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Apresentação: Dossiê

Autor(es): Oliveira, Loraine Publicado por: Annablume Clássica URL

persistente: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/24321 Accessed : 28-Oct-2022 21:16:07

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Loraine Oliveira

APRESENTAÇÃO

Um monumento literário da Antiguidade é algo muito diferente de uma obra moderna. Nos nossos dias podemos dizer: “Madame Bovary, sou eu”. O autor se dedica, se exprime, se libera. Ele busca a originalidade, o nunca dito (...). Em tudo ele busca impor sua marca própria. Como todas as obras da Antiguidade findoura, as Enéadas conhecem outras obrigações. Aqui a originalidade é um defeito, a ino- vação, suspeita, a fidelidade à tradição, um dever (HADOT, P. Plotin ou la simplicité du regard, p. 14).

P

lotino, o filósofo que viveu no século III d.C. considerava-se um exegeta de antigas doutrinas, maximamente de Platão. Seus escritos testemu- nham os temas discutidos nas aulas, assim como o método do comentário por Plotino empregado.

Sem entender o método e o escopo das lições do filósofo nascido em Licópolis, a compreensão do conteúdo das Enéadas fica comprometida. Dezoito séculos nos separam de Plotino. Camadas de inter- pretações, traduções e edições dos textos gregos dos tratados se interpõem como estratos arqueológicos entre o leitor hodierno e Plotino. Apesar disso, o pensamento do Licopolitano continua sedutor como um canto de Sereia. Plotino propõe uma filosofia que é um modo de vida, cujo fim último é o retorno da alma ao princípio, o Um ou Bem. Sendo quais

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forem os caminhos disponíveis àquele que busca o princípio, a nota comum a todos os percursos é a purificação pelas virtudes. Na qualidade de filósofo, Plotino descreve e analisa este retorno, considerando que já se encontra nos diálogos de Platão. Para tanto, ele precisa explicar a estrutura da realidade e a do homem, interpretando e resolvendo as dificuldades encontradas nos textos de Platão, à luz dos platônicos posteriores e dos aristotélicos, que ele entrecruza no seu tecido exegético. Tecido esse alinhavado pelo vocabulário estóico da Roma Imperial, onde Plotino tem sua escola, e pontuado pelos mitos da tradição helênica, assim como pelos debates com os Gnósticos que frequentaram durante certo tempo os cursos plotinianos.

* * *

A Revista Archai acolhe em suas páginas um dossiê dedicado exclusivamente a Plotino. O momen- to é propício: os estudos sobre Plotino no Brasil vêm se consolidando. No início da década de noventa do século XX, despontaram os primeiros textos sobre Plotino no Brasil, na forma de artigos e Dissertações de Mestrado. Exatos dez anos atrás surgia o primeiro livro publicado no Brasil sobre Plotino1, de autoria do professor Ullmann. Na sequencia do livro pioneiro, outras introduções e apresentações a Plotino foram publicadas aqui e ali, por diferentes autores e edito- ras do País. Teses de Doutorado, novas Dissertações de Mestrado e artigos foram desde então produzidos.

Mas, ao ser recenseada a bibliografia lusófona acerca do Neoplatonismo Antigo em geral, e de Plotino, especificamente, constatou-se que o interesse dos pesquisadores brasileiros neste decênio recaiu so- bretudo em dois temas, a “estética” e a “mística”2.

Motivo para comemorações, estes vinte anos são também uma ótima ocasião para revisar conceitos e interesses de pesquisa. É chegada a hora de publicações especializadas ocuparem o lugar das mais gerais; de temas batidos e rebatidos cederem espaço a outros, ainda não estudados por aqui. Uma das razões que dificulta o despertar para novos assuntos talvez seja, justamente, a ainda parca bibliografia lusófona que os jovens estudantes encontram sobre Plotino. Se alguém quiser ler um

tratado das Enéadas, pode até encontrar uma boa tradução lusófona, embora nem todos os cinquenta e quatro tratados tenham ainda sido traduzidos.

Mas caso essa pessoa seja um aluno de graduação do primeiro semestre que ouviu o professor falar rapidamente na aula sobre Plotino, e que ainda não lê outros tantos idiomas, talvez não entenda muita coisa. Simplesmente porque é possível que não haja nenhum livro ou artigo publicado em português sobre o tratado escolhido, ou sobre o tema central do mesmo. Por outro lado, se alguém resolve querer estudar a “estética” de Plotino, com quantas inadequações e anacronismos corre o risco de se deparar... Sobretudo se encontrar o tema pela primeira vez em manuais de Estética.

Que os fatos não o desanimem, caro leitor.

Pelo contrário: sinta-se estimulado a prosseguir e a contribuir com os estudos plotinianos. E sinta-se convidado a conhecer os textos aqui publicados.

Falou-se em “estética”. Pois bem, para Luc Brisson, autor do primeiro artigo, este é um termo anacrô- nico, que não designa a reflexão plotinana sobre o Belo. E mais: o termo tékhne que normalmente traduz-se por arte, não designa as artes em senso estrito, mas uma série de atividades humanas dis- tintas. As refinadas análises de Brisson conduzem com acribia pelo universo plotiniano da beleza e das artes, sempre fundamentadas no texto das Enéadas.

