A dependência de drogas como um problema de Identidade:
Possibilidades de apresentação do ‘Eu’ por meio da Oficina
Terapêutica de Teatro
ALUÍSIO FERREIRA DE LIMA
A dependência de drogas como um problema de Identidade:
Possibilidades de apresentação do ‘Eu’ por meio da Oficina
Terapêutica de Teatro.
Dissertação apresentada à banca examinadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social, como exigência parcial para a obtenção do título de MESTRE em Psicologia Social sob orientação do Prof. Dr. Antonio da Costa Ciampa.
Comissão julgadora
______________________________
“O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte dele, até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer, de dentro do inferno, o que não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.”
In memoriam
Ao meu pai, Luís C. Lima e avô Raimundo C. Lima, com quem aprendi a importância da superação das adversidades e o valor das histórias de vida.
A minha filha Stephanie Caroline, por lembrar-me a todo instante que um mundo melhor é algo pelo qual vale a pena lutar.
A Kelli de Fátima Teixeira, por ter me mostrado que é possível uma metamorfose miraculosa.
LIMA, A. F. (2005). A dependência de drogas como um problema de Identidade: Possibilidades de apresentação do ‘Eu’ por meio da Oficina Terapêutica de Teatro. Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Palavras Chave: Uso de Drogas, Oficinas Terapêuticas, Identidade, Psicologia
Social, Sintagma Identidade-Metamorfose-Emancipação.
Esta dissertação propõe investigar o sentido da oficina terapêutica de teatro para uma
pessoa que passou por ambulatório de tratamento da dependência química do
município de Diadema - SP. Para isso partimos da Psicologia Social e do conceito de
Identidade como categoria central de análise, propondo entender o fenômeno não
apenas no seu aspecto instrumental, mas sim, todo o contexto no qual o indivíduo
que usa substâncias psicoativas está inserido, nos conflitos da tradição vs.
modernidade, do mercado de consumo, dos diagnósticos e tratamentos; com a
proposta de apresentar uma contribuição tanto teórica, quanto política. A pesquisa foi
realizada a partir da narrativa da história de vida do participante, que foi gravada e
transcrita com o consentimento do entrevistado. Ao analisar a narrativa da história de
vida, procuramos focar os acontecimentos imediatamente antes, durante e após a
participação na oficina terapêutica de teatro, pedindo que o participante nos contasse
diversos aspectos de sua vida e não apenas aquele que levou o indivíduo a procurar
tratamento da dependência de drogas. O que mudou na sua vida familiar, social,
profissional e individual, observando como este processo se desenvolveu. A
dissertação é dividida em cinco capítulos, que abordam os diversos aspectos no qual
os indivíduos que utilizam substâncias psicoativas estão inseridos. Desse modo, o
presente trabalho tece algumas reflexões sobre a questão das drogas e da
possibilidade de mudança por meio da oficina terapêutica de teatro, assim como
oferece subsídios para discutir as Identidades Pós-Convencionais (Habermas), e as
LIMA, A. F. (2005). The drugs dependency how an Identity problem: Possibilities of presentation of “Self” through Therapeutic workshop of Theater. Masters Dissertation. Pontíficia Universidade Católica de São Paulo.
Key words: Drug usage, therapeutic workshop of theater, Identity, Social
Psychology, Sintagma Identity-Metamorphose-Emancipation.
This dissertation aims to investigate the mean of the therapeutic workshop of theater
to the person who has been treated by the ambulatory of drug dependency in the city
of Diadema – SP. To do so, we start from the Social Psychology and the concept of
Identity as the central category of analysis, considering to understand not only the
phenomenon in its instrumental aspect, but, all the context in which the individual
that uses psychoactive substances is inserted, in the tradition vs. modernity conflicts,
of the market of consumption, of the diagnostic and treatments; with the proposal to
present a contribution in such a way theoretical as political. The research was carried
through from the narrative of the participant life history, which was recorded and
transcript with the consent of the interviewed. While analyzing the life history
narrative, we focused on happenings immediately before, during and after the
participation on the therapeutic workshop of theater, asking the participant to tell
several aspects of his life and not only the one who made the person search for drug
dependency treatment. What has changed in his family, social, professional and
individual life, observing how has this process developed. The dissertation is divided
in five chapters that approach several aspects in which the individuals who use
psychoactive substances are inserted. In this way, this work weaves some reflections
on the question of drug usage and the possibility of change through the therapeutic
workshop of theater, as well as it offers subsidy to discuss the Post Conventional
Este trabalho não teria sido possível sem muita paixão, apoio e amizades.
Muitas pessoas ajudaram, incentivaram e me suportaram durante este período e, é
certo que não conseguirei agradecer a todos os envolvidos neste pequeno espaço,
pois isso iria requerer uma centena de páginas; correndo o risco de parecer injusto ou
ingrato para alguns. Entretanto, não poderia deixar de agradecer algumas pessoas que
contribuíram de forma direta neste percurso, às outras agradecerei pessoalmente ao
encontrá-las.
Meu especial agradecimento dirige-se ao Prof. Dr. Antonio da Costa Ciampa
por apresentar novas perspectivas de leitura sobre a Identidade, pelas orientações
preciosas, pela amizade e confiança que foram essenciais para a realização desse
trabalho. Termino a dissertação sentindo que é apenas o começo de uma longa
jornada, desejando que nos próximos anos possa continuar contando com seu apoio.
A Meire Silva de Lima, grande companheira e incentivadora, pelas palavras
que disse antes da inscrição no mestrado e no decorrer de sua elaboração, à você
desejo toda a felicidade do mundo.
A minha filha Stephanie Caroline Ferreira de Lima, que de tão pequena talvez
não saiba o quanto significa para mim, obrigado pelas horas ao meu lado no
computador e por não desistir nunca de chamar-me para brincar contigo, a você meu
eterno amor.
Ao meu pai Luiz Cardoso de Lima (in memorian) que sonhou este momento
muito antes de eu ter nascido, minha gratidão.
A minha mãe Aparecida e a meus irmãos: Alexandre, Paulo, Thiago, Elisa,
João Victor; ao Raimundo (Ceará), Natália, Vitória e João Paulo, que acreditaram
em mim nos momentos mais difíceis.
Ao Mestre Kaor Okada pelos ensinamentos do Bushidô, pela paciência de
todos esses anos, espero um dia poder mostrar o quanto aprendi do caminho.
Ao Emerson da Costa Andrade, que me honra com sua amizade, confiança e
revisão final do texto, que no futuro possa retribuir sua ajuda.
As amigas Ana Paula de Carvalho e Brendali Dias, pelas discussões
produtivas no Espaço Psiquê.
Aos amigos que conheci durante o Mestrado, Tiago Lopes, Cláudio, Eliete,
Juliana, Renato Ferreira, Nilson Netto, Nadir Lara Jr. e Geison, por sua ajuda e
amizade na jornada acadêmica e aos amigos do NEPIM-PUCSP por seus excelentes
conselhos, críticas e sugestões, em especial à Juracy de Almeida, Helena Kolyniak,
Sueli Satow, Alessandro Campos, Patrícia e Shirley Lima.
Aos professores (as): Dr. Leon Crochik, Dra. Mary Jane Spink, Dr. Raul
Albino Pacheco Filho, Dr. Salvador Sandoval, Dra. Ana Luiza Garcia, por seus
livros, textos e aulas; principalmente a Dra. Maria do Carmo Guedes que
acompanhou grande parte deste processo, ensinando a importância do pensamento
crítico, das perguntas e respostas pensadas, estando sempre presente nos momentos
que precisei.
Aos amigos do EFRS: Vilmar E. Santos, Mirian Aranda, Celso Augusto
Azevedo, Silvana Rosa, Myrna Coelho, Elaine Zingari, Sandra Maia e todos os
pacientes do Espaço Fernando Ramos da Silva que possibilitaram um novo capítulo
na minha vida pessoal e profissional.
Aos professores do Centro Universitário de Santo André, principalmente ao
Prof. Dr. Jorge Maalouf, pelas supervisões e orientações na época da graduação.
