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Os nanocosméticos são formulações cosméticas que conduzem ativos em nanoestruturas menores que 1000 nm, tornando-os mais efetivos do que os produtos convencionais. Este artigo descreve as principais nanoestruturas lábeis utilizadas em produtos cosméticos, suas aplicações, vantagens e desvantagens, e a segurança na sua utilização.
Los nanocosméticos son formulaciones cosméticas que conducen activos en nano estructuras menores que 1000 nm, lo que permite mejorar su efectividad frente a los cosméticos convencionales. Este artículo describe las principales nanoestructuras lábiles utilizadas en productos cosméticos y sus aplicaciones, ventajas y desventajas, así como la seguridad relacionada a su empleo.
Nanocosmetics are cosmetic formulations that carry actives in nanostructures smaller than 1000 nm, making them more effective than the conventional products. This article describes the main labile nanostructures used in cosmetic products, their applications, advantages and disadvantages as well as the safety in their usage.
perfeição da aparência física esti-mula homens e mulheres a buscar tratamentos cosméticos mais efetivos, levando as indústrias ao desenvolvimento de produtos capazes de suprir as exigên-cias e demandas dos consumidores.
Essas demandas promoveram pro-fundas mudanças na indústria cosmética, forçando-a a inovar e investir em pesqui-sas de novos sistemas para incorporação de ativos, produzindo formulações mais efi cazes e estáveis.1 As constantes
pesqui-sas trouxeram avanços e inovações jamais vistas anteriormente na área cosmética. Uma dessas inovações de grande impacto apresentadas pelas empresas foi o desen-volvimento dos nanocosméticos, que são formulações cosméticas que conduzem ativos ou outros ingredientes nanoestrutu-rados com diâmetro menor que 1000 nm, e atuam de forma controlada nas diversas camadas da pele, incluindo as mais pro-fundas, tornando-os mais efetivos do que os produtos convencionais.2,3,4
São inúmeras as vantagens pro-porcionadas por um nanocosmético, destacando-se: a proteção do ativo en-capsulado contra a degradação química ou enzimática; a liberação gradual de ativos em doses favoráveis; a melhora na homogeneidade das formulações; o
aumento da estabilidade e da efi cácia dos produtos; e o aumento da capa-cidade de oclusão da pele, devido ao tamanho nanométrico dos sistemas.5,6,7
Na busca por novas alternativas de formulações cosméticas, os sistemas noestruturados, como lipossomas, na-noemulsões, nanopartículas lipídicas (as sólidas e os carreadores lipídicos) e nanopartículas poliméricas (nanocápsu-las e nanoesferas), são utilizados como carreadores para a liberação de ativos cosméticos na pele, visando modifi car e controlar os perfi s de liberação, permea-ção e oclusão.4,8
A partir da década de 90, verifi cou-se crescimento elevado no número de produtos cosméticos com base nanotec-nológica. Atualmente, pode-se encon-trar no mercado mundial uma série de produtos cosméticos contendo nanopar-tículas, como: agentes antirrugas, fi ltros solares, produtos para a área dos olhos, produtos anticelulite, shampoos, con-dicionadores, sabonetes, desodorantes, cremes dentais, bases e pós faciais, batons, sombras, esmaltes, blushes, perfumes e loções pós-barba.2,5,9
Considerando o exposto, este estudo tem como objetivos: realizar uma re-visão da literatura e do mercado sobre
nanocosméticos, com o intuito de pro-porcionar maior conhecimento sobre esses produtos; diferenciar entre si as principais nanoestruturas lábeis utiliza-das em produtos cosméticos; apresentar as principais vantagens e desvantagens dessas nanoestruturas; e, por fi m, discutir sobre a segurança de uso desses produtos. Administração de Ativos
Vários são os sistemas nanoestrutura-dos lábeis empregananoestrutura-dos para a administra-ção de ativos cosméticos, como:
Lipossomas
Os lipossomas foram os primeiros siste-mas nanométricos desenvolvidos para controlar a liberação de substâncias ati-vas. São vesículas esféricas constituídas por bicamadas (lamelas) fosfolipídicas, englobando um espaço aquoso central (Figura 1). Devido à presença de regiões aquosas e lipídicas, os lipossomas per-mitem tanto a encapsulação de substân-cias hidrofílicas quanto lipofílicas, sendo constituídos por compostos anfi fílicos, os fosfolipídeos. Já a bicamada possui características de membrana plasmática, permitindo a permeação dos compostos encapsulados.2,6,10
