Processo
433/14.5JAAVR.P1.S1
Data do documento 4 de janeiro de 2017
Relator Raul Borges
SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA | PENAL
Acórdão
DESCRITORES
Recurso penal > Homicídio > Nulidade > Omissão de
pronúncia > Falta > Inquérito > Intérprete > Direito ao silêncio > Princípio da investigação > Livre apreciação da prova > In dubio pro reo > Atenuação especial da pena > Pena de prisão > Medida da pena > Prevenção geral > Prevenção
especial > Culpa > Ilicitude > Pedido de indemnização civil > Danos não patrimoniais
SUMÁRIO
I - Tendo o Tribunal da Relação analisado as provas na base das quais o tribunal de 1.ª instância proferiu a decisão e concluído no sentido de que a prova foi correctamente valorada, apreciada e interpretada, e que a recorrente nada concretiza para além de expressar a sua divergência relativamente à apreciação e valoração da prova feita na primeira instância, adoptando um texto lógico e congruente, consistente e suficiente, explicando as razões pelas quais se convenceu de que os factos haviam decorrido tal como foram dados por provados, forçoso é concluir que a Relação cumpriu o tema proposto nos quadros da fundamentação derivada como lhe competia, nos termos do art. 425.º, n.º 4, do CPP, não se verificando qualquer nulidade por violação do disposto no art. 374.º, n.º 2, ou por omissão de pronúncia.
II - Tendo a recorrente invocado como fundamento de recurso perante a Relação a existência de uma nulidade insanável por falta de promoção do processo pelo Ministério Público, com fundamento na falta de interrogatório da testemunha M como arguida no decurso do inquérito e resultando da leitura do acórdão recorrido que nada disse quanto à primeira questão, incorreu o aludido acórdão em omissão de pronúncia relativamente a este específico ponto, verificando a nulidade prevista na al. c) do n.º 1 do artigo 379,º do CPP, por não se ter pronunciado sobre questão que devia apreciar, incluída que estava no lote das questões integrativas do objecto do recurso, do quadro de vinculação temática trazida a reapreciação.
III - Suprimindo este STJ a nulidade verificada, nos termos do n.º 2 do art. 379.º, entende-se que não recaindo sobre a testemunha M, irmã da arguida, que acompanhava a tia, vítima de homicídio, qualquer suspeita da prática de um crime, carecia de qualquer fundamento proceder ao seu interrogatório arguida no decurso do inquérito, na medida em que ressalta do art. 58.º, n.º 1, al. a), do CPP que a qualidade de arguido resulta da “suspeita fundada da prática de crime” por pessoa determinada, improcedendo a
nulidade invocada pelo recorrente.
IV - Estando em causa a nomeação de intérprete idóneo de língua gestual a surdo e mudo, ao abrigo do disposto no art. 93.º do CPP, a falta de nomeação de intérprete, nos casos em que a lei a considerar obrigatória, constitui nulidade dependente de arguição, de acordo com o disposto no art. 120.º, n.º 1, al. c), do CPP, situação que não se verifica no caso concreto na medida em que consta dos autos que a recorrente foi acompanhada de intérprete.
V - A impossibilidade de utilização das provas obtidas, nos termos do n.º 5 do art. 92.º, aplicável ex vi do art. 93.º, n.º 4, só opera mediante violação do disposto nos n.ºs 3 e 4 do art. 92.º, ou seja, a preterição da possibilidade de escolha de intérprete diferente do previsto no n.º 2 para traduzir as conversações do arguido com o defensor e a violação do segredo de justiça por parte do intérprete, situações que não ocorrem no presente caso, havendo que ter em conta que as disposições do art. 92.º têm a ver com situações de desconhecimento ou não domínio da língua portuguesa.
VI - Improcede a arguida violação ao direito ao silêncio da recorrente se resulta claro que a invocada violação do direito ao silêncio teria tido lugar em 07-01-2016, fora do contexto temporal visado na apreciação da Relação, o que teria ocorrido incontornavelmente já após a assunção da posição da arguida de querer prestar declarações (em 01-12-2015), e mais do que isso, ter efectivamente prestado declarações (em 17-12-2015).
VII - Apesar de os inspectores que levaram a cabo a investigação não terem sido indicados pelo MP na acusação, a arguida podia ter indicado os inspectores na sua contestação, ou mesmo requerido a sua inquirição no decurso do julgamento ao abrigo do art. 340.º do CPP, se os considerava tão importantes para a descoberta da verdade, o que não fez, não se verificando assim qualquer nulidade do acórdão por alegada violação do princípio da investigação.
VIII - O vício de omissão de pronúncia, consubstancia nulidade da sentença, prevista no art. 379.º, n.º 1, al.
c), do CPP, e não do inquérito ou da investigação.
IX - Não foram violados os princípios da livre apreciação da prova, in dubio pro reo e da presunção da inocência se percorrendo o texto da fundamentação da decisão da matéria de facto é evidente que o tribunal colectivo não teve dúvidas em afirmar a autoria do homicídio e não houve dúvidas sobre a culpabilidade e contornos concretos da actuação da arguida.
X - Omitindo-se no acórdão do Tribunal da Relação por completo a referência à questão da atenuação especial, colocada na motivação e sintetizada pela recorrente nas conclusões de recurso, incorreu o aludido acórdão no vício de omissão de pronúncia, cominado com a nulidade prevista na al. c) do n.º 1 do art. 379.º do CPP.
XI - Considerando a conduta da arguida que, em decorrência de desavenças familiares e após discussão verbal havida com a ofendida, sua tia, munindo-se de um pau, desferiu na ofendida várias pauladas em várias partes do corpo, fazendo com que aquela caísse ao chão e depois agarrando-lhe a cabeça e bateu com a mesma contra o chão por quatro vezes e atingiu a vítima com um golpe de faca que determinou uma ferida incisa, atingindo o pulmão esquerdo, provocando um hemotórax e causando-lhe a morte, forçoso é considerar que o modo de execução do crime de homicídio e as razões ou ausência delas que levaram à sua prática, não demonstram que a arguida tenha interiorizado o mal do crime, nem abonam de
per si realidade que diminua a ilicitude e a culpa, bem como a necessidade da pena.
XII - A não interiorização pela arguida do desvalor da conduta e a ausência de qualquer arrependimento, aliada à tentativa de endosso pela mesma da responsabilidade para a irmã desta, afastam a possibilidade de atenuação especial da pena aplicada à recorrente pelo crime de homicídio praticado.
XIII - Ponderando o acentuado grau de culpa, com elevada intensidade do dolo, na modalidade de directo, o modo de execução dos fatos em há que destacar a persistência da actuação, bem como a ausência de antecedentes criminais da arguida que não tem nenhum valor atenuativo neste tipo de criminalidade, sendo intensas as necessidades de prevenção geral e de prevenção especial, avultando a personalidade da arguida no modo como agiu, de forma imperturbada, actuando com absoluta indiferença e insensibilidade pelo valor da vida e dignidade da pessoa humana, não mostrando qualquer arrependimento, não merece reparo a pena de 12 anos de prisão aplicada à arguida pela prática, como autora material de um crime de homicídio simples, na forma consumada, p. e p. pelo art. 131.º do CP.
XIV - Não merecem censura os valores de € 5.000,00 e de € 15.000,00, fixados a título de indemnização por danos não patrimoniais sofridos pelo filho e marido da vítima, respectivamente, decorrentes da morte da vítima.
TEXTO INTEGRAL
No âmbito do processo comum com intervenção do Tribunal Colectivo n.º 433/14.5JAAVR da Comarca de ...
- Instância Central - ....ª Secção Criminal - ..., foram submetidos a julgamento os arguidos:
AA, [...]; e,
BB, [...] (fls. 1022 verso).
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O Ministério Público deduziu acusação contra ambos, imputando-lhes a prática, ao arguido AA, de um crime de homicídio qualificado, na forma tentada, p. e p. pelos artigos 131.º, 132.º, n.ºs 1 e 2, alínea e), com remissão para os artigos 22.º e 23.º do Código Penal, e à arguida BB, em autoria material, e na forma consumada, de um crime de homicídio qualificado, p. e p. pelos artigos 131.º e 132.º, n.ºs 1 e 2, alínea e), do Código Penal.
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Foram deduzidos pedidos de indemnização civil contra os arguidos:
- Por CC, no montante de 5.000 €, por danos não patrimoniais sofridos pelo filho da vítima.
- Por DD, ofendido/lesado, que também se constituiu assistente, por danos patrimoniais no montante de 55.543,76 €, e danos não patrimoniais, no montante de 100.000,00 €, num total de 155.543,76 €;
- Pelo Centro Hospitalar ..., E.P., pela assistência prestada a DD, no montante de 28.255,00 €.