Aos professores: Dr. Odair Sass e Dr. Cláudio Bastidas pelas excelentes
colocações e sugestões na banca de qualificação e por aceitarem prontamente a
participação na banca de defesa.
Ao CNPQ , pois não seria possível realizar esta dissertação sem a obtenção de
uma bolsa de estudos.
A todas as pessoas envolvidas direta ou indiretamente na minha vida e na
pesquisa; aos que concederam o seu tempo e seus discursos para realização deste
INTRODUÇÃO ... 3
A DEPENDÊNCIA DE DROGAS COMO UM PROBLEMA DE IDENTIDADE... 4
O ENVOLVIMENTO DO PESQUISADOR COM O MUNDO DAS DROGAS ... 13
CAPÍTULO I ... 24
1.1 – AS METAMORFOSES DO PHÁRMAKON... 25
TRANSFORMAÇÕES DO CONCEITO “DEPENDÊNCIA DE DROGAS” ... 33
O USO DE DROGAS NO BRASIL ... 39
1.2 – AS METAMORFOSES DO “TRATAMENTO”... 42
OS MODELOS DE TRATAMENTO DA ATUALIDADE... 51
CAPÍTULO II... 67
2.1 – O ESPAÇO FERNANDO RAMOS DA SILVA ... 68
AS METAMORFOSES NO PROJETO TERAPÊUTICO DO EFRS ... 71
OS GRUPOS DE ACOLHIMENTO ... 77
AS OFICINAS TERAPÊUTICAS NO ESPAÇO FERNANDO RAMOS DA SILVA... 78
CAPÍTULO III ... 82
1 - OFICINA TERAPÊUTICA: QUE OFICINA É ESSA?... 83
A ARTE COMO POSSIBILIDADE TERAPÊUTICA ... 90
A DIFERENÇA ENTRE ARTE E FAZER CRIATIVO ... 99
CAPÍTULO IV... 106
4.1 – A CONCEPÇÃO TEÓRICA DE IDENTIDADE DE ANTONIO C. CIAMPA .... 107
IDENTIDADE COMO METAMORFOSE HUMANA ... 110
POLÍTICAS DE IDENTIDADE E IDENTIDADES POLÍTICAS ... 113
4.2 – SIMULTANEIDADE DA SOCIALIZAÇÃO E INDIVIDUAÇÃO DA IDENTIDADE EM G. H. MEAD... 119
O EU E O MIM ... 123
O OUTRO GENERALIZADO... 127
A MATERIALIDADE EM MEAD... 129
4.3 – A APROPRIAÇÃO DOS CONCEITOS DE MEAD POR J. HABERMAS ... 132
A GUINADA LINGUISTICA E O PENSAMENTO PÓS-METAFÍSICO ... 135
A TEORIA DO AGIR COMUNICATIVO ... 136
O MUNDO DA VIDA... 142
A CONCEPÇÃO DA IDENTIDADE EM HABERMAS ... 146
AS PATOLOGIAS DA MODERNIDADE PARA HABERMAS ... 153
CAPÍTULO V ... 158
5.1 – A HISTÓRIA DE LOU-LOU ... 159
ONDE APRESENTAMOS LOU-LOU E ESSA NOS CONTA SUA HISTÓRIA ... 162
A ANARCOPUNK CONTA COMO SURGE A ADOLESCENTE-EXPERIMENTADORA QUE
POSSIBILITARÁ SUAS PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS COM A PERCEPÇÃO... 171
QUANDO A EX-GAROTA-MORNA, QUE TINHA SE TRANSFORMADO NA ANARCOPUNK-ADOLESCENTE-EXPERIMENTADORA COMEÇA A NAMORAR E TRANSFORMA-SE NA ALUNA-REBELDE... 179
QUANDO SURGE A VENDEDORA-DE-CACHORRO-QUENTE NA VIDA DE LOU-LOU ... 180
O MOMENTO EM QUE A GAROTA-ISOLADA COMEÇA A ENCONTRAR OUTRA PERSONAGEM ... 183
A ANARCOFEMINISTA É SURPREENDIDA PELO RETORNO DA ADOLESCENTE-EXPERIMENTADORA... 187
APARECE A BRUXA-DA-ILHA-DA-MAGIA NA ESTEIRA DA ANARCOFEMINISTA-QUE-NÃO-ERA-MAIS-ATIVISTA DEPOIS DO RISCO DE SE TORNAR A DEPRESSIVA-DEPENDNTE-DE-DROGAS... 196
QUANDO APARECE MAIS UMA PERSONAGEM NA HISTÓRIA DE LOU-LOU... 201
O RETORNO DA DEPRESSIVA-DEPENDENTE-DE-DROGAS QUE AGORA TAMBÉM ERA LOUCA-SUICIDA... 203
INESPERADAMENTE SURGE UM NOVO PROBLEMA E LOU-LOU MOSTRA QUE JÁ NÃO É MAIS A MESMA LOU-LOU QUE PROCUROU TRATAMENTO... 213
O MOMENTO EM QUE LOU-LOU SE TORNA MÃE E MUDA SUA FORMA DE ENCARAR O MUNDO ... 219
QUANDO LOU-LOU NOS ENSINA QUE A MELHOR VIDA É AQUELA QUE PODE SER VIVIDA ... 220
NEM ADICTA, NEM EX-DROGADA, LOU-LOU ESÁ APENS SENDO A LOU-LOU-DE-HOJE, RENOVADA A CADA NOVO DIA ... 223
A LOU-LOU-DE-HOJE FALA DE PLANOS PARA O FUTURO... 225
5.2 - QUANDO RESGATAMOS A HISTÓRIA DE LOU-LOU MAIS UMA VEZ, AGORA PARA INTRODUZIRMOS NOSSAS CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 227
5.3 – QUE POSSIBILITA DISCUTIRMOS A AMPLIAÇÃO DO CONCEITO IDENTIDADE-METAMORFOSE PARA O SINTAGMA IDENTIDADE-METAMORFOSE- EMANCIPAÇÃO... 232
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 237
CONSIDERAÇÕES FINAIS... 238
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ... 245
SUMÁRIO DAS TABELAS: Tabela 1 – Mudança referente a Faixa Etária atendida pelo EFRS... 73
Tabela 2 – Mudança do Perfil dos usuários matriculados no EFRS... 74
Tabela 3 – Mudança de Gênero dos usuários atendidos no EFRS... 75
Tabela 4 – Distribuição Local de usuários de drogas por sexo e substância... 76
Tabela 5 – Diferenciação entre Fazer Artístico e Fazer Criativo. ... 103
Tabela 6 – Tipos de Ação... 140
Tabela 7 – Consciência Moral e Competência de Papel ... 151
IDENTIDADE
Os caminhos que levam ao conhecimento científico nem sempre se
apresentam prontos ou acabados. A trajetória do conhecimento precisa ser
construída; muitas vezes ao pensar que se está na via certa, descobre-se que
se tem de abandoná-la e recomeçar; este é o caminho da construção do
conhecimento, é o interesse de nossa razão. Esse interesse é a “identidade
da prática e da teoria; o interesse pela libertação da coerção; interesse
(prático) pela transformação do sistema social, interesse (teórico) pela
clarificação da situação que se constitui nas condições sob as quais
vivemos”1, ou seja, um questionamento crítico e criativo, mais a
intervenção prática inovadora.2
Freud entende que o indivíduo é um ser constituído a partir da sua
relação com outros indivíduos, sendo que o contraste entre a psicologia
individual e a psicologia social perde sentido quando examinada mais de
perto; isso faz com que o autor infira que toda Psicologia é Social3. Foi com
essa primeira verdade que o pesquisador entrou no Mestrado; uma verdade
que se transformou na medida em que se deparou com uma Psicologia
Social Crítica diferente das outras Psicologias; e que por sua vez era
diferente de uma Psicologia Social não crítica. Esse contato com as
diferentes ‘Psicologias’ fez com que imaginássemos que talvez hoje Freud
1 Antonio da C. CIAMPA, A História da Severina, p. 216. (grifos do autor)
2 Pedro DEMO, Pesquisa e construção do conhecimento: metodologia científica no caminho de Habermas.
pensaria antes de sua afirmação e diria que toda Psicologia ‘deveria’ ser
social. Visto que é difícil entender a “relação entre o universal e o
particular, entre a totalidade social e a totalidade individual, e o erro é
cometido, mesmo pelos chamados marxistas, porque eles estão com o
pensamento viciado pela tradição ocidental, que é no fundo aristotélica, em
que uma coisa existe separadamente da outra”4, sem contar que as
discussões com os problemas sociais não são fáceis de serem feitas, seja
porque são desanimadoras, seja porque apontam para nossos maiores
medos, ou ainda, porque apresentam um desafio a nossa força de vontade e
imaginação no que se refere à busca de saídas na Modernidade.
