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A VISÃO DISTÓPICA DA MODERNIDADE NA POESIA: OS ANOS DE FORMAÇÃO DE ROBERTO BOLAÑO
por
Tarciso Gomes do Rego
(Aluno do curso de Doutorado em Literaturas Hispânicas)
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A VISÃO DISTÓPICA DA MODERNIDADE NA POESIA: OS ANOS DE FORMAÇÃO DE ROBERTO BOLAÑO
Tarciso Gomes do Rego
Tese de doutorado apresentada ao
Programa de Pós-Graduação de Letras
Neolatinas da Faculdade de Letras da
Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito para a obtenção do título de Doutor em Literaturas Hispânicas.
Orientador: Víctor Manuel Ramos Lemus
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FICHA CATALOGRÁFICA
REGO, Tarciso Gomes do.
A VISÃO DISTÓPICA DA MODERNIDADE NA POESIA: OS ANOS DE FORMAÇÃO DE ROBERTO BOLAÑO / Tarciso Gomes do Rego. Rio de Janeiro, 2016. 146 fls.
Tese (Doutorado em Literaturas Hispânicas) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 2015.
Orientador: Victor Manuel Ramos Lemus
4 A VISÃO DISTÓPICA DA MODERNIDADE NA POESIA: OS ANOS DE FORMAÇÃO DE ROBERTO BOLAÑO
Orientador: Professor Doutor Victor Manuel Ramos Lemus
Tese de doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Doutor em Literaturas Hispânicas.
Aprovada por:
Presidente, Prof. Doutor Victor Manuel Ramos Lemus
Prof. Doutor Roberto Ferreira da Rocha – UFRJ
Prof. Doutor Rodrigo Silva Ielpo – UFRJ
Prof. Doutor Miguel Ángel Zamorano Heras – UFRJ
Prof. Doutor Luis Alberto Nogueira Alves – UFRJ
Prof. Doutor Ary Pimentel – UFRJ (suplente)
Prof. Doutor João Roberto Maia da Cruz – UFRJ (suplente)
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HOMENAGEM
A Benvinda Maria, minha esposa e companheira, uma Maria, de muita luta e força. Seu olhar, “nítido como o girassol” esteve sempre presente com sua compreensão e seu estímulo, principalmente naqueles momentos, que não foram poucos, em que eu fraquejava e a vontade de não seguir em frente na realização deste sonho parecia me dominar.
A Tatiana, minha filha, cujo semblante calmo, associado a sua disciplina e determinação me serviram como fonte de estímulo. A Juliana, cujo olhar brilhante e inquieto, como o de um Cronópio, cheio de criatividade, me serviu como fonte de inspiração. A Mariana, cujo belo sorriso, como de um Cronópio também, aliado a sua coragem e persistência, me serviram como fonte de entusiasmo. Vocês três me deram, e continuam me dando, um aprendizado constante no conhecimento do mundo.
A João Pedro, meu neto, cujo olhar de alegria me fez retornar a um momento em que ser criança é fundamental, pois me trouxe de volta para um mundo em construção, onde pude me deter em detalhes que o adulto deixa de desfrutar por causa do pragmatismo da vida. Sua presença me faz lembrar que todos nós, sem exceção, estamos em constante aprendizado e renovação.
A minha mãe, Geralda, cuja doença e falecimento quase me baquearam. A ela devo minhas primeiras noções de literatura quando, na segunda infância, pôs-me em contato com o cordel, transportando-me ao mundo da fantasia e da imaginação através das inúmeras histórias que me contava e cantava, dentre as quais, o inesquecível “pavão misterioso”.
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AGRADECIMENTOS
Ao Professor Doutor Victor Manuel Ramos Lemus, agradeço o constante e forte incentivo à participação neste curso, além da leitura detalhada e permanente deste trabalho, a orientação segura e as muitas sugestões para que eu pudesse desenvolvê-lo de forma organizada. Acima de tudo, gostaria de manifestar um agradecimento especial pela compreensão a mim dedicada ao longo deste período, culminando com a elaboração desta tese.
Ao Professor Doutor Ary Pimentel, um agradecimento pelo incentivo, desde a Especialização, e pelo crescimento obtido nos constantes debates fomentados ao longo de suas aulas.
Ao Professor Doutor Roberto Ferreira da Rocha, ao Professor Doutor Rodrigo Silva Lelpo, ao Professor Doutor Miguel Ángel Zamorano Heras, ao Professor Doutor Luís Alberto Nogueira Alves, ao Professor Doutor João Roberto Maia da Cruz, meu agradecimento por terem gentilmente aceitado participar de minha banca.
A todos os professores da Faculdade de Letras com os quais tive contato em minha trajetória nesta Universidade, agradeço a participação deles no aprimoramento de meus conhecimentos e no amadurecimento de minha formação.
A todos os meus companheiros de jornada, alguns que comigo estão desde a Especialização e outros que só recentemente chegaram, não importa, a todos meus sinceros agradecimentos por ter tido a oportunidade de compartilhar com eles os momentos mais marcantes na consecução deste objetivo.
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SINOPSE
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RESUMO
REGO, Tarciso Gomes do. A visão distópica da modernidade na poesia: os anos de formação de Roberto Bolaño. Rio de janeiro, 2016. Tese (Doutorado em Literaturas Hispânicas) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A presente tese tem o objetivo de trazer novas contribuições no que diz respeito ao papel da literatura como instrumento de análise do processo histórico. O estudo pretende fazer uma pesquisa sobre a obra de Roberto Bolaño (poesia, contos e romances), focalizando o percurso vivenciado por Arturo Belano, o andarilho de Los detectives salvajes, durante o ápice do drama sofrido pela América Latina ao longo dos anos 60. Considerando a forte influência do movimento Beat entre os Infra-realistas e a liderança exercida por Bolaño nesse grupo, é evidente que o romance, o qual se assemelha a uma coletânea de contos, na qual se fazem presentes os mais diversos gêneros populares, desde o melodrama até as lendas que povoam a imaginação das pessoas, pode ser objeto de um estudo, cujo objetivo é ressaltar a importância do folhetim na chamada grande literatura. Será feita, então, uma ponte entre alguns autores, como William Blake, final do século XVIII e início XIX e outros, ao longo do século XIX, destacando, neste caso, a flânerie de Charles Baudelaire e as andanças de Arthur Rimbaud, chegando ao século XX, com Allen Ginsberg e Julio Cortázar, que também expressaram a distopia da sociedade moderna. A partir de uma leitura dialética de Walter Benjamim em Charles Baudelaire: Um lírico no auge do capitalismo e Magia e técnica, arte e política, acrescentada de Herbert Marcuse, Ernst Bloch, Carlos Guilherme Mota, Cláudio Willer, Raymond Williams, Zygmunt Bauman, Idelber Avelar, Lukács, Gramsci e Marlise Meyer, dentre outros, analisaremos a relação entre a cultura e a sociedade moderna, com o intuito de mostrar como esses autores expressaram a dissociação entre o homem e a cidade grande, a partir do crescimento da sociedade burguesa ao longo dos séculos XIX e XX. Acentuaremos que Bolaño fez o mesmo, só que no romance e na poesia.
