Instituto de Economia - IE
Programa de Pós-Graduação em Economia Social e do Trabalho
"A Inserção de Imigrantes Brasileiros no
Mercado de Trabalho dos EUA"
,;f Dissertaçtio apresentada ao Instituto de Economia
da UrJÉversidade Estadual de Campinas, sob
orientaçao do Prot: Dr. Cfaudío Safvadori Dedecca. pam obtençéo do titulo de Mestre.
Valéria Cristina Scudeler
Campinas (SP)- Brasil
'
Scude!er, Valéria Cristina
Scl124í
A inserção de imigrantes brasileiros no mercado de trabalho
dos EUA/ Valéria Cristina Scudeler. -Campinas, SP: [s.n.J,
1999.Orientador: Claudio Sa!vadori Dedecca
Dissertação (Mestrado) -Universidade Estadual de Campi~
nas. Instituto de Economia.
1. Trabalho migratório- Estados Unidos. 2. Traba1t1adores
estrangeiros- Estados Unidos. 3. BrasH- Migração. 4. Merca-do de trabalho- EstaMerca-dos UniMerca-dos. L Dedecca, Claudio SalvaMerca-dori. lL Universídade Estadual de Campinas. Instituto de Economia.
Prof Dr. Claudio Salvador·; Dedecca
Profa. Ora 1 eresa Sales
ProL DL Carlos América Pacheco
Suplente:
À
Fundação de Amparoà
Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP, instituiçãofinanciadora desta dissertação e maior responsável pelo fomento
à
pesquisa científica noestado de São Pau!o. Sem o incentivo desta fundação, sua notável efic.iênda admlnistrat1v'fl
e o excelente corpo de consultores que acompanham o desenvolvimento dos projetos sob sua tutela, certamente a produção científica das universidades estadu.als sofrería perdas irreparáveis, tendo-se em vista a restrição de recursos desta ordem em outras lnstítuições
de Bmbito federal e o importante papel que a pesquisa cientiflca representa para o desenvolvimento do pais.
Ao Dedecca, pela orientação segura deste trabalho e pelo jeito tranqullo e amistoso, que me deixou tão
à
vontade para debater idéiase
discuflr conclusões. Considero uma grande qualidade a sua capacídade de análise e dgor conceitual, que foram de fundamental importância para dellmitar as contamos desta dissertação e direcionar meus esforços com precisão e objetividade.A Teresa
Sales,
professora do !FCHe
banca deste trabalho, que me despertou o interessepelas migrações internadonais e possib!Htou, a partir de uma pesquisa sob sua coordenação no NEPO, a realização da parte empírica da dissertação, Agradeç..o. também, por todo o apoio e carinho que esteve presente em nossa relação desde o início, no período em que fui bolsista do NEPO, entre 1995-97. O tngresso no mestrado só fez aumentar o contato e travar uma relação de colaboração e debate, não apenas através de suas preclosas sugestões enquanto co-orientadora desta dissertação pela F APESP, mas como alguém que incentiva
a
divulgação do meu trabalhoe
acredita em seu valor_Ao professor Carlos Américo Pacheco, cujas observações na banca de qualificação cantribuiram para um desenho mais harmonioso deste trabalho.
A todos os professores que se empenharam em ceder espaço ao estudo de temas fundamentais
a
nossa sociedade, incorporados nos novos programas de mestrado e doutorado do !nstltuto de Economia. Sinto orgu\tlo de fazer parte da primeira turma a receber o titulo de Mestre em Economia com espedalíz.ação na área de Economia Social e do Trabalho e espero retribuir, com minha produção acadêmica, a oportunidade que estou tendo de permanecer nesta instituição.Quanto aos professores do mestrado, só tenho a reconhecyr sua dedicação em nos despertar para o conhecimento e para a capacídade de análise critica, tão importantes para
Paulo Saltar e Geraldo Glovanni, por sempre se mostrarem dispostos a discutir as
dificuldades de execução deste trabalho e porque enriquecem, cada um a seu modo, o meu aprendizado sobre esse gigante que
é
o universo das relações econômicas e sociais.À
Adriana, Débora e Wilson, amigos queridos e que acompanharam de perto as minhas lnsegu;-anças, dando vahosas contribuições para o avanço desta dissertação e para meu amadurecimento pessoaLNovamente agradeço ao Wílson e também
à
Elíane, por me ajudarem na execução de pontos especfficos deste trabalho, como a classfficação das ocupações da pesquisa, a utmzação da base de dados SPSS e a execução de gráficos.A todos meus colegas do mestrddo e pesquisadores do CEMI-!FCH, com quem compartilhei não apenas aulas e momentos de discussão, mas também agradáveis ocasiões de lazer. A oportunidade de acompanhar suas trajetórias me deixa muíto satisfeita e os toma especiais para mim.
Às "meninas", com quem divido minha casa, minha rotina e minha vida: Juliana, Roberta, Vlviane, Sl!vana, Vanessa, Cecília, Renata e luciana. Obrigada pelo companheirismo e pela
paciêncla com que aturam o meu mau humor matinaL
Ao meu namorado, Fábio, que apesar de estar longe me apoiou muito na etapa final deste trabalho, acalmando a minha ansiedade com carinho e bom humor.
Enfim, agradeço a todos os funclonilrios do CESIT, da biblioteca, do SPD, da secretaria e aos colegas do xerox, peças fundamentais do.s "bastidores" de qualquer trabalho desenvolvido no Instituto.
genialidade de Gonçalves
DiSJs.
Mi!TBdúlhO, mas grandíoso, não era um sabiâ, mas um canarfnho despertando canções do exílio. A ave que aqui gorjeia, 'gorjeía portadasas
de lá'.E toda vez que cantava, ofhinhos fechados, numa emoção suprema digna de um consagrado tenor, dobrava o canto, triplfc:ava, enchia o ar. D.,-q safa onde eu batucava noticias num tecfado de computador; tudo em mim era Mines Gerais. Foí de Já que eu vim. É meu ponto de referência. E para
!á que eu ia, emoção canora, emoção canária., nas asas da saudade, nas notas que Jacinto trinava.
