TECNOLOGIA, DESENVOLVIMENTO
E RECURSOS HUMANOS
R. N. Monteiro de Santana Adjunto da Divisão de Pesquisa e Doutrina/ESG
Meu objetivo, nesta oportuni-dade, é discutir, sob o tema "Tec-nologia, Desenvolvimento e Re-cursos Humanos", o próprio de-senvolvimento desses recursos na era da Tecnologia Progressiva.
Neste sentido, abordarei
as
idéias inicialmente elaboradas pelo Prof. Oliveira Júnior1 e ora em discussão na Escola Superior de Guerra.Para o perfeito entendimento dessas idéias, examinarei, tam-bém, o conceito de Tecnologia, em seus aspectos rotineiro e pro-gressivo. Com base nesses ele-mentos, analisarei a temática re-lativa à Tecnologia e à Educa-ção, tendo em vista a redistribui-ção da população durante o pro-cesso de mudança social, como decorrência da Revolução Tecno-lógica.
Todo o raciocínio assenta-se nas seguintes bases:
- Em primeiro lugar, na con-vicção de que o progresso so-cial é conseqüência direta e inelutável do progresso tec-nológico, ou, por outras
pa-lavras, de que o bem-estar de uma dada sociedade será
tan-to mais elevado quanto mais modernos e eficientes os mé-todos de trabalho emprega-dos pela sua população ativa. - Em segundo lugar, na
convic-ção de que o progresso tec-nológico, conseguido lenta-mente p€la humanidade atra-vés do método experimental do "triai and error", até pas-, sado muito recentepas-, pode ser
grandemente acelerado quan-do os experimentadores estão devidamente esclarecidos por um sólido conhecimento das leis naturais, de modo que seus recursos não são mais "apenas" a conseqüência de tentativas bem sucedidas, mas, essencialmente, o resul-tado da aplicação consciente do mais avançado conheci-mento científico.
- Em terceiro lugar, na con-vicção de que uma institui-ção educacional, que objeti-va ser estimada e respeitada pela sociedade que a
tém, deve estar intimamente interessada em auxiliar essa comunidade a resolver os pro-blemas que, dia a dia, sur-gem em seu meio. Esses pro-blemas, tanto referem-se à produção ou à distribuição de bens e serviços, como podem envolver questões de admi-nistração, pública ou priva-da, incluindo, como é eviden-te, os problemas básicos, nos dias de hoje, de educação efi-ciente em todos os níveis, da
criação de novos empregos para a população crescente e do aproveitamento digno das horas de lazer.
A fim de evitar possíveis de-sentendimentos, procurarei es-clarecer o sentido em que a pa-lavra "tecnologia" é utilizada. Em tudo e por tudo, neste tra-balho, "tecnologia" é equivalen-te a "método". É preciso dar à palavra toda essa amplitude, a fim de se poder estabelecer a dis-tinção essencial entre a tecnolo-gia rotineira, processo natural ao alcance de qualquer ser vivo, e a tecnologia progressiva, que é o método aperfeiçoado por deli-berada vontade do homem, es-pecialmente quando emprega a razão . e o método cientifico para aumentar a produtividade de. seu trabalho.
Assim, "tecnologista" é todo ser que emprega um método pa-ra ter certo resultado.
~ nações que ora desenvol-vem aceleradamente suas econo-mias iniciaram a transformação dos seus métodos de trabalho há aproximadamente dois séculos com um custo social muito alto.
ó
preço foi pago pelosagricul-tores e pelos artesãos, desloca· dos de suas ocupações tradicio-nais pelo progresso tecnológico. Reduz.idos a um proletatiado mi-serável, aglomeraram-se nas
fa-velas das cidades.
Essas nações conseguem,
ago-ra, estender o bem-estar a cama-das sucessivamente mais amplas de seus habitantes. As primei-ras fases do processo de expan
-são, entretanto, durante o sé-culo passado e a primeira
meta-de do atual, caracterizaram-se pela brutal subversão do siste-ma tradicional de existência da maioria mais humilde da po-pulação.
Em países hoje em desenvol-vimento, como é o caso do Bra-. sil, constitui problema funda-mental de Governo impedir que o processo de transformação so-cial da economia acarrete con-seqüências penosas para a po-pulação. Essa aspiração humani
-tária de evitar so.frimentos ex-cessivos aos segmentos mais ig-norantes e, portanto, mais des-protegidos da sociedade brasi-leira, só se tornará realidade à medida que formos capazes de compreender e de dirigir as for-ças que atuam no processo de desenvolvimento.
