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A aposta no encontro para a produção de redes de produção de saúde

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Academic year: 2021

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FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS

BRUNO MARIANI DE SOUZA AZEVEDO

A APOSTA NO ENCONTRO PARA A PRODUÇÃO DE REDES DE PRODUÇÃO DE SAÚDE

CAMPINAS 2016

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A APOSTA NO ENCONTRO PARA A PRODUÇÃO DE REDES DE PRODUÇÃO DE SAÚDE

Tese apresentada à Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Doutor em Saúde Coletiva, na área de concentração Política, Planejamento e Gestão em Saúde.

ORIENTADOR: SÉRGIO RESENDE CARVALHO

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA TESE DEFENDIDA PELO

ALUNO BRUNO MARIANI DE SOUZA AZEVEDO, E ORIENTADO PELO PROF. DR. SÉRGIO RESENDE CARVALHO.

CAMPINAS 2016

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BRUNO MARIANI DE SOUZA AZEVEDO

ORIENTADOR: SÉRGIO RESENDE CARVALHO

MEMBROS:

1. PROF. DR. SÉRGIO RESENDE CARVALHO

2. PROF. DR. RICARDO RODRIGUES TEIXEIRA

3. PROFA. DRA. LIANE BEATRIZ RIGHI

4. PROF. DR. RICARDO SPARAPAN PENA

5. PROF. DR. GUSTAVO TENÓRIO CUNHA

Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas.

A ata de defesa com as respectivas assinaturas dos membros da banca examinadora encontra-se no processo de vida acadêmica do aluno.

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A Meus Mestres: O mestre transmite-lhe alguma sabedoria com qual os anos o brindaram. Não só isso, o mestre constrói contigo um conhecimento útil a você. E mais, não se apega a isso, deixa-o passar por seus próprios caminhos, não exige filiação, quer mais é que tenha suas próprias pernas e suas próprias pérolas de saber. A meus mestres Avô Souza, A Sérgio.

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cada dia e também se tornaram autoras deste trabalho. Definitivamente, esses parágrafos não são apenas meus…

A Julia, pelos anos de inocente paciência, amor e generosidade. Esse “livro” também é teu. Papai te agradece muito.

Aos muitos familiares que de alguma maneira apoiaram este trabalho, pais, avós, tias, tios, irmão, primos e primas.

Aos amigos de muitos anos e os de nem tantos anos assim, fundamentais na caminhada da vida. Lorena, Mirela, Yuri, Milu, Israel, Claus, Gama, Dé, Ju, Mari, Elton, Pedro, Ellen, Carina, Rachel, Nilton, Helga, Ana Luiza, Marcinha, Luís, Raphael, Bel, Thaís, Henrique, Sarah, Fabrício, Cathana, Cecília, Michele, Camila, Fran, Julia, Núbia, Ludimila, Marie, Mariana, Ari, Ana…

A Débora, pelo carinho, cuidado e amor, a força do Sprint final.

A Felipe e Tania, pela acolhida, carinho e cuidado tão generosos no tempo da delicadeza.

A Nina, por tantos anos de companheirismo e amor.

Aos Conexões, que aqui passaram e aqui ficaram. Beth, Flávia, Yara, Ricardo T., Ricardo P., Sabrina, Tadeu, Renato, Bruna, Gustavo N e os vários outros que passaram mais temporariamente.

Aos professores e professoras e amigos com quem aprendi muito nestes anos de Saúde Coletiva, Gustavo T., Juliana, Gastão, Rosana, Nelsinho, Solange, Heleno, Ana, Herling, Silvia, Rita, Everardo, Liane, Emerson, Cecílio…

A Marga por haber hecho lo posible recibiendo un alumno brasileño un poco loco, el soporte y generosidad. Marta y Marc por la gran compañía y ayuda.

A Marcela, mi hermana. ¡Un amor muy grande por ti cariño! ¡Siempre! Arnau, mi hermano amigo querido! ¡Gracias a los dos por los grandes momentos en Barcelona y por haberme presentado lo cuanto la Cataluña es linda! Enamoré de Cataluña, de Barcelona y de vosotros.

A los amigos de Barcelona que me acompañaran en la locura. Lucía, Inés, Núria, Alba, Saïda, Maria, Pere, Bea, Sergio, Diana, Giazú, Laura, Neus! ¡Gracias por lo lindo que fue 2014!

A Du e Ana, diretores, professores, amigos, pelo carinho, cuidado, confiança, pelos anos de inspiradora parceria criativa!

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Aos arakianos, que também passaram e também ficaram! Jeff, Lucas, Carminha, Rodrigo, Glauco, Zé, Thaisa.

Aos muitos amigos e amigas conhecidos e construídos nos anos de Curso Livre de Teatro! Grato pela confiança e amizade.

Aos colegas da Política Nacional de Humanização e Ministério da Saúde, que também inspiraram o começo desse trabalho, em especial Cleusa, Pedro, Stela, Ricardo, Cecília, Cathana, Tadeu, Laura, Daniel. E os vários parceiros e parceiras dos trabalhos no território, de apoio.

Aos amigos e amigas de Consultório na Rua. Foi um ano de intenso trabalho e estreitamento de amizades, conhecimento mútuo e cumplicidade. Alcyone, Carol, Suzy, Tiago, Tina, Alice, Fran, Magna, Renata, Lívia, Gilson, Fabi, Chay, Flávio, Impera, Karina, Rachel, Thaís, Felipe. Definitivamente esse doutorado não teria sido possível sem vocês.

As alunas e alunos que também me inspiraram nesse trabalho ao longo desse ano.

Aos moradores de rua de Campinas, excluídos dentre os excluídos, que me incluíram em suas vivências e têm possibilitado experiências incríveis, encontros potentes e alegres, ainda que que frequentemente com dor e no sofrimento. A máxima intensidade da vida vivida a cada minuto!

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Tese de Doutorado que explora o tema Redes de Saúde. Realiza-se uma revisão das políticas públicas adotadas no Brasil para a constituição das Redes de Saúde e das definições adotadas, fazendo-se uma problematização do arcabouço teórico-prático ali implicado, a partir de experiências relativas à Política Nacional de Humanização e à uma pesquisa do sistema de saúde catalão. Em seguida faz-se uma abordagem cartográfica da equipe de Consultório na Rua de Campinas, com diários de campo e oficinas, sistematizadas em fluxogramas analisadores, como um campo de práticas que vem inserindo novos modos de fazer clínica e de fazer redes. Por fim, ante essas experiências discute-se a ideia de redes a partir de teóricos como Spinoza, Deleuze e Negri, em especial utilizando os conceitos de corpo, noção comum, amor, produção do comum e rizoma operado por esses autores, propondo as redes-rizomas como ferramenta metodológica para a construção de redes de produção de saúde. Metodologicamente, para realizar a escrita exploramos a ideia de Interpolação de Olhares, a partir de conceitos como cartografia, antropofagia e perspectivismo.

Palavras-chave: Sistemas de Saúde. Saúde Coletiva. População em Situação de Rua. Filosofia. Pesquisa Qualitativa.

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Doctoral thesis that explores the theme of Health Networks. We do a review of public policies adopted in Brazil for the creation of Health Networks and definitions adopted, making a problematization of theoretical-practical aspects there involved, from experiences of National Policy of Humanization from Brazil and a research of the Catalan health system. Then we do a cartographic approach of Street’s Clinic in Campinas, with workshops and field journals, systematized in flowcharts parsers, as a field of practice that helps inserting new ways of doing clinical and creates networks. Finally, revising these experiences we discuss the idea of networks from theorists like Spinoza, Deleuze and Negri, in particular using the concepts of body, common idea, love and common production and Rhizome operated by these authors, proposing the health networks-like rhizomes methodological tool for building networks of health production. Methodologically, to perform this thesis we explored the idea of interpolation looks, from concepts such as cartography, Anthropophagy and perspectivism.

Keywords: Health Systems. Public Health. Homeless Persons. Philosophy. Qualitative Research.