Foi através de Jacinto que inicieí a escrever um tratado sobre os
brasiJeiros vindos do interior e suas vidas no exterior. 'Dentro de c:Bda bras/feiro interiorano canta um passarinho que ele carrega no peito desde
a
fnféncia', começava o texto, sugerindo que estes jecas cosmopofítanosque nos dias de hoje habítam a:s metrópoles do mundo inteiro trazem dentro da carcaça, sob o fonnato amorangado de um coração, um curió ou
uma
patativa_"Roberto Uma
Apresentação'---~---13
Brasileiros no exterior
A
migração
1ntemacional de brasHeiros: uma contextuaHzação _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 15 1 .2 Origens e dlnãmica da cidade de Governador Valadare~---~ 24 1.3 Porque os EUA? _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 261.4 As redes sociais _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ ----~31
---·----"C""apit_uiç...Ji
O fluxo migratório Governador Valadares
~EUA
2.1 O emigrante va!adarense _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ ~· 41
2.2 A primeira emigração para os EUA___ 50
---·-~u!Q.J
O imigrante valadarense no mercado de trabalho dos EUA
3. í Mercado de trabalho e imigrante. _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
32 A inserção do im1gran!e valadarense no mercado de traba!ho _ _ _ _ _ _ ~_75
Experiência migratória e mudança ocupacional
Legalização e mudança ocupacional
5_í lndicadores de legalizaç-..ão ___ ~--~--- -·---·~99
5.2 Legalização e mudança ocupacional_, _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ í 06
Conclusão _____ , _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ ~--~---~111
li I li
Procedimento para escolha da arnostra
-Funclonarnerüo da base de dados _ _ _ _ _ _ _ _ _
C!2ss\ficação e agregação das ocupações: procedimentos e resultados_
---121
Bibliografia _ _ ,~~-·---~~ 135
Governador Valadares, 1 9 9 7 - - - · - - - -105 Tabela 30: Nivels Hlerãrqulcos das Primeiras Ocupações nos EUA
Migrnntes Va!adarenses "RetomadosM e ~Ausentes no Exterior· Legalizados
Governador Valadares, 1997 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 107 Tabela 31: Variação do Status Ocupacional nos EUA Segundo a Experiência Migratória (em anos)
Migrantes Va!adarenses "Retomados" e "Ausentes no Exterior" Legalizado-s
Governador Valadares, 1997 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 108 Tabela 32: Nfvels Hierárquicos das Últimas Ocupações nos EUA Segundo a
Experiência Migratória (em anos)
Mlgrantes Valadarenses "Retomados" e ~Ausentes no Exterior" Legalizados
Governador Valadares, 1997_________ - - - 1 0 9
Gráfico í: Distribuição das Migrações por Sexo Primeira Migração Internacional
indfce de Gráficos
Governador Valadares, 1997 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 43 Gráfico 2; Anos das Migrações
Primeira Migração !ntemadonal com Destino aos EUA
GovemadorVa!adares, 1997 78
Tabela íô; Níveis Hferérquicos das Úftimas Ocupações em Governador Valadares
e
das Prime!ras Ocupações nos EUAPrimeira Migra~~ão lntemaclonal com Destlno aos EUA
Governador Va!adares, 199:7 79
Tabe-la í 7: Particípação de Cada Nlve! H1erárqulco das Primeiras Ocupações nos Estágios de Escolaridade
Primelra Migração Internacional com Destino aos EUA Governador Valadares, 1997
Tabela 18: Experiência Migratória nos EUA (em anos}
Migrantes Va!adarenses ~Retomados~ e gAusentes no Exterior"
82
Governador Valadares, i997 88
Tabela iG: Níveis Hier8rqu1cos das Primeiras Ocupações nos EUA
Migrantes Va!adarenses ~Retomados~ e ~Ausentes no Exterior"
Governador Va!adares, 1997 89
Tübela 20: Variação do Status Ocupacional nos EUA Segundo a Experlêncla MJgrat61ia (em anos)
Mlgrantes Valadarenses "Retornados~
Governador Valadares, 1 90
Tabela 2'1: Varlação do Status Ocupacional nos EUA Segundo a Experiência Migratória (em -anos) Migrantes Valadarenses "Ausentes no Exterior"
Governador Valadares, 1997_, 90
Tabe!a 22: Niveis Híerárqulr,os das l)!timas Ocupações nos EUA Segundo a
Experiênda Migratória (ern anos) Migrantes Valadarenses ~Retomados"
Governador Valadares, i997 _ Dí
Tabela 2.3: Nive!s Hierárquicos das OcupBções Atuals nos EUA Segundo a
Experiêocia Migratória (em anos)
Mlgrantes Va!adarenses ~Ausentes no Exterior~
Governador Valadares, 1
Tabe\s 24: Concorrentes no Mercado de Trabalho dos EUA Governador Valadares, i
Tabe1B 25: Indicadores a Respeíto da Legalização nos EUA
Migrantes Valadarenses ~Retomados~ e ~Ausentes no Exterior"
Governador Vatadares, 1997
Tabela 26: Motivos Por Que Não Tentaram a Legalização nos EUA
Mígrantes Valadarenses "Retornados" e "Ausentes no Exterior' Governador Valadares, 1997
Tabela 27: Formas de Legallzação nos EUA
_______ 101
102
Governador Va!adares, i ,
---·--·---i
03Tabela 28: legalizados nos EUA Segundo os Pedodos. de MigraçJío
Migrantes Valadarenses "Retomados~ e ~Ausentes no Exterior~
Governador Valadares, '!997 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 105
Tabela 30: Nlveis Hierárquicos das Primeiras Ocupações nos EUA
Migrantes Va!adarenses ~Retomadosft e ~Ausentes no Exterior" LegaHzados
Governador Valadares, i997 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 107 Tabela 31: Variação do
Status
Ocupacíonal nos EUA Segundo a Experiência Migratória (em anos)Migran1es Va!adarenses ~Retomados" e ~Ausentes no Exterior" Legalizados
Governador Valadares, 1997 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 108 Tabe!a 32: Níveis Hierárquicos das Últimas Ocupações nos EUA Segundo a
Experiência Migratória (em anos)
Migrantes Va!adarenses "Retomados~ e ~Ausentes no Exterior" LegaHzados
GovemadorVa!adares, 1997 _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 109
Índice de Gráficos
Gráfico i: Distrlbuíção das Mígrações por Sexo Pr!melra Migração Internacional
Governador Valadares, 1997 _ _ _
Gráfico 2: Anos das Migrações
Prlmeira Mígração Internacional com Destino aos EUA
O objetivo gera! desta dissertação de mestrado
é
analisar a inserção do imigrante brasileiro no mercado de trabalho dos EUA sob o aspecto do status ocupacíona! e elaspossibilidades de mudança ocupacional positiva, levando-se em conta o tempo de permanência no país e a legalização, Esta análíse pretende testar a validade de duas
hipóteses básicas:
" os ímigmntes bras1ielros situam-se no mercado de trabalho secundário no pais de destino e atuam como mão-de~obía complementar ao trabalhador nattvo norte-arnertcano.
$
1nseren>se na base da estrutura ocupacional e desfrutam de uma escassa posslbl!idade
de ascensão dentro dessa estrutura, mesmo quando estão hé muitos anos nos EUA ou conseguem se legallzaL
Para analisar o tipo de lnserção do imigrante bras\ieiro no mercado de trabalho dos EUA, esta dissertação adota
o
estudo de caso sobre o fluxo migratório de Governador Valadares ~MG
rumo àquele país, Tal fato se justifica tanto pela antiguidade deste fluxo migratótio quanto por sua proeminência: cerca de 7% da população da cidade já víveu uma experiência migratória, o que representa 18% dos donücí!ios da sede rnunicipaL (CEM!;1997) Em tetrr'!os rêlat!vos,
é
a cidade bras!leira que mais
~exportou'' trabalhadores para os EUA e qual a mígraç.ão internacionalé
mais representativa.Os dados primários utilizados neste estudo de caso tem origem numa pesquisa de campo rea\iz.csda em Governador Valadares no periodo de 10 a 3~!107/97. O projeto que v\abl!izou sua reaüzaçtb, aprovado pelo CNPq (MCT/FiNEP/PRONEX) em fevereiro de 1997 e desenvolvido no NEPO- UNICAMP, íntitu!a-se "!m~grantes Brasíleiros nos EUA-Cidadania e Identidade" e teve a coordenação da professora Teresa Sales.
A preparação para o trabalho de campo consistiu em reuniões semanais, durante o primeíro semestre de 97, para o desenho do questionário e condições de implementação, A metodologia para e-scolha da amostra e a fonna de utmzação das \/afiáveis estão descritas no apêndice metodológico. Segue, em anexo nesta dissertação, uma cópia do questionário aplicado na segunda fase da pesquisa.'
É importante ressaltar que os questionários foram aplicados a todos os moradores das residências selecionadas e, em dois terços dos casos * que correspondem aos
emigrantes que estavam no exterior na ocasião da pesquisa - quem respondeu às questões
' fui r.:nnv1daG'a pela professora Teresa Sa\es para Pil1ticip<~r ínform1:l:inHmte de pltwejamento e da realização do tN.~balho d;;, -::.ampo, Estive Hn Go11emador Va\aóares duranta o periodo de 23 a 31 de julho de 97, acompanhai de perto a rea!i;::açáo éu
referentes a eies foram os familiares, com prioridade para os pals ou cônjuges. Tal fato dificultou a obtenção de algumas respostas e tomou~as, em alguns casos, imprecisas,
impossib!Htando a ut1Hzação de outras variáveis, também interessantes, como a renda dos imigrantes e as remessas em dólares efetuadas para o BrasiL Outras dificuldades quanto às
variâveis ut\Hzadas e os mecanismos corretivos adotados estão descritos no apêndice
metodológico.
Apesar dos problemas que decorrem de se utmzar informações obtídas de terceiros, não haveria outra forma razoávei de se realizar esta pesquisa. Além disso, o respeito aos
procedimentos metodológicos para escolha da amostra e os resultados obtidos - que coincidem em muitos aspectos com outras pesquisas realizadas com brasileiros nos EUA, citadas ao longo deste trabalho ~ dão a segurança de que os dados apresentados não apenas são confiáveis como atendem aos objetivos a que esta dissertação se propõe.
