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O Medo da Morte na Idade Média: uma visão coletiva do ocidente. Dhiogo José Caetano

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O Medo da Morte na Idade Média:

uma visão coletiva do ocidente

O Medo da Morte na Idade Média:

uma visão coletiva do ocidente

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O Medo da Morte na Idade Média:

uma visão coletiva do ocidente

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LITERACIDADE

CNPJ: 12.757.748/0001-12 Ins. Est. 15.317.340-8 Caixa Postal 5098 - CEP 66645-972 - Belém-PA

Telefones: (91) 8263-8344 // 8896-0379

editoraliteracidade@uol.com.br // www.literacidade.com.br O Medo da Morte na Idade Média

© 2012 - Dhiogo José Caetano Todos os direitos reservados.

Proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização por escrito do autor.

Projeto gráfico, editoração eletrônica:

Abilio Pacheco

Capa: Arte a partir de Liber Chronicum, de Hartmann Schedel (séc. XV).

In: POLLEFEY, Patrick. Représentations diverses de la mort.

Revisão:

Deurilene Sousa

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

C127 CAETANO, Dhiogo José.O Medo da Morte na Idade Média: uma visão coletiva do ocidente. Belém: LiteraCidade, 2012.

p. 56

ISBN 978-85-64488-14-4

1 História Geral. 2. História ocidental. 3. Morte. I Caetano, Dhiogo José.

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O Medo da Morte na Idade Média:

uma visão coletiva do ocidente

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Agradecer é uma das coisas mais belas que o ser humano pode fazer, é admitir que houve um momento em que se precisou de alguém. Agradecer é reconhecer que jamais poderemos lograr o dom de sermos auto-suficientes. Hoje e para sempre, acre-dito ter adquirido essa consciência, o que foi uma das coisas mais maravilhosas que já aconteceu em minha vida. A todos que estão a minha volta, muito obrigado, pois sei que, se não tivesse vocês, não teria for-ça para alcanfor-çar meus objetivos e metas.

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ÍNDICE

Introdução ... 9

1. A Morte na Ideologia Histórica ... 13

1.1 As Estruturas do Ocidente Médio ... 13

1.2 O Poder da Memória na Construção e Desconstrução do Medo da Morte no Ocidente Médio ... 22

2. Raízes do Medo ...27

2.1 A Morte Na Visão Coletiva do Ocidente ...27

2.2 Medo de Morrer e Medos Humanos ... 42

2.3 Comportamentos Diante da Morte ...47

Considerações Finais ... 51

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Introdução

Estarei trabalhando o medo da morte em uma perspectiva coletiva do Ocidente em um período de conflitos e mudanças sociais, econômicas e religiosas. Trata-se de uma análise que foca a Europa central em meio ao feudalismo clássico ocidental. Sendo um estudo das mentalidades que se pauta na longa duração de Fernand Braudel, ou seja, no tempo de formação da mentalidade religiosa ocidental.

Uma investigação e análise de uma discussão bibliográfica sobre o tema morte em um recorte temporal de vários séculos.

E o porquê da escolha deste tema? Primeiramente, o interesse pela pesquisa do tema surgiu desde a minha infância, pois o mesmo causava curiosidade pelo fascínio que a morte provocava nos seres humanos como algo desconhecido e temido.

Ao iniciar a faculdade depare-me com a História Medieval que me causou admiração e interesse pelo período, por isso a decisão de se trabalhar o tema do medo da morte nesta parte da história.

Este trabalho é teoricamente fundamentado na Nova História, mas especificamente dentro da História Cultural, destacando a História das Mentalidades.

Por se constituir um tema subjetivo (micro-história), deve-se inseri-la em uma abordagem dentro da Nova História e assim o farei percorrendo de forma pontual algumas questões da historiografia que são pertinentes ao objeto escolhido.

Assim, o trabalho foi dividido em dois capítulos visando uma maior compreensão do tema proposto. No primeiro capítulo, trabalhei teoria e historiografia visando descrever como o medo de morrer se comportava dentro da historiografia. Podendo ser visto que a formação do medo coletivo traz várias consequências para o Ocidente e possibilita

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uma análise mais profunda com relação aos conceitos de cultura, civilização, memória coletiva e religiosidade de forma homogênea.

A morte como fenômeno físico, já foi evidentemente estudada, sendo um objeto de pesquisa de muitos pesquisadores, porém ainda permanece como um mistério. “Quando aventuramos no terreno do psiquismo, a morte nos auxilia na investigação da mentalidade humana, colocando em destaque o medo do homem de que um dia a vida chegará ao fim”. (DELUMEAU,1989,pp.90-8)

Dentro da Nova História ampliaram-se os objetos de estudo, se fazendo possível analisar até mesmo termos subjetivos como o medo o qual envolve a História das Idéias, História das Mentalidades e História das Religiões.

Trabalhar essa questão (a da memória) é fundamental para a compreensão e análise do medo em um período que nos retrocede cronologicamente. A construção de uma memória coletiva do Ocidente Medieval é essencial para responder os inúmeros questionamentos levantados pelo próprio processo investigativo. Portanto essa é pretensão desse capítulo.

Já o segundo capítulo foi trabalhado o medo de morrer e a concepção de religião e mentalidade na Idade Média. Foi analisada a visão coletiva do homem medieval diante do medo de morrer e o domínio abstrato dos símbolos, que revelava um mundo que se estende além do aqui e do agora, aflorando a concepção de uma decisiva consciência que vislumbra que o medo da morte não é somente considerado um aspecto que fascina, mas ao mesmo tempo, aterroriza a humanidade, historicamente sucede de fontes de inspiração para doutrinas filosóficas e religiosas bem como uma inesgotável fonte de temores, angústia e ansiedade para os seres humanos.

Juntamente com a configuração da sociedade, não podemos deixar de lado o processo de configuração de uma mentalidade coletivamente religiosa, dotada de objetivos e métodos próprios. Estruturando como disciplina a etnologia conseguindo ganhar reforços poderosos de discussão positivista e evolucionista para a análise do sistema religioso.

O estudo dos comportamentos sociais na Idade Média mostra que as crenças e práticas beneficiaram a constituição de um novo

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campo do conhecimento, tornando-se uma disciplina autônoma, na medida em que categoria social e sociedade tornavam papel privilegiado do estudo, entre eles à religião que passava a merecer maior atenção, com um estudo mais objetivo e sistemático. O termo religião se estruturou num contexto de lentas e definitivas laicizações, conhecendo vários significados, de diversos autores, que promoveram o método comparativo entre sagrado e profano, sociologia e antropologia, abrindo caminhos importantes para uma proposta, mas adequados à abordagem historiográfica; conjugando o desenvolvimento e a vivência de crenças religiosas, um estudo rico e complexo, passando pela produção no campo da mentalidade, demonstrando ser um campo fértil para a contínua reflexão metodológica e historiográfica.

No entanto, o homem na Idade Média se encontrava submisso aos dogmas e práticas religiosas, que tornavam severos os sistemas em geral; ideia transferida graças à memória. Tais fatores deixavam o homem medieval conformado com a miséria vivida, com a peste que assolava, pois somente com a dor, a renúncia e a purificação da morte que o homem garantia a salvação e o paraíso. Tornando possível abordar a relação do homem com a morte em vários aspectos: o biológico, o jurídico, o econômico, o social etc. Na obra, o homem diante da morte, de Philippe Áries (1990) podemos perceber o processo de domesticação da morte; ou seja, uma forma de viver com tal fenômeno como algo natural; nascido por ocasiões do trauma primitivo diante do fato inelutável da morte até a incorporação desta na vida humana.

Ao investigar o medo de morrer não podemos deixar de destacar o controle sobre o corpo na Idade Média. O homem para ter uma boa morte deveria controlar e disciplinar os desejos do corpo.

Assim, ao analisar o medo da morte na Idade Média, deparamo-nos com regras e comportamentos que favoreciam para uma boa morte, ou seja, uma preparação para o pós-morte que requeria práticas diárias para eliminar os desejos da carne.