Aqui você tem que entender que o universal é o particular – e não é também – porque ele passa a ser a negação desse universal, porque se individualizou. Por isso que a Psicologia tem um papel para desempenhar, porque se todo mundo fosse igual, a Psicologia não faria sentido algum.5
Da mesma forma, o mestrado possibilitou uma maior aproximação
com a filosofia e com as ciências sociais, fazendo com que sentisse a
importância da interdisciplinariedade, fortalecendo a lição apresentada por
Merleau-Ponty: “Não haverá diferença entre psicologia e filosofia; a
psicologia é sempre filosofia implícita, iniciante; a filosofia não terminou
nunca de tomar contato com os fatos”.6 É importante colocarmos que não
4 Iraí CARONE, Análise epistemológica da Tese de doutoramento de Antonio da Costa Ciampa, p. 13.
5 Ibid., p. 13.
queremos defender aqui a idéia que a filosofia pode se tornar psicologia,
pois isso não teria sentido, por outro lado, entendemos que esta será uma
importante aliada no trabalho que faremos adiante.
A filosofia, transformada na modernidade em especialidade, nos
parece bem equipada para responder às necessidades dos indivíduos em sua
busca particular de sentido, mas que já não pode mais preencher essas
expectativas em um mundo cada vez mais pluralista sem recorrer a um
suporte metafísico; nas condições do pensamento pós-metafísico, ela não
pode mais “contentar os filho e filhas da modernidade, que necessitam de
orientação, com o sucedâneo de visão de mundo que substituiria as certezas
perdidas pela fé religiosa ou as definições que o homem ocupa no cosmo.”7
No entanto, no que se refere às questões de identidade – quem somos e
quem gostaríamos de ser –, sabemos que “ela pode, enquanto ética, mostrar
o caminho rumo a autoclarificação racional”8, assim como na medida em
que “entretém uma intima relação tanto com as ciências como com o senso
comum e compreende a linguagem ordinária enraizada na práxis, ela pode,
por exemplo, criticar a colonização do mundo da vida que é esvaziado pelas
intervenções da ciência e da técnica, do mercado e do capital, do direito e
da burocracia.”9
O pesquisador aprendeu que pesquisar Identidade é pesquisar algo
em constante mudança; que ser pesquisador de Identidade é procurar
entender a história daquilo que se estuda e estar preparado para apreender o
7 Jürgen HABERMAS, Verdade e Justificação, p. 323. 8 Ibid., p. 323.
que ainda está por vir. É identificar a opressão no que está estabelecido e
observar os fragmentos de emancipação nos lugares em que aparentemente
não existem saídas. Também aprendeu a compreender a história como algo
essencial para discutir Identidade; e que isso não significa dizer que seja
uma tarefa fácil, pois sabemos que desde “o fim do século XVIII, a história
é concebida como um processo mundial que gera problemas. Nele, o tempo
é entendido como um recurso escasso para a superação prospectiva dos
problemas que o passado nos legou. Passados exemplares nos quais o
presente pudesse confiantemente orientar-se esvaneceram-se.”10 O
pensamento histórico saturado de experiência parece destinado a criticar os
projetos utópicos, ocorrendo uma desvalorização daquilo que foi feito no
passado e uma supervalorização do que é feito no presente, não levando em
conta, muitas vezes, as contradições históricas, os progressos e as
regressões vividas pelos indivíduos; assim como essas mudanças estão
ligadas a interesses econômicos e políticos.
Considerando algo mais, “num certo sentido, talvez simplificando ou
falando de forma esquemática, cabe lembrar que o mercado sempre fez
parte da chamada ordem sistêmica, cuja existência se justifica (ou deveria
se justificar) pelo atendimento às necessidades do mundo da vida, ou seja, o
sistema precisa existir para servir ao mundo da vida e não o contrário como
vem cada vez mais acontecendo, em que a própria vida é posta a serviço
dos interesses sistêmicos.”11 Portanto, o problema não estaria na “evolução,
no desenvolvimento da racionalidade, mas exatamente na falta da mesma,
10 Jürgen HABERMAS, A Nova Intransparência: A crise do Estado de Bem-Estar Social e o esgotamento das Energias Utópicas, Novos Estudos CEBRAP, 18, p. 103.
que decorre da inversão de meios que se tornam fins (ordem sistêmica) e de
fins que se tornam meios (mundo da vida)”12, tendo uma íntima relação na
construção/manutenção das identidades. O pesquisador volta a afirmar aqui
a importância da Psicologia e da análise das Identidades. “A Psicologia vai
apanhar esse processo de singularização e a biografia é a grande forma de
você recuperar o processo de individuação: como eu internalizei minha
classe, como reproduzo minha classe..., a tal ponto que sou diferente de
outro burguês.”13
Ao adotar a Identidade como categoria central de análise, é
necessário também que se descreva como esta é entendida. Por enquanto
basta dizer que partimos da concepção de Identidade desenvolvida por
Ciampa, que entende toda identidade como pressuposta, “uma identidade
que é re-posta a cada momento, sob pena de esses objetivos sociais, filho,
pais, família etc., deixarem de existir”14 e que isso introduz uma
complexidade ao passo que ao ser re-posta a identidade “é vista como dada
e não como se dando, num continuo processo de identificação. É como se,
uma vez identificado o indivíduo, a produção de sua identidade se esgotasse
com o produto15”, dando a impressão que a identidade continua a mesma,
quando na realidade esta presa num movimento de mesmice. E como esses
processos não podem ser entendidos de maneira simplificada, é lícito inferir
que a auto compreensão do homem é intra-subjetiva, dele com ele mesmo,
12 Antonio da C. CIAMPA, Fundamentalismo: A Recusa do Fundamental, p. 02.
13 Iraí CARONE, Análise epistemológica da Tese de doutoramento de Antonio da Costa Ciampa, p. 13.
e, ao mesmo tempo intersubjetiva ou social; dele com outras pessoas da
comunidade real ilimitada. E que a ‘comunicação’ está na raiz dessa tarefa.
É aquilo que pressupõe um discurso irrestrito, a vontade/liberdade de cada
um se colocar na posição do outro, a disciplina de engajar-se numa
justificação racional e a vontade de afastar a razão interesseira de modo que
o ‘melhor argumento’ vença. Seguindo a tradição da teoria crítica da
sociedade, em contraste com o pensamento tradicional, incorpora o
interesse emancipatório no conhecimento para além de sua mera aplicação
prática e utiliza a reflexividade para decidir de que modo cada interesse
promove autonomia.
Tendo apresentado essas primeiras lições aprendidas pelo
pesquisador, voltamos ao tema desta introdução: a dependência de drogas
como um problema de Identidade. Já apontando que esse não é um
problema recente; ao longo da história ocorreram diversas tentativas de
caracterizar a identidade do dependente de drogas, com o intuito de
desenvolver tecnologias que pudessem dar conta do fenômeno. No entanto
nenhuma dessas tentativas tiveram êxito, dada a pluralidade de formas de
vida na qual está inserida a pessoa que utiliza substâncias psicoativas.