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Realizou-se a audiência de discussão e julgamento nas sessões de 27 de Outubro, de 3, 11 e 18 de Novembro, de 1 (com deslocação ao local) e 17 de Dezembro de 2015, de 7 e 8 de Janeiro de 2016, conforme actas de fls. 864/8, 888/9, 902/6, 925/9, 971/3 (aqui consignando-se a fls. 972 o resultado da deslocação ao local) e fls. 991/2, 1015/8 e 1019/1020.
Da acta de leitura de acórdão de 26-01-2016, a fls. 1066, consta ter sido comunicada ao arguido AA, nos termos do artigo 358.º, n.º 1 e 3, do CPP, uma alteração não substancial de factos e da qualificação jurídica, tendo o Mandatário do arguido dito nada ter a requerer.
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Por acórdão do Tribunal Colectivo da ....ª Secção Criminal da Instância Central da Comarca de ..., datado de 26 de Janeiro de 2016, constante de fls. 1023 a 1065, depositado na mesma data, conforme declaração de fls. 1068, foi deliberado:
Parte criminal
- Absolver o arguido AA da prática em autoria material de um crime de homicídio qualificado na forma tentada, p. e p. pelo artigo 131.º, n.º 1 e 132.º, n.º 2, alínea e), do Código Penal;
- Condenar o arguido AA, pela prática em autoria material, e na forma consumada, de um crime de ofensa à integridade física grave, p. e p. pelo artigo 144.º, alíneas c) e d), do Código Penal, na pena de 5 (cinco) anos e 6 (seis) meses de prisão;
- Absolver a arguida BB da prática de um crime de homicídio qualificado, p. e p. pelos artigos 131.º e 132.º, n.º 2, alínea e), do Código Penal.
- Condenar a arguida BB, como autora material de um crime de homicídio simples, na forma consumada, p. e p. pelo artigo 131.º do Código Penal, na pena de 12 (doze) anos de prisão.
Parte Cível
- Julgar procedente o pedido civil formulado pelo demandante CC contra a arguida/demandada BB e condenar esta a pagar-lhe a quantia de 5.000,00 €, acrescida de juros, contados à taxa legal, desde a notificação do pedido até efectivo e integral pagamento.
- Absolver o demandado AA do pedido contra si formulado, pelo demandante CC.
- Julgar procedente o pedido de indemnização civil formulado pelo Centro Hospitalar ..., EPE e condenar o demandado AA a pagar-lhe a quantia de 28.255,00 €, acrescida de juros, contados à taxa legal, desde a notificação do pedido até efectivo e integral pagamento.
- Julgar parcialmente procedente o pedido de indemnização civil formulado pelo demandante DD e condenar a demandada BB a pagar-lhe a quantia de 15.000,00 € e o demandado AA a pagar-lhe a quantia de 35.000,00 €.
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Inconformados, os arguidos interpuseram recursos autónomos para o Tribunal da Relação do ....
A arguida BB apresentou a motivação constante de fls. 1084 a 1133, de novo, de fls. 1187 a 1236, e, em original, de fls. 1238 a 1287.
O arguido AA apresentou a motivação de fls. 1135 a 1186.
Os recursos foram admitidos por despacho de fls. 1288, do 5.º volume.
A Exma. Procuradora da República na ....ª Secção Criminal da Instância Central de ... apresentou resposta à motivação do recorrente AA, de fls. 1295 a 1311, e à motivação da arguida BB, de fls. 1312 a 1321.
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Por acórdão do Tribunal da Relação do ..., de 7 de Julho de 2016, constante de fls. 1353 a 1373, foram julgados improcedentes os dois recursos, mantendo-se a decisão recorrida.
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O arguido AA recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça apresentando a motivação de fls. 1382 a 1402.
A arguida BB interpôs recurso para o Supremo Tribunal de Justiça, apresentando a motivação de fls. 1403 a 1419, de novo, de fls. 1421 a 1437, e, em original, de fls. 1439 a 1470, que remata as seguintes 44 conclusões (transcrição na íntegra):
1. O presente recurso versa sobre matéria de direito e sobre matéria de facto, mas, neste último caso, apenas na medida em que os vícios a apontar resultam do próprio texto da decisão recorrida, por si ou conjugada com as regras da experiência comum (vide artigo 410º, nºs, 2 e 3 do C.P.Penal), e vai interposto de toda a decisão proferida pelo Colectivo de Juízes.
2. Atenta a matéria de facto dada como provada pelo Tribunal de 1ª Instância, e cristalizada pelo Tribunal
“a quo”, acreditamos que a arguida deveria ter sido absolvida, disso mesmo fazendo eco nas Conclusões do Recurso para o Tribunal da Relação do ....
3. O douto Acórdão proferido pelo Tribunal Judicial da Comarca de ..., assim como o douto Acórdão de que se recorre, são Nulos - ex vi art 379º, nº 1, al. a) e c) por violação do nº 2 do art. 374º, ambos do CPP, pelo que se impõe a revogação da decisão condenatória, com as legais consequências.
4. A decisão sobre a matéria de facto deve ser motivada com a indicação das provas que serviram para formar a convicção do Tribunal, conforme dispõe o artº 374, nº 2 do CPP. Contudo, e do Acórdão proferido pelo Tribunal de 1ª Instância não se vislumbra qualquer fundamentação sobre as razões, regras de experiência e/ou critérios lógicos que levaram o colendo Colectivo a considerar provados os pontos 7., 8., 13., 14., 15..
5. O Tribunal de 1ª Instância limitou-se a elencar os elementos probatórios que estiveram na base da formação da sua convicção, mas não o fez de molde a permitir, com segurança, acompanhar o raciocínio que lhe subjaz. Nomeadamente não aceitou a defesa - nem poderá aceitar - que a condenação da arguida BB seja feita com fundamento no depoimento de uma testemunha como a EE, que se “defende” e
“esconde” na sua incapacidade - a testemunha é surda-muda.
6. E falamos do Tribunal de 1ª instância, pois que o Tribunal a quo no acórdão de que ora se recorre, nada mais faz do que “defender” ou “justificar”, encaminhando no sentido da condenação da arguida, aquilo que
no acórdão de 1ª Instância havia sido apontado pela arguida, como nulidades. Assim, não se pronunciando de forma concreta e rigorosa quanto a estas questões, sempre se dirá que também o Tribunal o quo violou o art.º 379º nº 1, al. c) do CPP.
7. Por outro lado, no Acórdão proferido em 1ª Instância um verdadeiro, concreto e incisivo exame crítico das provas. Tal implica verdadeira nulidade de tal aresto, a qual não pode ser suprida pelo Tribunal de recurso, nem sequer com a renovação da prova. No entanto, o artigo 374º, nº 2, do Código de Processo Penal impõe a fundamentação da decisão de facto, impondo concomitantemente um exame crítico das provas. A razão de ser de tal exigência visa permitir ao Tribunal de recurso o exame do processo lógico ou racional que subjaz à formação da convicção do julgador, visando ainda assegurar a inexistência de violação do princípio da inadmissibilidade das proibições de prova. Por este motivo, a falta de tal exame crítico das provas é um vício do Acórdão proferido em 1ª Instância, o qual vem cominando com nulidade, nos termos do artigo 379º, nº 1, alínea a), do Código de Processo Penal.
8. Pelo que deve ser decretada a nulidade do Acórdão proferido em 1ª Instância, por falta de um verdadeiro exame crítico das provas, tal como exige o artigo 374º, nº2, do Código de Processo Penal, nulidade essa cominada no artigo 379º, nº l, alínea a), do mesmo Código, alterando-se a decisão proferida pelo Tribunal a quo em conformidade, com todas as devidas e legais consequências.
9. A ora Recorrente defende ainda que para além da nulidade referida, padece o acórdão de outras nulidades: desde logo a nulidade insanável por falta de promoção do processo por parte do Ministério Público, com fundamento - e atentas as “circunstâncias” que a envolvem - na falta de interrogatório de ...
como arguida no decurso do inquérito, o que origina nulidade por insuficiência de inquérito.
10. O acórdão proferido pelo Tribunal de 1ª instância padece ainda de uma outra nulidade: a qual diz respeito à Reconstituição dos factos (efetuada pela Policia Judiciaria na fase de inquérito). Sucede que, e de acordo com o disposto no artigo 93º do CPP, no momento da Reconstituição (e à semelhança do que sucedeu nas declarações prestadas na Polícia Judiciária, assim como em Audiência de Julgamento) devia a testemunha EE ter sido acompanhada por um intérprete e não pelo seu próprio marido!
