1.1 Impossibilidade definitiva
A prestação torna-se impossível quando, por qualquer circunstância, o comportamento exigível do credor se torna inviável: se o obstáculo ao cumprimento for permanente, estamos perante uma impossibilidade definitiva. Note-se que estamos a falar de uma impossibilidade superveniente e não originária, uma vez que esta resulta na nulidade do contrato.
A impossibilidade definitiva pode ser objectiva ou subjectiva:
• Objectiva: ocorre quando a prestação se torna impossível para qualquer pessoa – por ex., o legislador proíbe a comercialização daqueles bens ou o bem é destruído.
• Subjectiva: o próprio devedor não pode realizar a prestação, a impossibilidade diz apenas respeito à pessoa do devedor.
Ø Efeitos: a exoneração da prestação
A principal consequência da impossibilidade definitiva é a extinção da obrigação (art. 790.º), com a consequente exoneração do obrigado – o credor perde o direito a exigir a prestação e não tem, por conseguinte, o direito à indemnização pelos danos provenientes do não cumprimento. Efeito que se verifica, quer a impossibilidade provenha de facto do credor ou de terceiro, quer resulte de caso fortuito ou da própria lei. Nada obsta também que a impossibilidade proceda de um facto da autoria do devedor e a obrigação se extinga de igual modo: basta que este afaste a presunção de culpa do art. 799.º.
Para que a obrigação se extinga, basta que a prestação seja impossível para o devedor, ou é ainda necessário que a impossibilidade se estenda a toda e qualquer pessoa? O art. 791.º responde a esta
questão: a impossibilidade relativa à pessoa do credor comporta igualmente a extinção da obrigação, se o devedor, no cumprimento desta, não se puder fazer substituir por terceiro.
Assim, os efeitos são diferentes consoante estivermos perante uma impossibilidade objectiva ou subjectiva:
• Ocorrendo uma impossibilidade objectiva, extingue-se a obrigação, art. 790.º. O credor não pode exigir a prestação, o devedor invoca que a prestação não é exigível porque a obrigação se extinguiu.
• Tratando-se de uma impossibilidade subjectiva, temos de determinar se a prestação é fungível ou infungível, art. 791.º:
o Fungível: é a regra no direito civil. Não há extinção da obrigação e o devedor tem de se fazer substituir por terceiro, faz parte da sua obrigação.
o Infungível: há extinção da obrigação.
Há quem relacione a distinção entre impossibilidade objectiva e subjectiva com a classificação das obrigações em obrigações de meios e obrigações de resultado. Temos uma obrigação de resultado quando o devedor se compromete a garantir a produção de certo resultado em benefício, e uma obrigação de meios quando o devedor promete apenas realizar determinado esforço ou diligência para que tal resultado se obtenha. Nas primeiras, diz-se que só a impossibilidade objectiva exoneraria o credor, ao passo que, as outras, tanto a impossibilidade objectiva como a subjectiva constituiriam causa liberatória do obrigado.
ANTUNES VARELA recusa este critério, afirmando que aqui se aplicam à mesma as regras gerais.
Para além da exoneração da prestação, a impossibilidade tem outros efeitos.
Ø Commodum de representação
Está previsto no art. 794.º, e refere-se aquelas situações em que ocorre uma interferência de um terceiro, que impossibilita a realização da prestação. Se o devedor, em virtude do facto que determinou a impossibilidade, adquirir um direito contra o terceiro, o commodum de representação permite que o credor se coloque no lugar do devedor (sub-rogação).
Se a obrigação tiver por objecto a prestação de coisa determinada, só haverá lugar ao commodum de representação se o domínio não se tiver transferido para o credor no momento em que a prestação se torna impossível. Se, nesse momento, a coisa já pertencer ao credor, o direito contra terceiro nascerá directamente no património do credor – havendo destruição do bem, enquanto proprietário, é o credor que reage. Por este motivo, o commodum de representação ocorre de forma residual: a regra, entre nós, é o princípio da consensualidade (a transferência da propriedade opera com o mero acordo das partes).