Portanto, a disciplinarização do corpo e as regulamentações da vida do homem constituem dois pólos em torno dos quais se desenvolveram a organização do poder sobre a vida. Um paralelo que se caracteriza por um poder cuja função é investir todas as forças sobre a vida.

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1. A Morte na Ideologia Histórica

1.1

As Estruturas do Ocidente Médio

Percorrendo de forma pontual as diversas correntes historiográficas, o ofício de historiador já passou por diferentes fases onde alguns aspectos como, por exemplo, os objetos de pesquisa, fontes e metodologia foram ou não por vezes privilegiados ou por vezes desconsiderados.

A posição básica da perspectiva entre as visões francesas e alemãs dificulta o entendimento de correntes paramarxistas, conhecida como Escola de Frankfurt (1968 – 1989) onde ocorreu o deslocamento de paradigmas nas áreas das ciências humanas e sociais; mudanças que afetam a História, promovendo a formulação de uma Nova História, que tem como ambição a diversidade dos objetos e a alteridade cultural. Assim a disciplina histórica é apresentada hoje a partir de oposições entre paradigmas polares chamados de “modernos” ou iluministas filiados ao marxista e ao grupo dos Annales que foram influentes e prestigiados no período de 1929 a 1989.

A visão marxista foi sintetizada por Adam Schaff (1991) que afirma a realidade social como algo mutável, onde seus fatores sofrem mudanças.

A preocupação dos marxistas transcende as esferas humanas, naturais e historiográficas; aparecendo ambas em um movimento dialético vinculado um ao outro. A principal contradição dialética entre o homem e natureza, se relaciona no desenvolvimento das forças produtivas, e a partir da análise integrada dessas contradições é que surgem os conceitos históricos como modo de produção, formação

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econômica, sociedade e classes sociais.

Dentro do estudo sobre os paradigmas da história notamos uma compatibilidade entre os marxistas e os ideais dos grupos dos Annales e dos inúmeros seguidores da chamada Escola de Frankfurt. Tal compatibilidade se relaciona com a inclinação teórica dos historiadores pelas mudanças sociais e a ausência da preocupação com o individuo, devido à obsessão pelo que é estrutural e transindividual, sendo insuficientes suas indicações acerca da noção de poder. No caso da Escola dos Annales se relaciona com a polêmica contra uma história tradicional de corte político militar; levantando discussões e críticas em relação à ciência e sua objetividade, implicando ao mesmo tempo idealismo e materialismo, fatos os quais mesmo com a ausência da solução de problemas não deixaram de citar teorias, ideologias e utopias.

O paradigma pós-modernista se revela como um resultado de uma trajetória pessoal de intelectuais da década de 1970; revolucionários desiludidos, muitos abandonavam a crença na possibilidade de uma transformação global, partindo para movimentos de luta ou reivindicação, desembocando por fim no neoconservadorismo ou neoliberalismo, processo que se desenvolveu no Ocidente.

Alguns dos aspectos da Nova História vieram para ficar. Entre eles, a ampliações dos objetos, as estratégias de pesquisa e de reivindicação dos indivíduos, tornando possível a legitimação da história. Nesse sentido, o medo da morte na Idade Média entra como objeto de análise legítimo do historiador.

No decorrer da pesquisa, a pluralidade disciplinar é evidenciada; as ideias se mantém vivas, uma disciplina que tem como objeto o estudo da história das ideias que teve que enfrentar como adversário a tradição marxista e a historiografia francesa dos Annales.

Mas boa parte dos historiadores prefere hoje classificar a história, como algo que de forma essencial ajuda o homem a pensar nas particularidades dos conceitos históricos que até pouco tempo não constituía um campo particular e sim um objeto de estudo de alguns departamentos da filosofia. As ideias propõem uma representação mental de um objeto ou fato, enfocando uma problemática complexa, observando a intertextualidade e a contextualização, desempenhando

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diversas funções, mesmo assim observa-se que os historiadores mantêm uma relação precária com as ideias; utilizando constantemente uma gama de categorias, conceitos e noções; remetendo ao senso comum, teórico e específico.

É importante deixar claro que as ideias tiveram papel decisivo na História, não se tratando ainda de uma História das Ideias e sim uma história geral das civilizações relacionada ao conceito de cultura; mas não existe recorte das “ideias” enquanto objeto particular historiográfico. Pois a historiografia do século XIX desenvolveu segundo alguns percursos metodológicos: a perspectiva discursiva, explicativa, compreensiva e historicista.

Percebe-se que a ideia se relaciona com a realidade real, histórica, única e singular; assim podemos compreender o sentido da famosa frase de Aristóteles “A tarefa do historiador é expor aquilo que realmente aconteceu”. As ideias não são algo acrescentado na história; ao contrário é algo que aparece na conexão natural das coisas. (MICHELET, 1992, pp. 90-7)

Ao longo da construção historiográfica, a historiografia romântica teve forte conotação política e ideológica, daí o hábito de se subdividir em duas vertentes; uma dita conservadora, mais tradicionalista e outra progressista; uma historiografia que se dizia “positivista”, mas na realidade propunha uma ideia evolucionista e cientifica que compreende as várias vertentes históricas, em função de suas diferenças quanto ao conhecimento histórico. (CARDOSO, VAINFAS, 1997, pp. 150-8)

No espaço historiográfico desse “positivismo” metodológico a compartimentalização disciplinar deslocou e pluralizou a história das idéias. Idéias que não se constituem em uma esfera distinta e separada da existência social, as quais são unidades estruturais da história. A história do medo na Idade Média Ocidental encontra aqui seu local específico de abordagem É por meio da análise de um conjunto de idéias e do imaginário medieval que será analisado respectivamente com suas estruturas sociais (o contexto, por exemplo), a questão do medo da morte nesse período.

No século XX, a historiografia das “idéias” diversificou-se bastante, funcionando como orientadora temporal de acesso às questões em debate e abordagens de modelos e métodos propostos.

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A crítica antipositivista não era necessariamente “irracionalista” não sendo a “razão” que se rejeitava mais sim certo tipo ou concepção da “razão iluminista”. (CARDOSO, VAINFAS, 1997, pp. 3-6)

Bloch e Febvre (1920) citados por Ronaldo Vainfas (1997) inauguram o estudo das mentalidades, delas fazendo um legitimo objeto de investigação histórica. Mas não se pense que foram eles os primeiros a se dedicarem aos estudos dos sentimentos, crenças, e costumes na historiografia ocidental. (CARDOSO, VAINFAS, 1997, pp. 131-3)

A problematização braudeliana do tempo longo é de importância crucial com relação ao assunto a respeito da mentalidade. Ao analisar a noção de “internalização” no âmbito da história intelectual e das ideias ocorre a amplitude dos campos de tendências do tipo de objeto abordado. Logo, deve-se pensar na investigação e na problematização de tal processo que se conduz ao processo coletivo dos grupos sociais; em uma dialética de longa duração (BRAUDEL, 1984, pp. 25-9).

Numa visão coletiva, seria errôneo falar em uma história das mentalidades homogênea e unificada, seja quanto a seus pressupostos teóricos e metodológicos. Cabe, portanto falar das divisões das mentalidades, em particularidades que se divide em uma história das mentalidades herdeira das tradições dos Annales, e outra que seria a história assumidamente marxista, preocupada com a relação de conceitos e ideologias.

Portanto, a história das mentalidades está sim, descompromissada em discutir teoricamente os objetos se preocupando unicamente com a dedicação em descrever e narrar épocas ou episódios do passado, uma história cética quanto à validez da explicação e da própria distinção entre narrativa literária e narrativa histórica.

Conforme Marc Bloch (1930) aplica-se o método comparativo no quadro das ciências humanas, em que consiste em buscar e explicar as semelhanças e as diferenças em que apresentam as duas séries de naturezas análogas, tomadas de meios sociais distintos, uma série de instrumentos capazes de transformar a história em uma ciência, que permitiram a passagem da descrição para explicação dos processos históricos.

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critérios conceituais coerentes, sem cometer anacronismos, sobretudo em se tratando de sociedades bem diversas ou muito afastadas no tempo.

