DIREITO DAS OBRIGAÇÕES II
RESUMOS
RESPONSABILIDADE CIVIL
I.GENERALIDADES
1. Noção
Surge-nos como fonte legal de obrigações, sendo a obrigação emergente a obrigação de indemnização.
No nosso ordenamento, a expressão responsabilidade civil é utilizada em sentido amplo, abrangendo quer os pressupostos, quer a obrigação de indemnização.
2. Classificações
2.1 Responsabilidade contratual e responsabilidade extracontratual
A responsabilidade contratual é uma modalidade da responsabilidade civil “proveniente da falta de cumprimento das obrigações emergentes dos contratos, de negócios unilaterais ou da lei”. Fala-se em responsabilidade contratual uma vez que as situações mais correntes na prática são as de danos emergentes da violação de contratos; porém, os autores falam também de responsabilidade negocial, que abrange o dever de indemnizar emergente da violação de contratos e negócios unilaterais, e ainda de responsabilidade obrigacional, que abrange ainda a violação das obrigações em sentido técnico. No fundo, estas três expressões (responsabilidade contratual, negocial e obrigacional) referem-se à mesma realidade: responsabilidade emergente de deveres relativos, qualquer que seja a sua fonte: contratos, negócios jurídicos unilaterais ou obrigações em sentido técnico.
Já a responsabilidade civil extracontratual é “a resultante da violação de direitos absolutos ou da prática de certos actos que, embora lícitos, causam prejuízo a alguém”.
O legislador português trata as duas modalidades de responsabilidade civil em dois lugares distintos: a responsabilidade contratual aparece nos arts. 798.º e segs., enquanto que a responsabilidade extracontratual está regulada nos arts. 483.º e segs. Porém, quanto ao regime da obrigação de indemnizar, o legislador tratou-as conjuntamente – arts. 562.º e segs. Este é um lugar de confluência das consequências decorrentes das duas responsabilidades, como que unificando o seu regime.
Modernamente, tem havido algumas tentativas de unificação das responsabilidades: o ideal seria falar de responsabilidade civil tout court. E há algumas matérias em que o legislador seguiu esta tendência, sendo que no Código Civil o legislador seguiu a tendência da unificação dos dois regimes mas não na totalidade: apenas quanto às consequências da responsabilidade (dever de indemnizar).
Supervenientemente ao Código Civil, há mesmo matérias em que os dois regimes estão totalmente unificados: por exemplo, a responsabilidade civil do produtor (a partir da década de 60). Esta responsabilidade do produtor é independente de culpa e da existência ou não de um contrato (a vítima pode ser contratante ou não contratante).
Os regimes destas duas responsabilidades não é coincidente, apesar de a consequência ser a mesma: a obrigação de indemnização. Podemos ter casos em que do mesmo facto nascem das duas modalidades de responsabilidade civil Imaginemos que um farmacêutico, distraído, entrega um medicamento errado ao cliente: temos um caso de responsabilidade extracontratual, por violação do direito à integridade física; e simultaneamente um caso de responsabilidade contratual, por violação do contrato de compra e venda.
Outros casos em que isto acontece é na responsabilidade médica em hospitais privados.
2.1.1 Diferenças entre os regimes
Ø Diferenças menos importantes:
1. Tribunal competente.
2. Lei competente:
a. Quando existam elementos de conexão na responsabilidade extracontratual, o critério seguido é o que resulta do art. 45.º (lugar da prática do facto). O n.º 3 consagra regras diferentes.
b. Na responsabilidade contratual, aplicam-se as normas relativas a obrigações provenientes de negócios, nomeadamente o art. 41.º, da lei designada.
3. Capacidade negocial e capacidade delitual:
a. À partida, quem pode responder delitualmente é quem pode entender e querer, ou seja, quem tem capacidade intelectual e volitiva (capacidade delitual e imputabilidade é a mesma coisa) – logo qualquer pessoa, salvo naqueles dois casos de presunção de in b. .
c. Na capacidade negocial, há um problema: quem não tem capacidade jurídica não pode praticar actos válidos, logo não se pode incumprir um acto que é inválido. A capacidade contratual prende-se com a capacidade de exercício, pois só por esta via faz parte de um contrato válido.
4. Por vezes, o legislador considera que o devedor só responde se agir com dolo. Exemplo:
normalmente, o doador que doa bens alheios ou bens defeituosos não responde pelos danos causados. Nos bens alheios, pois o donatário não fica com o bem; e nos bens defeituosos, porque a doação é um contrato gratuito, logo o regime não tutela a posição do donatário. Mas se houver dolo por parte do doador há responsabilidade contratual (ver arts. 956.º/2/b) e 957.º/1)
Ø Diferenças mais importantes
1) Ónus da prova quanto à culpa: é a diferença mais importante. Nas acções de responsabilidade extracontratual, é o lesado que tem de provar a culpa (salvo se houver uma presunção); nas acções de responsabilidade contratual, há uma presunção de culpa do devedor, ou seja, o lesante é que tem de afastar a presunção – temos, por isso, uma responsabilidade subjectiva agravada. Isto é o que resulta do art. 799.º/1.
Qual é o regime mais favorável para o lesado? É obviamente aquele em que o ónus da prova cabe ao lesante, ou seja, o da responsabilidade contratual.
2) Pluralidade de responsáveis: havendo uma pluralidade de lesantes, respondem solidariamente na extracontratual e conjuntamente na contratual. Assim, a garantia é muito mais forte na extracontratual, pois a obrigação fica garantia pelos patrimónios de todos os lesantes, art. 497.º. Na contratual, cada um responde pelos danos que causarem com a sua própria conduta.
Neste aspecto, o regime mais favorável para o lesado é o da responsabilidade civil extracontratual.
3) Regime da prescrição: o prazo é muito curto para a responsabilidade extracontratual, que é de 3 anos desde o conhecimento pelo lesado do seu direito, art. 498.º (sem prejuízo da prescrição ordinária a contar deste o facto danoso, que é de 20 anos nos termos do art. 309.º). Já na responsabilidade contratual, o prazo é o da prescrição ordinária, logo de 20 anos.
Há outras diferenças, tradicionalmente apontadas, que estão a ser revisitadas.
4) Aplicação ou não, ao regime da responsabilidade contratual, de dois artigos enquadrados na responsabilidade extracontratual, o 494.º e 496.º.
4.1) O art. 494.º permite ao juiz, a pedido do lesante, limitar a indemnização em caso de mera culpa - limitação equitativa da indemnização. Por ex., A chama ladrão a B, com repercussões na sua situação económica, deixando de auferir 10.000€. Supostamente, a indemnização seria de 10.000€, ou seja, cobriria todos os danos; porém, o art. 494.º permite uma redução equitativa da indemnização: se não
houver dolo, o juiz pode fixar a indemnização num patamar inferior. Isto beneficia o lesante, pois se de acordo com o princípio da reintegração integral teria direito a uma indemnização no valor de todos os danos, terá uma indemnização inferior. Quais as razões?
1. A sua culpa não é grave – esta é a razão principal da não protecção ao lesante.
2. A indemnização é fixada em termos equitativos segundo três critérios:
a. Grau de culpabilidade do agente.
b. Situação económica do lesante e do lesado.
c. Demais circunstâncias do caso: por ex., não é a mesma coisa termos uma sequela (consequência permanente a nível da integridade física) ou uma lesão temporária.
No sistema espanhol, existe uma limitação quando os danos sejam não previsíveis.
Segundo a doutrina ainda hoje dominante (ANTUNES VARELA), este artigo não se aplica nos casos da responsabilidade contratual, uma vez que isto defraudaria as expectativas do credor, que vê no sucedâneo um substituto à prestação. Na responsabilidade contratual, ao contrário da extracontratual, há expectativas a tutelar: o credor está à espera de uma prestação, e, não sendo cumprida a prestação, sabe que há um valor sucedâneo, correspondente ao da prestação (a indemnização). PAULO MOTA PINTO
defende a posição de que este artigo, mesmo que não seja de aplicar sempre em casos de responsabilidade contratual, pode em alguns casos ser convocado, quando o dano seja desproporcional face à mera culpa do devedor inadimplente. Não haverá uma objecção de princípio, o valor da indemnização não tem de ser coincidente com o da indemnização.