Ø Commodum de representação
Num contrato bilateral, tornando-se uma das prestações impossível por causa não imputável ao credor, o art. 795.º/1 diz-nos que a contraprestação se extingue. Se o credor já tiver realizado a sua prestação, tem direito a pedir de volta a sua prestação nos termos do enriquecimento sem causa: em bom rigor o credor, que já realizou a sua prestação, não pode exigir tudo aquilo quanto prestou, mas apenas aquilo com o qual o devedor se enriqueceu.
E se o próprio credor tiver contribuído para a impossibilidade, ou seja, se esta for por causa imputável ao credor? Neste caso, não se justifica que fique desobrigado – é esta situação particular que o legislador regula no n.º 2. O credor tem de realizar a contraprestação; porém, se o devedor tiver algum benefício com a desoneração, o valor de benefício será descontado na contraprestação.
Ø O problema do risco
Nos contratos com efeitos reais, não aplicamos o art. 795.º, mas sim o art. 796.º: é nesta medida que se diz que o art. 796.º tem prevalência sobre o art. 795.º. Se a prestação se torna impossível, temos de saber se o outro sujeito vai ou não ter de realizar a contraprestação: se aplicássemos o art. 795.º, diríamos que a outra prestação deixaria de ser exigida; porém, temos de saber quem é o proprietário, para saber sobre quem corre o risco do perecimento da coisa.
O art. 796.º/1 estipula que, nos contratos com efeitos reais, o perecimento ou deterioração da coisa por causa não imputável ao alienante corre por conta do adquirente. Por exemplo, A vende a B certa coisa móvel, que é destruída por um incêndio não imputável a A. Como o domínio da coisa se transferiu para B no próprio momento do contrato, é por conta de B (credor e adquirente da coisa) que corre o risco da destruição da coisa. Assim, o credor não goza dos benefícios do art. 795.º/1, tendo de entregar o preço à mesma. Isto resulta da aplicação do princípio geral res perit domino, ou seja, o risco segue a propriedade.
O n.º 2 diz que, se o alienante tiver a coisa em seu poder por força de termo a seu favor, o risco corre por força deste. Por exemplo, A vende um barco a B mas constituem um termo a favor de A, por força do qual A pode ficar com o bem durante 15 dias para uma exposição. Nestes casos, quem sofre o risco não é o proprietário, mas sim o alienante.
O n.º 3 refere regras especiais sobre a condição resolutiva e suspensiva.
• Se houver um contrato de compra e venda com uma condição resolutiva, temos uma “propriedade temporária”, ou seja, o proprietário da coisa é o adquirente e é ele que suporta o risco. “O risco do perecimento, durante a condição, corre por conta do adquirente” – mas isto só se a coisa lhe tiver sido entregue, pois caso contrário há uma certa fragilidade da posição do adquirente, que não só não tem a coisa, como tem a propriedade.
• Se a condição for suspensiva, os efeitos do contrato não se produzem e o proprietário continua a ser o vendedor, logo o risco corre sobre o próprio alienante (n.º 3, in fine).
Numa última nota, o que acontece quando está em causa um contrato com cláusula de reserva de propriedade? Em bom rigor, a cláusula de reserva de propriedade tem características da condição resolutiva e da condição suspensiva: é resolutiva para a propriedade do alienante; mas, ao mesmo tempo, suspende-se o efeito da transmissão da propriedade, ou seja, é suspensiva para o adquirente. Porém, todos os outros efeitos produzem-se: o vendedor tem de entregar a coisa e o comprador tem de pagar o preço. O proprietário continua a ser o alienante, logo talvez se justifique que seja ele a suportar o risco. O legislador não se pronunciou sobre isto, mas podemos fazer uma analogia: se não se produz o efeito real (transferência da propriedade), tratamos a cláusula de reserva de propriedade como uma cláusula suspensiva. Pode ser injusto quando a coisa tiver sido entregue, mas está a cumprir-se a regra geral segundo a qual o risco segue a propriedade.