Palavras-chave: Roberto Bolaño; Revolução industrial; movimento Beat;
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ABSTRACT
REGO, Tarciso Gomes do. A visão distópica da modernidade na poesia: os anos de formação de Roberto Bolaño. Rio de janeiro, 2016. Tese (Doutorado em Literaturas Hispânicas) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
This thesis aims to bring new contributions regarding the role of literature as an instrument of analysis of the historical process. The study aims to make a research about the work of Roberto Bolaño (poetry, short stories and novels), focusing on the journey experienced by Arturo Belano, the wanderer of Los detectives salvajes, during the drama suffered by Latin America in the 60s. Understanding that the Beat movement exercised strong influence between the Infra-realistic, and there was a leadership exercised by Bolaño in this group, it is clear that the novel, which resembles a collection of short stories, in which there are several popular genres, from melodrama to legends that populate the imagination of people, can be the subject of a study, whose purpose is to highlight the importance of popular literature in what is called great literature. So we will establish a connection with some authors, like Wiiliam Blake, late eighteenth and early nineteenth, and others throughout the nineteenth century, highlighting, in this case, the flânerie of Charles Baudelaire and the wanderings of Arthur Rimbaud, reaching the twentieth century, with Allen Ginsberg and Julio Cortázar, who also expressed the dystopia of modern society. From a dialectical reading of Walter Benjamin Charles Baudelaire: A Lyric at the height of capitalism and Magic and technique, art and politics, Herbert Marcuse, Ernst Bloch, Carlos Guilherme Mota, Claudio Willer, Raymond Williams, Zygmunt Bauman, Idelber Avelar, Lukács, Gramsci e Marlise Meyer, among others, we intend to analyze the relationship between culture and modern society, in order to show how these authors expressed the dissociation between the human being and the great city, from the growth of bourgeois society throughout the nineteenth and twentieth century. It is our intention to show too that Roberto Bolaño did the same, not only in the novel, but also in the poetry.
Keywords: Roberto Bolaño; Industrial Revolution; Beat movement;
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SUMÁRIO
1 Introdução ... 11
2 O poeta vê o resíduo da sociedade industrial ... 28
3 O desencontro entre o poeta e a cidade ... 45
4 A odisseia do poeta... 55
5 A poesia na rua cria a utopia ... 66
6 A poesia cria a distopia na concretização do mal ... 79
7 O surgimento do romance e o boom na América Latina ... 90
8 A estrutura do folhetim na obra de Bolaño: a formação do personagem ... 96
9 Conclusão ... 119
10 Bibliografia: ... 136
11 Anexo ... 143
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01. INTRODUÇÃO
LOS PERROS ROMÁNTICOS
En aquel tiempo yo tenía veinte años y estaba loco.
Había perdido un país pero había ganado un sueño. y si tenía ese sueño
lo demás no importaba. Ni trabajar ni rezar
ni estudiar en la madrugada junto a los perros románticos.
Y el sueño vivía en el vacío de mi espíritu. Una habitación de madera,
en penumbras,
en uno de los pulmones del trópico. Y a veces me volvía dentro de mí y visitaba el sueño: estatua eternizada en pensamientos líquidos,
un gusano blanco retorciéndose en el amor.
Un amor desbocado.
Un sueño dentro de otro sueño. Y la pesadilla me decía: crecerás.
Dejarás atrás las imágenes del dolor y del laberinto y olvidarás.
Pero en aquel tiempo crecer hubiera sido un crimen. Estoy aquí, dije, con los perros románticos
Y aquí me voy a quedar. (BOLAÑO, 2007, p. 372)
12 O ano era emblemático: 1968. Convulsões provocadas por uma juventude que pregava mudanças sociais espalhavam-se pelo mundo, mostrando-se de forma contundente em Paris. Os ventos que impulsionavam essas transformações chegaram até a Tchecoslováquia, cruzaram também o oceano e, aproveitando a grande mobilização pelos direitos civis e contra a guerra do Vietnam iniciada desde o início da década, varreram os Estados Unidos. O México, evidentemente, não ficou de fora. A reação, entretanto, começou a se fazer sentir com extrema violência, produzindo, nesse país, exatamente no dia 2 de outubro, o massacre de Tlatelolco. Os fatos que culminaram nessa tragédia foram marcantes para aquele jovem de 15 anos, que chegaria ao México logo depois desse acontecimento. Ele fixaria a invasão da UNAM (Universidad Nacional Autónoma de México) pelo exército, (18 de setembro) nas páginas de Amuleto, um de seus romances mais importantes.
13 (1996) e Llamadas telefónicas (1997) tornaram Roberto Bolaño mais conhecido no mundo da literatura. Mas foi a publicação de Los detectives salvajes em 1998 que tornou o escritor chileno conhecido, principalmente depois de esse livro ter obtido, nesse mesmo ano, o Premio Herralde, concedido anualmente na Espanha pela Editorial Anagrama a um romance inédito produzido na
Língua Espanhola e, em 1999, o Premio Internacional de Novela Rómulo
Gallegos, oferecido a cada dois anos pelo governo da Venezuela ao melhor
romance da Literatura Hispano-americana.
Retrato de una época, Los detectives salvajes ofrece un catálogo de formas para viajar al inframundo y cambiar la superficie, una vindicación y una sátira simultáneas de los enamorados de la modernidad que aceptaron la invitación al viaje de Valéry, recorrieron las carreteras de Kerouac y gritaron con Jim Morrison: “¡queremos el mundo y lo queremos ahora!” (VILLORO, 2006, pág. 77)
Los detectives salvajes, ao focalizar o surgimento do movimento Infrarrealista, faz um painel do ambiente cultural vivenciado por Roberto Bolaño e Mario Santiago. Os dois andarilhos, com alguns jovens, fundaram o Infrarrealismo, movimento poético cuja proposta buscava associar a vida à arte, manifestando vestígios vanguardistas. Arturo Belano é o alter ego de Bolaño, e Ulises Lima representa Mario Santiago. Na verdade, Los detectives salvajes apresenta um tom épico, cuja nuance lírica leva o leitor a pensar a respeito do papel exercido pela poesia e pelos poetas.
En dicha antología a cargo de Roberto Bolaño, figuran tres infrarrealistas: el propio Bolaño y Mario Santiago – es decir, el Arturo Belano y el Ulises Lima de Los detectives salvajes – y también Bruno Montané, el aún más joven poeta chileno – que aparece en la novela como Felipe Müller –. El origen de la palabra infrarrealismo proviene, claro está, de Francia. Emmanuel Berl la atribuye al surrealista (sobrerrealista) Philippe Soupault: él y sus amigos
“habían fundado un club de la desesperanza, una literatura de la desesperanza”. El infrarrealismo (o real visceralismo en la novela) fue un movimiento sin manifiesto, una especie de “Dadá a la mexicana” (en palabras
de Bolaño), cuyos componentes irrumpían en los actos literarios boicoteándolos, incluso los del mismísimo Octavio Paz. En una conversación con Roberto Bolaño, Carmen Boullosa le cuenta su pavor, antes de una lectura
poética, de que aparecieran los temibles “infras”: “Eran el terror del mundo
literario”, afirma Boullosa. Temibles pero desesperados, marginados. (HERRALDE, 2005 p.31.)
14 sexo. Suas experiências se concretizam através de suas andanças pela cidade do México, principalmente na “calle Colima”.
No sé muy bien en qué consiste el realismo visceral. Tengo diecisiete años, me llamo Juan García Madero, estoy en el primer semestre de la carrera de Derecho. Yo no quería estudiar Derecho sino Letras, pero mi tío insistió y al final acabé transigiendo. Soy huérfano. Seré abogado. (BOLAÑO, 1998, p. 13)
Essa apresentação nos mostra a luta desse jovem no intuito de firmar seu desejo para entrar no mundo da poesia. Trata-se de uma decisão difícil, pois, como depende financeiramente de seu tio, tem de submeter-se à vontade dele. Entretanto, começa a frequentar as diversas oficinas de poesia que circulam por todos os lados, o que o levará a seu contato inicial com Arturo Belano e Ulises Lima, os quais lhe falam sobre o Real Visceralismo e a respeito de uma tal Cesárea Tinajero. Convidado a participar do movimento, “No dijeron ‘grupo’ o ‘movimiento’, dijeron pandilla y eso me gustó”. (BOLAÑO, 1998, p.17) García Madero, após bebedeira num bar da calle Bucareli, confirma.
Antes de ponerme a vomitar en la calle les pregunté si ésos eran los ojos de Cesárea Tinajero. Belano y Lima me miraron y dijeron que sin duda yo ya era un real visceralista y que juntos íbamos a cambiar la poesía latinoamericana. (BOLAÑO, 1998, p. 17)
Madero, em sua luta para fugir de um sistema que o sufocava e lhe toldava os passos, estava realmente inserido no contexto do Real Visceralismo, como se pode perceber nesse diálogo, com Rosario, sua namorada, que trabalhava de garçonete na Encrucijada Veracruzana, um bar localizado na “calle Bucareli”. Ela lhe havia pedido que fizesse uma poesia para ela.