1.2) O art. 496.º consagra a ressarcibilidade dos danos não patrimoniais: em Portugal, temos uma perspectiva generosa quanto à compensação destes danos, que são ressarcíveis desde que sejam graves. A gravidade é um critério adoptado mas não densificado pelo legislador. Este artigo aplicar-se-á à responsabilidade contratual? A posição de Antunes Varela é a de que não se pode pedir uma compensação dos danos não patrimoniais em sede de responsabilidade contratual, com as seguintes razões:
1. Razão de ordem sistemática: o legislador previu o art. 496.º em sede de responsabilidade extracontratual e não o colocou sequer na secção comum às duas. De facto, esta questão foi ponderada pelo legislador, até porque ANTUNES VARELA era Ministro da Justiça durante a realização do Código – VAZ SERRA, que redigiu o projecto, tinha uma posição mais ampla, mas as soluções passaram pelo crivo de ANTUNES VARELA. Se o legislador quisesse consagrar esta solução, teria consagrado este artigo em sede da obrigação de indemnização, comum às duas.
2. Receio de uma extensão desmesurada de todas as indemnizações, invocando-se sempre danos não patrimoniais. Há sempre uma frustração de expectativas nos contratos.
3. No direito alemão, também não existia compensação (à data) dos danos não patrimoniais pela
violação dos contratos – isto porque o direito alemão sempre foi visto como o paradigma. Esta solução foi alterada em 2002, isto é, o direito alemão já permite a compensação destes danos.
Qual é a perspectiva actual? CALVÃO DA SILVA sempre defendeu a aplicação deste artigo em sede da responsabilidade contratual; SINDE MONTEIRO considera que, apesar de tudo, deve haver uma cautela, e só em casos excepcionais se poderá aplicar o art. 496.º: quando simultaneamente ocorre a violação do contrato e de direitos absolutos. Esta cautela é imposta pelo receio de aumentar as acções. Já a jurisprudência entende que é possível a compensação, desde que o dano seja grave.
Mas será que aumentariam as acções pela aplicação deste artigo? Não, porque só são ressarcíveis os danos graves: o filtro da gravidade permite afastar acções para indemnização de danos não patrimoniais irrelevantes. Quais são os danos graves? Sem dúvida aqueles que afectam a vida e a integridade física de forma grave; de resto, é difícil definir a fronteira.
Aliás, há casos em que há simultaneamente ocorre a violação do contrato e de direitos absolutos – nestes casos, seria estranho não se poder pedir a indemnização por danos não patrimoniais. O caso paradigmático é o do contrato de prestação de serviços médicos. Qual a resposta do ordenamento quando no mesmo caso ocorrem os pressupostos da responsabilidade: cúmulo ou concurso de responsabilidades?
Não há nenhuma indicação legislativa sobre o cúmulo ou concurso de responsabilidade, sendo a teoria dominante é a de que é possível, ao lesado, optar pelo regime que lhe seja mais favorável. Há, no entanto, autores que defendem que é possível optar pela norma em concreto que seja mais favorável, dentro de cada regime – é para esta posição se inclina PINTO MONTEIRO. ALMEIDA COSTA defende uma posição minoritária, a doutrina francesa do não cúmulo, que se caracteriza por afastar o regime da responsabilidade extracontratual quando haja a violação de um contrato: se as partes entraram em contacto, tiveram a possibilidade de regular expressamente as suas relações, nomeadamente as regras da responsabilidade civil, o regime deve ter em conta essas relações especiais.
O regime mais vantajoso é o da contratual, a nível da presunção e da prescrição. Entre nós, vale o princípio da opção: o advogado pode optar pelo regime mais favorável.
2.2 Responsabilidade subjectiva e responsabilidade objectiva
Na responsabilidade subjectiva, o agente responde por um facto culposo. Esta é a regra entre nós: se alguém causar danos a outrem, só responde pelos danos causados se agir com culpa. Mas podemos ter casos de responsabilidade objectiva, quando o agente responde independentemente de culpa, que não é um pressuposto da responsabilidade. Nestes casos, a responsabilidade é objectiva, e não só: só pode haver responsabilidade sem culpa se houver lei nesse sentido, conforme dispõe o art. 483.º.
2.2.1 Características da responsabilidade objectiva
1) Assim, a responsabilidade objectiva é uma responsabilidade excepcional e que necessita de fundamentação legal.
Então, que casos existem de responsabilidade objectiva?
1. Os artigos 499.º e segs. falam da responsabilidade pelo risco.
a. Art. 500.º: responsabilidade do promitente.
b. Art. 501.º: responsabilidade do Estado e outras pessoas colectivas públicas.
c. Art. 502.º: danos causados por animais.
d. Art. 503.º: danos causados por acidentes de viação.
e. Art. 509.º: danos causados por instalações de energia eléctrica ou gás.
2. Também temos a responsabilidade por factos lícitos, que é igualmente uma situação de responsabilidade objectiva: por ex., quando há uma causa de exclusão da ilicitude; ou quando o proprietário de um terreno causa danos ao terreno do outro quando recolhe os seus próprios frutos. Não existe uma regra geral, mas sim casos pontuais: art. 81.º/2 do CCP, arts. 1322.º, 1349.º/3 e 1367.º, e arts. 1170.º a 1172.º.
3. Há outro caso de responsabilidade objectiva: a responsabilidade por danos causados por inimputáveis, que em casos excepcionais podem ser responsabilizados, se o tribunal ficar convencido da necessidade de indemnizar o lesado. A obrigação de indemnização baseia-se, nestes casos, no art. 489.º.
4. Além destas normas do Código Civil, temos ainda a responsabilidade civil do produtor, quando haja danos causados por produtos defeituosos; responsabilidade por danos causados na caça, etc.
2) Outra característica é o carácter relativo: tendo em conta a posição difícil do lesante, que responde sem culpa, o legislador compensa este facto por uma circunscrição dos danos ressarcíveis. Por exemplo, o art. 504.º vai circunscrever os danos ressarcíveis. Por outro lado, o legislador delimita igualmente o montante indemnizatório (os limites máximos), que é o que sucede no art. 508.º.
Por vezes, quando o legislador cria um regime de responsabilidade objectiva, impõe a subscrição de um seguro obrigatório, que se prende com a obrigação de indemnização por danos causados a terceiro. Está aqui em causa a protecção do lesado, mas também há uma defesa do lesante: por vezes, os danos causados são de tal ordem que não é possível o lesante pagar a indemnização. Discutiu-se se os condutores de bicicleta deviam constituir seguro obrigatório: o art. 503.º abrange a responsabilidade por danos causados por veículos não motorizados; no entanto, não existe seguro obrigatório. Na responsabilidade por danos causados por animais, também não existe seguro obrigatório.
3) É uma responsabilidade limitada, pois o legislador consagra causas de exclusão da responsabilidade – é o que sucede no art. 505.º, que exclui a responsabilidade quando os danos sejam imputáveis ao próprio lesado. Já é irrelevante a prova de inexistência de culpa.
2.2.2 Presunção de culpa
Retomando a distinção entre a responsabilidade subjectiva e objectiva, o legislador cria por vezes um regime mais oneroso para o lesante na responsabilidade subjectiva. Porquê? Pois há certas presunções de culpa. Quando há presunção de culpa, temos uma responsabilidade subjectiva agravada: o lesante é que tem de provar que agiu sem culpa. Isto poderá ser relevante em termos de distribuição do ónus da prova: normalmente, quem tem o ónus da prova é quem alega o direito, que tem de provar os factos constitutivos. Esta é a regra que decorre, desde logo, do art. 342.º/1 do CC. Havendo presunção de culpa, o ónus inverte-se, nos termos do art. 344.º do CC. É o lesante que tem de provar que agiu sem culpa; se não conseguir ilidir a presunção, responde pelos danos causados.