Feita essa ressalva, cabe agora introduzir brevemente o conteúdo tratado em cada
um dos cinco capítulos que compõem este trabalho. No primeiíO deles - ''Bras11eiros no
e.»ierior" ~ são apresentados alguns nUmeres da emigração brasíleira e delineadas as principais hipóteses que levam parte da população a deixar o país em busca de melhores oportunidades de vida no estrangeiro, processo que ganhou intensidade na década de 80.
Após uma contextualização da caso brasileiro, a análise se volta para o fiuxo migratório de Govemador Valadares
ao
exterior, apresentando as origens da cidade, os possíveis motivos para a escolha dos EUA enquanto destino para cerca de 85'"Yo de suas emigrações tntemacionals, o papel das redes sociais na viabilização das saídas e a írnportància que amigração assumiu na dlnãmlca sócio-econômica do município mineiro.
O segundo capitulo, intitulado "O fluxo migratório Governador Valadares ~ EUA", dá lnlclo
à
utilização dos dados empíricos fornecidos pela pesquisa de campo. São rea!íz.adas, neste capitulo, uma caracterização sócio~demográfica do emigrante valadarense - na tentativa de del!near um perfil deste emigrante ~ e uma descrição de sua primeira rnigraçáo para os EUA. Tal descrição inclui os anos em que se deram todas migrações da amostra, os arranjos necessários para sua concretização, os locais de destino nos EUA e os motivos que justificaram.a
decisão de migrar para aquele país. Neste capítulo, torna-se maís claro o importante papel das redes sociais em viabilizar as migrações, o que vem a completar a abordagem conceitual apresentada na última seção do primeíro capítulo.Nos capítulos 1 e 2, a ótica adotada se refere mais propriamente âs caracteristicas do país de origem, aínda que, no tocante às redes sociais, não seja poss!vel delimitar desta maneira sua abrangência. Os capituios 3, 4 e 5, ao contrário, encontram seu foco de análise
---~--~--
-pesquisa e tive a oportunidade de aplicar aiguns questionilríos. o que contribuiu para me dar uma dimensão mais realista de meu "objeto' de amilíse.
no país de destino, mais espec!flcamente no funcionamento do mercado de traba!ho norte"
americano e na forma de inserção dos imigrantes va!adarenses.
Deste modo, no terceiro capitu!o ~ "O imigrante va!adaren.se no mercado de trabalho
dos EUA" -
é
desenvolvída a anáUse da entrada d-os imigrantes no mercado de trabalho
norte-amerlcano, São apresentados vários indicadores, como o nUmero de ocupações queos va!adarenses tiveram em sua primeira estadia nos EUA, o conjunto das primeiras
ocupações e sua classificação segundo ostatus
ocupadona!, uma comparação entre ostatus
das ocupações de que os imigrantes dispunham no Brasll e as que tiveram acessoass\m que ingressaram em território norte-americano e a inJluéncia de seu níve!
ele
qua!ifi'r,.ação nesse processo.Para viabilizar
urna
interpretação de todas essas variáveis, consta, também neste capitulo, uma "imersão" nos principals trabalhos teóricos e empiricos sobre a c..onstituição e o funcionamento do mercado de trabalho norte~americano e a incorporação dos imigrantes recentes. E1es se dividem, basicamente, entre os que defendem a tese da segmentação dornercado de trabalho, cujos expoentes são Piore & Doeringer (1971), Piore (1979), Gordon et
am
(~:982; 1994) e Portes (1981), e aqueles que centram sua análise no capital humano,representados, nesta dissertação, por George Borjas (1990). Ambas abordagens relevantes para o estudo da \migração nos EUA e apresentam hipóteses dístintas quanto à inserção dos imigrantes naquele mercado àe trabalho, Não se referem propriamente ao imigrante brasileiro, mas aos fluxos migratórios oriundos do conjunto de paises !atinas e asiéticos, cujos nUmeras são muito mais representativos. No entanto, o caso brasileiro
nao
foge às regras que regem a incorporação desses imigrantes, que ocorre geralmente na da estrutura ocupaclonal
Em suma, o terceiro capitulo promove o confronto entre os dados emplricos sobre a inserção dos imigrantes valadarenses no mercado de trabaHIO norte-americano e as principais hipóteses dos "teóricos da segmentação" e dos ''teóricos do c.ap\tal humano", a fim de contextuaHzar as questões mais importantes do debate atua! sobre imigrantes nos EUA
e
analisar qual das abordagens explica melhor o caso da ímlgração brnsi\eira.
O
quarto capítulo- '"Experiência migratórla e mudança ocupacional" - apresenta uma abordagem ''dínâmíca" do desempenho dos imigrantes vaiadarenses no mercado de trabaiho norle-Em!ericano. Ao contrário do capítulo 3, queé
uma 'fotografia" da inserção do imigrante, o quarto capitulo tem o intuito de confrontar o tempo de permanência. dos imigrantes com seu desempenho em termos de mudança ocupacional, istoé,
de melhora ou piora dostatus
ocupacional entre a primeirae
a última ocupação. A amostra foi desagregada entre os imigrantes ''ausentes no exterior" (que ainda resicJiam nos EUA emjulho de 1997) e os "retornados" (que estavam na cidade mineira na ocasião da pesquísa), com o objetivo de melhor qualificar os motivos que podem ter influenciado a decisão de
parte dos imigrantes a desistir de sua experiência migratória. Este capítulo também
apresenta dados sobre os possíveis concorrentes do imigrante brasileiro naquele mercado
de trabalho, o que trara maior suporte para dar continuidade ao confronto das hipóteses
presentes na literatura específica e os dados empíricos da pesquisa de campo.
Por fim, o quinto e U!tímo capítulo, intitulado "Legalização e mudança ocupacional",
mostra os índices de legalização dos imigrant-es valadarenses, os meios ut!Hzados para · adquirir o green card, os motivos pelos quais parte dos imigrantes não tentou se !ega!izar e a influência da legalização enquanto um fator que possa lhes conferir uma mudança ocupacional posítiva.
- - - Cap}tulq 1
Brasileiros no exterior
Um dos legados da crise sóclo-econõmica que o Brasil vlveu na década de 80 tem sido o surgimento de t!ma emigração mals expressíva
de
brasileiros ao exterior, com destinoa paises capítallstas avançados como EUA e Japão. Estes emigrantes saem do Brasl1 com o objetivo de ingressar no mercado de traba!ho destes países, motivados, numa ótica
ind1v1dua!, pelos maiores rendimentos, mesmo nas ocupações de base, que estes países oferecem. Por ser um movimento reLativamente recente, a emigração brasileira tem sido
alvo de alguns estudos e muito frequentemente desponta como notícia nos meios de
comuni~,ação, tanto no Btasil como no exterior,O objetivo deste capitulo
é
fazer uma caracterização geral dessa emigração elevantar algumas hipóteses a respeito das motivações que levaram cerca de 1,5 ml!hão de pessoas a cons\derar que, em territóílo estrangeíro, encontram melhores perspectivas de vida do que no Brasil (Ministério das Relações Exteriores,
apud
Patarra: 1997), A primeira seção do capitukl ~ ''A migração íntemacional de brasllelros: uma contextuahzação~ ~apresenta informações básicas sobre o fluxo emigratórlo de brasileíros, numa tentativa de mensurá-!o e de apontar os períodos em que ele se intensificou< Serão, também, abordadas a(gumas hipóteses expl\catlvas sobre o f!uxo, com ótíca no país de origem.
