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Redaccâo
_P.« Alberto José Gonçalves. Silveira Netto.
Júlio Pernetta.
Orgam da Associação
REVISTA MENSAL
Director litterario: — ^Dario Vellozo. Coritiba, <5 do Março de 1890
Inslruccao e Recreio
Distribuição gratuita aos sócios
ANNO VII N. 3 Sa----lll.il •**>'" !l | DIRECTORIA DOCLUB Presidento—Cyro Velloso Vico-presidento—Joaquim do Andrade 1.* Secretario—Mario -Jorreia 2 * Secretario—João M. Bucno. 1.* Thezoureiro—Pedro Aroma 2/ Thezoureiro—Claro Cordeiro 1.' Orador—Leoncio Correia 2.* Orador—Dr. Sérgio dc Castro
CLUB .osiiimo
PELOS ÍNDIOS
i
O adiantamento que, por força da evolução e das condicções favoráveis da America, lavra no Brazil, desper-tando mais que outrora.a attenção europea, deve levar-nos a pensar em a nacionalisação da Pátria, isto é, nos elementos que conservam o caracter geral da nação.
Não sendo o povo brazileiro, como dizSylvioRomero, «um povo feito, um typo elhnico definido, determi-nado, original;» mais devemos at-tender a esses elementos que, a par de todo o progresso em que o paiz caminhe, se nos impõem como uni dever irrevogável.
«O nosso dever de brasileiros, de filhos dos trez povos que nos entregaram o paiz descoberto, co-nhecido, povoado, autonomico e livre; cumpramos o nosiso dever para com aquelles que nos amamen-taram, isto é, honremos por nossa grandeza os portuguezes; porque devemos enxergar n elles, antes de tudo, os concidadãos do Gama, os compatriotas de Camões; civilize-mos os indios que restam, porque devemos vèr n'elles os nossos ama-veis Pellasgos, perseguidos pela -fortuna. (I)
A America, na sua omnipotencia de riquezas naturaes, opulentando o enorme território do novo conti-nente, será a metrópole do mundo, talvez em futuro próximo, dando aos continentes antigos o código do
pro-(1) Sylvio Romero. Estudos sobre a poesia pópiilár do- Brazil.
gresso, como já dá o exemplo de j espirito democrata o livre; c as na-ções eüropeas, quc tiveram, algu- I mas, a sua epocha do predomínio na grande lerra do Colombo, não con-seguindo, entretanto, subjugar a soberba musculatura dos povos (Fes-te hemispherio, conservam-se aler-tas, como atalaias do interesse, ifuiu parvo nevrotismo de cobiça desenfreiada, como a da Inglaterra, a olhar tigrinamenle os paizes ame-ricanos, onde «o cyclone de luzque deo volta á America» na phrase do maior poeta vivo de Portugal, ac-centua a grandeza de sentimentos humanitários e o supremo vigor de energia que glorifica este povo.
O território europeo é diminuto e a população que o habita é enor-me; e a excessiva ágglomeraçâo de povo em uma parte do mundo por demais explorada a tantos séculos e em todos os ramos da aclividade humana; onde se acham arraigadas as duas espécies de guerra da so-ciedade moderna dc que fala
Ma-galhâes Lima: «A guerra do
ho-mem contra o hoho-mem, devida á ex-ploraçáo capitalista, e a guerra dos povoscontra os povos, devida aofu-ror militarista que domina a nossa epocha».
Na Europa que ((suecumbe esma-gada sob o peso enorme dos seos armamentos, pois é mister saber que as nações da Europa consagram os dous terços das suas receitas ás obras de morte, c só um terço é reservado ás obras da vida; isto é, áquellas que são destinadas a as-segurar o bem estar da humani-dade ;» (2)
Na Europa, onde a inqualificável cifra destruidora, alentada pelas tremendas guerras e luctas intesti-nas que a teem assolado, e mantida pela classe improduetiva da força armada e pelas classes corruptoras dos padres e dos reis, apresenta maior vulto que a cifra creadora; o accumulo de gente, neste caso, deve motivar nma" forte immigraçao de europeos para a America; immi-gração já começada com patrocínio
(2) M. Lima. O Livro da paz pag-, 30.
dos nossos governos, e quo, junto a alguns resultados obtidos pelo desenvolvimento do trabalho exer-ce perturbadora influencia sobre a tradição e o caracter nacionaes.
O cosmopolitismo de hábitos en-fraquecc o gosto próprio de uma nação, c esse enfraquecimento af-fecta a vitalidade moral do povo; a heterogeneidade de sentimentos é uma barreira á energia do caracter popular.
Dahi a incontestável precisão que lem o Rrazil de pòr em eviden-cia e desenvolver aetivamente as suas forças próprias, os seos ele-mentos genuinamente nacionaes.
«As nações devem manter o seo caracter assim como os indivíduos,)) diz Samuel Smiles, completando em outra pagina, essas suas pala-vras com o seguinte facto :
Quando Luiz XIV perguntou a Colbert como era que, governando uin paiz tão grande e populoso como a França, não tinha podido vencer uma nação tão pequena como a Ho-landa, o ministro respondeo : « Se-nhor, é porque a grandeza de um paiz não depende da extensão de seo território, mas do caracter de seo povo.
E' por causa da industria, fruga-lidade e energia dos Hollandezes que Vossa Magestade não pôde vencel-os.»
Mais de um escriptor notável, corno Sylvio Romero, Mello Moraes Filho,Couto de Magalhães, etc. tem procurado avivar as relíquias da tradição brazileira em que a alma da Pátria, serena e grandiosa, pai-pita, como em nicho brocatelado de muito amor e de muita selvagem poesia.
Cumpre levar mais longe o sagra-do zelo pela nacionalisação" da Pátria.
Um elemento que trará poderoso concurso á vida nacional; elemen-to inexplorado e onde ha o germen de fecundos resultados futuros; é, por certo, a civilisação dos indios.
Já um antigo e notável sócio do instituto Histórico Brazileiro, o Sr. Adolpho de Varnhagem, levantaraa
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questão de trazer-se ò indio para a sociedade; sftotTolle estas palavras, referindo-se A necessidade de cur-sos, no Brazil, para o estudo das linuoas indígenas: «... e
duzidos a alguns milhares nos re- insistimos em julgal-oproriosaobra
mótissimos sertões do Brazil. ; de arte digna do renome do
extra-,. . . I ordinário poeta.
