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MONOTONGAÇÃO NO TALIAN DE CASCAVEL

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Academic year: 2021

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MONOTONGAÇÃO NO TALIAN DE CASCAVEL

Sanimar Busse - Unioeste 1 Wânia Cristiane Beloni - Unioeste 2 RESUMO: O processo de monotongação é recorrente nas línguas latinas. O fenômeno já era comum no latim vulgar e se manteve nas línguas românicas. Neste trabalho pretende-se verificar se o fenômeno ocorre na fala de descendentes italianos no dialeto talian. Para a análise foram transcritos dois programas radiofônicos transmitidos por uma rádio de Cascavel, que são apresentados em talian. Em análise às transcrições dos programas observou-se que o fenômeno da monotongação é recorrente na fala tanto do português quanto do talian. A monotongação no talian, que é uma fusão do dialeto vêneto com o português, será descrita a partir dos dados coletados em duas edições de um programa radiofônico, transmitido em Cascavel e realizado por três falantes do dialeto que residem na cidade. Considerando-se a face dinâmica da língua, que se movimenta de acordo com os seus condicionantes internos e externos, busca-se traçar um estudo comparativo entre os dados coletados dos programas, gramáticas e dicionários do talian, do italiano padrão, do dicionário geral do dialeto vêneto e do português, para que se compreenda o fenômeno de monotongação.

PALAVRAS-CHAVE: talian, variação linguística, monotongação INTRODUÇÃO

Compreender a organização da sociedade a partir da sua formação histórica e cultural é de fundamental importância para identificar os elementos identitários que se acomodam na língua. O multilinguismo é uma característica inerente à sociedade, já que, ao contrário do que se pensa, ele ocorre desde a antiguidade. O Brasil também surgiu em um contexto multilingue, mesmo antes de ser colonizado, aqui já existiam mais de 150 línguas indígenas. Com o início da colonização portuguesa esse multilinguismo só aumentou. Com o tráfico de escravos, o português também sofreu, ainda, influências de diversas línguas africanas.

Heye e Vandressen (2006, p. 384) lembram que, com a independência do Brasil e com as dificuldades geradas pelo tráfico negreiro, o governo abriu suas portas para a imigração europeia, para garantir a mão de obra na agricultura. Assim, o Brasil recebeu, em diferentes momentos de sua história, alemães, italianos, poloneses, ucranianos, russos, holandês, gregos, húngaros, armênios, chineses, ladinos, ingleses, japoneses, libaneses, espanhóis, etc. Além disso, há ainda, o quadro de contato do português com línguas faladas na fronteira, ou seja, o contato com o espanhol e o guarani.

As localidades do Oeste do Paraná que foram povoadas, na década de 1960 pelos colonos sulistas, registram entre os falantes o bilinguismo do português e de dialetos ou línguas dos imigrantes alemães, italianos e poloneses, que migraram para o Brasil no início do século XIX. Na região, esse bilinguismo adquire outra paisagem a partir da convivência dos falantes com os falantes da fronteira com o Paraguai e a Argentina, com indígenas e com falantes de diferentes falares do português brasileiro.

Essa realidade de contato linguístico levou alguns grupos a conservarem a língua dos antepassados, utilizando-a em diferentes espaços, comércio, igrejas, repartições públicas entre outros. Outros grupos acabaram por abandonar a sua língua e a preservaram em espaços restritos, principalmente os familiares. Esse é o caso dos dialetos do italiano, como, por exemplo, o talian, falado pelos colonos sulistas que se instalaram em Cascavel.

Em estudo do dialeto talian falado em Cascavel, observou-se que o fenômeno da monotongação é recorrente na fala dos apresentadores do programa de rádio analisado e que esse processo, na verdade, já ocorria no dialeto vêneto, assim como no português.

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Professora doutora do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras - Nível de Mestrado e Doutorado, área de concentração em Linguagem e Sociedade, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Unioeste - Campus de Cascavel. 2

Aluna bolsista (Capes) do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Letras - Nível de Mestrado e Doutorado, área de concentração em Linguagem e Sociedade, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Unioeste - Campus de Cascavel.

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LÍNGUA E SOCIEDADE

Cada língua carrega consigo a história e a cultura de seus falantes. Para Monteiro (2000), a língua reflete a organização de uma sociedade, pois:

[...] como sistema acompanha de perto a evolução da sociedade e reflete de certo modo os padrões de comportamento, que variam em função do tempo e do espaço. Assim se explicam os fenômenos de diversidade e até mesmo de mudança linguística, conforme Labov tem insistido. E, inversamente, pode-se supor que certas atitudes sociais ou manifestações do pensamento sejam influenciadas pelas características que a língua da comunidade apresenta. É o caso então de examinarmos, com mais vagar, até que ponto a sociedade é condicionada pela língua e, vice-versa, em que medida a língua é condicionada pela sociedade (MONTEIRO, 2000, p. 16-17).

