vez que integram a Uniao Magrebina Arabe (UMA) e, historicamente, a Libia faz parte do Magreb, vocabulo de origem arabe utilizado para designar o norte de Africa, a ocidente do rio Nilo.
Em primeiro lugar, a UMA s6 foi criada em 1989 e, como as rela96es econ6micas entre os paises que a compoem sao muito pouco significativas, a sua constitui9ao nao interferiu nem no modelo de especializa9ao nem no grau de integra9ao na economia mundial, desses paises. A segunda razao prende- se com a importancia da coloniza9ao europeia na constru9ao dos modelos de especializa9ao das economias magrebinas, pelo que, a Libia constitui
a
partida uma realidade diversa. 0 terceiro motivo decorre do papel das politicas de coopera9ao da CEE/UE nas economias dos paises magrebinos. Neste dominic a Libia e, tambem, urn casoa
parte, dado que se tern auto-excluido dos acordos de associa9ao e de coopera9ao com a CEE, alem de estar sujeita a urn embargo decretado pelo Conselho de Seguran9a da ONU desde 1987. Quantaa
Mauritania, esta incorporada nos paises da Conven9ao de Lome, cuj a 16gica de coopera9ao com a UE e diferente da estabelecida para os PTM's, onde estao incluidos Marrocos, a Argelia e a Tunisia.Portanto, a inclusao da Libia e da Mauritania, no estudo, obrigar-nos-ia a urn desenvolvimento excessive da segunda parte, sem que isso constituisse urn contributo relevante para as conclusoes do tema central em questao: determinantes, dinamica e caracteriza9ao do investimento estrangeiro no Magreb.
FONTES
Partindo das premissas te6ricas enunciadas que nos levaram a considerar o investimento estrangeiro no Magreb como urn caso especifico, condicionado pela problematica global do processo de internacionaliza9ao da acumula9ao de capital, impos-se-nos a utiliza9ao de dados estatisticos que respondessem a duas exigencias fundamentais: constituirem series cronol6gicas e as diversas desagrega96es a nivel regional serem compativeis entre si e relativamente aos resultados globais.
Consequentemente, tivemos de recorrer prioritariamente as estatisticas das organiza96es de caracter internacional ou multilateral, a saber, Banco Mundial, Fundo Monetario Internacional, Na96es Unidas, Organiza9ao para a Coopera9ao e Desenvolvimento Econ6mico (OCDE), CEE (Eurostat) e Banco das Transac96es Internacionais, rna is conhecido pel a sigla BRI. Contudo, como o nivel de informa9ao veiculado por essas fontes e demasiado agregado, foryOSO nos foi procurar complementa-lo com dados, elaborados por outras fontes, de forma a podermos inferir a dinamica propria do investimento estrangeiro no Magreb.
No que se ref ere as fontes primarlas, de origem magrebina, dois tipos de problemas limitam fortemente a sua utiliza9ao. Em primeiro lugar, a compila9ao e o tratamento dos dados nao seguem uma metodologia homogenea e normalizada, entre os
diversos paises, impedindo a compatibiliza9ao das
estatisticas nacionais de forma a obtermos valores agregados regionais. Em segundo lugar, a cobertura e tratamento estatistico das informa96es sobre as actividades econ6micas, em cada urn dos paises, apresentam insuficiencias, algumas facilmente identificaveis e por vezes reconhecidas explicitamente pelas institui96es encarregadas da sua compila9ao e analise. Assim, por exemplo, no caso de Marrocos, ate quase finais da decada de oitenta, o IDE foi contabilizado conjuntamente com os emprestimos recebidos pelas empresas e a produ9ao do sector textil nao incluia a das actividades de chapelaria e de confec9ao de vestuario. No caso da Tunisia, ate muito recentemente, a desagrega9ao pautal das exporta96es s6 existia para os sectores de exporta9ao, tradicionalmente mais significativos, e o IDE incluia os itens .Jiparticipayao", "emprestimos" e "imobiliario", devendo acrescentar-se que o item "participa9ao" integrava a participa9ao no capital social (sem qualquer tipo de limita9ao) mas, tambem, a importa9ao de equipamentos e de tecnologia por empresas estrangeiras a operar na Tunisia, designadamente no sector energetico. Quanta a Argelia, inclui no IDE a compra de empresas "chave na mao". Em qualquer dos tres paises nao existe uma desagrega9ao cabal do IDE a nivel sectorial, no longo prazo.
Est a si tua9ao aspectos da
merece alguns comentarios pois, ao reflectir realidade econ6mica e institucional desses
paises, estudo, mesmo.
nao s6 influenciou o alcance e resultados do presente como a sua analise constitui parte integrante do
0 modelo de substitui<;ao das importa<;oes que influenciou a politica econom1ca da generalidade dos paises magrebinos, pelo menos ate finais da decada de setenta, teve como corolarios: a nao convertibilidade das moedas locais; uma elevada percentagem dos impostos alfandegarios nas receitas do Estado; a instaura<;ao de urn complicado sistema de controlo das importa<;oes e das exporta<;oes, incluindo a concessao de autoriza<;oes para a aquisi<;ao e venda de divisas estrangeiras; urn peso excessive do sector publico e uma forte centraliza<;ao do sistema econ6mico. Assim, a base de recolha
de estatisticas da actividade econ6mica assentava
essencialmente nos registos do comercio externo ou das opera<;oes de cambio dos Bancos Centrais, sem que houvesse uma correspondencia devidamente compatibilizada por parte dos registos das actividades produtivas, cujas produ<;oes eram geralmente estimadas em termos de volume ou, nalguns cases, em termos de crescimento medio anual do valor acrescentado, nao existindo uma contabilidade integrada das Contas Nacionais.
Esta deficiencia incidia igualmente sobre os dados relatives a reparti<;ao sectorial do investimento estrangeiro, enquanto a desagrega<;ao da FBCF estava organizada em fun<;ao dos planos de desenvolvimento dos respectivos paises, dada a importancia do financiamento publico, directo e indirecto, para a FBCF e a sua aloca<;ao sectorial.
No decurso da decada de oitenta, o processo de liberaliza<;ao das economias magrebinas, a excep<;ao da Argelia, obrigou a urn esfor<;o no sentido de melhorar a coerencia global das estatisticas econ6micas nacionais, mas que s6 deu os seus frutos no inicio da decada de noventa, com destaque para a Tunisia, pioneira regional desse processo. No entanto, sempre que houve urn hiato entre a liberaliza<;ao econ6mica e a adapta<;ao da recolha de informa<;ao estatistica, surgiram problemas de sub-avalia<;ao da produ<;ao e ate mesmo do comercio externo, de que e exemplo o referido caso da sub-avalia<;ao da produ<;ao textil de Marrocos, em meados da decada de oi tenta, quando se deu uma acentuada expansao das actividades de confec<;ao de vestuario, devido ao trafico de aperfei<;oamento passivo originar1o da CEE. Esta realidade traduziu-se, tambem, num significative incremento da percentagem de exporta<;oes classificadas como produtos acabados nao discriminados, nas estatisticas do comercio externo marroquino, elaboradas pelo servi<;o das opera<;oes cambiais do Banco de Marrocos.