Aspestese as guerras fizeram aos I Jíao tomos uma linha a retirar, o quo è indígenas o que os trabalhes força- ainda que escrevêssemos o primeiro mais é que seo estudo e ensino po- dos fizeram aos africanos. As selvas artigo vibrando a commoçao dessas dera em resultado trazer ao estado não estão mais povoadas de cabo- j estrophes, que nacionalizam defini-cios, para serem caçados pelos ban- tivamento em nossa lingoa a feição
(loiras.
A conseqüência é fácil de tirar: o branco, o auetor inconsciente de tanta desgraça, tirou o que ponde de vermelhos e negros e atirou-os fora como cousas inúteis». (3)
nova o revelada da poezia de hoje, vinho novo, quo arrebenta o oure velho, em que o classissismo sobre-vivia á sua morte secular.
'A
O que faz a poesia nao è pura-menteo verso, do mesmo modo que Mello Moraes Filho, cujaauclori- 0 qUe distingue a estatua não é aileein semelhantes questões ô in-1 simplesmente a linha acadêmica do social milhares de infelizes que se
matam o devoram nos mattos vir-gens. w
O Sr. Mello Moraes Filho diz, no
artigo: As causas da evtinrrào (h)s
indios, publicado á pagina 23 da da Revista da Exposição Anthropo-lógica Brazileira:« Mesmo que não fossem as guerras intestinas, guer-ras prolongadas e repetidas, fazen-do estacionar ou extinguinfazen-do lenta-mente as raças indígenas do Brazil, em prezença de duas raças novas,
o portuguez e o negro, o caboclo .^
capitularia fatalmente, por isso que, deiras, as grandes epidemias im- pepellar-se,descompor-se,agachai causas physiologicas mórbidas, o portadas pelo europeodizimavam |sei voar. ferir, matar: ter dentro tornam incompatível á adaptação
dos meios.»
Outros escriptores, por sua vez, alardeiam certa indignação pela apregoada ferocidade dos Índios.
Contra isso temosos índios aldea-dos, muitos dos quaes sabidos d'en- trcnaçõesanthropophagas,eomore-fere o escriptor do Thezouro des-coberto no rio Amazonas, tratando dos ürikenos:
«Comtudo muitos d'esta nação papa-gentes se tômja aldeado pelas
contestável, pela abnegação cora ÔSCOpro# e'ávida psychica, éaen-que tem estudado os costumes e carnaçâo do pensamento. O verso tradições nossas e dos indígenas,; jeve gemer, grilar, sorrir, chorar: corrobora assim a opinião de Sylvio j enlaçar-se inteiriçar-so, bemdizer, Homero: «As correrias dos ban- amaldiçoar .morder, acariciar,
ar-os indomitar-osaborígenes», (i) j de sj perfume, veneno, beijos,
la-Em taes circumstancias adversas j grimas; desesperos, carinhos, ódio, a ferocidadeeoanniquilamento dos | insidia, amor blasphemias, lama, índios a >pareciam fatalmente: e se j soes? revoadas, vermes, auroras, vae per< endo, por essa forma, um | puz> triagaè morte.
elemento de força para a vila-lidade nacional, e continuando a firmar-se um execrável attentado ácarreira evolutiva da eivilisação e aos sentimentos de còhesão c de egualdado da familia humana.
Entretanto, para maior desmen-lido ao que possam dizer os refra-missões, e convertido á fé: e não ! etários á civilização dos índios, ahi só não usam do mao costume de
co-mor gente, mas também não são dos peiores christãos indios.»
O meio e a Índole não constituem motivos para que o indio não possa compartilhar da eivilisação; entre nós,emCortiba, temosa prova disso. Se os indios levam, por vezes,aos brancos, o assalto violento, a mor-te brutal, não fazem mais que pôr em acção natural represália de vin-gança contra seos antigos verdugos, colonos portuguezes e jesuítas,que, em grande parte, os procuravam com o fim de escravizarem-nos, fa-zendo-os, portanto, retroceder á mais inculta selvageria, porque a escravidão é cem vezes mais insu-pportavel e mais degradante que a improíicua liberdade selvagem dos mattos; vingança também i con-temporaneos nossos, impiedosos e atrazados, que, em logar de profli-garem a incúria dos governos a respeito da civilização dos abori-genes, optam pela sua cruel dizi-mação.
Diz Sylvio Romero, o grande cri-tico e investigador de costumes bra-zileiros: «Não é phantasia: caleu-lavam-se em milhões os indios do Brazil; hoje onde estão elles?
Re-estão os bugres mansos, como dize* mos, convivendo pacatos e atleucio-sos, com os brancos; buscando nas cidades a ferramenta necessária ao cultivo da terra ; e entre nós, em Coritiba, como já referi, temos evi-dente prova de que o indio podo civilizar-se,dando apreciável exem-pio de trabalho, delicadeza e doei-lidade.
O elemento indigina, de posse da cultura preciza para começar a lu-cta progressista da vida civilisada, será um baluarte em prol do amor ao torrão natal, fortificando a integri-dade moral da Pátria e sustendo o
predomínio heterogêneo de inimi- glorioso andar com a mesma graça
grações europeas Aa "m 'Uru"elnn mip m:,n';, "'"
iNosso século conquistou o direito de falar Homero, de falar Dante, de falar Shakspeare, como o de dar á arte escripta o desassombro da
Bíblia.
Porque não falar da carne da mulher que amamos, como Salomão falou do corpo aphrocüsiaco de Su-lamila? Porque não queimai: a ab-jecçãocom a phrase dos prophetas? Onde eslàooscrimes contra a arte no poema— pamphleto? O encisu-rar do verso quebra, é certo.o rhy-thmoa que estamos habituados; nâo se veja porem, um signal de deca-dcnciaou desleixo, mas o cunho da emancipação que os modernos se àfrogaram para o seo novo modo de metrificar. E' justa a usura da inspiração. Somos obrigados a pen-sar mais e mais depressa do que os demais séculos. Trazemos sobre os hombros a carga de todas as civili-zações e não podemos sob o fardo áá—2—96.
Silveira Netto.
pátria
Apezar da contestação dos nossos illustres collegasdo Jornal do Bra-zil, que gentilmente se referiram
ao nosso artigo de recepção ao livro de Guerra Junqueiro— "patrly",
(3) Hist. da Litteratura Brazileira; cap. V, pags. 66 e 67.
(4) Revista daExp. Authrgz. Brazileira, pag. 24 .
de um dançarino, que marca co-tillon.