Analisar o medo no ocidente revela um problema que consiste em determinar o nível, as estruturas do objeto que permita uma profunda assimilação da realidade única e singular do medo em meio à hegemonia cultural. Na aurora do estudo sobre a morte, notamos que ela assume na Nova História das mentalidades um espaço importante. Iniciando um estudo das atitudes coletivas que atualmente está em pleno desenvolvimento.

Todavia, é visto que as relações dos homens com a morte são sistematizadas conforme o ideal coletivo ou individual.

Podemos assim afirmar que a história da morte se desenvolve em um processo coletivo e de longa duração que faz explodir os quadros de manifestações onde se expressa o imaginário coletivo (DELUMEAU, 1989, pp. 22-4).

Neste discurso sobre a morte em meio a historiografia, podemos realizar uma análise indireta dos rituais e gestos, que possibilitam perceber a evolução da memória coletiva com relação à representação do medo da morte e do pós-morte na Idade Média.

Segundo Michel Vovelle (1991), a história da morte continua como uma história convulsiva, balançada por golpes brutais onde se cria uma série de sentimentos negativos com surtos na Idade Média depois da peste negra (VOVELLE, 1991, p. 136).

O medo da morte possui uma ligação com a história social, trazendo consigo uma complexidade com múltiplos valores específicos, de um processo que se formulou a partir da experiência dos indivíduos. Ideologicamente, podemos notar que a morte envolve um conjunto de representações e formas, incluindo também as práticas, normas e comportamentos conscientes ou inconscientes.

Na forma pragmática do entendimento, o conceito de coletividade se relaciona com categorias ou maneiras próprias de liberdade do espírito humano, que se expressa através dos múltiplos fatores que evidencia o drama do medo na sociedade ocidental, onde as normas sociais e culturais visavam o equilíbrio entre poder e limite.

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deixa claro que a história é um conjunto descontinuo, formado por domínios, de variadas épocas e com inúmeros caracteres de eventos diferenciados, que possibilitam dar rumos à história, cuja escrita é, sem dúvida, a opção mais complexa, onde o homem tenta assegurar o tempo que se passa e flui permanentemente num devir constante, cujas explicações reais escapam através das falhas da memória.

Todavia, não podemos perder de vista as permanências da história que prosseguem por muito tempo, a hegemonia positivista. A história das ideias cede lugar à história sociocultural; o mesmo ocorrendo com a história das mentalidades; os historiadores abandonam as velhas questões tradicionais e partem em busca de “longos períodos” e para isto inventam novos métodos e instrumentos.

Foucault (1986) pensa em uma história econômica, social e quantitativa “novidade” que encanta ou irrita os historiadores das idéias; pois ocorreu uma rejeição das cadeias evolutivas das “visões de mundo” e outras noções típicas da história tradicional. Os historiadores pretendem ver cada idéia ou cada pensador em um “microcosmo” no qual se articula passado e presente numa estrutura especifica, preservando o eixo temporal das relações históricas, promovendo a conexão dos objetivos comuns aos historiadores dos diversos grupos.

A noção de “internalização” no âmbito da história intelectual e das idéias abrange um vasto campo de tendência definida em função aos métodos utilizados ou do tipo de objeto abordado.

A compartimentalização tende a não computar as histórias das idéias, produzidas pelos colegas de outras áreas das ciências humanas e sociais, não deixando de lado a produção dos não historiadores.

Utilizando o termo cultura, devemos fazer um diálogo com a cristandade, pois a religião cristã é supostamente “superior” as outras sociedades, pois sua ideologia é formada na Idade Média, onde os limites da cristandade eram os limites humanos; um movimento de lutas entre humanos, cristãos e pagões. (CARDOSO, VAINFAS, 1997, pp. 145-9)

A abertura a alteridade está totalmente envolvida com a nova forma de se fazer história, pois o “outro”, o “diferente” começa a fazer parte da história como sujeito, ou seja, objeto de discussão da disciplina histórica.

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A descoberta do outro, foi sem dúvida um acontecimento surpreendente na história do ocidente, fundando um movimento interno, ocorrido na Europa Ocidental, decorrente da desagregação do feudalismo, que expõe o indivíduo ao meio de produção, fundando a sociedade moderna e ao mesmo tempo, abrindo portas para venda da força de trabalho e da escravização do individuo ao capital, libertando também as estruturas e valores familiares tradicionais, autocentrados e limitadores do exercício de vontades individuais e coletivas.

A descoberta de si e do outro, permite a existência de aceitação das diferenças em conjuntos do desenvolvimento da sociedade capitalista que se torna individualista quebrando as rupturas e padrões sociais; perceber-se que os povos considerados até então irracionais e não cristãos, também eram dotados de virtudes.

O pensamento ocidental caminha para a forma mais elaborada de classificação do outro, consolidando a raça branca como superior; desenvolvendo a teoria de desigualdade; enfrentando a miscigenação, o hibridismo que trazia em si a infalível decadência da particularidade. Durante o século XIX e boa parte do século XX, não faltou esforço de aprimorar o conceito de raça, legando a perspectiva biológica comportamental; abrindo caminho para o estudo antropológico mais profundo que fornece a base para o desgaste acentuado do etnocentrismo ocidental.

Lévi Strauss (1976) chama de primitivo a ciência moderna onde o universo é objeto do pensamento, pelo menos como Strauss, sustenta a diferença entre o grupo étnico, que no lugar da raça surge como elemento definidor da identidade de grupos humanos, ocorrendo uma interação e interferência entre duas ou mais tradições culturais, pois é inegável o efeito cultural que oferece no decorrer do contato.

Tal dinâmica das sociedades não só ocidentais, contribui também para um processo de trocas culturais plenas e verdadeiras.

A concepção do medo é algo que o homem desenvolveu como uma capacidade construída culturalmente, ideal que partiu de uma construção do mundo material (ÁRIES, 1990, pp. 80-9). E apesar dessa reconhecida diferença cultural percebe um traço em comum: o medo de morrer.

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cujo produto é definido no mundo material, porém o materialismo se divide em vários campos e um dos principais é a alienação, algo visível no Ocidente Médio, pois as sociedades medievais ligavam o medo de morrer com a vida. Processo de alienação do medo que se constituía no mundo dos vivos (ÁRIES, 1990, pp. 77-9).

A religião é um fator de grande importância na Idade Média, pois ela mantinha as pessoas alienadas ao medo que naturalmente é algo normal. O conceito de homem se afirma como produto do meio, mas os impasses e interesses os levam as influências e transformações do meio (ÁRIES, 1990, pp. 55-8).

Juntamente com a configuração da sociedade, não podemos deixar de lado, o processo de configuração da história das religiões, dotada de objeto e metodologias próprias.

O estudo do papel social das religiões mostra que as crenças e práticas, beneficiaram a constituição de um novo campo do conhecimento, tornando-se uma disciplina autônoma, na medida em que as categorias sociais e a própria sociedade se tornavam papéis privilegiados do estudo. A religião passa a merecer maior atenção. Um estudo mais objetivo e sistemático das diversas formas de ritos e práticas religiosas que possibilitam a compreensão mais abrangente das práticas individuais ou coletivas passam a fazer parte do rol dos historiadores.

Emile Durkheim (1895) é um dos primeiros a fazer o esboço teórico e metodológico para a análise do sistema religioso, adotando preceitos evolucionistas, na elaboração de um modelo imutável, imune ao tempo e a história; mas não resta dúvida de que seria Marx Weber (1905) o aplicador do método de análise que ele denomina sociologia; cujo um dos objetivos é a construção de conceitos. Ficando claro a procura dos fundamentos metodológicos da sociologia religiosa, através da análise de tipos de comunidades religiosas. (DURKHEIM, 1917, pp. 61-3)

Weber (1905) muito acrescentou à reflexão sobre o papel da religião na vida social, um contraponto em relação à reflexão de Marx e Engels, que aponta o estudo das religiões entrelaçando a luta de classe, percebendo a religião como a ilusão destinada a mascarar e a justificar a desigualdade entre as classes sociais, cuja origem tinha

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uma base eminentemente econômica. Weber, Marx e Engels pouco contribuíram para a valorização da história das religiões como objeto de investigação; mas com a estruturação e sistematização disciplinar, constituíram a sociologia religiosa, que ganhou corpo a partir do século XIX, organizando a “ciência das religiões” de um lado e a essência da vida e do homem religioso do outro. (WEBER, 1920, pp. 70-2)

O termo religião se estruturou num contexto de lentas e definitivas laicizações, conhecendo por vários significados de diversos autores que promoveram o método comparativista entre sagrado e profano, sociologia e antropologia, abrindo caminhos importantes para uma proposta mais adequada a abordagem historiográfica, conjugando o desenvolvimento e a vivência de crenças religiosas a uma conjuntura histórica bem delineada e problematizante, caminhando para um estudo rico e complexo, passando pela produção no campo das mentalidades e da história cultural, irrigando a história das religiões e da religiosidade, demonstrando ser um campo fértil para continuar a reflexão metodológica e uma futura investigação historiográfica.

