CARAaERITICAS DE ALGUNS SOLOS DA REGIÃO DO MÉDIO-ÀMAZONAS'
Doracy Pessoa Ramos 2 e Ary Carlos X. Velloso2
RESUMO. - As características de cinco perfis de solos (dos quais quatro correspondiam a uma topos-seqüência) da região de Parintins, no médio-Amazonas, formados a partir de sedimentação da Forma-ção Barreiras, foram estudadas om seus aspectos morfológico, físico, químiéo e mineralógico.
A capacidade de troca de cátions, determinada a pH 7, relacionou-se com o conteúdo de matéria
orgênica, existindo um aumento da CTC de 4meq para cada i% de carbono. Alumínio trocável, pH o
saturação de bases relacionaram-se com a posição dos solos na toposseqü#ncia. Os solos situados nas
partes mais aftas da toposseqüência apresentaram os maiores teores do alumínio trocável e os das par- - tes mais baixas, os mais altos valores de pH e saturação de bases.
O índice Ki, calculado a partir da relação molecular Si021Al203, indicou a predominância acentua-dado caulinita na fração argila, o que foi confirmado pelos diagramas de difração de raios-X.
Os solos em estudo foram classificados de acordo com os sistemas adotados pela DPP (Brasil). FAO • USDA (7 aproxi tendo sido identificada a presença de três ordens distintas: Oxissolos, Ultissolos
• Alfissolos
Termos para indexação: solos tropicais, latossolos. Amazonas.
INTRODUÇÃO
As informações sobre as propriedades dos solos da região amazônica são, no momento, bastante limi-tadas. Publicações de mapas de solos da América do Sul (FAO 1971) e dos trópicos em geral (Aubert & Tavernier 1972), ambos em escalas reduzidas, indicam que a maioria dos solos da re-gião amazônica pertencem à ordem Oxissolo ou a seus equivalentes taxonômicos.
Martini & Macias (1974) e Sanchez & Buol (1974), trabalhando respectivamente em Costa Rica e na Amazônia Peruana, verificaram que gran-de parte dos solos naquelas regiões, anteriormente mapeadas como Oxissolos, eram, na realidade, Ultissolos. Através dos anos, tem-se adotado, implicitamente, a teoria de que a maioria dos solos da bacia amazônica brasileira são desenvolvidos sob processos de formação predominantemente latossolizantes, originando, conseqüentemente, solos Latossólicos (Carneiro 1955, Camargo & Bennema 1966, IPEAN 1967, 1969 e 1972, Roeder & Bornemizza 1968, IPEAAOC 1971). Este trabalho, realizado no Departamento de Solos da Universidade Federal Rural do Rio de 1Aceito para publicação em 11 de novembro de 1975. 2 Professor-Assistente do Departamento de Solos da
Uni-versidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 1Cm 47 da Rodovia Rio—São Paulo, 23460 - Seropédica, RI, e bolsista do Conselho Nacional de Pesquisas CNPq.
Janeiro, teve por objetivo estudar as características morfológicas, físicas, químicas e mineralógicas de alguns solos da região do médio-Amazonas e classi-ficar esses solos segundo os sistemas adotados pela Divisão de Pesquisas Pedológicas (DPP—Brasil), USDA (73 aproximação) e FAO.
MATERIAL E MËTODOS
Cinco perfis de solos (AMt a AM 5 ) da região de Parintins, formados a partir de sedimentação pro-veniente da formação Barreiras (terciário), foram selecionados para o desenvolvimento deste traba-lho. Os perfis AM 2 , AM 3 , AM4 e AM5 situados em "terra firme", correspondem a uma toposseqüên-cia, com AM2 ocupando a parte mais elevada e AM5, a menos elevada. Os perfis dos solos selecio-nados foram descritos em trincheiras, segundo as normas para exame e descrição de perfis adotadas pela EPFS (Camargo 1966), e as características morfológicas, em conformidade com os padrões estabelecidos no Soil Survey Manual (USDA 1951, 1952).
Amostras de solo <2 mm e secadas ao ar foram usadas nas análises físicas, químicas e mineraló-gicas.