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Figura 1 Detalhe Park Guell - http://www.aspasios.com/descubre-barcelona/wp-content/uploads/2015/01/gaudi-architecture.png - Acessado em 25/01/16 ... 64 Figura 2 Detalhe Casa Batlló - https://images.trvl- media.com/media/content/shared/images/travelguides/destination/179992/Casa-Batllo-52406.jpg - Acessado em 25/01/16 ... 67

Figura 3 Campo no Largo da Catedral - Acervo da Equipe ... 87 Figura 4 Campo na Linha do Trem - Acervo da Equipe ... 95 Figura 5- Mapa da Rede Construída pelo CnaR para 6 pessoas atendidas. As setas pretas representam fluxos e relações predominantemente conflituosos. ... 109 Figura 6 Campo no Largo do Pará - Acervo da Equipe ... 110 Figura 7 - Galathea de Esferas (1952), Salvador Dalí - https://en.wikipedia.org/wiki/File:Galaofspheres.JPG - Acessado em 27/01/16 ... 123 Figura 8 - Rachael from the Enchanted Forest (2012) - Instalação e fotografia

de Garth Knight -

http://www.garthknight.com/portfolios/2012enchantedforest/05red/08.html - Acessado em 27/01/16 ... 143 Figura 9 - Muchacha en la Ventana (1925), Salvador Dalí -

https://www.salvador-dali.org/media/upload/gif/cache/f0046_noiaalafinestra_1411574278_1024.jpg - Acessado em 27/01/16 ... 160

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AB – Atenção Básica

CAPS AD – Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas CAPS III – Centro de Atenção Psicossocial 24 horas

CGR – Colegiado de Gestão Regional CIR – Comissão Intergestores Regional CnaR – Consultório na Rua

COAP – Contrato Organizativo de Ação Pública CS – Centro de Saúde

DR – Doenças Raras

DRS – Departamentos Regionais de Saúde DST – Doença Sexualmente Transmissível

INAMPS – Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social NOAS – Norma Operacional da Assistência à Saúde

NOB – Normas Operacionais Básicas

PNDR – Política Nacional de Atenção integral às Pessoas com Doenças Raras PNH – Política Nacional de Humanização

PNPR – Política Nacional para a População em Situação de Rua PSR – População em Situação de Rua

PTS – Projeto Terapêutico Singular RAS – Redes de Atenção à Saúde SES – Secretaria Estadual de Saúde

SUDS – Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde SUS – Sistema Único de Saúde

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PRÓLOGO ... 14

CAPÍTULO 1 – UM MODO E UM PERCURSO DO PESQUISAR: Considerações éticas, estéticas e políticas ... 17

Pesquisa Intervenção, Cartografia e Antropofagia ... 18

As Regras da Prudência ou sobre Ética em investigação ... 22

Levantamento Bibliográfico ... 26

Diários de Campo... 28

Interpolação de olhares – a escrita como um registrar, intervir e pesquisar 31 As oficinas e o fluxograma analisador ... 39

CAPÍTULO 2 – REDES EM SAÚDE – A Construção de um Problema ... 42

CAPÍTULO 3 – UMA REDE EM CONSTRUÇÃO E EM MOVIMENTO: A Experiência do Consultório na Rua ... 74

Mais alguns detalhes dos percursos éticos, estéticos e metodológicos do pesquisar ... 82

Caminhando pela rua e pensando a vida ... 86

Considerações Finais ... 114

CAPÍTULO 4 – SOBRE NOÇÕES COMUNS E REDES ... 119

Spinozando uma ontologia ... 120

Corpos ... 123

Afeto afeta ... 129

Comum? ... 133

Das redes de saúde e da produção de comum ... 137

Tecnologias, necessidades e integralidade ... 139

O Singular e o Coletivo nas Redes ... 143

A Gestão, o Comum e a Multidão ... 147

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ANEXOS ... 183 ANEXO 1: TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO .... 183

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PRÓLOGO

No final a gente escreve o começo. Após escrever toda essa tese volto ao começo dela, não para fazer uma introdução, mas para fazer alerta ou um manual de uso deste trabalho.

Não me ocupo, aqui, em responder a todas as questões por mim mesmo abertas ou as que suponho que o leitor levantará. Também não pretendo explicar todos os conceitos que tangencio, não minuciosamente e, na verdade, às vezes não gasto nem uma palavra com alguns. Deixo que parte desses conceitos apenas apareçam, instigam e partam. Conceitos são incríveis constelações e seria muita pretensão achar-se capaz de descrever a todas as estrelas em apenas uma tese de doutorado. Várias delas demandariam suas próprias teses. A escrita aqui tem um papel fundamental. Não é apenas um relato de pesquisa. Tem sua vida própria, seu ritmo, sua cadência e sua própria investigação. Não me pretendo literato (e nem filósofo, há que se dizer), mas também não tenho pudor em galantear essas linguagens, pensamentos, inspirações, ideias.

Cada capítulo tem sua vida própria, mas dialogam entre si constantemente. Se estiver muito apressado na leitura ou no entendimento de um ou outro conceito ou expressão, alguns deles tem hiperlinks (benefício de quem está lendo a versão virtual) para te fazer avançar no texto (ou até retroceder caso já tenha se esquecido de algo). Pode se perder. Por sua conta e risco.

Falando nisso, faça a leitura com calma, talvez a suposta ausência que se anuncia em um parágrafo esteja explicada alguns tantos à frente. Talvez não, mas não feche julgamentos a priori.

Aliás, a tese está recheada de vírgulas, de pontos de parada, de divagações, até mesmo de tentativas minuciosas de explicação que derivam para outros campos. Não são metáforas! Não são meras ilustrações! Nenhum julgamento para quem as emprega, mas aqui, não são. São experiências. É a pesquisa sendo vivida e a vida vivida sendo pesquisada. Uma pornográfica transposição, permuta, entre os diversos aspectos da existência de um pesquisador, supostamente separados.

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Os capítulos não começam nem terminam, vão pelo meio. Talvez com alguma delicadeza de transição para não impactar muito ao leitor. Ainda assim, eventualmente haja uma sensação de “opa, será que perdi um parágrafo inicial” ou “acabou aqui? Comi uma página? ” Desculpa, eu mesmo não controlo bem esse texto. Ele começa e termina quando quer, mas sempre no meio.

São quatro. Os capítulos. Encerrando-se com um Epílogo. Cada qual com sua temporalidade, seu tema, seu tempo de escrita. Poderia dizer que alguns chegam a ser bem datados. Outros totalmente atravessados pelos 2 anos de mestrado e 4 de doutorado. Este é o caso do primeiro e do quarto, reflexo de construções teóricas, metodológicas e filosóficas de todo esse tempo, a cada momento marcadas, inflexionadas, agenciadas e modificadas… certamente, se meu ponto final fosse daqui um ano, ainda teria o que falar nesses capítulos e certamente seriam bem diferentes.

Começamos falando do caminho do pesquisar, das explorações metodológicas. Uma escolha estratégica, pois talvez, só talvez, auxilie ao leitor a cumprir o restante de sua função.

O segundo capítulo, o datado, traz revisões sobre nosso tema Redes de Saúde, expressões governamentais e de experiências do pesquisador no governo, cruzadas com experiências do pesquisador no próprio pesquisar.

O terceiro capítulo é aquele que não acaba. Tem mais e mais a ser dito, poderia ele mesmo ser uma tese inteira e, no final, suas produções acabam atravessando essa aqui mesma, por completo. É a rua. Eu sempre disse que temos que sujar os sapatos de lama para viver, para aprender… pois aqui a lama vem como todo o seu poder e deixa máculas em todas as suas roupas, mesmo naquelas que você ainda não comprou! O trabalho com o Consultório na Rua, o trabalho com a População em Situação de Rua, com as pessoas, é um trabalho cheio de carinho, tensão, emoção. Um trabalho que inevitavelmente te arrebata para dentro e modifica seu olhar sobre tudo, o mundo, as pessoas, os serviços, as maneiras de fazer clínica, de cuidar, de produzir o mundo. Qualquer desenho feito sobre esse trabalho é apenas uma foto, absolutamente temporária e que encaixa como uma luva nessa maneira de proceder pesquisa, gestão, vida, que venho propondo, tentando, experimentando…

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Por fim, o quarto capítulo, segue como uma provocação. Alimentado pelo terceiro, mas absolutamente transversal a todo meu percurso como investigador. Um capítulo marcado pelos amores na vida, pelas questões que me produzem inquietação e potência. As relações, a produção de saúde, de vida, os amores, o comum. A produção de outros possíveis, mais ou menos novos, mas possíveis. Talvez apenas pequenas gotas, mas que me parecem de profunda capacidade interventiva nas pessoas, nos modos elas se relacionam, na organização de serviços e sistema de saúde, na organização da sociedade. No fim… tudo isso fala da mesma coisa.