Neste sentido, é dos mais elu-cidativos o estudo da distribui-ção . da força de trabalho entre as vátias atividades de um deter-minado agrupamento humano.
Desde a pré-histótia atê o iní-cio do século XIX, mais ou me-nos, em qualquer nação, um pe-queno grupo de pessoas exerci~ o poder. Mesmo acrescido dos colaboradores diretos, seu nú-mero, em caso algum, deve ter
at1ng100 a cmco por cenw aa população ativa, embora entre eles se contassem os grandes co -merciantes, os proprietários das terras, os detentores dos meios de produção ou de distribuição de bens; quinze por cento dos trabalhadores, aproximadamen-te, dedicavam-se ao artesanato e sua principal missão consistia em prover o bem-estar da mino~ ria que dispunha de recursos; a maior parcela de .mão-de-obra, entretanto, oitenta ou mais por cento dos trabalhadores, lutava, na vida agrária, .para assegurar a subsistência de todos os habi -tantes.
Essa distribuição manteve-se constante, em todas as nações, desde. os primórdios da história até o século passado. A partir dessa última época, em países onde determinadas condições se verificaram, em um mesmo mo-mento (o desfecho de uma lon-ga experiência técnica, o cresci-mento demográfico, a aptidão do meio econômico, a plasticidade do meio social interior, o apare-cimento de uma clara intenção técnica e o aparecimento de uma consciência clara diante do po-der do Estado) ,2 a sociedade transformou-se aos poucos, alte-rando, de modo fundamental, a distribuição dos trabalhadores entre as várias ocupações.
Em 1800, nos Estados Unidos da América, oitenta por cento da população ativa ainda se em-pregavam na vida agrária. Nes-ta daNes-ta, porNes-tanto, a mais rica nação de hoje era tão atrasada quanto qualquer dos países que atualmente iniciam o seu pro-cesso de desenvolvimento. Em
.rnuu, menos ae OllíO por cenw da força de trabalho não só era capaz de satisfazer ·a procura de produtos agrícolas da popu-lação norte-americana, como ainda de produzir enormes ex-cedentes de alimentos. Fenôme-no ·análogo pode ser observado, em maior ou menor escala, em qualquer das nações que ora se encontram na vanguarda do pro -cesso de desenvolvimento.
É possível, então, afirmar-se
que a diferença mais importan-te entre uma nação desenvolvi-da e outra, aindesenvolvi-da em processo inicial de desenvolvimento, con-siste na maneira pela qual cada uma delas utiliza a mão-de-obra de que dispõe.
Uma nação na qual não se iniciou o processo de desenvolvi-mento, caracteriza-se pelo fato de ter a maior parcela de seus trabalhadores em atividade no setor primário do aparelho pro-dutivo da economia (atividades de baixo progresso tecnológico, como a produção de alimentos ou de matérias-primas), empre-gando métodos rotineiros de pro-dução, com pequena produtivi-dade. Seu setor secundário (pro-dução de bens com forte progres1. so tecnológico, setor de transfor-mação industrial) é, normalmen-te, monopolista, com produção reduzida e cara, utilizando má-quinas importadas. Seu setor terciário (bens e serviços e pro-gresso tecnológico praticamente nulo) não é desenvolvido e a oferta de serviços somente é acessível a pessoas pertencentes a grupos privilegiados. Dado o baixo nível de produtividade do trabalho, a renda nacional é
cassa, e miserável a maioria da população. Em conseqüência: - As sociedades são
tradiciona-listas e estáticas.
- Os grupos privilegiados lu-tam ferozmente para asse-gurar a continuação cios "di-reitos radicados".
- A percentagem de distribui-ção dos trabalhadores entre as várias ocupações é inva-l'iante no tempo.
- O estrato social em que nas-ce uma pessoa fixa, em geral, a sua futura ocupação. - A divisão do trabalho é
pou-co acentuada e a tecnologia da produção é rotineira. Em contraposição, nas nações em fase avançada de desenvolvi-mento, a sociedade sofre radical modificação de estrutura, carac-terizada por modificações nai; . percentagens de distribuição de seus trabalhad()res pelas ocupa-ções, ao mesmo tempo que a va-riedade dessas ocupações cres-ce continuamente.