Os lipossomas podem ser classi-fi cados de acordo com o seu tamanho e número de bicamadas, podendo ser “uni” ou multilamelares, e seu tamanho pode variar entre cerca de 100 nm até mais de 400 nm dependendo do número de lamelas.10
A efi cácia das preparações liposso-mais depende essencialmente da natureza e da concentração dos fosfolipídeos, da quantidade de composto encapsulado, do volume de líquido retido no espaço aquoso central, do diâmetro da estrutura, da carga elétrica dos lipídeos e das condi-ções e técnicas de obtenção.10
Nanocosméticos:
Conceitos, Vantagens e Aplicações
Alessandra Ströher, Cristián Jesús Velásquez Armijo, Renata Platchek Raffi n
Centro Universitário Metodista IPA, Porto Alegre RS, Brasil
A
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Na área da cosmetologia, os lipossomas têm sido amplamente empregados em produtos cosméticos para a prevenção da queda dos cabelos, a promoção do crescimento capilar, em produtos anti-idade, no clareamento cutâneo e para a prevenção e o trata-mento da celulite.11
As principais vantagens relacionadas ao emprego de liposso-mas para a administração de ativos cosméticos são: podem trans-portar substâncias com diferentes características físico-químicas, sendo as substâncias hidrofílicas incorporadas ao núcleo aquoso das vesículas, enquanto substâncias lipofílicas estão associadas às bicamadas lipídicas; apresentam alta afi nidade com as mem-branas biológicas; promovem liberação gradual das substâncias encapsuladas; proporcionam penetração mais efi ciente através da camada córnea; e são constituídos de anfifílicos naturais biocompatíveis e biodegradáveis, e, portanto são atóxicos.12,13,14
As formulações lipossomais, apesar de suas grandes
po-tencialidades, ainda apresentam algumas limitações, como os problemas relacionados à estabilidade, visto que os fosfolipídeos podem interagir com os componentes do veículo cosmético, prejudicando a estabilidade das formulações.10,11 A presença de
tensoativos em determinadas concentrações no veículo (acima de 5%) leva à desorganização da bicamada dos lipossomas, cau-sando sua ruptura e a formação de micelas mistas.15
Nanoemulsões
As nanoemulsões são pequenas gotículas formadas por uma combinação de ingredientes tradicionalmente utilizados em cosméticos, como água, óleos e tensoativos, nos quais o núcleo oleoso está envolto por um sistema tensoativo (Figura 2).16
As nanoemulsões são aplicadas tanto na indústria farmacêu-tica como na indústria cosméfarmacêu-tica. Suas caracterísfarmacêu-ticas físico-químicas, como a fl uidez e a ausência de espessante, conferem Figura 1. Representação esquemática
de um lipossoma
Centro aquoso
Bicamada fosfolipídica
Figura 2. Representação esquemática de uma nanoemulsão
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56/Cosmetics & Toiletries (Brasil) www.cosmeticsonline.com.br Vol. 22, set-out 2010 ótimo aspecto estético e sensorial agradável à pele, fazendo que
suas aplicações sejam especialmente atraentes para a indústria de cosméticos.17
Principais vantagens trazidas pelas nanoemulsões: pequeno tamanho das gotículas, o que permite melhor penetração de agen-tes ativos na pele; são produtos seguros em termos de toxicidade; apresentam um fácil método de preparação e podem ser utilizadas para a liberação de fragrâncias, como na produção de perfumes livres de álcool.18 A principal limitação do uso das nanoemulsões
está relacionada à sua estabilidade, pois, como elas são fl uidas, o mais leve sinal de desestabilização facilmente aparece.19
Nanopartículas poliméricas
As nanopartículas poliméricas (Figura 3) são sistemas carreado-res de substâncias, constituídos por polímeros biodegradáveis, que podem apresentar-se sob duas formas: as nanocápsulas e as nanoesferas, que diferem entre si segundo a composição e a organização estrutural.10,20
As nanocápsulas são estruturas constituídas por um fino invólucro de polímero biodegradável e uma cavidade central com núcleo oleoso, no interior da qual a substância ativa está dissolvida nesse núcleo e, ou, adsorvida na parede polimérica.20,21
Entretanto, as nanoesferas não apresentam óleo em sua com-posição, sendo formadas por uma matriz polimérica, na qual o ativo cosmético pode fi car retido, adsorvido ou molecularmente disperso.9,12,20
As nanopartículas poliméricas vêm sendo aplicadas em pro-dutos cosméticos para a prevenção do envelhecimento cutâneo e no desenvolvimento de formulações contendo bloqueadores UV, com o propósito de prolongar o tempo de permanência dos fi ltros solares no estrato córneo.4,10 Ativos cosméticos, como
