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Shakespeare, Suassuna e o mercador de Taperoá

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Academic year: 2021

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Shakespeare, Suassuna e o mercador de Taperoá

Elisângela Aparecida Zaboroski de Paula 1(UFSC, Florianópolis, Brasil)

Resumo

A microssérie televisiva (1998), posteriormente adaptação cinematográfica (2000), O Auto da Compadecida, feitas por Guel Arraes e baseadas na obra do escritor paraibano Ariano Suassuna (1927) tratam-se de uma releitura, de uma recriação tanto de Suassuna quanto de William Shakespeare e sua peça O Mercador de Veneza [The Merchant of Venice]. Guel Arraes utilizou-se de elementos intertextuais para uni-los, retirando de Suassuna o enredo da peça e de Shakespeare os pontos que se ligam à obra do escritor paraibano.

Palavras-Chave: Shakespeare – Suassuna - Cultura Popular – Medievalismo – Apropriação

Abstract

The television microseries (1998), and subsequent cinematograph adaptation (2000) O auto da Compadecida, produced by Guel Arraes and based on Parahiban writer Ariano Suassuna’s work is a rereading, a recreation from Suassuna as well as from William Shakespeare and his play The merchant of Venice. Guel Arraes used intertextual elements to unite the two writers, removing the plot from Suassuna’s work and from Shakespeare has strong influence of medieval theatre and especially of North-eastern popular culture.

Key-Words: Shakespeare – Suassuna – Popular Culture – Medievalism – Appropriation

APROPRIAÇÕES NA PEÇA AUTO DA COMPADECIDA

Auto da Compadecida (1955) é uma das peças mais importantes de Ariano Suassuna (1927), possui suas raízes na tradição cultural do Ocidente, tanto pelo aspecto temático, transmitido através de um Romanceiro, quanto pelo aspecto religioso. Suassuna recolheu de Leonardo Mota, alguns elementos para a produção do Auto da Compadecida. Segundo Bráulio Tavares, “foi nos livros de Leonardo Mota que ele recolheu, anos depois, alguns episódios cômicos de origem popular que enriqueceram o Auto da compadecida”. (TAVARES, 2007, p. 26.)

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Formada em Letras – Português / Inglês pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória – PR, atualmente cursa mestrado em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Endereço eletrônico: [email protected]

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Suas matrizes são os folhetos de cordel e um entremez do próprio autor, o mesmo intitulado como O Castigo da Soberba (1953), sendo esse religioso e sério, todo cantado em versos de sete sílabas e também rimados aos pares como no cancioneiro nordestino e também no cancioneiro medieval. Segundo Vassallo, o “Auto da Compadecida é a peça mais festejada do escritor paraibano [...], suas matrizes são os folhetos populares e o entremez “O Castigo da Soberba”. (VASSALLO, 1993, p. 85.)

O primeiro ato da peça baseia-se no O enterro do cachorro, história que Suassuna encontrou no livro de Leonardo Mota (Romanceiro popular), porém mais tarde veio saber, por intermédio do pesquisador Evandro Rabello, que a peça anônima que estava no livro Violeiros do Norte do respectivo autor era fragmento de O dinheiro do cantador Leandro Gomes de Barros (1865 – 1918). O segundo ato baseia-se na História do cavalo que defecava dinheiro, romance anônimo, registrado por Leonardo Mota. Já o terceiro ato provém de O castigo da soberba, auto popular anônimo, e de A peleja da alma, de Silvino Pirauá Lima, ambos retomados pelo entremez de Suassuna intitulado também como O castigo da soberba. Provém ainda do Romanceiro a cantiga de Canário Pardo, utilizada por João Grilo como invocação a Virgem Maria.

Ainda do entremez de Suassuna retiramos o nome da Compadecida e a estrofe com que o palhaço encerra o espetáculo pedindo dinheiro. Comparando-se cada peça com a fonte popular que lhe dá origem, percebemos a preferência de Suassuna ao texto e a cultura popular.

Devemos destacar também que para a produção dessa peça Suassuna inclui nela, elementos circenses, evidenciados não só pela figura do palhaço, mas, também pela forma de auto, pela maneira de encenação da peça, pelo cenário, pois a mesma poderia ser encenada utilizando-se apenas uma cortina e algumas cadeiras. Para Newton Júnior, “percebe-se a presença de uma “estética circense” no Auto da Compadecida a partir mesmo das considerações do autor acerca da encenação da peça [...], o cenário pode realizar-se apenas com cortinas e cadeiras de espaldar alto”. (NEWTON JÚNIOR, 2000, p. 84.)