Afim de ultrapassarmos esse tipo de dificuldades recorremos as informa<;oes estatisticas francesas I vis to a Fran<;a continuar a ser o pais mais importante nas rela<;oes
econ6rnicas externas do Magreb. Esta solu9ao resultou para as estatisticas do cornercio externo, mas nao para a obten9ao de inforrna96es desagregadas sobre o investirnento estrangeiro, facto cornpreensivel dado o pouco significado do investirnento estrangeiro frances tendo por destino o Magreb (0,2% do estoque do IDE frances no estrangeiro ern 31/12/1991) .
Para urn rnelhor entendirnento das origens dos problemas corn que nos defrontarnos nessa area, passarnos a citar extractos do capitulo relativo aos investirnentos estrangeiros de urna Monografia do Eurostat sobre o Magreb, publicada ern 1994: "
E
particularrnente dificil estabelecer estatisticas sobre os investirnentos directos. ( ... ) Dispornos de inforrna96es relativas aos fluxos anuais de investirnentos directos provenientes do estrangeiro. ( ... ) Quantoa
reparti9a0 sectorial dos investirnentos directos e aos paises de origem, s6 existern inforrna96es dispersas, nao sisternaticas e incornpletas" (StBa/Eurostat, 1994, pag.183).Nestas condi96es, considerarnos como val.ida a utiliza9ao de fontes secundarias de inforrna9ao, referenciadas ao longo do texto e incluidas na bibliografia, quer se trate de inforrna9ao quantificada ou nao, desde que contribuisse para aprofundar a cornpreensao e afinar a explica9ao do fen6rneno que nos propusernos analisar. Cornplernentarrnente e na rnedida do possivel, recorrernos
a
avalia9ao da dinarnica do investirnento estrangeiro do Magreb e, ern particular, da sua irnportancia no ambito do financiarnento das respectivas econornias, atraves da analise rnais global da evolu9ao das diversas cornponentes das contas externas e da analise da inforrna9ao disponivel sobre o IDE e a FBCF.Escusado sera dizer que a utilizayaO desse tipo de inforrna96es foi sujeita a urna selec9ao criteriosa, baseada na confronta9ao corn os dados rnais agregados das fontes que nos rnerecern credibilidade, pois .aconteceu depararrno-nos corn indica96es que nao passavarn de rneras hip6teses. A titulo de exernplo, ci tarnos o caso de urna publica9ao da Comissao, da autoria de Alice Carnier (DE68- Janeiro 1991), onde se afirrna que o investirnento estrangeiro na Tunisia estava essencialrnente concentrado nos texteis e no turisrno, quando segundo a "Banque de Tunisie", ern 1990, o sector energetico absorvia 90% do IDE.
PARTE I
A dinamica do investimento estrangeiro, do final da
2a Guerra Mundial ao inicio da decada de noventa
L'economie mondiale comme
realite empirique n'est pas achevee. Elle est encore en voie de totalisation.
Capitulo 1
0 investimento estrangeiro: conceitos e teorias
1.1- Conceitos: as dificeis fronteiras entre as diversas formas de investimento estrangeiro
Na teoria contemporanea sobre o comercio internacional costuma estabelecer-se uma distin<;:ao entre investimento directo estrangeiro (IDE) e investimento estrangeiro em carteira (IEC) . Esta distin<;:ao tern origem no conceito Keynesiano de que o investimento directo corresponde
a
forma<;:ao de capital fixo (Mishkin, pag. 558/9) enquanto o investimento em carte ira e assimilado ao investimento especulativo em estoques de mercadorias e, consequentemente, considerado como uma aplica<;:ao nao-produtiva da poupan<;:a (Ackley, pag.177).Extrapolando OS conceitos Keynesianos para 0 ambito internacional, s6 o IDE traduziria a importancia do fluxo internacional do factor de produ<;:ao capital. Quanto ao investimento estrangeiro em carteira, materializado na compra de ac<;:6es e obriga<;:oes em moeda estrangeira (Husted e Melvin, pag. 3 8 8) , corresponderia
a
troca de urn consumo no presente por urn consumo futuro (Krugman e Obstfeld, pag.204), mas entre residentes de paises diferentes.No sec. XX, com a introdu<;:ao de novos factores na fun<;:ao de produ<;:ao, o conceito de IDE veio a ser alargado, passando a ser definido como "a transferencia de urn pacote de activos ou de produtos intermediaries, que incluem capital em dinheiro, peritagem em gestao e organiza<;:ao, tecnologia, lideran<;:a e acesso a mercados estrangeiros", distinguindo-se, assim, do IEC definido como uma "mera transferencia de capital-dinheiro"
(Dunning, 1990, pag. 5).
Contudo, em qualquer dos casos, se a distin<;:ao entre IDE e IEC e relativamente facil ao nivel micro, o mesmo nao sucede ao nivel macro, devido
a
propria estrategia empresarial no ambito das rela<;:oes econ6micas internacionais.o
investimento estrangeiro nasceu com a Revolu<;:ao Industrial, mas s6 se tornou urn factor econ6mico relevante depois de 1870, quando a Inglaterra come<;:ou a exportar massivamente os seus excedentes em capital (Gilpin, pag. 308; Kenwood e Loughed, pag.26). Posteriormente, outros paises europeus, com destaque para a Fran<;:a, tambem passaram a exportar capitais. No entanto, ate 1914, a Inglaterra foi de longe o principal fornecedor de capitais, a nivel mundial {Quadro 1.1) . Entre1870 e 1914, o investimento estrangeiro ingles representou, em media, 4% do rendimento nacional do Reino Unido (Kenwood e Loughed, pag.27).
Durante esse periodo, o investimento estrangeiro consistiu predominantemente na compra de titulos, obrigac;:oes emitidas por Governos e empresas publicas estrangeiras. Como exemplo basta referir que, em 1913, o IDE representava apenas 12,5% do investimento estrangeiro ingles (Cairncross, pag.45). No entanto, os restantes 87,5%, aplicados em titulos, serviram para financiar a construc;:ao de caminhos de ferro em todo o Mundo, o que absorveu 2/3 do investimento estrangeiro britanico (Cairncross, pag.46), alem de importantes obras publicas nos EUA e, embora em me nor escala, a explorac;:ao de recursos minerais nalguns paises (Kenwood e Loughed, pags. 36 e 37) .
Os titulos eram transaccionados no mercado internacional de capitais, em que a prac;:a de Londres desempenhava o principal papel como intermediario entre uma enorme quantidade de investidores, qt,1ase exclusi vamente pri vados, e os vendedores de titulos a quem se exigia elevada credibilidade. Esta e uma das razoes apontadas (Cairncross, pag.45) para justificar que a maior parte dos titulos transaccionados fossem emitidos ou garantidos por entidades estatais.