os antioxidantes (quercetina, alfa-tocoferol) e os fi ltros solares (metoxicinamato de etil-hexila e benzofenona-3), têm sido in-corporados a nanoesferas e, ou, nanocápsulas, com o objetivo de melhorar a efi cácia e, ou, reduzir efeitos colaterais indesejados que são produzidos por essas substâncias quando administradas na forma livre.4,7,22
Jiménez e colaboradores (2004) estudaram a infl uência da encapsulação sobre a absorção percutânea in vitro do
meto-xicinamato de etil-hexila (OMC), comparando entre si os de-sempenhos do ativo na forma livre e na forma encapsulada. Os autores verifi caram que as formulações contendo nanocápsulas de OMC apresentaram menor penetração no estrato córneo, re-tendo essa substância na superfície da pele, o que é fundamental para a efetiva fotoproteção. Além disso, observaram a liberação contínua do ativo, aumentando o tempo de contato deste com a superfície da pele.
As vantagens oferecidas pelas nanopartículas poliméricas utilizadas como sistemas carreadores estão relacionadas à prote-ção e à preservaprote-ção da substância ativa nelas incorporada frente à degradação química e enzimática, ao controle da liberação gra-dual do ativo em doses favoráveis, ao aumento da especifi cidade de ação, e ao aumento da atividade terapêutica das substâncias, resultando em doses terapêuticas menores e, consequentemente, na redução dos efeitos tóxicos.9,23
As nanopartículas poliméricas apresentam as seguintes desvantagens: presença de solvente orgânico residual usado no processo de produção, acarretando efeito tóxico; citotoxicidade dos polímeros; e agregação das nanopartículas no meio, durante o tempo de armazenamento, resultando na formação de preci-pitados e em problemas relacionados à estabilidade química do polímero ou das demais matérias-primas, incluindo a substância ativa. A consequência de uma estabilidade físico-química limita-da, em função do tempo, constitui um obstáculo para a aplicabi-lidade industrial das suspensões aquosas de nanopartículas.20,24
Nanopartículas lipídicas
As nanopartículas lipídicas sólidas (NLSs) e os carreadores lipídicos nanoestruturados (CLNs) são preparados com lipídeos biodegradáveis e biocompatíveis.25
As NLSs foram desenvolvidas no início da década de 90, como um sistema alternativo para nanoemulsões, lipossomas e nanopartículas poliméricas, sendo formadas por uma matriz lipídica, por meio da combinação de lipídeos sólidos (0,1 a 30%) dispersos em uma solução aquosa e estabilizada com tensoativo (0,5 a 5%), como mostra a Figura 4.26, 27
Os CLNs são considerados a segunda geração de nanopar-tículas lipídicas, sendo produzidos a partir de uma mistura de lipídeos sólidos e lipídeos líquidos (óleos). Essas nanopartícu-las foram desenvolvidas para solucionar possíveis limitações associadas às NLSs, pois os CLNs apresentam maior capaci-dade de incorporação de compostos ativos, além de eliminar ou minimizar eventuais expulsões de compostos ativos durante o armazenamento. Dessa forma, os CLNs foram desenvolvidos com os objetivos de aumentar a quantidade de substância ativa nas nanoestruturas e evitar sua segregação durante o armazena-Figura 3. Representação esquemática de
(a) nanocápsula e (b) nanoesfera
Matriz polimérica Matriz polimérica Núcleo oleoso (a) (b)
Figura 4. Representação esquemática de uma nanopartícula lipídica sólida (NLS)
Substância ativa Tensoativos Lipídeos CT_748_Nanocosmeticos.indd 56 CT_748_Nanocosmeticos.indd 56 08/09/2010 19:49:1408/09/2010 19:49:14
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mento. Para esses objetivos, são considerados três tipos de na-noestruturas CLNs: imperfeito, amorfo e múltiplo (Figura 5).3,26
Alguns cosméticos comercializados atualmente já possuem nanopartículas lipídicas em sua composição. Essas nanopartícu-las melhoram as características de hidratação cutânea, pois for-mam um fi lme oclusivo que difi culta a perda transepidérmica de água, aumentando dessa forma a quantidade de água nas camadas viáveis da pele. A oclusão mais efi ciente é atingida utilizando-se lipídeos com baixo ponto de fusão, que são partículas altamente cristalinas e de tamanho extremamente reduzido.26,28
Wissing e Müller (2003) estudaram o aumento da hidratação da pele in vivo, comparando a utilização de cremes contendo NLSs ao uso de cremes sem as nanopartículas. O creme conten-do as NLSs apresentou maior hidratação conten-do que o creme sem as nanopartículas, sendo que esse efeito se deve à formação do fi lme desenvolvido pelas NLSs.