Já o art. 797.º refere-se ao caso especial de a coisa, por força da convenção, dever ser enviada para lugar diferente do cumprimento. Neste caso, quando se trate de coisa transportada, a transferência do risco corre por conta do transportador. O alienante não é a pessoa que sofre o risco de destruição, transfere o risco através da entrega da coisa ao transportador.
1.2 Impossibilidade temporária e parcial
A impossibilidade pode ser, não definitiva, mas meramente temporária, art. 792.º. O legislador diz-nos que, se a impossibilidade for temporária, não há indemnização porque não há culpa do devedor (n.º 1), mas este não fica desonerado da obrigação, visto ser apenas temporário o obstáculo ao cumprimento. O legislador distingue impossibilidade temporária e mora: temos uma impossibilidade temporária quando esta se deve a causa não imputável ao devedor; e mora quando há culpa do devedor no atraso da prestação.
No fundo, numa situação de impossibilidade temporária, o contrato mantém-se, mas os seus efeitos estão suspensos. Isto pode não interessar ao credor, pelo que o legislador, no n.º 2, determina a impossibilidade só se considera temporária quando o interesse do credor se mantiver. Em suma, nunca há lugar à
indemnização e mantém o dever de realizar a prestação, mas apenas se o credor mantiver também o seu interesse.
Podemos ter também uma impossibilidade parcial. Nestes casos, o art. 793.º/1 dispõe que, no caso de ser cumprida parte apenas da prestação devida, por virtude da impossibilidade da restante, a contraprestação deve ser reduzida proporcionalmente. Ou seja, o devedor exonera-se mediante a prestação daquilo que for possível, devendo ser reduzida a contraprestação.
Porém, mais uma vez, o credor pode não ter interesse no cumprimento parcial, até porque o princípio nas obrigações é o cumprimento integral. Se tal suceder, o n.º 2 estabelece uma situação excepcional, de resolução do contrato (excepcional porque a resolução assenta, normalmente, num incumprimento com culpa do devedor, e aqui não há culpa). Por exemplo, alguém compra um cavalo a um criador alemão e um material acessório; e surge uma lei que impede o comércio desses cavalos mas não do material. Não interessa ao comprador apenas receber o material acessório e não o cavalo, pelo que pode resolver o contrato.
1.3 Outras situações: frustração do fim, realização da prestação por outra via e não exercício definitivo do direito por causa imputável ao credor
A impossibilidade pode igualmente resultar de:
• Frustração do fim: ocorre quando se torna impossível, não o comportamento do devedor, mas o próprio interesse do credor nesse comportamento. Por exemplo, o aluno, a quem o professor dava aulas de canto, ensurdece por completo. Estas situações cabem dentro do conceito de impossibilidade.
• Realização da prestação por outra via: por exemplo, A mandou vir um reboque, com o fim de retirar o veículo que obstruía a saída da sua garagem, mas entretanto apareceu o dono da viatura, que a retirou. Enquanto que nos casos normais de impossibilidade o interesse do credor fica definitivamente por satisfazer, aqui este foi preenchido por outra via que não o cumprimento. Isto torna a prestação impossível (o rebocador já não pode retirar o caso), caindo igualmente dentro do conceito de impossibilidade.
• Não exercício definitivo do direito, por causa imputável ao credor: diferente destes casos é o de não exercício definitivo do direito, por causa imputável ao credor. Por exemplo, A reserva passagem num cruzeiro turístico mas, a caminho do barco, sofre um acidente que o impossibilitou de partir. A prestação não só era possível no momento aprazado, como foi inclusivamente realizada: o que não houve foi o exercício do direito por parte do credor. Este não é um caso de verdadeira impossibilidade.