11. Contudo, tal não sucedeu! Pelo que estamos perante uma nulidade e porquanto tais provas não podem ser utilizadas, nos termos do artigo 93º e nº 5 do artigo 92º do CPP.
12. Ainda relativamente à diligência de Reconstituição dos factos efetuada pelos arguidos, questiona a defesa sobre a legalidade de prova ali obtida e uma vez que a Recorrente exerceu desde o momento da sua detenção até à última sessão de audiência de discussão e julgamento (na qual optou por prestar declarações), o um direito consagrado no artigo 61º, nº l, alínea d) do C.P.P., sendo que o direito ao silêncio é uma das mais importantes manifestações do direito de defesa no direito processual moderno,
13. Assim, e não obstante os arguidos terem colaborado na diligência de Reconstituição do crime, a verdade é que em momento algum a arguida quis e/ou pretendeu prestar declarações aquando da realização da reconstituição. Pelo que, tudo o que ali é dito pelos arguidos - salvo o devido respeito - não pode ser valorado como prova!
14. Ao abrigo do princípio da investigação, cabe ao Tribunal o ónus carrear para a audiência de Julgamento todas as provas necessárias à boa decisão da causa e à descoberta da verdade material, pelo que entende a recorrente que esteve mal o MP e o colendo Colectivo de Juízes quando não indicou como testemunha
nenhum dos Inspetores responsáveis pela investigação, nem nenhum perito.
15. Devia ter existido o esclarecimento sobre a própria investigação, sobre a condução da mesma, sobre o motivo pelo qual não foi efetuada qualquer comparação entre os ferimentos da ofendida e os do ofendido, de forma a apurar e comprovar que a arma do crime utilizada foi a mesma que foi utilizada pelo arguido AA.
16. Por outro lado, e sabendo-se que a testemunha EE se encontrava no local dos factos quando estes ocorreram, devia o MP ter promovido a sua audição aquando das declarações prestadas pelas demais testemunhas e não três meses depois, sendo que a Reconstituição dos factos, a qual devia ter sido efetuada logo após a data dos acontecimentos e não cinco meses depois!
17. Aliás, de acordo com o artigo 150º do CPP era obrigação do órgão de investigação policial efetuar a reconstituição "tão fiel quanto possível das condições em que se afirma ou se supõe ter ocorrido o facto e na repetição do modo de realização do mesmo". Contudo, tal não sucedeu! Pelo que, andou mal a Policia Judiciária - e o próprio MP - ao não reproduzir de modo fiel as condições do local, ao não colocar nomeadamente a roupa no local onde se encontrava. Circunstância esta que teria uma enorme influência na suposta visibilidade da testemunha EE.
18. Por outro lado, cabendo ao Tribunal o ónus de carrear para a audiência de Julgamento todas as provas necessárias à boa decisão da causa e à descoberta da verdade material, sempre se dirá, que mais uma vez esteve mal o Tribunal Colectivo, ao omitir do texto do seu acórdão, ou até mesmo da sua fundamentação, a existência da roupa pendurada ao longo de todo o pátio (e visível nos registos fotográficos) a qual alterava todo o campo visual das pessoas ali presentes.
19. Tal omissão consubstancia igualmente Nulidade do acórdão por violação do estatuído no artº 379º nº 1 al. c) do CPP, o que expressamente se invoca para todos os efeitos legais.
20. A Recorrente realça ainda a importância do 127º do Código de Processo Penal, o qual consagra o princípio da livre apreciação da prova. Contudo este não liberta o julgador das provas que se produziram (ou não) nos autos nomeadamente em Audiência de Discussão e Julgamento), sendo com base nelas que terá de decidir, circunscrevendo-se a sua liberdade à livre apreciação dessas mesmas provas dentro dos parâmetros legais, não podendo estender essa liberdade até ao ponto de cair no puro arbítrio.
21. O Acórdão emanado pelo Tribunal de 1ª Instância não fez uma análise crítica de toda a prova, com referência às regras da experiência comum, fê-lo de forma arbitrária. Valorou na sua plenitude os depoimentos das testemunhas de acusação, socorrendo-se para tal do princípio vertido no art. 127º, do CPP, subvertendo-o.
22. Sucede que, em julgamento não houve uma única testemunha que tivesse presenciado o que quer que fosse que ligasse a arguida ao crime perpetrado (tendo em consideração que o depoimento da testemunha EE não deverá - nem poderá - ser valorado). E, muito do que resultou dos depoimentos prestados em audiência de julgamento resultou tão só de conclusões, juízos de valor, considerações das próprias testemunhas, que nada de concreto carrearam para os autos que permitisse, com a segurança exigida, relacionar a arguida com o crime. Aliás, e no caso em apreço, os depoimentos de algumas testemunhas de acusação, foram depoimentos vagos, discricionários, fruto de convicções pessoais das próprias testemunhas.
23. E condenar a arguida com base em depoimentos subjectivamente construídos pelas testemunhas é condenar arbitrariamente. Ao valorar tais depoimentos como verdadeiros e geradores da convicção do próprio Tribunal no sentido de condenar a arguida, diremos que violou o art. 127º do C.P.P., quer o Tribunal de lª Instância, quer o tribunal a quo.
24. Ao proceder da forma acima explanada, o Ilustre Colectivo que julgou em 1ª Instância, assim como o douto Acórdão de que ora se recorre, fez tábua rasa (sempre com o devido e merecido respeito) de alguns princípios basilares do nosso sistema jurídico-penal, como seja o princípio "in dubio pro reo".
25. Na verdade, o que a arguida ao longo de toda a audiência de discussão e julgamento tentou demonstrar foi a sua inocência e ainda o facto de que naquele local e hora estavam presentes mais pessoas para além dela própria. A arguida não se encontrava sozinha com a ofendida! Aliás, acredita a recorrente que efectivamente o Tribunal de 1ª instância ficou com sérias dúvidas sobre a autoria do crime, motivo que levou o Colendo Colectivo a fazer a última questão feita à arguida sobre a autoria do crime e se fora a arguida ou o arguido (que, tal como a testemunha EE, também ali se encontrava!).
26. A dúvida sobre a forma como os factos poderão ter ocorrido se instala na cabeça de quem lê e ouve os depoimentos, conjugados com todos os outros meios de prova recolhidos ou a ausência deles.
27. Do Acórdão proferido pelo Tribunal de 1ª instância, resulta mais do que uma dúvida, sobre a forma como os factos efectivamente ocorreram e bem assim, sobre a sua autoria, pelo que em respeito ao princípio In dubio pro reu deveriam ter os Meritíssimos Juízes absolvido a arguida do crime de que vinha acusada.
28. O acórdão em crise violou este princípio elementar do nosso sistema penal e processual penal, consagrado no artigo 32º nº 2 da Constituição da República Portuguesa (princípio da presunção de inocência) e no artigo 11º nº 1 da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
29. E, ao Tribunal a quo não era exigível que renovasse a prova ou que se deslocasse ao local para esclarecer aquelas que são as dúvidas suscitadas pela arguida. Mas era exigível a este Tribunal que reenviasse o processo para o tribunal de 1ª instância para que se procedesse às demais diligências probatórias necessárias à descoberta da verdade material.
30. Ao não o fazer, violou o Tribunal a quo o artº 379º nº 1, al. c) do C.P.P.
31. Foi ainda violado o princípio da presunção da inocência (artº 32/2 da CRP), o qual postula que o arguido deve ser tratado como inocente até ao trânsito em julgado da decisão condenatória e que esta condenação há-de assentar em provas que não tenham deixado dúvidas sobre os factos e a culpa do agente.
32. A recorrente foi sempre julgada com base no “princípio da culpa” e não com base no princípio da presunção de inocência, como se impõe. Foi detida sem que houvesse prova (testemunhal, pericial, etc..);
no momento da sua detenção aquela foi constituída arguida e considerada a única suspeita, quando na verdade o/a autor(a) do crime podia ter sido qualquer pessoa presente naquele pátio!
33. Por fim, refira-se ainda que dispõe expressamente o artigo 40º, nº l, do Código Penal vigente que a aplicação de penas visa a protecção de bens jurídicos, entendida como tutela da crença e confiança da comunidade na ordem jurídica - penal (prevenção geral positiva) e a reintegração do agente na sociedade (prevenção especial positiva). A referência legal aos bens jurídicos conforma uma exigência de proporcionalidade entre a gravidade da pena e a gravidade do facto praticado, a qual, desta forma, integra
o conteúdo e o limite da prevenção. Mas, em caso algum a pena pode ultrapassar a medida da culpa (nº 2, do artigo 71º, do Código Penal).