Cogí al azar uno de mis más recientes poemas y se lo leí. – No lo entiendo – dijo Rosario – pero es igual, se te agradece. [...] Luego me puse a pensar en el abismo que separa al poeta del lector y cuando me quise dar cuenta ya estaba profundamente deprimido. (BOLAÑO, 1998, p. 88)
As palavras do jovem poeta García Madero, condutor do fio narrativo na primeira parte do livro, direcionam o leitor para uma reflexão bastante interessante a respeito da imagem projetada por aquele tipo de texto, principalmente no que se refere ao senso comum ou àquilo que geralmente é entendido como poesia.
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Visceralismo, havia sido o desenhista das duas únicas edições da revista
publicada pelo grupo: Lee Harvey Oswald. Neste momento da narrativa,
percebe-se que o clima dentro da casa é bastante confuso, combinando com a
loucura de Font, a paixão de Madero por María e os fatos que vão se precipitar
rapidamente. Lupe, uma prostituta, amiga de Madero e de Joaquín, para fugir
de seu cafetão, Alberto, um policial muito violento, refugia-se na casa do
arquiteto. Num clima de folhetim, a narrativa se acelera: “Estaba en la acera cuando vi encenderse las luces del Camaro y las luces del Impala. Parecía una
película de ciencia ficción. Mientras un coche salía de la casa, el otro se
acercó, como atraídos por un imán o por la fatalidad, que viene a ser lo mismo
según los griegos.” (BOLAÑO, 1998, p. 136) Isso ocorre exatamente no dia 31 de dezembro. Após uma ceia para comemorar a passagem de ano, eles
decidem romper o cerco, e Joaquín empresta seu carro para que eles possam
tirar Lupe da casa. “Vi mi puño derecho (el único libre pues en la otra mano
llevaba mis libros) que se proyectaba otra vez sobre el cuerpo del padrote y en
esta ocasión lo vi caer.” (BOLAÑO, 1998, p. 136) Ulises, dirigindo loucamente o Impala de Joaquín Font, foge com Arturo, Juan García e Lupe, sendo
perseguidos por Alberto e seus capangas num Camaro amarelo. “Me volví y a
través de la ventana trasera vi una sombra en medio de la calle. En esa
sombra, enmarcada por la ventana estrictamente rectangular del Impala, se
concentraba la tristeza del mundo.” (BOLAÑO, 1998, p. 136) Estavam mergulhando na incerteza, mas era necessário correr, impulsionar o Impala
para a busca desenfreada que eles tanto queriam.
Na segunda parte, “Los detectives salvajes (1976-1996)”, cinquenta e um narradores apresentam seus depoimentos sobre Arturo Belano e Ulises
Lima. Esse mosaico de testemunhos a respeito desses personagens nos leva,
evidentemente, a um conhecimento completamente fragmentado de suas
personalidades e, consequentemente, de suas propostas. Aparentemente,
acumulamos informações de todo tipo sobre eles, mas nunca os conhecemos
totalmente, como também temos uma ideia muito parcial a respeito daqueles
que sobre eles depõem. A técnica utilizada pelo narrador é interessante, visto
16 graus de relacionamentos, acreditamos conhecê-las, quando, na verdade,
sabemos muito pouco, ou quase nada, a respeito delas. Essa polifonia conduz
a uma busca incessante no rastro de Arturo Belano e Ulises Lima, levando o
leitor a lugares tão díspares, como México, Estados Unidos, América central,
Chile, Argentina, passando por diversos países Europeus, chegando a Israel,
ao norte da África e à África subsaariana, criando, no caso desse último
continente, aquilo que se poderia chamar de aventura rimbaudiana. Cada um
desses narradores apresenta uma visão a respeito dos fundadores do realismo
visceral. Existe, entretanto, uma imagem comum criada por todos: Arturo e
Ulises são vagabundos e levam uma vida na completa marginalidade, pois
sobrevivem de todas as formas possíveis e imagináveis. Esses múltiplos
narradores acreditam também que os poetas andarilhos cultivam uma visão
literária um tanto estranha e, em muitos casos, pouco adequada ao que se
poderia esperar de poetas ou literatos em geral. Além do mais, eles estariam
apresentando uma espécie de poesia distante do gosto popular ou, pelo
menos, hermética e incompreensível para os não iniciados. Essa postura os
leva, muitas vezes, a criar conflitos constantes com aqueles que com eles
convivem.
…mi coche perdido en las últimas horas de 1975, en las primeras horas de 1976. Y si no veía quién lo conducía, ¿de qué me iba a servir haberlo visto? Y entonces me ocurrió algo aún más sorprendente. Pensé: se me han caído las gafas. Pensé: hasta hace un momento yo no sabía que utilizaba gafas. Pensé: ahora percibo los cambios. Y eso, saber que ahora sabía que necesitaba gafas para ver, me hizo temerario y me agaché y encontré mis lentes (¡qué diferencia entre tenerlos puestos y no tenerlos!) y me erguí y el Impala aún seguía allí, por lo que deduzco que actué con una velocidad sólo concedida a ciertos locos, y vi el Impala y con mis gafas, esas gafas que hasta ese momento no sabía que poseía, taladré la oscuridad y busqué el perfil del conductor, entre atemorizado y ansioso, pues supuse que al volante de mi Impala perdido iba a ver a Cesárea Tinajero, la poeta perdida, que se abría paso desde el tiempo perdido para devolverme el automóvil que yo más había querido en mi vida, el que más había significado y el que menos había gozado. Pero no era Cesárea la que conducía. ¡De hecho, no era nadie el que conducía mi Impala fantasma! (BOLAÑO, 1998, p. 382)
Neste caso, destaca-se a voz de Joaquín Font, cuja loucura apresenta
momentos de impressionante lucidez. Numa espécie de lamento, o arquiteto
expressa a angústia pela perda de seu Impala e de sua mente. Seu
depoimento sobre Arturo e Ulises é completamente esmaecido, mas é
fundamental pela reflexão que faz a respeito da vida. Da mesma forma que ele,
17 realidade, os dois andarilhos também desaparecem. Sua voz é uma dentre as
que se apresentam para narrar a trajetória de Arturo e Ulises, pois, em vez de
um único narrador para desenhar a história e os rumos dos dois, a
personalidade e a trajetória dos líderes do Real visceralismo são definidas por
múltiplos depoimentos de pessoas provenientes de diversos lugares, desde a
cidade do México até de países europeus, da América Latina e dos Estados
Unidos, tendo sido, todos eles, em algum momento, amigos, ou até mesmo
antigos amantes. Mas isso não importa, pois o que vale é a construção da
imagem, fragmentada, é óbvio, de tudo o que havia acontecido com Arturo
Belano e Ulises Lima após a aventura deles no deserto de Sonora. A única
coisa em comum entre esses diversos narradores é a não conexão, criando
narrativas conflitantes, pois eles, na maioria das vezes, estão muito mais
preocupados com seus problemas pessoais, tais como casos amorosos,
viagens, doenças, carreiras etc, deixando a história dos dois andarilhos, quase
sempre, em segundo plano. A trajetória deles, tal qual a dos realistas viscerais,
proporciona um sinal de dissolução e de indefinição em relação à vida. E se
Arturo Belano desaparece no meio da selva africana como se fosse um
Rimbaud envelhecido, Ulises Lima acaba tendo uma conversa educada com
seu grande desafeto, o ícone da poesia mexicana, Octavio Paz.