Como já mencionado, ao se fazer um balanço geral da historiografia conseguiremos identificar com nitidez dois grandes paradigmas, o iluminismo e o pós-modermisno, que com a Nova História surtiu uma confusão entre sujeito e objeto, resultado da crença de se observar e de se investigar a parte integrante daquilo que se estuda.

Portanto, os caminhos e descaminhos da história, enfrentam com serenidade as diferenças de opiniões e opções teóricas que buscam o equilíbrio dos problemas a serem investigados, posições que devem ser assumidas, com fins de convencer que a história é ciência, e trata-se de uma ciência que estuda a coletividade.

Tratando do predomínio de um processo hermenêutico de interpretação, partidário das microcorrentes, do estudo de pequenos grupos; que leva ao declínio o “paradigma iluminista” como no caso da história econômica, história social e história das mentalidades, assim chamada pela Nova História.

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1. 2 O Poder da Memória na Construção e

Desconstrução do Medo da Morte no Ocidente

Médio

Ao estudar paradigmas como o medo da morte, deparei com a memória a qual possui conceitos cruciais; ela surge nas ciências humanas. A memória como propriedade de conservação, se retém em primeiro lugar, a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode utilizar impressões ou informações do passado.

Memória é uma palavra que veio do latim; memória em primeiro lugar é algo que não está em lugar algum, porque ocupa e preenche todos os lugares (GUARINELLO, 1993, pp. 180-2).

A memória também pode ser entendida como uma reflexão sobre o passado, um debruçar sobre os vestígios; como afirma Henri Bergson (1994) a lembrança é a sobrevivência do passado. O passado conserva o espírito de cada ser humano, aflorando a consciência na forma de imagens lembradas. A sua forma pura seria a imagem presente nos sonhos e nos devaneios de uma memória construída.

A memória é assim uma forma de ação representativa. É no fundo um jogo dos sentidos possíveis nos quadros, mais ou menos indefinidos do tempo (GUARINELLO, 1993. pp.188-92).

A memória não é somente uma eterna repetição do mesmo, do idêntico a si. Ela é ação reflexiva, uma inquisição proposta ao tempo; ela pode ser a afirmação do próprio tempo, de sua eficácia transformadora.

A memória por si só já é seletiva, ocorrendo um subjetivismo dos fatos; onde grande parte da historiografia é construída por um pequeno segmento de memória coletiva, um segmento que acaba se enquadrando em uma esfera de atuação e influência social relativamente limitada.

A produção historiográfica é um conjunto de pequenos segmentos da memória coletiva, o vínculo entre memória coletiva e história

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científica. O vínculo construído tem relação positiva, pois enriquece as representações possíveis da memória coletiva. Mas também pode ser vista sobre um ângulo negativo, porque a história cientifica se volta regularmente contra as representações produzidas pela memória “espontânea” da sociedade.

A memória coletiva é deste modo, um meio fundamental da vida social, como também uma das dimensões da ação coletiva e de um vínculo de poder. Bergson (1984) citado por Le Goff (1994) afirma que a memória coletiva foi um importante elemento da luta das forças sociais pelo poder. A memória não é, portanto, um espaço homogêneo. No proceder da história, a história cientifica é o conjunto de produção social da memória que é analisada através de vertentes da historiografia contemporânea, que procura pensar tal relação; propagando uma total cisão entre memória e história, uma fusão completa das sociedades contemporâneas (CARDOSO, VAINFAS, 1990, pp.127-9).

Contrariamente á memória coletiva, foi proposto um jogo de forma importante na luta das forças sociais pelo poder. Sendo notado uma grande preocupação em se transformar em senhores da memória e do esquecimento; algo de grande preocupação das classes, dos grupos e dos indivíduos que dominavam as sociedades ocidentais. No entanto, os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores através dos mecanismos de manipulação da memória coletiva.

A memória é um instrumento de grande valor a qual possibilitada percebermos, os grandes medos do Ocidente Médio. Com a construção cientifica é visível às fraquezas da memória, com os esquecimentos forçados pelo acaso da preservação.

Os conflitos e imagens criadas na Idade Média a respeito da morte levam os indivíduos a um nível metafórico de perturbação, na perca de indivíduos de forma voluntária ou involuntária, a memória coletiva se determinava por uma perturbação de uma identidade também coletiva, onde ambos se alimentavam do medo e da dor, os quais pouco tinham a esperança de um “novo amanhã”.

Por essa via, Halbwachs (1984) amarra a memória individual e a memória dos grupos. No entanto a memória é uma tradição coletiva que envolve toda uma sociedade, onde as convenções verbais são propriamente ditas, a forma de produção de uma sociedade que

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constitui o quadro ao mesmo tempo mais elementar e mais estável da memória coletiva. (HALBWACHS, 1990, pp. 20-3)

Sobre os estudos da morte na Idade Média, podemos ver a contribuição da memória, em diversas formas que engloba todas as comemorações ritualísticas dos defuntos tais como: as procissões funerárias, os aniversários dos mortos, a celebração litúrgica dos mortos (fosse ele um morto comum ou um morto especial, ou seja, um “santo”) (DELUMEAU, 1989, pp. 31-7)

Assim, fica claro que o estudo empírico da morte, se afirma em uma aventura mental individual ou coletiva que busca respostas nos ritos e causalidades próprias da época. Essa ritualização da morte será melhor abordada no primeiro item do segundo capítulo.

Sob diversas formas, a memória é fundamental para compreendermos os medos das sociedades medievais, pois é possível abordarmos inúmeros sentidos de uma memória que era transmitida aos indivíduos através das práticas e formas de rituais litúrgicos.

A liturgia monástica na Idade Média voltava à memória como comemoração litúrgica dos vivos e dos mortos, porém a recordação dos mortos era evocada de duas maneiras, a primeira originária de práticas cristãs primitivas, uma evocação no cânon da missa e a outra ocorria após as leituras dos capítulos das regras beneditinas (AGOSTINHO, 1990, pp. 402-5).

A memória medieval é essencialmente transferida através da oralidade, ato que ocorria nas cerimônias. A memória exprimia um contexto social, onde as características orais são de extrema importância, mas a utilização de textos também se tornou fontes essenciais e variadas. Assim fica visível que a memória monástica não era uma atividade passiva, e sim ativa, por que ela selecionava, corrigia e reinterpretava constantemente o passado em função das necessidades do presente.

Com a utilização da escrita, surgirá a emblemática busca de equilíbrio entre memória escrita e memória oral, um ideal que variava na Europa de acordo com o lugar e a época.

Em meio ao sistema de importância fundamental da vida na Idade Média a memória não pode ser resumida, pois ela nos permite reviver o passado. Na tradição neoplatônica de Santo Agostinho (1990)

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a memória era a primeira faculdade mental, um reflexo da trindade divina. A memória para ele representa a maior faculdade intelectual e a chave da relação entre Deus e o homem.

Por ventura, a memória psicológica é um elemento da “trindade”, sendo sagrado o amor que provém da memória e corresponde a segunda pessoa, o filho, o gerado pelo Pai, sendo que é o amor que liga as duas partes juntamente com o espírito santo. (AGOSTINHO, 1990, pp. 320-9)

Estas analogias monásticas continuam exercendo grande influência durante a Idade Média. No entanto, a memória ocupa um lugar central na cognição humana, mas de maneira diferenciada entre os indivíduos.