Quadro 1.1
Origem do investimento estrangeiro em 1914
Paises de origem Porcentagem
Inglaterra 43
Franc;: a 20
Alemanha 13
Belgica, Rolanda, Suic;:a 12
Estados Unidos 7
Outros 5
Fonte: Kenwood e Loughed, pag.27
Os fluxos de investimentos estrangeiros, interrompidos com a deflagrac;:ao da 1a Grande Guerra, s6 depois da 2a Guerra Mundial voltaram a assumir urn significado relevante nas
rela96es econ6micas internacionais, tendo-se registado profundas altera96es na sua composi9ao. Numa 1• · fase e ate meados dos anos de setenta o investimento estrangeiro revestiu essencialmente a forma de IDE e foi predominantemente realizado por empresas multinacionais americanas (Quadro 1.2) (Husted e Melvin, pag. 384). Posteriormente, o IDE come9ou a recuar em rela9ao ao investimento estrangeiro em carte ira, quando os excedentes dos paises petroliferos se tornaram na principal fonte de financiamento internacional. Esta tendencia viu-se refor9ada na decada de oitenta, na sequencia do endividamento externo dos EUA (Husted e Melvin, pag.564).
Quadro 1.2
Distribui9ao porcentual do IDE, por pais de origem em 1967 e 1976
Pais de origem Porcentagem
do IDE 1967 1976 Estados Unidos 53,8 43,6 Reino Unido 16,6 11,2 Alemanha Federal 2,8 6,9 Japao 1,4 6,7 Sui9a 4,8 6,5 Fran9a 5,7 4,1 canada 3,5 3,9 Holanda 2,1 3,4 Sue cia 1,6 1,7 Belgica/Luxemburgo 1,9 1,2 It alia 2,0 1,0 Outros 3,8 5,8
Fonte:--Na96es-Unidas, cit.por Herrera e Munoz, pag. 30
A preferencia dos investidores americanos pelo IDE tern raizes hist6ricas, pois os EUA nao sendo urn pais colonizador, no sentido em que o tinham sido as potencias europeias, utilizaram o IDE como estrategia para assegurarem o abastecimento, a baixo pre9o, em materias primas que
necessitavam importar (Bergsten, Horst e Morgan, pag.125). Consequentemente, foi nas industrias extractivas que surgiram as primeiras multinacionais americanas.
0 sentimento de panico vi vi do pelos EUA durante a 2 • Guerra Mundial, quando se viram na eminencia de perder o acesso a fontes externas de materias primas (Bergsten, Horst e Morgan, pag.121), reforc;::ou a necessidade de desenvolvimento dessa estrategia, levando o Governo dos EUA a considerar o IDE como urn instrumento essencial na defesa dos interesses nacionais americanos (Bergsten, Horst e Morgan, pag.309), (Gilpin, pag. 241) .
Neste processo, as companhias petroliferas americanas desempenharam urn papel preponderante. Os EUA, que eram o principal produtor mundial de petr6leo, tornaram-se importadores liquidos de crude a partir de 1947 (Linde, pag.71), pelo que as companhias petroliferas americanas decidiram aumentar a prospecc;::ao e explorac;::ao de petr6leo no Medio Oriente, onde ja tinham empresas a operar desde os anos 20.
A abundancia e qualidade do crude do Medio Oriente permitiu as companhias americanas aumentarem substancialmente os lucros devido ao diferencial entre o prec;::o de explorac;::ao e o prec;::o de venda (Linde, pag. 135). Esta realidade encorajou-as a procurarem controlar a distribuic;::ao de petr6leo a nivel mundial, investindo n~ construc;::ao de refinarias urn pouco por todo o mundo, mas especialmente na Europa, onde beneficiaram de incentives dos Governos, preocupados com a queda da produc;::ao de carvao, ate ai a principal fonte energetica europeia (Linde, pag. 13 7 e 13 8) . Posteriormente, est a implantac;::ao possibilitou que as companhias petroliferas americanas viessem a controlar, tambem, a industria e o mercado mundial dos produtos petroquimicos.
Assim, depois de terem conseguido a integrac;::ao da produc;::ao, a nivel horizontal (Linde, pag.141), ·as companhias petroliferas americanas desenvolveram uma estrategia de integrac;::ao vertical dos processo de produc;::ao (Lindert, pag.567), caracteristicas essenciais da actividade das multinacionais e que conduziram a internacionalizac;::ao da produc;::ao mundial.
A importancia das multinacionais americanas em todo processo levou a que a hist6ria do IDE fosse confundida estrategia operacional daquelas empresas, facto influenciou a definic;::ao de conceitos e as teorias investimento estrangeiro.
esse com a que sobre
Partindo, portanto, da estrategia das multinacionais americanas considerou-se que a caracteristica essencial do IDE consistia no controlo das empresas estrangeiras, diferenciando-se nesse sentido dos investimentos em carteira assimilados a puros movimentos de capital (Lindert, pag.563; Dunning, 1993, pag. 5).
Contudo, pelo facto das empresas mul tinacionais serem juridicamente sociedades an6nimas por acc;:oes e funcionarem como veiculo de muitos dos emprestimos internacionais, alem de serem agentes de captac;:ao das poupanc;:as, quer nos paises de origem quer nos paises h6spedes, desde logo os economistas viram-se confrontados com a dificuldade em estabelecer uma fronteira entre o IDE e o IEC, particularmente quando este ultimo consiste na compra de titulos de propriedade.
Em primeiro lugar, essa dificuldade decorre dos processes de penetrac;:ao das multinacionais nos paises h6spedes, em que a aquisic;:ao de empresas ja existentes aparece em lugar de destaque (Herrera e Munoz, pag.65). A aquisic;:ao destas empresas fazendo-se frequentemente pela compra de acc;:oes, surgiu o problema de se determinar quando uma tal compra e IDE ou investimento em carteira. Este problema te6rico tern assumido uma grande acuidade sempre que os paises h6spedes procuram restringir ou controlar o investimento estrangeiro, levando o poder politico a procurar encontrar uma soluc;:ao que possa ter urn enquadramento legal e normative.
Uma das soluc;:oes encontradas foi a porcentagem de capital social da empresa adquirida, considerando-se que s6 quando essa porcentagem da o controlo da empresa ao investidor estrangeiro estamos em presenc;:a de IDE (Kenwood e Loughed, pag. 41) . Contudo esta soluc;:ao levantou de imediato urn novo problema, a saber, qual a porcentagem de capital social que assegura o controlo de uma empresa. Os criterios adoptados para tal classificac;:ao tern variado de pais para pais e ao longo do tempo. Por exemplo, nos EUA essa porcentagem e de 10%
(Lindert, pag.562), assim como no Canada e Australia, enquanto na Franc;:a e na Alemanha sobe para 20% (Dunning, 1993, pag. 12), havendo casos em que tern de ser superior a 50%; mas seja qual for a porcentagem eleita este criterio e de dificil aplicac;:ao no.caso. das "joint ventures" e das fus5es-aquisic;:5es
(FA) .
Para ultrapassar essa dificuldade, encontrou-se uma segunda soluc;:ao relacionada com a intenc;:ao declarada do investidor em desenvolver efectivamente uma actividade produtiva no pais h6spede. Este processo de identificac;:ao baseia-se na tese de que o IDE nao pode ser entendido como urn mero movimento
internacional de capitais, na medida em que incorpora transferencias tecnol6gicas, novos metodos de gestao e conhecimentos sobre o estado do mercado mundial (Lindert, pag.563). Mas esta solu9ao, diffcil de legislar, s6 tern encontrado aplica9ao em situa96es especfficas quando o investidor assume urn compromisso com o Governo local. Por outro lado, a quantifica9ao dos factores incorporados no IDE e praticamente impossfvel de ser efectuada, entre outros motivos porque as empresas procuram oculta-los, na medida em que os consideram como elementos confidenciais face a concorrencia.