As nanopartículas lipídicas ainda possuem muitas caracte-rísticas que as tornam vantajosas para a aplicação tópica. Elas aumentam a estabilidade química de compostos sensíveis à luz,
à oxidação e à hidrólise; são de fácil produção em grande escala, evitando o uso de solventes orgânicos; e, como são compostos de lipídeos biodegradáveis e biocompatíveis, não apresentam toxicidade, o que signifi ca dizer que possuem excelente tole-rabilidade. Além disso, as nanopartículas lipídicas são capazes de controlar a permeação de fármacos na pele e a diminuição da absorção sistêmica destes, propiciando resposta terapêutica tópica ideal, pois diminuem possíveis reações adversas.25,26
Em relação às desvantagens apresentadas pelas nanopar-Figura 5. Representação esquemática dos diferentes tipos de estruturas encontrados em carreadores lipídicos nanoestruturados (CLNs): (a) CLN imperfeito, (b) CLN amorfo e (c) CLN múltiplo
Lipídeo cristalino Ativo encapsulado Lipídeo amorfo Lipídeo sólido Óleo + ativo encapsulado (a) (b) (c)
Tabela 1. Classifi cação das nanopartículas Nanopartículas lábeis Nanopartículas insolúveis Lipossomas Fulerenos
Nanoemulsões Nanotubos de carbono Nanopartículas lipídicas Pontos quânticos Nanopartículas poliméricas Óxidos metálicos
(nanoesferas e nanocápsulas) (dióxido de titânio e óxido de zinco) Fonte: SCCP, 2007
Ativo encapsulado
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58/Cosmetics & Toiletries (Brasil) www.cosmeticsonline.com.br Vol. 22, set-out 2010 tículas lipídicas, deve-se considerar a baixa capacidade de
associação de substâncias e a complexidade do estado físico do lipídeo (possibilidade de fusão com superaquecimento). Esses fatores podem causar problemas de estabilidade durante o período de armazenamento ou de administração, como a ge-leifi cação, o aumento do tamanho das partículas e a expulsão da substância ativa.29
Segurança de Uso
Atualmente, não existem normas específi cas de vigilância sanitária que regulamentem os registros de nanocosméticos no Brasil e no exterior. Isso ocorre porque o uso da nanotecnologia em grande escala é recente. Os riscos variam de acordo com o tipo de produto nanotecnológico utilizado.30
Alguns países detectaram a necessidade de legislar sobre essa nova tecnologia e já estão sugerindo algumas propostas referentes a esse aspecto, como é o caso da Comissão Europeia, que lançou, em junho de 2007, o relatório denominado “Opinião Preliminar sobre a Segurança de Nanomateriais em Produtos Cosméticos”, no qual é sugerida a classifi cação dos nanocosmé-ticos baseada tanto na composição quanto no tamanho médio das nanopartículas.31 No Brasil, ocorreu naquele mesmo ano a
publi-cação do livro Nanocosméticos: em direção ao estabelecimento
de marcos regulatórios, que traz uma proposta de classifi cação
de nanocosméticos semelhante à da Comissão Europeia.5
Os produtos cosméticos são destinados à aplicação externa (pele e cabelo) e podem apresentar efeito local e, ou, dissemi-nado. Alguns fatores são cruciais para se avaliar os possíveis riscos associados às nanoestruturas utilizadas em cosméticos, por exemplo, sua possível passagem para a circulação sistêmica através da permeação transdérmica, pelas mucosas e, ou, pelos folículos, bem como sua inalação e ingestão (no caso da utiliza-ção de nanopartículas veiculadas em sprays para cabelo, batons, ou cremes dentais).31
Segundo o Scientific Committee on Consumer Products (SCCP), da Comissão Europeia, esse risco está associado ao uso de nanoestruturas cujas partículas tenham diâmetro abaixo de 100 nm. Esse mesmo comitê propõe a classifi cação das nano-partículas em dois grupos (Tabela 1), com o intuito de diferenciar entre si os riscos relacionados aos tipos de nanoestruturas
utili-zadas nos nanocosméticos.