Mas quando falamos em faculdades mentais não podemos deixar de destacar as faculdades da alma, sendo uma delas a memória, cujo papel é de englobar as múltiplas questões com relação à imortalidade do individuo e sua responsabilidade que em meio as complexidade acaba-se confrontando com um dos aspectos fundamentais da memória o esquecimento que é atribuído ao homem por diferentes razões que se define ao meio. (AGOSTINHO, 1990, pp. 280-8)

Notavelmente, a memória desempenha o papel de construção do medo da morte, algo transmitido através do cristianismo e da sua injunção eucarística, que tem relação conceitual de divino e de pecado; ideais que predominaram no Ocidente, mas em todo caso, a razão mostra que o passado não conserva por si próprio, mas se constrói e se organiza pelos indivíduos que pretendiam seguir seus reis, que muitas das vezes se intitulava “guardiões” das lembranças ou das tradições dos ancestrais, um processo fundamental para a transmissão de informações e práticas; porém precursora de inúmeras limitações geradas pelo medo de morrer.

Sendo assim, o homem na Idade Média se encontrava submisso aos dogmas e práticas religiosas, (ideais transferidos graças a memória), que tornava severo os sistemas em geral, declarando que seu princípio estava sujeito á lei universal de toda a vida, onde o homem deveria passar, assim como todos os povos e religiões, pela essência da purificação da morte.

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morte, o homem renascia no que há de melhor. (MICHELET, 1992, pp. 61-8)

Dando relevância aos comportamentos diante do medo que o homem tem da morte; a memória do individuo depende do seu relacionamento com a família, com a classe social, com a escola, com a igreja, com a profissão; enfim com os grupos de convívio e os grupos de referência peculiares a esses indivíduos e a própria sociedade.

A memória tem o poder de fundamentar as tradições de uma cultura, como produto social que liga a reprodução da sociedade organizada e que reproduz constantemente as repetições, ou seja, o caráter é de unificação, representado de forma simbólica nas festas cívicas ou populares, nos ritos religiosos ou nos rituais de passagem da vida para a morte.

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2. Raízes do Medo

2.1 A Morte Na Visão Coletiva do Ocidente

A morte é uma certeza irrefutável, uma verdade universal, comum a toda a humanidade. O ciclo da existência acaba por igualar todos na morte, seja qual for o sexo, a condição social, o tempo histórico. O finito é irremediável para todos, como foi indispensável o próprio nascimento.

A inquietude a respeito da morte foi sempre objeto de grande reflexão do homem, na incerteza do que haveria para além dela. Esta herança milenar sofreu um rude golpe com a modernidade. A sociedade ocidental atual, cada vez mais tentada a prolongar a vida, vai se distanciando da morte, não pensando nela ou procurando esquecê-la. Com o acentuar do laicismo, afirma-se cada vez mais que após a morte nada há mais, o que modifica o comportamento humano e incentiva cada vez mais a viver a vida, a gozar dos prazeres dos sentidos corporais, sem e preocupar com a existência ou não da “alma”. (DELUMEAU, 1989, pp. 121-9)

Com o distanciamento do homem em relação á morte, cria-se um tabu, como cria-se foscria-se desaconcria-selhável ou proibido falar sobre este tema.

Ao trabalhar a morte como um fenômeno físico e mental, ajuda-nos a elaborar ideias sobre a finitude humana, provocando certo desconforto, pois damos de cara com essa mesma finitude, o inevitável, a certeza de que um dia a vida chega ao fim.

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os filósofos, historiadores, sociólogos, biólogos, antropólogos e psicólogos que discutiram o assunto no decorrer da história.

Philippe Áries (1990) aponta que nós aprendemos na nossa cultura, evitar a dor, e a perda fugindo da morte, criando lacunas onde pensamos estar fugindo dela, deixando de crer na nossa própria finitude.

É possível abordar a relação do homem com a morte em vários aspectos: o biológico, o jurídico, o econômico, o social e religioso. Na obra, o homem diante da morte, de Philippe Áries (1990) podemos perceber o processo de domesticação da morte; ou seja, uma forma de viver com tal fenômeno como algo natural; nascido por ocasiões do trauma primitivo diante do fato inelutável da morte até a incorporação desta na vida humana.

Portanto, podemos notar que o medo é a resposta mais comum diante da morte. O medo de morrer é algo coletivo e universal e na Idade Média todos os seres humanos, independentes da idade, sexo, nível sócio econômico e religioso a temia. A morte era algo que os espreitavam, os obrigando a usar mecanismos de defesa, os quais se expressam através de fantasias inconscientes sobre a morte.

A postura do homem perante a morte nem sempre foi assim, muito em especial na Idade Média. Com o advento da religião cristã, ao princípio influenciado pelo neoplatonismo de Santo Agostinho (1990), o mundo sensível era apenas considerado uma sombra, um caminho para se passar do sensível ao inteligível, da sombra para a luz. Em vez de procurarem na natureza o seu próprio fundamento, afirmavam que o mundo foi criado num ato de amor, e que esse amor deveria orientar os espíritos de volta para Deus, salvando-os do inferno. Passava a ser dogmático que o Inferno e o Paraíso existiam e eram inseparáveis e eternos. (AGOSTINHO, 1990, pp. 47-9)

Ao analisar a construção historiográfica podemos perceber um homem social que se utiliza de símbolos religiosos voltados para a vida espiritual, em um processo do conhecimento dos mistérios da alma. Tal processo tem por objetivo uma aspiração de uma vida plena. Aqui podemos perceber o quão importante era o fator

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religioso nessa formação da mentalidade do homem medieval. A morte é um dos fatores primordiais que leva a humanidade a busca constante do mistério da alma, uma perspectiva religiosa que se formula ao longo da existência; pois a alma não pode entrar no “reino dos céus” por outro caminho se não aquele determinado pela religiosidade de cada indivíduo que se conduz pela fé.

Esta alma religiosa se separa da vida cotidiana buscando fugir dos símbolos do paganismo, tratando de uma permanência na obediência de Deus.

Deste modo, os pensamentos negativos produzido pelo medo vão ser eliminados pelo espírito religioso que busca se tornar um ser bom, domesticado pelas regras e normas da vida social religiosa. (ÁRIES, 1990, pp. 50-4)

Tal ideia se contraponhe a duas perspectivas, uma de eliminar o medo de morrer buscando as coisas do alto, do céu, praticando a fé em um Deus, e a outra se pauta da busca religiosa como um processo de preparação da alma após a morte do corpo físico. (ÁRIES, 1977, pp. 46-8)

Assim, notamos que o homem pode conseguir refrear todos os sentidos e paixões do mundo material, no entanto não poderá fugir da experiência de morrer seja ele um homem religioso ou pagão.

O homem busca negar a existência da morte, se firmando em uma figura divina construída com objetivo de levar a paz, o ensinamento e a prática de renovação da existência em um sentido plural de sociedade.

Mesmo o homem mostrando controle sobre o mundo a sua volta, tendo a inteligência de julgar tudo, e sabendo com clareza que será julgado pelo espírito de Deus, que não promove uma distinção entre etnias ou condição social.

Aqui compreendemos o que foi mencionado na primeira parte sobre o que o homem ocidental medieval entende da alteridade. Mesmo o diferente, “o outro”, não está livre disso: todos um dia terão o mesmo fim: a morte.

A inteligência do homem pauta-se em obedecer às regras que lhe foram passada como algo “justo e verdadeiro” (ÁRIES,

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1990, pp. 70-6). Pois o homem constitui uma imperfeição julgada e considerada pecaminosa perante o pensamento religioso.

Deste modo, o homem tem uma visão construída á respeito da morte, algo renovado e interpretado de forma variada, mesmo em se tratando do coletivo medieval, como afirma Santo Agostinho (1990) o homem precisa enunciar tudo pelo mundo material, um abismo do mundo concreto e a cegueira da carne. (AGOSTINHO, 1990, p. 402)

Ao mesmo tempo em que crescem e multiplicam as gerações dos homens, crescem também os “números de medrosos” que utilizam de alegorias, reais que possibilitam a compreensão das práticas e normas a serem seguidas ao longo da existência, formas que também podem possibilitar a libertação da alma do corpo material.

