BIOTECNOLOGIA
E DIREITO
AMB ENTAL
POSSIBILIDADES DE PROTEÇÃO DA VIDA
A PARTIR DO PARADIGMA SOCIOAMBIENTAL
Maria Claudia Crespo Brauner
Mônica Souza Liedke
Patrícia Maria Schneider
©2012 Maria Claudia Crespo Brauner; Mônica Souza Liedke; Patrícia Maria Schneider
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B7388 Brauner, Maria Claudia Crespo; Liedke, Mônica Souza; Schneider, Patrícia Maria.
Biotecnologia e Direito Ambiental: Possibilidades de proteção da vida a partir do paradigma socioambiental/ Maria Claudia Crespo Brauner; Mô-nica Souza Liedke; Patrícia Maria Schneider.Jundiaí, Paco Editorial: 2012. 268 p. Inclui bibliografia
ISBN: 978-85-8148-135-7
1. Biotecnologia 2. Direito ambiental 3. Segurança alimentar 4. Genoma humano. I. Brauner, Maria Claudia Crespo II. Liedke, Mônica Souza III Schneider, Patrícia Maria
CDD: 620.8
IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL Foi feito Depósito Legal
Índices para catálogo sistemático:
Biotecnologia 620.8 Direito Ambiental – Meio Ambiente – Direito
Preservação do Meio Ambiente 341.347
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Sumário
Prefácio...5 Capítulo 1
Biotecnologia e Direito:
Compromissos com a proteção da saúde humana e ambiental...9
Maria Claudia Crespo Brauner
Capítulo 2
Segurança alimentar e princípio da informação sobre alimentos geneticamente modificados:
Perspectivas jurídicas e socioambientais...27
Patrícia Maria Schneider
Capítulo 3
Proteção do Genoma Humano e socioambientalismo:
Aspectos bioéticos e jurídicos...129
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Prefácio
Prefaciar uma obra de autoria da professora Doutora Maria Claudia Crespo Brauner e, das Mestras Mônica Souza Liedke e Patrícia Maria Schneider, não é tarefa tão simples. A missão deve ser construída a partir de dois significados importantes: avaliar o legado das três pesquisadoras, e a contribuição social para com as discussões atuais que versam sobre a proteção jurídica do meio ambiente e o resgate de uma vida com qualidade, saúde e segurança.
E registrar, em uma singela homenagem, e com muito carinho, a pessoa querida de Patrícia Maria Schneider que representou na vida de muitas pessoas durante a sua rápida (mas, marcante) passagem por este plano.
A obra é recheada de reflexões importantes acerca dos temas que envolvem as inovações biotecnológicas e o Direito, com destaque à saúde humana, à se-gurança alimentar e à proteção jurídica do genoma humano.
Todos os temas aqui tratados têm sido debatidos em nível mundial, com grande fervor, dada a relevância e interesse de todos para a necessidade de proteger a vida e a natureza em sua integridade e diversidade.
A colega Maria Claudia Crespo Brauner, Doutora em Direito pela Univer-sité de Rennes I – França, com Pós-Doutorado na Universidade de Montreal – Canadá, Professora do PPGDIR – Mestrado em Direito da Universidade de Caxias do Sul e Professora adjunta da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande – FURG, é pesquisadora que dispensa maiores apresen-tações. Professora convidada de diversas Instituições europeias e americanas, contribui, mais uma vez, com uma produção nas suas especialidades, quais sejam, o direito à saúde, o direito ambiental, bioética, biotecnologia e direito, ética em pesquisa e direito da biomedicina.
O texto de Maria Claudia Crespo Brauner, intitulado Biotecnologia e Direi-to: compromissos com a proteção da saúde humana e ambiental, que introduz a presente obra, trata da preocupação com os destinos da ciência na área bio-tecnológica, com a ênfase na perspectiva do Direito, enfatizando a necessidade de um debate com a sociedade, buscando compreender as causas e as possi-bilidades de mitigar os efeitos sobre a vida e a qualidade de vida. Para ela, tais efeitos resultaram das formas de apropriação da natureza, gerando um custo social importante, que se traduzem na exploração irresponsável dos recursos naturais, na maximização dos lucros e na prática de uma ciência alienada, em parte, das grandes disparidades sociais, notadamente no acesso aos benefícios oriundos das pesquisas na área da saúde humana.
