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TC-MatemáticacomoArte

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Academic year: 2021

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MATEMÁTICA COMO ARTE 

John William Navin Sullivanin 

   "The World Of Mathematics".   Washington: Tempus Books.   Volume III, pp. 1989‐1995.    O prestígio de que gozam os matemáticos em todos os países civilizados não é fácil de  entender. O que é valorizado pela generalidade dos homens ou é útil ou dá prazer, ou ambas  as  coisas.  A  agricultura  é  sem  dúvida  uma  ocupação  válida,  assim  como  tocar  piano.  Mas  porque  serão  as  atividades  dos  matemáticos  consideradas  importantes?  Pode  dizer‐se  que  a  matemática  é  válida  pelas  suas  aplicações.  Todos  sabemos  que  a  civilização  moderna,  numa  extensão sem precedentes, depende da ciência e, grande parte, essa ciência seria impossível  na  ausência  de  matemáticas  altamente  desenvolvidas.  Isto  é  sem  dúvida  uma  consideração  importante.  É  também  verdade  que  a  matemática  tem  beneficiado  com  a  crescente  importância atribuída à ciência como conseqüência das "magníficas" capacidades reveladas na  última guerra. Mas é duvidoso que esta consideração por si só seja adequada para explicar a  elevada  posição  que  a  matemática  tem  tido  ao  longo  de  grande  parte  da  sua  história.  Por  outro lado, não parece que possamos atribuir muita importância à idéia defendida por muitos  matemáticos  de  que  a  sua  ciência  é  uma  arte  deliciosa.  Esta  afirmação  é  sem  dúvida  justificada.  Mas  o  fato  de  que,  muito  poucos  indivíduos  retirem  grande  prazer  em  incompreensíveis projetos não é razão para que o homem comum os deve admirar e suportar.  O  professorado  do  xadrez  não  está  estabelecido,  mas  existem  provavelmente  mais  pessoas  que apreciam as "belezas" do xadrez do que as da matemática. A posição atualmente atribuída  à matemática pelo público não matemático deve‐se em parte à utilidade da matemática e em  parte à persistência, numa forma mais ou menos vaga, de idéias idosas e erradas relativas ao  seu real significado. Apenas em tempos mais recentes, o correto estatuto da  matemática foi  descoberto.  Contudo,  existem  ainda  muitos  e  aspectos  importantes  desta  maravilhosa  atividade que continuam misteriosos.  

      É  provável  que  a  matemática  tenha  surgido  com  Pitágoras.  Não  há  nenhuma  evidência  de  que  a  atividade  a  que  chamamos  raciocínio  matemático  fosse  reconhecida  e  praticado  antes  de  Pitágoras.  É  certo  que  alguns  resultados  aritméticos  seriam  há  muito  conhecidos. Mas nem a geometria nem a álgebra tinham sido criadas. As fórmulas geométricas  utilizadas  pelos  antigos  egípcios,  por  exemplo,  tinham  fundamentalmente  a  ver  com  problemas de sobrevivência e eram obtida de forma empírica. Estavam em geral erradas e não  eram  acompanhadas  por  demonstrações.  É  estranho  que  esta  particular  possibilidade  da  mente tenha sido descoberta tão tarde, pois é completamente independente de circunstâncias  externas.  Até  a  música,  a  mais  independente  usualmente  chamadas  de  artes,  é  mais  dependente do ambiente que a matemática. Contudo, tanto a música como a matemática, as  duas  mais  "subjetivas"  criações  humanas,  foram  particularmente  tardias  e  lentas  no  seu  desenvolvimento.  E  assim  como  nos  é  impossível  entender  o  que  a  música  rudimentar  significava para os gregos, igualmente é impossível compreender as dificuldades da mente pré‐ matemática.  O  entusiasmo  musical  de  Platão  está  tão  distante  de  nós  como  as  dificuldades  demonstradas  por  aquele  Imperador  Chinês  que  não  conseguia  ser  convencido  por  demonstrações abstratas de que o volume de uma esfera varia consoante o quadrado do raio.  Teve  várias  esferas  de  diferentes  tamanhos  cheias  de  água  e  pesadas.  Esta  era  a  sua  concepção  de  demonstração.  E  isto  deve  ter  sido  típico  no  pensamento  antigo.  Menosprezaram  uma  faculdade  assim  como  os  Gregos  menosprezaram  o  sentido  de  harmonia.  