Faraco defende ainda que a avaliação social é o que define a permanência de uma variante. O autor explica ainda que grupos de falantes podem avaliar positivamente ou estigmatizar uma língua, e que é isso que fará com que este grupo adote ou rejeite uma determinada variante. Para o autor, os principais fatores que influenciam a mudança linguística são: “grupos socioeconômicos, idade, sexo, etnia, localização espacial (cidade x campo)” (FARACO, 2005, p. 194-195).

As variações são, normalmente, tachadas de erradas, incorretas e impróprias. Tarallo (2005), explica que as variações, ou seja, as formas não padrão, são estigmatizadas:

As variantes de uma comunidade de fala encontram-se sempre em relação de concorrência: padrão vs. não-padrão; conservadoras vs. inovadoras; de prestígio vs. estigmatizadas. Em geral, a variante considerada padrão é, ao mesmo tempo, conservadora e aquela que goza do prestígio sociolinguístico na comunidade. As variantes inovadoras, por outro lado, são quase sempre não-padrão e estigmatizadas pelos membros da comunidade (TARALLO, 2005, p. 11-12).

Faraco (2005) destaca que esses juízos de valor recaem sobre os falantes da classe estigmatizada. No entanto, o autor chama atenção para aquelas pequenas comunidades que se utilizam da diversidade como marca de grupo: “uma comunidade (principalmente quando pequena e com a rede de relações internas bastante firmes) pode desencadear um processo de mudança para marcar sua diferença em relação a grupos de falantes de outras áreas” (FARACO, 2005, p. 28). Nesses casos, a mudança linguística está relacionada, também, ao jogo de valores sociais do grupo.

O fenômeno da variação linguística, segundo Mollica (2004), é condicionado por variáveis internas e externas.

No conjunto de variáveis internas, encontram-se os fatores de natureza fono-morfo-sintáticos, os semânticos, os discursivos e os lexicais. Eles dizem respeito a características da língua em várias dimensões, levando-se em conta o nível do significante e do significado, bem como os diversos subsistemas de uma língua. No conjunto de variáveis externas à língua, reúnem-se os fatores inerentes ao indivíduo (como etnia e sexo), os propriamente sociais (como escolarização, nível de renda, profissão e classe social) e os contextuais (como grau de formalidade e tensão discursiva) (MOLLICA, 2004, p. 11).

Mollica (2004) destaca que as línguas mudam por meio da tensão de impulsos condicionados por fatores puramente linguísticos, internos, aliados a fatores externos, sociais. O que existe é um duelo entre língua padrão (estrutura) e variação (formas inovadoras), assim como entre língua oficial e língua de imigração, por exemplo. Como a variação é estruturada com certa regularidade dentro das propriedades da língua, ela acaba tendo uma aceitabilidade, em muitos casos. O duelo acaba sendo concretizado por fortes concorrentes, os quais talvez possam ser caracterizados da seguinte maneira: de um lado a língua padrão, com toda sua pompa e status, e de outro, a variação, com toda sua popularidade e ritmo característico regular quando se pensa em funcionamento linguístico.

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Uma questão que envolve o processo de inovação e conservação linguística está relacionada ao que Weinreich, Labov e Herzog (1968) identificaram como ‘avaliação’, ou seja, a visão sobre os fenômenos dos falantes. Uma visão e atitude positiva pode ser a implementação da forma, enquanto uma visão ou atitude negativa pode criar barreiras para as formas inovadoras.

LÍNGUA E DIALETOS ITALIANOS

O italiano padrão é calcado no dialeto toscano, apreciado e admirado como língua da

Commedia de Dante, do Decameron de Boccaccio e do Canzoniere, de Petrarca, clássicos da literatura

italiana medieval, de 1300.

Marazzini (2002) destaca que os dialetos surgiram somente quando a língua padrão italiana foi oficializada. O autor explica que antes disso, o que existia eram vulgares italianos:

Nota-se que no período que vai das origens aos Quatrocentos não há ainda sentido falar de ‘dialetos’. Pode-se falar de ‘dialeto’ somente quando a língua se afirma. ‘Dialeto’ sem contraposição a ‘língua’ é um conceito inaplicável; tanto é verdade que os estudiosos, por estes séculos, falam genericamente de ‘vulgares italianos’

(MARAZZINI, 2002, p. 76, tradução nossa).3

Somente depois da segunda metade do século XIX, quando a unificação política italiana ocorreu. Neste contexto, os dialetos eram vistos como um empecilho para a unificação nacional. Dardano e Trifone (1995) destacam algumas características cruciais na distinção entre língua e dialeto:

[...] o dialeto, ao invés, enriquece, sobretudo, as terminologias que se referem ao mundo rural. Os fatores de caráteres sociais que distinguem a língua do dialeto são, portanto: 1. a língua se sujeita a uma organização, vale dizer que se operam das escolhas entre formas concorrentes e consequentemente se propõem com base nos modelos; tais processos não acontecem normalmente no dialeto e de qualquer modo, eles não acontecem de forma recorrente; 2. a língua possui um uso escrito, a qual falta ser mais recorrente aos dialetos; 3. a língua goza de um prestígio social superior àquele dos dialetos; 4. a língua adquiriu uma dignidade cultural superior àquela dos dialetos.