No primeiro encontro com o livro, tivemos também uma impressão desagradável. Já uma vezmõs acon-teceo o mesmo, entrando no museo^ Wirt, de que Bruxellas tanto se or-gulha. Pouco a pouco os nossos
sentidos se familiarizaram com
aquella feição exquisita de arte. Foi-se desenvencilhando de precon-coitos de eschola o nosso senso cri-tico e vimos eguardamos, paranun-carnais esquecer os quadrosgeniaes do grande mestre belga.
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3Quem li* Pátria lembra-se natu-ralmente (('aquellas parelhas apol-lineas de alexandrinos da Morte de D. João o espera encontral-as no arremesso magestalico da pintura clássica, clina osfrolada, pescoço em curva graciosa: musculatura tensa, cabeça fidalga, bocca a baforar o a espumar neblina e novoa. Nao con-ta ver o deos mudar subicon-tamente de montaria, esgarranchar-sono lombo de uma águia e leval-a, ceos em fora, emzig-zags caprichosos.
O verso de Guerra Junqueiro li-bcrlou-se da cadência fastidiosa e captiva, dessa melopeaescholar, que nãosupportamps já no theatro. mas não pordeo de nenhum modo o rhylhmo, porque as tônicas se con-sèrvam impeccavelmenle.
Exemplifiquemos:
K que pátria! a mais formosa e linda
Que ondas tio mar o luz do luar viram ainda! Campos claros de milho moço o trigo loiro. Hortas a rir, vcrgels noivando em fructos (Toiro, Trilos de rouxinoes, revoadas de andorinhas, Nos vinhedos pombaes, nos montes ermidinlias. Gados nodios, colinas brancas olorosas.
Cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas. Selva de ondas, nevados pincaros, outeiros IVolivas. por negaes frautas de pegureiros, Rios, noras gemendo, azenhas nas lavadas. Giras de sonho, grutas de gênios e dc fadas. Risos, abundância, amor, concórdia, juventude, li entre a harmonia virgiliann um povo rude, Um povo montanhez e heróico á beira-mar, Sob a grava de Deos a cantar e a lavrar! Pátria feita lavrando c batalhando: Aldeias Conchegadiiilias sempre ao torreão dc? meias. Cada villa um castello. Às cidades defezas Por muralhas, bastiões.barbacans, fortalezas K a dar a fé. a dar vigor, a dar o alento
Grlmpas dc Cathedraes, zimboriosde convento Campanário deegreja humilde, erguendo á luz Num abraço infinito, os dois bravos da cruz!
Ií elle, o heróe immortal duma emprezn tamanha, Em seo tufnuiosinho alegre na montanha
Simples vivia,— paz grandiosa augusta o mansa, Sob o burel o àrnez, junto do arado a lança. Ao pálido esplendor do oceaso na arribana, Dilo-hiois, sentado;'» porta da choupana, Ermitão misterioso, extatico vidente,
Olhos no mar, fl olhar sonambolicanuMite...
Pátria sobreyiyerà aos seos cri-ticos. EJ um exíorço titanico de arte. Tem assomos de Gil Blas, o o riso tremendo, o riso punhal, o riso incêndio, que se crava no peito das instituições e depois de as fulminar as incinera.
Aquella evocação dos reis é tão grande, tão épica, (pie dillicilmen-te se poderia imaginar a possibili-dade de vel-a em obra eontempo-ranea.
O Doado esse mixto de Job e de rei Lear, dessa magresa de persona-gem de Ibsen,dessa idiotia vidente,, que sò os grandes mestres tem po-dido fazer acceitar, a golpes mira-culosos darte; o üoucto, só por si, bastaria para fazer uma immortali-dade se Guerra Junqueiro já não a tivesse conquistado.
Mas, não é um patriota assegu-ram os nossos collegas do Jornal do Brazil. Já deixamos transcripto o principio da descripção de Portugal. O pincel do artista só pôde obter
tal nitidez quando elle ama o as-SlimptO, quando antes de passal-o a telaconviveocomellea felicidade, a dor, o ideal, o seô desengano.
Era o que faltava a Guerra Jun-queiro — negaram-lho patriotismo. Como remate ;i grande angustia de ver decaliida. desprestigiada, comi-da pelo oxtrangeiro a pátria bem amada, (pie elle chora com uma dor de prnphota, o seo patriotismo posto em duvida.
Que o Doudo empreste â nossa pciuia a prova do quanto soffre o poeta, porque só solTre assim quem muito ama.
A Pomo e Dor Bscaveiradas 1'lulaui roucas nas estradas. IrmAs sinistras de ntftos dadas... Misericórdia! Misericórdia! Na escuridão, entre lufadas, Que pavorosas debandadas lie multidões desordenadas Misericórdia! Misericórdia! Turbas gemendo esfarrapadas... Por ventanias e nevadas,
Filhos ao colo, ao hombro enxadas, Hein luz, sem pflo e sem muradas,
Misericórdia! Misericórdia! K em salas d'ouro. illuminadas, A beijos, risos, gargalhadas... Misericórdia! Misericórdia!
K por outeiros e quebradas
Tombem choupanas arruinadas... Mortas, desfeitas em ossadas... Misericord ia! M isericord ia!
Releiam os nossos collegas o poe-ma. Pátria ê um assombro; Cot ria é uma gloria da nossa lingoa; Pa-Iria è o Lusíadas da dor.
(Ex. da Cdnde du Rio.)
bu:\asi:imi;mo
Vivendo a vida monótona dos nostálgicos, agrilboado pelas sau-dades enormes das passadas ventu-ras, elle, o exilado da sorte, envol to nas dobras immensas do seo im-menso Tédio, contempla indilfe-rente o evoluir barulbento da acti-vidade social, sentindo
intimamen-te o desmoronamento cruciante
das suas esperanças, o esvaecimen-to das suas aspirações, c deixa-se ir por abi alem, iViima onda negra de sublime despreso, insensível a tudo, 11'uni desapego sem nome.
E assim, para este morto-vivo, escoam-se lugubremenle as horas, eapoz ellas, os dias, o os mezes, e annos.
Unicamente ciliciado pelocircu-lo de ferro do dever, frio, automa-tico, por essa outra vida a que o habito deo a força de uma necessi-dade. elle age n'aquelle meio as-phyxiante consciente e inconscien-temente.
Mas... eis que um raio de luz inunda aquella existência, pene-trando nos seos mais recônditos ar-canos, e então, o colorido sadio da Fé, purpurea as faces desbotadas
do descrente, para (piem dissipam-so pouco a pouco os nevoeiros dissipam- som-brios do desanimo. E a revoada noctivagada descrença foge espa-vorida ante osalborcs festivos da Esperança !