(17)

CAPÍTULO 1

– UM MODO E UM PERCURSO DO

PESQUISAR: Considerações éticas, estéticas e políticas

De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para se continuar a olhar ou a refletir (1)

Não lembro de nenhuma reportagem que não tivesse me dado medo. Sinto medo até hoje. Medo de não dar certo, medo de não ver nada, medo de não conseguir, medo. Tenho insônia e, quando durmo, pesadelos. Antes, durante, depois. (...)

Medo é necessário, faz sentido. Só não dá para ter medo de ter medo, paralisar e deixar as histórias passarem sem encontrar quem as conte. Ficar escondido atrás de um computador, achando que o fato de escolher em que mundo virtual entrar, quando sair, quais e-mails responder e quais deletar é ter a vida sob controle configura, talvez, a grande ilusão contemporânea. Por mais que você escolha não viver, a vida te agarra em alguma esquina. O melhor é logo se lambuzar nela, enfiar o pé na jaca, enlamear os sapatos. Se quiser um conselho, vá. Vá com medo, apesar do medo. Se atire. Se quiser outro, não há como viver sem pecado. Então, faça um favor a si mesmo: peque sempre pelo excesso. (2)

Essa tese trabalha na perspectiva de uma atividade investigativa que reconhece o contexto situacional, a localização e a implicação do observador, de tal forma que lançará mão de um conjunto de práticas para dar visibilidade às suas questões transformando a realidade na investigação. Iniciamos então com um caráter desarticulador do próprio campo científico ao reconhecer a reversão do esquema “conhecer para transformar” em um “transformar para conhecer” (3).

Entendemos que a presença do pesquisador no campo a ser pesquisado já, por si só, produz interferências nos processos como um agente externo que trará outras ideias e forças para os diagramas já ali instaurados. Além disso, o pesquisador não se esquivará de opinar e intervir na medida que julgar necessário. A coletividade do processo, seja na construção de uma horizontalidade de participação dos outros envolvidos na pesquisa, seja no

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compartilhamento e discussão do produzido com o grupo de pesquisa, apoia a formulação crítica da pesquisa e a análise das implicações do pesquisador.

De modo que, incorporados do desejo-composição, nos propomos a experimentar a produção coletiva de forma bastante intensiva, um modo de fazer que não só nos arranca do velejar solitário como também nos conecta com outras questões, redirecionando problemas e colocando os tais corpos-pesquisadores-jangadas num barco comum. Munidos de certo querer criar nos deslocamos dos problemas únicos tangenciando problemas em comum (4).

Pesquisa Intervenção, Cartografia e Antropofagia

Como intervenção estamos nos vinculando a uma ideia de “interpor-se”, de “vir entre”. Falamos também de uma “intervenção como um caminhar mútuo por processos mutantes” (5). Tal caminhar, com um olhar para a processualidade permite perceber conflitos, divergências, ações que produzem diferenças, certa produção de sentidos junto ao grupo pesquisado (3).

Trabalhamos com uma noção de produção de subjetividade/sujeito em que o sujeito seria uma “forma que dá passagem” a linhas de força/poder e de produção de subjetividades que nos atravessam. Uma noção que nega o caráter essencialista do sujeito afirmando, antes e principalmente, o processo dinâmico, mutante, acontecimental e provisório que o constitui. Somos vários “sujeitos” e, ao mesmo tempo, estamos deixando de ser aquilo que somos. Somos, portanto, um “efeito de um entre”. Somos aquilo que se produz a partir de nossos encontros com as coisas (homens e não homens).

Abordaremos isso em momento apropriado, agora fiquemos com essa ideia de que os sujeitos são, portanto, implicados (6) e, através de nossa lente, uma implicação que é profunda e mutante à medida que afirma que nos encontros cotidianos intervimos sobre o mundo (cuidamos dos outros), intervindo/cuidando de nós mesmos (7). Para o processo de investigação isso tem uma consequência importante, pois evidencia a inseparabilidade entre sujeito e objeto de pesquisa, que se engendram no ato de pesquisar, em um processo de invenção de si e do mundo.

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A ação crítica e implicativa da pesquisa-intervenção produz, em potência, desnaturalizações das práticas instituídas. Coloca-se em análise as práticas cotidianas, as relações, produzindo desterritorialização e permitindo a criação de novas práticas (3).

Entendemos, como Paulon (5) a partir de Nietzsche, que o acontecimento implica sempre uma nova interpretação, um redirecionamento das questões anteriores ao acontecimento. Interessa-nos essa espontaneidade rebelde, que produz diferença, podendo colocar em questão inclusive a própria pesquisa. E é aí que a pesquisa-intervenção interessa à Saúde Coletiva, pois, para operar no plano dos acontecimentos, a pesquisa deve guardar a possibilidade do ineditismo da experiência humana, valorizando as multiplicidades e diversidades existenciais.

A análise é feita pelo analisador, ou seja, por aquilo que permite revelar a estrutura da instituição, forçando-a a falar (8): “o analisador deve substituir o analista” (6). Assim, a pesquisa-intervenção trabalha no sentido de produzir ou identificar possíveis analisadores (9) para que a intervenção se dê.

Na pesquisa-intervenção, a relação pesquisador/objeto pesquisado é dinâmica e determinará os próprios caminhos da pesquisa, sendo uma produção do grupo envolvido. Pesquisa é, assim, ação, construção, transformação coletiva, análise das forças sócio-históricas e políticas que atuam nas situações e das próprias implicações, inclusive dos referenciais de análise. É um modo de intervenção, na medida em que recorta o cotidiano em suas tarefas, em sua funcionalidade, em sua pragmática – variáveis imprescindíveis à manutenção do campo de trabalho que se configura como eficiente e produtivo no paradigma do mundo moderno (10).

Assim, interessará à pesquisa-intervenção os movimentos e mudanças, o acompanhamento de tal processo de diferenciação (11). Isso nos conduz às três inversões no modo de se fazer pesquisa. Então, será necessário orientar-se pelo próprio modo de se fazer pesquisa, o que nos leva a direcionar a pesquisa mais para um fazer-saber do que um saber-fazer (12,13).

Contra o mundo reversível e as ideias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vítima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas (14).

Voltamos à ideia de que pesquisar é intervir, de forma que produzir conhecimento é, indissociavelmente, também transformar a realidade e a nós mesmo. Assim, a intervenção em saúde terá sempre um caráter clínico-político.

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E é isso o que interessa à cartografia, as relações de força e as forças liberadas nessas relações, o que se produz a partir delas. Para isso o pesquisador, em construção, também deve estar permissivo ao atravessamento pelo próprio processo de pesquisar e de cuidar, dando condições de visibilidade e dizibilidade ao que se passa individual e coletivamente nos processos de produção de saúde, de cuidado e de vida (12).

Espera-se do cartógrafo que ele dê passagem aos afetos1, mergulhado às intensidades de seu tempo, devorando qualquer linguagem que o encontre para a composição de cartografias (15).

O cartógrafo é um verdadeiro antropófago: vive de expropriar, se apropriar, devorar e desovar, transvalorado. Está sempre buscando elementos/alimentos para compor suas cartografias. Este é o critério de suas escolhas: descobrir que matérias de expressão, misturadas a quais outras, que composições de linguagem favorecem a passagem das intensidades que percorrem seu corpo no encontro com os corpos que pretende entender. Aliás, "entender", para o cartógrafo, não tem nada a ver com explicar e muito menos com revelar (…) e o que ele quer é mergulhar na geografia dos afetos e, ao mesmo tempo, inventar pontes para fazer sua travessia: pontes de linguagem (15).

Sobre o “entender”: não existe teoria físico-matemática que lhe explique o momento exato de furar ou de pegar uma onda. Também não existe explicação físico-química que dê conta de explicar totalmente como você se apaixona por estas ou por aquelas pessoas. O entendimento das relações não passa por grandes teorias explicativas, passa pela experimentação do que pode um (e cada um) corpo.

O antropófago, índio tupi, é aquele que se alimenta do guerreiro vencido, mas não qualquer guerreiro, apenas os mais fortes e valorosos. Uma seleção pela alteridade, uma ideia da decomposição de outro corpo para compor o seu próprio ainda mais poderoso, com mais potência vital. A orgia alimentar antropofágica deleita-se de quaisquer ingredientes, mas não sem um critério ético imprescindível, apenas são aceitos aqueles que trazem inquietantes ideias revigoradoras da mente. Não é nem adotar um padrão como certo, nem o negar,

1 “por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou

diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções” (37). Nesse sentido spinozano, não há como o cartógrafo nem qualquer outro ser vivo não dar passagem aos afetos.

