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Ano XII Volume XIII Nº 26 Janeiro/Junho 2017 Rio de Janeiro ISSN

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Ano XII Volume XIII Nº26 Janeiro/Junho 2017 Rio de Janeiro ISSN 1807-1260 www.revistaintellector.cenegri.org.br

As

dinâmicas

socioterritoriais

da

região

missioneira

transfronteiriça de São Borja-Brasil Santo Tomé-Argentina:

comunidades tradicionais e as hegemonias de poder

Muriel Pinto1 e Cristófer Escobar Ferreira² Resumo

Este trabalho busca compreender de forma sistêmica e crítica a realidade social, cultural e espacial da região transfronteiriça entre São Borja-brasil e Santo Tomé-Argentina. Busca também expor como vem se dando a consolidação de um grupo que propicie um novo olhar crítico sobre o cenário regional, que possibilite a realização de discussões que extrapolem o senso comum. Além de compreensão das realidades sociais e culturais este projeto centra-se na constituição de um Núcleo de estudos fronteiriços. O recorte territorial proposto para a implementação inicial do projeto, ou seja, as regiões da fronteira Oeste e Missões do Rio Grande do Sul, encontram-se em situação de estagnação social e econômica, conforme o PNDR – Plano Nacional de Desenvolvimento Regional, organizado pelo Ministério da Integração Nacional brasileiro. Percebe-se nos últimos anos estratégias estatais que buscam diminuir as desigualdades regionais no Brasil, onde a Mesorregião da Metade Sul do Rio Grande Sul apresenta-se como área prioritária para o Governo Federal no que diz respeito a implementação de políticas públicas voltadas para a melhora da qualidade de vida e distribuição de renda regional. Como resultados parciais destaca-se a reflexão sobre as identidades sociais, espaços culturais e territórios de vida da região, assim como uma compreensão do atual fluxo de argentinos para São Borja.

Palavras-chave: Planejamento Regional, Políticas Públicas, Inclusão Social, Integração Sul-Americana,

Desenvolvimento Territorial.

Abstract

This work seeks to understand in a systemic and critical way the social, cultural and spatial reality of the cross-border region between São Borja-Brazil and São Tomé-Argentina. It also seeks to expose how it has been taking place the consolidation of a group that provides a new critical look at the regional scenario, which allows the realization of discussions that extrapolate common sense. In addition to understanding social and cultural realities, this project focuses on the establishment of a center for frontier studies. The proposed territorial cut-off for the initial implementation of the project, that is, the regions of the west frontier and Missions of Rio Grande do Sul, are in a situation of social and economic stagnation, according to the PNDR - National Plan for Regional Development, organized by Ministry of National Integration. In recent years, state strategies that seek to reduce regional inequalities have been observed in Brazil, where the South-South Meso-region of Rio Grande do Sul presents itself as a priority area for the Federal Government with regard to the implementation of public policies aimed at improving Quality of life and regional income distribution. Partial results highlight the reflection on the social identities, cultural spaces and territories of life of the region, as well as an understanding of the current flow of Argentines to São Borja.

Key words: Regional Planning, Public Policies, Social Inclusion, South American Integration, Territorial

Development.

1 Professor Adjunto e Coordenador Acadêmico da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), Campus de São

Borja. Licenciado e Doutor em Geografia. Lider do Grupo de Pesquisa CNPQ –Llabpoliter – laboratório de Políticas Públicas e Territórios fronteiriços. E-mail: [email protected]

² Discente de Ciências Sociais – Ciência Política pela Universidade Federal do Pampa – campus São Borja. E-mail: [email protected]

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Dinâmicas sociais, territoriais e naturais da fronteira

início da formação urbana e territorial do recorte estudado remete aos processos de colonização e evangelização impostos durante o período das Reduções Jesuítico-Guarani (século XVII). As municipalidades estudadas foram sede de dois povoados missioneiros, as reduções de Santo Tomé e São Francisco de Borja, que se destacaram pelas manifestações artístico-culturais, pois foram projetadas por importantes arquitetos italianos, influenciados pelo Barroco renascentista.