Apesar dos inconvenientes apontados, tanto o Banco Mundial como as Na96es Unidas e a OCDE utilizam a inten9ao do investidor como criteria para definir o IDE. Com efeito, segundo a defini9ao do Banco Mundial, apresentada na edi9ao de 1990 de "World Tables", o IDE cobre todas as transac96es em capital, incluindo opera96es a curto prazo, sempre que o objectivo final seja a aquisi9ao, por urn longo perfodo de tempo, · de uma por9ao do capital social de uma empresa em labora9ao num pafs diferente daquele em que reside o investidor, desde que este deseje ter uma voz activa na gestao daquela empresa. Por sua vez, as Na96es Unidas (Relat6rio sobre o Investimento Estrangeiro-1992) consideram que o investimento estrangeiro em carteira se distingue do IDE pelo facto deste pressupor urn interesse duradouro da empresa mae na empresa filial, medindo esse interesse pela porcentagem do capital social da filial detido pela empresa mae. Tambem o C6digo de liberaliza9ao dos movimentos de capital da OCDE define o IDE como urn investimento efectuado com a intensao de estabelecer elos econom~cos duraveis com uma empresa. No entanto, para efeitos estatfsticos a OCDE tern outra defini9ao de IDE em que o criteria fundamental e o controlo efectivo, ou seja o poder de decisao na gestao da empresa (Medeiros, pags. 175 e 176). Ora, este criteria mostra-se desadequado a pelo menos dois tipos de estrategias empresariais que emergiram no decurso da decada de oitenta: as alian9as de coopera9ao estabelecidas entre empresas mul tinacionais; os acordos de subcontrata9ao que incluem clausulas de controlo financeiro do processo produtivo e de gestao (Dunning, 1993, pag. 6).
Outra forma utilizada para distinguir o IDE do investimento em carteira, e o modo como as ac96es sao compradas independentemente da participa9ao de capital adquirido. Este foi o criteria .adoptado .em .Espanha, no infcio da decada de setenta, onde a compra de ac96es na Bolsa, por nao residentes, era considerada como investimento estrangeiro em carteira, enquanto a compra de ac96es fora da Bolsa era classificada como IDE (Herrera e Munoz, pag. 92) . Mas este criteria mostrou-se, tambem, de diffcil aplica9ao em virtude da estrategia de diversifica9ao do financiamento do IDE, entretanto desenvolvida pelas multinacionais. Assim, por exemplo, no perfodo 1966-70, mais de 50% do IDE das
multinacionais americanas foi auto-financiado pelas respectivas filiais no estrangeiro, o restante financiamento tendo sido assegurado quer pelo mercado de capitais dos paises h6spedes, · quer pelo mercado internacional de capi tais
(Ruffini, pag.40).
Curiosamente o financiamento do investimento estrangeiro das multinacionais atraves do mercado de capitais dos paises h6spedes foi urn dos criterios invocados (Greenwald, pag.423) para distinguir o investimento estrangeiro em carteira do IDE, com o argumento de que o IDE nao pode ser assimilido a uma transferencia de capitais e de que uma das fun96es das. multinacionais consistiria em captar a poupan9a dos paises h6spedes e transforma-la em IDE. Esta formula9ao tornou-se questionavel quando o mercado internacional de capitais passou a ser a principal fonte de financiamento do IDE devido
a
cada vez maier complexidade e dimensao des neg6cios das multinacionais.Como resposta, alguns autores (Krugman e Obstfeld, pag.197), ultrapassaram a questao da forma de financiamento do IDE, considerando que a principal caracteristica do IDE e o facto de ele se destinar
a
forma9ao de organiza96es multinacionais. Esta solu9ao, baseada no criteria da extensao do controle da produ9ao tern, no entanto, o inconveniente de identificar o IDE como urn investimento exclusive das multinacionais, criando situa96es de sub-avalia9ao do IDE mas, tambem, de sobre-avalia9ao.Em primeiro lugar, a identifica9ao entre IDE e multinacionais levou
a
aceita9ao da defini9ao mais abrangente de multinacional, a saber, multinacional e toda a empresa que efectuou ou efectua IDE (Dunning, 1981, pag. 3) . Segundo o Relat6rio sobre o Investimento Estrangeiro, das Na96es Unidas, esta defini9ao leva a que o universe das multinacionais seja essencialmente constituido por pequenas e medias empresas, pelo que a maier parte das respectivas filiais sao de reduzida dimensao e o correspondente IDE nao e registado nos paises h6spedes. Contudo este tipo de subavalia9ao nao deve ser muito significative se considerarmos que o IDE e sobretudo realizado por multinacionais de grande dimensao, como foi demonstrado por diversos estudos empiricos (Dunning, 1981, pag.24). Pelo contrario, as Na96es Unidas tern -seguramente razao ao afirmar que o IDE esta sub-avaliado ao nivel das transferencias tecnol6gicas e dos lucros reinvestidos. No primeiro caso porque as transferencias tecnol6gicas das empresas maes para as filiais sao geralmente contabilizadas como pagamentos inter-firmas. No segundo caso porque as multinacionais podem ter interesse em subestimar as declara96es sobre o IDE que resulta do reinvestimento de lucros das filiais, por razoes de estrategia fiscal e de gestae financeira (Na96esUnidas-Relat6rio sobre o Investimento Estrangeiro, 1992, pags .13 e 54).
Quanto a sobre-avalia9ao ela ocorre, sobretudo, em periodos de forte tendencia a concentra9ao do tecido empresarial, em que uma elevada porcentagem do IDE corresponde a fusao-aquisi9ao de empresas e e frequentemente pago com recursos financeiros captados nos paises h6spedes. Esta situa9ao verificou-se a partir de meados da decada de oitenta, levando a que a tendencia das taxas de crescimento do IDE descolasse das tendencias relativas as taxas de crescimento do PNB e das exporta96es, a nivel mundial, contrariamente ao periodo 1970-85 em que as tres tendencias se sobrepunham (Na9oes Unidas- Relat6rio sobre o Investimento Estrangeiro, 1992, pag.17). Embora em menor grau, tambem tern contribuido para a sobre-avalia9ao o IDE realizado atraves de opera96es de troca de titulos de divida dos paises h6spedes por ac96es de empresas publicas desses mesmos paises (Basile, capitulo 10) .
Por outro lado, os elevados pedidos de financiamento das multinacionais, necessaries a internacionalizayaO da prOdUyaO, exigiram uma adapta9ao do sistema bancario mundial afim de poder mobilizar de urn ponto a outro do Globo as poupan9as realizadas a nivel internacional (OCDE 1983, pag. 25) . Esta adapta9ao esta na origem do aparecimento da banca transnacional e a subsequente internacionalizayaO do sistema financeiro (Ruffini, Capitulo 1).
A partir dai, estabeleceu-se uma estreita coopera9ao entre empresas e bancos transnacionais, que acelerou o processo de globaliza9ao da economia, na medida em que a mobilidade quasi-perfeita do capital financeiro no interior do espa9o integrado das multinacionais permitiu-lhes ultrapassar as restri96es legais dos Estados. A opera9ao de "swap" indirecto, que consiste em uma empresa depositar uma certa soma numa filial de urn banco, no pais A, e receber uma soma equivalente de outra filial do mesmo banco no pais B, ultrapassando eventuais controles cambiais entre os dois paises, e urn dos exemplos dessa cooperayao (Ruffini, pags.41 e 42).
