O GRUPO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS: UMA HISTÓRIA ENTRE OUTRAS HISTÓRIAS

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Elisa Yoshie Ichikawa

Quando o Professor Luiz Alex Saraiva me convidou para escrever um depoimento para a revista Farol, falando da experiência do nosso grupo de pesquisa, confesso que fiquei bastante apreensiva com o convite. Naquele momento, ele me dizia da intenção do Núcleo de Estudos Organizacionais e Sociedade da Universidade Federal de Minas Gerais fundar uma revista de orientação não funcionalista, fora do mainstream, e me pedia uma contribuição, no sentido de dar um depoimento a respeito disso e de nosso trabalho.

Minha apreensão se justificava (e se justifica até agora) pelo fato de sermos um grupo muito pequeno, e que de uma certa forma, não tem esse perfil tão claro. Ou seja, por sermos poucos, e por fazermos parte de um Programa de Pós-Graduação

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ainda pequeno, juntamos nossas forças para conseguirmos adentrar, cada um no seu campo de estudos, dentro de um grupo que chamamos de "estudos organizacionais". Assim, temos uma "cara" multifacetada, e por isso mesmo, não posso afirmar que nossa orientação seja "não funcionalista" ou mesmo fora do

mainstream, pois afirmar isso seria de certa forma excluir pesquisadores que

deram e continuam dando importantes contribuições para o grupo e minha intenção não pode jamais ser essa, e nem minimizar a contribuição fundamental que esses pesquisadores deram e continuam dando para a geração do conhecimento no nosso contexto.

Explicada a minha apreensão inicial, e diante daquilo que havia sido proposto, fiquei um tempo pensando em como atender a demanda do Professor Luiz Alex e mostrar ao leitor um pouco do nosso lado aberto a novas temáticas, novos olhares e novos métodos para alavancar o conhecimento científico na área da estudos organizacionais.

Permita-me o leitor, entretanto, que eu seja meio narcisista neste momento, pois contar como o Grupo de Estudos Organizacionais contribui com essas novas temáticas é narrar um pouco da minha própria história acadêmica, e não posso me furtar ao fato de que sendo a líder atual do grupo, de certa forma os olhares recaem sobre o que tenho, particularmente, estudado. Assim, tenho que iniciar

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esse depoimento mostrando um pouco desse contexto e de como fui adentrando em certos temas, como fui me interessando por certos autores e de alguma forma, ajudando a definir os caminhos percorridos pelo Grupo de Estudos Organizacionais da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Para contar essa história, tenho que contar outra história, de outro grupo, e de como tudo começou.

O INÍCIO: A HISTÓRIA DO GEITA

Meu doutorado em Engenharia de Produção na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi um grande divisor de águas em minha vida, e sou muito grata por ter tido a oportunidade de ter estudado naquela instituição. Embora tenha tido a formação em Administração de Empresas, e tenha feito uma graduação e um mestrado nos moldes bastante funcionalistas, creio que meu espírito sempre buscou algo diferente do que estava até então acostumada.

Assim, o primeiro semestre de doutorado na UFSC me incomodou bastante, principalmente porque não conseguia me amoldar com aquele rol de disciplinas a que estava submetida. Não quero dizer com isso que o que eles me ofereciam não tinha qualidade. Pelo contrário. Eram professores muito sérios, referência dentro do que produziam em termos de conhecimento. O problema era eu, que

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não me sentia confortável com os textos que lia e as discussões de que participava. Uma questão de identidade e de identificação, como descobri depois.

A sorte é que tive um orientador, Professor Cristiano José Castro de Almeida Cunha, pessoa incrível e de cabeça muito aberta e que me permitiu seguir meu caminho pelo campus afora. Assim, fui fazendo disciplinas fora do Programa da Engenharia da Produção e algumas delas oferecidas pelos próprios professores do Programa que também sentiam a necessidade que seus alunos tivessem uma formação menos ortodoxa. Essa época foi a que me deu as bases para minha caminhada, ou seja, foi por meio dessas disciplinas que pude vislumbrar a "luz que guia", o farol que ilumina meu caminho na pesquisa até agora. Então, essas disciplinas, só para citar algumas, foram as seguintes:

A primeira, História Social das Ciências, que além de ter permitido uma visão histórica da ciência dita "normal", também me deu as bases para a compreensão de uma ciência multifacetada, às vezes rebelde. Dessa época, guardo em minha memória o encanto pela visão anárquica e a rejeição pelos métodos científicos universais de Feyerabend (1977) e também da importância do impreciso como conhecimento, de Moles (1995).