Conhecidos os dados mais gerais, avança* se pard o e1xo principal de análise: o fluxo migratório Governador Valadares - EUA, cuja tradição em "exportar" brasileiros para o e-xtelior encontra grande respaldo na dinâmica eco-nômic-,a do municlpio a parttr de meados deste século, conforme mostra a segunda seção deste capítulo ~ ''Origens e dinâmíca da
cídade de Governador Valadares""
A terceira seção, lntitu!ada "Por que os EUA?", busca resgatar, a partir do trabalho de Assis (1995}, a importância, para o inicio e continuidade das emigrações, do "imaginário coletivo" que se formou na cidade a respeito dos EUA enquanto terra da prosperidade econômíca. Por fim, na quarta seção - "As redes socla\s~ ~ serão abo1'dados os principais estudos a respeito dessa poderosa tela de arranjos e interesses, que
é
fundamental para viabilizar qualquer processo de migração intemadonaL Tanto em Governador Valadarescomo nos EUA, as redes socia1's já apre..sentam uma sólida estrutura e um grau de abrangência que ultrapassa a esfera individual dos emigrantes e passa a influenciar dlversos segmentos sociais, tanto pUb!!cos como privados.
1.1 A
migração
internacional de brasileiros: uma
contextualização
Ao contrário do que se verificou no século passado e no inicia deste, os fluxos
migratórios mundials têm se dirigido, desde os anos 70, da periferia para o centro capitalista mundiaL O Brasil se inseriu no rol dos "exportadores" de mão-de-obra na década de 80,
invertendo h1storícamente o papel de receptor de imigrantes europeus e asiáticos que,
desde a virada do século, contribueiTI com seu trabalho para o desenvolvimento de algumas regiões do país ~ notadamente o sudeste e o sul - e deixam marcas visíveis da diversidade étnica e cultura! que compõe o "meiting pot brasi1eiro"2.
A saída de brasí\eiros rumo a países mais desenvolvidos, notadamente para os EUA
{o Paíaguaí também
é
grande receptor de brasileiros, mas este caso foge do escopo de análise desta dissertação devido às características do país de desUno e dos próprlosmotivadores das saidas), atende ao mesmo padrão das ondas migratórias recentes de origem latina e asiática nos EUA constítuí~se numa migração predominantemente ilegal e que se Insere geralmente nas ocupações de base, ou de baixa qualificação profissional, do mercado de traba!ho do país receptor, A migração brasileira para o Japão também atende
à
necess'1dade de trabalhadores nas ocupações de menor quaHficação e escassa oossibi!idade de ascensão hierãrquica das pequenas empresas da indústria e servíços, masse d.iferencia da migração para os EUA por prívíleglar apenas os descendentes de japoneses e ser de cunho legal, amplamente regulamentada pelo govemo nípõníco3.
Apesar de se constituir num fenômeno recente, já existem alguns trabalhos
acadêmicos dedicados a estudar os números da mlgração brasileira para o exterior e seus principais determinantes (Sa!es, 1991, 1992, 1994, 1995, 1998 e 1999; Sasak\,1998;
Patarra e Baenlnger, 1995; Patarra,1997; Carvalho, 1996; Olivelra et a!ií, 199ô, Klagsbrunn, 1995; Margolis, 1994 e Martes, 1998), os quais serão adotados como pontos de referência
neste capitulo.
O estudo de Carvalho (1996) recorre aos Censos demográficos brasileiros de 1980 e 1991 para demonstrar que há um descompasso entre as estimativas de crescimento da população, os níveis de mortalidade entre as décadas e o total de indivíduos recenseados em 1991. Adotando hipóteses de mesma cobertura populacional para as duas contagens e de índices de morta!idade decrescente, chega a estimativas, para a década de 80, de um
"A. e:<.presclio meitfng pot significa, literalmente, uma espécie de caldeirão de fusão, e geralmente é Utiii.ZBda para se referir a diversos tipos de metais. Mas também é aplicada, no sentido figurado, para representar a diversidade de raças e nacionalidades que compõem a sociedade norte-americana. Tomei esta expressão ·emprestada" para caracterizar a diversidade élrlica brasileira, e a mantíve em inglês porque não existe uma tradução razoável na lingua portuguesa_
saldo m\gratório negativo * isto é, entradas menos saldas do território brasí!eiro ~ que
é
nomínimo de 302 mi! para mulheres e 741 mil para homens e no máximo de 1.180 mil para mulheres e aproximadamente 1.350 mll para homens, considerando apenas os indivíduos
acima de 1 O anos.
No mesmo sentido segue ·o trabalho de Oliveira et ai (1996), o qua!, também
utilizando os dois Censos demográficos já citados, chega a uma estimativa de ausência de
964.785 homens e 297.854 mulheres. ambos do grupo etário entre 20 a 44 anos. Estas pessoas que não foram recenseadas em 1991 comporiam, segundo sua hipótese, os
emigrantes da década de 80, peífazendo um total de 1 ,26 milhão de pessoas.
O Relatório da Divisão de Assistência do Ministério das Re!aç6es Exteriores de
com grande predominãncía de três pafses: EUA, com cerca de 600 mil, ou 38,4% do total, Paraguai, com 460 mil ou 29,5% e Japão, com 20í mil ou quase 13% de todas as emigrações. A lista de países
é
extensa, mas as participações dos outros receptores damão-de~obra brasíieira
é
geralmente inferior a i 0/o do totaLAinda que haja dívergênci.a nos dados, não há como fechm os olhos para o fato de que houve um expressivo aumento da saída de brasileiros para viver no exterior em apenas urna década, especíalmente das parcelas mais jovens e intermediárias da população em idade ativa. Nas duas décadas anteriores a i980, o Bras!! vivia um intenso processo de migrações internas, tanto do campo para pequenas áreas urbanas como para as grandes capitals, que sofreram um intenso crescimento populacionaL Dos anos 80 para cã, o Brasil rompeu as fronteiras nadonals e, apesar do fiuxo migratório internaclonal abranger, nas hipóteses mais modestas, apenas cerca de 1% da popu!ação total, não deixa de ser um
ponto de ínf!exão no desenvolvimento histórico nacional, o que impede que a discussão sobre o tema possa ser neg!igenciada.
Uma tentativa de estimar em que período dos anos 80 a migra~o de brasileiros foi mais intensa encontra-se no trabalho de Kiagsbrunn (1996}. Este autor
utmza
um lndicador indireto das migrações, a saber, os saldos de saídas menos entradas em território nacional pm via aérea. metodologia de análise não se preocupa em mensurar o número absoluto de entradas e saídas no Bras!!, mas slm a existência crescente de sa!dos positivos rumo ao Japão e aos EUA. Segundo o autor, "os saldos de safda e entrada por via aérea parecem confirma0 indiretamente, quea
migração para os EUAse
estabefece como fen6meno de peso a partir de 1984, inclusive.'" (1996:43) Oano
de 89 marca o âpice da década, com um sa!do positivo de 28 mi! passagelros. Na década de 90, merece destaque o ano de 1994, pois apresenta um saldo de trâfego aéreo positivo de 44 mil casos, Utilizandoo mesmo raciocínio, Klagsbrunn estima que a emigração para o Japão tomou impulso no ano de 1988, para situar-se em nível bem alto no perlodo de 1989-1992.
Mas não foram os acadêmicos nem as autoridades governamentais os primeiros a chamarem a atenção para o fenômeno emigratórlo de brasileiros, e sim aquela esfera social que já recebeu a alcunha- não desmerecida, por sua influência- de "quarto poder": a mídla.
Uma retrospectiva nas manchetes dos pr1nclpais veículos de informação do Brasil
(Nepo: 1996) mostra o quanto esses emigrantes internacionaís têm suscítado um debate que vai desde a desí\usão com as perspectivas po!ít\cas e econômicas do Brasil até o seu modo de vida no exterior, o trabalho que desempenham, o dinheiro que acumulam e a ênfase nos casos extremos de "sucesso'·' ou de marginalidade que acompanham suas trajetórias fora de casa.