Não se pode confundir a responsabilidade objectiva e a subjectiva agravada: enquanto que na primeira o lesante responde independentemente da culpa, na segunda o lesante tem o ónus da prova, e se conseguir ilidir a presunção, não responde.
As presunções que existem estão previstas nos arts. 491.º a 493.º, e no art. 503.º/3. Trataremos delas mais à frente.
II.RESPONSABILIDADE POR FACTOS ILÍCITOS
1.PRESSUPOSTOS
1.1 Facto voluntário
Tem de haver um comportamento humano voluntário, controlável pela vontade, que se pode consubstanciar numa acção ou numa omissão (facto comissivo e omissivo).
Se se tratar de uma omissão, é preciso que se preencha o requisito adicional que a lei exige – tem de haver o incumprimento de um dever jurídico de agir. Assim, o art. 486.º estabelece que as simples omissões dão lugar à obrigação de reparar os danos quando houvesse, por força da lei ou do negócio jurídico, um dever de praticar o facto. A doutrina, além da lei e do negócio jurídico, apresenta como base do dever as situações em que existe um dever de cuidado ou dever de prevenção de perigo.
Quando se alude a facto voluntário, isto não quer dizer que tenha de ser um acto querido:
1. Há casos, como o da negligência inconsciente, em que não há representação mental do facto.
2. Basta uma capacidade natural para entender e querer para que uma pessoa responda (art. 488.º/1), sendo que a responsabilidade dos inimputáveis não está totalmente excluída (art. 489.º/1).
“Facto voluntário” significa, assim, “facto objectivamente controlável ou dominável pela vontade”: basta a possibilidade de controlar o acto omissão. Fora ficam apenas os danos provocados por causas de força maior ou pela actuação irresistível de circunstâncias fortuitas.
1.2 Ilicitude
Em termos gerais, a ilicitude é a contrariedade com o direito. Existem três formas de ilicitude:
1) Violação de um direito absoluto: estão aqui incluídos os direitos de personalidade, direitos reais e direitos de autor. Coloca-se a questão de saber se os direitos familiares podem ter eficácia absoluta:
ANTUNES VARELA diz que os direitos familiares patrimoniais têm eficácia externa, mas esta é uma questão sem relevância prática; quanto aos pessoais, estes não têm eficácia externa. Por ex., se um ex- cônjuge usar indevidamente o apelido do cônjuge, há uma violação do direito à identidade.
2) Violação de uma disposição legal destinada a proteger interesses alheios: está em causa a “infracção das leis que, embora protejam interesses particulares, não conferem aos respectivos titulares um direito subjectivo a essa tutela”. Não há verdadeiramente um direito, mas um interesses tutelado. São raras as
disposições em que não há direito mas há interesse, mas encontramos algumas excepções, de normas de protecção – por ex., normas penais de ordenação social ou normas de protecção rodoviária. Também podemos ter casos de normas que protegem interesses particulares, mas sem dar ao respectivo titular um direito subjectivo (é o que sucede no art. 1391.º).
Para que o lesado tenha direito à indemnização nestes casos, é necessário que se verifiquem três requisitos:
1. Que a lesão dos interesses do particular corresponda à violação de uma norma legal.
2. Que a tutela dos interesses do particular figure entre os fins da norma violada.
3. Que o dano se tenha registado no círculo de interesses privados que a lei visa tutelar.
Assim, temos de conhecer o âmbito de protecção material (que interesses?) e pessoal (que pessoas?) destas normas: o caso mais famoso ocorreu com uma criança que subiu a um poste de electricidade e ficou electrocutada. Verificou-se que o poste não tinha a altura regulamentada: qual o âmbito de protecção da norma que estabelece a altura mínima? É a de permitir a circulação, por baixo dos postes, e não a de proteger as crianças.
3) Abuso do direito, art. 334.º: há abuso do direito, segundo a concepção objectivista do art. 334.º, sempre que o titular de um direito o exerce com manifesto excesso dos limites impostos pela boa fé, pelos bons costumes, ou pelo fim económico ou social desse direito.
Em sede de responsabilidade civil, é particularmente importante não tanto a violação da boa fé (que carece de uma relação especial), mas sim as outras modalidades: violação dos bons costumes ou do fim social do direito. Por ex., um autor quer exercer o seu direito de retirada de uma obra, não por motivos pessoais, mas para prejudicar o editor – viola o fim social do direito de retirada.
O abuso do direito tem duas sanções:
1. Paralisação do direito: tem o direito, mas não o pode exercer.
2. Indemnização: é isto que nos interessa.
1.2.1 Casos especiais de ilicitude
Para além das directrizes gerais da ilicitude, o Código Civil trata de forma especial alguns casos de ilicitude:
1. Factos ofensivos do crédito ou bom nome das pessoas, art. 484.º. Independentemente da questão de saber se existe ou não um direito subjectivo ao bom crédito, consideram-se objectivamente ilícitas as condutas que ameacem lesá-los. Para que a afirmação ou divulgação de factos seja
considerada ilícita, é necessário que o facto não seja verdadeiro? A doutrina divide-se: para ANTUNES VARELA, não importa que o facto seja verdadeiro ou não: basta que o facto divulgado ou afirmado seja susceptível, nas circunstâncias do caso, de diminuir a confiança na capacidade e na vontade da pessoa para cumprir as suas obrigações ou de abalar o seu prestígio. Para outros autores, se o facto for verdadeiro a sua divulgação não é ilícita.
2. Conselhos, recomendações ou informações geradoras de danos, art. 485.º. A regra é a da irresponsabilidade pela inexactidão das informações e conselhos (n.º 1), uma vez que queremos uma sociedade solidária, na qual as pessoas não tenham medo de se ajudar. Porém, o n.º 2 estabelece três casos em que há responsabilidade: quando se tenha assumido a responsabilidade pelos danos; quando haja o dever jurídico de os dar e se tenha agido com culpa; e quando o procedimento do agente seja criminalmente punível. Quanto ao segundo caso, importa notar que o dever de informação é uma concretização do art. 227.º (dever de actuar de boa fé).
3. Omissões, art. 486.º. Para que uma omissão seja considerada um facto ilícito, tem de haver o dever (imposto por lei ou negócio jurídico) de praticar o acto omitido, e este pudesse normalmente ter evitado a verificação do dano (omissão casual). O dever imposto tanto pode resultar de uma norma perceptiva, que directamente imponha certa acção (omissão pura), como provir indirectamente da norma que imponha a colaboração na prevenção de certo resultado, punido ou reprovado pela lei (comissão por omissão). Destaca-se o dever jurídico de prevenção do perigo: quem criar uma situação especial de perigo para terceiros deve tomar todas as medidas razoavelmente exigíveis com vista à prevenção de consumação desse risco.
1.2.2 Causas justificativas
De um modo geral, pode dizer-se que o facto se considera justificado e lícito sempre que é praticado no exercício regular de um direito ou no cumprimento de um dever. Ao lado destas duas causas de ordem geral, existem também algumas causas especiais, previstas no art. 386.º e segs. Note-se que em muitos destes casos pode ainda haver lugar a uma indemnização, apesar de não estar em causa um facto ilícito – por ex., o art. 388.º e 389.º/2.
1) Acção directa (art. 336.º)
A acção directa consiste no recurso à força para realizar ou assegurar o próprio direito. É uma forma de realização da justiça característica dos sistemas primitivos, que foi gradualmente perdendo importância. O Código Civil admite a acção directa em termos genéricos, mas com requisitos apertados:
1. Fundamento real: tem de haver um direito próprio, um direito pessoal, que se quer realizar ou assegurar.
2. Necessidade do recurso à força ou indispensabilidade: o recurso à força tem de ser indispensável, pela impossibilidade de recorrer em tempo útil aos meios coercivos normais, os tribunais, para evitar a inutilização prática do direito do agente.
3. Adequação: o agente não pode exceder o estritamente necessário para evitar o prejuízo. O n.º3 do artigo 336.º concretiza dizendo que a acção directa não é lícita quando sacrifique interesses superiores aos que procura defender. Podíamos referir este como um quarto requisito, mas é mera inferência ou concretização da adequação, da proporcionalidade dos meios em relação aos fins.