Operará o prodígio—o influxo santo de formosa don/.ella, o fui-gôravelludadoduns lindos olhos, lindos e celesliaes como devem ser os da Caridade.
Morrelcs—7—3—9G.
Affonso Gama.
EXCERPTOS E PENSAMENTOS O passado é um túmulo onde ja-zem as esperanças e as illusões.
Ser poeta é ser martyr.
O silencio é o mais sincero dos ap-plausos; quanto mais nos agracia uma poesia ou um trecho de mu-zica, mais nos commovc e deixa silenciosos.
Os poetas nâo devem cazar, por que cedo ou tarde se arrependem.
Emilio Visconlini São os amores nobres que geram as nobres acções.
Hauèsonville Nem sempre o escravo é que leva
Laboulaye a grilhetà. Só a verdade é saneta. Oliveira Martins A prudência é o mlvo-conducfo dos cobardes. Dario Vellozo Toda educação, todo ensino são suggestões. O cérebro ainda não desenvolvido da creança forma-se, segundo as vibrações moleculares que lhe são transmittidas pelos geni-tores 011 pelos professores. E* por meio da suggestão que opera o exem-pio da moralidade e da corrupção. A massa do povo exerce acções de amor ou de ódio, de educação ou de bruta-lidade, humanitárias ou bestiaes sempre de conformidade com o que lhe foi suggerido pelas indi-vidualidades potentes da epocha.
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Do ((Requiem das nlmns
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T.ni'.i• dulct»* nle^rlan, TaiHun mntficíii»«-!. u« i...
i, Donde fuoron f
B8PBOK0KDA,
Eu tinha os olhos razos de agoa, No desconforto dos vencidos; Dobrava a mortos minha magoa Nos bronzes da alma já partidos; E o dobre, em prantos doloridos, Vinha-me aos olhos rasos de agoa, No desconforto dos vencidos.
Recordações, negras saudades, Prantos da vida, almas do pranto, M' as despertava a soledade
Cheia de fúnebres encantos; E soluçavam carmes sanetos Da minha dor negras saudades, Prantos da vida, almas do pranto. liando de garças quasi mortas
De muito amor desventurado,
Correm-me as lagrimas que exhortas O' coração, e desgraçado
Eu vejo as almas do passado Rrancas surgirem, quasi mortas De muito amor desventurado. O meo antigo plenilúnio
De amor, de crenças, vem cantando O mizerere do infortúnio;
E a terra inteira está chorando, Pois só o pezar nos fala quando O mizerere do infurtunio
Vem cantando e vem chorando. Alma por alma dos meos sonhos, A minha vida e a minha morte, Surgem dos túmulos tristonhos
Sem mais um beijo que as conforte; E vêm, sonnambulacohorte,
Rezando o requiem de meos sonhos, A minha vida e a minha morte.
Que nostalgia, almas sagradas... Que desespero, minha filha... As almas todas, laceradas,
Seguem-me a negra e esconsa trilha, E a sua voz, que a dor palmilha,
Vem do passado, almas sagradas; Que desespero minha filha...
>>
1HSSÂ PS AMOS
(UM Itezus do diabo)
Sobre o teo branco ventre, côr de leite, allucinante mármore de Paros,— canta, ó meo sonho, a missa do deleite, eu, o ministro de teos sonhos raros.
Lubrificam-to os olhos, como o azeite
da lâmpada de um templo, os estos claros da volúpia... Ae, assim, amo-te, amei-te, altar ungido do meos beijos caros.
Vamos! Que as hóstias brancas do teo seio, tremulas, saltem da camisa, louca...
Queocalix seja a tua bocea laugue...
De joelhos, presto! A missa vae em meio... Pôde o beijo cantar na tua bocea !
Pôde romper a orchestra do teo sangue ! AVencesláo de Queiroz.
>o-o»
Minha flor
Amo as flores. O' flor! que tão formosa Nos jardins d'alma ostentas-te orgulhosa! No emtanto é puro e doce o teo perfume, Impuros outros, a passar velozes...
Tenho ao sentil-os ímpetos ferozes Ausmcntam mais ainda omeo ciúme !
2—1896. Leocadio Correia.
k
mmiméê
-CA, 4> 1895. Silveira Netto.Sobre o ríspido cimo do Calvário, Ciliciado pelo ceo dolente,
Se destacava, magestosamente,
Da cruz do Christo o vulto extraordinário. E Elie,—ideal,—do longo itenerario
Tocando a meta,—piedoso e crente, Sorria, calma e dulçurosamente, Sobre o ríspido cimo do Calvário, Braços abertos, macilento, exangue ;
As mãos e os pés e a ilharga e a tez serena Pelas feridas gottejando sangue...
Placidamente, o Redemptor morria... E, procurando o olhar de Magdalena, A ingratidão dos homens esquecia.
18—Março—1894.
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5
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CHRONICA
0 carnaval desappareceo enro-dilhado na túnica do tempo, cas-quinando o riso canalha dos
peral-tas.
0 carnaval é o quadro vivo da existência humana. E' a manifes-tação publica dos anonymos da vi-da.
Antigamente, quando o caracter era um dogma, o carnaval tinha o duplo valor das grandes festas religiosas: hoje, elle já nao traz
para os povos, aquella mesma
alegria ingênua de felicidade, não produz aquelle ruido, aquelle al-voroço que produzia nos tempos que já vão tão longe...
E' que nos habituamos a vel-o todos os dias, pelas esquinas, pelos cafés, pelos thealros, pelos tem-pios, pelas rcdacções, finalmente invadio, dominou tudo, tudo com a mascara do anonvmato no rosto.
Mas deixemos esses carnavales-cos eternos da vida, porque um dia vergastados nela consciência, hão de corar debaixo da própria mascara.
E o carnaval desappareceo en-rodilhado na túnica do tempo.
Dias de loucura, delicioso nar-cotico das magoas, suprema ane-doeta do Almanaek do Deos Momo.
Os Puritanos, estiveram esplen-(lidos.
Magníficos carros de critica a factos da vida coritibana, desfi-laram pelas nossas ruas maçada-misadas.
A guarda de honra, composta de lusida mocidade, abria o prestito, aos sons enthusiasticos dos clarins. A rua Iode Novembro, borbori-nhava de povo. Todos os Clubs si-tuados n'essa rua, embandeirados, apresentavam aspecto festivo ; as sacadas estavam repletas de senho-ras e cavalheiros; serpentinas cor-riam em todas as direcções; os con-fetti voejavam pelo espaço, leves muito leves, como fragmentos de azas de borboletas.