E é através dessas fontes, onde Suassuna inspira-se, que podemos afirmar quão nosso escritor busca inspiração na cultura popular e como é adepto à técnica de apropriação, as quais fizeram enriquecer sua peça. Apropriações estas que Shakespeare também utilizou,

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para a maioria de sua produção dramática. Suassuna utiliza-se de Shakespeare como uma fonte de inspiração, e não o cita explicitamente como tal, pelo fato de hoje Shakespeare ser considerado erudito, mesmo quando é evidente a apropriação. Suassuna deseja aproximar-se do popular, por isso expressa primeiramente aproximar-sempre suas fontes populares.

APROPRIAÇÕES FEITAS POR SHAKESPEARE EM O MERCADOR DE VENEZA

Sabe-se que Shakespeare também era adepto a apropriações, advindas da oralidade, ou mesmo de outros escritos, e sabendo-se que ele os utilizou como recurso no próprio Mercador, o qual deriva de duas outras fontes (fontes estas acessíveis ao poeta inglês), e de uma possível terceira fonte. Essas são peças dotadas de características tradicionais, e assim temos a evidência desse fato e das recriações que Shakespeare fazia. “A trama de O Mercador de Veneza é o resultado da mistura de duas outras de origens diversas, mas dotadas ambas de fortes características de narrativas tradicionais, como os contos de fadas ou os do folclore”. (HELIODORA In: SHAKESPEARE, 1999, p. 06.)

A história de pagamento da dívida de uma “libra de carne” poderia ser encontrada em inúmeras fontes, sendo que duas seriam de fácil acesso a Shakespeare, sendo uma delas de origem popular intitulada como A balada da crueldade de Geruntus, que data de antes de, 1590 (sendo que o Mercador só foi publicado em 1600) e O orador, uma coletânea de orações dentre as quais se encontra a que leva o título De um judeu, que queria, por uma dívida, obter uma libra de carne de um cristão.

Existe talvez mais uma fonte, de onde possivelmente Shakespeare tenha buscado inspiração, trata-se de uma peça intitulada O judeu, a qual é descrita por Stephen Gosson, em 1576. A mesma trabalha com temas como a avareza e como ela pode dominar a mente humana, mas infelizmente não existe qualquer possibilidade de comprovação dessa terceira fonte, pois a suposta peça desapareceu antes que fosse realizado qualquer estudo comparativo com o Mercador. Segundo Barbara Heliodora, “O fato de Shakespeare raramente compor enredos originais é tão universalmente conhecido quanto o de seu tratamento de antigos enredos ser o que coloca sua obra em nível tão acima do de suas fontes”. (HELIODORA, 1997, p. 263.)

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E estas fontes, nas quais Shakespeare baseou-se são fatos decisivos em relação ao poeta ser adepto a apropriação.

GUEL ARRAES A AS APROPRIAÇÕES D’O AUTO DA COMPADECIDA E D’O MERCADOR DE VENEZA

Com o surgimento do cinema, deparamo-nos com uma arte nova, tratando-se da capacidade de narrar, com recursos próprios, uma história já contada, surge, a partir daí, a prática de transformar obras literárias em filmes, ou seja, adaptar uma obra literária para uma versão cinematográfica, pois de acordo com Thaïs Flores Nogueira Diniz, “O que se entende normalmente por adaptação é, pois, a versão cinematográfica de uma obra de ficção. Essa é a razão de, ao se abordar o tema adaptação, pensar-se prioritariamente em uma fonte literária”. (DINIZ, 2005, p. 13.)

Sendo que a preocupação principal é se a adaptação para o cinema consegue captar todos os elementos da narrativa literária (enredo, personagens, entre outros), ou seja, verificar “a fidelidade do filme à obra de ficção”. (Idem. Ibidem.)

Porém o cineasta pode utilizar-se de elementos intertextuais, fazer apropriações sem que a obra perca sua essência, mas sim sofrendo transformações e transmutações necessárias para que a sua “nova” versão fique mais atrativa aos olhos do público.

