COMPORTAMENTO
Mãe, tem visita!
Nada de surtar se os filhos quiserem trazer os namorados para dentro de casa. Para os especialistas, o melhor a fazer é respirar fundo e preparar as boas-vindas
Carolina Samorano
Especial para o CorreioEsqueça o futebol. Se existe um clássico que rende conversa em mesa de bar é sogra versus genro ou sogra versus nora. Mais disputado que final de Copa do Mundo com Brasil e Argentina. Em 2008, quando não conseguiu um emprego em Brasília depois de se formar, a turismóloga Ângela Silva, 25 anos, se viu de repente empurrada para o meio de campo, prestes a protagonizar a peleja. “Eu não tinha trabalho aqui e os pais do meu namorado me convidaram a tentar alguma coisa em São Paulo, morando com eles”, conta. O convite acabou convencendo Ângela a deixar o conforto da casa dos pais na capital para arriscar a sorte lá, a uma parede de distância dos sogros.
Adaptar-se aos horários da casa e à falta de privacidade foi a parte da coisa que Ângela tirou de letra. O ciúme da sogra é que era difícil de driblar. Mas, segundo o psicólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Aílton Amélio, esse desafio não foi privilégio da turismóloga. Ele acredita que a maior parte dos problemas nas relações com as sogras surge exatamente daí. “Pode ser difícil para uma mãe ver uma terceira pessoa numa relação que antes era essencialmente entre ela e o filho. Para ela, parece que alguém está tirando o filhinho ou a filhinha dela”, explica. “Daí para o ciúme virar um jogo baixo ou uma disputa não custa nada”, completa o especialista.
Sorte ou não, Ângela nunca chegou a enfrentar a mãe do namorado enquanto dividia a casa com ela. Oportunidade, não faltou. Paciência, sobrou. “Alguém tinha que ceder e, como eu era a visita ali, precisei respirar fundo algumas vezes”, lembra. A temporada durou nove meses, só o suficiente para Ângela se estabilizar no novo emprego e encontrar um lar para chamar de seu.
Depois, cada um no seu espaço, não deu para segurar as diferenças. “Fiz muita vista grossa enquanto morava lá, acho que acabei guardando algumas coisas. Aí acabei me intrometendo um dia numa briga dela com o meu namorado”, lembra. Hoje, tudo resolvido, mas a experiência de morar com a família do amado ficou no passado. “Não foi assim tão ruim, mas não troco mais a minha casa”, pondera.
Histórias de experiências traumáticas com sogra há aos montes. Todo mundo conhece alguém com uma para contar. O estudante de ciência política Pedro Ribeiro, 22, sabe bem disso. Da última sogra, nem tem saudades. “Ela me regulava a comida, ficava dando indiretas e ainda colocava os dois filhos pequenos para ficarem nos vigiando”, recorda. Só que de um ano para cá, desde que começou a frequentar a casa da atual namorada, a também estudante Jéssica, 21, ele deixou de ser regra para virar exceção. A convivência com a família é tão bacana que ele se sente um membro dela.
“Eu adoro tê-lo por perto”, garante Herivânia Damata, 45, a sogra. “Quem fica preocupada é a mãe dele, com medo de que ele incomode, mas que nada!”, defende. A intimidade é tanta que já rendeu até apelido. “Meu filho mais novo começou a chamá-lo de Agostinho Carrara (personagem do programa A grande família) porque diz que ele explora a gente, mas é brincadeira”, diverte-se.
O irmão, aliás, é o parceiro de videogame preferido de Pedro. “Às vezes, espero a Jéssica dormir e fico até tarde jogando com ele”, confessa, sob olhares de desaprovação da namorada e
gargalhadas da sogra.
Limite é bom e todo mundo gosta
Faz parte do senso comum a afirmação “o limite de um termina quando começa o do outro”.
Quando esse outro é alguém muito presente na vida do filho, é bom que esses limites sejam determinados — e respeitados — para garantir a coexistência pacífica. Sendo assim, algumas regrinhas podem ajudar a dosar o relacionamento em casa, de acordo com especialistas. Na casa Capa
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Brasília, domingo, 28 de março de 2010
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28/03/2010
http://www2.correioweb.com.br/cbonline/revistadocorreio/sup_rvd_6.htm
de Herivânia, por exemplo, Jéssica e Pedro não ficam no quarto de portas fechadas. Dormir, só se for cada um no seu canto: Jéssica no quarto, Pedro na sala. “Eu entendo e também não tenho do que reclamar. Tem uma televisão enorme aqui, o videogame, e a comida é bem ali, na cozinha”, brinca o estudante.
No entanto, se o visitante passa a ser um incômodo para a família, cabe aos pais o controle da situação. “Eles são mais experientes em ocasiões de estresse, por isso o melhor é que eles descubram o melhor jeito de ajustar as coisas sem invadir o espaço do filho. O que não pode é deixar que o filho faça o papel de mediador de conflitos”, explica o psicólogo e especialista em relacionamentos Thiago de Almeida. Já para Amélio da Silva, se o parceiro não é bem-vindo em casa, cabe ao namorado colocar o relacionamento na balança e ver se vale a pena enfrentar os pais em nome do amor. Se a resposta for sim, existem formas de se impor sem declarar guerra total — tanto para os pais quanto para os filhos.