As vivências do período missioneiro enraizaram modos de vida, saberes e crenças, que até hoje são visualizados nas comunidades nativas regionais. Essas práticas tradicionais vêm sendo territorializadas e socializadas em espaços sociais remanescentes do período reducional, como nas fontes missioneiras, sítios arqueológicos e nos espaços sagrados com influência das imaginárias sacras barrocas.

A formação socioterritorial da região esteve constantemente influenciada pelo rio Uruguai e pelo bioma pampa. A bacia do rio Uruguai desde o período reducional apresentava-se como estratégica para as relações territoriais regionais, visto que era uma via de ligação entre as missões Jesuítico-Guarani até Buenos Aires, através do estuário do Prata, assim como servia de interlocução entre as reduções da banda oriental e ocidental da devida bacia hidrográfica. No século XIX, a bacia do Uruguai tornou-se cobiçada pelos paraguaios, que realizaram conflitos bélicos na região, durante a Guerra do Paraguai. Neste século o rio ainda contribuía para a navegação pluvial. Na atualidade é uma via de ligação do Mercosul, que integra as municipalidades fronteiriças a partir de relações comerciais, turísticas e culturais, e serve como via de fluxo para o contrabando fronteiriço. Nas margens do Rio Uruguai encontram-se diversas comunidades ribeirinhas, que possuem práticas e representações sociais identificadas com a cultura da pesca.

As estratégias territoriais da fronteira missioneira possuíam uma característica diferenciadora do restante das reduções da banda oriental do Uruguai, pois as reduções de Santo Tomé e São Francisco de Borja estavam praticamente interligadas, onde distanciavam-se apenas três léguas (MAURER, 2011). Sendo assim, pode-se destacar que desde este período reducional, estes povoados missioneiros, salientavam-se pelas suas posições estratégicas, visto que foram as únicas reduções fronteiriças fundadas nas margens do rio Uruguai.

Maurer (2011) destaca em sua dissertação de mestrado, que a redução borjense tornou-se um centro conversor e uma redução refratária nas missões (MAURER, 2011).

A partir de análise documental da época missioneira, Maurer (2011) defende que a redução de São Francisco de Borja estava identificada com os chamados povos ocidentais do rio Uruguai, no caso, Yapeyu, La Cruz e Santo Tomé, expondo uma diferenciação social e cultural do povoado borjense em relação às reduções fundadas na banda oriental. Esta não identificação

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aos chamados sete povos das missões, expõem o que Mauer defende como redução refratária para São Borja.

Esta linha de pensamento foi estruturada a partir da preposição de refletir as missões num contexto espaço-regional, que de certa forma envolveu discussões geográficas, historiográficas e etnográficas, que possibilita pensar a região a partir dos interesses geopolíticos do território. A análise da fundação da redução de São Francisco de Borja, torna-se essencial para pensar a construção territorial da região, que podemos denominar como “região missioneira do pampa”, pois este povoado foi fundado num território estrategicamente relevante para os interesses da Companhia de Jesus e da Coroa Espanhola. Entre os objetivos da fundação da Redução de São Francisco de Borja, Maurer (2011) destaca que havia um interesse na época em constituir um bloco de apoio entre as reduções de Yapeju, Santo Tomé, La Cruz e São Borja, que contribuiu para uma política de estreitamento entre as duas margens do Uruguai. Esta identificação podia ser comprovada através do fluxo contínuo entre as duas margens (MAURER, 2011).

Portanto, a fundação do povoado borjense foi um interesse geopolítico, cultural e administrativo dos povos ocidentais. A constituição de São Francisco de Borja, buscou resolver problemas que estavam afetando as missões, como controlar movimentações de grupos indígenas, principalmente os Guenoas que roubavam gado na região fronteiriça do rio (MAURER, 2011).