Na terceira, García Madero recomeça seu diário no dia primeiro de
janeiro de 1976, no momento em que ele, Arturo Belano, Ulises Lima e Lupe
estão fugindo para o deserto de Sonora, iniciando uma busca incessante por
Cesárea Tinajero. A situação torna-se paradoxal, pois eles são perseguidos,
mas também perseguidores, e os andarilhos Belano e Lima, poetas
menosprezados pelo sistema literário oficial, levam consigo, na busca por uma
poetisa totalmente desconhecida e esquecida, García Madero, um poeta
obscuro, de cujo nome ninguém se lembra e cuja obra ninguém conhece. Segundo María Antonieta Flores, “La obra está dividida en tres partes, que en realidad son dos, pues una de ellas se abre para contener la otra.” (ANTONIETA FLORES, M. 2006, p. 91)
O momento do livro que está sendo analisado é, na verdade, uma
continuação da primeira parte, quando a voz de García Madero se projeta,
18 por inúmeras pessoas da região, a imagem de Cesárea muitas vezes se
desvanece; em outras, entretanto, aumenta, até se concretizar diante deles,
para, só então, desaparecer para sempre. Importa mesmo, neste caso, o
aprendizado do jovem poeta, já que, ao longo dessa busca, discute-se o tempo
todo sobre poesia e qual a importância dela para a vida. Afinal, Los detectives
salvajes encerra em si tudo o que o fazer poético se propõe.
Quero deixar claro desde o início que chamo de “modernidade” um
período histórico que começou na Europa Ocidental no século XVII com uma série de transformações sócio-estruturais e intelectuais profundas e atingiu sua maturidade primeiramente como projeto cultural, com o avanço do Iluminismo e depois como forma de vida socialmente consumada, com o desenvolvimento da sociedade industrial (capitalista e, mais tarde, também a comunista). (BAUMAN, 1999, p. 299 e 301)
O avanço da modernidade provocou mudanças num ritmo vertiginoso, produzindo uma diluição social constante em nossa época. Ela teve sua origem no passado, a partir da revolução industrial, ao longo do século XVIII, com a expansão dos grandes centros urbanos. Foi o momento em que William Blake começou a expor as mazelas da cidade de Londres num período de crescimento da sociedade burguesa. Baudelaire aprofundou essa ideia ao apresentar em seu fazer poético os resíduos da modernidade deixados pela Paris transformada por Haussmann. Rimbaud, também, seguiria na mesma linha, buscando, entretanto, uma nova perspectiva, pois não se limitou apenas à grande cidade, tendo-se tornado um andarilho numa escala muito mais ampla.
No entanto, a diluição citada acima atingiria seu grau de maior intensidade a partir da urbanização acelerada e globalizada ocorrida ao longo do século XX. A explosão dos movimentos de contracultura daria um novo impulso com novas perspectivas. Segundo Roberto Muggiati em sua análise sobre o rock, “os anos 60 foram a década que definiu o século 20. Os anos 20, batizados por Scott Fitzgerald de ‘a era do jazz’, não passaram de um trailer dos anos 60. (MUGGIATI, 2010, p. 67)
19 se instalou definitivamente depois de sucessivas contrarrevoluções produtoras de regimes ditatoriais. A violência produzida por tais regimes criou aquilo que se poderia chamar de geração da diáspora. Nosso trabalho pretende mostrar então que o andarilho registra essa gama de mudanças, elaborando, com desencanto, a distopia da América Latina.
Baseado na colocação acima, procuraremos analisar como a ideia de utopia se firmou a partir do mundo grego. A República de Platão já demonstrava o que poderia ser a cidade ideal, retomando, na verdade, uma perspectiva já presente no capítulo VII da Odisseia de Homero, quando Ulisses é introduzido nos jardins de Alkinoos, onde as árvores frutíferas estariam sempre carregadas de frutos ao longo do ano. Se o mundo clássico nos trouxe uma utopia que apresentava uma memória retrospectiva, uma vez que remetia ao que se chama de era dourada, o mundo cristão, por outro lado, direcionou esse conceito para uma visão prospectiva de um possível “Reino de Deus”, um reinado de 1000 anos criado a partir de uma visão apocalíptica. O advento da Idade Moderna começou a revitalizar essa idealização, surgindo então o termo que cairia no senso comum, “utopia”, dado por Thomas More, ao narrar um diálogo fictício a respeito de uma viagem a uma ilha perdida, a qual apresentava esse nome.
Em outras palavras: necessitamos de um telescópio mais potente, o da consciência utópica afiada, para atravessar justamente a proximidade mais imediata, assim como para atravessar o imediatismo mais imediato, em que ainda reside o cerne do encontrar-se e do estar-aí, no qual está simultaneamente todo o nó do mistério do mundo. Não se trata de um mistério que subsiste apenas, por exemplo, para o entendimento insuficiente, enquanto a questão em si e para si mesmo, e para cuja solução ela mesma está em processo e a caminho. Assim, o ainda-não-consciente no ser humano efetivamente faz parte do que-ainda-não-veio-a-ser, do ainda-não-produzido, do ainda não-manifestado no mundo. (BLOCH, 2005 p.23)
20 É possível afirmar, então, que os movimentos de contracultura enveredaram por um caminho que se aproxima dessa ideia de Bloch, e a culminância foi maio de 68. Mas esse tipo de proposta utópica, de certo modo, já estava presente em algumas obras, as quais, de certo modo, podem ser consideradas como apresentadoras de ideias contra-utopistas, como Os pássaros de Aristófanes, Gargantua e Pantagruel de Rabelais, As viagens de Gulliver de Jonatham Swift e Cyrano de Bergerac de Edmond Rostand. Afinal, nos textos citados, esses autores também construíram sua cidade (estado, nação) ideal; entretanto, com ingredientes bastante diferentes: a liberdade, a vagabundagem, o sonho e o desejo. Eles debocharam de grupos cujas propostas de vida e/ou convivência criavam uma visão limitada e fechada do mundo. Seus escritos colocaram-se em oposição ao raciocínio lógico e, para enfrentar a coerção do Estado, zombaram das regras, dos dogmas e dos regulamentos.
Deste modo, acreditamos que, ao enveredar pela construção de um movimento poético, cujo fazer evitava qualquer ligação com o sistema literário, cultural, social ou político dominante, Bolaño mostra, em Los detectives salvajes, a presença desse “ainda-não” no comportamento dos personagens. E se Bloch ressaltou a esperança que costuma mover as realizações humanas em geral, qualquer que seja a situação, entendemos que Roberto Bolaño trouxe essa ideia para o fazer literário, pois percebemos em sua obra a presença desse “sonho diurno” constante em sua poesia, uma vez que, dentro dela, estaria contido um embrião de suas narrativas.
Considerando a forte influência do movimento Beat entre os Infrarrealistas e a liderança exercida por Bolaño nesse grupo, é evidente que o romance, o qual se assemelha a uma coletânea de contos, na qual se fazem presentes os mais diversos gêneros populares, desde o melodrama até as chamadas lendas que povoam a imaginação das pessoas, pode ser objeto de um estudo, cujo objetivo é ressaltar a importância da literatura de gosto popular, visto esta não ser muito bem aceita pelo cânon literário.
21 [...]
É por isso que, aqui, se busca também um caminho intermediário entre o exclusivo orientar-se pela ação do idealismo abstrato e a ação puramente interna, feita contemplação, do Romantismo. A humanidade, como escopo fundamental desse tipo de configuração, requer um equilíbrio entre atividade e contemplação, entre vontade de intervir no mundo e capacidade receptiva em relação a ele. Chamou-se essa forma de romance de educação. (LUKÁCS, 2012, p. 140-141)
Lukács chama a atenção para o fato de que o romance havia-se tornado primordial a partir do crescimento do mundo burguês. Para ele, a dificuldade de adaptação do homem àquela sociedade em constante mudança não teria mais como ser expressa pela epopeia. O romance teria, então, como missão, suprir essa lacuna no mundo literário, transformando-se em espelho do novo padrão social, cujas ideias emergiam vigorosamente para se estabelecer no corpo da sociedade e dominá-lo. O autor chama a atenção para o fato de que a estrutura social que estava sendo formada havia-se tornado propícia ao desenvolvimento desse gênero literário e, dentro dele, o denominado romance de formação, o qual se tornaria, em suas diversas formas, uma constante, mostrando a tentativa de adaptação desse novo herói àquela sociedade.