O homem em sua tradição receberá traços de uma visão construída em sua sociedade como fonte de defesa e de entendimento coletivo dos indivíduos que se aliam para concretizar o voto á Deus ou á algum santo. Práticas pregadas como uma verdade, uma alegoria que pretende a misericórdia divina.

Assim, o homem se fundirá em meio ao medo, a paixão pela “verdade”, a busca do domínio da fé e da obediência á Deus. (DELUMEAU, 1990, p. 39)

Contudo, este homem “religioso e medroso” se equilibra na renovação, na imagem do ser divino que é construído na visão diferenciada do mundo material. Nesta perspectiva o homem busca fugir das coisas terrenas voltando para as coisas de Deus.

Portanto, os homens vivenciam o medo construído e transferido de outro homem como um mecanismo de defesa, ideias que tem por base o controle da sociedade, agindo como fatores que possibilitam a reflexão e entendimento do mistério do medo de morrer.

Para compreendermos a relação da vida com a morte, devemos fazer um paralelo entre sofrimento e alegria. Paralelos opostos, mas ao mesmo tempo interligados um ao outro ao longo da existência do homem medieval.

Não eram somente os grandes momentos como o nascimento, o casamento e a morte, que pela santidade do sacramento,

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eram elevados ao nível dos mistérios, pois uma viagem, um empreendimento era igualmente rodeado por mil formalidades como as bênçãos, as cerimônias. (ÁRIES, 1977, pp. 21-7)

Assim, é visto com clarividência o contraste entre silêncio e ruído, entre a luz e as trevas, um tom de excitação que tende a produzir essa perpétua oscilação entre o desespero e a alegria uma ligação entre crueldade e a ternura que caracteriza a vida na Idade Média. É visível o contraste entre a crueldade e a piedade transparecendo constantemente nas relações individuais e coletivas da Idade Média.

Em meio à construção de uma vida que praticava normas religiosas, que interferia no comportamento pessoal e coletivo dos indivíduos que tinha por base a busca diária do “tipo ideal”. Tal busca estava presente com fortes características nas cerimônias, nos ritos do luto e do casamento; valores que se tornaram práticas culturais na vida cotidiana do mundo medieval. (ÁRIES, 1990, pp.300-8)

Assim se expressa o homem do Ocidente, reagindo a uma sensibilidade coletiva diante da vida, sendo a morte um sentimento medieval pertencente a uma história da cultura global. A morte é um elemento ou código carregado pelo homem em suas tradições e experiências, que deve ser decifrado para a sua própria compressão. Substituir a morte pela mortalidade, quer dizer, o sentimento de morte, concentrada na realidade história, acaba por diluir na massa inteira da vida e se perder na sua intensidade. (ÁRIES, 1990, pp. 37-9)

Mas não podemos esquecer que, mesmo a morte, tornando-se complexa e difundida na história do homem, nota-tornando-se o caráter social ou ritual, o caráter obrigatório das manifestações que pretendia originariamente expressar a dor da saudade, o dilaceramento de uma separação. E é verdade que as tendências da ritualização da morte é bem antiga, iniciando na Idade Média com os padres, os monges mendicantes. Mais tarde, os confrades e os padres deram o lugar para a família e os amigos, que em pranto no espaço privado da casa, no cortejo e na igreja; reforçado a impersonalidade e os ritualismos.

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A ritualização, socialização do luto não representava o desabafo, onde o homem medieval poderia expressar o que sentia diante da morte e sim um momento o qual o impedia, o paralisava. No entanto o luto tem o papel de romper com os limites entre o homem e a morte.

O desejo de simplificar os ritos da morte na Idade Média era um meio de negar a existência da própria morte, portanto queriam reduzir a importância afetiva da sepultura e do luto, sendo inspirado pela humildade cristã, e rapidamente confundido com um sentimento ambíguo que homens da Idade Média chamam como os devotos de “justo desprezada vida”. Esta atitude é cristã, mas ao mesmo tempo “natural”; pois o vazio que a morte causa no coração da vida, do amor pela vida, pelas coisas e pelos seres é devido ao sentimento da natureza humana que é influenciando pelo cristianismo. (DELUMEAU, 1989, pp. 170-2)

A Igreja na Idade Média promovia uma construção mental sobre os homens; que afirmava na prática contemplativa uma relação que existia entre o jejum e as alucinações profanas do corpo físico. Em suma, o homem medieval buscava promover as manifestações de piedade, praticando todas as normas consideradas sagradas, inibindo as fantasias, a luxúria e “todos os desejos da carne”. (DELUMEAU, 1989, p. 284)

Ao apontar esta forte relação entre simbolismo e o realismo, notamos que foi no domínio da fé que o realismo ganhou um sentido de tendência à atribuição ás divindades, feições, sentimentos e atos do homem, algo que aproximava o homem da imagem de Deus. Todavia, o simbolismo promove uma relação profunda do espírito, as alegorias superficiais e cristalizadoras da sociedade medieval. (DELUMEAU, 1989, p. 302)

O simbolismo, com sua construção alegórica se constituiu ao longo do tempo, na Idade Média a partir de uma mentalidade que concretizava a expressão de uma ideia sob forma figurada, uma espécie de representação de um objeto para dar ideia a outro.

Nota-se que a mentalidade da Idade Média se fundamenta na fé, nas práticas normatizadas pela Igreja que sempre receou os excessos de misticismo; pois o êxtase contemplativo das coisas de

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Deus consumia as formas e as imagens na Idade Média, no entanto era controlada a parte mística presente nas formas, conceitos, dogmas e mesmo nos sacramentos.

No espírito da Idade Média notamos a personificação dos procedimentos, da escritura sagrada, das lendas, da história de seu povo que transferia em suas palavras a “verdadeira moral” uma espécie de código que deveria ser cumprido pelos os homens medievais.

E assim, cresce lentamente a maturidade tenebrosa de ilusão e crueldade na Idade Média. Portanto, o medo da morte é a fúria cega que persegue e obscurece a vida e a atmosfera mental do homem medieval.

Nada traz mais claramente sobre o medo excessivo da morte sentida na Idade Média, do que a própria visão de repulsa que se funda em meio a práticas fúnebres que se afeiçoam as coisas tristes.

Como tal, nesse período, o mundo era considerado um local de batalha constante contra o diabo, pela salvação da alma. A religião interfere nos elementos mentais, nas ações materiais e nos aspectos culturais, alterando e modificando o comportamento social do homem ocidental. No período medieval a morte era o grande momento de transição, das coisas passageiras para as eternas. A morte era um rito de passagem. Era aguardada no leito de casa, onde o homem deveria ficar deitado de costas, para o seu rosto estar voltado para o céu. A morte era uma cerimônia pública, um ritual compartilhado por toda a família e amigos. (ÁRIES, 1977, pp. 81-9)

Assim podemos visualizar na imagem que temos a seguir; ela representa justamente aquilo que o homem medieval esperava: a morte “espreitava” sua vítima em seu leito fúnebre.

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Figura 1

Hieronymus Bosch (c. 1450-1516). A Morte e o Avarento (c. 1490). Detalhe. Óleo na madeira (93 x 31 cm) - National Gallery of Art, Washington In: http://digilander.libero.it/debibliotheca/Arte/BOSCH1_file/page_01.htm

Os medievais pressentiam a morte próxima de si, e assim tinham tempo de se preparar o seu ritual coletivo. Ninguém morria só. A morte era uma festa; momento social de maior importância. Todos deveriam acompanhar a passagem do homem para o além, incluindo as crianças. O pranto era executado exclusivamente pelas mulheres; que deveriam ficar perto do corpo, arrancando os cabelos e rasgando as vestes. Elas eram os agentes essenciais no rito funerário, pois representavam o prelúdio da mudança para um estado superior. A mulher era considera de sentimento mais afoito, mais exagerado pela sua própria natureza. (DELUMEAU, 1989, pp. 310-4)

O esforço para eliminar as questões profanas da vida, apelava para todas as formas de imagens sem saber distinguir com nitidez a “verdade da ilusão”.