O n.º2 exemplifica em que consiste este recurso à força: apropriação, destruição ou deterioração de uma coisa ou na eliminação da resistência irregularmente oposta ao exercício do direito, ou noutro acto análogo.
Estes requisitos são de verificação cumulativa. Quando se verifiquem, não haverá lugar a indemnização.
Todavia, o artigo 238.º indica que, se o titular do direito agir erroneamente supondo que os pressupostos estão verificados, tem de indemnizar os prejuízos causados, salvo se o erro for desculpável. Ou seja, não se verificando algum dos requisitos, e sendo o erro desculpável, também não haverá dever de indemnizar.
2) Legítima defesa (art. 337.º)
A legítima defesa consiste na “reacção destinada a afastar a afastar a agressão actual e ilícita da pessoa ou do património, seja do agente, seja de terceiro”. Para que um facto seja lícito ao abrigo da legítima defesa, é necessário que se verifiquem os seguintes requisitos:
1. Agressão: tem de haver uma agressão, que se traduz numa ofensa da pessoa ou dos bens de alguém.
2. Actualidade e ilicitude da agressão: só perante uma agressão presente, iminente e ilícita é que se pode reagir em legítima defesa. A legítima defesa é uma reacção no momento presente para afastar uma agressão contrária à lei e actual. Notas:
a. A agressão não tem de ser culposa, pois a lei só exige que seja ilícita – pode, por isso, tratar-se de um inimputável.
b. Enquanto que a acção directa é uma forma de auto-tutela, apenas serve para realizar direito próprio, na legítima defesa podemos agir em defesa da pessoa ou património de terceiro.
3. Necessidade da reacção: não pode ser viável nem eficaz o recurso aos meios normais.
4. Adequação: o meio usado não pode provocar um dano manifestamente superior ao que se pretendeu afastar.
O n.º2 acrescenta que o acto considera-se igualmente justificado, ainda que haja excesso de legítima defesa, se o excesso for devido a perturbação ou medo não culposo do agente.
Na legítima defesa, além de ser lícito o acto de quem se defende e, como tal, não se admitir a legítima defesa do agressor, o autor é isento de responsabilidade pelos danos causados.
3) Estado de necessidade (art. 339.º)
É igualmente lícito o “acto daquele que, para remover o perigo actual de um dano manifestamente superior, quer do agente, quer do terceiro, destrói ou danifica coisa alheia”. Por maioria de razão, também se considera lícito o acto de quem usa coisa alheia sem autorização. O estado de necessidade consiste, assim, na “situação de constrangimento em que age quem sacrifica coisa alheia, com o fim de afastar o perigo actual de um prejuízo manifestamente superior”. Distingue-se da legítima defesa na medida em que o perigo provém, não de uma agressão, mas sim de circunstâncias externas.
Como o perigo não provém de uma agressão prévia do lesado, e porque os interesses do titular da coisa são legitimamente sacrificados mas em proveito de outrem, a obrigação de indemnização dos danos causados pode não ficar excluída – o agente fica obrigado a indemnizar os danos sempre que a situação de perigo tenha sido provocada por sua culpa exclusiva, sendo que aqui a responsabilidade segue as regras gerais. Fora deste caso, o tribunal pode fixar uma indemnização equitativa e condenar nela não só o agente, como aqueles que tiraram proveito do acto ou contribuíram para o estado de necessidade.
Exemplos de casos de estado de necessidade:
1. Há um incêndio numa casa e alguém invadem a casa do vizinho para chamar os bombeiros – está a remover o perigo actual de um dano manifestamente superior, quer do agente quer do terceiro.
2. Alguém usa o carro de terceiro com as chaves para levar alguém que se esvai em sangue ao hospital.
3. Um cão ataca uma pessoa, que mata o cão para afastar o perigo, actuando em estado de necessidade.
4. Para evitar o atropelamento de uma criança quando conduz, alguém conduz o carro para cima de um muro que está ao lado da criança.
Neste último caso, quem tem o dever de indemnizar o dono do muro, os pais ou o agente? CALVÃO DA
SILVA acha que a melhor solução era levar os pais da criança, podendo, a indemnizar – responsabilidade solidária, tendo o agente direito de regresso quanto aos pais da criança, responsáveis por andar “à solta”.
Se os pais não tiverem possibilidades, pode o juiz condenar então os dois: o agente e os pais. A nossa lei dá esta grande margem de apreciação ao julgador.
O dever de indemnizar o dono do muro nos termos da equidade por parte do lesante ou dos pais é a regra geral. Mas imagine-se que o muro é do próprio lesante: há quem pense que nesta situação temos uma gestão de negócios, e aplicam o regime desta para justificar a indemnização, o dever de reparar os danos ao muro. Há divergência doutrinal quanto a se se aplicam as regras da responsabilidade civil ou da gestão de negócios.
A actuação em estado de necessidade é lícita, logo não pode haver legítima defesa contra a pessoa que actua em estado de necessidade.
4) Consentimento do lesado (artigo 340.º)
O consentimento do lesado consiste na “aquiescência do titular do direito à prática do acto que, sem ela, constituiria uma violação desse direito ou uma ofensa da norma tuteladora do respectivo interesse”.
Trata-se de um consentimento autorizante.
O consentimento do lesado não exclui, porém, a ilicitude do acto, quando este for contrário a uma proibição legal ou aos bons costumes. Para além disto, há direitos indisponíveis, que não admitem consentimento – a doutrina é unânime no reconhecimento da indisponibilidade do bem jurídico vida, ou seja, não podemos consentir a nossa morte (ainda que CALVÃO DA SILVA refira a existência diariamente de uma eutanásia passiva nos hospitais, máquinas que são desligadas a pessoas em estados vegetativos, deixando a pessoa entregue a si própria para morrer; distingue-se da activa, em que é dado um comprimido que provoca a morte da pessoa. É mais uma lacuna legislativa, neste caso voluntária, do que uma proibição).
Ao lado deste consentimento autorizante legal, que não ofenda a ordem pública e os bons costumes, há o chamado consentimento presumido (n.º3). Tem-se por existente o consentimento do lesado nos casos em que esta se deu no interesse do lesado e de acordo com a sua vontade presumível, ou seja, olha-se ao que a pessoa diria se esta estivesse consciente e convenientemente informada. Esta presunção tem um campo especial de aplicação no caso das intervenções cirúrgicas em que o doente não está em condições de dar o seu consentimento.
Finalmente, no caso de certas práticas desportivas mais violentas, como o boxe ou a Fórmula 1, ou no caso do tabaco, tem-se entendido que há uma aceitação tácita e recíproca dos riscos de acidentes ou lesões que essas actividades envolvem. Ou seja, não pode uma pessoa a morrer de cancro provocado pelo
tabaco propor uma acção de responsabilidade civil contra a indústria tabaqueira. Consideramos que existe aqui uma assunção ou aceitação do risco, pelo que o acto, devidamente consentido, deixa de ser ilícito.
1.3 Nexo de imputação do facto ou agente ou culpa
Para que o facto ilícito gere responsabilidade, é necessário que o autor tenha agido com culpa. Em primeiro lugar, temos de saber quem é imputável, ou seja, que requisitos são necessários para que uma pessoa seja susceptível do juízo de culpa.
1.3.1 Imputabilidade
Diz-se imputável a pessoa com capacidade natural de entender (capacidade intelectual) e querer (capacidade volitiva). Assim, diz-se imputável aquela pessoa a quem falta esta dupla capacidade no momento da prática do facto (art. 488.º/1).
1. Capacidade intelectual: é a capacidade de entender os seus actos e os efeitos dos seus actos (em termos éticos e não jurídicos). Está em causa o discernimento ético e social.
2. Capacidade volitiva: é a capacidade de auto-determinação do sujeito e de se conformar ao entendimento face à sua actuação. Por vezes, os doentes mentais têm consciência de que não estão a actuar correctamente mas não se conseguem auto-determinar no sentido de não praticar o facto.