O aparecimento e o desenvolvimento da literatura escrita de aceitação popular, incluindo-se, neste caso, o folhetim, acompanham essa corrida atrás de algo que sirva como distração para o habitante dos grandes centros urbanos. O século XX e a disseminação da cultura de massas aprofundam esse padrão de outro modo, pois aquele homem, desenraizado, tateia sem rumo. Surgem novas formas de entretenimento, como o rádio, o cinema e, posteriormente, a televisão, todos com a função de minorar a aridez de uma vida submetida à expropriação.
22 incluindo as narrativas de cunho popular, Bolaño, ao registrar as relações entre os poetas Infrarrealistas e a sociedade, cria um romance de formação, numa busca estética, através da qual, seus personagens expressarão a diluição entre a cultura popular e a canônica. É importante ressaltar que tal formação tem como panorama o resíduo deixado pelo crescimento descontrolado da “engrenagem” do capitalismo, cujo resultado é a distopia na atual sociedade.
Deste modo, vamos estudar a obra de Roberto Bolaño, incluindo outros textos narrativos, como Estrella distante, Amuleto e Nocturno de Chile, mas focalizando primordialmente o percurso vivenciado por Arturo Belano, o andarilho de Los detectives salvajes, ao longo dos anos 60 e 70. É necessário lembrar que, naquele momento, havia uma luta muita grande para implementar mudanças estruturais com o intuito de diminuir a pobreza e a miséria na América Latina. O clima da Guerra Fria foi fatal para a vitória das forças da reação, inflingindo um duro golpe nas forças progressistas, criando o que se poderia chamar de componente trágico para o continente.
Faremos, então, uma ponte com os poetas do século XIX, destacando a flânerie de Baudelaire, passando pelas andanças de Rimbaud, desde a Europa até os confins da África, chegando a Ginsberg e Kerouac, dois andarilhos dos Estados Unidos da América. Todos, afinal, tal qual Bolaño, também expressaram a distopia da sociedade moderna.
23 consequências a imagem da inadaptação do homem às mudanças produzidas por aquela sociedade. Prosseguiremos com Allen Ginsberg, o poeta da contracultura, aquele que melhor expressou os “resíduos” produzidos pelo “american way of life”, indo na contramão da ideologia da sociedade burguesa, justamente no momento em que essa sociedade parecia ter atingido seu ponto culminante. Finalizaremos com Roberto Bolaño, poeta cuja trajetória em muito se assemelha à de Rimbaud e à de Ginsberg, não nos esquecendo, entretanto, de que as raízes estão em Blake, Baudelaire e Rimbaud.
No segundo capítulo, considerando o “progresso” contínuo do capitalismo e o consequente crescimento das cidades, analisaremos as relações entre o poeta e a metrópole, mostrando o ciclo de miséria criado pelo sistema então ascendente. Destaque-se, neste caso, a percepção do poeta para a perda da individualidade do homem em meio ao caos urbano resultante da revolução industrial. Como esse caos se agigantaria, de forma crescente, ao longo do século XIX, percebe-se a tentativa do poeta de, progressivamente, contrapor-se a essa desumanização através do movimento romântico. Visões utópicas, de certo modo, ressurgem neste momento. Cumpre marcar, entretanto, que elas logo se desvanecem a partir das derrotas sucessivas sofridas pelos inúmeros grupos que, em diversos momentos e situações ao longo desse século, tentavam modificar a sociedade. É importante destacar que, neste caso, tais movimentos buscavam, de certo modo, um reencontro do homem com sua humanidade. Ainda neste capítulo, mostraremos a relação conflitante entre Arturo Belano e a cidade do México, pois, do mesmo modo que o poeta enxergava nessa metrópole o espaço do acolhimento, percebia nela, também, o lugar da destruição.
24 dos diversos membros do grupo apenas acentuam esse desejo de apreender o mundo para fixá-lo na poesia, numa espécie de reedição latino-americana dos movimentos de contracultura já ocorridos nos Estados Unidos e na Europa anteriormente. Parecem turistas conhecendo e experimentando a cidade, porém com a pretensão de serem reconhecidos como poetas. Adquirem, entretanto, a fama de vagabundos. Demonstraremos também que aqueles poetas estavam procurando mesmo desenvolver uma literatura como forma de conhecimento do mundo e, por isso, a postura de andarilho. Nessa busca, entendemos que o deslocamento de nossos heróis tem raiz na Odisseia homérica, que teria como um de seus propósitos a formação do homem grego, criando um ideário pragmático fundamental para a formação posterior do homem ocidental. Arturo Belano e Ulises Lima, no entanto, por valorizarem uma postura à margem do sistema, estariam invertendo essa imagem heróica tradicional. Qual seria afinal a Ítaca deles? Encontrar a musa, Cesárea Tinajero, para impulsionar o movimento? É o que veremos.
25 No quinto capítulo, a partir da leitura de Estrella distante de Roberto Bolaño, analisaremos a construção da distopia através da poesia, visto o romance, dentro de uma estrutura policial, focalizar a presença do mal, desmitificando a ideia de que a arte e a literatura estariam sempre a serviço da humanização. Em um dos contos de La literatura nazi en América, Bolaño constrói um personagem, que seria a representação do mal, “Ramirez Hoffman, el infame”. Trata-se da trajetória de um oficial da Aeronáutica participante de um grupo que produzia oficinas literárias, num período anterior a 1973. Conhecido como Emilio Stevens, depois do golpe militar, revela-se seu verdadeiro nome, Ramirez Hoffmann, e o objetivo de sua estética: a criação de uma nova poesia, condizente com a construção do “novo Chile”. Sua fama surgiu quando, num fim de tarde, ao sobrevoar o Centro La Pena, um presídio lotado de presos políticos nas cercanias de Concepción, começou a escrever com a fumaça de seu pequeno avião, frases como: “BUENA SUERTE PARA TODOS EN LA MUERTE”, “APRENDAN DEL FUEGO”, “LA MUERTE ES LIMPIEZA”, dentre outras. A posterior exposição de fotos de mulheres assassinadas por ele será a culminância de sua estética. Sua história será recontada em “Estrella distante”, e a perversidade do “poeta” reforça a visão opressiva explicitada por Bolaño. O personagem-narrador deste romance, ao desvendar progressivamente a trajetória do “poeta do mal”, questiona a respeito da utilidade da Literatura como instrumento de autoconhecimento e de respeito ao outro. Trata-se de uma visão distópica, capaz de provocar apreensão e terror.
26 burguesia a partir de 1830 e seria figura de proa na expansão dos grandes movimentos estilísticos desse século, como o Romantismo e o Realismo/Naturalismo. É importante, também, neste caso, frisar que esse gênero acompanhou a alfabetização progressiva da população e o surgimento de uma classe média com desejo de ilustração e entretenimento.
No sétimo capítulo, mostraremos que o desenvolvimento do romance produziu o surgimento do folhetim, o qual se estabeleceria a partir da expansão da imprensa em meio àquela sociedade, cujas reformas foram produzindo uma classe média baixa de pessoas alfabetizadas, submetidas a uma vida medíocre e oprimidas pela dureza do cotidiano, mas cheia de sonhos e aspirações. Mostraremos também a importância desse tipo de narrativa no cotidiano, acentuando o papel dos criadores do folhetim de conteúdo social, considerados responsáveis pela explosão revolucionária ocorrida em 1848. Partiremos para a análise de Los detectives salvajes, com o intuito de mostrar que o romance apresenta uma estrutura folhetinesca. Neste caso, ressaltaremos que essa estrutura também está presente na poesia de Bolaño, as quais funcionam, na maioria das vezes, como embrião de seus contos e romances. Entendemos, também, que o folhetim criado por ele mantém o mesmo viés, uma vez que importa mesmo, neste caso, apresentar a literatura como uma espécie de registro da construção distópica presente na sociedade moderna.