       Não é pois surpreendente que, quando a mente toma conhecimento pela primeira  vez  deste  insuspeito  poder,  não  tenha  compreendido  a  sua  verdadeira  natureza.  Aparentou 

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ser muito mais significativo, ou pelo menos, significativo de maneira diferente do que era na  realidade.  Para  os  Pitagóricos,  deslumbrados  pelo  charme  estético  dos  teoremas  que  descobriram, o número tornou‐se o princípio de todas as coisas. O número era suposto ser a  verdadeira  essência  do  real.  Tudo  o  que  podia  ser  previsto  eram  aspectos  do  número.  O  número um é, neste sentido, aquilo que chamamos de razão, porque a razão é invariável e a  verdadeira essência da invariabilidade é expressa pelo número um. O número dois, por outro  lado,  é  ilimitado  e  indeterminado.  A  "opinião"  é  a  expressão  do  número  dois.  A  essência  do  casamento é expressa pelo número cinco, porque cinco se alcança pela combinação de três e  dois, sendo que o primeiro número é masculino e o segundo é feminino. O número quatro é a  essência  da  justiça,  pois  quatro  é  o  produto  de  iguais.  Para  compreender  esta  perspectiva  é  necessário  entrar  nessa  condição  mental  em  que  as  analogias  representam  a  realidade.  Estranhas  expressões  como,  masculino  e  feminino,  claro  e  escuro,  reto  e  curvo,  tornaram‐se  então  expressão  de  algum  princípio  profundo  de  oposição  que  constitui  o  mundo.  Existem  diversos  escritores  místicos  e  semi‐místicos  nos  nossos  dias  que  conseguem  pensar  desta  maneira e é necessário admitir que não é fora do comum encontrar pensamentos destes, de  outra  maneira  ortodoxos,  que  conseguem  adotar  este  tipo  de  raciocínio  sem  qualquer  desconforto.  Até  Goethe  no  Farbenlehre,  considera  que  o  triângulo  tem  um  significado  místico.  

      Enquanto  o  verdadeiro  estatuto  lógico  das  proposições  matemáticas  permaneceu  desconhecido  foi  possível  que  diversos  matemáticos  conjeturassem  que  eles  tinham  algum  relacionamento  profundo  com  a  estrutura  do  universo.  As  proposições  matemáticas  eram  supostas  ser  verdadeiras  independentes  das  nossas  mentes  pressuposto  a  partir  do  qual  foi  deduzida  a  existência  de  Deus.  Na  realidade  esta  doutrina  era  um  refinamento  das  fantasias  Pitagóricas,  defendida  por  muitos  que  não  acreditavam  nas  propriedades  místicas  dos  números. Mas a visão místico dos números continuou a florescer durante muitos séculos. Até  Santo Agostinho, quando se referiu à perfeição do número seis, disse:   "seis é um número perfeito em si mesmo, e não por causa de Deus ter criado todas as  coisas em seis dias. Da mesma maneira, a tese inversa segundo a qual Deus criou as coisas em  seis dias por seis ser um número perfeito, também não é verdadeira porque seis continuaria a  ser perfeito mesmo que o trabalho dos seis dias não existisse".        Com base em especulações deste tipo, a doutrina Pitagórica desenvolveu‐se, por um  lado,  de  forma  respeitável,  numa  filosofia  das  verdades  necessárias,  por  outro  lado,  em  imbecilidades cabalísticas. Muito bons matemáticos tornaram‐se cabalistas. O famoso Michael  Stifel,  um  dos  mais  aclamados  algebristas  do  século  XVI,  considerou  que  a  parte  mais  importante do seu trabalho foi a interpretação cabalística dos livros proféticos da Bíblia. Este  método granjeou um grande prestígio, como se pode verificar pela crença generalidade de que  o mundo iria profeticamente ter o seu termino em 3 de Outubro, de 1533. O resultado foi que  muitas pessoas abandonaram as suas habitações e gastaram os seus bens tendo constado que,  quando a data chegou e passou, estavam arruinados. Figuras geométricas como o polígono em  estrela, eram supostas ter um profundo significado. Mesmo Kepler, após demonstrar as suas  capacidades matemáticas com perfeito rigor, continua explicando o seu uso como amuletos e  conjuras.  Pode  encontrar‐se  outro  sinal  da  persistência  desta  forma  de  olhar  as  entidades  matemáticas  nos  primórdios  do  desenvolvimento  das  séries  infinitas,  que  foi  amparado  pelo  exagero  atribuído  às  operações  matemáticas.  De  tal  forma  que,  no  tempo  de  Leibnitz,  se  acreditava  que  a  soma  de  um  número  infinito  de  zeros  era  igual  a  ½,  e  se  tentava  que  esta  óbvia  idiotice  fosse  plausível  dizendo  que  era  a  analogia  matemática  da  criação  do  mundo  a  partir do nada.  