No n.º 2 do art. 488.º, a lei presume a inimputabilidade dos menores de sete anos e dos interditos por anomalia psíquica. Para além destes, serão inimputáveis, por exemplo, os que pratiquem o acto em estado de embriaguez completa, durante o sono, um ataque epiléptico, um acesso de febre elevada, etc.
No entanto, se houver culpa do agente na colocação no estado de inimputabilidade (por ex., aqueles que culposamente se embriagaram ou tomaram estupefacientes), a lei trata-os como imputáveis (art. 488.º/1, parte final).
Quando não haja imputabilidade, o lesado poderá ressarcir-se à custa da pessoa obrigada à vigilância do agente, salvo se se verificar alguma das circunstâncias previstas no art. 491.º. No caso em que não haja pessoas obrigadas ou se verifique uma dessas circunstâncias, a lesão fica sem reparação – salvo quando haja responsabilidade do inimputável.
Ø Responsabilidade especial das pessoas inimputáveis
Naqueles casos em que não é possível obter uma indemnização das pessoas obrigadas à vigilância do
autor da lesão, o Código Civil admite que a pessoa imputável seja condenada a indemnizar total ou parcialmente o lesado, quando razões de equidade assim o imponham (art. 489.º): o lesado ficou numa difícil situação económica, haja um grave desequilíbrio económico entre o lesado e o autor, o montante do prejuízo é elevado, a conduta do agente é particularmente grave, etc.
Note-se que esta não é uma responsabilidade objectiva, independente de culpa: o agente responde nos termos em que responderia se fosse imputável e praticasse o mesmo facto. A única diferença é que responde segundo critérios de equidade. O n.º 2 estabelece, porém, um limite a esta responsabilidade: não pode prejudicar os alimentos do inimputável nem os deveres legais de alimentos que recaiam sobre ele.
Notas:
1. É uma responsabilidade subsidiária: desde que não seja possível obter a reparação dos vigilantes.
2. Não é uma responsabilidade absoluta, é relativa por ser segundo os critérios da equidade (n.º 2): o juiz pode achar que é necessário proteger o lesante. O juiz pode obrigar à reparação total ou parcialmente.
3. É preciso que o facto, analisado objectivamente, possa ser classificado como facto ilícito e culposo se tivesse sido praticado por um imputável. Há aqui uma ficção.
4. É uma situação excepcional pois o sujeito age sem culpa.
1.3.2 Culpa Ø Noção
Em que consiste o nexo de imputação ou culpa? A culpa é um juízo de censurabilidade relativo à conduta do agente, segundo o qual este poderia e deveria ter agido de forma diferente. O sujeito é culpado porque a sua conduta é censurável. Este juízo de culpa pode revestir duas formas: o dolo e a negligência.
Ø Modalidades de culpa
Nas modalidades da culpa, temos:
1. Dolo:
a. Directo;
b. Necessário ou indirecto;
c. Eventual.
2. Negligência ou mera culpa:
a. Consciente;
b. Inconsciente.
1) Dolo
No dolo directo, o agente quer directamente realizar o facto ilícito, ou seja, representa o efeito da sua conduta e quer esse efeito como fim da sua actuação, apesar de conhecer a sua ilicitude. Exemplo: o jornalista que divulga um facto sabendo que, ao fazê-lo, vai atingir a honra ou bom nome de alguém.
No dolo necessário, o agente não quer directamente o facto ilícito, mas prevê-o como uma consequência necessária da sua conduta e nem por isso deixa de agir. O efeito ilícito e o resultado querido estavam indissoluvelmente ligados por um nexo de causalidade. Por exemplo: A quer destruir uma coisa de B e sabe que, para tal, tem de destruir também uma coisa de C. Existe dolo directo em relação à primeira coisa e necessário em relação à segunda. Em termos de consequências, o dolo necessário é equiparado ao dolo directo.
Finalmente, no dolo eventual, o agente prevê o facto ilícito, não como uma consequência necessária da sua conduta, mas como um efeito apenas possível ou eventual. Não é fácil de aferir em concreto, sendo que o critério mais seguido pela doutrina e jurisprudência para aferir do dolo eventual passa pela resposta à seguinte pergunta: que teria feito o agente se previsse o facto ilícito, não como mera consequência possível, mas como efeito necessário da sua conduta? Se tivesse praticado o facto, temos um caso de dolo eventual. Exemplo: ao aproximar-se de um cruzamento, e vendo pessoas e carros transitarem num sentido diferente do seu, o condutor não abranda e segue em velocidade excessiva, não se importando com o risco de um acidente, que vem a ocorrer. As fronteiras entre o dolo eventual e a negligência consciente são muito ténues.
2) Negligência
Na negligência inconsciente, o autor prevê o facto ilícito como possível, mas por desleixo crê na sua não verificação, e só por isso não toma as providências necessárias para o evitar. Por exemplo: o condutor não diminui a velocidade antes de um cruzamento de intensa circulação, mas por estar insensatamente persuadido que nenhum outro veículo surgirá no momento em que passa. Enquanto que no dolo eventual o sujeito representa a prática do facto mas mostra-se indiferente, na negligência o sujeito sabe que vai praticar um facto ilícito mas acredita, por imprudência, que estes não se vão realizar. No dolo eventual há uma indiferença face aos danos (dupla negativa), na negligência inconsciente o sujeito não prevê mas deveria ter previsto.
Na negligência inconsciente, o agente não chega a prever a possibilidade de produção do facto ilícito,
por descuido, desleixo, imprudência. Está em causa o desrespeito por regras elementares de prudência.
Exemplo: um fumador imprudente atira um cigarro fora, provocando um incêndio na casa alheia.
Podemos achar que a negligência consciente é sempre mais grave, mas não é necessariamente assim: VAZ
SERRA previa que a inconsciente era mais grave, mas não foi esta que vingou.
Na negligência, existe uma ligação da pessoa com o facto menos forte que o dolo, mas mesmo assim reprovável ou censurável.
3) Relevância prática
Qual é o interesse em distinguir estes graus de culpa? Há uma relevância prática:
1. Aplicação do art. 494.º: é possível uma moderação equitativa da indemnização caso haja mera culpa do agente. A ideia subjacente é a de que, se não houve intenção de causar danos, o lesante pode pedir ao juiz que reduza a indemnização.
2. Aplicação do art. 497.º/2, direito de regresso: havendo vários lesantes, respondem solidariamente.
Se um deles pagar, fica com o direito de regresso em relação aos restantes responsáveis, sendo que o montante que vai exigir de cada um é em função do grau de culpa. Se houver dois lesantes, A e B, e se A actuar com dolo directo e B com negligência, A terá de pagar mais que B.
3. Montante indemnizatório a título de compensação pelos danos não patrimoniais: o art. 496.º/4 (antigo n.º 3) diz que o montante indemnizatório será fixado equitativamente, tendo em conta as circunstâncias do art. 494.º. O juiz tem directrizes legais: julga segundo a equidade (não há tabelas legais), e está condicionada por três factores: o grau de culpabilidade do agente, a situação económica do lesante e do lesado e as demais circunstâncias do caso concreto.
a. Por exemplo, A causa um acidente de viação contra B, de 88 anos, e C, de 8 anos. Age com dolo directo contra C e negligência. Mesmo que os danos sejam idênticos, os montantes indemnizatórios podem ser diferentes. Um dos factores que condiciona este valor é o grau de culpa: por um lado, há uma necessidade de sancionação do comportamento, por outro, os estudos da psicologia demonstram que se a pessoa souber que lhe estão a causar um dano de propósito, essa pessoa sofre mais. Deve haver uma certa proporção entre o montante e o grau de culpa.
b. Mas devemos ponderar também outras circunstâncias do caso concreto: quem sofre mais é C, que tem 8 anos, por causa da duração da lesão (este é um factor a ponderar).