De acordo com a literatura, parece existir um consenso entre os
diferentes autores no que se refere a impossibilidade de traçar uma
identidade típica para o dependente de drogas, mas isso não significa que
não existam ainda teorias que defendam a idéia da ‘identidade adicta’,
pressupondo um indivíduo com tendência inata a dependência, como é o
caso do Alcoólicos Anônimos – AA, não levando em consideração que a
idéia de uma identidade sempre igual a si mesma, independente da
temporalidade e da historicidade e, deixando de ser a articulação entre a
diferença e igualdade. Ao ignorar essa unidade , a identidade se torna
abstrata. Isso não quer dizer que não existiram/existem teorias interessantes
à respeito da dependência de drogas, ou ainda, de seu uso como contestação
social.
Para Freud, por exemplo, as drogas têm um lugar permanente na
economia de libido. Sendo assim “devemos a tais veículos não só a
produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de
independência do mundo externo, pois sabe-se que, com auxilio desse
‘amortecedor de preocupações’, é possível, em qualquer ocasião, afastar-se
da pressão da realidade e encontrar um refúgio num mundo próprio, com
melhores condições de sensibilidade”16. Se seguirmos o raciocínio de Freud
podemos tomar como hipótese que quanto mais repressão existir na
sociedade, maior será o uso/abuso de drogas por parte das pessoas. Se isso
for verdadeiro, encontraremos um aparente paradoxo, pois o usuário de
drogas seria então uma denúncia do sistema, na medida em que tem de
buscar a satisfação humana em outras formas não institucionalizadas,
negando inclusive o principio de desempenho.
Alguns autores da atualidade vão defender que foram frustadas as
tentativas de caracterização da personalidade típica do dependente de
drogas. Para Olivenstein17 a problemática passaria pelo surgimento de uma
falha estrutural inscrita por razões ainda não esclarecidas no psiquismo do
indivíduo. Utilizando o referencial psicanalítico vai defender que essa falha
seria gerada por uma falta arcaica, responsável por uma vivência de
incompletude que precederia a falta imediata da droga.
Em Birman verificamos uma diferenciação entre os indivíduos que
utilizam substâncias psicoativas pela dimensão compulsiva dos mesmos;
nas palavras deste autor: “os usuários de droga podem se valer da droga
para seu deleite e em momentos de angústia, mas esta nunca se transforma
na razão maior de sua existência. Os toxicômanos, porém, são compelidos à
sua ingestão por forças físicas e psíquicas poderosas. As drogas passam a
representar, para esse grupo, o valor soberano na regulação de sua
existência.”18 Logo, não haveria uma dependência física, se não fosse a
presença da dependência psíquica. Sendo que nas toxicomanias ocorreriam
ambas as formas de dependência, tendo no caso da dependência física um
aumento crescente da dose inicialmente administrada, com possíveis
substituições por drogas mais potentes.
Também é insuficiente abordar o fenômeno das drogas sem levar em
consideração o contexto sócio-histórico no qual o indivíduo está inserido.
Seguindo essa linha de argumentação encontraremos em Bucher uma
importante contribuição. Este autor defende que a identidade do usuário de
drogas “não se deixa reduzir a uma ‘personalidade social’, enquanto
assimilação de influências externas (e normativas) culminando na
confecção de papéis sociais estáveis e integradores.”19
18 Joel BIRMAN, O mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação, p. 223.
Se utilizarmos o conceito de Identidade-Metamorfose para discutir o
problema da dependência de drogas, podemos partir de, no mínimo, dois
pontos de discussão. O primeiro se refere as questões intersubjetivas que
conotam um fetiche no uso de drogas e que atribuem a essas um poder de
dominação inevitável sobre os indivíduos; ao reconhecimento e redução dos
indivíduos que utilizam essas substâncias psicoativas a um único
personagem: o dependente; sendo que aqui encontramos outras
complexidades, na medida em que o fato dos indivíduos deixarem de re-por
esta personagem (dependente), muitas vezes não é uma garantia da
recuperação dos outros personagens perdidos/negados (pai, filho, irmão,
trabalhador etc.), aprisionando muitas vezes os indivíduos na personagem
do ‘Ex’ (ex-dependente, ex-drogado etc.), não ocorrendo portanto uma
metamorfose, enquanto mesmidade de pensar e ser. O segundo ponto de
discussão refere-se às formas de utilização das drogas, que podem conter
tanto um sentido reacionário (no fortalecimento das indústrias de bebidas,
farmacêuticas, tabagistas, ilegais etc), quanto emancipatório, na medida em
que entendemos que nem toda forma de contravenção seja algo negativo,
mas que podem apontar para necessidade de mudança na realidade vigente
e que muitas vezes desvelam as desigualdades sociais e as impossibilidades
de existência na sociedade administrada. Sendo assim, a dependência de
drogas pode, contraditóriamente, ser uma reivindicação de independência
O ENVOLVIMENTO DO PESQUISADOR COM O MUNDO DAS
DROGAS
O tema das drogas têm sido abordado sob diversos pontos de vista:
Psicofarmacologia, Epidemiologia, Psicopatologia, Ciências Sociais etc.,
tendendo algumas vezes a um reducionismo que descreve o ser humano
impotente perante às influências das substâncias psicoativas. Com isso, os
estudos partem sempre da influência da droga no comportamento humano,
ou ainda, da influência do mercado no consumo das drogas, porém pouca
atenção tem sido dada ao indivíduo que utiliza as substâncias e, quando esse
é visto já se têm pressupostos teóricos que lhe negam a condição de sujeito;
quando muito o encaram como alguém quase totalmente determinado por
políticas de identidade heteronomamente estabelecidas.
Ao partir da Psicologia Social para entender o sentido da oficina
terapêutica de teatro para pessoa que passou por tratamento da dependência
de drogas, o que se propõe é entender o fenômeno não apenas no seu
aspecto instrumental, mas sim, compreender o contexto no qual o indivíduo
que usa substâncias psicoativas está inserido, nos conflitos da tradição vs.
modernidade, do mercado de consumo, dos diagnósticos e tratamentos. Para
tanto, utilizaremos o conceito de identidade como categoria central de
análise, com a proposta de apresentar uma contribuição tanto teórica,
quanto política.
Sabemos que as drogas são, antes de tudo, substâncias consumidas
pelos indivíduos para alterar a consciência. Mas essas drogas são,
mesmo só é real, objetiva, por meio da sua relação com outros homens”20,
o uso de drogas sendo um objeto estranho para o indivíduo, entra em total
coerência com a lógica do capitalismo, na medida em que os indivíduos se
relacionam com o uso de drogas como algo estranho a eles, quanto mais
consomem essas substâncias, mais são consumidos por elas; logo, não é por
um acaso que a questão do uso abusivo das drogas aparece na Modernidade
como um dos maiores problemas da Saúde Pública no Mundo e
contraditóriamente é um dos negócios mais rentáveis da atualidade,
fortalecendo tanto o mercado legal quanto o ilegal. Assim, entendemos que
se as drogas, enquanto mercadorias, são usadas, consumidas, para marcar
diferenças sociais e, com isso transmitir mensagens, que moldam as
identidades, essa condição de catástrofe de proporções epidêmicas tem uma
íntima ligação com as condições do capitalismo.
Quando utilizamos o termo ‘usuário de drogas’, queremos apontar
uma categoria na qual estamos todos incluídos direta e indiretamente, mas
que por conta das questões morais acabam sendo diferenciadas entre si. Nos
referimos tanto a pessoa que fuma seu ‘baseado’ (maconha) com os amigos,
participa da ‘cervejada’ do final de semana, que usa drogas para dormir,
para lidar com a depressão, que toma o ‘cafezinho’ para agüentar mais um
turno da exploração no mundo trabalhista, enfim, falamos de nós mesmos e
ao mesmo tempo falamos daqueles que são estigmatizados pelo uso abusivo
de qualquer uma dessas substâncias.
