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Direito de retenção

No documento RESUMOS DOII (páginas 90-95)

Ø Noção

Nos termos do art. 754.º, o devedor que disponha de um crédito contra o seu credor goza do direito de retenção se, estando obrigado a entregar uma coisa, o seu crédito resultar de despesas feitas por causa da coisa ou de danos por ela causados. É um direito real de garantia, mas tem sentido aqui convocá-lo pois garante uma obrigação. São três os pressupostos necessários para que haja direito de retenção:

• Que o devedor obrigado a entregar a coisa detenha esta lícita e legitimamente (art. 756.º, al. a)).

• Que o devedor seja simultaneamente credor da pessoa a quem deve entregar a coisa legitimamente detida.

• Que o direito de crédito da pessoa obrigada a entregar a coisa detida tenha estreita conexão causal com essa mesma coisa, resultante de despesas feitas por causa dela ou de danos por ela causados.

Notas:

• Ao lado do direito de retenção, previsto com carácter geral no art. 754.º, o legislador regula certas figuras específicas no art. 755.º, como a do art. 755.º/1/f) (contrato-promessa).

• Não é necessário registo, funciona ope leges, o que nos permite concluir que este direito não tem fonte convencional.

• VAZ SERRA foi mais longe, propondo o direito de retenção na hipótese de os dois créditos se fundarem na mesma relação jurídica, mas esta posição não vingou.

• O direito de retenção tem uma força especial na lei porque prevalece, por exemplo, quanto à hipoteca (art. 759.º). Isto tem consequências gravosas na prática.

• O exercício do direito de retenção tem as seguintes consequências:

o Não há devolução da coisa.

o O bem pode ser executado, e o titular do direito vai ser pago com preferência face aos demais credores, tem uma posição privilegiada.

Como é que o direito de retenção e a excepção de cumprimento se distinguem?

• Desde logo, pelo fundamento: na excepção, é o sinalagma funcional (uma existe porque outra existe); e, no direito de retenção, há fundamento para não se entregar uma coisa quando se devia.

• O direito de retenção pode ser afastado mediante caução (art. 756.º/d)) mas não a excepção (há aqui uma maior protecção).

• O direito de retenção aplica-se a mais casos: não se exige um contrato bilateral, que haja uma sinalagmaticidade em relação aquela prestação. Apenas se exige que haja despesas ou danos com a coisa.

Ø Função coercitiva e função de garantia

O direito de retenção tem uma dupla função: a função de garantia e a função coercitiva.

• Função de garantia: o direito de retenção é um direito real de garantia, pelo que, recaindo sobre coisa móvel, o seu titular goza dos direitos do credor pignoratício, salvo no que respeita à substituição ou reforço da garantia (art. 758.º) – nomeadamente, goza do direito de preferência sobre os demais credores (art. 666.º/1) e pode executar a coisa retida (art. 675.º). Recaindo o direito de retenção sobre coisa imóvel, o respectivo titular tem a faculdade de a executar, nos mesmos termos em que o pode fazer o credor hipotecário, e de ser pago com preferência sobre os demais credores (art. 759/1 e 2).

• Função coercitiva: cumulativamente, o direito de retenção exerce uma função de pressão sobre o devedor para este pagar as despesas feitas por causa da coisa ou por causa dos danos por ela causados. Este meio de pressão pode revelar-se de grande eficácia, sobretudo se a coisa retida é de valor muito superior à dívida com ela conexionada.

2.2 Coerção judicial: a sanção pecuniária compulsória

2.1 Noção

A sanção pecuniária compulsória vem prevista no art. 829.º-A, podendo ser definida como a condenação pecuniária decretada pelo juiz para constranger o devedor a cumprir a sua obrigação. É, pois, um meio de defesa judicial, que visa exercer pressão sobre o devedor para cumprir a sua obrigação, sob a ameaça

de uma sanção pecuniária. Apesar de ser um meio judicial, não pode ser decretada ex officio, mas apenas a requerimento do credor (algo que CALVÃO DA SILVA critica).

2.2 Âmbito de aplicação: prestações de facto infungíveis

Nas prestações de facto infungíveis, o credor pode requerer em execução que o facto seja prestado por outrem à custa do devedor (art. 828.º). Este é um caso de execução específica da obrigação, com o credor a conseguir o resultado prático da prestação e a satisfazer plenamente o seu interesse.

Tratando-se de uma prestação de facto infungível, a substituição do devedor por terceiro não é idónea para dar satisfação ao interesse do credor, uma vez que este só se satisfaz pela actividade do devedor. A impossibilidade de execução específica das prestações de facto não impede o credor de pedir o cumprimento, tal como não impede o juiz de condenar o devedor no pedido (art. 817.º). Na hipótese de o devedor continuar a não cumprir a prestação, a lei criou o mecanismo da sanção pecuniária compulsória para garantir a efectividade da condenação, coagindo o devedor ao cumprimento.

Assim, a sanção pecuniária compulsória é, numa primeira fase, uma medida coercitiva, de carácter patrimonial, seguida de sanção pecuniária na hipótese de a condenação principal não ser obedecida e cumprida.

ComoCALVÃO DA SILVA nota, a sanção pecuniária não é nenhuma forma de execução específica, ou seja, não é uma medida executiva mas sim um meio de constrangimento do devedor. Isto significa que a sua colocação sistemática no Código Civil é errónea: devia estar na acção de cumprimento de execução.