A coopera9ao entre empresas e bancos transnacionais acentuou a
importancia da gestao financeira dos activos das
multinacionais, numa estrategia · de optimiza9ao dos recursos pela diversifica9ao dos riscos. Consequentemente o investimento estrangeiro em carteira de titulos, publicos ou privados, conheceu urn crescimento explosive, sobretudo a partir de 1976 (Kenwood e Loughed, pag. 252), no decurso do processo de reciclagem dos excedentes financeiros dos paises petroliferas. Por exemplo, no caso da Arabia Saudita, uma
parte substancial desses excedentes foram investidos em titulos do Tesouro dos EUA (Gilpin, pag.315).
No decurso da decada de oitenta, diversos factores contribuiram para acelerar a tendencia do crescimento do investimento estrangeiro em carteira. Entre eles sao de destacar a desregulamentac;:ao do mercado financeiro internacional, a passagem dos EUA de pais exportador de capital a pais endividado e a emergencia do Japao como pais excedent&rio. Assim, no final da decada de oitenta, o Japao surge como o maior investidor em titulos estrangeiros (Messarovitch, pag.9), enquanto os EUA se tornaram no principal benefici&rio desse tipo de financiamento internacional (Aguado, pag.133).
Quanto aos paises em vias de desenvolvimento (PVD's), o investimento estrangeiro assumiu preferencialmente a forma de emprestimos, sobretudo a partir do 1° choque petrolifero (Husted e Melvin pag.389), (Quadro 1.3), sendo que parte desses emprestimos foram contraidos por filiais das multinacionais. Este endividamento, que· est& na origem da crise de 1982, veio a criar o problema da reciclagem dos titulos da divida (Basile, cap.10).
Para responder
A
nova realidade surgiram outros conceitos de investimento directo estrangeiro. Assim, Radcliffe (obra cit. pag. 753) identifica o investimento directo estrangeiro como sendo a compra de titulos emitidos por empresas ou governos estrangeiros e avanc;:ou com o conceito de investimento indirecto estrangeiro, definindo-o como a compra de titulos emitidos por uma companhia nacional que faz investimentos em bens de raiz, no estrangeiro- i.e. uma empresa multinacional. Portanto, Radcliffe nao divide o investimento estrangeiro em carteira e IDE, o que conta para ele e a nacionalidade da entidade emissora dos titulos.Quadro 1.3
Origem do capital estrangeiro nos PVD's (%)
IDE (1) APD (2) Emprestimos 1970 19 43 38 1980 1989 12 19 28 47 60 34
(1) inclui o investimento em capital social; (2) Ajuda Publica ao Desenvolvimento, bilateral e multilateral
Fonte: Banco Mundial (cit. em Husted e Melvin, pag.389)
Citando Radcliffe (op.cit. pag.753/754), as duas formas de investimento estrangeiro tern sido uma pratica corrente dos investidores europeus. Mas, no caso dos EUA, ate finais da decada de setenta, predominou o investimento indirecto, na medida em que o investimento estrangeiro realizado por residentes nos EUA foi efectuado indirectamente atraves de multinacionais americanas.Posteriormente, os residentes nos EUA passaram a investir propor9oes importantes das suas poupan9as atraves da compra directa de titulos estrangeiros.
A defini9ao de Radcliffe tern a vantagem de permitir incorporar no investimento estrangeiro as obriga96es e outras transac96es sobre titulos de divida, principal forma de financiamento externo dos PVD's (Quadro 1.3) e fonte importante de financiamento do defice norte-americana a partir de meados da decada de oitenta (Aguado, pags. 132 a 134). Na realidade, Radcliffe incorpora no investimento estrangeiro qualquer tipo de aplica9ao em actives estrangeiros comercializaveis, incluindo divisas e outras formas internacionais de pagamento, estoques de mercadorias e titulos de propriedade imobiliaria
(op. cit. pags 761 a 768).
Esta defini9ao alargada de investimento estrangeiro, que procura adaptar-se
a
mais recente evolu9ao da globaliza9ao do mercado internacional de capitais e suas interrela9oes com o processo de globaliza9ao da -produ9ao, tern no- entanto o inconveniente de nao permitir distinguir quando 0 investimentoestrangeiro serve para financiar o aumento da capacidade produtiva de urn pais h6spede, se enquadra numa estrategia de diminui9ao dos riscos pela diversifica9ao internacional na aplica9ao das poupan9as ou e uma mera actividade de caracter especulativo.
Urn dos metodos para resolver essa dificuldade consist
,..;~~~
identificar 0 periodo 0 de maturac;:ao dos titulos, j a q ,e ~·~ . operac;:oes especulati vas vi sam a obtenc;:ao de rna is -val~s~<~·<'a.)t .~
curto prazo. Nesse sentido o investimento estrangeiro ,d~~~:\l If)corresponder
a
compra de titulos com maturac;:ao superior a at~/·menos urn ano. 0 problema e que se uma tal distinc;:ao e possive de fazer-se em relac;:ao aos titulos transaccionados no mercado primar1o, o mesmo nao acontece no mercado secundario cuj a importancia relativa tern vindo a aumentar com a liberaliza9ao e desregulamentac;:ao do mercado internacional de capitais.
Por outro lado, o criterio do periodo de maturac;:ao dos titulos entra em conflito com o conceito de IDE adoptado pelo Banco Mundial que, alem da compra de acc;:oes, dos lucros reinvestidos e de operac;:oes de capital a longo prazo, inclui algumas operac;:oes de capital a curto prazo, como referimos anteriormente. Na realidade, com esta definic;:ao, o Banco Mundial, procura traduzir de forma abrangente a estrategia desenvolvida pelas multinacionais, quer nos processes de expansao das suas acti vidades, quer na captac;:ao de recursos para o seu financiamento em que o mercado monetario internacional tern vindo a assumir cada vez mais urn papel de relevo (Radcliffe, pags. 33 e 34).
Outro exemplo sobre esse tipo de conflitos entre criterios para definir o IDE e sobretudo estima-lo, e dado pela forma como o Departamento do Comercio do Governo dos EUA estima o IDE, anualmente. Considerando como IDE os investimentos realizados em empresas onde o investidor detem uma participac;:ao m1n1ma de 10% no capital social, o Departamento do Comercio estima o IDE pela agregac;:ao das seguintes tres parcelas:
1- "todas as entradas liquidas de capitais provenientes das socidades-maes: operac;:oes em capital social; todo o tipo de emprestimos liquidos, incluindo os emprestimos a curto prazo que nao sao distinguidos dos emprestimos a longo prazo;
2- OS lucros nao distribufdos e reinvestidos, embora nao haja
. nenhum movimento real de capitais entre
a
empresa-mae e a filial;3- uma rdbrica "ajustamento de valor", correspondendo ao total liquido de erros __ e - omissoes .que resultarn da utilizac;:ao de diversas fontes de informac;:ao" (Embaixada da Franc;:a em Washington, Services de L'Expansion economique, Etudes et Marches, no39, Maio 1989).