A modificação da estrutura dos empregos que acarreta a mo-dificação da sociedade é causa-da pelo apetfeiçoamento nos mé-todos de trabalho, isto é, pela substituição da tecnologia roti-neira pela progressiva que incre-menta, ao passar do tempo, o rendimento dos processos de pro-dução.
Convém assinalar, por ser de imensa importância, o fato de aue ·durante os oito ou dez mil · anos em que a distribuição da força de trabalho das nações obedecia às percentagens assina-ladas, a humanidade
experimen-tou muitas formas ae governo, múltiplos sistemas econômicos, filosofias sociais
as
mais diver-sas. As modificações nas condi-ções de trabalho, entretanto, só começaram a aparecer quando, em meio ao século XVIII, o pro-gresso tecnológico, isto é, a apli-cação 'da razão às ações huma-nas, permitiu ao homem abando-nar a rotina e procurar a efi-ciência em seu trabalho. A par-tir de então a distribuição da mão-de-obra disponível pelas vá-rias ocupações se altera, subs-. tancialmente, em todos os paísesque são, sucessivamente, tocados pela vara mágica da Revolução Tecnológica.
Logo, a causa do progresso · social é o progresso tecnológico ou, por outras palavras, o em-prego, na produção, da tecnolo-gia progressiva, em substituição à tecnologia rotineira até então empregada.
A medida que o aperfeiçoa-mento dos métodos de produção multiplica a quantidade de bens primários e se'cundários à ·dispo-sicão da· sociedade, diminui a mão-de-obra empregada para produzi-los, mas ampliam-se consideravelmente:
- os conhecimentos profissio-nais exigidos dos trabalhado-res;
- a oportunidade de emprego de alto nível intelectual no setor terciário.
É impossível fazer o salto
en-tre a estrutura de mão-de-obra existente em um país de econo-mia estagnada e a nova estru-tura exigida pelas sociedades pa-ra as quais caminham as nações
em desenvolvimento, sem cons-truir um sistema escolar, capaz de atender às exigências da tec-nologia progressiva.
O aumento de bem-estar pa·· ra a população de um pais avan-çado no processo de desenvolvi-mento, em contraste com a mi-séria generalizada,_ existente na mesma nação, há menos . de dois
séculos, só se tornou realidade porque foi possível:
aumentar a produtividade do trabalho nos setores primá-rio e secundáprimá-rio até, pratica-mente, saturar . o mercado com os produtos da
agricul-tur~ e da indústria;
- liberar contingentes enormes de mão-de-obra desses dois setores, especialmente do pri-mário;
- instruir os trabalhadores
des-locados, e os contingentes de mão-de-obra das novas gera-ções, para habilitá-los a exer-cer atividades no setor ter-ciário, setor esse que cresce desmesuradamente ao desen-volver-se a economia.
O processo de desenvolvimen-to consiste, portandesenvolvimen-to, em:
- aumentar a produção de bens
nos setores primário e secun-dário da economia; mediante o emprego da tecnologia yro-gressiva, em contraposiçao à
tecnologia rotineira,
ante-riormente empregada;
- ministrar educação fo.rmal
adequada a um número cres-cente de trabalhadores, para que se tornem aptos a ter acesso aos bens produzidos; não só capacitando-os. a mere-cerem melhores salários
(pe-10 aurr1ta11iu uc:: p1uuu1.>1uu .. ,~ ... de seu trabalho nos setores primário e secundário da eco-nomia), como,
principalmen-te, encaminhando-os para o
setor de serviços.
O progresso tecnológico per-mite a produção de todos os ali-mentos de que precisa a comu-nidade, com menos da vigésima
parte da mão-de-obra
emprega-da na época da tecnologia roti-neira. Mas os trabalhadores que, no período da tecnologia pro-gressiva, permanecem no setor agrário são obrigados a utilizar conhecimentos derivados das leis que regulam os fenômenos natu-rais. Devem, por conseqüência, compreender a linguagem dos "tecnologistas" e operar máqui-nas complexas.
Analogamente, a indústria moderna, com suas fábric-as
gi-gantescas, exige conhecimentos
de bom nível técnico dos seus
operadores e competência
pro-fissional ·elevada dos diretores, gerentes, administradores.
Desse modo; a redução nu-mérica dos trabalhadores dos setores primário e secundário de uma nação avançada, em con· seqüência do progresso tecnol(>.. gico, é acompanhada de uma ele-vação correspondente no nível de instrução dos homens que atuam nesses setores.