Estas distinções não estão sempre presentes e em todas as partes. Isto é uma verdade para a Itália, onde encontramos dialetos, como, por exemplo, o vêneto e o napoletano, que se submeteram a uma organização, possuem um uso escrito e uma grande dignidade cultural (se pensas a opera de Goldoni e de Basile). Deve-se concluir assim: o único critério suficientemente seguro para distinguir a língua do dialeto é a menor extensão geográfica deste último (DARDANO; TRIFONE, 1995,

p. 45, tradução nossa)4

Os autores concluem que a distinção clara e oficial entre língua e dialeto está na extensão territorial, e que as outras diferenças estão mais no nível das crenças e atitudes. Para reforçar, Dardano e Trifone definem assim os dialetos italianos:

• são as "línguas" particulares das várias zonas da Península;

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“Si noti che nel periodo che va dalle origini al Quattrocento non ha ancora senso parlare di ‘dialetti’. Si può parlare di ‘dialeto’ solo una volta che si è affermata la lingua. ‘Dialetto’ senza contrapposizione a ‘lingua’ è un concetto inapplicabile; tanto è vero che gli studiosi, per questi secoli, parlano genericamente di ‘volgari italiani’” (MARAZZINI, 2002, p. 76). 4

[...] il dialetto invece arricchisce soprattutto le terminologie che si riferiscono al mondo rurale. I fattori di ca rattere sociale che distinguono la lingua dal dialetto sono dunque: 1. la lingua subisce una codificazione, vale a dire si operano delle scel te tra forme concorrenti e quindi si propongono dei modelli; tale processo non avviene di solito nel dialetto o comunque avviene in misura ridotta; 2. la lingua possiede un uso scritto, che manca per lo più ai dialetti; 3. la lingua gode di un prestigio sociale superiore a quello dei dialetti; 4. la lingua ha acquistato una dignità culturale superiore a quella dei dialetti.

Queste distinzioni non sono sempre e ovunque presenti. Ciò è vero tanto più per l'Italia, dove troviamo dialetti, quali per esempio il veneto e il napoletano, che hanno subito una codificazione, possiedono un uso scritto e una grande dignità culturale (si pensi all'opera del Goldoni e del Basile). Tanto che si deve concludere così: l'unico criterio abbastanza sicuroper distinguere la lingua dal dialetto è la minore estensione geografica di quest'ultimo (DARDANO; TRIFONE, 1995, p. 45).

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• houve um tempo em que eram faladas por quase todos os habitantes da Península, enquanto que hoje (por causa da difusão do italiano) são faladas somente por uma parte deles;

• derivam todos do latim vulgar (como o italiano que, nas origens, era também este um dialeto, o florentino);

• não são de fato "rudes" e "primitivos": muito pelo contrário, assim como a língua italiana, cada um deles têm uma estrutura gramatical e um léxico (DARDANO;

TRIFONE, 1995, p. 47, tradução nossa).5

Para os autores, a língua nacional, adotada pela comunidade, são formas de marcar, também, o caráter étnico. A língua padrão é, portanto, um instrumento de administração, da escola, dos usos oficiais e escritos.

A língua italiana padrão, no entanto, também apresenta variações que são influenciadas pelo eixo diatópico, ou seja, pela área geográfica em que seus falantes se encontram. Marazzini (2002, p. 130) explica que este conceito foi elaborado com base no italiano novecentesco e que as diferenças ocorrem, principalmente, nos níveis fonético e fonológico, mas que também acontecem no morfológico e lexical. Ele exemplifica com os falantes do Norte do país, que não diferenciam as vogais e e o abertas e fechadas. Essas variações são caracterizadas por Dardano e Trifone (1995, p. 46), como italiano regional, pois possui, principalmente, distinções de pronúncia.

Os dialetos da Itália são divididos por Marazzini (2002, p. 468) em três blocos: setentrional, central e meridional. Dentro destes blocos, há mais duas subdivisões para designá-los. Serão descritos aqui, os dialetos setentrionais, falados no Norte da Itália, pois alguns destes estão relacionados a esta pesquisa. Frosi e Mioranza (1983, p. 88), com base nos estudos do professor Giovan Battista Pellegrini, divide os dialetos setentrionais italianos em três sistemas: “(a) galo-itálico e vêneto (ou <cisalpino>); (b) friulano; (c) ladino central”. O galo-itálico + vêneto é subdividido, por sua vez, em cinco seções: (1) lígure, (2) piemontês, (3) lombardo, (4) Emiliano e (5) vêneto.