No período Jesuítico-Guarani, houveram diversas estratégias territoriais que objetivavam facilitar as relações sociais, comunicacionais, econômicas e culturais, entre os povos missioneiros. Entre estas destaca-se a construção de capelas, passos, estâncias de gado e portos, que se tornaram ações territoriais que facilitavam a articulação entre os povoados missioneiros. A análise futura destas ações num âmbito contemporâneo, poderá instigar a reflexão entorno das influências territoriais reducionais na construção dos espaços missioneiros atuais.

Já as comunidades estancieiras constituíram-se na região após o final das Missões, quando se implementa um modelo econômico privado de produção. Nesse novo modus operandi de vida, acaba se centralizando a estrutura fundiária, urbana e se constituindo um novo tipo social regional, adequado à lida campeira, sensível às manifestações artísticas e sagradas, no caso a figura do gaúcho.

Cabe destacar que essas vivências estão constantemente dialogando com a espacialidade de uma região de fronteira, que nos últimos séculos privilegiou os fluxos comerciais em contrapartida dos câmbios sociais e culturais regionais, o que contribuiu para a consolidação de fronteiras sociais entre as diversas identidades nas margens do rio Uruguai.

A melhor compreensão das marcas territoriais missioneiras expôs como as comunidades fronteiriças vêm cristalizando seus pertencimentos, que, através de formas culturais fabricadas ou remanescentes urbanos, geram, cotidianamente, representações simbólicas. A partir da análise das redes territoriais regionais, percebe-se que os marcadores reducionais ainda

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mantêm forte vinculação socioespacial com as práticas sociais tradicionais e com as crenças sagradas e míticas.

Nessas representações percebe-se discursos de valorização dos sítios arqueológicos e de crítica à padronização de sentidos regionais com interesses ideológicos e econômicos. Portanto, percebem-se as representações missioneiras como fatores de resistência à negação identitária nativa tradicional e como contranarrativas aos processos de coesões de sentidos, pois constantemente observam-se vozes comunitárias de proteção e preservação do patrimônio cultural missioneiro regional.

No que toca a composição social e comunidades fronteiriças, destaca-se que a Província de Corrientes na Argentina possui o maior contingente de guaranis.

A partir dessa linha de pensamento, pode-se refletir sobre as resistências sociais e os processos de autonomia das comunidades nativas perante as relações de poder impostas pelas comunidades colonizadoras. Essas ações populares de resistência podem caracterizar a comunidade como sendo um grupo coletivo que procura manter sua identidade socioterritorial, assim como mantêm práticas vivenciais que remetem a períodos mais primitivos, o que as torna tradicionais.

Portanto, muitas dessas práticas e identidades dessas comunidades, por muitas vezes, não são percebidas, o que as torna mal compreendidas, pois a lógica da colonização, desde seus antepassados, procura interferir nesses modos de vida. No entanto, percebe-se que nesta fronteira – São Borja-Santo Tomé –, ainda sobrevivem modos de vida, saberes, rituais e crenças que remetem às comunidades indígenas, que por muitos séculos viveram na região (PINTO, 2015).

Tornou-se prudente, então, analisar essas vivências tradicionais como práticas de autonomia e resistência4 ao processo de dominação socioterritorial das comunidades aristocráticas da região.

Realidade regional transfronteiriça e constituição do núcleo da

mesopotâmia do Prata

Desde o ano de 2015 vem ocorrendo o projeto de pesquisa “Realidades regionais transfronteiriças e a constituição do Núcleo da Mesopotâmia do Prata”, este que objetiva compreender de forma sistêmica e crítica a realidade social, cultural e espacial da região transfronteiriça entre São Borja-brasil e Santo Tomé-Argentina e também busca consolidar um grupo que propicie um novo olhar crítico sobre o cenário regional.

Como foi destacado acima os recortes espaciais estudados estão resistindo às novas práticas sociais modernas impostas pelo modelo socioprodutivo agrocultural, através da reprodução de modos de vida e imaginários que partem de realidades vivencias populares. Portanto, estas

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ações de autonomia e resistência por muitas vezes não são ações conscientes ideologicamente, mas sim conscientes na manutenção de crenças tradicionais sagradas.