As constantes de umidade 113-bar e 15 bares foram determinadas em extrator de placa porosa e •O perfil AM1 foi coletado na Ilha de Parintins, onde se situa a cidade do mesmo nome (médio-Amazonas, entre os paralelos 30 e 40 5, e meridianos 57 e 580 W Green-wich).
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em extrator de membrana respectivamente (Richards & Weaver 1944). A análise mecânica foi realizada pelo método da pipeta (Day 1965), usan-do-se hidróxido de sódio como agente de disper-são. A argila dispersa em água foi determinada usando-se água destilada. A porosidade do solo foi avaliada estabelecendo-se a relação entre a massa específica aparente e a massa específica real, deter-minadas respectivamente pelo método do anel de Kopecky (Camargo & Vageler 1936) e pelo mé-todo do picnômetro (IQA 1949).
As determinações do pli da suspensão, em água e KCI 1 N, foram executadas potenciometricamen-te na relação solo: líquido de 1:2,5, usando-se ele-trodos de vidro. O teor de carbono total foi deter-minado pelo método de Walkley & Black, descrito por Jackson (1958). Cálcio e magnésio trocáveis foram extraídos com solução de KCI 114 e deter-minados por complexação pelo EDTA. Potássio e sódio trocáveis foram extraídos com solução de HCI O,OSN e analisados por fotometria de chama. Hidrogênio e alumínio foram extraídos com solu-ção de acetato de cálcio 1N p}-I 7,0 e o alumínio trocável, com solução de KCI 1N, sendo o hidrogê-nio trocável obtido por diferença entre as duas determinações. A capacidade de troca de cátions (CTC) representa a soma dos cátions determinados separadamente. Silício, ferro e alumínio foram determinados após o ataque do solo com ácido sul-fúrico de densidade igual a 1,47 (Vettori 1969). Os valores de Ki e Kr foram obtidos pelas relações moleculares Si021AI203 e Si021Al 2 03 + Fe 2 03, respectivamente. As determinações de Ki e Kr nas frações menores que 2mm (terra fina) geralmente apresentam os mesmos resultados que os interna-cionalmente determinados na fração argila (Vettori 1969). Os valores de Kr poderão diferir levemente se concreções de ferro estiverem presentes. As aná-lises mineralógicas foram realizadas na fração argila menor que 2p através de difração de raios-X, empregando-se o método do pó. Os tratamentos convencionais de saturação e remoção de oxi-hidróxidos de ferro e alumínio não foram exe-cutados. Para a difractometria, utilizou-se um apa-relho Phillips com registrador automático para a obtenção de gráficos. A radiação empregada foi a d0 Cuk a (com filtro de níquel), de comprimento de onda 1,540A. Para a avaliação dos valores de d (distância entre planos atômicos) empregou-se a fórmula de Bragg: nX = 2d senO. Os valores de "d" foram comparados com os dados de Brindley (1951) e ASTM (1958).
Pesq. agropec. bras., Brasília, 12 (único): 97-104, 1977
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Morfologia do solo
Os perfis estudados neste trabalho (Tabelas 1 e 2) são profundos, bem drenados, com estrutura gra-nular nos horizontes superiores e gragra-nular ultra-fina nos horizontes inferiores. Apresentam alta po-rosidade e alta permeabiidade, facilitando a pene-tração das raízes, que são encontradas a profundi-dades superiores a 1 m. Não foram encontrados nes-tes perfis concreções ou nódulos concrecionários, tão comuns em solos desenvolvidos nas regiões tro-picais.
Composição granulométrica
Os dados da composição granulométrica estão apresentados na Tabela 2. Os teores de silte de todos os horizontes fi são inferiores a 10% e os teores de argila nesses mesmos horizontes se situam entre 30 e 50%, com exceção do horizonte BdoperfilAl4 2 , em que o teor de argila atingiu a 94%.