28 02. CAPÍTULO 1: O POETA VÊ O RESÍDUO DA SOCIEDADE
INDUSTRIAL
Foi uma era de superlativos. Os novos e numerosos compêndios de estatística, nos quais esta era de contagens e cálculos buscava registrar todos os aspectos do mundo conhecido, chegariam com justiça à conclusão de que realmente cada quantidade mensurável era maior (ou menor) do que em qualquer época anterior. A área do mundo conhecida, mapeada e em intercomunicação era maior do que em qualquer época anterior e suas comunicações eram incrivelmente mais rápidas. A população do mundo era também maior do que nunca; em vários casos, além de toda expectativa e probabilidade. As cidades de grande tamanho se multiplicavam mais depressa do que em qualquer época anterior. A produção industrial atingia cifras astronômicas: na década de 1840, cerca de 640 milhões de toneladas de carvão foram arrancadas do interior da terra. (HOBSBAWN, 1981, p. 321)
O historiador Eric Hobsbawm em seu livro A era das revoluções traça um painel das mudanças ocorridas na Europa (principalmente) e no mundo no período que vai de 1789 a 1848. Citou a Revolução industrial gestada ao longo do século XVIII na Inglaterra e a Revolução francesa concretizada no final desse mesmo período como fundamentais para as transformações sociais, políticas, econômicas e culturais que se fixariam ao longo do século posterior na formação da sociedade industrial e capitalista.
É importante ressaltar, neste caso, o desenvolvimento acelerado das cidades, cujo “crescimento se multiplicava mais do que em qualquer época anterior”. Segundo Otávio Guilherme Velho na introdução da série de artigos coletados no livro Fenômeno urbano, o rosto da sociedade, no que se refere ao aspecto urbano e rural, começará a ser modificado na época citada acima no texto de Hobsbawm, pois se, anteriormente à revolução industrial, as regiões rurais em muito sobrepujavam os centros urbanos em todos os aspectos, apesar da existência de agrupamentos chamados de cidade deste a Idade Antiga, somente a partir do século XVIII, “o modo de vida urbano e, mais ainda, o metropolitano”, iniciariam seu domínio sobre a vida campestre. (VELHO, 1987, p.21) É evidente que as técnicas modernas de produção, associadas aos meios de transporte e de comunicação, resultantes da industrialização acelerada, haviam sido o gatilho que acionara tal impulso.
29 bairros baixos de Manchester? Ou, para os homens e mulheres, desarraigados
em quantidades sem precedentes e privados de toda segurança, que constituíam provavelmente o mais infeliz dos mundos? Contudo, podemos perdoar os baluartes do progresso na década de 1840 por sua confiança e determinação "de que o comércio pode evoluir livremente, levando a civilização com uma das mãos, e a paz com a outra, para tornar a humanidade mais feliz, inteligente e melhor". "Senhor", disse Lord Palmerston, prosseguindo esta rósea afirmação no pior dos anos, 1842, "este é o desígnio da Providência." Ninguém podia negar que havia uma pobreza espantosa. Muitos sustentavam que estava mesmo aumentando e se aprofundando. E ainda assim, pelos eternos critérios que medem os triunfos da indústria e da ciência, poderia até mesmo o mais lúgubre dos observadores racionalistas sustentar que, em termos materiais, o mundo estava em condições piores do que em qualquer época anterior, ou mesmo do que em países não industrializados do presente? Não poderia. Já era suficientemente amarga a acusação de que a prosperidade material do trabalhador pobre frequentemente não era maior do que no passado, e, às vezes, pior do que em períodos guardados na memória. Os baluartes do progresso tentavam rechaçá-la com o argumento de que isto não se devia às operações da nova sociedade burguesa, mas, pelo contrário, aos obstáculos que o velho feudalismo, a monarquia e a aristocracia ainda colocavam no caminho da perfeita iniciativa livre. Os novos socialistas, pelo contrário, sustentavam que isto se devia às próprias operações daquele sistema. Porém, ambos concordavam que a situação era cada vez mais penosa. Uns sustentavam que seria superada dentro da estrutura do capitalismo, enquanto outros discordavam deste ponto de vista, mas ambos, corretamente, acreditavam que a vida humana enfrentava uma possibilidade de melhoria material que traria o controle do homem sobre as forças da natureza. (HOBSBAWM, 1981, p. 322-323)
30 manutenção e a exaltação da moral burguesa como única mantenedora da família e da tradição, conceitos fundamentais para a produção de bens e riquezas.
LONDON
I wander thro’each charter’d street,
Near where the charter’d Thames does flow,
And mark in every face I meet Marks of weakness, marks of woe.
In every cry of every Man,
In every Infant’s cry of fear,
In every voice, in every ban, The mind-forg’d manacles I hear.
How the Chimney-sweeper’s cry Every blackning Church appalls;
And the hapless Soldier’s sigh
Runs in blood down Palace walls.
But most thro’ midnight streets I hear How the youthful Harlot’s curse
Blasts the new-born Infant’s tear,
And blights with plagues the Marriage hearse.1(BLAKE, 1984, p 101)
Segundo Guy Debord, “a história universal nasceu nas cidades e atingiu a maioridade no momento da vitória decisiva da cidade sobre o campo”. (DEBORD, 1997, p. 69) Essas transformações, entretanto, geraram gravíssimos problemas sociais. O pensador considera, também, que o momento presente marca a autodestruição do meio urbano, uma vez que o transbordamento das cidades para um meio rural cheio de massas informes de “resíduos urbanos” está sendo diretamente regido pelo imperativo do consumo. Acreditamos, no entanto, que tal fato, de certo modo, já teria ocorrido no início desse processo, como percebemos no registro dos principais escritores da época, os chamados pré-românticos, visto terem muitos deles, pelo menos, passado a expressar a angústia resultante de tão violenta desumanização. E, se o chamado mundo racional parecia despontar como o novo salvador da humanidade, esses poetas, conseguindo enxergar o outro lado, ou seja, esse novo mundo como grande produtor das diversas mazelas que passaram a
31 assolar a sociedade, voltaram-se para uma visão subjetiva e emocional, cerne do movimento romântico então emergente. O retorno à natureza, na contramão desse crescimento das cidades, seria outra postura adotada por esses escritores, já que, desta forma, acreditavam estar se contrapondo ao estilo de vida monstruoso gerado pela sociedade burguesa nos grandes centros urbanos. Dentre eles está William Blake, o primeiro a expressar com maior contundência o drama, ou, em muitos casos, a tragédia vivida pela população periférica da cidade de Londres, a qual havia iniciado esse processo de mudança da sociedade rural para a urbana.
Como consequência de seu olhar, emerge então, através de sua pena, uma Londres, cujas ruas e cujo rio principal haviam sido, segundo o tradutor do poema, Paulo Vizioli, “escriturados”, ou, conforme ele mesmo afirma, “registrados oficialmente no mapa da cidade pelos órgãos públicos, mas também cedidos para o usufruto de alguns privilegiados, concretizando uma organização social estruturada basicamente para oprimir os indivíduos”. (VIZIOLI, 1993, p.17) E o poeta passa a expressar a angústia gerada pela fome, pela dor e pelo enfado presente no rosto das pessoas que se deslocavam pela metrópole. A poesia começava a ir para as ruas, mostrando, pela primeira vez, o homem comum e suas inúmeras tribulações. Ela estava expressando, pela primeira vez, a angústia desse homem completamente dominado pelo medo e que tinha, como única saída, gritos de dor e de desespero. A poesia estava pondo a nu, pela primeira vez, as chagas do sistema burguês, desmitificando a ideia de que a sociedade estava ancorada em valores cristãos e puramente humanitários. Importa mesmo, neste caso, marcar o início de uma longa linhagem de poetas que começariam a expor o descompasso cada vez mais marcante entre o homem e a grande cidade.