A elaboração do projeto vem tendo como ponto de partida duas propostas metodológicas convergentes resultantes de experiências já realizadas. A primeira consiste na utilização da proposição espanhola utilizada pelo Projeto Elementos Turísticos-Culturais da Região das Missões Jesuíticas Guarani, realizado pelo IPHAN e IAPH (Instituto Andaluz de Patrimônio Histórico – Sevilla/ Espanha). A segunda consiste na preposição metodológica desenvolvida pelo Plano Estratégico de Desenvolvimento dos Coredes do RS, proposta pelo Curso de Gestão Estratégica em Desenvolvimento Regional e Local realizado pelo Ministério da Integração Nacional. Esta metodologia busca uma abordagem das realidades regionais. Entre as etapas cita-se: Elaboração do projeto, articulação entre os campi e instituições do Mercosul; Levantamento de dados a campo e busca de material bibliográfico; Criação de base cartográfica e Gestão territorial dos dados; Análise situacional; referenciais estratégicos e Matriz FOFA; Proposição de projetos Estruturantes; Estruturação de banco de dados; Prospecção do Guia de Paisagem cultural da região.

Os resultados parciais deste projeto são:

Constituição e aproximação de redes de cooperação acadêmica entre diversas Universidades que estejam nas margens da bacia do Prata, assim como se identifiquem com os estudos fronteiriços (ex: Rede Geofronteiras, rede Unbral, rede Navegabilidade do rio Uruguai);

 Concretização de relações interinstitucionais com as municipalidades, onde foi decretado como utilidade pública a nucleação fronteiriça por parte da intendência de Santo Tomé;

 Articular e integrar pesquisadores fronteiriços, estes que vem desenvolvendo pesquisas em diversas Universidades nacionais;

 Inserir a Unipampa no cenário acadêmico nacional, a partir da consolidação de um grupo de excelência, que procurará destacar-se nas seguintes temáticas: Historiografia das Missões Jesuítico-Indígena, construção dos espaços sociais e das identidades regionais, e relações de poder no território;

 Criação e atividade de um grupo de pesquisa vinculado ao CNPQ – Labpoliter – Laboratório de Políticas Públicas e Territórios fronteiriços;

 Possibilitar com os acadêmicos de graduação, especialização e mestrados da Unipampa, possam se inserir em discussões cientificas de alto nível, o que poderá contribuir com o intercâmbio interinstitucional entre discentes e docentes, assim como inserir os graduandos no circuito da pesquisa e da pós-Graduação;

 A partir destas ações foi possível somar força na elaboração e aprovação da proposta de um Mestrado Profissional em Políticas Públicas (PPGPP-UNIPAMPA), este que possui como área de concentração “Elaboração, Implementação e avaliação de Políticas Públicas para o Desenvolvimento regional em áreas de fronteira”;

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 A partir destas ações também foi possível participar da organização o IV Seminário Internacional de Ciências Sociais – Ciência Política – Buscando o Sul: Relações de fronteira, políticas públicas e o pensamento social no Prata.