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imagens, ingênuo idealismo e fortes sentimentos, facilmente concretizados na realidade de cada conceito apresentado para o espírito.

A preocupação maior na Idade Média não era com a morte, mas sim com a salvação da alma. Essa era a morte lenta nos leitos daqueles que haviam sobrevivido das doenças, da fome e das guerras.

Isto explica a preocupação dos indivíduos em praticarem a excessiva devoção que era exercida em paralelo às manifestações de piedade. Algo que se concretizava com a entrega do jejum, das vigílias excessivas e rígidas; da constante preocupação em praticar as coisas da Igreja agindo contra as tentações do demônio. (ÁRIES, 1990, pp. 55-8)

O medo é um dos fatores de grande relevância na Idade Média e que ocorre em todas as épocas com diferente intensidade se atribuindo à questão do pensamento com relação à morte.

Todavia a preocupação da lembrança e o pensamento da fragilidade em si não satisfazem necessidade de exprimir com violência o arrepio causado pelo medo de morrer.

Nos fins da Idade Média a visão total da morte pode ser resumida na palavra, “medo” um significado que se formulou ao longo do período medieval. Este sentimento encarna uma visão voltada às questões horríveis e funestas.

A arte de morrer, estava compreendida em uma descrição da agonia da morte. O desejo de inventar uma imagem de tudo o que se relacionava com a morte deu lugar ao desprezo de todos os aspectos dela que não fossem susceptíveis de direta representação. Assim a mais crua concepção da morte, se fixa continuamente no imaginário coletivo medieval.

A visão do medo não representa as emoções de ternura e de consolação, e sim a dor pela ausência dos que morrem e constante temor da própria morte que é enfatizada como os piores males na Idade Média.

No final da Idade Média, novas formas de compreensão da morte tomaram conta dos espíritos, através de castigos de Deus, por exemplo, o macabro esqueleto com a foice, que exprimiu a profunda

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angústia dos tempos da Peste Negra. Para tanto, contribuíram para essa nova espiritualidade e na concepção do além; os pregadores franciscanos e dominicanos que lembravam às pessoas da corruptibilidade de todas as coisas, sendo o cadáver putrefato a imagem preferida nos sermões. (DELUMEAU, 1989, p. 25).

Figura 2

Liber Chronicum, de Hartmann Schedel (séc. XV).

In: POLLEFEY, Patrick. Représentations diverses de la mort. Internet: www.geocities.com/ppollefeys/divers.htm#wolgemut

A imagem representando um momento único e singular a todo ser vivo: a morte como á garantia inquestionável.

A partir dessa análise do medo da morte, podemos perceber que tal ideia está associada com a dogmatização dos comportamentos humanos, numa época onde surge o dualismo a respeito dos túmulos e da alma, algo que começa a penetrar na sensibilidade coletiva. A dor da morte é posta em relação, não se relacionando com os sofrimentos reais da agonia, mas com a tristeza de uma amizade rompida. É possível pensar na morte, não na sua proximidade e sim durante toda a vida.

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Davis (1930) deixa claro que a vida terrestre é a preparação para a vida eterna, como os nove meses de gestação são a preparação para a vida terrena. A arte de morrer é substituída pela a arte de viver. (ÁRIES, 1990, pp. 329)

A vida, portanto é dominada pelo pensamento da morte, e uma morte que não é o horror físico ou moral da agonia, mas sim a ausência de vida, o vazio da vida, cuja incitação envolve a razão a não lhe apegar, existindo uma relação estreita entre bem viver e bem morrer.

A imagem que segue representa a preparação do “bem morrer”, com o símbolo da auréola na cabeça da santa.

Figura 3

Morte de Santa Elisabeth da Turíngia (1207-1231)

(FR 2813) fol. 269v. Grandes Chroniques de France. France, Paris, XIV e s. INTERNET: http://www.bnf.fr/enluminures/images/jpeg/i2_0008.jpg

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O homem medieval buscava praticar o bem viver para ganhar a salvação da sua alma o distanciando do temor do purgatório; local que era habitado por pecadores.

O purgatório era visto como local de medo, de dor e sofrimento eterno, um local intermediário para purificação da alma, um espaço que fica fora do céu e do inferno o qual o homem medieval temia.

Mas os efeitos da depreciação da boa morte, sobre a consideração serena da mortalidade opõem-se na Idade Média de uma vida perseguida; que poderia ter efeitos menos favoráveis a piedade; afastando a angustia da morte física, arriscando o ser bem-sucedido, e esquecendo do sentido metafísico da mortalidade, se diferenciando da incredulidade da sociedade, passando a pensar na vida terrena, de modo que nunca se pensa em morrer.

Ao trabalhar a história da Idade Média devemos enfocar a história das mentalidades que situa se no ponto de dualismo do individual e do coletivo, do bem e do mau, do verdadeiro e do falso; um período onde a fé era algo essencial para o “bem viver e o bem morrer” do homem medieval. (ÁRIES, 1990, pp. 56-8)

O medo de morrer promovia fenômenos derivados do dualismo entre a crença na onipresença de um imaginário voltado para a construção de demônios que poderiam ser combatidos através da fé, do comprimento das normas e regras colocadas pela Igreja medieval.

Quando falamos do homem cristão na Idade Média notamos uma constante luta entre o bem e o mau, onde a alma do fiel era disputada por anjos e demônios. Em meio à pesquisa pude compreender que o Ocidente Médio se estrutura na vida terrena, mas com uma permanente preparação para a vida no “céu”. Um universo que se expressava em forma de práticas, ritos e gestos que se tornava comum entre os homens medievais.

Em suma, o homem medieval vivenciava um dualismo com relação ao conflito cósmico do bem e do mau, ocorrendo uma desvinculação da matéria, onde os monges procuram levar a prática da meditação, oração e mortificação do corpo com relação às práticas carnais, visando à libertação das coisas corporais como instrumento de retorno a Deus.

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Na Idade Média isso se refletia na visão do pós-morte, um processo de fase coletiva, onde era comum a cena do juízo final, após a qual a humanidade estaria dividida em dois grupos, o dos condenados e o dos salvos. No entanto, notamos que todos os indivíduos buscavam fazer o correto, mantendo o comportamento do corpo, pois o julgamento divino considerava a atuação e a motivação individual de cada alma cristã.

Hilário Franco (1994) em sua obra A Idade Média, afirma que tal período da história é considerado a matriz da civilização ocidental cristã. Local onde os indivíduos viveram transições onde tudo se prova pela fé, se contrapondo a racionalidade, ao empirismo. Praticando a perseguição e punição dos infratores, em nome da misericórdia divina. (FRANCO, 1994, pp. 23-7)

Podemos notar que o homem medieval utilizava da sua fraqueza tendo com base, o medo da morte, da fome, do purgatório e do inferno, para produzir sua força, desejo e motivação de praticar o “bem” afirmando a cada dia a fé em Deus.

É perceptível na Idade Média uma representação da forma que se fixa em vestígios de infortúnio, onde os grandes males constituíam os fundamentos da história. Era comum falar constantemente a respeito das calamidades, sofrimento e da miséria, que atenuava como modo de vida que ajudava no livramento dos pecados. (ÁRIES, 1997, pp. 31-7)

Portanto, Hilário (1994), nos deixa claro que a única instituição que tornava possível a aproximação do homem com Deus era a Igreja que ensinava e ajudava o homem medieval a se manter no equilíbrio do tempo, do corpo e da preparação para a morte; um processo que se renovava a cada segundo na vida do homem medieval. (FRANCO, 1994, pp. 31-5)

O homem na Idade Média busca a boa morte, pois temia o seu destino no além, o medo do pós-morte era algo que predominava na sociedade cristã. A boa morte significava que o fim não chegaria de surpresa para o individuo, sem que ele prestasse contas aos que ficavam. (ÁRIES, 1977, p. 78)

Havia formas variadas de preparação, mas a maioria buscava a misericórdia de Deus, promovendo uma recomendação da alma a

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ele e do apelo à proteção de santos.