34. Devendo ter um sentido eminentemente ressocializador, as penas são aplicadas com a finalidade primeira de restabelecer a confiança colectiva na validade da norma violada (prevenção geral positiva ou de integração) e, em ultima análise, na eficácia do próprio sistema jurídico-penal. Por sua vez, a função da culpa é, designadamente, a de estabelecer o máximo da pena concretamente aplicável (toda a culpa tem como suporte axiológico - normativo a culpa concreta).
35. Assim, e mesmo que a arguida tivesse sido - e não foi - a autora do crime de Homicídio pelo qual vinha acusada, sempre a pena que lhe foi imposta - face aos factos provados e às circunstâncias em que os factos se desenrolaram - deveria ter levado o douto Tribunal de lª Instância e posteriormente o Tribunal a quo a graduá-la, em concreto em medida substancialmente inferior à constante do douto acórdão recorrido.
36. Na fixação do quantum daquela pena, o Tribunal a quo deveria ter ponderado, entre outros, o grau de perigo criado, a espécie e o modo de execução, o grau de conhecimento e a medida de violação do dever de cuidado na negligência, conforme ensina o Professor Figueiredo Dias, in Direito Penal Português, As consequências Jurídicas do Crime.
37. Tendo o Tribunal de 1ª Instância subsumido os factos que culminaram na morte da falecida FF, no Tipo de crime, na sua forma simples, prevista e punida no artº 131 do CP, tendo em conta a moldura penal que a este tipo de crime cabe, 8 a 16 anos, tomando em consideração, e tendo em conta todos os elementos carreados para os autos, deveria ainda ser valorada, como circunstância atenuante, a conduta da Recorrente anterior e posterior aos factos.
38. Na determinação da medida da pena – artº 71 do CP - ela deverá ser efectuada “em função da culpa do agente e das exigências de prevenção”, elencando o nº 2 daquele dispositivo, de forma não taxativa, algumas das circunstâncias a que se deve atender. Dispondo o nº 2 do artº 40 do CP, que em caso algum, a pena pode ultrapassar a medida da culpa a qual constitui um reflexo e um limite à medida da pena.
39. É assim convicção da recorrente que a pena que lhe foi imposta pelo douto acórdão recorrido encontra- se claramente desajustada, por excesso, aos próprios factos dados como provados pelo mesmo Acórdão, pelo que sempre se impunha a aplicação do artº 72º nº 2 do CP., fixando a pena a aplicar à arguida, mediante o mecanismo da sua atenuação especial, no mínimo da moldura penal estabelecida para o tipo simples, p.p. pelo artº 131 do CP.
40. Relativamente ao pedido de indemnização civil, e não tendo a Recorrente praticado o crime em que foi condenada, deve a mesma ser igualmente absolvida dos pedidos de indemnização civil.
41. No entanto, e mesmo que a arguida tivesse sido - e não foi - a autora do crime de Homicídio pelo qual vinha acusada, sempre o valor a que foi condenada a título de pedidos de indemnização civil se demonstra excessivo. Porquanto e conforme consta dos próprios factos provados no douto acórdão, a arguida à data dos factos vivia maritalmente com o arguido AA e recebia RSI.
42. Assim, deve a decisão em crise ser substituída por uma outra que determine a Absolvição da arguida do crime de Homicídio.
43. Nos termos do supra alegado e não tendo a Recorrente praticado o crime em que foi condenada, deve
a mesma ser absolvida dos pedidos de indemnização civil.
44. Conclui-se assim que a pena aplicada à arguida é claramente excessiva, na medida em que, da forma como decorreu a audiência de discussão e julgamento, de toda a matéria factual dada como provada, seria de esperar a ABSOLVIÇÃO da arguida, ou e caso assim não se entendesse sempre seria de esperar aplicação de uma pena mais reduzida.
Termina pedindo que seja concedido provimento ao recurso nos termos enunciados nas conclusões.
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Por despacho de fls. 1471 não foi admitido o recurso interposto pelo arguido AA e foi admitido o recurso interposto pela arguida.
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A Exma. Procuradora-Geral Adjunta no Tribunal da Relação do ... apresentou a resposta à motivação da arguida, conforme fls. 1478 a 1483, pronunciando-se no sentido de dever ser julgado improcedente o recurso e confirmada a decisão recorrida.
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Tendo esta resposta do Ministério Público junto da Relação do ... dado entrada e sendo junta em 23 de Agosto de 2016, como consta de fls. 1478, o processo, com arguidos presos, só foi movimentado em 6 de Outubro de 2016, conforme fls. 1484, ou seja, 44 dias depois.
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O Exmo. Procurador-Geral Adjunto neste Supremo Tribunal emitiu douto parecer, constante de fls. 1495 a 1498, onde conclui no sentido de o recurso ser julgado improcedente, nos termos que seguem:
«Parecer:
I - Como decorre das respectivas conclusões, são as seguintes as questões submetidas a reexame:
- Nulidade do acórdão por ter acompanhado o acórdão da 1.ª instância na «fundamentação sobre as razões, regras de experiência e/ou critérios lógicos que levaram o Colectivo a considerar provados os pontos 7., 8., 13., 14., 15. (conclusões 3 a 8);
- Nulidade por insuficiência de inquérito, por falta de interrogatório de EE como arguida. (conclusão 9);
- Nulidade da reconstituição dos factos, por omissão de acompanhamento da EE por intérprete (conclusões 10 e 11);
- Errada valoração das declarações da mesma EE aquando da reconstituição, porquanto optou pelo direito ao silêncio (conclusões 12 e 13);
- Nulidade por omissão de diligências de investigação e oportunidade destas no decurso do inquérito, bem como, por parte da 1.ª instância «ao omitir do texto do seu acórdão, ou até mesmo da sua fundamentação,
a existência de roupa pendurada…» (conclusões 14 a 19);
- Violação dos princípios da livre apreciação da prova, de in dubio pro reo e da presunção da inocência (conclusões 20 a 32);
- Medida da pena (conclusões 33 a 39);
- Indemnização civil (conclusões 40, 41 e 43).
II - Respondeu o Ministério Público (1478-1483) defendendo a improcedência do recurso.
III - Nossa perspectiva
Acompanhamos integralmente a resposta da Ex. ma Procuradora-Geral Adjunta junto da Relação do ..., limitando-nos a acrescentar, em síntese, o seguinte:
1. Em primeiro lugar, e apesar de uma aparente desnecessidade, deve-se salientar que o acórdão recorrido é o da Relação e não o da 1.ª instância.
Daí que as nulidades por omissão de pronúncia terão que dizer respeito ao acórdão recorrido e não aquele que foi objecto de exame pela Relação.
Assim, se o acórdão recorrido apreciou o tema que lhe foi submetido, ainda que erradamente (e não foi o caso), não ocorre qualquer omissão de pronúncia.
Ora, a recorrente, divergindo da apreciação que foi feita pela Relação no que respeita `a fundamentação e exame crítico da prova, confunde tal divergência com omissão, sem que aponte ao acórdão recorrido qualquer falha, a não ser a consideração de que acompanhou a 1.ª instância ao decidir que cumprira aquela exigência legal…
2. Com toda a consideração e salvo melhor opinião, é de todo despropositada nesta fase a invocação de nulidade do inquérito por insuficiência do mesmo. Para além do que consta da resposta da Ex. ma Procuradora-Geral Adjunta, ainda que por hipótese se pudesse configurar a sua existência, deveria ser arguida no tempo previsto no artigo 120.º, n.º 3, al. c) do CPP, ou seja, há muito que se encontraria sanada.
3. Não se vislumbra, por outro lado que, não sendo a reconstituição do facto efectuada prova proibida, e tendo a arguida manifestado o propósito de prestar declarações e advertida de que as suas declarações não estavam a ser gravadas, possa agora insurgir-se contra o que consta do vídeo realizado durante a mesma reconstituição (como aliás consta da acta).
4. Diga-se, igualmente, que o STJ, em sede de revista, não conhece de matéria de facto. Como é pacífico e tem vindo a ser sucessivamente afirmado na jurisprudência do Supremo Tribunal, o recurso do acórdão proferido (em recurso) pela Relação, [1]agora puramente de revista – terá que visar exclusivamente o reexame da decisão recorrida (a da Relação) em matéria de direito (com exclusão, por isso, dos eventuais
«erro(s)» - das instâncias «na apreciação das provas e na fixação dos factos materiais da causa)
O (objecto do) recurso de revista terá assim que circunscrever-se a questões «exclusivamente» de direito.
Pois que ... as questões «de facto» (ou delas instrumentais) deverão considerar-se definitivamente decididas pela Relação.
E assim, nesta sede, escapa aos poderes de cognição do STJ o pretendido reexame da matéria de facto, por alegada violação do princípio da livre apreciação da prova ou do in dubio pro reo, sendo que, quanto a este último, e na dimensão de direito susceptível de reexame, não resulta do acórdão qualquer dúvida que se tenha suscitado aos julgadores e que estes tenham resolvido contra reo.