Utilizando-se destes preceitos de adaptação e apropriação e sabendo-se da admiração que Suassuna nutre por Shakespeare, Guel Arraes incorporou elementos d’O Mercador de Veneza de a microssérie televisiva e a adaptação cinematográfica do Auto da Compadecida, do escritor paraibano, que na televisão e cinema passou a chamar-se O auto da Compadecida, permanecendo a forma de “Auto” apenas no título.

Essa apropriação fica bastante evidente no episódio da “libra de carne” ou, “tira de couro”, como foi adaptado. Nesse episódio em O auto, ocorre uma das apropriações do Mercador, ato I, cena III, onde Antônio pede dinheiro emprestado a Shylock (o judeu), sendo que o dinheiro seria utilizado por Bassânio, seu grande amigo, para conquistar Pórcia, e que Antônio promete pagar em três meses ao judeu. O judeu, porém como garantia do pagamento da dívida, pede uma “libra de carne” de Antônio, sendo que se o mesmo não

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honrasse a divida, perderia sua “libra de carne”. Já em O auto, o Major Antônio Moraes cede a mão de Rosinha (sua filha) a Chicó, que se diz muito rico, porém nada possui, e pede o pagamento do dote da mesma no dia do casamento. Como garantia desse pagamento, o Major pede uma “tira de couro” das costas de Chicó, se ele desonrar a dívida perde sua “tira de couro”.

Outro caso de apropriação ocorre através da personagem Rosinha, advinda primeiramente de duas outras peças de Suassuna; A pena e a lei e Torturas de um coração, sendo que a personagem aparece com o nome de Marieta e posteriormente nos remete a Pórcia, a primeira grande heroína shakespeariana, pois Pórcia, auxiliada por Nerissa, vai vestida de homem até o tribunal onde Antônio está sendo julgado e salva-o, dizendo que no contrato fala-se de uma “libra de carne”, porém nada é mencionado sobre sangue, e, portanto, não pode haver sangue nessa retirada da “libra de carne”, o que é impossível. Assim, Shylock só poderia retirar a “libra de carne” de Antônio se nenhuma gota de sangue escorresse. Como isso não é possível, com esse argumento Pórcia salva Antônio.

Em O auto, ocorre uma cena semelhante, Rosinha, com o auxílio de João Grilo, salvam Chicó com o mesmo argumento. Dizem ao Major Antônio Moraes que ele pode retirar a “tira de couro” das costas de Chicó desde que nenhuma gota de sangue escorra do mesmo, e como isso é impossível Chicó livra-se da pena.

Outro ponto onde se pode estabelecer uma analogia entre as duas peças são as arcas de Pórcia que nos remetem à porquinha de Rosinha, que ela herda como herança de sua avó. Pórcia “herda-as” de seu pai com o mesmo intuito: Casamento. Porém a porquinha de Rosinha possui dinheiro dentro, para que assim ela possa casar-se. Já as arcas de Pórcia, que são em um total de três, requerem um pouco mais de habilidade para que ela possa utilizá-las para os fins matrimoniais, pois cada pretendente de Pórcia deve escolher dentre as três, uma arca, se na arca escolhida estivesse escrito o nome de Pórcia o felizardo teria o direito de casar-se com ela e herdando com isso toda sua fortuna, mas se escolhesse a arca errada deveria partir e jamais revelar a ninguém a arca escolhida.

Temos ainda o tribunal, outro ponto de ligação, que em O auto é um tribunal celestial, aonde João Grilo vê-se morto, diante de Deus e do diabo. Em O Mercador temos o tribunal terreno onde se passa a cena do julgamento de Antônio, aonde o mesmo vê-se

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sem salvação diante de Shylock, que aqui nos remete a figura do diabo, o qual condena Antônio sem piedade.

Outro ponto de ligação, pensando ainda na cena do julgamento, é a questão de quem intercede por João Grilo e por Antônio, sendo que em O auto, João Grilo pede que a Virgem Maria se compadeça de sua vida tão sofrida no sertão da Paraíba, de ter passado fome, etc. João Grilo espera que a Virgem Maria rogue, que interceda por ele diante de seu filho Jesus Cristo. Já no Mercador, Antônio vê em Pórcia, de certa forma, a Compadecida, a mulher que roga, que intercede por ele diante de todos inclusive de Shylock. E mesmo Pórcia estando vestida de homem não perde sua semelhança com a Virgem Maria, pois as duas ocupam a mesma função, em peças diferentes. Uma intercede do céu por João Grilo e a outra intercede da terra por Antônio.