O povo cruzava-se pelas ruas. Grupos em todas as esquinas por onde o prestito carnavalesco devia passar
Mascaras avulsos, sem espirito, silenciosos como espectros, passa-varri arrastando a cauda do dominó desbotado, outros mais convictos do papel, repetiam o tradicional você me conhece, e Ia se iam, ator-doando o espaço com gritos sibi-lantes, como apito de bond a va-por.
Eo povo nas esquinas,
commen-lava apontando com o dedo n'um
borizontalidade de rogoa a
—«Aquelle 6 o Pedro, conheço pelo andar balançado, é elle mes-mo, aquella mascara foi comprada na casa do Brito.»
Um mascara approxima-se do grupo, (com voz aílautada):
—«O' seo Tônico, o senhor me conhece; então quando havemos de fazer uma viajem egual aquella?
Que viagem, seo Tônico.
Nao me posso demorar, o com-panheiro me espera, adcos, seo To-nico.»
E o mascara se foi, e o seo To-nico comum sorriso bestial, o in-dice e o polegar no queixo, como quem invoca uma lembrança que tivesse descido, descido para o ca-vaignac, fica a olhal-o por muito tempo, até que dando a palmada da victona na testa :
—«Pois vocòs nâo o conhece-ram ? è o Manduca latoeiro ; olha que canalha, sim senhor, é o pri-meiro que me prega a peça.»
La vinha subindo a rua um grupo phantasiado de meninos, arrastan-do varas de marmello, com que es-pautavam asmoscasdainsipidez,nas costas dos moleques que os perse-guiam, procurando matal-os, pu-chando o lenço que prende a mas-cara ao rosto, muitas vezes toman-do-lhes as varas.
Logo adiante apparecia um gru-po de mulheres, também phanta-siadas,acercavam-se das pessoas que encontravam, e desenrolavam uma historia muitolongaeenfadonha,e Ia se iam, satisfeitas bater em outra porta, cantar em outra freguezia.
xMas o carnaval desappareceo en-rodilhado na túnica do tempo.
Os salões do Club Coritibano,
ar-tisticamente decorados, riam-se
pelos lábios grossos e rubros de mascaras extravagantes alfinitadas pelas paredes.
Trez noites de bailes, confusão de pares que se moviam lentos no cansaço de uma habaneira.
Grupos de phantasiados que des-cutiam questões de actualidade. Mascaras que falavam, e Ia se iam castanholando risadas sonoras.
E o carnaval desappareceo enro-dilhado na túnica sombria dotem-po.
Júlio Pernetta.
Pela JlÊarinha
n
Prescrição medica me obrigou a ir até a praia da Ilha do mel, em uzo de banhos.
Como me foi doloroso o pungente o cumprimento d'essa proscripçao.
Doloroso, porque justamente dias depois de minha partida paraaquel-Ia Ilha, desmembrava-se o Cenaculo, de quatro rapazes, do qual quem escreve estas linhas fazia parte; e onde a grande e invejável allinidade de pensamento existente entre nós formava uma so cabeça.
Quando o notável romancista Eça de Queiroz, disse que a nossa vida era uma serie de desaponta-mentos, foi recordando o cenaculo de um grupo celebre de contempo-ranços.
Nós lambem tivemos o nosso ce-naculo, e esse sanetuario das nossas devoções artísticas, ha de ser o at-testado futuro dos nossos obscuros j esforços de operários do grande edilicio litterario da nossa Pátria. Alli passámos a phase venturosa das aspirações mais sanetas, alli sonha-mos para as nossas lettras, com epopéas mais divinas que as de Ho-mero, Shakspeare e Dante, e fo-mos muito felizes, n'essc pequeno gabinete da casa do Dario, ilíumi-nado pelo grande sol de ouro de uma amizade santíssima, onde nun-ca subio nos Unidos da atmosphera um átomo mizeravel de inveja.
Tínhamos por tribuna uma ca-deira de encosto, que foi o púlpito dos rendilhamentos sonoros dos ta-lentos de Dario, Silveira e Hraga, e onde tantas vezes eu tiritei como seestivesse meltido n'urna piscina de gelo.
O nosso cenaculo organisou-se obdecendo naturalmente a evolu-ção que dia a diaseaccentuava, es-treitando mais o austero e inviola-vel circulo da amizade immaculada que nascia então.
Dario Vellozo, ja eu o conhecia atravez de boas producções poe-ticas, publicadas na revista litte-raria «Club Coritibano» único jor-nal n'esso gênero, que n'esta terra pacata e civilisada, tem atravessado os annos impolluto, e do qual era elle redactor. Nessa epocha, Lycio de Carvalho, o malogrado cantor das Peregrinas, trabalhava ao lado de Dario, entoando do alto do Par-naso, ocantolyrico e apaixonado de sua grande alma de poeta.
Eu, que também vivia, preso aos grilhões do verso, mas tendo as mi nhas producçães amortalhadas no sudario dos inedictos, me
admi-rava vel-os progredirem tanto
n'um meio corrompido,como o nos-so, pela indifferença crassa dos parvos.
6
CLUB CORITIBANO
.. .Um
dialeinbroü-melerasmi-nhas poeirentas producçõesa Lycio
do Carvalho. Elle gostou do soneto «Impossível»: passei-oalimpo e of-lerecMIfo. D'ahi ha dias tive a su-prema ventura de o ver estampado no Parnaso do «Club Coritibano». Tal successo satisfez a minha vaida-de vaida-de poeta inédito.
Desde então trabalhava com ar-dor. Excitado por Lycio, consegui escrever o segundo soneto «Teo anniversario.» è o terceiro, final-mente, «Lendo um poeta,» que of- j fereci a Dario Vellozo. Ahi palen- j teavaa minha admiração pelassúas, producções. .Vossa epocha existia ; nesta Capital um jornaleco anony-1 mo, com o titulo «O Movimento»! redigido segundo penso por um qualquer ticorré, que se lembrou de criticar em lingoagem mastigada e babujenta de cão hydrophobooti-tulo desse soneto. Ò desprezo por tudo quanto é nojento foi a respos-.ta que tiveram os meos achatados críticos, sem imputabilidade. Este ultimo soneto ainda foi á pia sagra-da do Parnaso, apadrinhado por Ly-cio; ecomo não fora possível, por accumulaçáo de matéria, ser dado á publicidade nou.de 15 de Junho de 1892, Dario passando por minha residência eonimunicou-mo tal mo-tivo. Ahi, pela primeira vez, pales-iramos, tão coníiadamentecomose ja nos conhecêssemos delonga data: não houve entre nós a ceremonia chata e burgueza da troca de car-toes. Disse-me logo que deixasse o trato de senhoria, impróprio en-tre rapazes.