Matéria orgânica
As análises (Tabela 3) mostram que os elementos disponíveis às plantas se concentram na camada superficial pouco espessa, mais precisamente no horizonte A11, onde o teor médià de carbono orgânico é igual a 1,82% e o de bases trocáveis, igual a 1,54 meq1100 g solo. A partir do horizonte Al2, os teores de carbono decrescem rapidamente para o valor médio de 0,48%, acarretando conco-mitante redução dos teores de bases trocáveis para o valor médio de 0,76 meq/100 g solo.
Na Fig. 1 a CTC potencial é comparada com o teor de carbono orgânico, usando-se dados de todos os horizontes dos cinco perfis estudados. Nota-se aumento de aproximadamente 4 meq da CTC para cada 1% de carbono, fato igualmente observado porsombroek (1966). Nos horizontes B 2,
1h2 e B22 dos perfis AM3, AM4 e AM5, respecti-vamente, cujos teores de carbono orgânico são bas-tante reduzidos, a CTC é sempre baixa, embora a percentagem de argila seja alta. Isso significa que praticamente a maior parte do valor da CTC se restringe à matéria orgânica dos solos. A atividade química da fração argila silicatada é bastante baixa, podendo-se, através das percentagens de argila nos horizontes li e da Fig. 1, estimá-la gros-seiramente entre 2-4 meq/IOO g de argila.
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CARACTERÍSTICAS DE ALGUNS SOLOS DA REGIÁO DO MÉDIO-AMAZONAS 101
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102 D.P. RAMOS e A.C.X. VELLOSO
foram encontradas no perfil AM2, que contêm as maiores percentagens de argila (Tabelas 2 e 3). Bases trocáveis e pH
Os perfis situados nas partes mais elevadas da to-posseqüéncia (AM2, AM3 e AM4) apresentam-se extremamente ácidos, com valores de pH em água entre 3,5 e 4,5 (Tabela 3). Os valores de A pH (PHH20 - pHKCl) se situam entre 0,3 e 0,5. Em concordância com a alta acidez, a percentagem da saturação de bases é bastante baixa, com valores médios de 6,5% nos horizontes A e 11,4% nos horizontes E.
O perfil situado na posição mais baixa da topos-seqüência (AM5) apresenta-se mais enriquecido em bases, com percentagem de saturação média de 40 nos horizontes A e 65 nos horizonte E. O pi-! em água varia entre 5,0 e 5,5 e o A pH se situa entre
1,1 a 1,4.
O perfil d0 soto AM1, com exceção do horizon-te Ais, apresenta, em todos os horizonhorizon-tes, percen-tagem de saturação de bases menor que 5,3, valo-res de pl-1 em água menovalo-res que 4,5 e A pi -! em torno de 0,8.
Com exceção do perfil do solo AM5 (parte mais baixa da toposseqüência), os demais apresentam caráter álico, uma vez que a percentagem de satu-ração de alumínio é sempre superior a 50% (Tabe-la 3).
Mineralogia da fração argila
A relação molecular 5i02 : AI 2 03 (Ki) tem sido freqüentemente usada nos solos dos trópicos como meio de se identificar a presença ou ausência de argilas siicatadas 2:1, adotando-se, como um dos critérios para o caráter Latossólico, um Ki menor que 2. Mohr & van Baren (1954), todavia, argu-mentam que o valor maior do que 2 não indica, necessariamente, a presença de 'rgila siicatada 2:1, podendo esta resultar de sílica coloidal não combinada. Não obstante, muitos pesquisadores de solos das regiões de clima tropical e subtropical têm verificado ser o Ki um índice válido para tal caracterização.
As relações Ki(Tabela3) variaram de 1,7 a 2,4 (va-lor médio de 2,02), sendo bastante uniformes dentro de cada perfil. Os valores de Kr(Si0 21Al203 +Fe20 3)
apresentam-se inferiores (usualmente 0,2 a 0,3 unidades) e os valores correspondentes de AI2 03: Fe203, entre 5 e 10. O teor médio de Fe 2 03 da fração argila (Tabela 3) representa 1,93% para os perfis dos solos AM 1 , AM 3 , AM4 e AM 5 e 8,24% para o solo AM2. Teores da ordem de 20% somente ocorrem em solos concrecionários (Sombroek 1966).