Ao estigmatizar o usuário de drogas, a sociedade cumpre a função divergente a que explicitamente se propõe, ou seja, ao invés de
20 Karl MARX, Manuscritos Econ
desestimular o uso da droga, reforça-o por meio do rebaixamento contínuo da auto-estima desses indivíduos, negando-lhes o acolhimento e a aceitação social estimulando-os a integrar-se com outros indivíduos marginalizados por diferentes desvios e/ou estigmas, encontrando em outros toxicômanos a sua identidade grupal.21
Embora a comparação dos dados obtidos no Brasil com os estudos
americanos demonstre que o uso na vida de qualquer droga pelo brasileiro é
em média, duas a quatro vezes menor que nos EUA22, preocupa-nos a
existência da crença de maior periculosidade das drogas ilegais, o que é
questionável dada a facilidade de acesso das drogas legalizadas; por
exemplo, em 2001 foram emitidas “121.901 AIHs (Autorização de
Internação Hospitalar) para as internações relacionadas ao alcoolismo.
Como a média de permanência em internação foi de 27,3 dias para o
período selecionado, estas internações tiveram um custo anual para o SUS23
de mais de 60 milhões de reais”24. Esse dado nos leva a imaginar que a
indústria de álcool causaria muito prejuízo ao Estado, entretanto,
considerando o arrecadamento de impostos das indústrias de bebidas, esse
prejuízo não parece ser tão grande assim; basta olharmos para o
faturamento trimestral da indústria de bebidas para entender que é um
negócio muito lucrativo. No relatório divulgado para acionistas da
21 Isabel S. AMARAL, A sociedade de consumo e a produção da toxicomania, p. 46.
22 CARLINI, E. A. et al., I Levantamento Domiciliar sobre Uso de Drogas no Brasil: estudo envolvendo as 107 maiores cidades do país: 2001, p. 328.
23 Sistema Único de Saúde.
Companhia de Bebidas das Américas – AMBEV25; do segundo trimestre de
2003 foi relatado que a empresa atingiu um lucro de R$ 468,2 milhões com
a venda de cerveja., apresentando inclusive metas para o aumento das
vendas, e é claro do consumo, para os próximos semestres.
De acordo com o “I Levantamento Domiciliar sobre Uso de Drogas no
Brasil”, realizado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas
psicotrópicas (CEBRID) e Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP);
coordenado pela Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), que pesquisou
107 cidades brasileiras com mais de 200 mil habitantes: 19,4% da
população brasileira já fez uso na vida de drogas (fora álcool e tabaco);
sendo que entre essas drogas o maior índice encontrado foi do uso de
maconha (6,9%), seguido dos solventes (5,8%), dos anorexígenos
(estimulantes do apetite - 4,3%), dos benzodiazepínicos (3,3%) e da cocaína
(2,3%). Já o uso na vida de álcool foi de 68,7% e o de tabaco de 41,1%. Em
termos de dependência, a pesquisa constatou que o álcool atinge 11,2% da
população brasileira e o tabaco 9,0 %. A dependência de outras drogas
girou em torno de 1% da população, como é o caso dos benzodiazepínicos –
neste caso devemos levar em consideração que os usuários deste tipo de
substância muitas vezes não a consideram como droga –, da maconha e dos
solventes.26
Mas antes de apresentar a pesquisa propriamente dita, falaremos
sobre o envolvimento com o tema e o interesse pela pesquisa. Vale dizer
25 Resultados divulgados para acionistas da BOVESPA em São Paulo, 11 de agosto de 2003.
que o interesse do pesquisador pelos estudos sobre a identidade das pessoas
que usam substâncias psicoativas surgiu durante o período em que foi
estagiário na equipe do ambulatório de tratamento aos usuários de drogas
do município de Diadema – SP, Espaço Fernando Ramos da Silva –
EFRS27. O estágio ocorreu no período de 15 de fevereiro de 2002 a 31 de
dezembro de 2003, tendo sido executadas as seguintes tarefas na instituição:
atendimentos individuais, grupais, familiares, trabalhos de prevenção e
capacitação na temática das drogas e monitoria em oficinas terapêuticas.
Observamos neste período que os usuários28 envolvidos no
tratamento tinham uma participação constante nas oficinas terapêuticas,
sendo na maioria das vezes o único espaço frequentado por esses. Sendo
que durante os atendimentos do grupo de familiares, a mudança de
personagens destes usuários era constantemente trazidas pelos componentes
da família; pudemos verificar inclusive, que alguns familiares vinham ao
grupo informar o “abandono do paciente”, justificando que este tinha
“mudado de vida”, arrumado emprego, namorada, reconstruído
relacionamentos etc.
Observamos também, utilizando uma expressão habermasiana, a
presença de “fragmentos de emancipação” nas mudanças de vida desses
usuários; citaremos aqui como exemplo a oficina terapêutica de teatro do
EFRS, na qual, após a apresentação de uma peça teatral em um Encontro
27 O histórico e funcionamento do EFRS será apresentado no Capitulo II.
Internacional29, na participação em um coquetel ao término do evento, os
usuários foram acolhidos e parabenizados como “artistas” pelos
representantes europeus e latino americanos; esses pacientes retornam na
semana seguinte propondo a mudança do nome oficina de teatro do EFRS –
“Os Recuperandos”, para “Cia. Re-Visão”, sendo também proposto para os
técnicos a apresentação de peças em outros eventos e espaços.
Esses ‘fragmentos de emancipação’ fizeram com que surgisse o
interesse em pesquisar o sentido da oficina de teatro para a pessoa que
passou por tratamento da dependência de drogas no EFRS, constatando uma
metamorfose identitária significativa depois dela e verificando que esta
pessoa reorganizou sua vida e resignificou / transformou as personagens
vividas.
A escolha do Espaço Fernando Ramos da Silva como locus de
localização de possíveis participantes para a pesquisa se deu pela forma de
tratamento da instituição, em que a permanência do indivíduo depende de
sua disposição ao tratamento proposto, diferentemente de instituições totais,
que utilizam a internação e a abstinência, como forma ideal para o
tratamento da dependência de drogas, em que é necessário que o indivíduo
abra mão de seu desejo e autonomia, passando por um período de
internação, tendo além dos atendimentos das especialidades a participação
“obrigatória” em oficinas terapêuticas.
Outro fator que fortaleceu a escolha do EFRS dentre outras
instituições de tratamento do ABC foi o fato desta instituição ter seu projeto
de criação e intervenção utilizado como objeto de pesquisa em uma
Dissertação de Mestrado em Psicologia Social da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo – PUCSP.30
A direção do EFRS mostrou-se bastante interessada em colaborar
com a pesquisa, tendo possibilitado acesso aos prontuários, indicado
informantes e participantes potenciais para entrevista. Entre os 2494
prontuários de usuários matriculados31, levantamos os prontuários de
ex-pacientes que apresentavam em seu histórico alguma participação na oficina
terapêutica de teatro durante seu tratamento na instituição. Este processo foi
iniciado no dia 20 de dezembro de 2003 e encerrado em 15 de janeiro de
2004.
Após o levantamento de 57 prontuários de pessoas que participaram
da oficina terapêutica de teatro, faziam uso de drogas psicoativas e
obtiveram alta do ambulatório, ou abandonaram em momento de maior
30 Sérgio S. LIMA, Espaço Fernando Ramos da Silva: Um projeto de tratamento e prevenção ao uso de drogas em Diadema.
organização pessoal; da escuta de ‘informantes’ sobre o possível
participante (os informantes foram antigos usuários, familiares de usuários e
técnicos da instituição), escolhemos um usuário que apresentasse o histórico
que apontasse para uma identidade pós-convencional.32
A escolha da oficina terapêutica de teatro entre as outras da
instituição ocorreu devido a alguns fatores; 1) ao fato desta ter sido a
primeira oficina da instituição; 2) ser a oficina na qual o usuário expõe seu
trabalho por meio do corpo, para um público que pode reconhecer ou não
sua atuação; 3) pelo seu efeito peculiar de possibilitar a mudança nas
interpretações publicamente reconhecidas, referentes ao indivíduo
estigmatizado. Este último item é defendido por Habermas que infere que
quando “uma companhia de teatro, os membros de uma universidade ou de
uma organização eclesial conseguem impor reivindicações de cogestão,
esse fato tem também, certamente, um aspecto político.”33
A pesquisa foi realizada coletando a narrativa da história de vida, que
foi gravada e transcrita com o consentimento da entrevistada – por meio de
um termo de autorização devidamente esclarecido sobre os objetivos da
pesquisa e garantido o sigilo. Estes relatos procuraram focar acontecimentos
imediatamente antes, durante e após sua participação da oficina terapêutica,
buscando que o participante nos contasse diversos aspectos de sua vida, não
apenas aquele que levou o indivíduo a procurar tratamento no EFRS. A
escolha da narrativa de história de vida como instrumento principal de
32 Esse termo será explicado no capítulo IV no qual tratamos do referencial teórico adotado na pesquisa.
análise, ocorreu devido ao fato do método utilizado na pesquisa ter como
requisito básico estudar históricamente o que está sendo investigado, isto é,
no processo de mudança.