O dialeto vêneto, por sua vez, é novamente subdividido: veneziano, veronês, vicentino-paduano-polesano, trevisano, feltrino-belunês, triestino e vêneto-juliano. Desta forma, percebe-se que cada região, o Vêneto, por exemplo, apresentava ainda novas divisões, ou seja, novas variações, o que mostra a dificuldade de estabelecer afirmações quanto suas características.

Talian: o vêneto brasileiro

A imigração italiana antiga, entre 1875 a 1940, foi conduzida para os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Espírito Santo. Já a recente, segundo Mioranza (1990) é aquela que começou a ocorrer depois da 2ª Guerra Mundial.

O autor enfatiza que os dialetos italianos são mais falados no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, e que no Paraná, as regiões que foram colonizadas por colonos dos dois outros estados, ou seja, pela frente sulista, mantém as mesmas características, o que não ocorre no Norte do estado, já que este foi ocupado por descendentes italianos da frente nortista.

Mioranza explica ainda que os dialetos italianos falados no Brasil são predominantemente aqueles falados no Norte da Itália:

Sabendo-se que a antiga imigração italiana era predominantemente do norte da Itália, os dialetos italianos falados hoje no Brasil são necessariamente os mesmos falados nessa área da Itália. Considerando-se que os imigrantes que se estabeleceram no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Paraná e no Espírito Santo provinham na sua quase totalidade das regiões italianas da Lombardia, do Trentino-Alto Ádige,

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• sono le "lingue" particolari delle varie zone della Penisola;

• un tempo erano parlati da quasi tutti gli abitanti della Penisola, mentre oggi (a causa della diffusione dell'italiano) sono parlati soltanto da una parte di essi;

• derivano tutti dal latino volgare (come l'italiano che, alle origini, era anch'esso un dialetto, il fiorentino);

• non sono affatto "rozzi" e "primitivi": al contrario, come la lingua italiana, ciascuno di essi ha una struttura grammaticale e un lessico (DARDANO; TRIFONE, 1995, p. 47).

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Friuli-Venécia Júlia e Vêneto, temos que os dialetos italianos falados no Brasil são de tipo lombardo, trentino, friulano e vêneto (MIORANZA, 1990, p. 597).

Vêneto, Lombardia, Trentino Alto Ádige e Friuli Venezia Giulia são quatro regiões do Norte da Itália, das quais, a maioria dos imigrantes italianos veio. Com exceção dos imigrantes da região de Trentino Alto Ádige, que trouxeram apenas um dialeto desta área, os italianos das outras regiões trouxeram diversos dialetos. Frosi e Mioranza (2009, p. 75) apresentam um quadro com a divisão dos dialetos:

Apesar da diversidade de dialetos, foram os dialetos vênetos que predominaram aqui no Brasil, pois a maioria dos imigrantes era desta região. O dialeto, no período da colonização, sobreviveu por ser a língua oficial de mercado e neste período tinha posição de superestrato, ou seja, em que é total o “predomínio do dialeto com relação ao idioma português” (MIORANZA, 1990, p. 599). O dialeto passa a ser adstrato, ou seja, os dois sistemas linguísticos (português e italiano) convivem, quando as colônias italianas começam a produzir excedentes para o mercado externo e precisam se comunicar em português para movimentar a economia de suas produções e quando os colonos tornam-se, portanto, bilíngues. O autor explica que os dois sistemas linguísticos conviviam nesta situação e que o “colonizador passa a usar os dois sistemas” e se torna, portanto, bilíngue.

Dos aproximadamente 100 mil imigrantes que vieram para o Brasil, 54% eram vênetos, 33% lombardos, 7% trentinos, 4,5% friulanos e 1,5% de outras regiões. “[...] incluindo os trivênetos, teríamos: 65,5% de trivênetos, 33% lombardos e 1,5% de outras regiões da Itália” (LUZZATTO, 2000, p. 15). Sendo assim, a maioria dos imigrantes eram trivênetos e o dialeto que predominava era o vêneto.

Luzzatto (1994) enfatiza que, dos italianos que se fixaram no Rio Grande do Sul, mais de 60% tinha língua e cultura vênetas. Segundo o autor, “Tinham falares diferentes, sotaques distintos, mas a língua-mãe era a mesma: o vêneto” (LUZZATTO, 1994, p. 21).

Segundo Luzzatto (2000), o talian está presente em diversos Estados do Brasil, já que muitos falantes desse dialeto saíram do Rio Grande do Sul para buscar terras. Além de Santa Catarina e Paraná, as famílias buscavam novos horizontes também em Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, entre outros.