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A segunda foi uma disciplina também cursada na Pós-Graduação em História, chamada Metodologia da Pesquisa Histórica: História Oral. Desta, guardo não apenas lembranças e encantamento, mas posso afirmar que foi um verdadeiro farol em minha vida. A partir dela pude melhor dimensionar e trabalhar minha tese de doutorado, foi alvo de reflexões teóricas, de publicação (ICHIKAWA; SANTOS, 2006), me permitiu trabalhar na prática (em minhas próprias pesquisas e na orientação de alunos), enfim, a história oral enquanto método foi e ainda é um guia em minha jornada acadêmica. Foi um período de mergulho nas leituras de Montenegro (1994), Bom Meihy (1991; 1996; 2002), Bosi (1994), entre tantos autores que falavam de memória e história.

Métodos qualitativos de pesquisa foi uma disciplina cursada no próprio Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção. O fato de ter sido ministrada por uma professora do departamento de enfermagem deu a ela um caráter maior de entendimento do outro. Não sei se me explico bem, o que quero dizer é que como o enfermeiro discute mais essa questão do cuidado com o outro, senti nessa disciplina uma convicção maior da necessidade da empatia e do colocar-se no lugar do outro para ser um pesquisador qualitativo melhor. Nessa disciplina a literatura recomendada era bastante diversa, e tivemos contato tanto com a fenomenologia de Heidegger (1995) quanto, lembro agora, as primeiras leituras sobre o cotidiano de Heller (2000) foram feitas aí.

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Por fim, não posso deixar de citar a disciplina oferecida pelo meu orientador, chamada Pesquisa e Estudo das Organizações. Era uma disciplina em que se discutia basicamente métodos qualitativos de pesquisa, oferecida principalmente para seus orientandos, uma vez que seu interesse naquele momento era pela pesquisa qualitativa. Foi aí também que tive as primeiras leituras sobre Grounded

Theory (GT) (GLASER; STRAUSS, 1967; GLASER, 1992; 1994; STRAUSS; CORBIN, 1997), que

me possibilitou um mergulho muito grande em seus pressupostos, a publicação de um artigo e a decisão de que era um método por demais complexo para ser levado a cabo por mim naquele momento. Ficou a promessa de um dia retornar a uma pesquisa utilizando a GT, mas até agora, infelizmente, isso não se concretizou.

Bem, mas por que estou eu aqui a citar disciplina por disciplina daquelas que considero mais importantes do meu doutorado e a chatear o leitor com isso? Exatamente para mostrar que minha luz acadêmica começa justamente aí. Nessa época, minha descoberta maior era metodológica, a metodologia qualitativa. Abracei-a desde então, nela mergulhei e posso afirmar que desde então só tenho aprendido com ela. Foi o que me guiou em minha tese e desde então tenho tentado me refinar e aprender cada vez mais coisas a partir desse olhar qualitativo. Confesso que não é tarefa fácil. Afinal, fomos formatados dentro de um molde funcionalista, não sei se algum dia será diferente, pois enxergar o mundo a partir de um outro olhar é tarefa, às vezes, por demais complexa. Como

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diria Bourdieu (2009), é um habitus, um dispositivo por demais entranhado na sociedade, que se instala tacitamente formando nosso modo de ver o mundo. Assim, não sei se hoje consigo fugir dessa formatação primeira, confesso que é um aprendizado que já dura muitos anos, e nem sei se sou "qualitativa" o suficiente para fazer jus ao que aprendi, mas vou tentando...