Destaca a autora a tarefa difícil e complexa que concerne à produção de uma ordem normativa, que responda aos desafios de nosso tempo. Esta
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cisará ser enfrentada, mesmo com informações escassas e provisórias, a fim de cumprir a tarefa de assegurar o controle ético e social das pesquisas, sejam elas na área da engenharia genética, sejam na manipulação de genes humanos, animais ou vegetais.
O terceiro texto, resultante da dissertação de Mestrado de Mônica Souza Liedke, demonstra a dedicação à pesquisa da autora a um dos temas mais ins-tigantes e polêmicos que envolvem as discussões em Bioética e Biomedicina: o genoma humano e marcos normativos.
A Mestre Mônica Souza Liedke analisa o tema do acesso e o uso do genoma humano, que têm proporcionado muitos benefícios para a humanidade, como o aconselhamento genético prévio à concepção do embrião e a correção de genes defeituosos, mas que traz preocupações à sociedade porque possibilita a seleção dos caracteres genéticos, impulsionando uma nova eugenia, assim como o comércio de material genético. Para a autora, a instrumentalização do ser humano propicia a vulnerabilidade dos sujeitos de pesquisa, assim como dos pacientes submetidos às terapias genéticas. Tais situações fazem surgir im-plicações éticas, sociais e, principalmente, jurídicas, que aqui serão tratadas. A proteção socioambiental é de extrema importância para preservar a integridade do genoma humano, conciliando o progesso científico de maneira responsável.
A Mestre Patrícia Schneider aborda com propriedade, e de modo bastante peculiar, o princípio da informação sobre alimentos geneticamente modifica-dos, chamando a atenção para a função socioambiental que o Direito exerce, por meio deste princípio, sobre a efetiva segurança alimentar da população mundial. As polêmicas envolvendo os organismos geneticamente modificados são conhecidas. O texto, entretanto, analisa uma forma de se garantir o mí-nimo de segurança aos consumidores dos produtos que passam por esta tec-nologia que afeta os alimentos, e que causa tanto receio em razão dos riscos ainda desconhecidos.
Quanto à pessoa da Mestre Patrícia Maria Schneider, novamente uma re-ferência pessoal, trata-se de uma pessoa especial no sentido mais profundo que o adjetivo pode alcançar. Enquanto acadêmica e egressa do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Direito da Universidade de Caxias do Sul, no período em que estive como Coordenador, foi uma aluna aplicada, qualidade reconhecida por todos os professores e colegas, amiga, solidária, engraçada, e muito humana. Competente e dedicada à causa ambiental. Foi a primeira de sua Turma (Turma IX) a obter o título de Mestre, sempre muito diligente. Apesar da pouca idade, transmitiu a colegas, professores, amigos e familiares lições de solidariedade e profunda amizade.
Utilizando-me de um pequeno trecho da música do Grupo Novo Som, registro, Patrícia, que “foi muito triste ver você partir naquele dia [...]”,
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mas “você se foi e nos deixou para viver um mundo melhor”, tão sonha-do por ti, exatamente como restou evidenciasonha-do nas entrelinhas da obra que aqui se apresenta. Foi rápida sua passagem pela Academia e rápido seu pas-seio por este plano, mas as marcas que você deixou na vida de todos que ti-veram o privilégio de conhecê-la, ao contrário, perdurarão para sempre!
Uma boa leitura e reflexão! Prof. Dr. Sérgio Augustin
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Capítulo 1
BIOTECNOLOGIA E DIREITO:
COMPROMISSOS COM A PROTEÇÃO DA
SAÚDE HUMANA E AMBIENTAL
Maria Claudia Crespo Brauner1
A preocupação com os efeitos decorrentes dos novos conhecimentos cien-tíficos e da utilização de novas tecnologias e suas possibilidades de modi-ficação profundas concernem especialmente às repercussões sobre o meio ambiente e a sociodiversidade.
As sociedades contemporâneas se interrogam das consequências da utiliza-ção dessas novas tecnologias e da perceputiliza-ção crescente da artificializautiliza-ção das relações do homem com a vida, tanto com seus semelhantes quanto com outras espécies de vida, seja animal ou vegetal.