Pórcia é retratada por Shakespeare como sendo humanizada, jovem herdeira que teve de assumir, com a morte do pai, o controle de suas grandes propriedades. E é exatamente esta humanização celestial que é também herdada pelo poeta inglês do teatro religioso da Idade Média, refletida em suas peças e também em seus personagens que apresenta aspectos dessa ligação de Shakespeare com o teatro brasileiro.

No Ato IV do Mercador, com a grande cena do julgamento, é, em termos humanizado, um Auto da Compadecida, pois não é outra a situação na exemplar peça de Ariano Suassuna, que reconhecidamente buscou sua inspiração nos autos medievais. Em O Mercador de Veneza. Pórcia age com uma seriedade que faria a moça secularizada evocar na platéia a figura da Virgem Maria de O Auto da Compadecida. (HELIODORA, 1997, p. 229.)

Lembremos ainda que Pórcia é dotada de uma astúcia, da qual utiliza-se muito bem para salvar Antônio, assim como João Grilo utiliza astúcia para livrar-se das aventuras e problemas que passa no sertão da Paraíba ao longo da peça e do filme.

APROPRIAÇÕES DE SHAKESPEARE EM SUASSUNA

Ariano Suassuna é adepto a apropriações tanto dos folguedos populares do Nordeste quanto dos autos medievais. Sabe-se que ele sempre admirou William Shakespeare, sua

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obra testemunha a presença do poeta inglês, como nas recriações de episódios shakespearianos.

Quando falamos que um autor apropriou-se de outro, estamos nos referindo aos diversos elementos incorporados de outros autores por um determinado escritor, porém, o escritor produz sua obra incorporando nela elementos de seu mundo particular, suas experiências vivenciadas, as quais, só ele é capaz de definir. E apropriar-se de um texto é também modificá-lo de acordo com as suas necessidades. Ariano Suassuna não é diferente dos demais autores, ele busca incorporar elementos de outras fontes para enriquecer sua obra. “Como Idelette Muzart Fonseca dos Santos observou e analisou em [Demanda da poética popular], a escrita de Suassuna é uma reescritura de textos próprios ou alheios”.(SANTOS Apud TAVARES, 2007, p. 119.)

A obra de Suassuna sofreu e sofre claras influências dos folguedos do Nordeste, da literatura de cordel, das marionetes, do Mamulengo, do Bumba-meu-boi, todas fontes populares. E aqui temos uma semelhança dele com o poeta inglês William Shakespeare, pois o mesmo teve acesso, em sua época, a algo muito semelhante com o que chamamos de literatura de cordel, inclusive Shakespeare retirou alguns personagens desses “cordeis” para produzir seus próprios personagens, utilizando o modelo popular, que era engraçado, dinâmico e folclórico.

No período elisabetano, onde Shakespeare viveu e produziu a maior parte de sua obra, haviam várias manifestações populares, as quais certamente o influenciaram, sendo que o teatro de marionetes ( fonte popular de inspiração de Suassuna), já era representado em feiras livres para a diversão da população.

Outra característica popular marcante do período elisabetano e interligada com Suassuna são os folguedos, os quais na época de Shakespeare constituíam-se em festas populares das quais todos participavam cantando e dançando, sendo denominado aqui no Brasil, e mais precisamente no Nordeste brasileiro, como um “jogo” ou “brinquedo”, que é executado por atores exclusivamente masculinos para todos os papéis, nos remetendo novamente ao teatro elisabetano onde em uma peça de teatro só poderiam participar homens para desempenhar qualquer personagem. Ariano Suassuna sempre evidencia suas fontes populares, e não faz menção a Shakespeare devido o mesmo ser hoje considerado

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uma fonte erudita. Mas assim como Suassuna, Shakespeare também sofreu influências populares, e em algumas obras de Suassuna fica evidente a presença de elementos do dramaturgo inglês. Vejamos aqui alguns exemplos dessas evidências.