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“apenas” desloca-lo, mudar de centro. Nos jogos teatrais de improvisação ou na composição de cenas, sob certas perspectivas, não falamos em certo ou errado, buscamos aquilo que funciona ou não como linguagem teatral e na relação com o público, mil maneiras poderiam ser compostas de modo a funcionar. Essa é a seleção do antropófago, vai para a mesa, sem conotação identitária ou hierarquia de valor, qualquer coisa que funcione, que permita passar intensidades e produzir sentidos (16).

Visibiliza-se outro movimento antropofágico caro à cartografia, e à investigação, que o toma como modo de operar. Não existe uma verdade a ser significada, explicada ou interpretada, mas sim mapas de sentido a serem traçados e construídos com o território, com o campo de pesquisa (16). Quando tomamos a construção de redes (da maneira como a hipotetisamos) e os campos com os quais vamos trabalhar (como o Consultório na Rua, as ruas) essas duas operações antropofágicas interessam-nos sobremaneira já que tomam como linha de frente a afirmação da vida, em maiores ou menores graus (mesmo até sua quase negação), movidas por diferentes vetores de força, atualizando diferentes estratégias do desejo (16).

O trabalho e a pesquisa da construção de rede e cuidado na rua, como veremos, demanda não temer contaminar-se, demanda enxergar e querer a singularidade do outro (16). A produção afetiva, de boas relações, é determinante para o que aqui queremos afirmar e é uma das pistas para a construção dessas redes que as ruas apontam. É necessário ter um corpo para ir a campo, um corpo capaz de vibrar às conexões, aos inusitados afetos provocados, capaz de querê-los, enxerga-los e devorá-los, recriando a si mesmo (16).

O cartógrafo, como antropófago, está em campo aberto às múltiplas conexões, na emergência e contato entre os mundos agenciados. “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago” (14). Guiado por alianças e contatos rizomáticos, por uma mestiçagem, não teme perder a si, resguardado pelos princípios éticos de seleção e pela regra de prudência.

“O desafio de uma subjetividade antropofágica é o de se lançar sempre em busca de novos encontros, novas experiências que possam potencializar modos de vida ainda não codificados em extratos dominantes das culturas” (17).

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No contexto do capitalismo, a aquisição de conhecimento e a formação permanente aparecem como obrigação de cada um e conduzem à produção de uma subjetividade e um modo de vida que se encaixa bem na estrutura do mercado globalizado, uma prática antropofágica narcísica, que esvazia a singularidade de quem é devorado, instrumentalizando-o a serviço de interesses particulares (16). Ao tensionar essas práticas, em uma reengenharia dos modos de produção de conhecimento, conferem-se, em potência, resistência aos modelos de “produtividade”. Tal reversão política tensiona os limites de pesquisas, práticas e políticas públicas atuais a uma mudança paradigmática radical, pois se subjetividade é coletiva e cria territórios de vida, a maneira como se expressam nossas relações, neste caso o modo de produção de pesquisas, pode modificar radicalmente nossas redes de vida e trabalho (4).

O problema do antropófago, é o problema da composição. Eis então, que o encontro passa, nesse caso, a ser também imperativo da pesquisa, com intuito de experimentar outras formas de se produzir saberes. A nossa questão, passa a encontrar e ativar uma zona de trocas que torne possível, de acordo com e em diferentes contextos, outros modos de trabalho (4). Falamos aqui de práticas que possam inserir barricadas no tempo, invadir espaços, e ocupar um espaço-tempo intensivo do acontecimento, fazendo as intensidades afetivas atravessarem a instituição, pegá-la no contrapé (18), como, por exemplo, fazer oficinas para discussão dos processos de trabalho, fazendo parte da pesquisa, dentro do próprio processo de trabalho da equipe, atuando como provocação às práticas cristalizadas, colocando em questão modos de fazer e trazendo outras possibilidades de atuação.

As Regras da Prudência ou sobre Ética em investigação

Rolnik (15) sintetiza bem a ética e o cuidado que devem ser adotados ao orientar-se na cartografia como um modo de fazer pesquisa (e porque não, dizer, que de uma ética de qualquer pesquisa?). Primeiro ter como critério “o grau de abertura para a vida que cada um se permite a cada momento” (p.68), tendo assim, um princípio extramoral, a expansão da vida como parâmetro básico e

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exclusivo do processo de pesquisa. De forma que situações e ações que produzam decomposição, afetos de morte, precisam ser revistas e redirecionadas. O que coloca uma regra fundamental: tem que se estar atento ao “limite do quanto se suporta, a cada momento, a intimidade com o finito ilimitado” (p.68), com a desterritorialização, com a intervenção. Há

Um limite de tolerância para a desorientação e a reorientação dos afetos, um ‘limiar de desterritorialização’. Ele [o cartógrafo] sempre avalia o quanto as defesas que estão sendo usadas servem ou não para proteger a vida. Poderíamos chamar esse seu instrumento de avaliação de ‘limiar de desencantamento possível’, na medida em que, afinal, trata-se, aqui, de avaliar o quanto se suporta, em cada situação, o desencantamento das máscaras que estão nos constituindo, sua perda de sentido, nossa desilusão. (...) A regra do cartógrafo, então, é muito simples: é só nunca esquecer de considerar esse ‘limiar’. Regra de prudência (15).

Regra ética essencial para os procedimentos de investigação e que, por isso, merece algumas linhas a mais.

Era uma vez certo casal de irmãos. Orgulho dos pais e da cidade onde moravam. Sim, aprontavam lá suas molequices, para as quais todos faziam vistas grossas, afinal eram bons alunos, conseguiam boas notas. Estavam presentes nas mais diversas atividades, das esportivas às culturais, das beneficentes às festivas. Mas eles tinham um hábito, um hobby, um gosto, muito peculiar... criavam aranhas caranguejeiras! A maior parte das pessoas mal se atrevia a olhar para os terrários onde elas ficavam, quanto mais se aproximar ou alimentá-las.

Certa vez, ele foi para uma cidade no interior do Amazonas desenvolver um projeto relativo à saúde. Era sua primeira vez na grande selva e o espanto que toda aquela vida lhe causou não foi pequeno. Inúmeros insetos incomuns ao seu habitual olhar atento. Inúmeras aranhas, seja na zona urbana, seja na mata. Inofensivas ou perigosas, pequenas ou grandes. E, finalmente, o encontro com uma caranguejeira! Um espécime bonito! Não se conteve! Seria o presente perfeito para sua irmã! Com muita habilidade capturou-a, ainda era pequena. Com uma garrafa de plástico fez uma pequena acomodação para transporta-la. Sim, ele a trouxe para casa e deu, para enorme felicidade de ambos, para a irmã.

A amazônica aranha logo dominou o terrário em que foi colocada, matou as outras duas que já viviam ali calmamente. Seu apetite era voraz! Uma barata, dada às outras aranhas, passeava por um bom tempo pelo terrário antes de virar alimento para um dia inteiro. Para esta, uma barata não bastava, eram necessárias duas no dia, que tinham mortes rápidas sob sua voracidade. Uma aranha forte, com certos tons de agressividade, construiu uma densa teia por todo o seu espaço. E cresceu. Essas aranhas podem crescer muito! Bem, a menina, mais nova, talvez ainda não entendesse muito sobre a biologia

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desses aracnídeos, ou talvez apenas fosse tomada pelo afobamento próprio de sua jovialidade. Espantava-lhe e alegrava-lhe o crescimento de seu animal. Um dia, surpreendeu-se ao acordar e ver que sua aranha tinha feito uma muda. O velho e já pequeno exoesqueleto estava descartado em um canto do terrário. Mais do que rapidamente a voluntariosa menina providenciou um terrário maior.