Assim, regra geral a culpa não é o critério que dá a compensação do dano, a não ser no caso dos danos não patrimoniais. Enquanto que nos danos não patrimoniais, o juiz tem de atender a várias circunstâncias; nos danos patrimoniais, a indemnização é fixada em função do montante dos danos. Não existe no nosso sistema a figura dos danos punitivos, que vão para além dos danos reais e visam sancionar
a conduta do agente por esta ter sido censurável. Esta questão está muito próxima dos danos não patrimoniais: a compensação dos danos não patrimoniais não tem um valor ab initio, é necessário atender a vários factores; já nos danos patrimoniais, temos um valor fixo, e perguntamos se tem sentido dar um valor extra – a resposta é não, o limite máximo da indemnização é o valor do dano (caso contrário, teríamos um enriquecimento ilícito).
Ø Padrão de conduta
Principalmente no caso da negligência, que assenta na omissão de um dever de diligência, é necessário saber qual o padrão de conduta a que se recorre, sendo que existem dois critérios possíveis:
1. Critério de apreciação da culpa em concreto: aqui, confronta-se a conduta do agente com a conduta que ele normalmente tem. É necessário ver se o agente se afastou da sua normalidade ou não.
2. Critério de apreciação da culpa em abstracto: a conduta do agente é comparada com aquela que seria adoptado por uma pessoa diligente, sensata e razoável (o bom pai de família). É este o critério legal previsto, art. 487.º/2. É um critério mais exigente que o outro. Notas:
a. Não se confunda um juízo do bom pai de família com um juízo de normalidade.
b. É um critério maleável: aprecia-se a diligência em abstracto mas nas circunstâncias do caso concreto. Também pode ser maleável em função das circunstâncias profissionais (não se pode exigir a um estagiário advogado o mesmo que a um advogado).
Assim, nos termos do art. 487.º/2, a culpa é apreciada pela diligência do bom pai de família, nas circunstâncias do caso (fazer remissão recíproca para o art. 789.º/2, que diz que a culpa é apreciada nos mesmos termos da responsabilidade extracontratual). O bom pai de família é o homem médio do sector, da actividade em causa; sendo que é necessário ainda um enquadramento fáctico, nas circunstâncias do caso concreto. Qual a racionalidade da adopção deste critério?
1. É o único critério que impõe uma auto-exigência, uma auto-consciencialização, um comportamento ajuizado por parte das pessoas – por exemplo, um médico tem de saber quando tem de parar de operar, pela perda de faculdades que a idade acarreta.
2. Para além disto, é um critério mais justo do ponto de vista da vítima: não seria justo deixar uma vítima de um acidente sem indemnização pelo facto de o condutor ser cego.
Ø A culpa como deficiência da vontade ou como conduta deficiente
Também no âmbito da negligência, podemo-nos perguntar se no âmbito da culpa entra apenas a deficiência da vontade ou se, por outro lado, há culpa mesmo que o sujeito tenha tido vontade de alterar a sua conduta (deficiência da conduta).
Para ANTUNES VARELA,apesar de a letra da lei apontar sobretudo para o empenho da vontade, a melhor solução e aquela que melhor se coaduna com o critério da culpa em abstracto é a que define a mera culpa como uma conduta deficiente e não a restringe a uma simples deficiência na vontade, pelos mesmos motivos que levam à adopção do critério da culpa em abstracto – é um critério mais pedagógico e mais justo do ponto de vista do lesado. Para além disto, quanto às deficiências mais graves (como cegueira ou surdez), esta orientação terá a vantagem de levar o interessado a coibir-se dos actos que escapam ao círculo das suas aptidões naturais.
Ø Prova da culpa
Sendo a culpa do lesante um elemento constitutivo do direito à indemnização, nos termos das regras gerais incumbe ao lesado fazer a sua prova (art. 342.º/1). Isto é o que consta do art. 487.º: é ao lesado que incumbe provar a culpa do lesante, salvo quando haja presunção de culpa. O que nos interessa aqui é a excepção à regra geral, que consta do art. 344.º: quando haja uma presunção legal, as regras invertem-se, ou seja, o ónus da prova inverte-se. O lesante afastará a sua responsabilidade provando que a sua conduta foi diligente. As presunções legais de culpa são as que constam dos arts. 491.º, 492.º, 493.º e 503.º/3.
Também quando haja uma violação de uma norma de protecção (por ex., do direito penal ou do direito rodoviário) o juiz presume a culpa – temos uma presunção judicial de culpa. Um dos autores que contribuiu para esta posição foi SINDE MONTEIRO, e tem a ver com a força jurídica das normas de protecção: quando são violadas, presume-se que os interesses que esta visava proteger não foram respeitados.
1) Art. 491.º: consagra a presunção de culpa dos vigilantes – pais, tutores, enfermeiros, professores, etc.
Assim, no caso de danos causados por incapazes (pessoas naturalmente incapazes) a terceiros, presume-se que houve culpa das pessoas obrigadas a vigiá-los. As pessoas vigilantes de outrem, por lei ou contrato, por virtude da incapacidade natural das pessoas vigiadas, são responsáveis pelos danos que os vigiados causarem a terceiros. Há aqui uma presunção legal de culpa pois no artigo se lê "salvo se mostrarem que cumpriram o dever de vigilância ou se mostrarem que os danos se teriam produzido à mesma". Estas são, portanto, duas formas de ilibir a presunção legal de culpa:
1. Cumprimento do dever de vigilância;
2. Relevância negativa da causa virtual.
Notas:
1. Não se podem tratar de danos causados ao próprio vigilante – aí, têm de se ir buscar as regras gerais do art. 483.º e 489.º, não havendo qualquer inversão do ónus da prova.
2. Trata-se de uma responsabilidade por facto próprio: é o vigilante que é responsabilizado pelos danos causados pelo vigiado, ou seja, não responde pelo facto do vigiado, mas por o vigilante ter omitido o dever de vigiar. Apesar de serem danos causados pelo vigiado, é uma responsabilidade por facto próprio, pela omissão do dever do vigilante – culpa in vigilando.
3. Nem todos os obrigados a vigiar estão sujeitos à presunção de culpa, mas só aqueles cujo dever de vigilância resulta da incapacidade natural do vigiado – por excelência, a menoridade.
2) Art. 492.º: consagra uma presunção de culpa do proprietário ou possuidor de uma obra que ruir devido a defeito de construção ou conservação (é o mais comum), que responde pelos danos que causar, salvo se provar que não houve culpa da sua parte ou que, mesmo com a diligência devida, os danos não se teriam evitado (de novo a relevância negativa da causa virtual). Novamente temos aqui duas formas de ilidir a presunção de culpa:
1. Prova do cumprimento do dever de conservação.
2. Relevância negativa da causa virtual.
Notas:
1. Esta solução estende-se a outras obras, sendo consideradas como tais todas as construções ligadas ao solo ou unidas ao prédio (muros, pontes, colunas, aquedutos, poços, canais, postes, etc.), mas não as coisas móveis sem tal ligação (ex: vaso) nem os produtos naturais ligados ao solo (como as árvores).
2. Pode haver aqui lugar à responsabilidade contratual do empreiteiro por defeito nas obras de construção e conservação, perante o dono da obra ou por danos causados a terceiro, que é uma responsabilidade mais objectiva.
3. Se o dano for exclusivamente devido a defeito de conservação, não é o proprietário que responde, mas sim quem tiver o dever de o conservar (por ex., o usufrutuário, art. 1472.º). Se também houver culpa do proprietário ou possuidor, respondem ambos solidariamente.
3) Art. 493.º: consagra uma presunção de culpa no caso de danos causados por coisas, animais ou por actividades perigosas. O n.º 1 abrange as coisas e animais e o n.º 2 o exercício de actividades perigosas.
N.º 1: quem tiver a seu cargo a vigilância de coisas móveis/imóveis ou de animais responde pelos danos que estas causarem, salvo se ilidir a presunção através da prova do cumprimento ou da relevância negativa da causa virtual. Esta também é uma responsabilidade do vigilante, distinguindo-se do art. 491.º pois este se refere à vigilância de pessoas. Note-se que não é o proprietário que responde, mas sim o mero detentor (que pode também ser proprietário).