Num estudo da CEE sobre 1984-88, publicado em diferenc;:as significativas
o IDE na Comunidade, no periodo 1991, constatou-se que existem na definic;:ao de IDE entre os
paises -membros e destes com a OCDE, levando a importantes divergencias numericas na estima9ao do IDE, segundo .a origem e o destino. Este estudo faz uma analise detalhada das divergencias metodol6gicas para estimar o IDE, mas, tambem, das dificuldades dos estatisticos para conseguirem distinguir o IDE do investimento estrangeiro em carteira, de que referimos o seguinte exemplo, pela sua importancia no ambito das nossas preocupa9oes:
"-as sociedades ditas "holdings": este termo inclui ja por si s6 significados diferentes para diversos paises. Pode designar quer uma simples caixa postal, criada para tirar beneficio das vantagens fiscais de urn determinado pais, quer uma sociedade que gere multiplas filiais de urn grande grupo multinacional ou, ainda, uma sociedade criada unicamente com o objective de permitir
a
empresa-mae ter acesso a urn mercado financeiro ... 0 leque e largo. Os fluxos destas sociedades sao frequentemente registadosa
parte (UEBL, Holanda) I e tambem muitas vezes, s6 as "holdings" residentes sao objecto de classifica9ao separada (donde uma primeira assimetria ao nivel nacional) . Nem sempre e evidente, para quem faz as estatisticas das Balan9as de Pagamentos, a distin9ao entre investimentos directos puros e aplica9oes em carteira, efectuados pelas mesmas "holdings".Se os capitais apenas transit-am atraves dessas sociedades, inclui-los pode sobre-avaliar os fluxos de IDE, se efectivamente os capitais se limitam a entrar e sair do pais. Ao contrario, exclui-los conduz a subestimar os fluxos, quando os movimentos se processam num unico sentido: por exemplo, se os capitais que entram sao redistribuidos entre outras filiais no interior do mesmo pais. 0 problema e eminentemente mais complexo e as solu9oes sao muito discutiveis, tanto mais que nao existe consenso entre os paises, sobre esta questao."
Num estudo de 1994 sobre deslocaliza9oes, efectuado pelo Departamento de Planifica9ao do Ministerio dos Assuntos Econ6micos da Belgica, os autores tambem foram confront ados com a diversidade de defini9oes sobre IDE, tendo constatado a existencia de situa9oes de dificil identifica9ao a que chamaram "zones grises". Quanto ao IDE, os autores consideraram que pode assumir tres formas distintas (Bernard e al., pags.29 a 36):
"1. investimento directo, quando uma empresa mae estabelece uma filial no pais h6spede (formula que prevaleceu
durante os anos 60-70);
2. fusao ou aquisi9ao, quando a empresa mae fusiona com uma empresa do pais h6spede ou a adquire (anos 80);
3. joint-venture, quando a empresa do pais de origem participa, conjuntamente com uma empresa do pais
h6spede, na criac;:ao de uma nova empresa (anos 80 e 90) ."
No caso especifico das deslocalizac;:5es, i.e. "transplantac;:ao de uma actividade de produc;:ao de bens ou servic;:os para urn pais h6spede", os autores consideraram que ela se pode fazer atraves do IDE, da subcontratac;:ao ou da concessao de licenc;:as, part indo da definic;:ao dada pela ONU (ONU, World investment report, 19 93, pag. 119) : "deslocalizac;:ao internacional da produc;:ao representa a transferencia de algumas cadeias de valores acrescentados para lugares fora do pais de origem e do pais (ou paises) onde se efectua a venda final. A produc;:ao deslocalizada e controlada pela empresa mae transnacional quer porque e proprietaria da filial quer atraves de acordos com empresas locais."
Em 1993, o Relat6rio Arthuis, apresentado ao Senado frances, deu a seguinte definic;:ao de deslocalizac;:ao: " As deslocalizac;:5es consistem, para produtos que poderiam ser fabricados e consumidos numa mesma zona geografica, em separar os locais de produc;:ao ou de transformac;:ao das mercadorias, dos lugares de consume. Por outras palavras, trata-se do gestor fabricar la onde lhe fica mais barato e de vender la onde ha poder de compra" . No mesmo ano, o chefe do Departamento das contas nacionais no INSEE, Jean-Etienne Chaperon acrescentou que "se poderia falar de deslocalizac;:ao ( ... ) quando uma empresa controla noutro pais que o seu e sem ser atraves da propriedade financeira, uma produc;:ao posteriormente reimportada em Franc;:a" (Montbrial e Jacquet, RAMSES 1994, pag. 232) .
Assim, de acordo com as ultimas definic;:5es, o conceito de deslocalizac;:ao surge associado ao de controlo da produc;:ao, passando a ter urn papel secundario a propriedade total ou parcial da empresa onde se executa a produc;:ao. Esta realidade, traduziu-se num alargamento do conceito de investimento estrangeiro, a saber, aos contratos de licenc;:a, de subcontratac;:ao ou de aperfeic;:oamento passive, de assistencia tecnica, de comercializac;:ao, estabelecidos entre empresas de diferentes paises, esbatendo a fronteira entre investimento e comercio internacionais (Oman, pags. 57 e 83). Para traduzir esta realidade, surgiu o conceito de "novas formas" de IE, i.e., actives imateriais investidos por uma empresa de urn pais de origem numa empresa do pais h6spede (Chesnais, 1994, pag. 59) .
Em resume, podemos concluir que nao existe nenhum criterio capaz de estabelecer claramente uma distinc;:ao entre as diversas formas que o investimento estrangeiro pode revestir.
De facto, podemos constatar que os criterios tern sofrido altera90es ao longo do tempo procurando adaptar-se
a
evolu9a0 do movimento internacional de capitais ea
fun9a0 desempenhadapelos mercados de capital no financiamento da
internacionaliza9ao da produ9ao. Como veremos no ponto seguinte, o mesmo tern acontecido com a teoria sobre investimento estrangeiro.
1.2- Teoria do investimento estrangeiro
1.2.1- Nota previa
Ao tratar-se deste tema impoe-se, desde logo, esclarecer que nao existe uma teoria, un~ca, sobre investimento estrangeiro. Existem, sim, diversas teorias que foram sendo elaboradas ao longo do tempo e em fun9ao do papel que o investimento estrangeiro e as formas dominantes da sua concretiza9ao foram assumindo no quadro das rela9oes econ6micas internacionais. Consequentemente, o estudo da teoria do investimento estrangeiro tern de tomar em considera9ao o enquadramento hist6rico e, portanto, politico em que se processou a sua evolu9ao.
Uma segunda observa9a0 a fazer e de que existem dois grandes tipos de abordagem da problematica do investimento estrangeiro, uma de caracter macro e outra de carater micro-econ6mica, pelo que as teorias sobre investimento estrangeiro podem ser classificadas em dois grandes grupos, as de natureza macro e as de natureza micro (Caincross, pag.51).