       Existem  evidências  suficientes  da  existência  de  uma  tendência  muito  ampla  para  atribuir significado místico às entidades matemáticas. E existem diversos indícios de que esta  tendência  persiste  mesmo  nos  nossos  dias.  É  possível  que,  na  altura,  o  prestígio  dos  matemáticos não fosse desassociado do prestígio usufruído pelos mestres do oculto. A posição  atribuída aos matemáticos tem sido, em grande parte, devida às superstições da humanidade, 

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embora  sem  qualquer  dúvida  ser  justificada  de  forma  racional.  Durante  um  longo  período,  particularmente  na  Índia  e  na  Arábia,  os  homens  tornavam‐se  matemáticos  para  serem  astrônomos e tornavam‐se astrônomos para serem astrólogos. O objetivos das suas atividades  era  a  superstição,  não  a  ciência.  Até  mesmo  na  Europa,  e  durante  muitos  anos  depois  do  princípio  do  Renascimento,  a  astrologia  e  assuntos  semelhantes  eram  importantes  justificações  para  as  pesquisas  matemáticas.  Já  não  acreditamos  na  astrologia  ou  hexágonos  místicos,  mas  ninguém  que  tenha  conhecimento  da  imaginação  de  algumas  pessoas  não  ligadas à ciência, pode deixar de suspeitar que o Pitagorismo ainda não está morto. Quando  consideramos  a  outra  justificação  da  derivação  da  matemática  pelo  olhar  dos  Pitagóricos  ‐  a  sua justificação com base no fato de que ela oferece os mais claros e indiscutíveis exemplos de  verdades  necessárias  ‐  encontramos  esta  perspectiva  longe  de  extinta,  admitida  ainda  por  eminentes professores de lógica. E, no entanto, a geometria não euclidiana, com já um século  de  vida,  mostrou  que  essa  perspectiva  era  bastante  indefensível.  Este  ponto  de  vista  é  bem  expresso por Descartes, numa famosa passagem da suas Quinta Meditação: 

"eu  imagino  um  triângulo  e,  ainda  que  uma  tal  figura  não  exista  em  nenhum  lugar  do  mundo fora do meu pensamento, nem tenha já mais existido, não deixa de existir uma certa  natureza ou forma, ou essência determinada dessa figura a qual é imutável e eterna, que eu  não inventei e que não depende de nenhuma maneira do meu espírito. Assim se explica que se  possam demonstrar diversas proposições desse triângulo, a saber que os seus três ângulos são  iguais a dois retos, que o maior ângulo é correspondeste ao maior lado e outras semelhantes  as  quais  quer  eu  queira  ou  não,  reconheço  muito  claramente  e  muito  evidentemente  pertencerem  ao  triângulo  ainda  que  eu  nunca  tenha  pensado  nisso  de  nenhuma  maneira  quando imaginei pela primeira vez um triângulo, sendo portanto impossível dizer que eu fiz ou  inventei essas propriedades." 