Satisfez-me aquella franqueza. N'cssa mesma oceasião convidou-me a ir a sua casa. Accedi com pra-zer ao convite. Fomos; conduzio-me a um subterrâneo... Bemdicto subterrâneo, branco cinobio das devoções artísticas d'esse monge da arte!...Leo-me algumas das suas
producções, leo-me paginas de seo
livro intimo,—donde os resaibos de arraigada paixão, por encanta-dora mulher, avultavam, perfil-mando corn o incenso de tristerri-mas recordações aquelles capítulos escriptos no supremo desespero de aspiração asfixiada,
torturantemen-te.
Palestrávamos, quando entrou no subterrâneo um rapaz alto, musculoso, envolvido em uma capa a hespanhola,. Dario apresentou-m'o. Era seo irmão, Tito Velloso, o notável autor do Homem perece-tido pela sociedade. Cumprimen-támo-nos, e a palestra continuou mais animada, graças ás anedpctas e sentenças, de muito espirito,
con-ladas pelo Tito. Entre ellas lembro-me das seguintes:
Um poeta e um escriptor, ambos distrahidos.
O poeta vira-se ox-abrupto para o escriptor o diz-lhe : Este mundo è uma bola.
Eo escriptor convictamente: Tem razão!... A vida é um vehiculo, levando por passageiro o homem e por boleeiro Christo.
iVuin exame deGeographia: O examinador:
«Pode dizer-me qual o rio, affluente do Amazonas, que banha a cidade de Manâos?»
O examinando perturba-se... Outro examinador. procurando auxilial-o, aponta a gravata negra, que trazia ao pescoço...
O examinando convido:
«Ah douctor... o rio... (iráva-ta !»
Nota-se nas pilhérias do Tito um fundo do philosopliia.
Tive oceasião de ouvir a leitura de fragmento ifessa grande obra, (pie forçosamente trará com a sua publicação grande revolução no mundo scientifico.
Notei (pie a parte critica da obra é superiora tudo que nesse sentido tem sido publicado.
Paulo Bourget invejaria o bistori critico de Tito Vellozo para autopsar a sociedade franceza.
E, noemtanto,csse talento extra-ordinário que produzio O homem. pervertido pela sociedade, é a
per-sonificação da modéstia.
Sei que o Times, jornal de maior circulação na pátria dos bifes, pro-poz ao Tito a traducção de sua obra para as suas columnas.
Elle agradeceo, desculpando-se. Pedi-lhe publicasse ao menos ai-guns fragmentos:
— «Não, attendendo ao estado anormal das cousas, minha obra
não deve ser publicada ainda.
O Paiz atravessa melindrosa phase de transicção ; sejamos to-dos operários na reedificação do edifício social, desmoronado pela metralha de anti-patriotica revolu-ção, e deixemos para mais tarde esse argumentar de princípios des-cabidos no momento presente.»
Depois de longa e deliciosa pa-lestra, o Tito ergueo-se da chaíse-longue e envolvendo-se de novo na capa a hespanhola, retirou-se, dei-xandoo ambiente do subterrâneo saturado do aristocrático perfume cia prosa do homem de espirito.
Dezembro—1894.
Júlio Pernetta.
D03 Gouachc A essaUda
Num ceo empastado de manchas em (pie se esbaliam laivos amarei-lados como num fundo agourenlo do câmara mortuaria, immobiliza-va-se o riso de uma caveira, quo era a Lua.
As nuvens aurcolavam-na como se ella nadasse numa luz doente, e toda esta phanlasmagoria de Cores e de Fôrmas, conlorcia-se, douda-mente, num desenho sinistro. Cá do fundo, da Terra, trepava uma escada interminável como a do so-nhoda Bíblia, por onde se apressa-va. num esforço auciado, a
inter-minavel caravana dasChimeras. Parecia irradiarem do ventre bojudo da Terra, entre um coro do gargalhadas, como bizarras flores de coloridos exóticos, umasnasecn-do já velhas, outras risonhas e co-radas como bainbinos. outras cor-cundas, dementes, pergaminhadas, outras ainda minúsculas e irônicas como um bando de gnomos casca-[liando o Coro dos Velhos: magotes de hetaíras impudentes fazendo es-tourar os colletes no delírio funam-bulesco dos can-cans, ao lado de rostos pallidos e serenos como san-ctas medievaes: mais ainda, espa-voridas como aves noctivagas, er-guendo o braço num gesto que en-chia o ceo, tentando fazer a concer-tante desta phantastica Babel de cantos estertorados.
Do meio deste novelo de Fór-mas, irrompia a tumidez de um seio, a linha de uma espadua, a corcunda de uni saltimbanco, uns braços cru-zados num desespero, invocando o ceo, a silhouette cambaleante de um ebrio que tentava beijar o seio de uma virgem. E lá se esbatiam numa apotíieose ascencional, levan-do todas um punhalocculto,gemen-do em surdina, ou gritanpunhalocculto,gemen-do em rou-quidões, num coro que se perdia em trêmulos longínquos, num agonizar indefinido de canto moribundo.
Quasi ao pé do riso irônico da Lua, abria seumsorvedouro,como a bòcca escancarada do Infinito. Cá de longe, a escada pareciafirmar-se, impávida, nesses desejados coxins de nuvens, mas para lá do fim,havia ainda outro espaço immenso, esta-gnante de silencio, mais vasto que a estrada interminável por onde a caravana vinha cantando, numa il-lusão que era o mel cm que se di-luiam os travores acres dos des-esperos.
Chegada alli, a caravana sumia-se nesse poço enorme, fazendo uma
-CLUB CORITIBANO
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queda eterna, como se uma grande pincelada se viesse alargando, alar-gando para formar uma grande mancha quo envolvia a Terra e que era o Nada.
Esse laivo sombrio, em cuja tre-va parecia sentir-se o arquejar tu-multuanlede umacolmeia immen-sa, enchia o vasto Ceo, e,
conden-sânÜo-se, embrulhando-so como
num turbilhão creador, ia formar o ventre bujudo da Terra por onde as Chimeras irrompiam sempiter-uamente, num rhvlhimo sempre o mesmo e sempre vário,— alimen-tadas pela sombra das Chimeras
que foram.