Tais questões concernem todos os cidadãos e envolvem as decisões políticas tomadas pelas sociedades que são mais, ou menos, subjugadas pelo biopoder. Nesse contexto se encontram entrelaçadas tanto as preocupações com o domí-nio e a manipulação da vida, quanto às esperanças da própria humanidade em encontrar instrumentos para evitar o sofrimento e promover a proteção da vida, em todas suas expressões e aspectos qualitativos.
A ambivalência se instala na medida em que o papel da ciência em nossas sociedades promove, ao mesmo tempo, satisfação e medo, tornando-se insubs-tituível, levando a uma dependência e instigando a competição constante pelo domínio nas inovações biotecnológicas. Isso se evidencia tanto nas políticas de financiamento das pesquisas, que aumentam conforme os interesses do merca-do, quanto na formação dos profissionais nas áreas científicas, sobretudo nas relações entre mercado e consumidor.
As pesquisas que envolvem os processos físicos, químicos e biológicos con-fundem-se com os sistemas naturais, processos econômicos e políticos, e de-mandas sociais que crescem exponencialmente, demonstrando que as pessoas estão ávidas por novidades, estimuladas pelas informações que constantemente lhes apresentam novas soluções e esperanças de uma vida melhor.
A ciência não representa somente a acumulação de verdades, mas um cam-po aberto onde teorias são confrontadas, princípios são questionados e visões de mundo podem se antagonizar, levando ao combate que pode existir desde que as regras do jogo, que seriam o respeito aos dados e a obediência aos crité-rios de coerência, fossem respeitadas.
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Assim, a preocupação com os destinos da ciência na seara biotecnológica, com a ênfase na perspectiva do Direito, deveria consistir em um debate com a socieda-de, buscando compreender as causas e as possibilidades de mitigar os efeitos sobre a vida e sua qualidade. Tais efeitos resultaram das formas de apropriação da natu-reza, gerando um custo social importante, que se traduz na exploração irresponsá-vel dos recursos naturais, na maximização dos lucros e na prática de uma ciência alienada, em parte, das grandes disparidades sociais, notadamente no acesso aos benefícios oriundos das pesquisas na área da saúde humana.
1. O compromisso de uma Ciência com consciência
Uma avaliação científica rigorosa do contexto de inovações biotecnológicas requer uma abordagem transdisciplinar, como propõe Edgar Morin, destacando o compromisso em promover o exercício de uma ciência com consciência. Reco-nhece o autor que, no sentido da complexidade, não há ciência pura e que mesmo na ciência que se considera a mais pura há em suspensão a cultura, a história, a política, a ética, embora não se possa reduzir a ciência a essas noções.2
Assim, a possibilidade de uma teoria do sujeito no cerne da ciência, e de uma crítica do sujeito pela epistemologia complexa, como propõe o autor, daria origem a uma teoria da complexidade antropossociológica, que incitaria mudanças no rosto do humanismo, tornando-o complexo.3 Para tanto, emerge
a necessidade de uma reformulação do paradigma clássico, que considerava que toda complexidade do mundo poderia ser resolvida por meio de princípios e leis gerais, para dar espaço a um novo paradigma que rompe os limites do determinismo e da simplificação, o paradigma complexo, que amplia os ho-rizontes e busca um conhecimento multidimensional, capaz de reconhecer a incompletude e a incerteza.
Os destinos da ciência não deveriam estar vinculados à lógica do progresso econômico pura e simplesmente pensados para atender ao crescimento do mer-cado, mas pensados para e a partir do ser humano, levando em consideração o desafio de se promover condições para a proteção da vida e de sua qualidade, a um número sempre maior de comunidades.
A preocupação com a saúde humana está diretamente relacionada à saúde ambiental, sendo que ambas devem ser protegidas dos riscos decorrentes das ino-vações biotecnológicas. Assim, havendo condições ambientais promissoras para a vida, como água, ar, alimentação, clima e saneamento básico, os seres humanos podem assegurar sua sobrevivência, mas eles buscam mais, querem controlar e evitar as doenças, aumentar a esperança de vida, encontrando nas cidades con-dições melhores de educação, profissionalização, segurança, informação, lazer, indicadores que se referem ao ambiente artificial, construído nas cidades.
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O direito ao meio ambiente ecológico equilibrado, reconhecido na Cons-tituição federal brasileira, deve motivar a reflexão e as ações que envolvem a biodiversidade, em uma compreensão vasta, que engloba todas as espécies de vida bem como as inter-relações existentes entre elas.