A Igreja na Idade Média recomendava como regra o “bem viver”, onde os fiéis praticavam o que era correto perante os dogmas, pois só assim permita ao homem uma preparação da alma para a morte. Mesmo assim, a morte continuava sendo um momento de grande tensão.

A morte torna-se, dentro dessa postura, uma meditação metafísica sobre a fragilidade da vida; pensando a morte como um meio de viver melhor, pois sempre a morte estará diante de nossos olhos. O medo do pós-morte era bastante comum, entre todos os povos, principalmente os “pecadores”, como eram considerados pela Igreja, os que não seguia as normas doutrinais; o medo do purgatório, do inferno levaria a busca de Cristo, voltando-se para as coisas do céu, expandindo a devoção por amuletos como o rosário; que usado durante a vida com certeza oferecia a boa morte, e o alivio do purgatório.

O temor da morte, no entanto não deve ser visto como um medo sem controle. O grande medo era mesmo morrer sem uma preparação, pois a preparação facilitaria a espera da morte e aliviava a apreensão da passagem para o além.

Le Goff (1990) menciona uma história medieval de edificação cristã onde o homem pena no purgatório por morrer devendo dinheiro a alguém ou por não seguir as normas da Igreja. Le Goff comenta que o purgatório se tornou um instrumento de salvação da vida econômica e social. (GOFF, SCHMITT, 1990, pp. 36-8)

A Igreja na Idade Média tinha como função o auxílio na hora da morte, um processo de preparação da alma, um trabalho espiritual e místico que descreve uma “morte segura”.

Assim, notamos ao longo da preparação do homem medieval que buscava o “bem morrer” cujo objetivo é ser um “bom cristão”, que firmava a sua fé em uma vida plenamente religiosa e pleiteava seguir os dogmas impostos pela Igreja.

Ao longo do texto, vimos à morte se diluir no discurso total da vida e em um sentimento melancólico da passageira vida. O medo da morte parece então se afastar, perdendo o vigor, presença que possuía grande força na Idade Média.

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A Sociedade Ocidental conseguiu conviver com o medo de morrer, pois foram capazes de aceitar algumas coisas e rejeitar outras, tornando possível através das imagens terríveis, correspondida á visão coletiva e secreta da morte, trazidas por homens da Igreja como uma força que a sociedade gostava, pois isto apaziguava o medo. A sociedade Ocidental gostava da proposta da Igreja, porque além de oferecer segurança contra o medo, cada um colocava o seu sentimento ali encontrando, parte de sua identidade e de sua história.

O medo da morte transbordou para fora do imaginário, penetrando na realidade vivida pelo homem, um sentimento consciente e expresso, sob uma forma, todavia limitada. A morte, tal como a vida, não é um ato apenas individual. Por essa razão, a semelhança de cada grande passagem da vida, sendo celebrada por cerimônia solene, tendo por finalidade marcar a solidariedade entre indivíduos com a sua linguagem e comunicação no meio social. Fica claro que a morte não era, um drama pessoal, mas a prova da humanidade, na luta constante para a continuidade da espécie. (ÁRIES, 1990, pp. 70-7)

A morte no entanto, é vista como uma saída discreta desta vida; de um vivo que tenta seguir as regras de uma sociedade; o qual não destruiu ou perturbou as ideias de uma passagem biológica, sem significado, sem esforço nem sofrimento, sem “pecado” e finalmente, sem angústia e arrependimento.

Como é comum nas sociedades tradicionais havia separação como hoje entre a vida e a morte, entre sagrado e profano e entre cidades dos vivos e a dos mortos. Vovelle (1991) afirma que nas sociedades medievais coabitavam os vivos e os mortos, pois os cemitérios se confundiam com a igreja no coração da cidade.

Segundo Áries (1990) os vivos se silenciavam em relação a sua própria morte, tornando visível a mudança de comportamento com relação ao tema da morte.

Vivos e mortos conviviam pacificamente dentro dos meios citadinos, elemento comprovador de que o homem medieval não temia a morte em si, mas não estar “preparado” para ela era a grande aflição.

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As atitudes diante da morte e a relação entre os vivos e mortos não estão separadas dos processos históricos mais amplos. Pois segundo Freud (1989) “o objetivo derradeiro da vida é sua própria extinção”. (BOSI, 1994, p. 121)

O trabalho de Áries (1990) destaca uma “morte domesticada” que resistiu com o mesmo ardor até chegar a “morte selvagem” para definir essa nova mentalidade, os inúmeros autores que analisam o homem e sua relação com a morte, afirmará que esta nova ideia está relacionada com uma mentalidade que parte da mentalidade coletiva para uma mentalidade individualista. (ÁRIES, 1990, pp. 90-9)

2.2 Medo de Morrer e Medos Humanos

O homem é medroso por natureza. Usa amuletos para “espantar” esse medo no sentido que “todos os homens têm medo e aquele que não tiver medo, não é normal” (DELUMEAU, 1989, p. 147). A insegurança é o símbolo da vida, sendo ela símbolo de morte. O homem sabe muito cedo que morrerá com um medo único, idêntico a si mesmo, algo imutável.

O medo é ambíguo, é uma defesa natural que garantimos contra o perigo, um reflexo que permite ao organismo fugir da morte; “sem o medo nenhuma espécie teria sobrevivido...” (DELUMEUA, 1989, p. 147). Mas se ultrapassado, pode tornar algo patológico e bloqueador; identificado como covardia, a qual não se poderia proteger com antecedência.

O medo tornou-se causa da evolução do individuo, no entanto a regressão para o medo é o perigo que espreita constantemente o sentimento religioso; podendo os separar, distanciando o homem do mundo exterior.

Portanto, podemos declarar que o medo é o pior inimigo enfrentado pelo homem; uma atitude que percorre além da individualidade, um exemplo claro é a batalha da sociedade medieval contra o medo. Mas os historiadores não precisam procurar muito,

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para identificar a presença do medo, nos comportamentos dos grupos; seja dos povos antigos ou das sociedades contemporâneas.

É muito difícil analisar o medo e aumenta a dificuldade, quando se trata de passar do estudo do medo individual para o medo coletivo. Para facilitar a análise podemos tratar de um estudo da versão mística que possibilita qualquer um de nós a morrer de medo; característica do pânico quando se manifesta uma energia que se difunde por todo o organismo do indivíduo.

Tratando-se do medo coletivo é provável que as reações de uma multidão tomada de pânico ou que libera subitamente sua agressividade resultando em grande parte da adição de emoções e choques. O medo torna-se operatório no nível coletivo, a partir da distinção que a psiquiatria agora estabeleceu, no plano individual, entre medo e angústia, tratando de dois pólos, o medo tem como objetivo determinar onde pode fazer frente. A angústia não tem particularidade especifica e é vivida como uma espera, dolorosa diante de um perigo tanto mais terrível, sendo um sentimento global de insegurança. (Delumeau, 1989, pp.100 - 40)

Alguns “medos”, porém, são comuns á coletividade. A noite, o escuro, o negro, por exemplo, sempre foi associado pelo Ocidente como algo negativo, ligado ao inferno e á satã.

Atormentada por querelas religiosas, tudo a noite era suspeito. As cidades conseguiam afastar completamente o medo para fora de seus muros, ao mesmo tempo enfraquecia este medo tornando possível conviver com ele. Mesmo com o complicado mecanismo de proteção, os indivíduos, seja de forma individual, seja de forma coletiva, mantiveram um diálogo permanente com o medo da noite e da escuridão.

Outro medo comum á coletividade antiga e medieval estava relacionado ao mar; vários povos o temiam; pois aquela; imensidão líquida poderia trazer a peste negra, invasões e outros perigos. A metáfora da fúria, todos os símbolos, animais que se relaciona com a fúria e raiva faziam parte do imaginário a respeito do mar.

Desde Homero e Virgilio até Franciade e os Lusíadas, não há nenhuma epopéia, se tempestade, figura com destaque em romance medieval. As metáforas do mar tranqüilo e bom serão, portanto

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