Dessa época, tive uma grande colega e amiga, Lucy Woellner dos Santos, com quem compartilhei disciplinas, dúvidas, enfim, as angústias da fase de doutorado. Ela foi uma grande parceira em alguns textos escritos a quatro mãos e terminada a fase do curso, como nós duas tínhamos pesquisado temas semelhantes na tese (a pesquisa agrícola), resolvemos trabalhar juntas também num grupo de pesquisa cujo domicílio era no Instituto Agronômico do Paraná - IAPAR, em Londrina, onde ela trabalhava. Esse grupo era o GEITA - Grupo de Estudos em Inovação Tecnológica na Agricultura. Mas qual a ligação de um grupo da área de pesquisa agrícola com tudo aquilo que descrevi anteriormente, de minhas descobertas qualitativas e do meu encantamento com algumas leituras da fase de doutorado? O leitor entenderá melhor quando eu apresentar melhor o grupo. Assim está a descrição do GEITA na página da plataforma Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq (2014, s/p):

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Criado em 1995, inicialmente o GEITA teve como proposta constituir-se em um fórum interinstitucional e interdisciplinar de discussões, pesquisas e estudos sobre processos de gestão em ciência e tecnologia no setor agrícola. A partir de 2000 teve sua atuação consolidada com projetos de pesquisa e publicações em torno da problemática da relação Ciência - Sociedade. Sob a égide dessa diretriz, incorporou discussões sobre a participação da sociedade no processo de inovação tecnológica e abordagens sociológicas no estudo das organizações envolvidas na geração, gestão e disseminação do conhecimento. Além disso, acolheu como linhas de pesquisa a história da ciência e as questões ligadas ao desenvolvimento regional e a sistemas locais de inovação.

Assim, nessa época, como tanto eu quanto Lucy trabalhávamos o tema da inovação tecnológica na agricultura, resolvemos incorporar algumas discussões que achávamos importantes e que trazíamos do nosso doutorado: a visão social da ciência - ou seja, ela não está isolada no mundo, deve explicações de suas atividades à sociedade, vista de uma forma mais ampla, e não apenas por parte daqueles que podem financia-la. Naquele momento, como não poderia deixar de ser, nossas pesquisas tinham sempre um cunho qualitativo, de tentar entender o funcionamento da construção do conhecimento científico (na área agrícola, bem dizendo) tanto de um ponto de vista interno, dos próprios pesquisadores, quanto daqueles que eram seus usuários ou beneficiários, como o produtor rural. Alguns temas foram sendo incorporados aos nossos estudos, como por exemplo, a questão

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do gênero na atividade científica. Nessa época, organizamos e publicamos dois livros (SANTOS et al., 2006; SANTOS et al., 2002).

Todas essas reflexões e estudos nos fizeram mais críticas e mais atentas àquilo que nem sempre estava explícito nos textos que nos caíam em mãos. Nessa época, não tinha muita clareza ainda do caminho que estava percorrendo, e só hoje, ao olhar para trás, posso ver que essa trajetória, apesar de tortuosa, foi também bastante coerente. Naquele momento, minhas reflexões já eram a base do que hoje são minhas preocupações nos estudos organizacionais: o olhar para o outro, principalmente aquele que não tem voz, seja a mulher, o pequeno produtor, as minorias; a necessidade de se olhar para fora da organização e ver que tanto ela como a própria ciência estão entremeadas em algo maior chamado sociedade. E que essa sociedade não é construída apenas por aqueles que têm capital econômico, mas principalmente por aqueles que estão no lado mais fragilizado desse campo de poder.

É por esses motivos que tive que começar essa história falando um pouco da minha época de doutorado, das disciplinas cursadas, das reflexões feitas naquele momento e também de um grupo de pesquisa que foi muito importante nessa trajetória. Foi por aí que as luzes que me guiam academicamente começaram a surgir, e por isso destaco como uma das fases mais importantes desta caminhada.

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A HISTÓRIA DO GRUPO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS

Assim como não fui a "fundadora" do GEITA, também não o fui no Grupo de Estudos Organizacionais. Na verdade, quem sempre liderou o grupo na UEM foi a Professora Maria Iolanda Sachuk, e nele participei com mais ênfase depois que nosso Programa de Pós-Graduação criou a linha de Organizações, Estratégia e Trabalho. Assim, os professores que trabalhavam com esses temas em suas disciplinas e suas investigações se aglutinaram em torno desse grupo de pesquisa e de certa forma isso acontece até o presente momento.

O Grupo foi criado em 2000 e nessa época a Professora Maria Iolanda coordenava trabalhos de pesquisa ligados a temas como gestão por competências e relações de trabalho. Com a reestruturação do nosso Programa de Pós-Graduação, novos temas surgiram, como podemos visualizar na página de grupo no CNPq (2014, s/p): "Desde então, sua atuação avançou, incorporando abordagens filosóficas, sociológicas e psicológicas no estudo das organizações e do trabalho, sem deixar de lado temas tradicionais da área, como estrutura e estratégia organizacional".