LE SOLEIL
Le long du vieux faubourg où pendent aux masures Les persiennes, abri des sécrètes luxures,
Quand le soleil cruel frappe à traits redoublés Sur la ville et les champs, sur les toits et le blés,
Je vais m’exercer seule à ma fantasme escrime,
32 Heurtant parfois des vers depuis longtemps rêvés. 2(BAUDELAIRE,
2015, p. 279)
Baudelaire deixa bem claro que seu fazer poético depende única e exclusivamente do que ele consegue ver e captar nas ruas e subúrbios de Paris. Seu processo de criação não seria válido se não pudesse expressar o movimento das massas urbanas consumidas e exploradas pelo espectro do capitalismo burguês numa cidade superpovoada. Deste modo, ele luta para obter a palavra adequada dentro daquilo que ele pensa e deseja. As imagens deveriam ser vertidas para o papel e as rimas deveriam ser concretizadas de acordo com suas necessidades. Ele estava inaugurando a literatura da modernidade. O herói seria o homem comum das ruas em sua luta titânica para sobreviver dentro de uma sociedade cujos conflitos punham cada habitante numa espécie de selva extremamente hostil e perigosa. Afinal, a perspectiva criada pela sociedade capitalista havia transformado cada ser em devedores e credores, vendedores e compradores, patrões e empregados, ou seja, concorrentes. Não eram absolutamente parceiros ou companheiros. No entanto, como o poeta já havia perdido sua aura desde o momento em que ocupara a rua, Baudelaire pôde começar a desmitificar a ideologia burguesa.
Segundo Walter Benjamin, “As Flores do Mal seria o primeiro livro a usar, na lírica, palavras não só de proveniência prosaica, mas também urbana”. Ainda de acordo com Benjamin, “a última obra lírica a exercer influência no âmbito europeu”. (BENJAMIN, 1989, p. 96 e 143) A poesia de Baudelaire era resultado da chamada flânerie do poeta e, como tal, estava sendo um marco no contexto da literatura ocidental. A crise dos valores sociais impunha, também, uma crise nos aspectos técnicos utilizados na produção artística. Daí sua integração, em todas as formas possíveis, com a banalidade do cotidiano. Para ele, isso resultava de sua percepção de que a sociedade burguesa havia reduzido tudo ao valor de mercado, inclusive o poeta e sua obra, conduzindo-o, de certo modo, a uma espécie de prostituição, caso tivesse o intuito de produzir alguma coisa. Depois da perda da aura, entretanto, que mais ele poderia
2 Ao longo dos subúrbios, onde nos pardieiros/Persianas acobertam beijos sorrateiros,/Quando
33 esperar? Restava ir para a rua e sedimentar sua linguagem. Importa mesmo que ele estava inaugurando uma linhagem de poetas, os quais aprofundariam, nos aspectos técnicos, linguísticos e temáticos, sua ousadia. Outros poetas, posteriormente, tomariam também as ruas para descrever o homem perdido na coletividade, o andarilho solitário no meio da multidão.
E se William Blake havia aberto o caminho para essa temática na Londres do início da revolução industrial, Baudelaire o consolidaria na Paris de meados do século XIX. O poeta das ruas e dos cafés, o flâneur, presenciaria as mudanças produzidas pelo prefeito Haussmann, adaptando a grande cidade ao auge do capitalismo. Ele viu a destruição das velhas construções, a abertura dos grandes bulevares e o surgimento dos cafés, mas viu também a exclusão da população pobre, a miséria e a prostituição. Pôde, então, cantar o deslocamento das multidões e a revolta daqueles que, como ele, nada tinham a perder. Seu trabalho seria marcante nas duas décadas subsequentes, pois sua poesia cantou em cores vivas o desejo, o sonho, a angústia, o medo, o movimento, a participação, enfim, do homem comum dentro da grande cidade. Ele havia visto as transformações produzidas por Haussmann com o intuito de modernizar a cidade de Paris, adaptando-a às necessidades resultantes da industrialização e do comércio crescente. Eram mudanças pedidas pela burguesia ascendente numa Europa já dominada pelo sistema capitalista. Percebeu, no entanto, o trauma que aquilo havia provocado nas populações pobres, excluídas de todo esse processo, como se estivessem tomadas pela lepra ou por alguma doença contagiosa do mesmo calibre. Tal como Blake, Baudelaire conseguiu expor também, de forma contundente, o descompasso entre o homem e a grande cidade, de um modo diferente, porém, uma vez que ele, poeta, estava no olho do furacão, sentindo em sua própria pele todo o peso da perversa estrutura social gerada pelo capitalismo.
LE BATEAU IVRE
Comme je descendais de Fleuves impassibles, Je ne me sentis plus guidé par lêshaleurs:
Des Peaux-Rouges criards les avaient pris pour cibles, Les ayant cloués nus aus poteaux de couleurs.
[...]
La tempête a béni mes éveils maritimes.
34
Qu’on appelle rouleurs éternels de victimes, Dix nuits, sans regretter l’oeil niais des falot!
[...]
Et dès lors, je me suis baigné dans le Poème
De la Mer, infusé d’astres, et lactescent,
Dévorant les azurs verts; ou, flottaison blême Et ravie, un noyé pensif parfois descend;
[...]
J’ai suivi, des mois pleins, pareille aux vacheries Hystériques, la houle à l’assaut des récifs,
Sans songer que les pieds lunineux des Maries Pussent forcer le mufle aux Océans poussifs!
[...]
Mais, vrai, j’ai trop pleuré! Les Aubes sont navrantes.
Toute lune est atroce et tout soleil amer:
L’âcre amour m’a gonflé de torpeurs enivrantes.
O que ma quille éclate! O que j’aille à la mer!
Si je désire une eau d’Europe, c’est la flache
Noire et froide où vers le crépuscule embaumé Un enfant accroupi plein de tristesses, lâche Un bateau frêle comme un papilon de mai.
Je ne puis plus, baigné de vos langueurs, ô lames, Enlever leur sillage aux porteurs de cotons,
Ni traverser l’orgueil des drapeaux et des flammes,
Ni nager sous les yeux horribles des pontons.3(RIMBAUD, 1994, p. 202)
Outro poeta adentraria a segunda metade do século XIX seguindo o rumo aberto por Blake e desenvolvido por Baudelaire. A trajetória precoce de Rimbaud seria um novo marco na poesia moderna. E se Baudelaire havia sido o cronista do inferno criado pelas transformações provocadas pelo crescimento da sociedade industrial e burguesa, Rimbaud, cuja obra num todo destaca sua condição de não apenas um inadaptado à sociedade, mas um rebelde diante da própria condição humana, estava se colocando no centro dessa angústia
3 Quando eu atravessava os Rio impassíveis,/Senti-me libertar dos meus rebocadores./Cruéis
35 resultante da modernidade, adentrando o próprio inferno. A história de uma viagem marítima transforma-se numa odisseia, a qual fundamenta a busca poética do autor. O poeta estava à deriva e sua busca incansável pela liberdade o leva a enfrentar diversos obstáculos, todos transformados em derrota, acentuando a destruição de sua utopia juvenil. Os pontões, termo presente na última estrofe, eram jaulas humanas, referindo-se a barcos desativados, cheios de prisioneiros para serem deportados. Tal imagem provoca-lhe revolta, tristeza e impotência. Segundo Ivo Barroso, a palavra está fortemente impregnada de alusões revolucionárias, já que, em menos de 25 anos, três repressões haviam deportado prisioneiros nesses pontões: após 1848, após o golpe de Estado de 1851 e após a Comuna em maio de 1871. (BARROSO, 1994, p.352) O poeta começa a admitir o fim do sonho de liberdade. Ele estava apenas aprofundando o caminho aberto por William Blake e sedimentado por Baudelaire.
A fim de se tornar um verdadeiro poeta, escreve Rimbaud, o escritor
precisa se transformar num vidente: “O poeta se torna vidente por um longo
imenso e refletido desregramento de todos os sentidos”. O poeta tem de se
submeter a uma tortura autoinvestigativa; tem de padecer todas as agonias do
amor, do sofrimento e da loucura. “Ele precisa de toda a fé, de toda a força
sobre-humana, de modo a se tornar entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito – e o supremo Sábio! – pois ele chega ao
desconhecido”. [...] Rimbaud parece exaltar uma utopia futura em que a poesia
e o futuro do mundo parecem estar entrelaçados. (WHITE, 2010, p. 56-57)
36 no inferno aprofundaria esse grito em busca de uma pureza impossível de se concretizar, apresentada num livro totalmente diferente de tudo que havia sido escrito até então.