Em que pesem as tintas fortes que a mídia utiliza para tomar seu produto atraente e a necessidade de "filtra(· o conteúdo da maioria de suas informações, não se pode negar seu píonein'smo em apor1tar um tema que hoje não
é
apenas objeto de estudo dos meíos acadêmicos me.s também está na pauta do dia do Ministério das Relações Exteriores e do governo federal como um todo, especialmente no que tange ao crescente volume de remessas em dólares que se tomaram um ímportante item da conta de transferências unilaterais com o exteríor.Sobre este ponto específico, o traba\ho de Klagsbrunn também
é
elucidativo. Apresenta uma tabela das transferências unilaterais líquidas do Brasil entre 1978 e í 995, mostrando corno ocorre um salto de US$ 244 mílhões em 1990 (os anos anteriores aprBsentavam valores sempre inferiores a esse montante) para USS 3.076 milhões em~~ 895. Esses dólares representam basicamente as remessas dos dekasseguis {brasileiros descendentes de japoneses que migram para o Japão a trabalho), que ocorre através de bancos nacionais e são computadas no Balanço de Pagamentos da nação. As transferências provenientes dos emigrantes braslleíros nos EUA estão subestimadas no balanço, pois são efetuadas de maneiras bem mais diversas - por exemplo, através de agências de turismo ou de outros imigrantes que estão retornando ao Brasi\ ~ e, por esse motivo, fogem ao controle das autoridades.
Essas lnfom•ações
apontam, em suma, que a emigração de brasileiros já se tomouum tema recorrente na sociedade e os números mostram que não hã como negar sua exlstêncir:L Por outro lado, e talvez. com maior poder apelativo, estão os motivadores dessas saídas. O fluxo emlgratório brasileiro sempre aparece relacionado a fatores como os baixos salários do Brasil, a descrença na política, a instabilidade econômica, a criminalidade e o desemprego< Para fugír da crise, os brasileiros colocaram em prática, a partir dos anos 80, o
conselho de um famoso po!itico brasRelro, para o qual "a
meihor
saídapara
oBrasil
é
o
aeroporto do Galeão",
Mas, de fato, que elementos estariam explicando a saída de brasileiros jovens,
oriundos na maiorla da classe média e com grau de instrução muito superior ao que o Brasn
reproduz íniemamente (Sales, 1999; Margolis, 1994; CEMI, 1997) para desempenhar
trabalhos que estão aquém de suas qua!ificações profissionais e aos quais dífícílmente sesujeitariam no Brasil?
E
inegável que a forte restrição extema que a economía brasileira viveu nos anos 80,a\lada a índices de inflação crescentes, desvalorização mor1etárla, p!anos econômicos frustrados, queda do poder de compra dos salários e falta de perspectivas quanto a uma
melhora da situação tive>am forte influência na formação de ex:pectati\-~s dos emigrantes quanto a trabalhar no exterlor. Mas, o que a literatura de abordagem no "capital humano" enfoca como principais motivadores do emigrante - o desemprego e o diferencial de salários entre a origem e o destino - não explicam, sozinhos, o caso brasi!e\ro, conforme será mostrado a seguir.
Apesar do crescimento modesto do PlB na década de 80, que deixou praticamente estagnado o Pl8 per capita, não houve urna crise recorrente de desemprego. O emprego formal cresceu, na década, a uma taxa média de 2,7% ao ano, e foi bastante proeminente na administração pública. (Saltar; 1996) Por outro lado, constatou-se uma deterioração tanto do poder de compra dos salários quanto da taxa de formalização do conjunto da economia, o que indica o aumento relativo das atividades consideradas informais no conjunto do emprego, Deste modo, o que se pretende desmistificar
é
o dlscurso de que o emigrante deixou o Brasil peia quesllio do desemprego em si nos anos 80. Nesta balança, pesa multo-mais a ausênCia de perspectivas quanto ao desempenho a longo prazo do mercado de trabaiho e da economia e quanto às possibilidades de, como a malorla dos membros da classe média exper\mentou na década de 70, atlngir ascensão sódo~econômica, pe\o menos intergeraclonal.A questão do dlferencía\ de sa\ãrios certamente
ê
Jrrefutével diante de uma ótica individuaL Também se deve considerar, para entender o caso brasl!eiro, a taxa de câmbio entre c a moeda nacional e o dólar, Isto É\ o pod-er de compra do dólar no Brasíl. Ta! fatoé
importante para explicar o fluxo migratório tipicame-nte ~temporário", pois, neste caso, o emigrante
utmza
o dinheiro poupado no país de destino para efetuar gastos no Bras\L Em Governador Valadares, por exemplo, o andamento das obras de construção dvi! dos emigrantes na cidadeé
bastante sensível a mudanças no c-âmbio< Em 1994-, quando o governo lnst1tu\u o Real, o valor da moeda nacional se equiparou ao dólar, praticamenteanuiando os ganhos cambiais dos ímigrantes ao aplicar seus recursos no BíasH. (Soares,
1995;
Lírio,1997)
No entanto, se o diferencial de rendimentos (salários e ganhos cambiais) fosse a princlpa1 justificativa das migrações, provavelmente o fluxo emigratório brasileiro seria multo maior,
Há
outro elemento central nessa discussão, que será melhor abordado em outraseção deste capítulo, que são as redes sociais. E!as são as responsáveis por trazer o
conhecímento das oportunidades de trabalho no país de destino, por vlab11izar, em termos práticos, a maio1ia das saídas do Brasil e por reduzir os riscos de chegada em outro pa!s,
além de manter as comunidades de origem e destino em contato. No caso do fluxo
migmtório Brasil - EUA, a importância das redes sociais encontra seu indicador mais visível na concentração espacial dos brasíleiros em território norte-americano. Cidades e capitais dos estados de New York, New Jersey, Massachusetts, Conneclicut, Flon'da e Califomia são
as principais receptoras de brasileiros (Safes, 1999; Margo!is, 1994; CEM!, 1997}. Através do desenvolvimento das redes sociais, desenvolvem-se também comunidades brasileiras nestes locais, com estrutura para atender às necessidades de toda ordem por parte dos 1migrantes, além de !hes fornecer um espaço de socialização onde o idioma lng!és - que poucos dominam -
é
dispensáveLEm resumo, sob a ótica do pais de origem, não hâ que se encontrar apenas uma
explicação para a
s.aida
de brasileiros para viver e trabalhar no exterior. Enquantomovimento geral, os brasileiros, desencantados com a década de 80, passaram a buscar,
nos EUA e no Japão, uma forma de acumular dinheiro rápido que !hes permitisse alguma
me!hora de sua situação econômica no BrasiL Isto pode ser entendido, em outros termos, como a tentativa de encontrar, fora de casa, melhores possibilidades de atingir mobilidade social, já que as perspectivas do país de origem, ao contrário do que se constatou na década de 70, são de rebaixamento dos nívels de renda e de deterioração cada vez maior do mercado de trabalho, especialmente a partir dos anos 90. Por outro lado, a criação e o desenvolvimento de redes sodais entre os países de origem e destino, no caso dos EUA, e a regulamentação existente, por parte do Japão, para permitir a entrada dos descendentes em seu mercado de trabalho, também são elementos da maior importância para compreender a emigração brasileira.
Após esta contextualização gera! da emigraç.ão de brasileiros ao exterior, pretende· se, agora, centrar a análise do fluxo migratório 8rasH ~ EUA, do qual o maior representante em termos relativos do Brasil, o fluxo oriundo de Governador Valadares ~ MG, e o principal
A explicação para o grande magnetismo que os EUA exercem sobre muitas economias menos desenvolvidas encontra suas explicações em vários fatores, Conforme afirmou Piore (1979), a justificativa para as migrações deve antes ser buscada no pais de destino dos fluxos, mais do que na origem. Neste sentido, Portes (í981) concorda com p;ore(1979) ao reconhecer o relevante papel dos recrutamentos de mão-de-obra de europeus
{Guest Workers)
e mexicanos(Bracero Program)
no pós-!! guerra, que acabaram por criar redes sociaise
fomentar a continuidade das migrações,Em trabalho posterior, Portês (1995) reconsídera, também, como um fator expiicat1vo para as migrações, a relação econômica e política que se estabelece no conc-eito centro~perfferia.