       Um  triângulo,  segundo  Descartes,  não  depende  de  forma  alguma  de  uma  mente,  tem  uma  existência  eterna  completamente  independente  do  nosso  conhecimento.  As  suas  propriedades  são  descobertas  pela  nossa  mente  mas  não  dependem  de  forma  alguma  dela.  Esta  forma  de  encarar  as  entidades  geométricas  durou  200  anos.  Para  os  platônicos,  as  proposições geométricas expressam verdades eternas, relacionadas com o mundo das Idéias,  um mundo à parte, separado do mundo sensível. Para aos seguidores de Santo Agostinho as  idéias  platônicos  transformam‐se  nas  idéias  de  Deus;  e  para  os  seguidores  de  São  Tomás  de  Aquino tornaram‐se aspectos do mundo divino. Durante toda a filosofia escolástica a verdade  necessária das proposições geométricas desempenha um papel muito importante e, como já  dissemos,  existem  filósofos  dos  nossos  dias  que  consideram  os  axiomas  da  geometria  euclidiana  como  verdades  irrefutáveis.  Se  esta  perspectiva  se  justifica,  então  as  faculdades  matemáticas  permitem‐nos  aceder  a  um  mundo  eterno,  mas  não  sensível.  Antes  das  descobertas  dos  matemáticos,  esse  mundo  era‐nos  desconhecida  mas  contudo  existia  Pitágoras não inventou a matemática mais do que Colombo inventou a América. Será que esta  é uma descrição verdadeira da natureza matemática? É a matemática realmente um corpo de  conhecimento  sobre  um  mundo  supersensível?  Alguns  de  nós  estarão  recordados  de  certas  afirmações  feitas  sobre  a  música.  Alguns  músicos  ficaram  tão  impressionados  pela  extraordinária  impressão  da  "inevitabilidade"  de  alguns  trabalhos  musicais  que  declararam  dever existir uma espécie de céu no qual as frases musicais já existam. O grande músico será  aquele que descobre essas frases ‐ que as ouve por assim dizer. Os músicos inferiores ouvem‐ nas  de  uma  forma  imperfeita  e  por  isso  dão  uma  contribuição  confusa  e  distorcida  da  realidade  pura  e  celestial.  Digamos  que  as  faculdades  para  compreender  a  música  são  raras  mas  que,  pelo  contrário,  as  faculdades  para  entender  triângulos  celestiais,  parecem  estar  presentes em todos os homens.  

       Estas  noções,  no  que  dizem  respeito  à  geometria,  estão  fundadas  na  suposta  necessidade  dos  axiomas  de  Euclides.  Os  postulados  fundamentais  da  geometria  euclidiana  eram  considerados,  até  ao  principio  do  século  XIX,  pela  generalidade  dos  matemáticos  e  filósofos  como  conceitos  necessários.  Não  se  tratava  apenas  de  reconhecer  que  a  geometria 