Sem teia, sem exoesqueleto, sem território, a aranha morreu em meio à confecção de seu novo habitat... exaurida no esforço2

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Assim, Deleuze e Guattari, ao falar sobre a composição de um corpo-sem-órgãos3 (CsO) e a necessidade de prudência, afirmam:

É necessário guardar o suficiente do organismo para que ele se recomponha a cada aurora; pequenas provisões de significância e de interpretação, é também necessário conservar, inclusive para opô-las a seu próprio sistema, quando as circunstâncias o exigem, quando as coisas, as pessoas, inclusive as situações nos obrigam; e pequenas rações de subjetividade, é preciso conservar suficientemente para poder responder à realidade dominante. Imitem os estratos. Não se atinge o CsO e seu plano de consistência desestratificando grosseiramente. Por isto encontrava-se desde o início o paradoxo destes corpos lúgubres e esvaziados: eles haviam se esvaziado de seus órgãos ao invés de buscar os pontos nos quais podiam paciente e momentaneamente desfazer esta organização dos órgãos que se chama organismo. Havia mesmo várias maneiras de perder seu CsO, seja por não se chegar a produzi-lo, seja produzindo-o mais produzindo-ou menproduzindo-os, mas nada se prproduzindo-oduzindproduzindo-o sproduzindo-obre ele e as intensidades não passando ou se bloqueando. Isso porque o CsO não pára de oscilar entre as superfícies que o estratificam e o plano que o libera. Liberem-no com um gesto demasiado violento, façam saltar os estratos sem prudência e vocês mesmos se matarão, encravados num buraco negro, ou mesmo envolvidos numa catástrofe, ao invés de traçar o plano. O pior não é permanecer estratificado — organizado, significado, sujeitado — mas precipitar os estratos numa queda suicida ou demente, que os faz recair sobre nós, mais pesados do que nunca (20).

2 Ficcional, baseado em fatos reais.

3“Eis então o que seria necessário fazer [um CsO]: instalar-se sobre um estrato, experimentar

as oportunidades que ele nos oferece, buscar aí um lugar favorável, eventuais movimentos de desterritorialização, linhas de fuga possíveis, vivenciá-las, assegurar aqui e ali conjunções de fluxos, experimentar segmento por segmento dos contínuos de intensidades, ter sempre um pequeno pedaço de uma nova terra. É seguindo uma relação meticulosa com os estratos que se consegue liberar as linhas de fuga, fazer passar e fugir os fluxos conjugados, desprender intensidades contínuas para um CsO. Conectar, conjugar, continuar: todo um "diagrama" contra os programas ainda significantes e subjetivos. Estamos numa formação social; ver primeiramente como ela é estratificada para nós, em nós, no lugar onde estamos; ir dos estratos ao agenciamento mais profundo em que estamos envolvidos; fazer com que o agenciamento oscile delicadamente, fazê-lo passar do lado do plano de consistência. É somente aí que o CsO se revela pelo que ele é, conexão de desejos, conjunção de fluxos, continuum de intensidades" (20).

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O Corpo-sem-Órgãos é um bom conceito-dispositivo para se discutir pesquisa, clínica e construção de redes, poderia ter sido uma de nossas escolhas conceituais. Está em nossa constelação de conceitos, ainda que não seja central. De toda forma, vale notar que é disso que se trata: conectar, conjugar, continuar, produzir fluxos, produzir um diagrama, significantes e significados. Para a clínica, é refazer uma clínica, um passo para a Grande Saúde (21). Para a pesquisa é conectar múltiplos elementos, não buscando desvendar uma verdade primeira, mas fazendo ver múltiplas perspectivas sobre o problema de manter-se na existência e todos os outros relacionados a esse. Em todos esses âmbitos, também é um cuidar de si.

A questão da prudência é um cuidado primeiro da pesquisa-intervenção, de uma cartografia. Há de se fazer uma permanente análise de qual o nível de questionamento, problematização, enfim, até onde é possível intervir provocando deslocamentos e desterritorialização. O que importa é, antes de tudo, uma afirmação da vida, portanto, não nos interessam movimentos bruscos que provoquem destruição dos parceiros de pesquisa (e de suas relações) que já habitam aquele território investigativo.

Ao tratar sobre os cuidados éticos de uma pesquisa, Ferigato (22) relaciona-os diretamente à cartografia ao atentar que ética em pesquisa tem a ver como modo de produção de conhecimento, entendendo ética como encontrar o melhor modo de viver e conviver. Assim, a pesquisa também é um cuidado.

Cuidado que também temos que ter com os liames burocráticos e institucionais. De tal forma que o projeto deste doutorado foi aprovado em todas as instâncias pertinentes da Secretaria Municipal de Saúde de Campinas, do Serviço de Saúde Candido Ferreira e da Comissão de Ética em Pesquisa, sendo aprovado, por esta, sob o parecer 1.028.025.

Tendo todo este arcabouço em consideração, reenfatizando a reversão metodológica do primado do caminho sobre o das metas (13), a necessidade da análise coletiva (8) e de metodologias coletivas como favorecedoras de discussões e produção cooperativa (3) e o caráter antropofágico do cartógrafo (15), propusemos um desenho, uma estratégia metodológica, para esta pesquisa que também abre espaço para que ela própria seja colocada em questão.

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Por fim, há também um posicionamento ético-político a ser tomado pelo investigador. E sobre isso, Foucault traduz com clareza de que posição falamos: O que os intelectuais descobriram recentemente é que as massas não necessitam deles para saber; elas sabem perfeitamente, claramente, muito melhor do que eles; e elas o dizem muito bem. Mas existe um sistema de poder que barra, proíbe, invalida esse discurso e esse saber. Poder que não se encontra somente nas instâncias superiores da censura, mas que penetra muito profundamente, muito sutilmente em toda a trama da sociedade. Os próprios intelectuais fazem parte deste sistema de poder, a ideia de que eles são agentes da "consciência" e do discurso também faz parte desse sistema. O papel do intelectual não é mais o de se colocar "um pouco na frente ou um pouco de lado" para dizer a muda verdade de todos; é antes o de lutar contra as formas de poder exatamente onde ele é, ao mesmo tempo, o objeto e o instrumento: na ordem do saber, da "verdade", da "consciência", do discurso. E por isso que a teoria não expressará, não traduzirá, não aplicará uma prática; ela é uma prática. Mas local e regional, como você diz: não totalizadora (23).

Levantamento Bibliográfico

Para construir o processo investigativo lançamos mão de diversas ferramentas metodológicas. Uma pesquisa bibliográfica inicial ajudou a aprofundar conceitos e metodologia para ir a campo, o que se expressa neste material desde o prólogo. Todo o processo investigativo é entremeado por uma exploração bibliográfica que dialoga com o que a própria pesquisa e vai se produzindo nessa relação entre pesquisador, parceiros de investigação e o problema abordado. De forma que referências teóricas surgem do começo ao final… pautadas numa ideia de caixa de ferramentas, ou seja, entram na conversa na medida em que servem, funcionam, que dialogam com o campo de pesquisa.

A exploração bibliográfica passa por produções, mas não se atendo a eles, dos campos da Saúde Coletiva, da Psicologia, da Filosofia, da Antropologia, da Análise Institucional e da Pesquisa Qualitativa.

Isso se dá colocando a leitura como gesto, como um exercício de aproximação, de estudo, de aprofundamento nos temas de interesse. Uma abordagem que coloca os textos em diálogo, talvez rizomaticamente, para a

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produção de outras leituras e novos textos (24). Antropofagamos tantas referências, quanto nos sirva à pesquisa. Não buscamos uma repetição identitária, uma saturação, mas sim explorar as diferenciações que se abrem para nós no processo de investigação.

Exploramos, a frente, como entendemos a escrita como mais um processo da pesquisa, como um pesquisar, um produzir conhecimento no próprio momento de escrever. Desse modo, entendemos que o levantamento bibliográfico, a construção de um certo caminho, um roteiro teórico, é também prático. A revisão teórica não só a antecede, mas também é ela própria. Da mesma maneira encaramos que tal procedimento apoia nossos impulsos criativos, não permitindo que certa abordagem, considerada mais “prática”, se torne demasiadamente autorreferente (25) e perca o reconhecimento em aspectos mais abrangentes de pesquisa, incluindo o conhecimento já produzido sobre o tema (26).

Consideramos, portanto, que, em consonância com nossos princípios éticos-políticos anteriormente anunciados, que este levantamento bibliográfico-teórico é também uma pesquisa empírica. Um entendimento que nos remete a Foucault quando em seus trabalhos de campo filosóficos ao ‘invés de procurar justificativas filosóficas abstratas’ em suas investigações busca ‘investigar empiricamente as formas práticas e efetivas através das quais a filosofia produz o nosso mundo’.