Um exemplo claro dessa apropriação de Shakespeare feita por Suassuna é a História do amor de Romeu e Julieta, escrita com evidente presença de leitura da obra do Bardo. Suassuna alega que utilizou como fonte de inspiração a história do italiano Matteo Bandello, na qual Shakespeare também se inspirou, lembrando que o poeta inglês teve acesso ao texto de Bandello através do poema de Arthur Brooke [The tragic history of Romeo and Juliet], publicado em 1562, sendo que Brooke inspirou-se em Bandello e digamos que fez uma nova versão da história italiana. Suassuna escreve sua “imitação brasileira” tendo como uma de suas fontes de inspiração, elementos da cultura popular, trata-se de um folheto de cordel, intitulado Romance de Romeu e Julieta, de origem anônima, cantado no Nordeste do país e que apresenta uma visão bem brasileira da história tão antiga.

Apesar de Suassuna evidenciar o folheto de cordel e o italiano Matteo Bandello como suas fontes para a produção dessa peça, nos perguntamos: de quem ele estava falando, quando cita os nomes de Romeu e Julieta? E talvez logo muitos respondam-nos “de Matteo Bandello” ou ainda, “de um cordel intitulado Romance de Romeu e Julieta”. Mas esses nomes não são nomes comuns e nem personagens comuns; são personagens de Shakespeare. Logo é clara a presença de elementos shakespearianos na peça de Suassuna, sendo que nesse ponto precisamos também reconhecer a admiração que Suassuna tem por Shakespeare.

Publicado em 1997, a História do amor de Romeu e Julieta: imitação brasileira de Matteo Bandello, inspirada no folheto O romance de Romeu e Julieta, Ariano Suassuna continua nos inquietando pela reafirmação (cômica) do próprio exercício artístico de reelaboração, numa obra cujo título remeteria a uma possível prática similar empreendida por William Shakespeare.(RABETTI, 2000, p. 99.)

Outra relação entre os dois autores, ainda referindo-se a peça Romeu e Julieta de Shakespeare é a peça Uma mulher vestida de sol, do escritor paraibano, a qual conta à história de um amor entre dois jovens sertanejos, Rosa e Francisco, cujos pais, embora aparentados, eram inimigos. Segundo Suassuna, a peça Uma mulher vestida de sol é

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baseada no Romanceiro Popular Nordestino, em uma das versões de José de Souza Leão. Entretanto pode ser detectada na trama da narrativa a presença do Romance de Romeu e Julieta. Sente-se, porém, nessa peça a presença de elementos shakespearianos, principalmente pelo final trágico de ambos. Suassuna cita sempre as fontes populares, mas aqui a alusão a Shakespeare é inegável. “Isso só vem comprovar que, no rico universo do Romanceiro, os diálogos entre os romances são frequentes, móveis são suas fronteiras, imprecisas as indicações de autoria e originalidade”.(NEWTON JÚNIOR, 2000, p. 53.)

E não é só desse Romanceiro, que encontramos a poética de Suassuana, mas também na presença do teatro elisabetano, que de acordo com Hermilo Borba Filho sobre a peça Uma mulher vestida de sol: “De minha parte, acrescentaria a presença de Shakespeare em peças como Romeo e Julieta, Macbeth ou Ricardo III”. (BORBA FILHO In: SUASSUNA, 1964, p. 19.)

Um dos aspectos característicos do teatro elisabetano visível em Uma mulher vestida de sol é a presença de elementos trágicos no decorrer de momentos ligados ao cômico, ocorrendo uma quebra intencional de ritmo, sem qualquer alteração na predominância do trágico, sendo que isso em Shakespeare pode ser encontrado em Hamlet quando o jovem príncipe da Dinamarca finge-se de louco e conversa com Polônio, seu conselheiro real, e também em alguns diálogos, no Rei Lear (King Lear), entre o Bobo e o Rei.

Outro ponto de ligação entre Shakespeare e Suassuna, é a Commédia de’ll arte utilizada pelo escritor brasileiro como apoio na produção da peça O casamento suspeitoso, utilizando, porém, uma história própria, sem copiar, por exemplo, tipos como o Arlequim. Já em Shakespeare em Sonhos de uma noite de verão, a forma como os atores-artesãos encenam o metateatro nos faz alusão a personagens-tipo da Commédia de’ll arte. “No Casamento Suspeitoso Suassuna apoiou-se na commédia de’ll arte, mas conseguiu ainda uma suficiente autenticidade de pessoas e ambientes, criando, pensamos nós, em termos nordestinos, uma trama sua, inspirada no esquema da comédia italiana”.(HELIODORA, 2000, p. 115.)