A Lua ria, chamando-as, com a sua face exphingica do caveira. O tropel desenrolava a linha infinita, chorando e cantando, o a escada quedcmaiidava. em vão, a Meca das illusões, era firmada por um enor-me Satan, esguio o anguloso, acom-panhandoem gargalhada o coro an-tigo, immobilizauo num gesto au-daz, fixo e implacável como um Deos.
João Barreira.
MONGE
Monge: só e triste
A. HKllCULAXO.
Na estreita, humida e fria cella, genuflexado piedosamente.. Octavio meditava, amplexado á Cruz.
Noite. ínfima candeia de bronze, alumiavao apozento. Paredes nuas,
muito alvas: livros mysteriosos,
abertos,sobre a escrivaninha: a um canto, retortas e cadinhos: pela ja-nella gothica, aberta nos muros do clauslro, brizas borborinhando do-lentadoras tristezas, o Ceo azul, longínquo, imponderável...
Como ao cavalleiro negro, — o guerreiro das margens doChryssus,
amor desditoso o conduzira á soturna mansão dos servosdoJe^-sus... Não poderam, emtanto, a solidão e ocilicio apagar-lhe do co-ração os graciosos traços da formosa mulher que o sacrificara: Amava-a sempre e sempre!...
Eo sombrioburel que, comofu-nebre panncjamento de treva, lhe cahira entre si e a sociedade, martyrizava-odesalentadoramente, mortalha de ironias, brial de sar-casmos, sambenito de errisão... E o mizero degredado da Ventura e da Liberdade, em suas allucinações de penitente, lia, em lettras de fo-go, abertas no madeiro negro, a palavra satânica de Cláudio Frollo, como um anathema e como uma blasphemia:
— «Fatalidade!»
Entre sieo mundo existia o lm-possivel... O impossível t* eterno.
Monge, —- que to adianta a con-vencional seiencia dos mosteiros?... 0 Pensamento 6 o algoz dos
ato-mosque pensam. !
O Amor nào succumbc quando alimentado polo Impossível.
Sepultar o corpo sem destruir a Força vital, — è crueldade c lou-cura!...
Oclaustro é sepulchro. Ésoalgo/.deti mesmo.
Monge:—Só o triste!... Só e triste, dobrada a cerviz de amoroso ao guante do Desalento,seguirás si-lencioso e grave, ciliciado pelo Des-espero, o tramite longínquo do
Su-premo repouso.
Leonor,—foi sonho fagueiro... Quem poderá jamais corporizar os Sonhos ?
Quem vencerá jamais os indes-trüctiveis gnomos da Fatalidade ? Segue! segue, Ahasverus da il-lusão religiosa, o tramite de tua existência esterilizada para a Ven-tura !...
Seja teo suicídio uma lieçào, e teo martyrio um exemplo.
1894.
Dario Vellozo.
Ligeiros estudos sobre «Hy-çjiene Popular»
ii
Da construcção nas cidades
Começo repetindo as palavras do grande pensador, «quem respira uni ar puro tem uma alma pura.» E, necessariamente, para que o organismo movimente-se na razão directa de suas funeções é preciso absorver, constantemente, reno-vando-se a cada passo, camadas d'cxigenêo.
Ora, d'aqui se deduz que o nosso bom ou máo estado de saúde, de-pende do ar que respiramos e da luz que recebemos; d' ahi a razão porque nos centros populosos não é raro vêr um sem numero de in-dividuos débeis e que, devido a circumstancias precárias de vida, habitam cubículos infectos, fonte de micróbios, onde não ha luz nem ar.
A origem dos males que affligem ern geral, a Humanidade, é, sem duvida alguma a falta de hygiene das cidades e a inobservância dos princípios hygienicos das construc-ções.
A* pardo Progresso dos povos* crescem os inales da Humanidade e por isso mesmo, cada vez mais importante e delicado vae se tor-nando o estudo da üvgiene.
Devido a defeitos primitivos de construirão, as nossas cidades no Brazil. são baseadas sem plano ne-nhum e cada indivíduo constrói» de modo que melhor lhe parece, sem orientação, sem procurar dissecar terrenos encharcados e paludosos, sem regras de asseio esem escolher materiaes.
Condemno nisso, tâo somente, aquelles que tem restricta obriga-çâo do zelar pelo bem geral do povo e quo, no emtanto. com as vistas sempre voltadas para os Andes da Ambição, esquecem o dever de olhar para a saúde do proletariado, —essa forte alavanca do progresso social.—tão importante o tão des-prezada e quevive do seo mingpado salário, ganho com o suor da Honra sobre as mezas do Trabalho, para onde vae com a estrella d'alva 6-d'onde regressa como pôr-do-sòl.
Não escrevo para os individuos (pie tem meios de escolher suas ha-bitações pelo peso do ouro de suas bolsas ; pois, estes, salvo
inclina-ção irresistível para desordem e
e desleixo, ou «predilecção natu-ral» para reagir contra tudo que é
elemento de hygiene, não terão
meios de prolongar e conservar a vida se o não quizerem.
Escrovopara aquelles em cujas mãos o povo, o verdadeiro povo, o povo que trabalha noite e dia, que recolhe á noite, tarde e sem forças, que paga impostos, que deixa o leito ao rosiclèr e vae entoar um Hymno ao Trabalho e das harmo-nías das rudes ofíicinas tira o pão para a familia.
S. Paulo, neste ponto, incontes-tavelmente, vae levando a palma entre todos os Estados do Brazil.
As construcções são feitas em ter-renos para isso preparados, as fa-chadas, de ordinário, são voltadas em sentido contrario aos ventos perniciosos, o material ébom e es-colhido. Todos os prédios sâo rode-ados dejanellas esuas divisões in-ternas admiravelmente feitas de modo que o ar se renova a cada instante.
São altas e separadas, umas das outras, por jardins ou pateos.
De resto, os governos deste ricoe importanteEstado não se tém descui-dado. De algunsannos a esta parte, começaram nesta capital e em gran-de numero gran-decidagran-desdointerior,im- decidadesdointerior,im-portantes trabalhos de canalisação de Agoa e exgottos, trabalhos esses
8
CI.UB CORITIBANO
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NOTICIÁRIO
alTectos á «Superintendência de; Obras Publicas o aclualmente sob a
inspocçao direcla do dislincto o ha-,
bit engenheiro Dr. José 1'ereira He-j .* olloclmonlo». - halleeera n boinas. Só esles trabalhos nos(tua- {" esla Capital o nosso estimado es repousa a saúde popular .le S.; consocio, José Secundino de
Oli-Paulo mostra o quanto sabe zelar veira; o Esteia, gentil Minha do
polo bem dos cidadãos. Uma vez; «osso consocio Mario Correia.