5. Finalmente, a medida da pena de 12 anos fixada pela prática do homicídio p. e p. pelo artigo 131.º do Código Penal.
Esta pena situa-se na metade da moldura, mostrando-se adequada à culpa da arguida e exigências de prevenção geral.
Para além do que é referido na fundamentação do acórdão recorrido (1369-1369v.), destacando que a actuação provada é evidenciadora de um dolo directo intenso, e uma culpa de nível maior a justificar uma agravação correspondente da pena, dentro da respectiva moldura, não se mostram provadas atenuantes de relevo a justificar menor graduação da pena.
A ausência de antecedentes criminais ainda deve ser considerada como a situação normal do cidadão, verificando-se, por outro lado e em sentido inverso, que a arguida não confessou os factos nem evidenciou arrependimento.
Cremos, em suma, que na ponderação global de todas as circunstâncias, a pena fixada acata os critérios fixados no art. 71.º do Cód. Penal, sendo adequada à culpa do agente, acautelando as exigências de prevenção geral, muito elevadas, e especial de socialização, de menor grau, nada existindo que justifique maior redução desta.
IV- Em conclusão, deverá o recurso ser julgado improcedente».
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Cumprido o disposto no artigo 417.º, n.º 2, do Código de Processo Penal, a recorrente silenciou.
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Não tendo sido requerida audiência de julgamento, o processo prossegue com o julgamento em conferência, nos termos dos artigos 411.º, n.º 5 e 419.º, n.º 3, alínea c), do Código de Processo Penal.
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Colhidos os vistos, realizou-se a conferência, cumprindo apreciar e decidir.
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Como é jurisprudência assente e pacífica, sem prejuízo das questões de conhecimento oficioso – detecção de vícios decisórios ao nível da matéria de facto emergentes da simples leitura do texto da decisão recorrida, por si só ou conjugada com as regras da experiência comum, previstos no artigo 410.º, n.º 2, do Código de Processo Penal (neste sentido, o acórdão do Plenário da Secção Criminal, de 19 de Outubro de 1995, proferido no processo n.º 46580, Acórdão n.º 7/95, publicado no Diário da República, I Série - A, n.º 298, de 28 de Dezembro de 1995, e BMJ n.º 450, pág. 72, que fixou jurisprudência, então obrigatória, no sentido de que “É oficioso, pelo tribunal de recurso, o conhecimento dos vícios indicados no artigo 410º, nº 2, do Código de Processo Penal, mesmo que o recurso se encontre limitado à matéria de direito”) e verificação de nulidades, que não devam considerar-se sanadas, nos termos dos artigos 379.º, n.º 2 e 410.º, n.º 3, do CPP – é pelo teor das conclusões que o recorrente extrai da motivação, onde sintetiza as razões de discordância com o decidido e resume o pedido (artigo 412.º, n.º 1, do Código de Processo Penal), que se delimita o objecto do recurso e se fixam os limites do horizonte cognitivo do Tribunal Superior.
As conclusões deverão conter apenas a enunciação concisa e clara dos fundamentos de facto e de direito das teses perfilhadas na motivação (assim, acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 25 de Março de 1998, proferido no processo n.º 53/98-3.ª Secção, in BMJ n.º 475, pág. 502).
E como referia o acórdão do STJ de 11 de Março de 1998, in BMJ n.º 475, pág. 488, as conclusões servem para resumir a matéria tratada no texto da motivação.
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Questões propostas a reapreciação e decisão
O âmbito do recurso é delimitado pelas conclusões, onde a recorrente resume as razões de divergência com o deliberado no acórdão recorrido.
As questões suscitadas pela recorrente são, pela ordem exposta nas conclusões, que, de todo, não obedecem a um critério lógico, pois primeiro reportam alegada nulidade do acórdão recorrido e a seguir convocam insuficiência do inquérito:
Questão I – Nulidade do acórdão recorrido por violação do disposto no artigo 374.º, n.º 2, do CPP e por omissão de pronúncia – Artigo 379.º, n.º 1, alíneas a) e c) e n.º 2, do CPP – Conclusões 3.ª, 4.ª, 5.ª, 6.ª, 7.ª e 8.ª;
Questão II – Nulidade por insuficiência de inquérito – Nulidade insanável da falta de promoção do processo pelo Ministério Público, com fundamento na falta de interrogatório da testemunha ... como arguida no decurso do inquérito – Conclusão 9.ª;
Questão III – Nulidade por falta de intérprete à testemunha ... (surda muda) – Impossibilidade de utilização da prova – Conclusões 10.ª e 11.ª;
Questão IV – Violação do direito ao silêncio – Conclusões 12.ª e 13.ª;
Questão V – Nulidade do acórdão por violação do princípio da investigação – Conclusões 14.ª a 19.ª;
Questão VI – Violação dos princípios da livre apreciação da prova, in dubio pro reo e da presunção da inocência – Conclusões 20.ª a 32.ª;
Questão VII – Atenuação especial da pena – Conclusão 39.ª;
Questão VIII – Medida da pena – Conclusões 33.ª a 38.ª e 44.ª;
Questão IX – Indemnização cível – Conclusões 40.ª a 43.ª.
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Apreciando. Fundamentação de facto.
Foi dada como provada a seguinte matéria de facto, a qual foi certificada pelo acórdão da Relação em termos que vêm questionados.
No caso presente expõe-se o elenco dos factos não provados e ainda a fundamentação da decisão sobre a matéria de facto, atendendo à forma de impugnação da recorrente, na medida em que invoca a existência de errada valoração de provas e a violação do princípio in dubio pro reo.
FACTOS PROVADOS:
1. GG é proprietária das casas nºs ... e ..., sitas na Rua ..., nesta cidade e comarca de ..., as quais são contíguas entre si, separadas apenas por um logradouro interior que é comum a ambas as casas.
2. Na casa com o n.º ..., viveram, por arrendamento e durante cerca de dez anos, a mãe da arguida, HH e o companheiro II arrendamento esse que, por iniciativa destes, cessaria em dezembro de 2014, sendo as vítimas FF e FF, visita da casa.
3. Por sua vez, na casa com o n.º 67, viveram, desde data não concretamente apurada, mas pelo menos desde 2013 e também por arrendamento, em condições análogas às de marido e mulher, os arguidos AA e BB, sobrinha da vítima FF.
4. Além da existência de um pátio comum às duas casas, o prédio referido no ponto 1 é composto ainda por uma pequena parcela de terreno adjacente, a qual era cultivada pelos arguidos.
5. Por motivos não totalmente apurados, mas designadamente por desavenças familiares decorrentes da destruição e colheita de produtos cultivados pelos arguidos na parcela de terreno referida no ponto 4, em data não determinada, mas situada cerca de dois meses antes de 21.12.2014, as vítimas e os arguidos cortaram relações entre si, passando a ser frequentes entre todos conflitos traduzidos em discussões verbais, destruição de culturas, quebra de vasos e de plantas dos arguidos.
6. No dia 21 de dezembro de 2014, por volta das 14h00, em face da cessação do contrato de arrendamento da HH e do II no final desse mês, FF e o marido, DD, acompanhando a irmã e sobrinha daquela, respetivamente, HH e EE, dirigiram-se à casa n.° ..., por forma a concluir a mudança de residência.
7. Devido à conflitualidade existente, cerca das 15h30m, no pátio interior comum às duas casas, junto à porta que dá acesso à cozinha da casa n.° ..., a arguida BB e a tia FF, em voz alta e com os ânimos inflamados, começaram a trocar palavras acesas uma com a outra, cujo teor em concreto não foi possível apurar.
8. Face a tal situação, o arguido AA e o assistente DD dirigiram-se para o mesmo pátio onde estavam as
respetivas mulheres envolvendo-se, também eles, numa discussão verbal, tendo havido também, pelo menos, arremesso de vasos para dentro da casa dos arguidos.
9. A dada altura o arguido AA munido de uma faca de um gume com comprimento e largura não apurados, direcionou-a a DD, o qual, recuando, veio a tropeçar, acabando por cair no chão junto da porta que dá acesso à casa com o n.º ....
10. Estando DD prostrado no chão, movimentando as pernas para se defender, o arguido AA, desferiu-lhe três golpes na perna esquerda.
11. Situação que só veio a terminar porque, entretanto, DD conseguiu fugir, arrastando o seu corpo para o interior da sua residência.
12. Perante tal situação, o arguido AA largou a faca que tinha na mão, deixando-a no chão próximo à porta que dá acesso à casa n.º 65.