Na sequencia deste artigo, seguindo pelo mesmo campo temático, José Baracat Júnior indaga sobre qual tékhne é esta, ilustrada pelo exemplo do Zeus de Fídias. O autor discute duas teorias, a de que arte imita a natureza, e a de que a arte não imita a natureza, para então sugerir, com sua “hipótese taumática”, que o exemplo do Zeus de Fídias repre- senta a comoção diante da beleza em si mesma, e não o processo de produção artística.

A terceira contribuição, de minha autoria, trata ainda do belo, mas agora sob o prisma do amor. O amor, entendido como “estado de alma”, é característico do homem no mundo sensível. Pode ser de dois tipos, puro, isto é, que deseja o belo, e misto, que deseja o belo e a eternidade. Para compreender este tipo de amor estado de alma, envereda-se pela psicologia plotiniana, mostrando as relações entre a alma e o belo. De Bernardo Lins

1. ULLMANN, R. A. (2002) Plotino: um estudo das Enéadas.

Porto Alegre: EDIPUCRS (Coleção Filosofia, 134).

2. O leitor interessado deve consultar o Primeiro repertório bibliográfico dos estudos em língua portuguesa dedicados a Plotino e ao Neoplatonismo, publicado em três artigos, na versão eletrônica da Revista Archai nº 5. Disponível em http://seer.bce.unb.br/index.

php/archai/issue/view/187

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Brandão, o quarto artigo versa acerca dos estados de consciência e dos níveis do eu em Plotino. Trata- -se de um estudo sobre a psicologia plotiniana, que exige uma discussão sobre conceitos diversos, como parakoloúthesis, sunaísthesis e súnesis, os quais fazem parte do léxico daquilo que se chama consciência, mas que tem nuanças e especificidades nos contextos em que emergem.

O último bloco de artigos do dossiê poderia ser denominado “diálogos”, se o primeiro fosse “belo”

e o segundo, “alma”. Com efeito, a nota comum aos três estudos que seguem é a relação entre Plotino e a tradição, ou Plotino e a posteridade. O quinto artigo, de autoria de Luciana Soares Santoprete, investiga o termo amphístomos (com dois rostos, com duas bocas), característico dos Oráculos Caldáicos. Este termo figura uma única vez em Plotino, especifi- camente em um tratado antignóstico. As análises escorreitas de Soares Santoprete buscam compre- ender o sentido do termo nos Oráculos Caldáicos e em Plotino, apontando para o uso metafórico deste termo pelo Licopolitano, que o faz em referência ao Intelecto. Com isso, ela também visa mostrar que um problema medioplatônico pode iluminar o debate entre Plotino e os Gnósticos. Gabriela Bal, autora do sexto estudo, relaciona Plotino e Jâmblico com a terceira hipótese do Parmênides de Platão. Precisamente, a autora mostra a exegese do conceito de exaiphnés (instante), central na terceira hipótese, por Plotino e Jâmblico. Para o primeiro, a terceira hipótese está associada à Alma, enquanto para Jâmblico, aos deuses e aos daímones. Através de detidas análises, Bal expõe os caminhos destas exegeses de Platão, e os sentidos que os termos vão adquirindo em textos e contextos precisos.

Finalmente, o sétimo artigo, de Edrisi Fernandes, põe Plotino em diálogo com Schelling, retomando aspectos da polêmica antignóstica, no tocante aos

temas da matéria sensível e do tempo-espaço. É um trabalho de fôlego que enfrenta um dos temas talvez mais complexos da filosofia plotiniana, a saber, a matéria, além de uma das mais cerradas polêmicas do universo das Enéadas, aquela com os Gnósticos, e o faz sob a égide de Schelling, leitor de Plotino.

Por fim, é mister mencionar que o Dossiê Plotino é parte das atividades do Grupo de Estudos sobre Neoplatonismo e Antiguidade Tardia (CNPq).

Os artigos de Luciana Soares Santoprete e Gabriela Bal foram apresentados no Colóquio Internacional sobre Plotino - Mística e Linguagem, na Universidade de Brasília, em dezembro de 2010. O artigo de Luc Brisson foi uma palestra, também nesta Universi- dade, em outubro de 2011. As demais contribuições reúnem, em sua maioria, pesquisadores do Grupo, apresentando partes de suas pesquisas.

A realização do Dossiê Plotino só foi possível graças à gentil acolhida de Gabriele Cornelli, editor da Revista Archai, e também incentivador dos estu- dos sobre Neoplatonismo no nosso meio acadêmico.

Agradeço a Flavio Fontenelle Loque, co-tradutor do artigo de Luc Brisson, e colaborador em outras ins- tâncias importantes para que o dossiê viesse a lume.

Também a João Paullo Uchôa Zica, que participou do processo de revisão. Não obstante, observo que se optou por manter as transliterações do grego se- gundo a escolha de cada autor, assim como pequenas diferenças no uso do sistema de citações indicado pela Revista, e nas citações das Enéadas.

Não posso deixar de mencionar os meus alu- nos de Graduação e de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade de Brasília. Pois são precisamente as ocasiões de ler e analisar os textos de Plotino com estes jovens que confirmam a necessidade de publicar estudos especializados como os deste dossiê. Leitores ciosos e curiosos há. A eles dedico o Dossiê Plotino.

Loraine Oliveira Editora do Dossiê Plotino

Referências

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