No município de Serafina Corrêa, do Rio Grande do Sul, foi promulgada a Lei nº 2615, de 13 de novembro de 2009, que dispõe sobre a “co-oficialização da Língua Talian - Vêneto Brasileiro”, dando ao talian o status de língua co-oficial no município, incentivando a divulgação e o ensino do vêneto brasileiro. Antes disso, porém, em 10 de junho de 2009, a lei nº 13.178 já declarava o talian como patrimônio histórico e cultural gaúcho.

O PROCESSO DE MONOTONGAÇÃO

A língua portuguesa, assim como a língua italiana, conta com sete vogais: [a], [e], [Ɛ], [i], [o], [ʚ], [u], as quais representam os fonemas vocálicos de ambas as línguas. Dentre elas, as semivogais são u e i, como nos casos: louça, coisa e caixa, na língua portuguesa, e buono, giorno, giaca e giusto,

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na língua italiana. No entanto, a letra i é vogal quando vem sozinha, como em fita e grito, no português, e immaginare e idea, no italiano.

O ditongo é formado, portanto, por dois elementos articulatórios contíguos: uma vogal e uma semivogal ou uma semiconsoante, também chamadas de glide. Ulisses Infante (2005) explica que ditongo nada mais é do que o encontro de uma vogal com uma semivogal ou de uma semivogal com uma vogal. Assim, o encontro semivogal + vogal é chamado ditongo crescente e o contrário, decrescente.

Os ditongos, tanto crescentes como decrescentes, podem ser orais ou nasais. Na língua portuguesa, alguns exemplos de ditongos decrescentes orais são: auto, caixa, inteiro, peixe, oito, salmoura. Já os nasais são: cãibra, muito, falam. Alguns exemplos de ditongos crescentes orais são: água, aquarela, ausência, gênio, história, Lúcia. Já os ditongos crescentes nasais: quanto, frequência, pinguim. Se observarmos as palavras caixa, inteiro, peixe, por exemplo, pode-se notar na fala de muitos brasileiros que são pronunciadas como: caxa, intero, pexe, sofrendo, assim, o processo de monotongação.

Os ditongos no português crescentes mais recorrentes são: ja / oa / wa / je / we / jo / wo e decrescentes: ae / ai / ao / au / ei / eu / iu / oi / ui. Já no italiano os ditongos decrescentes possíveis são: /ai/ ei/ ɛi/ oi/ ɔi/ au/ eu/ ɛu/ como nas palavras: avrai, dei (preposição), direi, voi, poi, pausa, Europa e

feudo. Já os ditongos crescentes possíveis no italiano são: /ja/ je/ jɛ/ jo/ jɔ/ ju/ wa/ we/ wɛ/ wi/ wo/ wɔ

como nos termos: piano, ateniese, biella, fiore, piove, più, guardo, quello, guerra, suino, liquore e

nuoto ou cuore.

Segundo Câmara Júnior (1997, p. 165), a monotongação é uma “mudança fonética que consiste na passagem de um ditongo a uma vogal simples”. Para compreender esses processos basta observar a forma como muitos brasileiros pronunciam as palavras inteiro, bueiro, dinheiro e louça em que acontece o apagamento das semivogais do ditongo: [intero], [buêro], [dinhêro] e [lôça]. O processo não é diferente na língua e nos dialetos italianos, como veremos na análise do corpus.

O processo de monotongação é recorrente nas línguas latinas, comum no latim vulgar. Este fenômeno já ocorria no latim clássico, em que os ditongos ae e oe transformaram-se em /ɛ/ e /e/, respectivamente, na passagem do latim clássico para o vulgar, o que se manteve nas línguas românicas. Vale lembrar que o latim clássico possuía quatro ditongos [ae], [oe], [aw] e [ew].

A monotongação consiste na redução do ditongo a uma vogal simples, sendo a supressão do glide nos ditongos, ou seja, reduzindo-os a vogais simples. A regra da monotongação consiste no apagamento dos glides palatal [j] e labiovelar [w]. Hora e Lucena (2008, p. 351), com base em Lausberg (1981), dizem que a maioria dos ditongos do latim clássico passou a ser monotongados no latim vulgar, como no caso de: caecu > cecu, claustru > clostru e saeta > seta.

Na língua portuguesa, a monotongação de [ow] para [o] ocorreu, segundo Paul Teyssier apud Campos (2008, p. 136), como uma manifestação no século XVII no Sul e na maior parte do Centro de Portugal, diferentemente do Norte onde permaneceu. “Em algumas palavras [ow] foi substituído por [oj], conforme os exemplos, cousa, coisa, louro, loiro, touro, toiro” (CAMPOS, 2008, p. 136). O autor explica, ainda, que o mesmo processo ocorreu com [ej] para [e], surgido também no Sul de Portugal e que este fenômeno provavelmente tenha se consumado no século XVIII.