13. Por sua vez, e em ato simultâneo ao descrito nos pontos 9 e 10, a arguida BB dirigiu-se à tia FF e, munindo-se de um pau, desferiu-lhe várias pauladas em várias partes do corpo, fazendo com que aquela caísse ao chão, junto à zona da janela existente ao lado da porta que dá acesso à casa n.º 65.
14. Uma vez prostrada no chão, a arguida BB agarrou a cabeça da ofendida FF e, usando de força e fazendo balanço, bateu com a mesma contra o chão por quatro vezes.
15. Em ato seguido, apercebendo-se da faca deixada no chão pelo arguido AA, muniu-se da mesma, direcionou-a à tia FF e atingiu-a com um golpe na zona da mama esquerda, junto à axila.
16. Em resultado da ação do arguido AA descrita o assistente DD sofreu vários ferimentos na perna esquerda, ao nível da face externa da coxa esquerda e região infra-rotuliana esquerda, que lhe determinaram a entrada em choque hipovolémico por hemorragia ativa do ferimento ao nível da face externa da coxa esquerda e região infra-rotuliana esquerda, com secção da veia poplítea, apresentando duas feridas inciso-contusas da face interna da coxa e perna com hemorragia, ferimentos esses que exigiram a sutura das feridas seguida de entubação e ventilação com necessidade de suporte vasopressor em altas doses, a submissão a laparotomia exploradora, a realização de uma operação - operação de Hartmann -, e o seu internamento hospitalar pelo período de 48 dias e acompanhamento contínuo em reabilitação motora, intervenções estas originadoras das seguintes lesões:
- no tórax: vestígio cicatricial nacarado na região clavicular esquerda, com um centímetro;
- no abdómen: colostomia funcionante na metade esquerda da região umbilical; cicatriz de características cirúrgicas ligeiramente rosada estendendo-se desde a região epigástrica à região supra-púbica medindo vinte e três centímetros de comprimento e cicatriz ligeiramente rosada na fossa ilíaca direita, oblíqua infero-medialmente, medindo dois centímetros de comprimento;
- no membro inferior esquerdo: cicatriz nacarada com zonas violáceas, com vestígios de pontos, ligeiramente curvilínea de concavidade lateral, situada no terço distal da região postero-lateral da coxa e terço proximal da região lateral da perna, medindo 15,5cmxlcm; cicatriz linear rosada, oblíqua de cima para baixo e de dentro para fora, com aspeto poplítea, medindo 4cmxlcm; cicatriz rosada, ligeiramente queloide, curvilínea de concavidade superior, medindo, depois de retificada, 9cmxlcm; hipostesia ao nível da planta do pé; e impossibilidade de marcha em bicos dos pés.
17. O arguido AA, agiu de forma livre e com o propósito de ferir grave e dolorosamente o assistente DD,
sabendo que poderia provocar-lhe grande perda de sangue, e, com isso, perigo para a vida, resultado este com que se conformou.
18. Em consequência da ação da arguida BB, a tia FF sofreu um golpe na região supra mamária esquerda ao nível da região infraclavicular e próxima da axila, que lhe determinou uma ferida incisa com cerca de catorze/quinze centímetros de profundidade, atingindo o pulmão esquerdo, provocando um hemotórax e causando-lhe, em consequência, a sua morte.
19. A arguida BB agiu com o propósito, concretizado, de matar a sua tia FF, utilizando para o efeito uma faca que apontou e direcionou, a curta distância, em direção ao peito da mesma.
20. Os arguidos agiram de forma livre, deliberada e consciente, bem sabendo que as suas condutas eram previstas e punidas por lei penal.
21. O demandante CC é filho de FF e DD.
22. Depois dos factos viu-se forçado a lidar com o trágico falecimento de sua mãe e com o estado de saúde crítico do pai, visitando-o no hospital, acompanhando o seu estado clínico e requerendo informações médicas sobre o seu estado de saúde, o que dificultou a vivência de perda da mãe e a necessidade de
“fazer o luto” já que teve de mostrar-se a atento e afetuoso para com o pai, que se encontrava em estado crítico e instável.
23. Foi o demandante CC quem sempre acompanhou o pai e o recebeu em casa, quando ele teve alta médica, e até ir para um centro de recuperação.
24. O demandante vive do seu vencimento de cerca de 600€/mensais.
25. Tem uma companheira e um filho nascido já depois de iniciado o julgamento.
26. Vivem por favor em casa propriedade da avó da companheira do demandante.
27. À data da dedução do pedido civil, o pai do demandante não recebia ainda pensão de invalidez.
28. Era o demandante quem arcava com despesas de alimentação, vestuário e deslocação a serviços clínicos do seu pai.
29. O demandante viveu com angústia, desespero e preocupação o estado de saúde do pai, o qual foi instável durante algum tempo, tendo sido sujeito a nova cirurgia já depois de iniciada a fase de julgamento.
30. O demandante ficou debilitado emocionalmente.
31. Perdeu ânimo e força de viver, sentiu-se deprimido, entristecido.
32. Chegou a ter acompanhamento médico.
33. Considerava a mãe a melhor amiga.
34. Lamenta não ter a mãe conhecido a filha que teve recentemente.
35. Lamenta o pai ter deixado de ser alegre, presente, companheiro.
36. Chora com facilidade e tem dificuldade em falar do sucedido e em aceitar e compreender os factos ocorridos.
37. A conduta do arguido AA causou no demandante DD sequelas físicas e psicológicas irreversíveis que mudaram a sua vida.
38. A conduta da arguida BB provocou ao demandante DD a perda da esposa com quem era casado desde 1977, o que o deixou afetado psicologicamente e num grande sofrimento e choque.
39. Durante algum tempo, por ter sido submetido a colostomia, passou a fazer as fezes para um saco.
40. Em consequência das lesões sofridas passou a mancar da perna esquerda, ficou anémico, perdeu peso, passou a ter dificuldade em dormir e a estar deprimido.
41. Após o internamento perdeu a autonomia, tendo-se visto obrigado a viver com o filho e nora que o acompanharam às consultas médicas.
42. Era a nora e a mãe desta que lhe davam banho.
43. Auferia a título de RSI 178€ (cento e setenta e oito euros).
44. Sente dificuldade em ultrapassar a dor e refazer a vida.
45. Pelo período de internamento foi-lhe pedido pelo Centro Hospitalar ... o pagamento de duas faturas, sendo uma do montante de 28.255€ (vinte e oito mil, duzentos e cinquenta e cinco euros) e outra de 27.288,76€ (vinte em sete mil, duzentos e oitenta e oito euros e setenta e seis cêntimos).
46. DD deu entrada nos serviços de urgência do Hospital de ..., no dia 21.12.2014, tendo sido sujeito a cuidados médicos cujo custo ascendeu a 28.255€ (vinte e oito mil, duzentos e cinquenta e cinco euros).
47. O arguido AA foi criado no ... numa família humilde, constituída por onze irmãos, sendo dois adotivos, em que o pai era carteiro e a mãe doméstica, vivendo todos de forma coesa e harmoniosa.
48. Estudou até aos quinze anos, obtendo o 9º ano de escolaridade.
49. Casou pela primeira vez aos 18 anos e teve 4 filhos.
50. Uniu-se de facto mais 4 vezes: aos 21 anos, aos 23 anos, aos 39 anos e aos 45 anos, tendo mais 4 filhos.
51. Imigrou para Portugal, aos 45 anos, tendo passado a viver com a coarguida BB e a trabalhar no Hospital de ..., na área da eletricidade, auferindo 550€/mês.
52. À data dos factos o arguido residia numa casa arrendada, perspetivando passar a viver com uma enteada e seus filhos menores, na casa onde esta vive atualmente, dado o bom relacionamento existente.
53. Desde que está no EP assume uma postura correta e colaborante.
54. Tem antecedentes criminais pela prática de um crime de importunação sexual, tendo sido condenado na pena de 5 (cinco) meses de prisão suspensa, já julgada extinta.
55. A arguida BB é oriunda de uma família desorganizada e com um padrão de funcionamento conflituoso, sendo a segunda de seis filhos de um casal que não lhe assegurou as necessidades básicas e de progressão académica.
56. Foi precocemente responsabilizada pelo contributo para o orçamento familiar, através do desempenho de tarefas agrícolas, sentindo-se discriminada em relação aos seus irmãos.
57. Procurou nos relacionamentos amorosos o afeto que lhe faltou em família.
58. Tem uma filha de um primeiro relacionamento e mais quatro filhos de um casamento com um indivíduo que considera “humilhante, manipulador e agressivo”.
59. Viveu cerca de vinte anos no ... onde exerceu funções em restauração, cafetaria e hotelaria.
60. À data dos factos vivia maritalmente com o arguido AA numa relação que considera feliz.