Outra referência a Shakespeare, ainda tratando-se da peça O casamento suspeitoso de Suassuna e Hamlet do próprio dramaturgo inglês, falamos primeiramente de Hamlet,

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mais precisamente no ato III, da cena 04, quando Polônio se oculta atrás de uma cortina para que a Rainha fale com o filho (Hamlet), ela sente-se ameaçada pelo filho e grita, provocando uma reação verbal de Polônio que estava escondido. Hamlet, sem pensar, desembainha a espada e dá um golpe na cortina matando assim Polônio. Já em O casamento suspeitoso, Gaspar esconde-se atrás da cortina para ouvir a conversa de Lúcia, Roberto e Susana, os três fazem ameaças a Gaspar, o qual faz a cortina tremer denunciando que estava lá, então Roberto tira o cinto e da uma surra em Gaspar.

São inúmeras as semelhanças que podemos encontrar da obra do poeta inglês em Suassuna. Talvez por terem tido influências semelhantes, fontes populares, italianas, gregas e entre tantas outras fontes, ou ainda, devemos aqui ressaltar a admiração que o escritor brasileiro tem pelo dramaturgo inglês, sendo que aqui esse fato contribuiu para mais uma evidenciação dos elementos de Shakespeare em seu trabalho, falamos agora das adaptações televisiva e cinematográfica da peça Auto da Compadecida, feitas por Guel Arraes em 1998 e 2000. Guel, sabendo da admiração que Suassuna alimenta por Shakespeare, incorporou vários elementos shakespearianos nessas adaptações, entre elas temos a própria questão do Mercador de Veneza, a qual já foi discutida anteriormente, e temos ainda uma alusão feita à peça Romeu e Julieta, quando os personagens Rosinha e Chicó, na passagem em que eles conversam e surge à ideia de tomarem algo, fingirem-se de mortos e em seguida fugirem e finalmente casarem-se. Qualquer leitor Sabe que essa passagem refere-se à tragédia de Shakespeare.

Aqui então trabalhamos com o termo apropriação juntamente com a originalidade feitas por Suassuna na obra de Shakespeare. Suassuna apropria-se de vários componentes shakespearianos para embasar suas peças, muitos chamariam isso de plágio, mas ao contrário de plágio que significa cópia, imitação, a apropriação leva muito do seu autor original e de seu apropriador, pois quando um autor apropria-se de uma obra, e faz dela uma nova releitura, introduz na mesma elementos de seu universo próprio. Então nos deparamos aqui com mais uma questão: o que vem a ser o autor original de um texto? Se, ser original implica em ser natural, possuidor de caráter próprio. E quando produzimos uma obra ou um simples texto, não estamos sendo totalmente originais? nosso texto sempre terá algo relativo a outros autores, autores esses, os quais, nós conhecemos enquanto leitores.

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E é exatamente isso que ocorre na obra de Ariano Suassuna, o qual apropria-se de obras de autores como Shakespeare, e através delas, enriquece suas peças.

REFERÊNCIAS:

DINIZ, T. F. N. Literatura e cinema: tradução, hipertextualidade e reciclagem. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2005.

HELIODORA, B. Falando de Shakespeare. São Paulo: Perspectiva, 1997.

______. A aulularia de Suassuna. In: O Percevejo [Revista do Departamento de Teoria de Teatro/ Programa de Pós-Graduação em Teoria da UNIRIO], Rio de Janeiro, ano 08, n.08, p.114-118, 2000.

NEWTON JÚNIOR, C. O circo da onça malhada: iniciação à obra de Ariano Suassuna. Recife: Artelivro, 2000.

SHAKESPEARE, W. O mercador de Veneza. Tradução. Barbara Heliodora. 2. ed. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999.

RABETTI, B. Ariano Suassuna: apontamentos para o dossiê. In: O Percevejo [Revista do Departamento de Teoria de Teatro/ Programa de Pós-graduação em Teatro da UNIRIO], Rio de Janeiro, ano 08, n.08, p. 98-99, 2000.

SUASSUNA, A. Uma mulher vestida de sol. Recife: Imprensa Universitária, 1964. de Janeiro: José Olympio, 2004.

TAVARES, B. Abc de Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.

VASSALLO, L. O sertão medieval: origens européias do teatro de Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993.

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