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euclidiana era a geometria do espaço existente mas sim que era necessariamente a geometria  de  qualquer  espaço.  Contudo,  desde  cedo  se  havia  constado  que  existia  uma  falha  neste  edifício  aparentemente  impecável.  A  conhecida  definição  das  paralelas  não  suficientemente  obvia, e já os seguidores gregos de Euclides haviam feito tentativas para a melhorar. Também  os  Árabes,  quando  entraram  em  contacto  com  as  matemáticas  gregas,  perceberam  que  o  axioma das paralelas era insatisfatório. Ninguém duvidava que fosse uma verdade necessária,  mas pensava‐se que deveria haver uma maneira de o deduzir a partir dos outros mais simples  axiomas de Euclides. Com o difusão das matemáticas na Europa surgiram imensas tentativas  de  demonstração  do  axioma  das  paralelas.  Algumas  eram  milagres  de  ingenuidade,  mas  é  possível  mostrar  que,  em  qualquer  caso,  se  partia  sempre  de  pressupostos  que  eram  equivalentes a aceitar o axioma das paralelas. Uma das mais conceituadas investigações foi a  do padre Jesuíta Girolamo Saccheri cujo tratado apareceu no principio do século XVIII. Saccheri  era  um  lógico  extremamente  hábil,  também  capaz  de  fazer  pressuposições  injustificadas.  O  seu  método  consistiu  em  desenvolver  as  conseqüências  da  negação  do  axioma  das  paralelas  de Euclides mantendo os outros axiomas. Desta forma, esperava desenvolver uma geometria  contraditória,  pois  partia  do  princípio  indubitável  de  que  o  axioma  das  paralelas  era  necessariamente verdadeiro. Mas, apesar de Saccheri ter lutado arduamente, não conseguiu  ter  sucesso  em  contradizer‐se.  O  que  realmente  fez  foi  lançar  os  fundamentos  da  primeira  geometria  não  euclidiana.  Apesar  disto  e  embora  D'Alembert  tivesse  expresso  a  opinião  de  que  todos  os  matemáticos  do  seu  tempo  declaravam  que  o  axioma  das  paralelas  era  o  "escândalo"  da  geometria,  ninguém  parecia  ter  sérias  dúvidas  sobre  isso.  O  primeiro  matemático  a  tomar  consciência  de  que  o  axioma  das  paralelas  podia  ser  negado  e,  mesmo  assim, ter‐se uma geometria bem estruturada foi Gauss. Mas Gauss depressa constatou como  era  vacilante,  como  era  chocante,  o  que  tinha  feito  e  teve  medo  de  publicar  a  sua  demonstração.  Estava  reservado  para  o  russo  Lobachevsky  e  para  o  húngaro  Bolyai,  a  publicação  da  primeira  geometria  não  euclidiana.  Tornou‐se  imediatamente  óbvio  que  os  axiomas de Euclides não eram necessidades do pensamento mas algo bastante diferente e que  não existia razão alguma para supor que os triângulos tinham uma existência celestial.         Os desenvolvimentos posteriores da geometria não euclidiana e a sua aplicação aos  fenômenos físicos por Einstein mostraram que a geometria euclidiana, não só não era única,  como não era a geometria mais conveniente para aplicar ao espaço existente. E com isto deu‐ se obviamente uma profunda mudança no estatuto atribuído às entidades matemáticas e no  significado  atribuído  às  atividades  matemáticas.  Podemos  partir  de  qualquer  conjunto  de  axiomas  desde  que  sejam  consistentes  uns  com  os  outros  e  trabalhar  as  suas  conseqüências  lógicas. Fazendo‐o, criamos um ramo da matemática. As definições e postulados elementares  não  são  dadas  pela  experiência  nem  são  necessidades  de  pensamento.  O  matemático  é  inteiramente  livre,  dentro  dos  limites  da  sua  imaginação,  para  construir  os  mundos  que  desejar. O que vai imaginar é resultante do seu próprio capricho. O matemático não descobre  os principais fundamentos do universo nem toma contacto com as idéias de Deus. Se consegue  encontrar  na  experiência  conjuntos  de  entidades  matemáticas  que  obedecem  ao  mesmo  esquema  lógico  das  suas  entidades  matemáticas,  então  aplica  a  sua  matemática  ao  mundo  real,  cria  um  ramo  da  ciência.  Porque  razão  deve  o  mundo  real  obedecer  às  leis  da  lógica?  Porque  razão  deve  a  ciência  ser  possível?  Não  são  questões  fáceis.  Inclusivamente  existem  indicações  nas  teorias  da  física  moderna  que  levam  alguns  homens  de  ciência  a  duvidar  se,  finalmente,  o  universo  se  vai  revelar  racional.  Mas,  ainda  que  assim  possa  parecer,  não  existem  melhores  razões  para  supor  que  os  fenômenos  racionais  têm  de  obedecer  a  uma  geometria  particular  do  que  para  supor  que  a  música  das  esferas,  assim  a  possamos  nós  alguma vez ouvir, tem de estar em escala diatônica.  