O interesse da pesquisa foi registrar a memória viva do participante e
compreender, outrossim, os processos de metamorfose que foram
acontecendo nos diversos setores de sua vida, novos significados que
passou a atribuir aos fatos de sua vida; como se percebe e percebe que é
visto pelos membros dos grupos que freqüenta. O que mudou na sua vida
familiar, social e profissional, observando como este processo se
desenvolveu. Ou seja, entender seu projeto de vida, o que é e o que quer ser.
Procurando desenvolver fundamentos que contribuam na elaboração de uma
proposta teórica sobre a questão da identidade como metamorfose,
utilizando como referencial teórico metodológico a concepção de Antonio
da Costa Ciampa que se expressa como o sintagma Identidade-
Metamorfose-Emancipação.34
Sabemos no entanto que mesmo com todo o esforço desprendido
nesta dissertação não será possível explorar todos os aspectos relacionados
à identidade da pessoa que utiliza substâncias psicoativas. Contudo,
acreditamos – utilizando aqui a linguagem artística – que conseguiremos
apresentar ao longo destas páginas algo que se pareça com um esboço.
Lembrando que os esboços não são quadros nem desenhos, pois estes
últimos são completos; integram todos os seus componentes e projetam-nos
para além da obra. Já os esboços são sempre incompletos, contornos
parcialmente visíveis de conteúdo indeterminado. Não ditam para o artista
como este deve empregar os contrastes de tons, cores e sombras de uma
pintura. Estão abertos para serem utilizados de diferentes maneiras, a serem
redesenhados ou abandonados.
Mas isso não significa que um esboço não conte com uma lógica
interna; um esboço bem feito oferece entendimentos construtivos sobre os
problemas internos de uma tarefa artística e também quais condições são
necessárias para resolver seus propósitos. Assim, contraditóriamente, essa
indeterminação do esboço dá ao trabalho futuro uma determinação; lhe
confere um sentido de direção. Da mesma forma, a história de Lou-Lou nos
oferece elementos para pensar como um esboço pode ser a expressão de
um quadro futuro, e, como mesmo existindo em um mundo da vida
colonizado pela lógica sistêmica, as condições não estão abertas a um
sentido a priori de determinação, deixando nosso futuro em permanente
construção.
A dissertação divide-se em cinco capítulos, procurando englobar os
principais aspectos envolvidos no uso de drogas. O capítulo I aborda o
fenômeno das drogas, procurando apresentar um histórico referente ao uso
de substâncias que alteram a consciência e, como essas mudanças,
influenciadas pelas questões econômicas, trouxeram os primeiros
diagnóstico e o estigma do ‘drogado’, situando como essa problemática se
desenvolveu no Brasil. Busca-se discutir a evolução do tratamento e sua
relação com orgãos da saúde, judiciário e igreja, assim como os ‘atuais’
modelos de tratamento, apresentando a Redução de Danos e a atual Política
O capítulo II apresenta o Espaço Fernando Ramos da Silva, seu
histórico desde a fundação em 1996 e as metamorfoses ocorridas na
instituição até os dias de hoje, seu modo de funcionamento e as oficinas
terapêuticas alí desenvolvidas.
No capítulo III, falaremos sobre o uso das oficinas em saúde mental
desde sua criação após a reforma de Pinel, com a Laborterapia, do declínio
desta e da ascenção da oficina artística, em que é discutida sua
caracterização e possibilidades terapêuticas.
O capítulo IV apresenta nosso referencial teórico metodológico de
análise, que com bases no Materialismo Histórico e na Psicologia Social
Crítica, traz as contribuições de Antonio C. Ciampa, George H. Mead e
Jürgen Habermas.
O capítulo V faz a apresentação de Lou-Lou, uma personagem real,
embora de nome fictício, que por meio da sua História de Vida, trará
conteúdos dos quais faremos análise, correlacionando todas as questões
apresentadas nos capítulos anteriores e discutindo a possibilidade de
entender a identidade a partir do sintagma
Identidade-Metamorfose-Emancipação.
Após este capítulo faremos nossas considerações finais que,
utilizando o que foi pesquisado, discutirá as possibilidades de prevenção e
intervenção na questão do uso de drogas na modernidade e algumas
CAPÍTULO I
MAS QUE DROGA É ESSA? BREVE HISTÓRICO SOBRE O USO
Na origem, (...) qualquer instituição é sempre uma solução
para um problema humano. À medida que se consolida, que
se institucionaliza, deve garantir sua própria
autoconservação. É o interesse de sua “razão”. Se,
historicamente, esse interesse não convergir com o interesse
da razão humana, torna-se, para a humanidade, irracional.
A. C. Ciampa
1.1 – AS METAMORFOSES DO PHÁRMAKON35
Fazendo uma revisão da história da humanidade, pode-se observar
que a droga se fez presente na vida cotidiana, desde as primeiras notícias de
sua existência. O homem sempre teve uma relação muito próxima com a
natureza, principalmente com as plantas que beneficiam nosso corpo, mente
e espírito.
Na Ilíada, Morfeu confere um sono agradável aos guerreiros ao tocá-los com o caule e a cápsula de uma papoula. Alexandre, o Grande, no século IV a.C., levou o ópio ao conhecimento dos povos do noroeste do continente indiano.36
35 Recorremos à palavra grega Phármakon por acreditar que esta represente melhor nosso olhar sobre as substâncias psicoativas. Phármakon é qualquer substância com que se altera a natureza de um corpo, droga salutar ou prejudicial, pode ser tanto remédio quanto veneno. Cf. José P. MACHADO, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, V.III.
“A história da humanidade nos ensina que o uso de drogas é apenas
um modo de vida”37; encontramos a presença de substâncias psicoativas em
toda história do ser humano, em vários contextos: social, religioso,
medicinal e até mesmo econômico; logo, sua utilização é um fenômeno que
não se limita à época atual e ao contexto sócio-cultural em que vivemos.
Tanto nas civilizações antigas quanto nas indígenas contemporâneas
as plantas psicoativas como a papoula, a maconha, a coca, a cana-de-açucar
eram/são bastante utilizados e estavam/estão ligados a rituais religiosos,
culturais, sociais, estratégicos militares, entre outros.
O chá de ópio (antecessor da heroína e da morfina) foi a bebida
símbolo nacional da China, como o café é hoje para o Brasil. O álcool nas
civilizações grega e romana era utilizado como valor alimentício e também
nas festividades, fato que ocorre até a atualidade. A folha de coca é
mastigada há séculos pelos índios da América do Sul, fazendo parte da
cultura desses povos e com grande valor terapêutico para os estados de
fadiga e cansaço.
Assim, nos primórdios da história da humanidade encontramos um
uso de drogas ligado ao contexto religioso, no qual a substância era
utilizada para atingir estados psíquicos considerados superiores, em que o
xamã, monge, sacerdote, entre outros representantes da espiritualidade
tribal, acreditavam perceber a divindade e, inclusive, atingir um estado de
alma de comunhão com ela.