Para tanto é preciso incentivar uma transformação do pensar, mudando de
uma visão redutora e de simplificação para um despertar da consciência
sobre a necessidade de proteger a vida, em todas as suas manifestações.
1.1. Do despertar da consciência ecológica e da proteção da vida
A revalorização fundamental das teorias morais que trataram do problema do respeito à vida, em todas as suas manifestações, levam a uma mudança na per-cepção do papel da ciência em nossas sociedades. Certos elementos fundamentais podem ser identificados como valores importantes a serem protegidos: primeira-mente o próprio valor da vida humana, em segundo lugar, o caráter de dignidade atribuído à vida e, por último, uma ideia de que todos os outros seres merecem respeito, devendo ser evitados a dor e o sofrimento desnecessários. A natureza, em toda sua variedade, deve merecer proteção, e o equilíbrio deve ser mantido.
A partir desse novo significado que deve guiar as ações humanas, e que tem repercussão na vida, em sentido amplo, emerge um compromisso moral das pessoas em contornar, evitar ou minimizar o sofrimento tanto dos seres da sua espécie como de outras, o que promove uma ideia de piedade em relação à dor e ao sofrimento alheios.
Ademais, observa-se que dentre as diversas concepções e interpretações das regras morais que justificam o dever de se respeitar a vida das pessoas, encontra--se o fundamento no consenso, ou melhor, no consentimento e na adesão das pessoas a este princípio. Deseja-se buscar um equilíbrio por meio de um com-promisso fundamental da humanidade: reconhecer e respeitar as diversidades de concepções morais e estimular a tolerância e a convivência das pessoas a partir da compreensão do pluralismo e da diferença, presentes em nossa sociedade.
Os tempos que vivemos constituem um mundo de complexidades, onde estão confundidos, a natureza e a tecnologia, e onde novas reflexões filosóficas e identi-dades culturais emergem junto à cibernética, comunicação eletrônica e biotecno-logia. Para Enrique Leff, são tempos de hibridação do mundo, tecnologização da vida e economização da natureza, de mestiçagem de culturas, diálogos de sabe-res, de dispersão e subjetividades, em que se está desconstruindo e reconstruindo o mundo, em que se estão ressignificando identidades e sentidos existenciais à contracorrente do projeto unitário e homogeneizante da modernidade.4
E, nesse contexto no qual diversas questões e interesses estão interconec-tados, o papel do Direito é desafiador na medida em que a sua ausência,
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quanto instância de legitimação das ações e políticas públicas, pode trazer in-segurança, por outro lado, a elaboração de leis restritivas ou com visão parcial dos problemas a serem regulados, pode gerar a estagnação e promover práticas distorcidas ou claramente ilegais.
As principais ideias e reflexões sobre as interfaces entre a Biotecnologia e Direi-to instauram-se desde o momenDirei-to inicial de discussão sobre a pertinência de uma lei ou normativa, a elaboração de uma proposta de legislação que se enraíza na preocupação em orientar a atuação da ciência sobre o homem e o meio ambiente. A relevância da presente discussão centra-se na ideia de que é necessário reconhe-cer a extensão dos poderes oferecidos pela moderna biologia e de questionar quais são as regras e responsabilidades que devemos impor para assegurar o respeito aos direitos humanos, à proteção dos demais seres vivos e do meio ambiente.
Trata-se de estimular esta reflexão, de modo a trazer ao conhecimento pú-blico as implicações políticas, econômicas, religiosas e científicas decorrentes do saber científico, construindo-se a possibilidade de encontrar um caminho seguro e responsável e que sirva de substrato para a solução dos novos desafios da pós-modernidade, no domínio vasto e emergente do poder biotecnológico.
1.2. Intervenções sobre a vida humana e proteção da saúde
A partir da contribuição ao debate sobre temas complexos relativos à atu-ação da ciência sobre o corpo humano, se pretende promover a humanizatu-ação da medicina, ressaltando-se a importância da relação intersubjetiva entre o pa-ciente e os profissionais da saúde, reconhecendo e concretizando a dignidade da pessoa humana, no âmbito da prática médica.