Somente quando o trabalha-dor se capacitar a produzir, por métodos progressistas, e a parti-cipar, em escala adequada, dos bens produzidos, estará assegu-rado o progresso social, uma vez que, sem mercado em expansão, não existirá economia em desen-volvimento.
.1:1UJe em um, no m1c10 ao
pro-cesso de desenvolvimento, o au-mento de produção no setor se-cundário, em oposição ao que su-cede no setor primário, pode ser conseguido, com relativa
facili-dade, mediante a importação de tecnologia sob a forma de má-quinas ou de patentes. Desse fa-to decorre o aspecfa-to de "verda-deiro motor" da economia em ex-pansão que se reconhece à . in-dústria. Esse . fenômeno, entre-tanto, só se verüica em uma
pri-meira fase. A medida que a in-dústria se expande e se diversi-fica, o esgotamento das reservas de moedas fortes, criando difi-culdades à importação, provoca uma diminuição no ritmo de in-gresso de novas tecnologias e, portanto, uma tendência à es-tagnação do setor secundário. A expansão, desse modo, consegui-da para o setor secundário da economia de um país em desen-volvimento não atinge os setores primário e terciário, senão ao fim de muitos anos. Logo, essa
expansão não pode ser um
gera-dor de progresso social, a não ser no caso de uma evolução em pra-zo longo.
No setor primário,
justamen-te aquele que, em um país em fase inicial de desenvolvimento, reúne a maioria da população, a parcela mais pobre, mais igno-rante e mais desprotegida dos trabalhadores, a tecnologia não
pode ser importada, em virtude de as condições ecológicas do país não se assemelharem às das nações mais avançadas. Desse modo, a produtividade não po-derá ser melhorada senão à me-dida que as instituições locais, isto é, as universidades e os
ins-lilliUliOS ue pe:squ1:sa, CC:;t,J!l:tClltl;tH;:UJ." se a promover o progresso dos meios de trabalho e esforçarem-se para tornar esesforçarem-ses meios aces-síveis aos trabalhadores.
Ora, o progresso desses meios
é a chave para dois fatos, que vão propiciar a elevação do ní-vel médio de vida:
- O aumento da oferta de ali-mentos e de matérias-primas, conseguido com uma força de trabalho decrescente. - A liberação de contingentes
de mão-de-obra tornados ex-cedentes para os trabalhos agrícolas, e que poderão ser educados para atividades nos dois outros setores da econo~
mia, principalmente para o
terciário.
Ê no setor terciário que deve -rão empregar-se a grande maio-ria dos trabalhadores deslocados do primário e do secundário. Tal setor terciário só poderá atingir a amplitude exigida pela ec0010-mia em ex1>ansão e pela socie-dade em transformação, à
medi-da que a elite dirigente modifi-car sua atitude tradicional em relação à educação.
Essas idéias, expressas pelo
Prof. Oliveira Júnior, em livro publicado em 1956, levaram Aní-sio Teixeira3 a dizer que não via,
nos seus estudos sobre Educação e Tecnologia, apenas o brilhan-tismo de um ensaísta, "mas to~
da uma filosofi.a fundada na compreensão de que a escola é uma agência de engenharia so-cial, destinada a formar e redisw
tribuir os homens e mulheres pe· la imeinsa e diversificada rede de ocupações de wna democracia moderna". Aliás, nos meados dos
i:tllU~ -JV, .. .ri..u .. u:u.v ..&. v.1.A.;.;.1.1.."' ""'~""' ... -via que a educação esc.olar não devia ser mais que "um esforço para redistribuir os homens pe-las diversas ocupações e meios de vida em que se repartem as atividades humanas".
Oliveira Júnior, porém, é mais incisivo ao proclamar que, na sociedade moderna, a educação adquire cada vez maior impor-tância, como instituição capaz de preservar e desenvolver os va-lores sociais, ao mesmo tempo habilitando cada cidadão à. con-quista de um lugar adequado entre os seus semelhantes. Para ele, a educaç;ão é um processo
social que deverá variar com os
objetivos visados pela sociedade
a que se deve aplicar. Em outras palavras: a educação não tem objetivns absolutos. Cada socie-dade deve fixar os seus objetivos e, em conseqüência dessa esco~ lha, elaborar os métodos e pro-cessos a empregar na educação.