Nos-promptas laes obras, ficará S. Pau- \sos pozames.
Io, sem contestação, um dos pri-1 pall.ÍM
meiros Estados do Brazil.
Os velhos e carunchados edifícios primitivos do metro e coma de ai-tura, para onde,creio,os nossos bi-sa-vós entravam de gatmltas, com seos enormes telhados inclinados para o centro das ruas. de aspecto severo e sombrio, tirando a luz o rarificando o ar, hoje.nesta capital, |
com o assombroso progresso neste
Frcqiioitcin—A freqüência do sócios o convidados nos salões do Club, durante o mez, doo a media diária de 42 pessoas.
¦^f.
A1'--E* o titulo do extra-ordinário poema publicado ultima-mente polo notável poeta da
Velhi-ce do Padre Eterno.
Trascrevemos da Cidade do Hio, n'eslo numero da nossa llemla, um proficiente artigo pelo qual se podo aquilatar do valor da Pátria de Guerra Junqueira.
Bahia—geguio para o Estado a Estado, vão desapparecendo para cja n-iliia, em companhia de su
dar logar ás construcções moder-1 Exma. família, o nosso sympalhic nas, hygienicas, saudáveis e
ele-gani cs.
Quando tudo corre deste modo,
quando os poderes competentes
zelam pela hygiene dashaoitações, contribuindo para o bom funcciona-mento do organismo social, a alma
pathico consocio Dr. Joaquim (ionsalves Júnior.
Boa viagem.
Casamento —Casou-se nesta capital, com a Exma. Sra. D. Leo-nor Rodrigues de Almeida, o nosso popular, robusta e sadia, entoa consocio Dr. Luiz de Castro íionsal-n'uma canção unanime threnos rui-! VCs.
dosos ao Trabalho, ao Amor, ao Progresso e tem-se deste modo, reafisado em cada cidadão, o typo
do homem útil e digno.
Parece-me que os nossos gover-nos voltanda as vistas para este
im-EXPEDIENTE
Srssao ordinária da IMrceló-ria em r»dr Março de 1890. Presidência do Sr. Cyro Velloso Secretario— Mario Correia
Aos cinco dias do mez do Março do anno de mil oito centos o noven-taeseisâs oito horas da noite, na bibliotheca do Glub Coritibano, pre-sentes os Directores: Presidente, 4o e 2.° Secretários, I,° e 2.° The-soureiros o 4.° Orador foi aberta a sessão.
Foi lida o sem discussão aprovada a acta da sessão anterior.
Pelo4.° Secretario foi lido o se-guinte
EXPEDIENTE
Olíicio do 2.° Secretario do Cas-sino Coritibano, aceusandoo roce-bimento da Revista do Club, e pe-dindo para continuar a remessa.— Sciente. Attenda-se.
— Olíicio dos sócios Dr. João Baptista da Costa Carvalho Filho, portanto ponto, construindo de ac-1 rente, 6 títulos da divida d?este
còrdo com as regras d'artc moder-1 tjlub. na. procurando a altura das casas
Parabéns.
Saráo—No dia 4.° de Abril ha-verá saráo dançante n'cste Club.
Títulos sorteados —Foram .
sorteados, em sessão do 5 do cor- IJoãoC. Moreira Barroso José Ni-ense da Silva, Augusto \ieirada
pela largura das ruas, evitando aposentos no sub-sólo, onde não ha
Lord Bimg—Assistimos as duas representações do Lord Ihmg, lie-luze a atmosphéra é mephitica, le- vista Coritiba na, escripta pelo Sr. gislando para que sejam construi- Dr. Claudino dos Santos, posta em das casas elevadas do solo edeum musica pelo maestro Alberto Mon-o pavimentMon-o, se pMon-ossível fòr; sen- teirMon-o, e levada á scena pelMon-os sóciMon-os do Grêmio Muzical Carlos domes. so,
doo proprietário obrigado á pro curar a posição e orientação do
prédio que vae construir, disse-cando o terreno e preparando-o para esse fim; terão aberto a estra-da para a verestra-dadeira e única perfe-ctibilidade:—Tornar o homem sau-davel e robusto para o Trabalho.
Da hygiene das construcções nas cidades, nascema harmoniae bom humor de seos habitantes, a ordem
e a moral social.
Eu, que ora ensaio os primeiros passos na vida pratica, atravez da minha mediocridade exijo como cidadão e amigo do bem dos meos semelhantes, da parte dos que di-rigem os destinos do povo, uma parcella de attenção para a cons-trucção nas cidades, que muito de-vemos prezar.
S. Paulo.—Marques Leite.
O Lord Buwj, è ura apanhado de factos da vida Coritibana, escripto com muita verce, empregnado de um humorismo irônico e picante.
Os desempenhos, scenico e mu-zical foram satisfactorios.
Agradecidos pelo convite que nos enviaram.
Espe<*taeuIo dramático — Um grupo de sócios do Club Coriti-bano, ensaia um drama, que mui-to breve será levado a scena.
Bravos.
lMMioüicca—-O movimento da
bibliotheca do Club, durante o
mez foi o seguinte:
Volumes sabidos, .... 209 entrados. . . . 164
))
Costa, AntônioToribio TeixeiraBra-ga, Evaristo Pernetta, Manoel Fran-| ciscoGomes,João Moreira do Couto, | Dr. Joaquim Francisco Gonçalves Júnior, Dr. Luiz de Castro Gonçal-ves, communicando ausentarem-se temporariamente d'esta Capital. — Sciente. Note-se achando-se quites.
Forão sorteados para serem
resgatados os títulos de divida do Club de n. 34, 101, 466, 611, 633 e 787 pertencentes aos Srs. Antônio Duarte da Cunha, Dr. Arthur Pe-dreira de Cerqueira, Joaquim Au-gusto de Andrade, Dr. José Pereira dos Santos Andrade, Josino Masca-renhas e Dr. Vicente Machado da Silva Lima. — Extrâião-se as guias de pagamento e avise-se os inte-ressados.
Nada mais havendo a tratar foi encerrada a sessão
E para constar, eu Mario Correia, 4.° Secretario, lavrei a presente acta, que assigno com o Sr. Presi-dente.
Cyro Velloso Mario Correia