As nanopartículas lábeis são aquelas que se desintegram após sua aplicação sobre a pele, não oferecendo riscos ao consumidor e ao meio ambiente, sendo que metodologias de avaliação de risco convencionais são sufi cientes para garantir que seu uso é seguro. Porém, as nanopartículas insolúveis são incapazes de desestruturar-se nos meios biológicos, trazendo maiores riscos devido à sua possibilidade de captura, podendo até mesmo tornar-se sistemicamente disponíveis e levar a um acúmulo em órgãos-alvo secundários. Esses efeitos podem ser agravados com a aplicação repetida de produtos cosméticos contendo na-nopartículas insolúveis. Inevitavelmente, essas nana-nopartículas podem representar uma ameaça para o meio ambiente, a análise dos seus ciclos de vida completos é necessária e elas devem ser avaliadas caso a caso.31
Em relação à caracterização da avaliação do risco da utiliza-ção de nanopartículas, as seguintes propriedades precisam ser consideradas:
- Características físicas: tamanho, forma da partícula, área superfi cial, carga superfi cial, morfologia da superfície, reologia, porosidade, cristalinidade e grau de cristalinidade, partículas primárias, agregados e, ou, aglomerados;
- características químicas: composição química, química de superfície, estequiometria, cinética de dissolução e solubilidade, hidrofi licidade e hidrofobicidade, revestimento de superfície, impurezas e adsorventes intencionais ou não na superfície. 31
Entretanto, essas características físicas e químicas são insufi -cientes, pois não fornecem informações a respeito das interações e dos riscos de possível passagem das nanopartículas para a circulação sistêmica via absorção dérmica, inalação, ingestão oral ou contato ocular. Dessa forma, os riscos de passagem das nanopartículas para a circulação sistêmica devem ser avaliados com o uso de metodologias específi cas validadas e reconhecidas por um órgão regulador.5
Cenário Atual e Perspectivas
A Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Per-fumaria e Cosméticos (Abihpec) informou que houve crescimen-to médio defl acionado composcrescimen-to de 10,6%, nos últimos 13 anos, no setor de cosméticos. Além disso, passou de um faturamento
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ex-factory, líquido de imposto sobre vendas, de R$ 4,9 bilhões, em 1996, para R$ 21,7 bilhões, em 2008. A mesma instituição confi rmou crescimento recorde no primeiro semestre de 2009, da ordem de 18%, em relação ao mesmo período do ano anterior. Vários fatores têm contribuído para esse excelente crescimento do setor. Dentre eles, destacam-se: a participação crescente da mulher brasileira no mercado de trabalho; a utilização de tecno-logia de ponta; o consequente aumento da produtividade, devido aos dois fatores anteriores; os lançamentos constantes de novos produtos que atendem cada vez mais às necessidades do mercado; e o aumento da expectativa de vida da população brasileira.32
Atualmente, a nanotecnologia é considerada uma área estratégica de investimentos na maior parte dos países de-senvolvidos. Nos principais mercados internacionais, a na-notecnologia movimenta cerca de US$ 147 bilhões por ano e mais de mil produtos de consumo já incorporam algum tipo de benefício nanotecnológico, utilizando nanopartículas, nanotubos, nanoesferas, nanoemulsões ou matérias-primas nanoestruturadas. Projeções para 2015 indicam que o merca-do mundial de produtos com algum tipo de nanotecnologia incorporada atingirá US$ 3,1 trilhões, o que signifi cará que 15% de todos os produtos manufaturados globais conterão algum nanomaterial em sua fabricação.33,34
No cenário mundial, algumas empresas vêm atuando na pro-dução de insumos e produtos nanotecnológicos para o mercado cosmético. Essas empresas estão localizadas principalmente nos países Espanha, França, Itália, Suíça e Estados Unidos. No cenário brasileiro, pode-se dizer que a presença de empresas de base nanotecnológica é muito incipiente, porém já é possível encontrar diversas empresas produzindo insumos e, ou, produtos