Ao tomarmos o texto como um corpo imaterial que encontra com o corpo do investigador, ao ‘agarra-lo’ como uma caixa de ferramenta no qual buscamos produzir bons encontros, nos afetamos e deixamos de ser aquilo que somos afirmando um outro devir. Ao

”defrontarmo-nos com um exercício de aproximações e confrontos com os textos, nos aprofundando e mergulhando nas linhas do nosso interesse – produção-criação-re-criação no ato de ler e escrever” (24).

Trata-se de uma abordagem rizomática dos textos (27), que os coloca em diálogo, em acoplamento. Um diálogo intercessor na qual a intercessão, segundo Carvalho et al. (24).

Se dá quando a relação que se estabelece entre os termos que se intercedem é de interferência, de intervenção através do atravessamento desestabilizador de um domínio qualquer (disciplinar, conceitual, artístico, sócio-político, etc.) sobre outro.

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A relação de intercessão é uma relação de perturbação, e não de troca de conteúdos. Embarca-se na onda, ou aproveita-se a potência de diferir do outro para expressar (28).

Uma compreensão que convalida a afirmação de que a teoria – na qual o texto escrito constitui uma de suas múltiplas concretudes - ‘não expressará, não traduzirá, não aplicará uma prática; ela é uma prática’ (23)!. Uma prática discursiva que nos transforma, um discurso-texto que é, em última instância, é uma força (i)material que busca conduzir a conduta dos sujeitos em relação.

As relações de poder que se estabelecem entre o discurso escrito e o leitor pesquisador constitui, em nosso entendimento, uma possibilidade de exercício disciplinar e normatizador mas, também, de afirmação de práticas de liberdade e linhas de fuga daquilo que barra, proíbe e invalida discursos e saberes que afirmam a vida no limite de suas possibilidades.

Diários de Campo

A entrada no campo não é algo que possa ser feita levianamente, há cuidados a serem tomados. Entendo que entrar no campo nunca é uma atitude inerte que apenas recolhe dados para pesquisa. Essa entrada é interventora e coprodutora do próprio campo. Reconhece-se aqui, que todos, de uma ou outra maneira, estamos implicados em qualquer atividade que exerçamos (13). A ideia de implicação (e sobreimplicação) deriva da Análise Institucional francesa. Diante da noção de corpo e de singularidade com que trabalhamos nesta pesquisa (abordada em outro momento), nos faz pouco sentido apoiar-nos em uma ideia de implicação individualizante, calcada apenas nos movimentos do pesquisador, aqui diferenciamos. O duplo estatuto pesquisador-trabalhador, o pesquisador também tem uma inserção como médico na mesma equipe em que ocorre parte do campo de pesquisa, por um lado garante a permeabilidade ao cotidiano do trabalho, por outro acrescenta complexidade à tarefa de dar visibilidade a certos processos. O que nos leva a lançar mão de discussões com o grupo de pesquisa para fazer análise do material produzido a partir do diário como parte do trabalho com este método.

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É fundamental que façamos uma análise de nossas implicações em atividades como pesquisas e intervenções buscando refletir e assinalar o lugar que se ocupa, que se busca ocupar e que somos designados a ocupar (11). A despeito do que dialogamos acima, sobre o que entendemos por implicação, cuja análise se dará ao longo dos capítulos, conforme cada situação de pesquisa seja discutida, convém, também, dizer de onde escrevo e por onde passei para chegar a este produto-tese.

Inicio esse doutorado em 2012, provocado pelo trabalho de apoiador da Política Nacional de Humanização, pelo Ministério da Saúde, neste momento desenvolvíamos trabalhos no estado de São Paulo visando o fortalecimento das redes regionais intermunicipais, de tal forma que apoiávamos, predominantemente, as áreas adscritas por Comissões Intergestoras Regionais. Em seguida, buscando dedicar mais tempo ao doutorado, saio desta função e passo a perceber uma rede municipal de saúde a partir de plantões dados em um Pronto Socorro de Campinas. Daí parto rumo a um estágio sanduíche em Barcelona/Espanha, buscando aprofundar a discussão sobre metodologia qualitativa e sobre redes, experimentando um pouco de um outro tipo de construção de rede municipal.

Por fim, ao retornar a Campinas, inicio trabalho com uma equipe de Consultório na Rua, a partir da qual decidimos realizar um trabalho de campo empírico deste doutorado. O referencial teórico aqui utilizado vem sendo aprofundado desde a Residência Médica em Medicina Preventiva e Social, quando já participava de investigação sobre Ensino Médico e de coletivo de pesquisa que desenvolvia leituras e pesquisas baseadas na filosofia pós-estruturalista.

Neste sentido, operando este cuidado, o diário de campo poderá servir como ferramenta para expressar e dar visibilidade, a movimentos de aproximação e de distanciamento do campo de pesquisa (29), podendo revelar as implicações do investigador neste processo de trabalho/pesquisa, seja no momento em que ele retoma suas anotações e faz o ordenamento daquilo que escreveu, seja no momento em que torna público seu escrito(6).

Assim, vemos o uso do diário de campo como uma aposta de ter na escrita uma forma de dar visibilidade, de fazer falar, de fazer contar, de trazer algo que

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é pessoal, mas que pode se extrapolar e trazer outras coisas à cena. Aparece como uma ótima ferramenta, no referencial teórico-metodológico de pesquisa qualitativa no qual estamos trabalhando, para fazer um acompanhamento de processos na/da vida real na análise das linhas de forças (relações de poder e vetores de produção de subjetividade) (30).

Observação, produção de dados e análise de implicação são movimentos simultâneos que se entrelaçam, aqui, com especulações, projeções e construções teóricas para conformar a existência do diário da pesquisa. Este diário é, nas palavras de Lourau (6), uma “narrativa (...) ao mesmo tempo anterior, presente e futura”, é a produção de um texto “erudito” com a projeção e os esboços do que está para ser descoberto.

A possibilidade de releitura das notas do diário traz acréscimos à autorreflexão e à auto avaliação a partir dessa (re) construção à distância em relação ao vivido ou ao objeto de pesquisa. Ao realizá-la é que se pode fazer uma reflexão sobre a prática e servir de fonte para trabalhar a congruência entre teoria e prática – ainda que para nós teoria e prática não se dissociem – um conceito só serve se ele opera na prática. É no momento em que se constrói essa “distância” que o diário pode ser considerado um instrumento para a pesquisa científica, tanto quanto serviria para a coleta de dados (31), ou, poderíamos dizer, instrumento para a expressão da produção dos dados no campo de pesquisa.

Sem negar a utilidade que o diário pode, em qualquer situação, ter para seu autor, Hess afirma que a utilização do mesmo pode servir a outros sujeitos e esferas da vida social. Assim, o diário pode tornar-se uma ferramenta coletiva de análise de uma determinada situação ou problema. Para isto é importante que o esforço de sua leitura seja empreendido por um grupo que busque, nas suas reflexões, vivenciar e entender conflitos e contradições em oposição a uma postura de recusa das mesmas (32). E é assim que o diário tem o potencial de se caracterizar como dispositivo que explicite as linhas de força e de tensão, o texto, o contexto e o extratexto de uma dada situação social que, ao serem expostas, afetam e deixam-se afetar, produzem e transformam a realidade (33). Escrever é a composição de paisagens e enunciados que se atualizam ao

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passarem pela mão do autor. É a tradução de histórias, da descoberta, do novo, revelado em ato (34).

O trabalho da reescrita, ou seja, a tentativa de tornar compreensível para outros leitores todas as anotações feitas no calor do vivenciado, é complexo. O processo de criação que se dá ao se contar aqueles momentos não é isento de “interpretações”, ao se escrever é inevitável a busca por explicações, tentativas de compreensões, trazendo para fora puro devir (34). Escrever, ou refazer o passado no presente, é uma ação de trazer à superfície certa vontade ou ato de vir a ser, de transformação. Por sua vez é na (re) leitura, feita por aqueles que não são autores do material, que se dá o processo de intervenção, de análise, de clareamento das relações instituídas. É também na releitura que o método pode se tornar coletivo, caso haja, neste processo, um esforço conjunto para fazer saltar concepções coletivas sobre a instituição, um processo ativo de compreensão, e não de recusa, das contradições postas às vistas (32).