A constituição do Núcleo de fronteira objetiva consolidar um coletivo de discussão, que congregue pesquisas acadêmicas voltadas para reflexões sobre os processos históricos, sociais e territoriais que ocorreram/ e ocorrem na Região das Missões Jesuítico-Indígena, mais especificamente no território fronteiriço entre o Brasil e Argentina. Esta região historicamente destacou-se pela sua posição estratégica na mesopotâmia da Bacia do Prata, o que contribuiu para a instalação de áreas urbanas reducionais, disputas territoriais entre as Coroas Ibéricas, conflitos militares, e em relações fronteiriças entre municipalidades argentinas e brasileiras. Nesta perspectiva, o devido grupo contempla pesquisadores de diversas instituições nacionais e internacionais, que vem desenvolvendo estudos interdisciplinares e transdisciplinares. Cabe destacar, que este grupo já vem desenvolvendo ações em conjunto, como em projetos de extensão, na execução de disciplinas em cursos de Pós-Graduação Lato Sensu, em publicações cientificas, assim como no andamento de pesquisas. Sendo assim, este grupo objetiva nortear suas discussões através de três linhas de pesquisas: 1ª) Historiografia das unidades índio-jesuíticas e minorias étnicas do Rio da Prata (séc. XVII e XVIII); 2ª) Espaços sociais, Patrimônio Cultural e Identidades Socioterritoriais da fronteira; e 3ª) Desenvolvimento territorial, escalas de poder e relações transfronteiriças nas Missões. Num primeiro momento estão realizadas pesquisas sobre os seguintes recortes territoriais: Departamento de Misiones e Departamento de Santo Tomé (Argentina), Regiões das Missões e Fronteira-Oeste (Brasil).

O recorte territorial brasileiro que vem sendo pesquisado, as regiões da fronteira Oeste e das Missões do Rio Grande do Sul, encontram-se em situação de estagnação social e econômica, conforme o PNDR – Plano Nacional de Desenvolvimento Regional, organizado pelo Ministério da Integração Nacional. Percebe-se nos últimos anos estratégias estatais que buscam diminuir as desigualdades regionais no Brasil, onde Mesorregião da Metade Sul do Rio Grande Sul apresenta-se como área prioritária para o Governo Federal no que diz respeito a implementação de políticas públicas voltadas para a melhora da qualidade de vida e distribuição de renda regional. Nesta perspectiva surge a UNIPAMPA, Universidade Federal do Pampa, que foi criada para contribuir com o desenvolvimento regional da Metade Sul do Estado. Portanto, esta Universidade tornou-se uma estratégia política essencial, não só na questão educacional, mas também na melhor compreensão da realidade sociocultural, das necessidades e potencialidades econômicas, assim como das identidades socioterritoriais da região.

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Cenário transfronteiriços: narrativas sobre a construção da Ponte da

Integração (1994) e de argentinos em São Borja (2016)

Este projeto teve seu início em maio de 2015. Na primeira etapa nos debruçamos em pesquisas já realizadas, sejam elas de Trabalhos de conclusão de curso (TCC), dissertações e teses acadêmicas, assim como realizamos revisões bibliográficas que contribuíram para uma melhor visão de cenário socioespacial do bairro ribeirinho do Passo.

Nestas pesquisas se tem um cenário das dinâmicas sociais e econômicas fronteiriças, reflexões estas que disponibilizam novas abordagens sobre as realidades transfronteiriças, seja através da análise do discurso, seja através de pesquisa quantitativa.

Análise do Jornal Folha de São Borja (1994-1997: período de construção da Ponte da Integração São Borja-Santo Tomé)

Neste momento da pesquisa objetivou-se em realizar uma análise de conteúdo das narrativas emitidas no jornal Folha de São Borja, durante o período de construção da ponte da Integração São Borja-Brasil/ Santo Tomé-Argentina (1994-1997). Para tanto, procurou-se analisar as narrativas de exaltação das relações socioculturais fronteiriças, e os discursos de valorização da história fronteiriça (pertencimento as missões) reproduzidos no jornal.

Núcleos temáticos destacados nas edições analisadas: - Processo de licitação da obra da ponte;

- Opiniões sobre a construção da obra;

- Relação histórica da fronteira São Borja-Santo Tomé;

- Anúncio do consórcio vencedor para a construção (ato de início da obra); - Panorama da construção da obra (símbolos da construção);

- Planejamento da prefeitura municipal de São Borja para a nova realidade local; - Conteúdos públicos e comerciários sobre a ponte;

- Importância da obra para a integração sul-americana; - Benefícios econômicos e sociais com a ponte;

- Discurso da diferença de São Borja perante as outras municipalidades gaúchas, no que toca a difusão artística-cultural;

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Desde a análise inicial das edições do jornal folha de São Borja, percebe-se que a construção da ponte era um projeto almejado a muitas décadas. Conforme diversas mensagens emitidas no jornal, esta obra já era cogitada desde o primeiro mandato do presidente Getúlio Vargas. A construção da ponte da integração em 1997, foi precedida por diversas negociações e articulações políticas, que envolveram diversos atores territoriais fronteiriços.