No português brasileiro esse fenômeno também é recorrente: “No português brasileiro (PB) é típica a monotongação de ei e ai diante da fricativa labiodental /v/, ouve > ['ovi], das fricativas palatais /ʃ/, /ʒ/, caixa >, beijo > ['beʒu], da vibrante simples /r/, feira > ['feɾa]” (CAMPOS, 2008, p. 137).

Nota-se, ainda, que a monotongação na língua portuguesa é muito mais recorrente no caso dos ditongos decrescentes, como em peixe e inteiro e muito menos recorrentes nas crescentes, como em quota, pronunciada muitas vezes como [´kó-tα] e até mesmo admitida no dicionário como cota.

O processo de monotongação na língua italiana não é novo. Marazzini (2002) explica que na Idade Medieval, formas como bono já se aplicavam no lugar de buono, devido influências Sicilianas, e que elas foram assimiladas pela linguagem literária. “No início dos Oitocentos o ditongo uo foi eliminado depois do som palatal (gioco < giuoco [jogo], figliolo < figliuolo [filho]). O fiorentino popular eliminou uo em todas as posições: òmo [homem], bòna [boa] no lugar de uomo [homem],

buona [boa]” (MARAZZINI, 2002, p. 159, tradução nossa)6.

6 “All’inizio dell’Ottocento il ditongo uo venne eliminato dopo suono palatale (gioco < giuoco, figliolo < figliuolo). Il fiorentino popolare eliminò uo in tutte le posizioni: òmo, bòna al posto di uomo, buona” (MARAZZINI, 2002, p. 159).

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UMA PROPOSTA DE ANÁLISE DO FENÔMENO DA MONOTONGAÇÃO NA FALA DE DESCENDENTES ITALIANOS DE CASCAVEL

A proposta de investigação deste trabalho fundamenta-se nos estudos da variação linguística para descrever alguns casos de monotongação do dialeto talian falado no programa radiofônico Italia

del mio cuore, de Cascavel.

Conforme reportagem publicada no Jornal O Paraná, de Cascavel, do dia 7 de abril de 2012 (ANEXO 2), o programa Italia del mio cuore foi ao ar pela primeira vez no dia 4 de fevereiro de 1996, pela Rádio Nacional, passou pela Rádio Capital por um tempo e, desde 2007, é transmitido pela Rádio Colméia (AM - 650 KHZ).

Apresentado por três componentes do grupo de canto Filó, Ermilo Zanatta, 55 anos, João Nichetti, 59 anos, e Enore Savoldi, 74 anos, o programa vai ao ar há 17 anos e tem como objetivo, segundo os apresentadores, a manutenção da cultura ítalo-vêneta em toda a comunidade, “que é grande no Oeste paranaense”. O programa foi idealizado na época em que Zanatta era presidente do Círculo Italiano de Cascavel, no qual foi o segundo presidente, e Nichetti o terceiro. Na época, eles contavam com o coral Raízes da Itália e vinham fomentando a preservação da cultura e por isso decidiram fazer o programa.

O programa vai ao ar todos os sábados, a partir das 15h30, ao vivo, e por cerca de 1h20 apresenta vários temas que buscam disseminar e cultivar as raízes italianas da comunidade de descendentes de Cascavel e região. Dividido em três grandes momentos - Oração, Folclore e Romântico -, o programa leva um pouco da cultura folclórica e moderna italianas, pois transmite músicas religiosas, folclóricas e românticas modernas, resgatando o passado e valorizando o presente. Os apresentadores, de maneira informal e natural, com base no improviso, conversam entre si e com os ouvintes numa língua que não é o português, mas o talian. Eles falam sobre os santos de cada dia, com base no calendário italiano, fazem brincadeiras, contam piadas, leem provérbios desta cultura, e comentam sobre diversos fatos, sempre no talian.

Barbosa Filho afirma que o rádio é um meio que registra e divulga os costumes de uma determinada localidade. Para ele, o rádio oferece diversos serviços, tanto no campo da informação como no do conhecimento: “entretenimento, notícias etc. Há mais de um século faz história e estabelece vínculos mediadores com as pessoas em diferentes localidades, com suas diferentes culturas e práticas” (BARBOSA FILHO, 2003, p. 37).

O autor cita Marques de Melo sobre os gêneros radiofônicos, pois este classifica o entretenimento como um passatempo, com o simples intuito de divertir o público, ao contrário do jornalismo, que tem o objetivo de informar e orientar. No entanto, é importante frisar que, ainda que seja um programa de entretenimento, o Italia del mio cuore é um exemplo de registro e destaque da cultura e das formas de manifestações artísticas presentes em um determinado local, no caso, da cultura italiana em Cascavel.