Para nós a escrita não é “apenas” um modo de registro da investigação, uma ferramenta, ela é mais um modo de pesquisar que se compõe com os demais. É o correr por uma página para descobrir o que virá na seguinte, na construção antropofágica dos diversos elementos que constituem a pesquisa e o pesquisador. O conhecimento se produz no escrever, tanto quanto o pesquisador e tanto quanto este mesmo se modificou e produziu reflexões na vivência do campo. Esses diversos aspectos, na vida, não podem ser separados.

Interpolação de olhares – a escrita como um registrar, intervir e

pesquisar

"Por eso mi pluma se puso a correr en un determinado momento. Corría a su encuentro; sabía que no iba a tardar en llegar. La página tiene su bondad sólo cuando la pasas y está detrás la vida empujando y descomponiendo todas las hojas del libro. La pluma corre impulsada por el mismo placer que te hace correr los caminos. El capítulo que empiezas y aún no sabes qué historia contará es como la esquina que doblarás al salir del convento, que no sabes si te pondrá frente a un dragón, una banda berberisca, una isla encantada, un nuevo amor." sor Teodora. (35)

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Habitando esse território investigativo, em um plano de intensidades onde pulam freneticamente experiências variadas anunciando um campo de forças em torno do problema de pesquisa, fica sempre a questão sobre como dar letras e linhas a esse furor vívido do vivido.

Encontramos na escrita performática um caminho, uma pista sobre como escrever uma cartografia, ou mesmo uma pesquisa, diria talvez mesmo uma literatura. A escrita precisa de movimento, tanto quanto a música de silêncio ou a dança de pausas (36). É preciso que a escrita dê passagem a intensidades, a afetos, a emoções do vivido. Sempre começamos nossa escrita, nos mais diversos pontos, não apenas no começo, por aquilo que flui, por aquilo que dá passagem ao que percebe nosso corpo vibrátil naquele momento.

Escrever significa então, também pensar sobre o movimento das palavras, das letras, em uma variação relacional e gradual (36), prudentemente não se pode compor-se apenas de “movimento” e, por outro lado, o próprio movimento também é feito de pausas, estar em “perfeito descanso” ainda é mover-se (25). Assim, a escrita também é um corpo (na definição de corpo que veremos em outro capítulo), composto de relações que se fazem e desfazem-se, variações de movimento e repouso, variações de intensidades (37–39).

Se vamos trabalhar nessa lógica, entendemos que o trabalho da escrita é um trabalho conectivo permanente, a fazer-se e refazer-se. De tal forma, como ainda reenfatizaremos várias vezes, consideraremos a escrita como, por si mesma, fazendo parte da pesquisa. Terá um papel fundamental na investigação seja como validação (40) ou como método da investigação que se produz a partir de sucessivos movimentos de autorreflexão. Isso se coloca como um desafio ao pesquisador, ao cartógrafo. Como tornar-se capaz de expressar a força da experiência, que possibilidades de escrita poderemos explorar para fazer saltar ao leitor a intensidade do vivido?

Muitas vezes, a escrita formal e a linguagem discursiva mostram-se insuficientes, sendo necessária abertura para performances, vídeos, fotografias e outras formas de linguagem (12). A escrita nos deixará saber a importante questão: os afetos estão ou não podendo passar e como (15)?

“Não há modelo para se produzir a escrita literária de uma subjetividade antropofágica. Assim como não pode haver exemplo para se construir um modo de vida. A concepção de tal

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escrita só pode funcionar como uma sugestão, um convite para se entregar aos devires e escapar à representação” (17) Sem nenhum pudor lançaremos mão, antropofagicamente, de qualquer que seja o dispositivo, estímulo, que dê passagem a esses afetos, que nos apoia a dar palavras ao que precisa ser dito e associado para a construção do conhecimento, para dar expressão e produzir modos de vida.

A linguagem, enquanto força constitutiva, produz significado e cria realidade social. Nesta concepção, o processo e o produto da escrita estão profundamente imbricados, não podem ser separados, de maneira que o modo de produção, o produtor e o método de conhecimento também não podem ser separados (40). Retomamos a ideia de que intervimos para conhecer, ou melhor, que intervir e conhecer são processos que se dão simultaneamente. Aqui Deleuze e Guattari trazem-nos uma pista interessante ao afirmar que escrever nada tem a ver com significado, mas com um cartografar, mesmo em se tratando de regiões ainda por vir (27).

Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida. É um processo, ou seja, uma passagem de Vida que atravessa o vivível e o vivido. A escrita é inseparável do devir…(41). Com as várias técnicas de investigação que uma cartografia pode lançar mão, teremos a produção de vasto e rico material, não queremos aqui trabalhar com uma ideia de interpretação destes “dados”. Queremos discutir como trabalhar com o material produzido em campo e traduzir toda a processualidade para um texto que não apenas possa dar retorno, ou continuar intervindo, ao grupo participante da pesquisa, mas que também sirva (e force o sentido) aos próprios requisitos acadêmicos. Um texto que seja investigação por si e que também possa escapar por aquilo que não foi escrito através daquilo que foi coletado, que seja um caminho para pensar e também para analisar (40).

Nesta perspectiva propomos a “Interpolação de Olhares” como uma atividade de pesquisa e um modo de escrita. Uma forma de apresentar e reconstruir uma narrativa a partir dos fragmentos de falas, opiniões e apontamentos diversos, que se cruzam, inclusive, com as considerações feitas pelo autor do texto.

A relatividade do espaço e do tempo tem sido imaginada como se dependesse da escolha de um observador. É perfeitamente legítimo incluir o observador, se ele facilita as explicações. Mas

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é do corpo do observador que precisamos, não da sua mente (42).

É uma escrita que percorre um caminho em que conexões fortuitas podem acontecer, até mesmo fora de controle, já que o pensamento também ocorre no ato de escrever. Qualquer ponto, qualquer fala, qualquer conversa pode se conectar com qualquer outra, de diversas maneiras, em uma conexão singular, no percurso da produção (ou contestação ou reafirmação ou negação…) de uma ideia. Talvez um trabalho rizomático (40).

Exploraremos o conceito “rizoma” em outro texto, aqui cabe pontuar o que nos interessa do rizoma enquanto método (ou anti-método). Este coloca o pensamento remetendo-o à experiência, uma decisão que nos coloca três consequências: pensamento não é representação, é efeito real que desloca vida e pensamento; não tem relação com uma gênese, com um começo, o pensamento dá-se no meio dos processos da vida; por fim, todo encontro é possível e não pode ser desqualificado a priori, o que não significa que não será selecionado pela experiência. Quer-se dizer que nem todo encontro é interessantemente produtivo, faz parte da experiência do pensamento, da exploração cega da experimentação, discernir entre o útil e o improdutivo. Não se colam quaisquer coisas, quaisquer camadas, o rizoma tem a “crueldade do real, e só cresce onde efeitos determinados têm lugar” (43).

Retomando, aquelas autoras já propuseram exercício semelhante, seria o “texto em camadas”, no qual se produz uma pequena narrativa onde vai se inserindo elementos teóricos, diferentes teorias, múltiplos interlocutores, podendo-se produzir um texto em diferentes caminhos. “A escrita é um campo de jogo onde qualquer coisa pode acontecer – e acontece” (40). Esse trabalho de escrita pode desmistificar o próprio processo de investigação, em um trabalho de aproximação e confrontação dos textos produzindo uma mudança metodológica na qual não se busca representar o mundo, mas sim apresentá-lo (24).

O Animal é um ser à espreita…

O escritor está à espreita, o filósofo está à espreita (44).

Na “Pesquisa Avaliativa sobre a Gestão do Trabalho e a Formação de Graduandos e Trabalhadores de Saúde: explorando fronteiras”, Carvalho (45) e equipe indicam, em seu relatório final, o que queremos aqui dizer ao relatarem o processo de construção de narrativas a partir das falas que emergiram dos

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grupos de discussão para retorna-la aos grupos participantes da pesquisa. Lembram que era necessário um cuidado com a escrita para que o leitor não a tomasse como uma interpretação dos pesquisadores sobre os argumentos lançados na conversa, de forma que optaram por transcrição literal de diversos trechos para a composição dessas narrativas. Escrever, pesquisar, é cuidar e demanda certa prudência.