São possíveis duas interpretações deste artigo: ou o legislador quis abranger qualquer dano que surgisse
pela violação da vigilância, ou quis falar de uma falta de vigilância específica. Por outras palavras, ou está em causa o poder propriamente dito, a retenção da coisa (quem é detentor da coisa responde pelos danos que esta causar), ou, numa interpretação mais exigente, é necessário ter o poder sobre a coisa e o dever de a vigiar. Em bom rigor, não há grande diferença prática, uma vez que o legislador entende que quem tem a coisa tem o dever de a vigiar; porém, por vezes quem tem o poder material pode não ter o dever de vigilância e vice-versa.
N.º 2: quem causar danos a outrem pelo exercício de actividades perigosas responde por eles, salvo se mostrar que empregou todas as diligências necessárias. A exclusão da responsabilidade só se faz pela elisão da culpa, e não pela prova da relevância negativa da causa virtual. O Código brasileiro e italiano consagram neste âmbito uma responsabilidade objectiva pelo risco, enquanto que o nosso se ficou pela culpa presumida, admitindo-se o afastamento da culpa pela prova do emprego de todas as diligências necessárias. Qual é o padrão de apreciação? É à luz do padrão do homem médio que se vai apreciar se o exercente empregou ou não todas as diligências necessárias.
Discutiu-se durante muito tempo se este n.º 2 se aplicava ou não à condução de veículos automóveis: os tribunais divergiam, até que houve um acórdão uniformizador da jurisprudência de 1980 que veio dizer que a responsabilidade objectiva do art. 503.º excluía a aplicação do art. 493.º. CALVÃO DA SILVA critica esta solução: também na responsabilidade por animais há responsabilidade objectiva do art. 502.º, mas isso não exclui a aplicação do n.º 1.
Qual o âmbito da presunção de culpa? Para a Escola de Coimbra, a presunção de culpa apenas atinge o pressuposto da culpa; porém, para a Escola de Lisboa e por influência de MENEZES CORDEIRO, a presunção de culpa é uma presunção genérica e ampla – de ilicitude, culpa e nexo de causalidade. A jurisprudência tem adoptado a posição de MENEZES CORDEIRO,que argumenta que a inspiração do nosso Código foi um artigo do Código Civil francês, que abrange também a ilicitude e o nexo de causalidade.
Porém, não parece ter sido esta a intenção do legislador, caso contrário tê-lo-ia referido expressamente; e, por outro lado, esta é uma posição extremamente onerosa para o lesante.
Ø Exclusão da responsabilidade de presumido culpado por alegação e prova da causa virtual
Ainda que não consigam ilidir a culpa pela prova do cumprimento, há uma segunda via de exclusão da responsabilidade: a prova da relevância negativa da causa virtual. A causa virtual é o facto (real ou hipotético) que tenderia a produzir certo dano, se este não fosse causado por um outro facto (causa real).
Imaginemos que, às 3h da manhã, rui um prédio por defeito de conservação; mas às 4h, por força de um terramoto, caem todos os prédios num raio de 4 km. Para excluir a sua responsabilidade, o dono do prédio vai alegar a causa hipotética ou virtual: enquanto que a causa real é a má conservação, o terramoto é
apenas uma causa hipotética ou conjectural, que serve para alegar que teriam eventualmente causados os mesmos danos. Ou seja, ainda que o proprietário tivesse feito as obras de conservação, o prédio teria à mesma ruído. Outro caso de causa virtual é o art. 1136.º/2.
Até que ponto uma causa virtual pode ser admitida em geral? Em abstracto, a causa virtual pode ter uma relevância positiva ou negativa:
1. Positiva: o autor da causa virtual responde pelo dano provocado pela causa real.
2. Negativa: a causa virtual exclui a responsabilidade do autor da causa real.
A tese maioritária é a da irrelevância, via de regra, da causa virtual, salvo quando a lei expressamente preveja a sua relevância. Nos casos que vimos, a causa releva mas negativamente, enquanto causa de exclusão da ilicitude – a causa só releva negativamente quando a lei expressamente o preveja, em circunstâncias excepcionais (por ex., não releva no caso do art. 493.º/2); e positivamente também se passa o mesmo, pois seria um salto brutal admitir em geral a sua relevância positiva.
1.4 Nexo de causalidade
O Código Civil não se refere expressamente a este problema, salvo no art. 563.º (relativo à obrigação de indemnização), onde se diz que a obrigação de indemnização só existe em relação aos danos que o lesado provavelmente não teria sofrido. Esta é a palavra-chave: o nexo de causalidade implica um juízo de probabilidade.
1.4.1 Teoria da conditio sine qua non
Mas como é que a doutrina tem tentado colocar o problema? Num primeiro momento, a doutrina que se impôs foi a doutrina da conditio sine qua non. Esta doutrina veio dizer que nem todas as circunstâncias que interferem no respectivo processo causal são causas do resultado; dentro do processo causal, são causas todas as condições sem as quais o resultado não se teria produzido. Porém, rapidamente esta doutrina começou a ser criticada por conduzir a resultados que repugnam ao sentimento comum de justiça. Imaginemos que A tem um acidente, é levado para o hospital, tem de levar uma transfusão sanguínea com sangue infectado com SIDA e morre. Se apenas se aceitasse a teoria da condição sine qua non, teríamos aqui uma responsabilidade conjunta de inúmeros agentes – da pessoa que causou o acidente, da pessoa que levou A para o hospital, da pessoa que fez a transfusão sanguínea, etc.
Assim, podemos aceitar a teoria da conditio sine qua non como primeiro patamar do nexo de causalidade, tendo entretanto surgido teorias mais selectivas para dar resposta ao problema da causalidade. Ainda hoje,
em França, é seguida a doutrina da condição sine qua non, pois esta dá responsáveis vários, em regime de solidariedade, em relação à vítima, que depois se devem entender em sede de acção de regresso.
1.4.2 Teoria da causalidade adequada
Assim, tornou-se necessário apurar melhor, no processo causal, onde se deve localizar o verdadeiro causador do dano. Partindo da teoria da condição sine qua non como ponto de partida, surgiu a doutrina da causalidade adequada: não basta que o facto praticado pelo agente tenha sido, no caso concreto, condição do dano; é ainda necessário que, em abstracto o facto seja uma causa adequada do dano.
Que o facto seja condição sine qua non do dano é necessário, mas não suficiente. É necessário fazer um juízo abstracto, o que significa que se devem tomar em consideração as circunstâncias cognoscíveis à data do facto por um observador experiente, mais as circunstâncias efectivamente conhecidas do lesante.
Notas:
1. Para que haja causa adequada, não é necessário que o facto, só por si, sem a colaboração de outros, tenha produzido o dano. Nada obsta a que o facto seja apenas uma das condições do dano.
2. Para que um dano seja considerado como efeito adequado de certo facto não é necessário que ele seja previsível para o autor desse facto, basta que seja objectivamente adequada.
3. A causalidade adequada não se refere ao facto e ao dano isoladamente considerados, mas ao processo factual que, em concreto, conduziu ao dano. O processo causal pode ser interrompido por um facto de terceiro ou por uma circunstância exterior.
Existe uma formulação positiva e negativa da causalidade adequada, partindo ambas da mesma premissa, mas distinguindo-se a nível do ónus da prova:
1. Formulação positiva: o facto é causa adequada do dano sempre que constitua uma consequência normal ou típica deste. Assim, segundo esta formulação, é necessário provar a conditio sine qua non mais a causa adequada, em abstracto, em geral, do dano; logo é o lesado, que invoca o direito à indemnização, que tem de fazer a prova de que o facto do agente é condição sine qua non e causa adequada do seu dano, em geral e em abstracto.
2. Formulação negativa: o facto que actuou como condição do dano só deixa de ser considerado como causa adequada se se mostrar indiferente para a verificação do dano, ou seja, se o tiver provocado por virtude de circunstâncias excepcionais ou anómalas. A conditio sine qua non tem de ser provada pelo lesado, mas presume-se causa adequada do dano, pelo que se inverte o ónus da prova, cabendo ao lesante provar a não adequação. Vale dizer que cabe ao lesante provar que o dano se deve a circunstâncias extraordinárias, anormais, excepcionais, ou seja, que no caso concreto aquele dano foi anormalmente causado por ele. Esta é uma posição mais favorável ao lesado.