Como havia dito na Introdução deste texto, nosso grupo é multifacetado, interinstitucional (temos pesquisadores de outras instituições, não só UEM) e necessariamente não faz trabalhos apenas fora do mainstream, dada a

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pluralidade e as características dos pesquisadores que dele fazem parte. Isso fez com que avançássemos, no sentido de obtermos maturidade para compreendermos e respeitarmos os diversos paradigmas, teorias e metodologias que fazem parte das diversas pesquisas e também para termos um sentido de grupo, apesar de trabalharmos temas às vezes tão díspares.

Assim, os professores da Universidade Estadual de Maringá que fazem parte dele são: Maria Iolanda Sachuk, José Paulo de Souza, Sandra Mara Schiavi Bánkuti e Osmar Gasparetto. Também faz parte o professor Luciano Mendes, que embora seja docente na Universidade de São Paulo (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), é professor colaborador em nosso Programa de Pós-Graduação.

Com a aposentadoria da Professora Maria Iolanda, em 2011, assumi a liderança no grupo. Lógico que na época em que atuava com mais intensidade no GEITA, questões lá trabalhadas também eram temas de reflexões no Grupo de Estudos Organizacionais, uma vez que havia uma ligação transversal entre eles, quais sejam as abordagens metodológicas utilizadas e também as fontes teóricas, advindas de áreas como a sociologia.

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Em 2013, quando retornei do meu pós-doutorado no Centro de Pós-Graduação e Pesquisas em Administração (CEPEAD) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), novo fôlego foi acrescentado ao grupo. Temas como cotidiano, discursos, gestão ordinária, entre outros estavam em minha cabeça, e mesmo enquanto em Belo Horizonte, já comecei a nortear minhas pesquisas e orientações voltadas para esse foco. Nesse período de pós-doutoramento, às várias disciplinas de metodologia qualitativa que havia feito no meu doutorado, acrescentei as de "Seminários em Estudos Organizacionais e Sociedade: Discurso e Sociedade" e também "Análise Linguística de Discursos sobre e de Trabalhadores".

Assim, falando especificamente sobre o que foi demandado para esse texto e tendo como base o perfil da revista Farol, peço licença aos meus colegas do Grupo para destacar, a partir deste momento, apenas os aspectos do grupo que têm a ver com temas que, de alguma forma, fogem do mainstream em estudos organizacionais. Desta forma, se posso falar da luz que guia esses nossos estudos hoje, numa perspectiva não-hegemônica, ela está pautada com base no seguinte norteador:

Dimensões simbólicas nas organizações: buscamos compreender questões simbólicas que abarcam aspectos reais e imaginários envolvendo as organizações. Para explicar esse tópico, pauto-me em Faria (2007), que diz que a

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problemática simbólica é algo que tem significação e representações conscientemente direcionadas. Portanto, a unidade mínima do simbólico é o significante, que tem como característica básica o fato de não emergir de forma isolada, já que está sempre ligado a outros significantes.

Um dos autores que nos fazem entender isso é Bourdieu (2008), pois para ele os significantes são mediados por elementos identificáveis em classes e classificações, que podem ser desvelados exatamente por meio da exploração das classes a que estão submersos e as maneiras pelas quais podem ser classificados. Assim, interpretar como as lutas classificatórias se dão, e são capazes de "enquadrar" as coisas e os indivíduos, nos ajuda a encontrar os conteúdos simbólicos que estão nas instituições, nas organizações, enfim, na sociedade, tornando-se um emaranhado de símbolos inerente às ações dos agentes. Essa base nos faz compreender melhor por que os agentes agem como agem e também os aspectos que estão por trás dessas ações. Compreender como os símbolos - que de certa forma guiam os indivíduos - foram construídos para o inculcamento de certas verdades, e de que forma eles podem ser transpostos nesses campos de poder é um dos interesses de investigação do nosso Grupo.