Figura 1: Matéria opinativa do Ex-Governador Antonio Britto no Jornal Folha de São Borja.

Fonte: Jornal Folha de São Borja

A narrativa acima traz a fala do então Governador do Estado do Rio Grande do Sul, Antonio Britto. Nesta matéria, Britto relaciona a construção da ponte da Integração, como uma homenagem ao passado histórico de São Borja, que teve grande representação na história brasileira, através das figuras de Getúlio Vargas e João Goulart.

Além da exaltação dos ex-presidentes de São Borja, foi mencionada a importância da trajetória histórica e cultural do local, onde o rio Uruguai e o bairro do passo, se apresentam como lugares de difusão sociocultural para os diversos momentos históricos da fronteira.

Para Grimson (2005) as intenções de integração das fronteiras envolvem agentes de diversos níveis sociopolíticos. No caso da fronteira em estudo, percebeu-se que os agentes envolvidos nas negociações da obra, foram de vários níveis de governo, que somaram esforços através de uma Comissão Mista Brasil-Argentina.

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A Mercovia S.A, empresa vencedora da licitação da obra, destacou-se como um ator estratégico do processo, pois a mesma foi responsável pela agilização da construção da ponte, o que lhe deu direito de concessão de vinte anos para cobrança de tarifa aduaneira de passagem de veículos pela fronteira.

Segundo Grimson (2005) estes atores fronteiriços estão inseridos em lógicas de disputas pelas características e sentidos da fronteira, agentes estes que por muitas vezes impõe suas influencias políticas e econômicas que se sobrepõe aos processos socioterritoriais.

Nas mensagens jornalísticas não foram notadas vozes de oposição à construção da ponte. Neste caso, pode ser descrito que houve uma dialética entre “acima” e “abaixo” nas articulações, onde foram percebidas diversas relações de poder dos atores políticos nas diferentes etapas da obra. Durante análise das matérias jornalísticas percebe-se um maior destaque para as vantagens econômicas que a ponte poderia trazer para a fronteira. Grimson (2007) comenta que a construção de pontes e estradas não objetivam beneficiar a população fronteiriça, mas sim favorecem o comércio de grande escala, dificultando o comércio em menores proporções, chamado de “contrabando formiga”.

Portanto, a construção de pontes torna-se uma nova forma de controle e regulamentação da fronteira. O conteúdo analisado esta de acordo com as reflexões de Grimson, pois percebe-se uma preocupação com o aumento do fluxo de caminhões, não havendo fala nenhuma relacionada aos pequenos contrabandistas da fronteira.

Com o policiamento da circulação de pessoas, percebe-se a anulação da história, das manifestações culturais e tradições locais, uma vez que as pontes dificultam as trocas e intercâmbios socioculturais (GRIMSON, 2007). As narrativas expostas destacaram como a construção da ponte poderia representar uma integração sociocultural fronteiriça, no entanto os tramites aduaneiros foram ressaltados como as normas internacionais vem dificultando para as mobilidades entre as cidades gêmeas.

O texto “a travessia do rio nem sempre, serviu a paz, como agora”, destaca-se por apresentar mensagens que relacionaram à construção da ponte a zona ribeirinha da cidade. No decorrer da matéria foram mencionadas temporalidades importantes para as relações sociais nesta região de fronteira, como o processo de construção da redução de São Francisco de Borja (século XVI), e os confrontos bélicos que ocorreram na devida fronteira, como a Guerra do Paraguai, e invasão de Andresito Artigas2.

Nesta matéria também foi dado destaque para as transações pacíficas na fronteira, como as relações comerciais através do rio Uruguai. Ainda foram narradas as relações de parentescos que existem entre as duas municipalidades, sendo descrito a vontade da população de passar livremente pelo rio Uruguai.