Do fato de que os valores de Ki não se apresen-tam muito superiores a 2, pode-se deduzir que a fração argila siicatada apresenta estrutura d0 tipo 1:1, provavelmente caulinita, em vista dos valores de capacidade de troca e matéria orgânica ante-riormente discutidos. Os valores de Ki igualmente parecem indicar pequenas quantidades de oxi-hidróxidos de alumínio na fração argila, o que equivale a dizer que a maior parte de Al20 3 deter-minado deriva praticamente da fração argila siica-tada. As percentagens reduzidas de Fe 2 03 indicam quantidades baixas de óxidos de ferro na fração argila. Confirmação plena das deduções acima fo-ram obtidas através de análises por difração de raios-X. Os resultados indicam para a fração argila predominância absoluta de caulinita. Os óxidos de ferro estão representados por pequenas quantida-des de hematita e goetita, ao passo que os de alu-mínio, por traços de gibsita. Esses resultados confirmam os obtidos por Sombroek (1966) em vários solos da parte ocidental do baixo Amazonas e nas áreas entre Caeté, Maracassumé e Guamá-Imperatriz.
Classificação dos solos
Dos solos estudados (Tabela 4), os corresponden-tes aos perfis AM2, AM3 e AM4 apresentam epi-pedon ócrico, seguido de horizonte E óxido, sendo classificados como Haplorthox. O perfil AM 1, que apresenta epipedon ócrico seguido de horizonte 13 argílico, foi classificado como Tropudult, enquan-to o perfil AMs, com epipedon úmbrico seguido de horizonte B argílico de saturação de bases aci-ma de 50% (soaci-ma das bases separadamente), foi classificado como Tropudalf.
Os resultados indicam para a área estudada a presença de pelo menos três ordens distintas de solos: Oxissolos, Ultissolos e Alfissolos, e não so-mente os Oxissolos, tão tradicionalso-mente citados pelos trabalhos anteriormente desenvolvidos na região.
CARACTERÍSTICAS DE ALGUNS SOLOS DA REGIÃO DO MËDIO-AMAZONAS 103
TABELA 4. Classificaçio, segundo os sistemas adotados pela D.P.F. do Mm. da Agricultura, 73 aproximação (USDA 1960, 1967) e PÃO (1974), dos solos estudados.
Classificações Perfis
Sistema D.P.P. (Brasil) Sistema Americano Sistema FAO
(73 aproximação)
AM1 Podzóiico Vermelho-Amarelo Oxic Tropudult Orthic Acrisol
Latossólico Mico A moderado. Textura argilosa.
AM 2 Latossolo Amarelo Álico A Typic Haplorthox Xanthic Ferraisol
moderado. Textura argilosa.
AM 3 Latossolo Amarelo Podzólico Ultic llapiorthox Xanthic Ferralsol
Mico A. moderado. Textura média.
AM4 Latossolo Amarelo Podzólico Ultic Ilaplorthox Xanthic Ferralsol
Álico A moderado. Textura média.
AM5 Podzólico Vermelho-Amarelo Oxic Tropudalf Ferrie Luvisol
Equivalente Eutrófico Latossólico A proeminente. Textura média.
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ABSTRACT. - CHARACTERISTICS OF SOME SOILS OF THE MEDIUM-AMAZOI'4 RIVER REGION.
A study has beon made of tive soits selected for characterization by laboratory and field methods in a toposoquence of the Parintins aroa, located in tho medium-Amazon River Region.
The A horizon, as eontrasted with the rest of the solum, have some accumulation of organic mattor. The potential cation exchango capacity at pH 7, is related to the organic matter content; the increaso of CTC i$ about 4 meq por 1% carbon. Exchangeable aluminum, pH and base saturation are related to slope position. Soils in the higher siope positions are higher in oxchangeabte aluminum. Soils in tho lower siope positions have the highest base and p11 status.
The molecular ratio Si02IAl203 (1(i) pointed to a strong predominance of kaolinite ii, the clay traction, which is confirmed by X-ray patterns.
The soils studied were classified according to 11w systems adopted by the USDA (lth approxi-mation), FAO and DPP (Brazil).
Index terms: tropical soils, Oxisoils, Amazon