61. Recebia RSI.
62. Perspetivava ir viver com uma filha.
63. Desde que está presa tem demonstrado crescente adaptação ao meio prisional, estando a adquirir
formação escolar.
64. Não tem antecedentes criminais.
*
FACTOS NÃO PROVADOS.
Não se provou:
a) que o proprietário das casas nº ... e ... na Rua ... fosse JJ;
b) que na casa nº 65 tivessem vivido por arrendamento e durante cerca de dez anos FF e o marido DD e que houvesse entre eles e os arguidos relações de vizinhança;
c) que o arrendamento da casa com o nº ... pelos arguidos AA e BB tivesse tido início em 2014;
d) que o terreno adjacente às casas fosse cultivado pelos habitantes das duas casas;
e) que as desavenças entre os arguidos e as vítimas fossem relacionadas com o cultivo desse terreno;
f) que quando eclodiu o conflito o arguido AA e o assistente se tivessem juntado ao lado das mulheres envolvendo-se os quatro em discussão verbal, seguida de empurrões mútuos, arremessos de vasos uns aos outros e murros e pontapés mútuos;
g) que o arguido AA tivesse empurrado o DD fazendo-o cair ao chão;
h) que o arguido AA tivesse aproveitado a existência de um carrinho de mão com várias ferramentas e outros objetos junto de DD e que se tivesse munido de faca ali existente, que a faca tivesse 10 cm de comprimento de lâmina e 3 centímetros de largura e cabo de plástico amarelo e que a tenha direcionado para a zona do tronco do ofendido e que só aí não o tenha atingido porque este se defendeu com as pernas e que o tenha atingido com vários golpes também na perna direita;
i) que depois da agressão o arguido AA tenha abandonado o local e ido para o interior da residência;
j) que o arguido AA tenha ferido o DD no tórax, no abdómen e na perna direita;
l) que tenha agredido DD com o propósito de o matar por motivo frívolo demonstrando insensibilidade pelo valor da vida humana;
m) que a arguida BB tenha agido por motivo leviano demonstrando ser insensível ao valor da vida humana;
n) que o demandante CC tenha perdido o orgulho, o preenchimento intelectual e emocional, e que viva em ambiente de suspeição e hostilidade, duvidando de tudo e de todos e receando pela sua integridade física;
o) que se sinta pai do seu pai;
p) que o demandante DD tenha assistido à morte da esposa e que tenha ficado em estado de choque por não ter conseguido salvá-la;
q) que tenha passado a estar de baixa desde o dia dos factos;
r) que as despesas hospitalares tivessem ascendido a 55.543,76€ (cinquenta e cinco mil quinhentos e quarenta e três euros e setenta e seis cêntimos).
*
FUNDAMENTAÇÃO DA MATÉRIA DE FACTO. (Fls. 1033 a 1048)
Para além dos elementos objetivos resultantes dos autos avultando em importância os relatórios médicos (folhas 45, 397 a 399, 887, 354, 898) o relatório de autópsia (folhas 524 ss) os relatórios periciais (folhas 154 a 163 e 185 e 186) e de inspeção judiciária documentado com fotografias (de folhas 190 e seguintes) e
a que infra se irá fazendo referência, foi da conjugação das declarações dos arguidos, com os depoimentos da testemunha EE, do assistente DD e das demais testemunhas com os dados objetivos do processo com a deslocação ao local dos factos e a reconstituição do crime que o Tribunal chegou à fixação da matéria de facto nos termos em que o fez.
*
Desde já se diga que uma vez que se encontram gravados os depoimentos, não se resume ou reproduz o que disseram os diversos intervenientes, fazendo-o apenas quando tal se revelar necessário à explicitação da motivação.
*
Vejamos então mais detalhadamente a fundamentação de cada um dos factos, segundo a ordem pela qual se encontram fixados na matéria de facto provada (por algarismos) e não provada (por letras).
Factos 1 e a): Resultou incontroverso do depoimento da testemunha JJ e sua companheira GG, sendo que esta de forma merecedora de credibilidade admitiu ser a senhoria das casas, (a quem os arguidos frequentemente telefonavam quando ocorriam conflitos, como disse) assim sendo também reconhecida pelos inquilinos (quer os arguidos, quer os habitantes do nº 65).
Por essa razão e apesar de inexistir prova documental, o Tribunal alterou o nome do proprietário das casas, mantendo a restante descrição dos imóveis feita no ponto 1 da acusação, porque constatada na deslocação feita ao local.
Pontos 2 e b): A acusação padecia de manifesto lapso ao afirmar que as vítimas viveram no nº 65 tendo, por isso, sido corrigido. Ficou abundantemente provado por todos quantos foram ouvidos no julgamento que FF e marido DD nunca viveram no nº ... (aí viveram de arrendamento durante cerca de 10 anos a mãe da arguida BB, HH com o companheiro II), sendo apenas visita dos arrendatários.
Pontos 3 e c): Os arguidos e senhoria confirmaram o arrendamento embora o arguido tenha referido ter ido morar na casa antes de 2014, o que se retirou também do depoimento do companheiro da senhoria, razão pela qual se alterou a data de 2014 para 2013, como sendo a do início do arrendamento.
Pontos 4 e d): Resultou inequívoco das declarações prestadas por arguidos, assistente e senhoria, sendo que esta esclareceu que apenas os arguidos pediram para cultivar e cultivavam o terreno, o que estes também afirmaram, não tendo sido produzida prova que contrariasse esta realidade. Na deslocação ao local o Tribunal constatou a existência de terreno adjacente.
Ponto 5 e e): foi verbalizado pelos arguidos e confirmado por quem conhecia os conflitos existentes há pelo menos cerca de dois meses.
De facto embora o assistente DD tenha dito não saber o que gerou isto, nem os motivos da discussão – tendo, contudo, referido o facto de a cunhada ter dado umas bonecas de porcelana à esposa que as deu à EE, o que desagradou à arguida BB e ter também havido um conflito por causa de mobílias – o certo é que tanto o companheiro da senhoria, como esta, como a testemunha LL (vizinho) referiram a ocorrência de conflitos anteriores, assumindo especial visibilidade a destruição das culturas existentes no terreno cultivado pelos arguidos, o que deu lugar a queixas frequentes destes. Referiram também uma caixa de correio partida, quebras de vasos de plantas, agressões físicas à arguida, circunstâncias também referidas pelos arguidos e que permitiram fazer a afirmação segura dos factos que ficaram a constar deste ponto da
matéria fixada.
Aliás, no dia em que os crimes ocorreram, eles foram precedidos de uma queixa feita por telefone à senhoria que chegou a falar também por telefone com II e a dizer-lhe que já o tinha avisado para não deixar entrar “essas pessoas” no pátio, como a senhoria afirmou.
Portanto não ficaram dúvidas ao Tribunal de que havia já um ambiente de conflito há cerca de dois meses, antes do dia 21.12.2014, e de que esse conflito foi exteriorizado, além do mais, pela destruição de plantas e culturas, mas não relacionado com o cultivo do terreno já que só os arguidos e não as vítimas o cultivavam.
O ponto 6 foi alterado por forma a esclarecer que o arrendamento que cessara era o da mãe da arguida e seu companheiro (HH e II), não ficando dúvidas de que estes acompanhados pelas vítimas e ainda pela testemunha EE se deslocaram ao arrendado para concluir as mudanças da residência. Não só o assistente DD o afirmou, - justificando até a razão pela qual a certa altura passou no lugar da contenda para ir buscar uma chave de fendas que lhe permitisse tirar um varão do cortinado, - como resultou claro que era o último mês do arrendamento da HH e companheiro (como todos disseram) e que foram fazendo as mudanças à medida que puderam – no que foram ajudadas pela testemunha MM, como esta relatou.
É certo que os arguidos invocaram que nada havia dentro de casa e que as vítimas só lá foram para os provocar (sendo esta também a convicção do companheiro da senhoria), mas a arguida disse também que chegaram a ouvir barulhos na casa da mãe (o que é indiciador de alguma atividade dentro da casa) e que havia, ainda, pelo menos, um móvel no sítio do fogão.
Aliás havia ainda, pelo menos, também um carrinho de mão (fotografado a folhas 25) pelo que não é possível aceitar a convicção dos arguidos e de quem não foi indiferente aos conflitos anteriores de que eles foram vítimas (senhoria e companheiro e testemunha LL) – e fazer a afirmação de que os moradores da casa (HH e II) acompanhados pelas vítimas FF e DD, apenas lá foram para desencadear mais um conflito.