As primeiras procuram explicar as razoes que levam determinados paises a exportar capital e outros a importa-lo, preocupando-se com a direc9ao, a amplitude e o tipo dominante do investimento estrangeiro e, embora menos frequentemente, com as consequencias que dai resultam a nivel da cria9ao e da reparti9ao da riqueza mundial. Por sua vez, as teorias que fazem uma- abordagem micro do problema estudam comportamentos, procurando identificar os motivos que fazem o investidor preferir o exterior ao pais onde reside, para aplica9ao das poupan9as, alem de se interessarem em explicar as preferencias do investidor na forma de aplica9ao do capital.
Contudo, a fronteira entre os dois tipos de abordagem nem sempre e evidente. Por urn lado, devido
a
importancia que OScondicionalismos de ordem macro exercem sobre as decisoes de tipo micro. Por outro lado, porque o somat6rio dessas decisoes tern como resul tante variaveis de natureza macro, devido ao facto do investimento estrangeiro ser essencialmente
canalizado atraves de grandes companhias e institui9oes financeiras, cujas actividades tern assumido urn papel de grande relevo na evolu9ao da situa9ao econ6mica internacional. Esta realidade justifica, por exemplo, que algumas escolas tenham procurado explicar o investimento estrangeiro, em termos macro, pela extrapola9ao de principios te6ricos de natureza micro. Assim, e embora o obj ecti vo do nos so estudo sej a de ordem macro, tambem consideramos as teorias de tipo micro sempre que permitem relacionar os determinantes da tomada de decisao do investidor com os fluxes internacionais de capital.
1.2.2- Dos classicos aos neoclassicos, passando por Keynes
0 comercio de mercadorias foi a primeira manifesta9ao importante das rela96es econ6micas internacionais. Por isso, a escola classica que no decurso do seculo XVIII elaborou a primeira teoria econ6mica de natureza macro, limitou a analise das rela96es econ6micas internacionais ao comercio de mercadorias, tendo sido consubstanciada na celebre teoria das vantagens comparativas, atribuida a Ricardo (Greenwald, pag.161). Esta teoria adaptava-se
a
situa9ao da 1• Revolu9a0 Industrial em que o comercio internacional se processava entre urn numero restrito de paises, que dispunham de imensos territories coloniais fornecedores de materias primas, e em que os sistemas produtivos se baseavam na explora9ao de mao-de-obra abundante e barata. Assim se explica que o modele ricardeano considerasse o trabalho como o unico factor de produ9ao, cujos custos relatives determinavam a vantagem comparativa de cada pais no comercio internacional. Consequentemente, cada pais tenderia a especializar-se na produ9ao de bens onde conseguia atingir os indices de produtividade do trabalho mais elevados (Krugman e Obstfeld, pag. 13).A independencia dos EUA, primeiro, e depois do Canada e da America Latina introduziram as primeiras altera96es significativas
a
situa9a0 internacional p6s 1• Revolu9a0 Industrial, no que respeita o acesso aos recursos naturais por parte da metr6pole. Posteriormente, o desenvolvimento econom1co e o aumento da concorrencia internacional incentivaram os paises industrializados a procurar melhorar as suas vantagens comparati vas, atraves do incremento da produtividade do trabalho, promovendo inova96es tecnol6gicas que permitiram a substitui9ao progressiva do factor trabalho pelo factor capital. Neste novo contexte a teoria ricardiana tornou- se obsoleta, sendo necessaria adapta-la. Na prime ira metade do seculo vinte, dois economistas suecos, Heckcher e Ohlin, encarregaram-se dessa tarefa, criando a teoria da propor9ao dos factores (Krugman e Obstfeld, pag.82). Esta teoria estabelece que os paises tendem a exportar as mercadorias que incorporam intensivamente os factores deproduc;ao em que sao abundantes e, ao contrario, tendem a importar as mercadorias que incorporam intensivamente os factores de produc;ao em que sao escassos. Isto e, os paises em que o fa.ctor capital e abundante exportam produtos capital intensivos e importam produtos trabalho intensives (Krugman e Obstfeld, pag.100). Contudo, em 1953, a tese de Heckcher-Ohlin foi posta em causa por Leontief ao demonstrar empiricamente que, no caso dos EUA, as exportac;oes eram menos intensivas em capital do que as importac;oes (Krugman e Obstfeld, pag. 97) . Esta descoberta ficou conhecida como "o paradoxa de Leontief".
Quanto ao investimento, a primeira teoria consistente de. caracter macro deve-se a Keynes, embora s6 no quadro de uma economia nacional. Entretanto, a importancia crescente do mercado de capitais exigia uma interpretac;ao te6rica do comportamento desse mercado. Poi o que procurou fazer a teoria do equilibria geral da escola neo-classica, estabelecendo uma ponte entre investimento e mercado de capitais, ao aplicar o conceito de produtividade marginal ao factor de produc;ao capital e ao demonstrar que a decisao do investidor depende da relac;ao entre produtividade marginal do capital e taxa de juro. Em particular, esta teoria considera que o investimento no factor de produc;ao capital segue uma func;ao inversa das taxas de juro, devido ao facto da produtividade marginal do capital ser uma func;ao decrescente (Ackley, pag.461) .Esta func;ao foi erigida em lei econ6mica universal.
Assim, a teoria neo-classica, embora assente em pressupostos comportamentais de natureza micro, tern sido utilizada para explicar relac;oes macro-econ6micas porque, assumindo a hip6tese da livre concorrencia se processar em mercado perfeito, partiu do princl.pl.o que os resultados macro-economJ.cos reflectem o comportamento dos empresarios baseado na maximizac;ao dos lucros (Ackley, pag.461). Mas, inicialmente, esta teoria s6 se aplicava a sistemas fechados, na medida em que rejeitava a mobilidade dos factores de produc;ao a nivel internacional (Caincross, pag.49) e negligenciava quer os custos de transporte quer as eventuais barreiras
a
livre circulac;ao de mercadorias (Dunning, 1981, pag. 22).As primeiras teorias sobre fluxo internacional de capitais consideram que esse fluxo e condicionado pelos resultados do comercio internacional de mercadorias, no sentido em que o nivel de exportac;ao ou importac;ao de capi tais, de urn pais, depende do saldo da sua Balanc;a de Transacc;oes Correntes.
Para a escola keynesiana esta tese decorre da equac;ao de equilibria (Poupanc;a- saldo da Balanc;a de Transacc;oes Correntes = Investimento) . De acordo com esta equac;ao, se o
saldo da balanc;:a
e
excedentario a Nac;:ao devera emprestar ao Estrangeiro 1 pois Nac;:ao consome menos do que produz 1 e vice-versa. Com efeito 1 se admitirmos que Nac;:ao acumula os excedentes 1 isso provocara a queda das taxas de juro favorecendo a inflac;:ao pelo aumento do consume e levando 1 consequentemente 1 a valorizac;:ao dos termos de troca (Krugman e Obstfeld 1 pag.124). No curto-medio prazo essa valoriza9ao tendera a aumentar os excedentes da Balanc;:a de Transacc;:oes Correntes e1 portanto 1 os factores inflacionista que porao emcheque a competitividade das exportac;:5es Nac;:ao 1 a longo prazo.