Toscano Jr e Seibel apontam que na Idade Média, por exemplo,
inicia-se a proibição do uso de substâncias psicoativas. Uma proibição
baseada na crença da aceitação do sofrimento como provação divina e a
transformação da droga em um produto imoral e do pecado. Da mesma
maneira:
A cafeína foi considerada intoxicante e seu uso condenado por muçulmanos árabes. Apesar desta resistência, o uso do café difundiu-se amplamente entre as nações árabes; passando a ser cultivado e usado como bebida nacional. Com o café, ocorreu na Europa a mesma resistência que com o tabaco. Em algumas áreas houve repressão contra seu uso e foram lançados inúmeros avisos médicos sobre seus efeitos maléficos.38
A partir do século XVIII deixa de parecer evidente que a dor
agradasse a Deus (devido ao enfraquecimento da igreja e à ascensão do
Estado) e o uso de drogas, médico e lúdico recobra sua legitimidade.
“O poder negativo do soberano, o direito de imprimir morte, é suplantado por outro, dotado de positividade, quando o Estado governamentalizado se dispõe a proporcionar bem-estar à coletividade. Do poder de causar a morte, passa-se para o poder de permitir a vida. O indivíduo, percebido pelo Estado até o século XVII como um ‘corpo-máquina’ que deveria ser disciplinado para trabalhar sem contestar, surge aos olhos do poder governamental do século XVIII como parte de um ‘corpo-espécie’, parte de uma população com especificidades a serem esquadrinhadas.”39
38 Manuel M. REZENDE, Uso, abuso e dependência de drogas: delimitações sociais e científicas,
Psicologia & Sociedade, 12 (1/2), p. 146.
É importante observar que o uso de drogas esteve muitas vezes ligado
(como é evidente nos dias de hoje) a interesses sócio-econômicos.
Naquela época, as drogas tinham livre circulação e eram fundamentais para a expansão e a consolidação do capitalismo no Oriente. Sua liberação era positiva para o Estado e o colonialismo. No século seguinte, a coisa mudou de figura. As drogas passaram a ser proibidas, gerenciadas, controladas pelos países por meio de legislação de saúde pública, imigração, polícia, segurança nacional, continental e internacional. O proibicionismo passou a ser positivo para o Estado intervencionista.40
Um exemplo disso é a chamada “Guerra do Ópio”, que ocorre após a
substância ter se tornado a principal mercadoria de exportação das potências
européias para o povo chinês.
Com a crise econômica da China, a produção doméstica do ópio
passa a abastecer 85% do mercado interno a ponto de dominar o comércio
do ópio em toda a Ásia; O parlamento britânico resolve, então, considerar o
tráfico de ópio moralmente injustificável, fato que acabou resultando nas
duas guerras entre esses países e, na proibição do uso de ópio pelo governo
chinês, que perdendo a guerra é obrigado a pagar pesadas indenizações aos
britânicos.
A política antiópio foi, na verdade, parte fundamental da estratégia de atuação norte-americana na Ásia: na ocupação das Filipinas, após a guerra hispano-americana (1898), os interventores estadunidenses
consolidaram a posse do arquipélago em grande medida através do esforço para acabar com o comércio de ópio estabelecido pelo anterior monopólio colonial espanhol. A falta de interesse econômico dos Estados Unidos no comércio do ópio facilitava a defesa oficial de combate ao tráfico, fato que, ademais, ia ao encontro do ímpeto proibicionista dos grupos de temperança e das sociedades de supressão do vício em geral.41
O interesse econômico e político fez com que os conceitos sobre as
drogas sofressem metamorfoses ao longo do tempo, enquanto em um
primeiro momento as substâncias psicoativas tinham uma livre circulação e
eram fundamentais para a consolidação do capitalismo no Ocidente, a
liberação era positiva para o Estado. No século seguinte, essas substâncias
passam a ser proibidas, controladas pelo Estado, por meio das legislações
de saúde pública e justiça. “Aquele consumo que era mais localizado em
certos grupos culturais, em certas minorias, em certas faixas da sociedade,
passa a ser ditado não mais pela lógica dessas tradições ou pela lógica
desses grupos, mas pela lógica de mercado, do capital.”42
Na Europa do século XIX, observou-se um elevado uso do ópio sob a
forma medicinal. Portanto, as drogas que a princípio se apresentavam na
forma de produto advindo da natureza, são levadas para laboratórios e
passam por transformações, surgindo outras drogas artificialmente
produzidas, as drogas sintéticas.
41 Thiago RODRIGUES, Política e drogas nas Américas, p. 47.
No final da década de 1920, a produção e administração das drogas
sintéticas é legitimada pelo FDA43, que emite relatórios favoráveis à ação
dessas substâncias.
A ênfase no caráter milagroso das substâncias sintéticas, que tratavam depressões e ‘hábitos nocivos com drogas ilegais’, eram o cerne das campanhas publicitárias. A metadona, por exemplo, foi anunciada, no fim da década de 1930, como a droga mais indicada para o tratamento de opiômanos (principalmente ‘heroinômanos’); contudo, pouco tempo depois, percebeu-se que ela não eliminava a dependência impunemente: uma nova adição era induzida aos habituados à heroina. Era a troca de um opiáceo com fórmula e modo de produção de ‘domínio público’ por outro sintético e patenteado. A excitação das anfetaminas, muitas vezes superior à cocaína, interessou aos órgãos de defesa norte-americanos e europeus, que procuravam drogas que despertassem coragem e disposição nos soldados.44
Na década de 1960, temos um novo período de consumo, desta vez
associada a um novo contexto (experimentação com sentido existencial e de
contestação ética, estética e política), criando um ambiente favorável para
exploração dos valores conservadores. Foram realizadas “Reuniões de
milhares de hippies em concertos de rock ou em protestos contra a Guerra
do Vietnã, mais a existência de grupos defensores das drogas psicodélicas,
como Eternal Love Brotherhood, foram assimiladas pela opinião pública
através de um filtro midiático-estatal que apresentava tais manifestações
43 FDA – Food and Drug Administration, a principal estância reguladora de drogas dos Estados Unidos, fundada em 1909.
como contestações perigosas à ordem social.”45 Esses movimentos sociais
começaram a ameaçar a ordem estabelecida, fazendo com que os
significados atribuídos a essas drogas fossem novamente questionados. O
Estado volta sua atenção para o ‘potencial revolucionário’ que essas
substâncias traziam para os indivíduos, principalmente os associados ao
crescimento individual e questionamento social. “O perigo, portanto, residia
na transformação pessoal, e na conturbação real que a contestação pontual
poderia representar. A ameaça coletiva, cristalizada em grupos
guerrilheiros-psicodélicos, como a Eternal Love Broterhood ou os
Wethearmen, era irrelevante enquanto afronta à segurança nacional, mas
poderosa como instrumento de (des)informação.”46
Estes ‘fragmentos’ referentes história do uso de drogas mostra que ao
discutir o uso de substâncias psicoativas se deve considerar três aspectos: o
indivíduo (com suas características de personalidade e história de vida), a
própria substância (com seus efeitos farmacológicos) e o contexto
sócio-cultural onde esse encontro se realiza. Pois como vimos, certas convenções
sociais, jurídicas e também interesses econômicos passaram a distinguir
entre drogas lícitas e ilícitas.
Uma divisão que levou em conta prioritariamente questões políticas e
morais, lembrando que do ponto de vista da saúde essa distinção não
procede, pois tanto as drogas lícitas quanto as ilícitas podem causar
prejuízos para a saúde e dependência.
Berger & Luckman vão dizer que as instituições surgem para tipificar
os indivíduos e que, “pelo simples fato de existirem, controlam a conduta
humana estabelecendo padrões previamente definidos de conduta, que a
canalizam em uma direção por oposição às muitas outras direções que
seriam teoricamente possíveis"47, transformando todo aquele que sair da
‘norma’ no marginal.