O ponto 7 não ofereceu dúvidas porque todos (arguidos, assistente, testemunhas) o afirmaram, embora cada um à sua maneira como se verá, e como também já se disse até à senhoria foi feito um telefonema antes das agressões, durante o qual esta “ouviu discutir” – como disse, - sendo que nenhum dos intervenientes negou que tivesse na tarde do dia 21.12.2014 existido conflito que começou por ser verbal entre a FF e a arguida BB.
(Retirou-se, deste ponto da acusação a expressão “vizinhança” na medida em que, como já se disse, os arguidos nunca foram vizinhos das vítimas, estes eram – repete-se - apenas visitas da casa da HH e do II).
Os pontos 8, f) e g) resultaram das afirmações de todos os intervenientes (arguidos, assistente DD e testemunha EE) naquilo em que foram convergentes. Isto é, todos admitiram que o conflito ocorreu no pátio onde eclodiu a discussão, sendo que quer da descrição do arguido AA, quer da descrição do assistente DD, não ficaram dúvidas de que também entre eles houve agressões – como a seguir se verá – em paralelo com o conflito que opunha as mulheres de ambos, isto é, a arguida BB e a tia FF, esta apoiada pela testemunha EE.
Não se pode, contudo, dizer que se envolveram os quatro, antes ocorreu um envolvimento dois a dois (os dois homens e as duas mulheres) como melhor adiante se verá.
Também resultou inequívoco que houve pelo menos arremesso de vasos, alguns para dentro da casa dos
arguidos, (mas não uns aos outros) - tal como os arguidos afirmaram, ao referirem terem a vítima FF e a testemunha EE arremessado vasos, uma vez que as fotografias de folhas 24, 196 e 197 evidenciam essa realidade, a qual também é compatível com o ferimento que o arguido AA sofreu na cabeça (documentado a folhas 886, 887) e que disse – sem que haja qualquer dado que o contrarie e de forma merecedora de credibilidade - ter sido provocado por um vaso que o atingiu.
Não se provou que houvesse empurrões mútuos e murros e pontapés mútuos, porque das descrições parciais (feitas por cada um) dos factos, tal não resulta:
assim o assistente DD, por exemplo, disse que caiu, não por ter sido empurrado pelo arguido, mas por ter tropeçado; o arguido disse ter também caído na sequência do vaso que o atingiu na cabeça, sendo que também na descrição dos factos que precederam e motivaram a morte de FF são referidas pela testemunha EE (como adiante se verá) agressões na cabeça – batendo com ela no chão -com um pau e faca, mas não ao pontapé ou ao murro.
Os pontos 9, 10 e h) resultaram da conjugação dos depoimentos do arguido e do assistente com os dados objetivos do processo, sendo que o facto de não ter sido encontrada a faca com que o assistente DD foi golpeado e com que a FF foi morta, impede que o tribunal a descreva com o pormenor que consta da acusação, sendo certo que não se apurou, sem dúvida, que fosse a da fotografia a folhas 419.
De igual modo a negação por parte do assistente DD de ter sido empurrado pelo arguido, conjugada com a descrição dos factos feita na reconstituição em que é patente que ao recuar (ao ver o arguido empunhar a faca) tropeça e fica caído à entrada da porta pela qual veio a entrar e refugiar-se no interior da residência da HH, impediu o tribunal de considerar provado, como se disse, o empurrão atribuído ao arguido.
Certo é que o arguido, como confessou, se muniu de uma faca, de um só gume com comprimento e largura não concretamente apurados, e que com ela atingiu o assistente na perna esquerda com três golpes, o que também resulta inequívoco da descrição das lesões medicamente verificadas ao assistente quando deu entrada no hospital de ... (folhas 134 e 889 e seguintes).
Só isto o Tribunal pode afirmar com certeza.
Já quanto ao local onde se encontrava a faca de que o arguido se muniu ficaram dúvidas (a acusação e o arguido falam de um carrinho de mão no pátio com ferramentas onde estaria a faca, mas nas fotografias de folhas 25 e 202 vê-se o carrinho de mão dentro da casa – não tendo o cenário do crime sido mexido como disseram os inspetores ouvidos no local – o assistente disse que o arguido se muniu de faca alcançando-a na cozinha (do próprio arguido); a testemunha EE refere que foi a arguida BB quem passou a faca ao arguido AA…) sendo, pois, apenas possível ao Tribunal, afirmar que o arguido se muniu de uma faca com comprimento e largura não apurados. É que apesar de o arguido ter mais tarde colaborado com os inspetores e dito onde foi esconder a faca tendo chegado a haver a apreensão (folhas 416) de uma faca, certo é que não se fez a prova de que fosse a fotografada a folhas 419 e o desenho feito pela testemunha EE (folhas 237) não é bastante para que se proceda à descrição da faca nos termos feitos na acusação.
Acresce que, admitindo-se a partir da análise do depoimento do arguido e da testemunha EE que a faca com que o assistente DD foi atingido foi a mesma com que foi morta a FF, não se percebe como é que uma faca de 10 cm de comprimento, como refere a acusação, provoca uma ferida com 14/15 cm de profundidade (como também se verá quando se abordarem as lesões da vítima FF).
Também não se provou que o arguido tivesse direcionado a faca para a zona do tronco do assistente DD e que o tivesse atingido nas duas pernas, porque não há dúvida de que as lesões com que deu entrada no hospital foram apenas os golpes na perna esquerda. Ora, estando o assistente caído no chão e nessa medida indefeso se o arguido o tivesse querido atingir no tronco poderia tê-lo feito (o assistente durante o julgamento, vg na deslocação ao local referiu que o arguido o pretendeu atingir no peito, mas tal não é compatível com a descrição espontânea que fez inicialmente da atuação do arguido, este negou a intenção de o atingir no peito e as lesões atingiram só a perna esquerda, pelo que não pode o Tribunal, com segurança, ir mais além dos dados que resultam das lesões objetivadas (a que voltaremos a propósito da fundamentação do ponto 16).
O ponto 11 resultou inequívoco quer do depoimento do ofendido, quer dos rastos de sangue fotografados (folhas 202, 203) que permitiram concluir ter-se o ofendido arrastado por dentro da casa da HH depois de nela entrar, fechando a porta, como disse, até vir a sair do outro lado da casa onde veio a ser socorrido, como disse a vizinha MM “vi o DD estendido na valeta a segurar a perna com um lenço… fui buscar um cinto e fiz-lhe um garrote” Esta realidade também não foi negada pelo arguido, nem posta em causa por quem quer que fosse.
Os pontos 12 e i) resultaram do depoimento da testemunha EE em conjugação com o do arguido.
É que, após a agressão ao assistente DD o Tribunal não ficou a perceber com rigor para onde foi o arguido AA (razão pela qual ficou por provar que tivesse ido para dentro da residência), apenas se sabendo, pelo depoimento da testemunha Alice que deixou no pátio a faca, o que o arguido também admitiu.
(A propósito o depoimento da testemunha EE, irmã da arguida, diga-se, por um lado, que, apesar das dificuldades de comunicação – a testemunha é surda muda –, foi percetível o que disse, porque acompanhou o depoimento com gestos e atitudes corporais que ajudaram a suprir a incapacidade de verbalização e, por outro lado, que o facto de poder ter alterado o depoimento desde a data dos factos até ao julgamento – como foi assinalado pela defesa da arguida BB o que poderia descredibilizá-la – é ultrapassado pela circunstância de o seu depoimento ter total projeção nos dados objetivos e incontroversos do processo, razão pela qual entende o tribunal credibilizar o que transmitiu no julgamento, na reconstituição dos factos e na deslocação ao local).
Os pontos 13 a 15 respeitam à agressão de que foi vítima ....
Da conjugação dos depoimentos de todos, mesmo dos arguidos, não ficaram dúvidas de que enquanto ocorria a agressão entre os homens (o assistente DD e o arguido) também a arguida BB, a tia FF e a testemunha EE (esta pelo menos numa primeira fase) se envolveram em conflito, que começou por ser verbal como a arguida admitiu e acabou com a agressão que veio a ser mortal.
Disse a arguida BB que as duas (a tia FF e a irmã EE) foram atrás dela para a cozinha para a agredir. Disse o arguido que quando se iniciou o confronto com o assistente “as senhoras foram para cima da minha mulher” e, mais tarde no depoimento, disse ter visto a FF “agarrada à esposa” e ter visto a esposa a bater na FF – o que a arguida negou - sendo que a EE disse que viu a irmã a bater na tia com um pau e com a cabeça no chão e acabou por fugir. Só o assistente DD disse nada saber o que aconteceu com a esposa FF.
Isto é, dos vários depoimentos resulta inequívoco que a arguida agrediu a FF e fê-lo batendo-lhe com um pau no corpo (o que está fotografado a folhas 204 e 205) com a cabeça no chão (disse a EE que o fez por