Por todos os aspectos consi-derados, se medirmos a extensão de uma transformação social, pelo critério de seu êxito em per-mitir a expansão da espécie hu-mana com maior segurança pa-ra os individuas, a Revolução Tecnológica é, de fato, a única revolução que a espécie humana presencia desde a Revolução Ur-bana,4 ocorrida oito ou dez mil anos atrás. A Revolução Tecno-lógica precisa, portanto, ser es-tudada a fundo, se desejarmos planejar com segurança o desen-volvimento dos recursos huma-nos, o qual se deve voltar para
a aquisição de meios que facili-tem o labor produtivo e o desen-volvimento da personalidade. . .
&V"M "'"'6.~V .... ~-- -v•- ..,..,.., --mo objetivos o trabalho e o
la-zer. Isto significa dar aos indi-víduos os meios para que se dis-tribuam entre as numerosas ocupações que a sociadede atual, cada vez mais complexa, está pe-dindo, cada vez maior número, principalmente no setor terciá· rio. Mas urge escolher um tipo de educação que permita a adap-tação a novas condições de tra-. balho quando o progresso tecno-lógico forçar o trabalhador
a
mu-dar de profissão. Finalmente, dar aos trabalhadores um ideal e uma motivação com que pre-encher as horas de lazer que a própria tecnologia progressiva vai-se encarregando de aumen-tar cada vez mais. Em síntese, trata-se de uma educação flexí-vel, que dia a dia se adapta às necessidades dos indivíduos, que dia a dia orienta seus objetivos de acordo com as variações do progresso tecnológico.É fácil concluir dessas
obser-vações aue o verdadeiro motor do progi·eeso social nos países em processo inicial de desenvol-vimento e em desenvoldesenvol-vimento não é o setor secundário. mas, sim, o seu parque educacional, compreendida a educação con-forme assinalado.
Para a confirmação deste
ponto-de-vista, basta atentar pa-ra as duas soluções políticas ten-tadas pela humanidade para re-solver os problemas que surgem com o desenvolvimento.
A primeira, que se poderia chamar solução histórica, pois,
adotada instintivamente, na
maioria das nações que se deno-minam industrializadas, está em Revista da Escola Superior de Guerra - N9 2 • Vol. II - Abril/84 97
ae1xar Jogarem, sem pe1as, as forças da economia, movidas pe-la ambição do lucro, no sistema
denominado de livre empresa . Gradativamente, os
representan-tes do capital e elo trabalho pas-sam a entender-se melhor e é
inegável que, hoje em· dia, em
algumas· nações do mundo oci-dental, existe um sistema econô-mico capaz de gerar bem-estar social para toda a população. Aliás, o grande atrativo que a industrialização ainda hoje exer-ce na imaginação dos povos em desenvolvimento, e de seus líde-res, decorre dos resultados que essas nações conseguiram após
150 ou 200. anos de prática do
processo.
A segunda solução foi utiliza-da, mais recentemente, por algu-mas nações totalitárias que mu-daram a estrutura tradicional
da
sociedade, destruindo aanti-ga camada superior, para
com-primir ao máximo o consumo.
Desse modo, asseguraram os ·
re-cursos à criação, em prazo
cur-tíssimo, das escolas voltadas
pa-. ra as questões do trabalho, da
agricultura eficiente e da indús-tria pesada.
Para um país que objetiva o progresso, nenhuma das duas
·soluções é admissível. A primei
-ra, por exigir prazo demasiado longo, de que certamente não dispõem os atuais países em pro-cesso inicial de desenvolvimento e, também, por acarretar, nas
primeiras. décadas· do processo,
pesados sacrificios e sofrimentos para as camadas mais modestas da população. A segunda solução é igualmente inaceitável para um país livre, pela brutalidade
com que exige a. utl:sLruu~au uoe
toda uma camada social,
impon-do, além de tudo, a sujeição do
país à ditadura de um pequeno
grupo de planeja.dores.
Só resta, portanto, em países como o Brasil; ensaiar novos pro-cessos que deverão ser encontra-dos rapidamente pela análise cuidadosa de como utilizar o progresso tecnológico para ob-ter-se o progresso social. Tendo
em vista que o Brasil é um país
sem tradição tecnológica, e ca-rente de uma ideologia da téc-nica, só lhe resta, em face do exposto, buscar na escola, no
processo educacional, o instru
-mento adequado para a criação de uma clara intenção técnica em todas as camadas da sua po-pulação, sobretudo porque pros-segue, no País, o processo de
va-riação da distribuição da força
de trabalho, com evolução aná-loga à de outras nações, porém avançando com grande acelera-ção.