Este texto traz no seu título, um discurso que expõem a devida fronteira como não integrada, mas sim marcada por atos e ações de separação, de conflitos. No entanto, no seu contexto são

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exaltados diversos momentos históricos, que reforçam as relações sociocultuais locais, como foi o caso da ênfase dada ao período das reduções Jesuítico-Guarani.

Durante o período de construção da ponte, foram emitidos discursos de diferença de São Borja perante as outras municipalidades do Estado do Rio Grande do Sul. O texto acima, intitulado “Realmente nós somos diferentes”, demarca um discurso de exaltação as manifestações artístico-culturais e a sua capacidade de gerar arte.

Grimson (2007) ensina que a melhor compreensão do outro lado, de suas formas de identificação, sua história, suas manifestações culturais, e de suas culturas políticas, tornam-se estratégias importantes para a interação e integração fronteiriça. Os conteúdos analisados trazem para a discussão a necessidade de refletir sobre como andam as interações sociocuturais da fronteira em questão, pois conforme afirma Grimson (2007) as manifestações culturais e identidades regionais servem como artifícios para entender a cultura política em geral.

No decorrer da matéria surgiram vozes que remetem estas diferenças sociais, a influencias de outras temporalidades, como é o exemplo do trecho “por alguma razão ancestral, histórica ou cultural, estamos investidos de fluidos e magnetismos que nos distinguem no cenário gaúcho”. Este posicionamento instiga pensar as relações do período reducional missioneiro com os processos artísticos regionais, uma vez que percebe-se nestas narrativas exaltações as influencias históricas e as ancestrais nos modos de vida citadinos.

As reflexões sobre as narrativas geradas durante a construção da ponte da integração, destacam que as relações sociais fronteiriças são efetivadas a partir do melhor conhecimento dos processos sociohistóricos regionais. A viabilização desta obra expôs representações sociais que reforçam reconhecimentos sobre as influencias missioneiras nos processos de comunicações culturais entre São Borja e Santo Tomé.

Estas migrações populacionais entre estes dois territórios, são práticas tradicionais que estão articuladas com o principal argumento desta Tese, que é a construção da identidade missioneira a partir do enraizamento de vivencias tradicionais em espaços sociais que remetem a antigas estruturas urbanas reducionais.

Nestes espaços públicos foram gerados discursos de exaltação e memorização da história e cultura das antigas reduções de Santo Tomé e São Francisco de Borja, onde o Rio Uruguai foi reconhecido como uma via de comunicação cultural entre estes povoados. Esta representação social deste corpo d’água, traz uma interpretação renovada para as épocas de hoje, pois os espaços do cotidiano regional vivem sob as normatizações e limites territoriais definidos pelos Estados nacionais.

Cabe destacar que a representação gerada sobre o rio, apresenta vozes que permitem pensar este marcador vivo como um elemento marcado por conflitos bélicos. Por mais, que no decorrer das narrativas, perceba-se a importância deste para o translado de aborígenes e para as relações de parentesco na região, percebe-se na sua mensagen principal uma representação voltada para a defesa territorial.

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Portanto, as representações sociais missioneiras identificadas com o rio, apresentam uma dualidade cognitiva que se constitui a partir da construção de um novo espaço do cotidiano através da Ponte da Integração. Este momento histórico para a região, contribuiu ao mesmo tempo para representações de integração e separação socioterritorial, pois trazem a tona narrativas de aproximações sociais que vem desde as reduções até as comunidades ribeirinhas atuais, assim como remete aos momentos de proteção territorial, como foram as narrativas de exaltação dos confrontos militares no Prata.

Aplicação de questionários com argentinos vieram a São Borja em 2016

Desde o final de 2015 percebe-se a inversão do fluxo da mobilidade da população fronteiriça, até então eram os brasileiros que iam constantemente até Santo Tomé realizar compras, em virtude das facilidades do câmbio. Nos últimos meses a partir da crise cambial e inflacionária na Argentina constata-se a maior passagem de argentinos que vem a São Borja pelos diversos motivos, como o comercial.