       Desde então, a matemática é uma atividade completamente livre, independente do  mundo real, mais uma arte do que uma ciência. É tão independente do mundo exterior como a  música;  e  contudo,  ao  contrário  da  música,  serve  para  elucidar  fenômenos  naturais,  é  ter  "subjetiva" como um produto criado livremente pela imaginação. Não é difícil descobrir que os 

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matemáticos são conduzidos pelo mesmos incentivos e experimentam as mesmas satisfações  que os outros artistas. A literatura da matemática está cheia de termos estéticos e não é raro  que os matemáticos digam que está menos interessados nos resultados do que na beleza dos  métodos pelos quais fundamenta esses resultados.  

       Mas  dizer  que  a  matemática  é  uma  arte  não  é  dizer  que  ela  é  um  mero  divertimento. Arte não é algo que exista apenas para satisfazer uma "emoção estética". A arte  digna  desse  nome  revela‐nos  alguns  aspectos  da  realidade.  Isso  é  possível  porque  a  nossa  consciência e o mundo envolvente não são duas entidades independentes. A ciência avançou  suficientemente  para  que  possamos  pensar  que  o  mundo  exterior  é  criação  nossa,  e  entendemos  mais  do  que  criamos  entendendo  as  leis  da  nossa  própria  existência,  as  leis  de  acordo com as quais criamos. Não há nenhuma razão para imaginar que existe um armazém  celestial de frases musicais, mas é verdade que a música pode revelar‐nos uma realidade mais  profunda  do  que  a  do  senso  comum.  "Aquele  que  entende  o  significado  da  minha  música",  terá  dito  Beethoven,  "é  aquele  que  está  livre  das  misérias  que  afligem  outros  homens".  Podemos não saber o que Beethoven queria dizer, mas é evidente que a música era para ele  algo  que  tinha  significado,  algo  que  revelava  uma  realidade  que  não  podia  ser  normalmente  perceptível. E parece que o matemático ao criar a sua arte, está a exibir aquele movimento das  nossas mentes que criou o "espaço temporal" que conhecemos. As matemáticas, tanto como a  música  ou  qualquer  outra  arte,  são  um  dos  meios  pelo  qual  nos  elevamos  a  uma  completa  "consciência" de nós próprios. O significado da matemática reside precisamente no fato de ser  uma arte que nos informa da natureza das nossas próprias mentes e, do muito que depende  das nossas mentes. Não nos torna capazes de expressar algumas regiões remotas da existência  eterna  mas  ajuda‐nos  a  mostrar  quão  longe  aquilo  que  existe  depende  da  nossa  forma  de  existência. Somos os criadores das leis do universo. É possível que não possamos experimentar  nada do que criamos e que a maior das nossas criações matemáticas seja o próprio universo. E  assim regressamos a uma espécie de Pitagorismo invertido.  

       A  matemática  tem  um  profundo  significado  no  universo,  não  porque  exibe  os  princípios pelos quais nos regemos, mas porque exibe os princípios que lhe impomos. Mostra‐ nos  as  leis  da  nossa  própria  existência  e  as  condições  necessárias  da  experiência.  E  não  será  verdade  que  as  outras  artes  fazem  algo  de  similar  nas  regiões  da  experiência  que  não  dependem do intelecto? Pode acontecer que o significado que Beethoven declarou que a sua  música possuí seja o de que, apesar de o homem viver num universo divergente, a verdade é  que tanto na experiência na sua totalidade como naquela parte que é objeto da ciência, aquilo  que  o  homem  encontra  é  aquilo  que  criou,  que  o  espírito  do  homem  é  de  fato  livre,  eternamente  submetido  apenas  aos  seus  próprios  decretos.  Seja  como  for,  é  certo  que  a  função real da arte é a de incrementar a nossa consciência  de nós mesmos, tornar‐nos mais  conscientes  do  que  somos  e,  portanto,  do  que  é  realmente  o  universo  em  que  vivemos.  E  porque  a  matemática,  à  sua  maneira,  também  desempenha  esta  função,  ela  não  é  apenas  esteticamente bela mas profundamente significativa. É uma arte, e uma grande arte. É aí que,  para além da sua utilidade na vida prática, a sua estima deve ser baseada.    Tradução: Bruno da Veiga Bastos    Revisão: Donizetti F. Louro         

Referências

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