...não tinha enredo, nem personagens, nem ação, nem muita coisa passível de descrição e, se havia diálogos ou narrativas, estavam pela metade
– meros sinalizadores ou talvez ruínas de estruturas prévia, deixando pulsar, através do texto, uma ânsia de confissão, sem revelar, entretanto, nada de concreto. (WHITE, 2010, p.109)
A poesia que negava a própria poesia veio para ressaltar o desespero de quem havia descido ao inferno em vida, deixando bem claro que, a partir desse momento, a poesia, pelo menos tal como era conhecida, jamais seria a mesma. Se Baudelaire havia criado a modernidade, Rimbaud a estava levando até as últimas consequências.
HOWL
for Carl Solomon
I saw the Best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked,
dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix,
angelheaded hipsters burning for the ancient heavenly connection to the starry dynamo in the machinery of night,
who poverty and tatters and hollow-eyed and high sat up smoking in supernatural darkness of cold-water flats floating across the tops of cities contemplating jazz,
who bared their brains to Heaven under the El and saw Mohammedan angels staggering on tenement roofs illuminated,
who passed through universities with radiant cool eyes hallucinating Arkansas and Blake-light tragedy among the scholars of war, who were expelled from the academies for crazy & publishing obscene
odes on the windows of the skull,
who cowered in unshaven rooms in underwear, burning their money in wastebaskets and listening to the Terror through the wall, who got busted in their public beards returning through Laredo
with a belt of marijuana for New York,4 (GINSBERG, 1996, p.49)
4 Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos,
37 A referência a Blake é evidente. O inferno vivido por Rimbaud está presente. A poesia de Ginsberg, considerada obscena nos anos 50 do século XX, expressava as fendas da estrutura social americana no ápice do “american way of life”, desnudando a hipocrisia da sociedade burguesa no auge do capitalismo, deixando marcas profundas nos emblemáticos anos 60. Era um momento de luta propiciada por aqueles jovens do primeiro mundo, com o intuito de produzir mudanças, não apenas sociais, mas também comportamentais. A luta pelos direitos civis e as manifestações contra a guerra do Vietnam davam o ingrediente necessário para acentuar o tom político. Repercussões dessas movimentações chegaram aos países perifétricos, muitos deles dominados por ditaduras, levando os jovens desses lugares a se empenharem na busca pelo retorno da democracia.
Havia, então, uma sede de mudança, e a partida para tais acontecimentos foi dada por jovens de classe média do chamado primeiro mundo. A geração baby boom havia-se desencantado com o consumismo exagerado, estava ansiosa também pelo fim da hipocrisia e do falso moralismo da sociedade burguesa. Apesar das conquistas materiais, as relações sociais ainda privilegiavam uma postura “vitoriana”. Para eles, transformar estruturas econômicas e sociais não era suficiente, pois acabaria por haver um aburguesamento de um regime tão ou mais repressivo que o anterior. A movimentação começou atropelando a tudo e a todos, inclusive os partidos da chamada esquerda tradicional, passando por cima também de todo o sistema sindical. Havia, de certo modo, uma revolução nas ruas propondo uma nova ordem social.
38 políticas, econômicas e sociais. Diversos problemas ignorados até então, como alguns citados, não poderiam mais ser esquecidos. Embora muitos deles parecessem estritamente individuais, essa movimentação conseguiu mostrar que todos tinham implicações sociais e políticas. O rumor da rua, as barricadas, o corre-corre dos estudantes e a vida que se agitava lá fora ajudariam a construir uma poesia viva, cheia de ansiedade, medo, suor, sangue e muita excitação. E nada parecia conseguir parar o movimento frenético daqueles jovens que enfrentavam os cassetetes e as bombas de gás lacrimogêneo.
Na América Latina, entretanto, a ebulição ainda tomava as formas tradicionais, pois urgia, naquele momento, fazer valer a cultura popular com o intuito de provocar mudanças na estrutura social de cada país. Urgia lutar contra a miséria, contra o latifúndio, contra a exploração, ou seja, transformar uma região cujo patamar de desenvolvimento econômico e social estava muito aquém daquele já alcançado pelo chamado primeiro mundo. As questões diferiam, portanto, daquelas que moviam os jovens da Europa e dos Estados Unidos. Esse momento de ebulição é vivenciado por Roberto Bolaño. As imagens projetadas pelo massacre de Tlatelolco no momento de sua chegada ao México, associada ao presenciado por ele no seu retorno ao Chile, com todo o desdobramento ocorrido, não apenas em seu país de origem, mas em todo o resto do continente, levariam o escritor a encarar e enfrentar o destino trágico da América Latina.
39 provocados pelas agitações sociais ocorridas nos anos 60, dentre os quais queremos destacar a geração Beat, com Allen Ginsberg e Jack Kerouac.
Yo les dije, ah, Cesárea Tinajero, ¿dónde oyeron hablar de ella, muchachos? Entonces uno de ellos me explicó que estaban haciendo um trabajo sobre los estridentistas y que habían entrevistado a Germán, Arqueles y Marples Arce y que habían leído todas las revistas y libros de aquella época, y entre tantos nombres, nombres de hombres cabales y nombres huecos que ya no significan nada y que no son ni siquiera un mal recuerdo, encontraron el nombre de Cesárea. ¿Y? les dije. Ellos me miraron y se sonrieron, los dos al mismo tiempo, pinches muchachos, como si estuvieran conectados, no sé si me explico, nos extrañó, dijeron, parecía la única mujer, las referencias eran abundantes, decían que era una buena poeta. ¿Una buena poetisa?, dije yo, ¿dónde han leído algo de ella? No hemos leído nada de ella, dijeron, en ninguna parte, y eso nos atrajo, ¿Los atrajo de qué manera, muchachos, a ver, explíquense? Todo el mundo hablaba muy bien de ella o muy mal de ella, y sin embargo nadie la publicó. (BOLAÑO, 1998, p.162)
No caso do México, podemos citar o Estridentismo, o qual procurava combinar diversos aspectos desses movimentos de vanguarda aqui citados. É importante mencionar também, neste caso, o depoimento de Amadeo Salvatierra, suposto amigo de Cesárea Tinajero, o qual, numa conversa com Arturo Belano e Ulises Lima, tentará ajudar os dois a encontrar a principal poeta desse movimento. A década de 70 produziria no México, estimulada pelo novo governo do PRI, uma atividade cultural muito intensa. Na verdade, a “generosidade” do presidente Echeverría, com o intuito evidente de apagar sua participação na repressão concretizada pelo governo anterior, objetivava a cooptação do maior número possível de intelectuais, numa tentativa de diminuir as rusgas profundas entre o governo e os artistas provocadas pelo massacre de Tlatelolco. É nesse ambiente de mudanças, mas muito confuso, que a cultura popular desse país começa a se fazer presente, mostrando a sua existência à chamada grande cultura, e marcado pela dura lição produzida pelo já citado massacre e por seu breve retorno ao Chile no momento da queda de Allende, que o andarilho inicia seu aprendizado.
40 haviam sido sua fábrica. E essa fábrica estaria, naquele momento, em poder dos capatazes, e os loucos fugidos seriam a mão de obra. O manicômio, há mais de 60 anos, estaria queimando em seu próprio óleo. (STERZI, 2011, p. 8)
LOS DETECTIVES
Soñé con detectives perdidos en la ciudad oscura. Oí sus gemidos, sus náuseas, la delicadeza De sus fugas.
Soñé con dos pintores que aún no tenían años cuando Colón
Descubrió América.
(Un clásico, intemporal, el otro Moderno siempre,
Como la mierda.)
Soñé con una huella luminosa. La senda de las serpientes Recorrida una y otra vez Por detectives
Absolutamente desesperados. Soñé con un caso difícil,
Vi los pasillos llenos de policías,
VI los cuestionarios que nadie resuelve, Los archivos ignominiosos.
Y luego vi al detective Volver al lugar del crimen Solo y tranquilo
Como en las peores pesadillas, Lo vi sentarse en el suelo y fumar En un dormitorio con sangre seca Mientras las agujas del reloj Viajaban encogidas por la noche Interminable. (BOLAÑO, 2007, p. 338)