acabados com nanotecnologia.5
Devido à falta de obrigatoriedade legal de informar a presença de nanopartículas na rotulagem dos cosméticos, fi ca difícil esti-mar o número certo de produtos cosméticos com nanotecnologia. Eventualmente, as empresas indicam que o produto contém partículas de dimensão nanométrica, sem contudo especifi ca-rem o tamanho da partícula. Portanto, é importante ressaltar que nem todos os produtos que contêm o prefi xo “nano” no rótulo são, de fato, nanotecnológicos. Por outro lado, um produto pode conter nanopartículas e isso não ser informado em seu rótulo, se a empresa achar que esse dado poderá gerar desconfi ança no consumidor; mas ela poderá utilizá-lo quando julgar que isso aumentará o valor do produto.35
Conclusão
Os nanocosméticos surgiram como uma resposta às deman-das impostas pela sociedade moderna em relação à preocupação em manter a pele mais bonita, jovem e saudável. Eles apresentam uma série de vantagens quando comparados aos cosméticos convencionais, como: aumento da estabilidade e da efi cácia dos produtos; aumento da capacidade de oclusão da pele, devido ao tamanho nanométrico dos sistemas; e proteção das matérias-primas contra a degradação química ou enzimática.3,7
Vários estudos comparam o uso de nanocosméticos a pro-dutos convencionais, comprovando os benefícios relacionados à utilização dos nanocosméticos. Estudos evidenciaram ainda o efeito oclusivo de nanopartículas lipídicas e o aumento da hidra-tação da pele, quando os nanocosméticos foram comparados aos cosméticos convencionais.28
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60/Cosmetics & Toiletries (Brasil) www.cosmeticsonline.com.br Vol. 22, set-out 2010 Em relação às nanoestruturas estudadas neste artigo, pode-se
verifi car que cada uma delas apresenta características físico-químicas particulares, as quais conduzem o seu comportamento e determinam o tipo de nanoestrutura a ser empregada, conforme o processo de produção e o efeito desejado.
A segurança na utilização dos nanocosméticos é um assun-to controverso. Embora diversos países já tenham iniciado discussões sobre o assunto, ainda existe a carência de uma legislação clara que regulamente o uso desses produtos. Os riscos relacionados à utilização dos nanocosméticos estão relacionados ao uso de nanoestruturas com diâmetro abaixo de 100 nm (devido à possibilidade delas passarem para a corrente circulatória) e ao uso das nanopartículas insolúveis. As nanopartículas apresentadas neste trabalho não oferecem riscos ao consumidor e ao meio ambiente, pois são partículas biodegradáveis e biocompatíveis.
A obrigatoriedade de se criar uma legislação para as empresas fabricantes de nanocosméticos também se faz necessária. As em-presas devem mencionar, de forma clara e objetiva, a presença do tipo de nanoestrutura nas embalagens e nos rótulos dos produtos cosméticos, com a fi nalidade de informar o consumidor sobre o produto que ele utilizará.
O mercado de cosméticos é um dos segmentos que mais cresce no Brasil. Os nanocosméticos são responsáveis por uma grande inovação, que apresenta inúmeras possibilidades para o desenvolvimento de produtos mais estáveis e efi cazes, atenden-do, cada vez mais, às exigências e às necessidades dos clientes e consumidores.
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Alessandra Ströher é acadêmica do Curso de Farmácia do Centro Univer-sitário Metodista IPA, Porto Alegre RS, Brasil
Cristián Jesús Velásquez Armijo é professor do Centro Universitário Meto-dista IPA. Mestre em Ciências Farmacêuticas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRS, Porto Alegre RS, Brasil
Renata Platchek Raffi n é pós-doutoranda da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutora em Ciências Farmacêuticas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul
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