No contexto social brasileiro, as modernas técnicas terapêuticas não estão ao alcance da maioria das pessoas, fato que leva à possibilidade de discrimina-ção no acesso aos benefícios científicos. De outro lado, há o risco de exploradiscrimina-ção das novas terapias que podem dar origem a uma situação perigosa: a pesquisa em seres humanos, que pode pôr em risco a saúde da população e acelerar a dependência da saúde aos interesses de mercado.
No caso brasileiro, o direito à saúde é reconhecido enquanto um direito fundamental dos cidadãos e está sustentado nos princípios da equidade, da integralidade e da universalidade, representando um desafio constante manter a sustentabilidade do sistema. A liberdade científica reconhecida aos cientistas deve ser orientada à construção de uma justiça sanitária, que destine seus resul-tados a mitigar a dor e o sofrimento mais do que a enriquecer grandes grupos, pela via das patentes que impõem altos custos aos medicamentos. Importante perceber que os interesses financeiros que movem a indústria médica e farma-cológica comprometem o acesso dos pacientes aos novos medicamentos.
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A questão da saúde exige do Estado previsão e destinação de recursos para assegurar o acesso aos tratamentos de saúde. Embora muitos esforços estejam sendo dispensados nessa perspectiva, os desafios são constantes e colocam em destaque a necessidade de revisão das políticas públicas de pesquisa em saúde, bem como as de acesso a medicamentos e novas terapias.
Tal problemática tem justificado a prática da judicialização da saúde, que leva os cidadãos a reivindicar na justiça o acesso aos medicamentos e terapias não encontrados no Sistema Único de Saúde - SUS. Em alguns casos, os medi-camentos e terapias demandados não estão disponíveis no país, e não integram a lista de medicamentos distribuídos aos usuários do sistema. Assim, deverá ser levado em consideração que o Estado não pode ser compelido a fornecer medicamentos ou tratamentos que não foram objeto de avaliação e aprovação pelas autoridades sanitárias brasileiras, e que não tenham garantias de segu-rança e eficácia no tratamento de patologias. Uma avaliação cuidadosa deverá ser efetuada para verificar a necessidade do medicamento, sua segurança e eficácia. E, na medida em que a demanda visa à prestação que diz respeito ao mínimo existencial, vinculada à garantia da dignidade da pessoa humana e à vida, justifica-se a revitalização do papel ativo do Judiciário, para atendimento e efetivação do direito fundamental à saúde.5
O desenvolvimento científico tem lançado novas técnicas biomédicas que tem justificado a elaboração de diversos instrumentos normativos, visando à padronização dos procedimentos com a finalidade de auferir maior transparên-cia às pesquisas na área da saúde humana. A preocupação em elaborar-se uma legislação coerente e aplicável na esfera de novas terapias e tratamentos serviria para evitar os abusos e os desvios na seara biotecnológica.
A ausência de leis para regulamentar determinadas práticas, como repro-dução humana assistida, cirurgia estética, cirurgia de mudança de sexo, en-tre outras, tem relegado à esfera privada, sem efetivo controle pelo Estado, procedimentos que podem pôr em risco a saúde e interesses dos pacientes. A separação entre o indivíduo e seu corpo possibilita a instrumentalização da vida e das funções biológicas. Portanto, constitui um grande desafio a criação e aplicação de instrumentos jurídicos destinados a garantir que o corpo humano seja respeitado e protegido e não se transforme em mercadoria, no intuito de construir-se um sistema jurídico direcionado a responder aos novos e polêmi-cos dilemas da modernidade.
As questões relativas às novas terapias relevam de grande interesse por parte de cientistas e trazem consigo a esperança para pessoas portadoras de patologias graves, às quais a medicina convencional não fornece chances de recuperação.
A medicina gênica permite analisar com grande facilidade os genes de um ser humano e de conhecer a probabilidade que ele apresenta de desenvolver
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tologias e, ao mesmo tempo, possibilita tratá-lo antes que apresente sintomas mais graves, ou até mesmo evita que a doença se manifeste. Por outro lado, essa capacidade de diagnosticar precocemente a doença e de predizer o futuro do indivíduo, a partir de seus genes, traz consequências sobre a vida da pessoa e de sua família. As repercussões são importantes pelo fato de envolver não apenas o destino de uma pessoa, mas refletir na saúde de seus descendentes.
Além da possibilidade mais direta de a pessoa poder vir a ser discriminada quando pretender contratar um seguro de saúde, ou quando for se apresentar a uma seleção de emprego, há situações que podem gerar categorização e estig-matização de indivíduos.