Entretenimento, segundo o dicionário Aurélio (FERREIRA, 2009), é o ato de entreter, aquilo que entretém; divertimento, distração. É importante lembrar que, apesar de a fala ser controlada em qualquer meio de comunicação, no programa de entretenimento tem-se mais naturalidade na fala, mais espontaneidade do que no jornalismo, o que aproxima o corpus desta pesquisa aos objetivos da Sociolinguística.

Ainda que nos meios de comunicação de massa exista certo controle da fala, sendo esta, portanto, mais formal do que numa entrevista face a face, Labov (2008) frisa que o corpus pode sim ser coletado nesses meios:

Também é possível obter dados sistemáticos nas transmissões de rádio e televisão, embora aqui a seleção e os condicionamentos estilísticos sejam em geral muito fortes. Nos últimos anos, temos tido muitas entrevistas diretas no local de desastres, onde os falantes estão sob o forte impacto imediato do evento para monitorar a própria fala. Programas de entrevistas e discursos em eventos públicos podem nos dar bons cortes transversais da população, mas aqui o estilo é ainda mais formal do que obteríamos numa entrevista face a face (LABOV, 2008, p. 246).

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Vale lembrar, no entanto, que, o Italia del mio cuore é um programa de entretenimento, sendo, portanto, muito mais informal do que programas de informação e jornalísticos, o que favorece a naturalidade almejada para análises sociolinguísticas.

Para realizar a análise do fenômeno de monotongação no talian falado no programa de rádio

Italia del mio cuore, foram coletadas e transcritas duas edições do programa, do mês de janeiro de

2012.

Para este estudo foram transcritas duas edições do programa de rádio Italia del mio cuore. O programa é apresentado em talian, por senhores da comunidade italiana de Cascavel. O primeiro programa transcrito, do dia sete de janeiro de 2012, tem duração de uma hora, 21 minutos e 38 segundos. Já o segundo, do dia quatorze de janeiro de 2012, tem duração de uma hora, 25 minutos e 29 segundos.

Antes de avaliar o estado de uma língua, é necessário compreender sua formação, sua história e sua evolução. Sendo assim, para analisar uma língua na sua forma mais atual, sincronicamente, é preciso compreender que o hoje faz parte da história e por isso, o recorte, ainda que seja sincrônico, depende e faz parte da história, da diacronia. Assim, só existe variação porque uma palavra tem outra(s) correspondente(s) em outra língua ou em variações de uma própria língua e raiz.

As línguas mudam com o passar do tempo, conforme o contexto em que estão inseridas e os contextos a que estão sujeitas. O talian, uma variedade do dialeto italiano do Vêneto que surgiu no Brasil com influências do português, continua sendo preservado e continua, também, mudando, porque é uma língua, que, no contato com os diferentes falares do português brasileiro, renova-se na fala dos descendentes italianos. No entanto, pode-se observar que o processo de monotongação está muito mais ligado a suas raízes, ao latim. Os termos coletados no programa e que se destacam pelo processo de monotongação são: fora, bonasera e core.

Para compreender melhor este processo, apresentamos também os termos correspondentes no dicionário talian-português (LUZZATTO, 2000), no Dicionário Geral da Língua Vêneta e suas variantes (BRUNELLI, s.d.), no Dizionario Devoto Oli della Lingua Italiana (DEVOTO, 2007) e no português.

TERMO COLETADO

TALIAN VÊNETO ITALIANO

PADRÃO

PORTUGUÊS

fora fora fora fuori fora

bonasera bonasera - buonasera boa noite

core cuor/ cor cor/ core cuore coração

As palavras fora, bonasera e core registram a monotongação da vogal . Apesar de o substantivo bonasera não estar presente no dicionário vêneto, é possível que no talian tenha ocorrido o mesmo processo de monotongação, pois o dicionário apresenta bona note7.

A palavra core chama atenção, pois no dicionário talian apresenta-se como possibilidade, além de cor, cuor, recuperando o ditongo do italiano padrão. No entanto, basta observar o termo no dicionário vêneto, para registrar que a monotongação da palavra core já estava estabelecida na Itália, com o dialeto de lá e que o processo de monotongação continua ocorrendo nas línguas latinas, o que não é diferente no talian, principalmente se observarmos que o nome do programa é Italia del mio

cuore, mas que os apresentadores pronunciam cuore como o.

Marazzini fala da diferença do italiano padrão, em relação à atual utilização do italiano em Florença, o berço da língua italiana padrão: “Outra característica que distingue hoje o fiorentino do italiano comum é a tendência à monotongação de -uò-: buono [bom] e nuovo [novo] são na Toscana

bòno e nòvo" (MARAZZINI, 2002, p. 471, tradução nossa)”8. Percebe-se, portanto, que o processo de monotongação ocorre não somente no dialeto vêneto, como em outros dialetos e em outros falares, de outras regiões italianas, assim como no talian.