Talvez pensar uma triangulação metodológica não seja suficiente para essas pesquisas. Desestruturando, vamos desconstruindo uma ideia de validação dos achados, de um ponto fixo ou de um objeto no qual incidem luzes advindos de três diferentes lados (40). Desconstruímos essa estrutura ao pensarmos que talvez os objetos sejam múltiplos, assim como os problemas são múltiplos. Não triangularemos, interpolaremos. Desdobrando… queremos trazer para a pesquisa a ideia perspectivista de que não é um ponto de vista que cria um objeto, mas sim o agenciamento sujeito-ponto de vista(46). Desmontamos a ideia de uma questão a priori, de um conhecimento já dado, para habitar um campo de investigação em que reconhecemos que os problemas postos à vida são diferentes, ou, colocando na forma de pergunta, a que problema (e de quem) o que percebemos está respondendo?

O que a antropologia, nesse caso, põe em relação são problemas diferentes, não um problema único (‘natural’) e suas diferentes soluções (‘culturais’). A “arte da antropologia”, penso eu, é a arte de determinar os problemas postos por cada cultura, não a de achar soluções para os problemas postos pela nossa (42).

Entendendo que o afeto experimentado por um corpo fala muito mais da natureza do corpo afetado do que daquele que o afeta (37), uma fala expressa a maneira como determinado corpo resiste ao que lhe ocorre, como ele resolve um problema posto a sua existência. Assim, entendemos que cada fala expressa a maneira como cada uma das posições (ou categorias) colocadas nesse estudo resolve o problema de perseverar em ser diante da situação em que estão inseridos (47).

Um encontro entre diversos trabalhadores, com usuários e/ou gestores, de alguma maneira assumindo um desafio de produzir saúde (o que por si só pode ter uma multiplicidade de significados para os envolvidos nesses processos

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produtivos) coloca diversos problemas para conversar, trata-se da criação de conceitos para colocar em ressonância essa heterogeneidade.

De toda maneira, colocar essas pessoas em relação e colocar questões sobre isso desestabiliza alguma formulação cristalizada abrindo espaço para novas construções. Um momento de desmanchar e despir máscaras, para descobrir não um rosto, qualquer verdade primeira, mas a necessidade de criar novas máscaras. Descobrir que atrás da máscara só há um tipo de força e de vontade: a de criar máscaras (15). Produção de outras formas de ser e de estar.

Conhecer para Espinosa é o caminho para aumentar nossa potência de agir, saber mais sobre nós e estarmos mais ativos e criativos. Não conhecer nossas causas internas nos distancia de nosso impulso espontâneo para perseverar na existência, do movimento intrínseco a nós, e nos coloca numa posição vulnerável, numa submissão às causas externas, diminuindo nossa potência de agir, nos tornando passivos. Então somos um grau de potência, definido por nosso poder de afetar e de ser afetado, e não sabemos o quanto podemos afetar e ser afetados, é sempre uma questão de experimentação (37). Assim, não queremos “desvendar” qualquer verdade geral ou genérica. Entendemos que os problemas colocados pelos diversos envolvidos na problemática estudada (neste caso, a produção de redes) são diversos. Não são, necessariamente, pontos de vista diferentes sobre o mesmo problema, mas sim, problemas diferentes (48).

Todos os serem veem ("representam") o mundo da mesma maneira - o que muda é o mundo que eles veem (49).

Viveiros de Castro traz esse debate a partir da discussão da Cosmologia Ameríndia, do perspectivismo ameríndio, mas podemos trazer para “mais perto” de nosso cotidiano esse debate. Ainda pegando extremos, não é difícil perceber, em um dia de trabalho junto a uma equipe de Consultório na Rua, que o mundo percebido por aqueles e aquelas que habitam praças, marquises, terminais de ônibus, esgotos, prostíbulos, terrenos baldios, imóveis abandonados é completamente diferente do percebido pelos que vivem em suas casas e confortáveis camas. O problema da sobrevivência é outro, o problema do vício é outro, da comida, do sono, da saúde, da vida.

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Em certa conversa, Márcia4, travesti, vivendo na rua desde os 8 anos de idade, atualmente já passada dos 30 anos de idade, informa-nos outras nuances disso: “uma coisa sou eu vivendo na rua. A única ideia de família que tenho é essa aí, que tá na rua, outra coisa é seu Joaquim, que vem pra rua aos 50! Não dá para vocês acharem que a gente vive na rua do mesmo jeito! ”. E se vamos buscar detalhar as nuances, valorizar as diferenças, percebemos que, em muitos aspectos, o mundo de uma pessoa com diabetes é diferente do de uma pessoa com depressão, ou de uma considerada hígida e assim por diante. Seria, então, a pesquisa (e a clínica) um aproximar de mundos, buscando visibilizar, valorizar, a riqueza de suas diferenças para entender (ou sentir) os diferentes problemas que os permeiam.

De tal forma que confiamos na metodologia apresentada para a desestabilização destes problemas já que “O outrem para mim introduz o signo do não-percebido naquilo que percebo, determinando-me a apreender o que não percebo como perceptível para outrem” (50). Ou seja, tangenciamos aqui uma ideia de que o sujeito não é causa, mas sim resultado de uma relação da qual ele é interior, de forma que outrem não é um ponto de vista, mas sim o próprio conceito de ponto de vista, a possibilidade de que ele exista (48). “Será sujeito quem se encontrar ativado ou ‘agenciado’ pelo ponto de vista”(42). Mais do que isso, outrem, como estrutura perceptiva também nos coloca outras possibilidades de existências, um acontecimento por vir, todo um campo de virtualidades e potencialidades a se atualizarem a qualquer momento (21).

Isso desloca-nos do procedimento de saber em que conhecer é objetivar para um procedimento em que conhecer demanda personificar, tomar o ponto de vista daquilo que precisa ser conhecido. Levando à necessidade não de suprimir a intencionalidade, mas de apresentá-la ao máximo tornando cada fato uma ação expressiva de estados ou predicados de algum agente (42). Retornamos ao começo do capítulo reforçando a afirmação de que pesquisador e objeto não são dissociáveis. E refazendo a pergunta de linhas acima, a que problema posto a vida tais pontos de vista respondem?

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Na interpolação de olhares vamos exercitar o constante cruzamento de ideias, produzindo camadas não retilíneas, rizomáticas, entre os materiais de pesquisa produzidos. Seguimos apresentando o outrem. Reafirmando não um relativismo, mas um perspectivismo, em que “a verdade do relativo é a relação” (48). Percebendo que não há apenas um objeto sobre o qual “lançar luzes”, mas múltiplos problemas e que mesmo um objeto que recebe luzes de diversos pontos, comportar-se-á como um cristal, refletindo fragmentos de luz para lugares não pensados(40).

Existe somente um olhar respectivo, um conhecer perspectivo; e quanto mais afetos nós deixamos transparecer a respeito de uma coisa, quanto mais olhos diferentes sabemos empregar para uma e mesma coisa, tanto mais completa se torna a compreensão desta coisa, a nossa “objetividade”(51).

A escrita acompanha o processo de pesquisa, tentando produzir em si mesma uma zona de trocas, colocando os diversos grupos de interesse para dialogar através do texto e, quem sabe, começando a tangenciar conceitos em comum para os distintos problemas ressaltados pela clareza da diferença posta à mesa. O próprio texto produzirá um relacionamento entre as diversas entidades, não uma ideia de análise ou de exame, também produzindo um efeito de aproximação entre pretensos pesquisadores e supostos pesquisados (48).

Parece-nos bastante coerente com todo este referencial que todo o material produzido, de uma escrita intuitiva e ao mesmo tempo comprometida com a produção de conhecimento, deva ser apresentado aos participantes, ou diria, coprodutores, da pesquisa. Um movimento que por si só produziria até mesmo outras pesquisas – outros diários, oficinas etc. – outros textos…

Não temos o direito de viver isolados. Não nos é permitido enganar-nos isoladamente, nem encontrar isoladamente a verdade. Ao contrário, assim como é necessário que uma árvore dê frutos, assim nós frutificamos ideias, apreciações: e o nosso “sim” ou “não”, nossos porém e ser desenvolvem-se, aparentados e relacionados, como testemunhas de uma vontade, de uma saúde, de uma terra, de um sol (51).

O exercício de pesquisar escrevendo, aqui realizado, usa múltiplas fontes de inspiração e de experiência, como já mencionamos. Buscamos, com a própria pesquisa, conectar distintos saberes e posições, acionando diversos olhares para problemas que vamos levantando no percurso investigativo. Isso não é feito aleatoriamente, lançamos mão de diversas ferramentas. Uma delas é a revisão

Referências

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