2.2 Modos de determinação

O juiz deve, em função das circunstâncias do casos (art. 829.º-A/1) e segundo critérios de razoabilidade (n.º 2), decretar uma sanção que possa ser eficaz na consecução dos seus objectivos. Nos termos do n.º 1, o juiz pode optar entre duas modalidades de fixação da sanção (sem prejuízo de poder fixar um só montante global:

• Em função dos dias de atraso. É a modalidade mais frequente.

• Em função do número de prestações em atraso.

Quais são os critérios que o juiz deve ter em conta para saber qual o montante a fixar? O juiz vai apreciar o montante em falta, o conteúdo da prestação, mas não só – deve também ter em conta critérios de razoabilidade, nomeadamente a situação económica do devedor.

2.3 Termo inicial e termo final

O juiz também decide o termo inicial ou a quo, ou seja, o momento a partir do qual a sanção pecuniária compulsória decretada começa a produzir efeitos. No caso de silêncio do juiz, o termo a quo deve ser a data do trânsito em julgado da sentença.

Quanto ao termo final, este não tem de ser fixado pelo juiz, o que se compreende tendo em conta as finalidades da sanção pecuniária compulsória. Quando o juiz ordena uma sanção pecuniária compulsória sem duração, o devedor sabe que ela valerá e produzirá efeitos até ao momento do cumprimento da obrigação principal.

2.4 Destino

No n.º 3, diz-se que o montante da sanção se destina em partes iguais ao credor e ao Estado. A participação do Estado explica-se por um motivo individual – está a facultar ao credor meios de assegurar os seus direitos – e social – visa assegurar o respeito pela justiça.

2.5 Independência da indemnização

O n.º 2 dispõe que a sanção pecuniária compulsória é fixada sem prejuízo da indemnização a que houver lugar. A sanção pecuniária compulsória não tem, pois, natureza indemnizatória, sendo independente da existência e da extensão do dano resultante do não cumprimento. Assim, deve ser decretada mesmo que o devedor não faça prova da ausência de dano sofrido pelo credor, e o seu quantum não é fixado em função da extensão do dano. Sem esta autonomia e independência, a sanção pecuniária compulsória não desempenharia a sua função coercitiva.

Porque independentes, a sanção pecuniária compulsória e a indemnização são cumuláveis. Assim, se a sanção não é eficaz e o incumprimento se tem por definitivo, o credor tem direito à indemnização compensatória e à sanção pecuniária compulsória, ambas susceptíveis de execução.

2.6 A sanção pecuniária compulsória legal (art. 829.º-A, n.º 4)

O n.º 4 fixa uma sanção pecuniária legal para as obrigações pecuniárias, estipulando que são automaticamente devidos 5% de juros ao ano, a contar da data do trânsito em julgado da sentença de condenação. CALVÃO DA SILVA critica este preceito, que vai contra o carácter subsidiário da sanção pecuniária compulsória afirmado no n.º 1: a ser assim, mais coerente seria consagrar o carácter geral da sanção pecuniária compulsória, aplicável a todas as obrigações.

VI.DO INCUMPRIMENTO DAS OBRIGAÇÕES

1.GENERALIDADES

1.1Noção

O incumprimento (ou não cumprimento, expressão mais correcta) é a situação objectiva de não realização da prestação debitória e de insatisfação do interesse do credor, independentemente da causa de onde a falta procede, e sem que se tenha entretanto verificado qualquer das causas extintivas típicas da relação obrigacional.

1.2 Modalidades

As modalidades do cumprimento distinguem-se tipicamente quanto a:

• Causa;

• Efeitos.

Na distinção quanto à causa, temos:

Incumprimento imputável ao devedor: trata-se de um incumprimento culposo, existe culpa do devedor.

Incumprimento inimputável ao devedor: não há culpa do devedor, podendo haver:

o Culpa do credor.

o Culpa de um terceiro.

o Causa de força maior.

Note-se que, quando estamos perante uma situação de incumprimento, podemos dizer que esse incumprimento é culposo pois se presume a culpa do devedor – art. 799.º/1. É o devedor que tem de provar que agiu sem culpa. Em Coimbra, entendemos que esta presunção é restrita à culpa. No entanto, seguindo a escola de MENEZES CORDEIRO e outros, há quem entenda que o que está aqui em causa é não só uma presunção de culpa, mas de ilicitude.

Na distinção quanto aos efeitos, temos:

Não cumprimento definitivo: pode provir da impossibilidade da prestação (fortuita ou causal, imputável ao devedor ou imputável ao credor) ou da falta irreversível de cumprimento;

Mora;

Violação positiva do contrato ou cumprimento defeituoso.

Esta última figura é a mais complexa: há cumprimento do contrato, há um acto do devedor, mas não é conforme às expectativas – daí se chamar “violação positiva”. No direito das obrigações, não temos uma norma geral, um regime, que se aplique ao cumprimento defeituoso. Temos de analisar se eventualmente algumas regras se aplicam por analogia (ex: incumprimento parcial); ou, se tivermos perante um contrato tipificado na lei, se há normas especiais (ex: compra e venda e empreitada) O próprio artigo 799.º menciona cumprimento defeituoso, o legislador não se esqueceu dele mas não previu um regime geral.

Cada uma destas modalidades pode ser imputável ou inimputável.

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