Adolescentes e adultos vêm saindo do campo e procuram meio de vida nas zonas urbanas,
onde já é intensa a procura de
t.rabalho. Para obter emprego é
indispensável poosuir a técnica necessária, impondo-se, então, reorientar a política educacional, a fim de evitar que o universo de desajustados possa continuar crescendo até atingir proporções catastróficas.
É precisó dar aos
trabalhado-res os conhecimentos e as habi-lidades necessárias, indispensá-veis para que sua produtividade se eleve.
Cumpre não esquecer, porém, que não .há um modelo de
sileiro. Na reauctacte, há brasueí-ros, cada qual diferente de todos os demais, cujos objetivos na vi-da diferem forçosamente de in-divíduo para inin-divíduo. É esta a razão por que a educação da Era Tecnológica não poderá deixar de ser PESSOAL, de atender a
CASOS INDIVIDUAIS.
Não é concebível que a socie-dade imponha a todos uma só
forma de cultura. Diz-nos
Dob-zhansky que uma das condições de igualdade de oportunidades envolve o reconhecimento de que pessoas difer.entes, portadoras de diferentes dons, requerem dife-rentes ambientes para a sua rea-lizaçã.o. Não desejo levar esse ar-gumento às suas últimas conse-qüências, mas não posso deixar de ressaltar que a igualdade de oportunidades, no plano ideal, "implicaria a provisão de uma série de diversas vias educacio-nais que as pessoas escolheriam, ou as quais se recomendaria que seguissem, de acordo com seus gostos e aptidões" .s
Para Oliveira Júnior, o ho-mem varia ao correr dos sé-culos, acrescentando: O que no homem existe de permanente, manifesta-se sob aspectos dife-rentes, em épocas ou regiões di-ferentes, nas diferentes
civiliza-ções que surgiram em diferentes partes do mundo e, mesmo,
den-tro d.os quadros de uma mesma
civilização.
Notas
1. o presente trabalho é repro-dução das idéias do Prof. Ernesto
Luiz de Oliveira Júnior, desenvolvi-das durantes longos anos de
pesqui-sa e reflexões. O autor está,
presen-temente, eiaooranuo com tne uu1
u-vro sob o título Tecnologia, Ciên-cia, Desenvolvimento e Segurança, cujas notas serviram de base para a redação do presente texto. O Prof. Oliveira Júnior é, atualmente,
mem-bro da Junta Consultiva da Escola Superior de Guerra..
2. Para o estudo e análise dessas condições, vide A Técnica e o Desa-fio do Século, de Jacques Ellul. Rio de Janeiro, 1968, páginas 49 a 62; Produtividade (4,specto Tecnológico), de Ernesto Luiz de Oliveira Júnior, Rio de Janeiro, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Brasil, 1960, páginas 11 a 29; e LS7-79, Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento. Esco-la Superior de Guerra, páginas 89 a 99.
3. Vide Doze Ensaios sobre Edu-cação e Tecnolo.gia, de Ernesto Luiz de Oliveira Júnior. Rio de Janeiro,
CAPES, 1956, páginas 5 e 6. Desta mesma obra é importante consultar as páginas 24 a 50.
4. No entendimento do Prof.
Oli-veira Júnior, são apenas quatro os acontecimentos realmente decisivos para que a humanidade chegasse ao estágio atual: o domínio do fogo, a revolução ag.rária, a revolução urba-na e a revolução tecnológica, da qual a Revolução Industrial é apenas uma faceta. A Revolução Tecnológica
de-sencadeou o crescimento considerá-vel da população; o prolongamento da vida provável ao nascer; a ele-vação do nível médio de vida; a transferência de enormes parcelas de mão-de-obra, dos setores onde o serviço é penoso, para as ativida-des mais suaves, com salários mais altos; redução considerável da jor-nada de trabalho e, como conseqüên-cia, um aumento correspondente das horas de lazer; a entrada em servi-ço em idade mais adiantada e, por-tanto, ensejo de escolaridade mais longa para a juventude; acesso às escolas de um número imenso de· jo-vens cuja origem modesta jamais lhes teria permitido tal benefício em épocas anteriores.
5. DOBZHANSKY, Theodosius
-Diversidade Genética e Igualdade Humana.. Lisboa, Edições 70, 1974, páginas- 66 a 73.