A proibição às drogas adiciona ao elenco de anormais, herdado do século XIX, a figura do ‘viciado’. Ele, contudo, não é identificado pelo poder como alvo independente; antes, o usuário de drogas proibidas é enxergado pelos corpos sãos da sociedade justamente entre os insuportáveis anômalos de sempre. Imigrantes e minorias vêem seus hábitos de intoxicação potencializarem-se em ‘grandes afrontas à sociedade sadia.48
Isso vai ocorrer devido a necessidade da manutenção do universo
simbólico que, tentando legitimar a definição oficial de realidade,
desenvolverá formas de controle dos desviantes; utilizando seus guardiães
que invariavelmente empregam procedimentos repressivos. Ciampa
comentando sobre esse fenômeno coloca:
Os seus guardiães empregam normalmente certos procedimentos repressivos, já
que o desafio desses grupos heréticos não é apenas uma ameaça teórica, mas
também uma ameaça prática para a ordem institucional legitimada pelo
universo teórico em questão. Como essa repressão precisa ser legitimada, vários
47 Peter L. BERGER & Thomas LUCKMANN, Modernidade, pluralismo e crise de sentido: a orientação do homem moderno, p. 80.
mecanismos conceituais são acionados para preservação do universo oficial, o
qual nessa nova legitimação também é modificado.49
Com isso, a partir do século XIX, a regulação do uso de drogas
psicoativas se encaixa no quadro maior representado pelo agir estratégico
que o Estado desenvolve, da excessiva intervenção saneadora da sociedade,
que priorizava o controle do regime urbanístico, os espaços de trabalho, os
hábitos de higiene e os costumes sociais referentes aos cuidados de si.
TRANSFORMAÇÕES DO CONCEITO “DEPENDÊNCIA DE
DROGAS”
Segundo Toscano Jr e Seibel, “o conceito de adição como doença ou
transtorno só veio a se desenvolver ao longo dos últimos 200 anos, num
contexto de mudança gradativa dos construtos da medicina clínica, da
psiquiatria e da saúde pública”50, porém, essas mudanças seguiram o
caminho da lógica instrumental. Desde 1950, a Organização Mundial de
Saúde – OMS havia sugerido uma definição da Toxicomania, que implicava
nos seguintes termos: 1) desejo ou necessidade incontrolável de continuar
consumindo a droga ou de buscá-la por todos os meios; 2) tendência a
aumentar as doses (tolerância); 3) dependência psíquica e, geralmente,
física em relação aos efeitos da droga; 4) efeitos nocivos ao indivíduo e à
sociedade.
Com o decorrer dos anos, os peritos da OMS perceberam que estas
diferentes definições não se aplicavam a todas as drogas e, em 1963, as
categorias de adição e hábito foram substituídas pelas ainda mais genéricas
dependências física e psicológica.
Isso contudo, não possibilitou que o conhecimento se libertasse do
interesse, esse fato fica mais claro na medida em que não existia uma
distinção farmacológica que sustentasse o proibicionismo; de que ‘não
tinham sido toxicólogos, químicos ou sequer médicos que haviam posto em
marcha a legislação proibicionista da OMS51(através de Comitê); e que as
drogas legalizadas foram àquelas produzidas nos países desenvolvidos.
O Comitê da OMS teve o papel de formular de um repertório
terapêutico que guiasse as medidas legais internacionais da ONU, na
criação de material ‘cientifico’ que associasse o uso de drogas à doença
física e psicológica.
Ainda, segundo os autores, é fácil constatar o caráter vago de tal
definição, que traduz bem a incapacidade dos peritos da OMS em
determinar as razões, não necessariamente médicas, que levam as
sociedades a colocar certos produtos sob controle. O termo
farmacodependência, definido pela OMS em 1969, veio, então, com a
pretensão de ser mais preciso: Estado psíquico e, algumas vezes, também
físico, resultante da interação entre um organismo vivo e um medicamento,
caracterizando-se por modificações do comportamento e outras reações, que
incluem tomar o medicamento de maneira contínua ou periódica, com o fim
de reencontrar seus efeitos psíquicos e, algumas vezes, evitar o mal-estar
ocasionado pela abstinência. Este estado pode acompanhar-se, ou não, de
tolerância. Um mesmo indivíduo pode ser dependente de vários
medicamentos.
Podemos ver claramente a contradição resultante da cultura de
especialistas que, ao possibilitar um maior cuidado à determinada ‘doença’,
impede os indivíduos de assumirem um auto-cuidado responsável sobre a
própria vida, ou seja, “a transposição, sem mediação, do saber especializado
para as esferas privadas e públicas do cotidiano pode, por um lado, pôr a
autonomia e o sentido próprio dos sistemas de saber em perigo e, por outro
lado, ferir a integridade dos contextos do mundo da vida.”52
O campo de conhecimento referente a ortopedia social, da correção
da saúde corporal e moral transfere-se do edifício do direito para o
conhecimento clínico. A chamada medicina social começa a ditar os
parâmetros de normalidade, criando a linha tênue que separa o indivíduo
saudável, do doente, do que é correto e o que é desviante.
Uma vez estabelecidas as normas, o Estado, garantia da saúde social, identifica os indivíduos insubmissos aos ditames normalizadores e põe em movimento, através dos dispositivos de segurança, a estratégia da prevenção geral, ou seja, perseguição, eliminação ou confinamento do inimigo social interno, que vem a ser os pobres, os criminosos, os desviados e os anormais; numa palavra, os instabilizadores da ordem..53
52 Jürgen HABERMAS, Discurso filosófico da Modernidade, p. 312.
Em 1974, o comitê de especialistas da OMS em dependência de
drogas, acrescenta à definição de farmacodependência a conceituação de
dependência física e psíquica.
A dependência física é caracterizada pela adaptação do organismo à droga e se manifesta por alterações físicas quando o uso desta é interrompido. Assim, a retirada da droga ocasiona síndrome de abstinência, um quadro de sinais e sintomas que podem ser aliviados com a administração da droga. Já a dependência psíquica decorre da sensação de prazer e bem-estar ou da necessidade de evitar o mal-estar provocado pela falta da droga, requerendo, assim, o uso periódico ou contínuo.54
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Perturbações Mentais –
DSM-IV55 estabelece critérios para o diagnóstico de dependência de substâncias,
abuso de substâncias, intoxicação por substância e abstinência por
substância. O diagnóstico de dependência de substâncias baseia-se na
presença de, no mínimo, três dos seguintes critérios: 1) a substância é
tomada em quantidades maiores ou por mais tempo do que a pessoa
pretendia; 2) desejo persistente, uma ou mais tentativas fracassadas de
cessar ou controlar o uso da substância; 3) muito tempo gasto em atividades
necessárias para obter a substância, usá-la ou recuperar-se dos efeitos
desta; 4) intoxicações freqüentes ou sintomas de abstinência, competindo
com as obrigações da pessoa, também quando o uso da substância é
fisicamente perigoso; 5) atividades sociais, ocupacionais ou recreativas
importantes são deixadas de lado ou diminuídas, devido ao uso da
substância; 6) uso contínuo da substância, apesar do reconhecimento de
54 Manuel M. REZENDE, Uso, abuso e dependência de drogas: delimitações sociais e científicas,
haver problemas ocupacionais, sociais, psicológicos ou físicos, de maneira
persistente ou recorrente, causados ou exacerbados pela substância; 7) clara
tolerância; 8) sintomas característicos de abstinência; 9) uso da substância
para aliviar ou evitar sintomas de abstinência.
Entre os transtornos causados por substância, o DSM-IV relaciona
desde aqueles ligados ao abuso de uma droga, inclusive o álcool, até os
efeitos colaterais de um medicamento, bem como a exposição à toxinas. As
substâncias que fazem parte desta classificação são agrupadas em 11
classes: Álcool; Anfetaminas ou Simpaticomiméticos de ação similar;
Cafeína; Canabinóides; Cocaína; Alucinógenos; Inalantes; Nicotina;
Opióides; Fenciclidina (PCP) ou arilciclohexilaminas de ação similar;
Sedativos (hipnóticos ou ansiolíticos).
Rezende comenta que o DSM-IV considera como característica
essencial da dependência, a presença de um conjunto de sintomas
cognitivos, comportamentais e fisiológicos indicando que o indivíduo
continua utilizando uma substância, apesar de problemas significativos
relacionados a ela, considerando que:
(...) se para os farmacologistas, as drogas psicoativas podem ser categorizadas de acordo com seu potencial farmacológico (leves e pesadas), do ponto de vista psicológico, podemos estabelecer como critério classificatório de dependência o significado e a intensidade da relação do indivíduo com a droga. Deve-se considerar, principalmente, a