Figura 2: Gráfico sobre a Profissão dos argentinos entrevistados

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Figura 3: Gráfico sobre os fatores de integração entre as comunidades fronteiriças

Fonte: Autores

Figura 4: Gráfico sobre a Receptividade dos brasileiros aos argentinos

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Dos argentinos entrevistados, 61% acha a receptividade excelente e 39% boa, percebe-se que nenhum dos entrevistados falou que foi mal recebido e muito menos mal atendido pelos brasileiros.

Através da aplicação de 13 questionários para argentinos que estavam no município de São Borja, foi possível coletar algumas informações sobre o público que estava visitando a cidade. Dos entrevistados, 92% são da cidade de Santo Tomé e a grande maioria estava fazendo compras no comércio. No gráfico abaixo vemos a profissão dos entrevistados e percebe-se uma diversidade de profissões entre os santomenhos que estavam em São Borja, fator este que vem possibilitando com que diversos fronteiriços estejam conhecendo o outro lado da fronteira pela primeira vez.

Figura 5: Placa do Mercosul já em efetividade em território argentino

Fonte: Ministério das Relações exteriores da Argentina

Outro fator que chama a atenção neste fluxo de santomenhos a São Borja, é o novo emplacamento dos veículos argentinos, que em 01 de abril de 2016 passaram a adotar o novo emplacamento padrão do Mercosul, conforme exemplifica a figura 5. Até então apenas o território uruguaio utilizava a mesma. No caso brasileiro o prazo para o uso ainda não foi definido, em virtude de atestar que há uma integração entre os sistemas de consultas de placas no Mercosul.

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Considerações finais

Esses elementos culturais representam o espaço vivido, instigam a memória, interferem no comportamento social (relações de pertencimento), ou seja, são fatores importantes para o processo da construção identitária regional. Portanto, a fronteira São Borja-Santo Tomé destaca-se por estar ao mesmo tempo na área de abrangência do bioma pampa, nas Missões e no entorno da Bacia do Rio Uruguai. Após observações sistematizadas, entrevistas, análise de fotografias antigas, interpretação do diário de campo, percebe-se que as práticas sociais da fronteira São Borja-Santo Tomé mantêm diversas formas de vivências tradicionais, que estão se perdendo, em virtude das transformações citadinas fronteiriças. No que se refere às relações sociais fronteiriças, observou-se que as comunidades apresentam sociabilidades de compadrios, vizinhança e de parentesco. Estas que são a base das comunidades que se formaram na região. Na fronteira observam-se diversas famílias que possuem o mesmo sobrenome.

Desde a construção da ponte da integração São Borja-Santo Tomé percebe-se diversas transformações nas questões econômicas, sociais e culturais regionais, visto que a com a Aduana integrada de fronteira houve uma maior rigidez por parte dos governos centrais, no que as fiscalizações aduaneiras, o que conforme muitos pesquisadores vêm contribuindo para a perda do comércio formiga nesta região, por outro lado a ponte vem contribuindo para articulação territorial São Paulo-São Borja-Buenos Aires. Nos últimos três anos vem ocorrendo articulações e decretos entre as municipalidades sobre o interesse público na constituição do Núcleo de fronteira, este que será pensado pelas instituições de ensino superior da região. Nos últimos meses percebe-se a passagem em grande número de argentinos para São Borja, estes que vem na sua grande maioria comprar no comércio, em virtude das altas taxas de inflação na Argentina, fator que vem dialogando com o decreto 8636/ 2016 aprovado pelo governo brasileiro, que discorre sobre as cidades vinculadas de fronteira entre Brasil e Argentina.

Referências

GRIMSON, Alejandro. Pasiones nacionales: política y cultura en Brasil y Argentina. Buenos Aires: Edhasa, 2007. 640 p.

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