Qual é a formulação mais aceitável? CALVÃO DA SILVA defende a formulação negativa, quer na responsabilidade por factos ilícitos, quer na responsabilidade pelo risco, uma vez que é mais adequada à protecção da vítima. Já ANTUNES VARELA defende a teoria negativa mas apenas para a responsabilidade por factos ilícitos:
1. Na responsabilidade por factos lícitos, o autor defende que um facto só deve ser considerado causa dos danos que constituam uma consequência típica dele; todos os outros devem ser suportados pelo titular dos interesses afectados.
2. Na responsabilidade por factos ilícitos, já se compreende a adopção da formulação negativa, uma vez que, estando em causa um facto ilícito e culposo do agente, o prejuízo deve recair sobre este.
O facto ilícito só deixará de ser considerado causa adequada quando tenham concorrido decisivamente circunstâncias extraordinárias, fortuitas e excepcionais.
O art. 563.º, apesar de não ser claro, consagra a teoria da causalidade adequada, o que resulta também dos trabalhos preparatórios do Código. Quanto à opção por uma das formulações, não faz qualquer referencia, pelo que é deixada margem ao intérprete – sendo a doutrina mais defensável a da formulação negativa,
“será essa a posição que, em princípio, deve reputar-se adoptada no nosso direito constituído”.
1.4.3 Referência à teoria do fim da norma
A doutrina da causalidade adequada foi desenvolvida pelos autores alemães. Porém, recentemente tem sido posto em causa na doutrina alemã, por autores que defendem a teoria do fim da norma na responsabilidade por factos ilícitos. Segundo esta teoria, se o dano se subsume no fim da norma, no seu âmbito de protecção, esse dano deve ser indemnizado. A doutrina alemã moderna tem transferido o fim da norma para a causalidade adequada, defendendo que o fim da norma responde melhor.
ANTUNES VARELA diz que uma coisa não impede a outra: se o dano se subsume no fim da norma, é ilícito, mas ainda assim o facto ilícito pode não ser adequado a produzir o dano. Por outro lado, em certos casos não se torna necessário recorrer à teoria do fim da norma para delimitar a responsabilidade do agente, pois esta falha logo no requisito da ilicitude – por exemplo, na segunda modalidade da ilicitude, se o dano não cair no âmbito da disposição legal, o facto não é ilícito. O fim da norma não prescinde do apuramento do nexo da causalidade. O art. 483.º é claro na distinção: fala do dano resultante, logo há necessidade de apurar se o dano resultante foi causado adequadamente pelo autor.
1.5 Dano ou prejuízo
1.5.1 Noção
Não há responsabilidade civil sem dano. O dano é um prejuízo que alguém sofre, na sua pessoa e nos seus bens.
1.5.2 Classificação
1) Danos pessoais e danos patrimoniais: os danos pessoais lesam a pessoa, enquanto que os danos patrimoniais lesam o património.
2) Danos reais e danos patrimoniais: o dano real é a perda in natura que o lesado sofreu. É o dano real que releva para saber se há nexo de causalidade. Por outro lado, o dano patrimonial traduz-se na projecção patrimonial do dano real, e é importante para aferir do montante indemnizatório. Por exemplo, enquanto que os ferimentos da vítima constituem o dano real, as despesas de saúde representam o dano patrimonial.
3) Dano patrimonial e dano não patrimonial: muitas vezes, fala-se de dano patrimonial com um sentido diferente, para abranger os prejuízos susceptíveis de avaliação em dinheiro. Ao lado destes danos avaliáveis em dinheiro, temos os danos não patrimoniais, que por atingirem bens que não integram o património do lesado (por ex., a honra), não são susceptíveis de avaliação em dinheiro. Antes, aos danos não patrimoniais era dado o nome de danos morais, porém esta expressão é muito restrita, abrangendo menos danos que os não patrimoniais (existem danos patrimoniais que não derivam da ofensa à personalidade moral, como os sofrimentos físicos ou os danos estéticos)3.
Durante muitos séculos, vigorou a ideia de que os danos morais não eram indemnizáveis: posteriormente, estabeleceu-se uma compensação por estes danos, visando substituir os valores perdidos e dando novos horizontes à vítima – o dinheiro poderia compensar os danos, mesmo não colocando o lesado na situação que estaria sem a lesão. Dentro desta lógica, há danos directamente pessoais, sofridos na pessoa, mas que são indirectamente acompanhados de outros danos patrimoniais – por exemplo, o mesmo acidente pode causar danos pessoais e patrimoniais.
4) Danos emergentes e lucros cessantes: os danos emergentes compreendem os prejuízos causados nos bens ou nos direitos já existentes na titularidade do lesado à data da lesão (podendo traduzir-se em menos activo ou em mais passivo), enquanto que os lucros cessantes abrangem os benefícios que o lesado deixou de obter por causa do facto ilícito, mas a que ainda não tinha direito à data da lesão. Por exemplo, num acidente com um táxi, será um dano emergente o prejuízo causado no veículo, e lucro cessante o ganho que deixou de obter pelo facto de não ter o veículo disponível para as viagens que
deveria efectuar.
O art. 564.º/1 diz que o dever de indemnizar compreende não só o prejuízo causado como os benefícios que o lesado deixou de obter em consequência da lesão. A primeira parte refere-se aos danos emergentes, e a segunda parte aos lucros cessantes ou frustrados. O n.º 2 diz que o juiz pode atender aos danos futuros no cálculo dos danos emergentes e dos lucros cessantes, desde que previsíveis:
1. No processo declarativo, muitas vezes consegue-se provar que há danos mas não se consegue quantificá-los, pelo que se pode remeter para a execução da sentença o apuramento do montante indemnizatório.
2. Ou ainda pode haver danos em curso durante o processo declarativo, que são igualmente remetidos para a execução (podendo-se fixar uma indemnização provisória, art. 565.º, pelos danos já causados, remetendo o apuramento da indemnização total para momento posterior).
5) Dano positivo ou dano do cumprimento e dano negativo ou dano da confiança: a doutrina clássica diz que são apenas os danos negativos, traduzidos na violação da confiança, que são indemnizáveis em sede de ruptura injustificada das negociações; no entanto, a doutrina moderna diz que devem ser todos os danos indemnizados. Os danos negativos são aqueles que decorrem do facto de o lesado ter acreditado na celebração do contrato e este não se ter celebrado; enquanto que os danos positivos são aqueles que encontramos na responsabilidade contratual e que decorrem do incumprimento ou da mora. Esta é uma distinção que interessa à responsabilidade contratual.
1.5.3 A figura dos danos punitivos e da perda de chance ou de oportunidade
1) Danos punitivos: é uma figura muito usada no direito anglo-saxónico. Prende-se com a função da responsabilidade civil: a sua função decisiva é a função ressarcidora, de colocar o lesante na posição em que estaria sem a lesão (art. 562.º). Mas há ainda uma função secundária, que é uma função preventiva, punitiva, sancionatória do lesante. A responsabilidade civil exerce uma pressão sobre todos nós no sentido de não causar danos, sob pena de responder sobre eles. A figura dos danos punitivos é aquela figura na qual se pode indemnizar o lesante por danos superiores aos danos efectivamente causados, de forma a punir o lesante: está a colocar-se a tónica na punição do lesante, obrigando-o a indemnizar danos mesmo não ocorridos ou em montante superior.
No nosso sistema, de origem romanista, não há lugar para os danos punitivos. Isto resulta da conjugação dos seguintes argumentos:
1. A finalidade da responsabilidade civil é a da reconstituição da situação hipotética, art. 562.º, ou seja, colocar o lesado na situação em que estaria sem a lesão. Conferir uma indemnização superior aos danos seria enriquecer ilicitamente o lesado.