Na percepção de Edgar Morin, o controle da atividade científica tornou-se crucial e depende do controle dos cidadãos sobre o Estado que os controla, bem como a recuperação do controle pelos cientistas, o que leva à necessidade de uma reforma do modo de pensar, que depende de outras reformas, havendo interdependência dos problemas, que não deve permitir esquecer a reforma--chave6. Assim, a ciência passa a ser um processo sério demais para ser deixado
só nas mãos dos cientistas, e o autor completa dizendo que a ciência se tornou muito perigosa para ser deixada nas mãos dos estadistas e dos Estados, deven-do ser compreendida como um problema cívico, um problema deven-dos cidadãos.7
Necessário instituir instâncias de reflexão e decisão que assegurem uma avaliação externa de riscos e benefícios, e a implantação de protocolos de pesquisa que possibi-litem a fiscalização e controle da pesquisa em saúde. Isso vem sendo feito no país, por meio dos comitês de ética em pesquisa, os CEP, e pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa - CONEP, que desempenham papel importante para avaliação e acompa-nhamento das pesquisas, buscando assegurar a qualificação ética dos projetos.
A partir de uma postura ética e de transparência, os avanços da ciência não deverão ser contidos por simples preconceitos tendo em vista os grandes interes-ses sociais envolvidos, entretanto, deve-se adotar um critério de prudência e de responsabilidade para a aceitação das novas intervenções sobre o ser humano.
Partindo do pressuposto de que o estado democrático de Direito brasileiro funda-se no princípio da dignidade da pessoa humana, intui-se que toda dis-cussão jurídica sobre terapias genéticas, bem como a eventual elaboração de legislação específica sobre o tema, deva levar em consideração esse preceito, que é estendido a todo ser humano.
1.3. A necessidade de proteção da biodiversidade genética
e do genoma humano
Trata-se aqui de proteger a diversidade genética construída pela lenta evo-lução natural das espécies.
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O Projeto Genoma Humano constituiu um grande esforço, que envol-veu diversos países, e culminou com o sequenciamento completo no ano de 2000, fato que gerou grande competição entre empresas privadas e institu-tos de pesquisa públicos. A partir desse momento, o interesse em desenvol-ver pesquisas na área da genética humana não cessou de crescer partindo da simples identificação dos genes, para o entender de sua expressão, como agem e como interagem entre si e com o ambiente. Em se tratando de do-enças e de comportamentos, muito pode ser explicado pelos estudos de genética. Os resultados das pesquisas para tratamento de doenças ainda parecem escassos, todavia as expectativas parecem promissoras para um futuro próximo8.
Mesmo a grande complexidade que envolve as múltiplas funções dos genes e das interações existentes entre eles não indica que a pesquisa na área da enge-nharia genética deva ser proibida. Ainda que os engenheiros genéticos possam encontrar problemas, é provável que venham a desenvolver intervenções genéti-cas relativamente simples que produzirão resultados importantes, por exemplo, no comportamento humano.9
Especialmente no que concerne à diversidade genética humana, esta não é somente um fenômeno natural, mas também cultural, assim, a pro-teção aos genes humanos deve levar em consideração a perspectiva so-cioambiental, ou seja, pensar o ser humano em suas inter-relações com o meio. O sequenciamento e o mapeamento do genoma humano trazem grandes preocupações, notadamente, para o Brasil, que ainda não elabo-rou legislação específica que regule o acesso e o uso dos recursos genéti-cos humanos. O controle de tais atividades é difícil, todavia, necessário, como meio de garantir que os genes da população nacional não sejam acessados sem consentimento, tornando-se objeto de transação comer-cial, no contexto internacional.
Portanto, nessa seara é imprescindível a submissão dos projetos à avaliação ética, bem como o acompanhamento das pesquisas e dos resultados com o compromisso de assegurar o rigor na avaliação dos riscos e promover os bene-fícios das pesquisas.
A responsabilidade dos pesquisadores deve ser considerada em primeira ordem e o controle social das pesquisas deve existir de forma a assegurar a transparência, bem como a devolução dos resultados à sociedade.
2. Os novos direitos decorrentes das inovações biotecnológicas
As novas concepções de Constituição se adaptaram às grandes transforma-ções da sociedade, destacando-se os direitos reconhecidos como fundamentais,