Atendo-se um pouco a esta questão,
é
importante citar que aiguns padrões de m\gração íntemaciona! tendem a renetir com notável preclsão um passado de ações hegemônicas de forças globaís. Um exemploé
a série de fluxos migratórios qu€1 consolidaram as atuais comunidades de origem !atina nos EUA Estes fluxos refletem a histórica expansão norte-americana sobre seu território. Os países que forneceram maiores contingentes, originando as atuais comunidades étnicas - México, Porto Rico, Cuba e Repúb!ica Dominicana ~ foram, cada um por sua vez, alvos daquela expansão. Essas comunidades sofreram alterações provocadas pe!a penetração econômica, politica e culturalque se segu!uj a ponto de muitos. potenciais emigrantes estarem familiarizados com o amenCan way of fite antes mesmo de ingressarem nos EUA. (Portes; i 990)
Utilizando esses conceitos para entender o caso brasileiro, tem-· se que nunca houve um recrutamento deliberado destes emigrantes para trabalhar !ege\me~>te nos EUA, mas a influência cultural e econômica que tal país exerce sobre o Brasil enquanto paradigma de desenvolvimento e liberdade de expressão
é
um fator de inegável lmportãnda em sua escolha como local de destino para a migração brasileira. Por outro lado, a existência de um conjunto de ocupações, geralmente no setor de serviços, que não exigem qualquer qualificação e que são rejeitadas pelos nativos, servem como uma forma de "recrutamentoIndireto~ por parte do pais de destino, abrindo uma brecha para a inserção do brasl!elro no mercado de trabalho norte-americano_
Uma anâ1lse mais acurada do fluxo migratório brasileiro centrado nas características do mercado de trabalho do pais de dest!no será apresentada no terceiro capitulo desta dis.sertação, Por esse rnotívo, este capitulo deve manter o enfoque principal no pa!s de origem ou, mals espectficamente, nas características histórico~socíais e econômicas que tomaram Governadores Valadares um lugar tão propenso a ~exportar", muito antes do que
1.2 Origens e dinâmica da cidade de Governador Valadares'
Govemador Valadares situa~se a leste do estado de Mlnas Gerais, na Região do
Vale do Rlo Doce. Apesar das diversas expedições que desde o final do sec. XV! aportar~m
na reg\ão do Médio Rlo Doce, apenas no iníclo do sec. XX, com a implantação da Estrada
de Ferro Vitórla a Minas, a colonização do local foi efetiva. A ferrovia impulsionou as atividades comerciais, substituindo o transporte via tropeiros e suas mulas, e fomentou a
urbanização.
A localização geográfica de Governador Valadares
é
bastante estratégica, pols faz aligação entre o norte e a sul do BrasiL No decorrer de seu processo de urbanização, a cidade recebeu muitos migrantes de passagem, os quais, antes de chegarem
à
regiãosudeste, rontr!buíram para desenvolver o setor de comércio
e
serviços e o potencial turístico da cidade.Em í936, a estrada de ferro Vitória~ Minas incorporou a conexão com a Central do Brasil! ligando a regíão do Vale do Rio Doce a importantes centros consumidores, como Ria
de Janeiro e São Paulo, o que foi fundamental para acelerar o desenvolvimento e a
urbanização regionaL Também a construção da SR ~ 116, em 1943, que 1íga os estados do
Rio de Janeiro e da Bah\a, foí
determinante paraa intensificação das atividades
comerciais e de prestação de se!vlços em Govemador Valadares e redondezas.Entre as at'1vidades económícas do município, destaca-se, durante a li Guerra
Mundial,
a exploração
da mica, um minério de importância estratégica no período, pois foíuti\izado como material de isolamento na fabricação de rádios.
Os principais consumidores da mica foram os EUA. Deste !aço comercia! surge o pr\melro contato direto da população valadarense com os trabalhadores norte-americanos que foram trazidos pelas empresas mu\tínacionais de exploração_ A extração da m!ca gerou muitos empregos e fol o principal eixo do crescimento econômico local na década de 40.
Em 1945, a empresa americana Morrison Knudsen também trouxe multos
funcionários americanos para trabalhar na reconstrução da Estrada de Ferro Vitória ~ Minas. Há especulações de que, do retomo destes trabalhadores aos EUA, datam as primeiras emigrações de va!adarenses, curiosos em conhecer a terra daqueles homens que tính.am
~muito dinheiro" (para os padrões locais) e falavam "enrolado"_ No entanto, os primeiros casos confirmados da emigração datam apenas dos anos 60.
• O maleriai .utilizado para a realtzação_ desta seç:~o-constitui-se num informaí\VO Oa prefeitura de Governador Valadares, de 1992. Também há um resgat;, da hlshlna do munic1p10 nas t:l!ssertações de mestrado de G!áUCl<'l Ass1s ('1995) e Weber Soares {1895), ambos valadarenses_ Os trêS trabalhos estão devidamente citados na bibliografia.
Deste modo, a exploraç-..ão e exportação da mica e o contato dos trabathadores americanos com a população nativa foram os primeiros tnd1catívos de !aços transnacionais entre Governador Valadares
e
EUAOutras atividades económ\cas das décadas de 40 e 50 foram a exploração de madeira e a pecuária extensiva de corte. A primeira de\as esteve concentrada no comando de poucos empresários, e levou a um processo de ''vertlcallzação~ da produção, com o surgimento de serrarias, fábricas de móveis e compensados. No entanto, com o desmatamento sistemãtlco das reservas florestais e a extração predatória da madelra, houve a exaustão de grande parte das reservas naturais, levando
à
disseminação do capim colonião. Surgiu então a pecuária, em decoJTéncia deste esgotamento natura!, que se tomou a base econômica do rnunicipio.Note-se que, em Governador Valadares, o setor primário sempre esteve representado por atív!dades agricolas de baixas produtividade e lndice de modemrzação, pela criação extensiva de gado e pe!o extrativlsmo de mtnerals, made!ra .. pedras preciosas e semi-precíosas, sendo que estas últimas são importantes até hoje. O setor secundário, cuja atividade predominante
é
a indústria alimentícia, nunca atingiu uma amplitude e desenvolvimento expressivos a ponto de impuls'1onar o crescimento 1oca! e atender às demandas de emprego.As atlvidades que constituem o setor terciário são, desde os anos 40, as mais representativas Há um grande número de estabe!edmentos varejistas e unidades prestadoras de serviços em Valadares, o que torna a terdarizaçao responsável pelo maior volume de empregos e geração de renda na cidade e micro~região. (Assis; 1995)
Nos anos 60, a economia valadarense ingmssa num período de fragilidade, devido a crise dos setores exportadores (mica, minerais e outras pedras semi~preciosas),
â
baixa pmdutividade da pecuáda eà
incapacidade do setor terciãrio, representado pe!o comércio e prestação de serviços, de impulsionar um novo ciclo expansivo. Os resultados dessa situação de crise foram o desemprego e a queda do nível de vida, levando Governador Valadares, no ftnai dos anos 70, a ser identlfi;.ada C"J.}mO uma "zona~problema" de Minas Gerais, com bo\sões de pobreza e tensão sociaLNos anos 80, apesar da crise económ!ca vlvlda pelo Brasil e reproduzida nas pequenas localidades, a indústria da constru~o civí1 valadarense obteve um curioso destaque em termos de crescimento. Este se mantém superior
à
média de outras atividades nadécada
de 80 como um todo, o que só pode ser compreendido pela importância da emigração lntemaciona! para a população da cidade. (Soares; 1995}O nuxo migratório Governador Valadares - EUA atingiu valores relativos expressivos
antes do processo de migração internacional de outras regi6es brasileiras se difundir,
Exemplo disso foi um dado divulgado pela Pol!cia Federa!, segundo o qual cerca de 1% da população brasileira estaria fora do pais. Para Governador Valadares, este indicador aponta
6,8% da população. (CEMI;í997)
Na década de 60, já havia valadarenses emigrando para os EUA. No entanto, o fluxo se incrementa Sllbstantivamente na segunda metade dos anos 80, voltando a se reduzir na
década de 90< (CEM!; 1997) Mats ao que a questão do desemprego, os valadarenses parecem estar buscando possibilidades de manter ou incrementar o padrão de vida que
experimentaram nos anos em que o investimento norte-americano e seus trabalhadores imprirrün:un
a
cidade outra d!nâmica econômica e sociaL Outro fator fundamental foi o "imaginário coletivo" criado na cidade sobre "A América" como terreno fértil de !lberdade, oportunidades, maior acessoa
bens de consumo e ascensão econômica, quando comparados às possíb!!idades que acreditam ter no país de origem.i.3 Por que os EUA?