A equac;:ao de equilibria permitiu a Keynes estabelecer 1 tambem; uma interrelac;:ao 1 a nivel nacional 1 entre o Investimento e o saldo da Balanc;:a Comercial ao deduzir que este interferia com a poupanc;:a-nac;:ao (Stoleru 1 pag.202). Por outre lado 1 a discussao entre Keynes e B.Ohlin sobre as consequencias provaveis das reparac;:5es de guerra exigidas a Alemanha 1 depois da 1a Guerra Mundial 1 permitiu desenvolver as primeiras teses sobre as interrelac;:5es entre transferencias internacionais de capital financeirol Balanc;:a Comercial e termos de troca
(Krugman e Obstfeld 1 pag.123).
Keynes argumentava que a Alemanha se via obrigada a aumentar fortemente as exportac;:5es afim de poder pagar os elevados montantes que lhe eram exigidos 1 o que s6 seria possivel
atraves de uma drastica reduc;:ao dos prec;:os dos produtos exportados. Mas essa politica iria agravar o peso das reparac;:5es para a Alemanha 1 devido a deteriorac;:ao dos termos de trocal obrigando-a a reduzir fortemente as importac;:5es 1 o que provocaria tendencias recessivas nas restantes economias. Pelo contrario 1 Ohlin defendia que a Alemanha deveria aumentar os impastos para fazer face ao pagamento das reparac;:5es 1 o que conduziria automaticamente a uma reduc;:ao da procura de produtos importados. Simultaneamente o pagamento das reparac;:5es alemas permitiria reduzir a carga fiscal nos paises beneficiaries I estimulando a procura em geral e I em particular 1 de produtos exportados pela Alemanha. Assim 1 a
Alemanha poderia aumentar as exportac;:5es e reduzir as importac;:5es sem que os seus termos de troca fossem afectados
(Krugman e Obstfeld 1 pag.124).
Esta polemica nao contemplava a problematica do fluxo internacionaLde.capitais.sob a forma-de emprestimos. Contudo 1 os argumentos utilizados por urn e outre voltaram a ser actuais 1 quando se discute os efeitos do pagamento do servic;:o da divida sobre os termos de troca 1 no caso dos PVD's (OCDE 1983 1 pag.21). Com efeito 1 na sequencia da crise do endividamento externo desencadeada a partir de 19821 a situac;:ao de muitos PVD's assemelha-se bastante a da Alemanha no f im da 1 a Guerra Mundial . Fore;: ados a procurar aumentar fortemente as exportac;:5es e a reduzir drasticamente as
importac;:oes para fazerem face aos compromissos financeiros decorrentes do endividamento, os PVD's viram os seus termos de troca deteriorarem-se progressivamente, com as consequencias previstas por Keynes.
E,
tambem, interessante assinalar que alguns dos principios defendidos pelo FMI, ao impor aos paises endividados os celebres programas de reajuste estrutural, j& se encontravam na argumentac;:ao de Ohlin.Posteriormente, a conjugac;:ao entre as ideias da escola keynesiana relativas a exportac;:ao dos excedentes de Nac;:ao e os principios b&sicos da teoria sobre o comercio externo de Heckscher-Ohlin permitiram alargar o ambito da explica9a0 sobre o movimento internacional de capitais. Partindo da constatac;:ao de que, particularmente na decada de sessenta, os paises mais capital-intensivos criavam excedentes de poupanc;:a em relac;:ao as respectivas necessidades de investimento, enquanto os PVD's se defrontavam com a situac;:ao inversa, concluiu-se que o primeiro grupo de paises tinha de exportar os seus excedentes sob a forma de emprestimos para o segundo grupo de paises (Caincross, pag.Sl).
Esta tese, defendida pelos partidarios da teoria do equilibria geral, baseia-se na lei dos rendimentos decrescentes da rentabilidade do capital, no sentido em que essa rentabilidade e tanto maior quanto mais escasso for o capital (Samuelson e Nordhaus, pag.812 a 814). A situac;:ao no mercado internacional de capitais que se seguiu ao 1° choque petrolifero, quando os PVD' s passaram a receber elevadissimos fluxos de capitais, pareceu ser a confirmac;:ao daquela teoria. A realidade era, no entanto, mais complexa pois os excedentes de capitais provinham de paises tambem em vias de desenvol vimento e por conseguinte com grande necessidade de investir. Mas foi a crise do endividamento externo, com a subsequente inversao do fluxo liquido de capitais dos PVD's para os paises mais desenvol vidos, que pos em causa os fundamentos da teoria do equilibria geral aplicada ao mercado internacional de capitais.
1. 2. 3- As .mul tinacionais e as teorias sobre IDE
0 aumento dos fluxos emigrat6rios para os paises desenvolvidos e do investimento.estrangeiro das multinacionais, verificados nos finais da decada de cinquenta e in1c1os da decada de sessenta, demonstraram a inviabilidade da hip6tese de nao mobilidade dos factores de produc;:ao, a nivel internacional. Esta realidade e o ja conhecido "paradoxo de Leontief" levou alguns economistas a extrapolarem a teoria de Heckscher-Ohlin, sobre comercio internacional, para os fluxos internacionais dos factores de produc;:ao, considerando que os paises exportavam o factor de produc;:ao em que eram abundantes e
importavam o factor de produ9ao em que eram escassos (Caincross, pag.51). Assim, se justificava os EUA exportarem capital e importarem mao-de-obra. Esta teoria fornecia, tambem, uma explica9a0 para 0 facto do valor dos investimentos das multinacionais americanas no exterior ter ultrapassado o valor das exporta96es de produtos manufacturados nos EUA, no come9o da decada de 70 (Gilpin, pag.239), (Quadro 1.4).
Quadro 1.4
Exporta96es e IDE dos EUA, por destine, 1973
Exporta96es IDE
Destine Valor* (%) Valor* (%)
Canada 15574 22,2 28055 26,1 CEE 12483 17,8 19269 18,0 Japao 8356 11,9 2733 2,5 R.Unido 3772 5,3 11115 10,4 Outros 30070 42,8 46069 43,0 Total 70255 100 107241 100 * Milhoes de d6lares
Fonte: Survey of Current Business, Junho e Agosto de 1974, citado por Bergsten, Horst e Moran, pag. 287
Mas, ao constatar-se que a maior parte dos investimentos das multinacionais americanas tinham por destine os paises desenvolvidos (Gilpin, pag.239), com destaque para a Europa e o Canada (Quadro 1.4), caiu por terra a tese, acima enunciada, sobre a direc9ao e as causas do fluxo internacional do factor de produ9ao capital.
Entretanto, a dimensao e importancia dos investimentos estrange ires das mul tinacionais, desencadeando profundas altera96es no plano das rela96es econ6micas internacionais e interferindo na capacidade de direc9ao politico-econ6mica de cada Estado, despertaram o interesse dos· economistas pelo estudo deste novo fen6meno. Como a maior parte desses estudos partiram da analise do comportamento empresarial das multinacionais americanas (Krugman e Obstfeld, pag .199), as subsequentes teorias baseiam-se em pressupostos de natureza micro, embora podendo exterpolar- se para o plano macro, pelo menos parcialmente, dada a natureza e amplitude dos fen6menos em causa. Estao neste caso, entre outras, as teorias da organiza9ao industrial de Hymer, Kindleberger e Caves, a teoria do ciclo do produto de Vernon, a teoria dos investimentos defensives de Bauman, a teoria da concorrencia entre oligopolies de Knickerbocker.