O cotidiano também tem sido interesse para temas de pesquisa. Muito embora existam diferentes vertentes para o estudo desse tema, como a marxista de

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Heller (2000) e Lefebvre (1991), a ênfase neste momento tem sido o referencial de Certeau (2012). O interesse pelo cotidiano se deu justamente pelo "objeto" trabalhado por Certeau, aquele homem comum, não exatamente o vencedor de que fala a história tradicional, mas talvez o vencido da história oral, que na falta de um "lugar", só lhe resta o "tempo". Ao homem ordinário sobra um "domínio" adaptado, pois ele carece do "próprio", da propriedade, do espaço, mas, pela astúcia e pelas artimanhas, pelas práticas e por suas ações cotidianas subversivas no espaço do outro, ele consegue atuar.

Certeau (2012) não discute explicitamente uma possível dualidade entre agência e estrutura, na verdade não é essa a sua preocupação maior. Contudo, ele acredita em práticas de fuga que, se não perduram por um longo período (pelo contrário, são movimentos sutis), conduzem ao que ele chama de "microliberdades". Assim, essas práticas, chamadas por ele de táticas, não possuem lugar próprio de atuação, elas atuam na ausência de poder, suspendendo temporariamente a ordem dominante. São ações que fazem parte da invenção do cotidiano, que pode ser construído e reconstruído infinitamente pelos indivíduos que o compõe, muito embora Certeau (2012) admita, eles não escapem do poder que os abraça.

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Esses são basicamente os temas que têm sido trabalhados com mais ênfase pelo Grupo na atualidade. Posso, necessariamente, num exercício de síntese, transforma-los num só tema, qual seja, "Aspectos simbólicos do cotidiano", tendo como referência as organizações inseridas num contexto maior, o mundo social. Nesse tema, posso trabalhar diversos desdobramentos e incluir autores que têm muito a ajudar na análise dos seus aspectos centrais e que o tangenciam. Ou seja, além de Bourdieu, Certeau, Lefebvre e Heller, por que não incluir Foucault, Schatzki, entre tantos outros, que poderiam contribuir com o seu olhar para diversas perguntas ainda não respondidas? Esses autores, muito embora não conversem diretamente uns com os outros em alguns momentos, e embora tenham pontos de divergência, podem complementar olhares e enriquecer análises. É no que acredito.

Metodologicamente, não preciso reafirmar que a opção é pela pesquisa qualitativa. Por tudo o que ela representa, pelas nuances que consegue captar, pela sutileza com que olha o mundo, sei, porém, que não é qualquer pessoa que tem sucesso na incorporação das práticas qualitativas de investigação. Tenho visto muita pesquisa qualitativa "dura", artificial, com preocupações, como diria Mattos (2009), baseadas em critérios lógico-racionais que não combinam com o conceito de ciência hoje, muito mais voltado para uma conotação sociológica do que epistemológica.

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Admito, porém, que isso é um aprendizado, percorrido por mim, meus colegas e meus alunos até os dias de hoje e pouco a pouco vamos nos instruindo a ver o mundo com outra ótica, que não a funcionalista a que fomos adestrados desde o início. Exercício difícil e doloroso, porque de certa forma, temos que nos descontruir ao longo do caminho, deixar certas "verdades" para trás, muito embora de vez em quando uma atitude impensada, uma palavra mal colocada nos faz ver que talvez não tenhamos mudado tanto assim.

Divagações à parte, reitero novamente a opção pela pesquisa qualitativa nas investigações em curso. Entrevistas semiestruturadas sempre fizeram parte dos instrumentos de coleta de dados, e a elas se somam entrevistas de história oral (de vida e temáticas), observações participantes, etnografias... O método da

Grounded Theory, como disse anteriormente, por ora está esquecido, mas pode

voltar à tona assim que surgir um tema conveniente - e tempo! - para uma empreitada que julgo tão ambiciosa.

Tenho trabalhado muito com a Análise de Discurso (AD) da linha francesa na interpretação dos dados. Meus orientandos têm feito (assim como eu fiz) a disciplina nos diversos cursos stricto sensu na área de Linguística, e isso tem sido bastante proveitoso. Embora ainda não tenha chegado ao ponto de trabalhar o

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discurso enquanto construção teórica, tenho trabalhado enquanto construção metodológica.