No decorrer de seu processo de colonização até os anos 70, G. V. se constituíu num pólo de atração de imigrantes de outras cidades e estados brasileiros. No entanto, dados do
Censo a'e i980
mostram um saido migratório interno negativo, isto é,a
cidade passoua
exportar sua mão~de-obra para outras partes do BrasiL Portanto, para fTIUitos valadarenses, o deslocamento territorial faz parte de suas experiências de vida, e tais movimentos individuais, ao se agregarem, acabam determinando uma cultura migratória5 na cidade. (Margo!is;í994)
É também nos anos 80 que a migração internacional valadarense ganha impulso. Cerca de 85% desta se destina aos EUA. (CEM!,1997; NEPO,i996}. A "década perdida" no Brasil
é
frequentemsrüe utilizada, por diversas fontes, como justificativa para a busca de trabalho, melhores salâ.rios e maior mobilidade social por parte de milhares de brasileiros, entre eles os de Valadares~ Porém, os motivos desta emigração e a opção pelos EUA como~ Margo!rs (19':14:93..-94) afirma existir em Valadares e nas cidades do Vaie do Rio Doce uma •cuttura de migrar para o exterior' u;;ríb da autora). T?l.l =nc!i>lto foi elaborado pelo cientista político Wayne Comelius, e aplica-se a comunidades com amplos, padrões de migração internacional estatelecidos por longo tempo, Os descendentes de migrantes incorporam a possibilidade de tambêm migrar em suas perspectivas de vida, e o fluxo migratório acaba retroalímentando as redes sociais do apolo que se formam nas sociedades de origem e destino. Os falares econômicos sáo determinantes para as migrações, mas sua viabiiiza;:ão depende dos contatot:. e de cor;t'Hi>clmento prévio das .oportunidades no pais para o qual pretendem se cllrlgic Neste
trabalho~ ctefir;e-se •cultura migratória" como uma predisposição, motivada por fatores de ordem histórica, cultural e sócie-. econômica> a de$locamentos geográficos, tanto internos como eldemos a um território nacional,
pais de destino não são compreendidos apenas no ámb!to da esfera econômica. Em se tratando de Governador Valadares, Assis (1995) apresenta, em sua dissertação de
mestrado, o que se pode denominar a construção de um
1'ímaginârlo
r.o\etivo~a respeito da
"América'', suas representações e oportunidades.
A respeito do contato entre a popula~o va!adarense e os americanos que imigraram a trabalho para a cidade nos anos 40, Assis reuniu depoimentos muito interessantes de
habltantes que vivenciara.m o surgimento dos primeiros !aços cu!turals e comerciais entre as
duas localidades (Vatadares ~ EUA). Também recorreu aos primeiros moradores que embarcaram, movidos sobretudo por curiosidade e espíríto aventureiro, na experiência depisaí em solo norte-americano.
Várias foram as !!gações que se formaram entre o capital nortEH!merlcano, sua população emigrada e Govemador Valadares. Ainda nos anos 40, a extração da mica movimentou a economia da cidade, com oficinas de beneficiamento do minério ~
pertencEntes a brasileiros - e apoío técníco e comerciaHzaçáo rea!!zados por firmas norte .. americanas. A exploração e o comércio de pedras preciosas também atraiu muitos
estrangeiros para a região do Vale do Rio Doce. Com a eclosão da
n
Guerra Mundial, os amerícanos·· firmaram um acordo com o Brasil no qual este contribuiria com o esforço de guerra. Oeste convênio surgiu, em '1942, o SESP ~ Serviço Especial de Saúde Pública, como
objetlvode
resolvero problema do saneamento básico e do atendimento hosplta!ar,
tendo-se em vista a extinção da malãr\a, que assolava a região. A direção e os principais cargos do Servíço erarn e-'cercidos por cidadãos norte~americanos, e o restante por brasí\e!ros,Um úJiímo evento do periodo, bastante recordado pelos entrevistados, foi a vinda de muitos pioneiros norte-americanos para trabalhar na duplícação da estrada de ferro Vitórla M
Minas, os quais ficaram sediados em acampamentos da empresa estatal Vale do Rio Doce.
;\té
a fundação do Rotery C!ub !oca!, segundo relatos, teve a influência desses estrangeiros. Devido ao forte poder ilustrativo de a(guns dos depoimentos co!hldos por Assis ('i995),é
interessante reproduz!~!os de forma textual«. A identidade das fontes mantérn~se resguardada pelos pseudônimos Historiador 1, 1\,!1!,
tV e V."Os americanos vieram para Governador Valadares na época da mudança
da estrada de ferro do centro da cidade para onde passa atualmente e para a
extração da mica. C..) Para recebe-r os americanos fizeram um acampamento de
casas de madeira no estlío americano que ficou conhecido como ~Acampamento
da Vale" para os funcionários de maior categoria.(. .. ) Quando os americanos chegavam era uma festa, O dólar, naque!a época, não circulava eomo hoJe c.,)
mas os americanos com sua moeda Qodiam comprar !:D1!!!Q , e não pegavam o
troco,
lnfiadonaram muito o preço das coisas (.H)~ (Hist!!,
60 anos - grifo nosso) (Assís;1995;48)"O% depoimelltoo !oram conservados na formu original, sem as devidas correções gramaticais, conforme apresentados no trabalho de Gláucia Assis.
MNaque!a época, um dólar eram 19,00 cruzeiros. Eu engraxava um sapato a í ,50 cruzeiros. Eles, os americanos, davam um dólar e não pediam o troco,
pediam para comprar clgarro ou joma! e não pediam o troco, a aente pensava gu@
p dólar era fácil de ganhar" (Hist V, 70 anos ~ grifo nosso ) (Assis;1995: 49)
"(. .. )Esses jornalistas, esse pessoal sempre quer falar comigo e eu nunca me interesso em responder porque eles querem que eu diga que os americanos
tinham interesses imperialistas e por isso nos ajudaram. E!es nunca conseguiram
incutir nos va!adarenses sentimentos antl~americanos, pois foram eles que nos deram saneamento básico, água, esgoto. Além disso, o SESP realizou também
pesquisa sobre doenças endêmicas. Eles ajudaram as f1rmas de mica fornecendo
materlal e pessoa\ técnico, mas as firmas eram brasileiras( o,) Esta identificação
iá
faz P.~e nossa identidade. Governador Valadares é uma cidfãde do interior voltada para o exteríor, para o oceano, antes da guerra eram os alemães e os japoneses, depois os americanos~ estes só trouxeram progresso, Nós hoje somos uma cidade intemadona!izada, tanto é que ~ocê vê que gwgjguer pó de chinelo sai destas cidadezinha§_ aqui perto. v a! para o Galeão, oeaa um avião, chega no
Kennedv e SJZJ2QI!Je em casa: (Híst I, 70 anos-grito nosso) (Assís;í995:50)
Existem controvérsias quanto
à
data das pr!meíras emígrações; va!adarenses para osEUA. Um dos entrevistados afirma que, ainda nos anos 40, aiguns de seus conterrâneos
foram para o país aprender a manipular
e
mica,e
que voltaram ''cheios de pose", "falandodifícil" e com roupas novas. No entanto, outros afirmam que as primeiras emigrações datam
somente dos anos 60, cujos relatos serão explorados adiante.
Desses depoimentos, especialmente dos trechos grifados,
é
possível identificar areceptivídade da cidade - que na época contava com apenas 25 ml! habitantes - aos norte-americanos, e a idéia que os valadarenses foram criando a respelto do modo de vida desses estrangeiros. Casas bonitas, pessoas bem vestidas, dínheiro fácil, progresso, «sent\rwse em casa" quando se referem a estes padrões aguçaram a curíosídade dos valadarenses.