O ideal, segundo Silva, é que exista uma flexibilidade. Engolir alguns sapos no meio do caminho também não é o fim do mundo, mas é preciso saber usar a diplomacia e negociar com firmeza.
“Existem maneiras firmes de lidar com inconvenientes. Ser assertivo, usar a educação e a tolerância são dicas importantes”, afirma o especialista. No entanto, na opinião do psicólogo, se a casa é dos pais, eles têm o direito de querer impor algumas regras, mas é preciso que ele saibam que falar pode gerar ou piorar conflitos. “Não tem como fazer uma omelete sem quebrar os ovos.
Mas as regras fazem parte da vida, precisam existir. Ficar no silêncio absoluto nunca é uma boa política”, pondera.
Em nome da convivência
Se você é a sogra anfitriã ou se é o amor do filho dela, a boa educação é bem-vinda para deixar o convívio ainda mais agradável ou evitar estresse no ambiente familiar.
» Normal fazer uma ou outra visita no começo do namoro, mas entrar de vez na vida da família não é uma boa. Passar dias e noites inteiros na casa dos sogros, só depois de alguns meses. “Cada caso é um caso, mas eu diria que seis meses é a conta ideal para a família se acostumar à ideia”, diz a especialista em etiqueta Virgínia Gargiulo.
» Se você vai ficar mais de um dia na casa do namorado, organize uma mala de roupas que seja suficiente e organizada. Pedir roupa emprestada para a sogra ou para a cunhada pode ser desconfortável.
» Atenção, meninas: manter o banheiro organizado é fundamental. Fique atenta para não esquecer peças de roupas íntimas por lá. Os meninos devem prestar atenção à tampa do vaso levantada.
» Se o plano é passar a noite, o melhor é que a visita seja no fim de semana. “Durante a semana, as pessoas têm compromissos, atrapalha a rotina da casa e até mesmo a do casal, que estuda ou trabalha”, aconselha Gargiulo.
» Aparecer de camisola ou samba-canção na mesa do café-da-manhã não tem nada a ver.
Segundo Gargiulo, para circular nas áreas comuns da casa, só depois de devidamente vestido.
» Ser uma sogra receptiva ajuda a deixar de lado o estresse desnecessário. Não custa nada oferecer um café-da-manhã caprichado ou convidar a namorada ou o namorado para um almoço em família. Além de simpático, é uma boa oportunidade para conversar e conhecer melhor a pessoa antes de qualquer julgamento.
» Se a situação está ruim mesmo, o melhor então é chamar os dois para uma conversa franca.
Ficar soltando indiretas pode piorar a situação.
Papéis invertidos
Se as coisas são difíceis para as noras e os genros, quem está do outro lado da história não sofre menos. Segurar o ciúme e aceitar que a felicidade dos filhos não depende mais só delas deixa mães enlouquecidas. Ingrid, personagem da atriz Natália do Vale na novela Viver a vida, que o diga. Na trama, ela é do tipo que espera os filhos adultos no sofá da sala a cada noite e sofre horrores com as escolhas amorosas dos rebentos. Mas quem estuda a fundo esse tipo de relação garante: com quase nenhum esforço — e muita paciência — é possível, sim, manter a convivência numa boa mesmo sem morrer de amores pelos amores dos filhos.
De acordo com o psicólogo Thiago de Almeida, a boa convivência familiar não depende só de ir ou não com a cara do sujeito. Aceitar que filhos crescem e são livres para escolher seus próprios parceiros faz parte. “Quando o filho permite que alguém passe a frequentar a
Alex Carvalho/TV Globo - 25/2/10
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28/03/2010
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casa dos pais é um sinal de que, para ele, aquele é um relacionamento importante”, explica. “O problema é que para alguns pais assumir um compromisso assim é quase como romper o cordão umbilical de vez, e aí eles se sentem abandonados”, completa.
Por isso, o psicólogo avisa: entrar em pânico e querer empurrar o problema para longe não é a solução apropriada. Pedir para que os filhos terminem o relacionamento, por exemplo, não deve nem ser uma alternativa. “Muitas mães caem no erro de tentar persuadir o filho de que o relacionamento não é apropriado”, conta. “Na verdade, não há como impedir um amor de acontecer. Isso só trará estresse ao ambiente familiar”, analisa. Herivânia, a mãe de Jéssica e sogra de Pedro, sabe o que o especialista quer dizer. “Nunca torci pelo fim do namoro deles. Pelo contrário, acho que enquanto eles estiverem bem, minha filha estará feliz e é com isso que eu me importo”, resume.
Na ficção, Natália do Vale vive Ingrid, uma sogra que sonha com a mulher perfeita para os filhos