Assim, as análises realizadas têm por base o que nos diz Brandão (2012), que afirma que a AD francesa trabalha não só com o contexto imediato da situação de comunicação. Ela ultrapassa o nível puramente gramatical e busca elementos históricos, sociais e ideológicos que estão refletidos e refratados na produção de um discurso. Para a AD da linha francesa, a linguagem é vista como uma arena de lutas. Assim, a noção de interdiscursividade é muito importante nesse contexto, uma vez que toda formação discursiva é "sempre atravessada pelo 'já ouvido' e o 'já dito' " (PÊCHEUX, 1990, p. 85), ou seja, por outros discursos que a precederam. Desta forma, segundo Orlandi (1999), um discurso é sempre um efeito de sentidos entre locutores, seu sentido está na relação entre os sujeitos e não nas palavras.

Enfim, em termos teóricos e metodológicos, são esses os norteadores que têm guiado as pesquisas realizadas por mim no Grupo de Estudos Organizacionais. Confesso que são muitos anos de um aprendizado tortuoso e às vezes pouco compreendido por alguns, com acertos e um grande número de erros, mas sem dúvida é uma trajetória que tem valido a pena, pelo aprendizado que proporcionou a mim e a todos os envolvidos nesse processo.

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REFERÊNCIAS

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Resumo

Neste depoimento, procuro contextualizar a atuação do Grupo de Estudos Organizacionais (GEO) da Universidade Estadual de Maringá (UEM) no cenário das pesquisas afetas à área. Para tanto, resgato historicamente as origens do grupo, quais foram os temas em que atuou e quais são as suas áreas de investigação atualmente, bem como suas orientações teóricas. Por ser um grupo pertencente a um programa de pós-graduação ainda pequeno, ele tem um perfil multifacetado, e por isso mesmo, não se caracteriza por ter uma orientação "não funcionalista", embora se norteie por ter preocupações que por vezes possam ser caracterizadas como sendo fora do mainstream da Administração.

Palavras-chave

Grupo de Estudos Organizacionais; Universidade Estadual de Maringá; Estudos Organizacionais.

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Abstract

In this testimony, I try to contextualize the work of the Group of Organizational Studies (GEO) at the State University of Maringá (UEM) in the context of the area's research. To achieve this objective, the historical review of the origins of the group is done, the themes worked in the past are emphasized and their research areas today as well as their theoretical orientations are described. It is a group belonging to a small program of postgraduate, and so has a multifaceted profile, and therefore, is not characterized by having a "non-functionalist" direction, but is guided by concerns that have sometimes may be characterized as being outside the mainstream of Administration.

Keywords

Group for Organizational Studies, State University of Maringá, organizational studies

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Resumen

En esta declaración, busco contextualizar la actuación del Grupo de Estudios Organizacionales (GEO) de la Universidad Estadual de Maringá (UEM) en el escenario de las investigaciones ligadas al área. Para tanto, rescato históricamente los orígenes del grupo, cuáles fueron los temas en que actuó y cuáles son sus áreas de investigación actualmente, así como sus orientaciones teóricas. Por ser un grupo perteneciente a un programa de posgrado aún pequeño, este tiene un perfil polifacético, y por eso mismo, no se caracteriza por tener una orientación “no funcionalista”, aunque se guie por tener preocupaciones que a veces puedan ser caracterizadas como siendo fuera del

mainstream de la Administración.

Palabras clave

Grupo de Estudios Organizacionales; Universidad Estadual de Maringá; Estudios organizacionales.

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Elisa Yoshie Ichikawa

Doutora em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora Associada pela Universidade Estadual de Maringá. E-mail:

eyichikawa@uem.br.

Endereço para correspondência

Elisa Yoshie Ichikawa. Universidade Estadual de Maringá, Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Departamento de Administração. Avenida Colombo, 5790, Zona Sete, Maringá, PR, Brasil. CEP: 87020900. Telefone: (+55 44) 30114906.

Como citar esta contribuição

ICHIKAWA, E. Y. O grupo de estudos organizacionais: uma história entre outras histórias. Farol – Revista de Estudos Organizacionais e Sociedade, Belo Horizonte, v. 1, n. 1, p. 214-238, jun. 2014.

Contribuição Submetida em 18 ago. 2014. Aprovada em 18 ago. 2014. Publicada online em 4 set. 2014. Sistema de avaliação: Convite. Avaliação sob responsabilidade do Núcleo de Estudos Organizacionais e Sociedade da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Editor: Luiz Alex Silva Saraiva.

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