Também contribuíram para criar um "imaginário coletivo" a respeito do que deveria ser a
"América" que, juntamente a uma "cultura migratória" que historicamente se formou em Valadares, impulsionaram os primeiros aventureiros a buscar as ''verdinhas". O fim do ciclo de extração da mica e a estagnação econômica também foram elementos muito Importantes para as primeiras sai das da cidade rumo aos EUA, como relata o Hlst !íl, de 55 anos:
~Então, acabado o período da mica e da madeira Iicamos com uma cJdade,
um município que havia lncttado baseado numa economia onde corria rnulto cHnhetro. A zona boêmia aqui era uma zona boêmia de r,.apita!, você mede o progresso de uma cidade, o e~dorado de um lugar, pelo que ele reúne de atrações que exigem dinheiro. Então, Valadares possuía casas de jogos, casas de
tolerâJ\Cia. todo mundo tlnha dinheiro. Mas, de repente secou a mir..a. secou a. madeira, tudo !unto, um atrás QQ...Qutro. E o oue restou? Ur[l grande conting§IliQ humano nascido naquele período acostumado a Qanhar esse din~
(Assis;1995: 53- grifo nosso)
~Ai alguns rapazes, uns por farra, outros queriam estudar nos EUA, como o caso do Tonlnho Coelho que passou !â um ano estudando, outros porque tinham condições porque o visto era fácil e a passagem não era tão cara, numa sequência assim foram uns dez. Aí foi um, depois foi outro, aí o outro escreveu e desses dez at uns cinco ou seis voltaram um ano depois. O ... , por exemplo,
trancou a matrícula de!e em 6eio Horizonte e trabalhou um ano, fol ser garçom,
'
bus boy · , voltou QQm dinheiro Qarª comornr um carro. Ague!a, ga(Q!ªº-.~
~JHlzando na dependênQill.Qe pai e ~em sab~r o gu§ fazer ªgul
f.lQ.__BraslL com emoregulnho medígpre, aquela mão~de~oQraf}vida oara g:anh.m dinheiro viu .amlliQ . .SLQQIJl§.QQg~ (Assls;1995:53-4- grifo nosso)
Tais depoimentos mostram que migrar para os EUA surgiu como uma opção para os que se sentiram lesados pela queda do padrão de vida da cidade ou para aqueles que aparentemente não tinham "muito a perder" no Bras1l, como os que estavam ocupados em
'·empre-gos medíocres" ou viviam dependendo dos pais. A ida dos primeiros, as cartas enviadas, a facilidade para conseguir vistos, o emprego rentável nos EUA e a possibilidade de répída ascensão social no contexto da cidade de origem ~ como expríme o exemplo daquele que trabalhou um ano e logo que voltou jé comprou um carro - estimularam novas inlcianclo um fiuxo mígmtório
e
os primeims contamos de uma rede social que atualmenteé
fundamenta\ na continuidade do processo. É interessante ressaltar que os primeiros emigrantes eram homens, jovens e so!te!ros, e emigravam temporariamentet/.>,inda a respeito da configuração de um fluxo migratório, vale destacar o depoimento do Hist. lV:
"HB vinte e oito anos atras (i 955), traba!t1ava na Aerolfneas Pemanas
Sociedade Anónima: ~ APSA, em Governador Valadares" A firma era gerencíada pelo SL Roberto Wntte, tinha um t\po de galã{, .. ), ~h_"Q:Çiuz!p um_.§..gj_I.Q...l]mpfe §_m yala.Qares na época. Ele vendia passagem e mandava o pessoal para lá, eu batia ates.iado de residência para ürar documentos. para tirar passaporte. Eu batla v8Jios atestados daqueles por dia. Acjw aue o v<!ladarense na,.<?_ceu corn a.Jilala
Q.fQntq.'· (Assis;1995: 54- grifo nosso)
O retomo dos emigrantes pioneiros veio a reforçar a idéia que os va!adarenses faziam da "América", mesmo nunca tendo pisado lá. As pessoas que voltavam tinham muítas histórias para contar, experiências novas e instigantes, muito mais estimulantes do
que os conterrâneos estavam acostumados a ouvir dos que migravam internamente, para o
nio
de Janeiro ou São Paulo. Se a dinâmica populacional e expectacional de Governador Valadares, ao !ongo do tempo, deu contornos sólidos a uma "cultura migratória", Istoé,
se emig;·ar tomou-se uma perspectiva de vida natura\ para o valadarense, esta emigração não se restr\ngiu ao território nacional. ,A. "cultura migratória" acabou por e:x:pandir fronteiras e encontrou um endereço certo: a "América'. Os relatos abaixo, dos que dizem ser osprimeiros emigrantes de Valadares, buscam reafirmar o que é c..onhecido como o inicio da "Conexão USA"·
"Tudo foi em 1964. Eu era bancário, constituí a primeira turma de
emlg1·antes valadarenses. A idéia surgiu através de um amígo .... , que fazla curso de \ng!és comigo. Pensávamos em ir para conhecer e não para trabalhar. Este meu amlgo (...) foi a Belo Horizonte, visitou o consulado e recebeu a seguinte
informação: 'Era t[cil ir, p~m
seiscentos_
dólªres' {. .. ). Tlnhamos queapresentar um mH dólares e todos os documentos pessoais. Não havía problemas para emigrar e contamos es!:a idéia para mais dois amigos que deram a entrada nos papéis juntgs.( ... ) Para irmos, voltamos a Valadares para tentarmos levantar
os ml\ dólares para cada um, mas não conseguimos. Demos então inído ao
Qrimeíro_.trambique: juntamos o dinheíro dos três (o primeiro amígo já havia ldo) e
cada um entrava e apresentava o mesmo dinheiro. Naquela época estávamos
fazendo a maior façanha do mundo, pois Valadares era interior.~ (Emigrante
!l
-grifo nosso) (Assis;1995:55)
"Eu não precisava Ir para a América, tinha um negocinho aqui, um açougue
e umas terrinhas, mas naquela época era multo fácil e eu queria v_êr como era
gyería ganhar o dólaL voltar e contar a aventura. Juntamos eu e uns amigos e
fomos, era uma farra, eles voltaram e eu fiquei.~ (Emigrante
! -
grifo nosso)(Assís: 1995: 56)
~( ... )A realidade é essa, eu cheguei do Rio (de Janeiro) em 56, nunca
ninguém perguntou: 'Ah é? E como ê que
é
a sua vlda?' Ninguém queria saber deonde eu era. Mas, o cara chegava dos EUA, sentava no bar, a!i na "Brodway", que
já chamava brodway, e contava assim: - 'Ah, eu peguei o suffi.vay', o cara
perguntava:~ subway? e!e d!zía: ' ...
é
metrô'~ Comoé
que é? Eu posso pegar e!e? Ai, o sujeito pedia 'traz o uísque ai' ... (e os causos rolavam).Aí
a simbologia foicriada. E você sabe que quem ia eram os rapazes (. .. ) depois é que a coisa ficou
tão escancaradam..ente boa que qualquer ..llilLi.ª-(, ..
y
(Hist ll1 - grifo nosso)(Assis:1995:57)
:_t\brimos a América Qara os valadarenses_ assim como para o J?msil. V.aladares er1L11Qticia apesar de ser interior. Ch..í;illamos ouatro e sessenta dias depois foram mais dez:. As idas começaram a se mulüplicar. Liaaáas por
~~ade." (Hist H-grifo nosso) (Assis;1995:57)
Estes últimos depoimentos dão uma dimensão de
comoa idéía de
ufazera América"
foi se espalhando e ganhando novos adeptos. O simples convite por parte dos amigos para migrar, certamente acrescido de outras faci!ídades, já eram suficientes para convencer outros da "façanha". As híst6rias dos retomados faziam brilhar os olhos dos conterrâneos, enquanto os que migravam internamente pareciam não ter nada a acrescentar diante de tantas maravilhas que eram narradas nos bares da cidade sobre os EUA. Em tJm dos relatos, um emigrante conta com ar heróico um dos primeiros "tramb!ques" para conseguir visto, sugerindo que a atual conduta de ir para a América a "qualquer custo"~ passaportéou
visto falsificado e sltuação clandestina no país - encontra sua origem, lrrepreendída quanto a valores morals, ainda nos anos 60.Por fim, o ideal de ganhar o dó!ar, as redes de contatos familiares ou de amizade que foram se consolidando e o status assumido por Govemador Valadares - forte candidata ao anonimato, como qualquer cidade pequena e interiorana ~ enquanto pioneira no Bras!\ em