7

O termo bona note corresponde à buonanotte, do italiano padrão, que se utiliza apenas na despedida de boa noite quando se vai dormir.

8

“Un'altra caratteristica che distingue oggi il fiorentino dall’italiano comune è la tendenza alla monottongazione di -uò-:

(9)

gin

a

9

Nota-se também, com a análise desses três vocábulos, que o processo de monotongação de [wo] é comum em palavras dissílabas: fora, bono ou bona e core. Além disso, o contexto fonológico é extremamente influente para o processo de monotongação, uma vez que a fricativa palatoalveolar favorece o apagamento da semivogal, especialmente quando se trata de ditongos.

Outros trabalhos variacionistas sobre monotongação, como os de Cabreira (2000) e Paiva (2006), também confirmam que o fator contexto fonológico posterior é muito significativo para ocorrer a supressão da semivogal e, segundo esses autores,

principalmente se este contexto for de fricativas e palatoalveolares

(BITTENCOURT, 2012, p. 14).

Marazzini (2002), ao recuperar que a monotongação de uo ocorre desde o início dos Oitocentos e que o ditongo uo foi eliminado depois do som palatal como nos termos gioco < giuoco [jogo] e figliolo < figliuolo [filho], deixa claro este processo, principalmente quando ele cita os termos

òmo < uomo [homem] e bòna < buona [boa], do fiorentino popular.

Pode-se perceber, também, que o processo de monotongação ocorre sempre nas sílabas pesadas, ou seja, nas sílabas tônicas, uma vez que o ditongo sempre determina a tônica de uma palavra. Quednau define que “Uma sílaba é pesada em latim por terminar em consoante (ŏs (ossis), vῐr, mĕl, fĕl, cŏr, rĕm, spĕm) ou ditongo (quae), vogal longa (ā, ē), ou vogal longa e consoante (bōs, iūs, mās, ōs (ōris), pés, sāl, sōl, sūs,crās, plūs” (QUEDNAU, 2002, p. 83).

Se notarmos as palavras no português: inteiro > intero, bueiro > buêro, dinheiro > dinhêro, louça > lôça, loira > lora, caixa > caxa, beijo > beju, feira > fera, peixe > pexe, entre outras. Da mesma forma percebe-se nas palavras italianas analisadas: fuori > fora, buona > bona e cuore > core, apesar de o talian descender do dialeto vêneto, o qual já apresentava e apresenta esses monotongos.

O apagamento do glide [w] no ditongo [wo] no talian é uma variação que resulta de fatores linguísticos e extralinguísticos. Os extralinguísticos podem ser compreendidos como aqueles históricos e geográficos, sendo resultado do percurso da língua. No entanto, pode-se perceber que a variação do fenômeno, desde o latim clássico, se dá, principalmente, por fatores linguísticos tais como o contexto fonológico. Em fora, bona e core, em que o contexto seguinte a vibrante /r/ e nasal dental /n/ podem atuar favoravelmente para o registro da monotongação. Amaral (2002) deixa claro que a vibrante colabora extremamente para o apagamento de uma vogal.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A investigação que resultou no presente artigo possibilitou mostrar que a monotongação [wo] ocorre na fala de descendentes italianos de Cascavel que falam o talian. Foi possível contemplar esse processo no dialeto vêneto brasileiro por meio da análise de duas edições do programa de rádio Italia

del mio cuore.

A monotongação de [wo] para [o] é comum em palavras dissílabas e o contexto fonológico influencia nesse processo. A fricativa palatoalveolar favorece o apagamento da semivogal, especialmente quando se trata de ditongos. Bittencourt (2012) enfatiza que o contexto posterior é extremamente atuante nesse fenômeno.

Com base nos dados coletados nas duas edições do programa Italia del mio cuore, pode-se perceber que a monotongação do talian não é uma novidade, principalmente quando se lembra que este dialeto é uma variação de línguas românicas: dialeto vêneto e língua portuguesa. Apesar de constatar que o fenômeno continua ocorrendo, por exemplo, em o ao invés de cuore , esse processo ocorre desde a Idade Medieval, como explica Marazzini.

Conclui-se, portanto, que, o talian falado em Cascavel9 sofre as mesmas influências que o dialeto vêneto, que a língua portuguesa e a língua italiana padrão. Se nos detivermos à palavra buono do italiano padrão, percebemos que no dialeto já se realizava essa monotongação e que hoje, na fala dos italianos que se utilizam da língua padrão ainda é recorrente a monotongação deste termo.

9

Principalmente por homens na faixa dos 60 anos, uma vez que são eles que dirigem o programa de rádio que originou o

(10)

gin

a

10

Marazzini (2002) exemplifica tanto com a palavra buono > bòno, como com nuovo > nòvo, monotongações que persistem na língua italiana até hoje.

REFERÊNCIAS

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