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RiUfes

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Lista de Tabelas

Tabela 1 Freqüências e percentuais dos dados alocados nas categorias de análise dos comentários postados pelos próprios logados em seu flog.

p. 142 Tabela 2 Freqüências e percentuais dos dados alocados

nas categorias de análise dos flogs das moças. p. 145 Tabela 3 Freqüências e percentuais dos dados alocados

nas categorias de análise dos flogs dos rapazes. p. 146 Tabela 4 A razão t nas comparações entre categorias dos

flogs de rapazes (ra) e moças (mo). p. 147 Tabela 5 A razão t na comparação dos comportamentos de

rapazes (ra) e moças (mo) nos flogs dos rapazes. p. 149 Tabela 6 A razão t na comparação dos comportamentos de

rapazes (ra) e moças (mo) nos flogs das moças. p. 151 Tabela 7 Freqüências e percentuais dos dados alocados

somente nas categorias Afeto, Elogio ao Flog e Elogio ao Logado dos flogs das moças.

p. 153 Tabela 8 Freqüências e percentuais dos dados alocados

somente nas categorias Afeto, Elogio ao Flog e Elogio ao Logado dos flogs dos rapazes.

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Lista de Ilustrações

Figura 1 Foto original e preparada retirada de um flog

feminino. p. 128

Figura 2 Foto original e preparada retirada de um flog

masculino. p. 129

Figura 3 Montagem retirada de um flog feminino. p. 129 Figura 4 Montagem retirada de um flog masculino. p. 130 Figura 5 Foto com companheiros em um grupo unissexual

retirada de um flog feminino. p. 131 Figura 6 Foto com companheiros em um grupo misto

retirada de um flog masculino. p. 132

Figura 7 Moça em pose para a foto. p. 133

Figura 8 Rapazes em pose para foto na praia. p. 134 Figura 9 Moça exibindo a língua como ação absorvida de

um grupo p. 137

Figura 10a Gesto com os dedos polegar, indicador e médio

exibido por rapazes. p. 138

Figura 10b Gesto com os dedos indicador e médio exibido por

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Resumo

Souza, F. (2006). Meu querido flog: Um estudo das relações sociais entre adolescentes estabelecidas por meio da mídia digital. Tese de doutorado, Programa de Pós-Graduação em Psicologia, UFES.

Os avanços tecnológicos e o conseqüente desenvolvimento de aparatos digitais que se constituíram numa nova mídia interativa produzem transformações sociais muito sensíveis nos dias atuais fazendo com que as ações das pessoas sejam marcadas pela realidade de culto ao novo, de renovação e de rupturas com algumas estruturas sociais vigentes. A cultura da mobilidade, da flexibilidade, da efemeridade e da provisoriedade, típica das sociedades marcadas pela tecnologia da informação, imputa às pessoas a necessidade de agir em consonância com as demandas criadas por essas sociedades. Julga-se, então, bastante oportuno estudar os efeitos dessa transformação tecnológica sobre a adolescência para que se possa entender melhor a adaptação dos adolescentes às tecnologias digitais e sua utilização no estabelecimento e na manutenção de vínculos sociais. Assim, o presente trabalho teve como objetivo investigar alguns fotologs mantidos por adolescentes residentes na Região Metropolitana da Grande Vitória/ES e obteve informações referentes às relações sociais estabelecidas por meio da mediação da mídia digital. Foram selecionados seis fotologs, três de rapazes e três de moças, e destes, cinco páginas de cada um. A pesquisa se deu com um total de trinta páginas investigadas. Os resultados foram analisados de acordo com os

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pressupostos da Psicologia Evolucionista e indicaram que determinados padrões da interação off-line também nortearam o estabelecimento de relações on-line e revelaram padrões evolutivos típicos de comportamentos sexualmente tipificados, tais como a manifestação de afeto, elogios, expressão de saudade e busca de contatos. A mídia digital foi considerada uma ferramenta eficaz de sociabilidade por ser importante no favorecimento da aptidão para a vida em grupo.

Palavras-chave: 1) Psicologia Evolucionista e Mídia digital; 2) Adolescência e internet; 3) Relações sociais e adolescência.

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Abstract

Souza, F. (2006). My dear photo log: a study of the social relationship among adolescents through the digital media. Doctorate thesis, Post- Graduate Program in Psychology, UFES.

The technological advances and the consequent development of digital apparatuses that have constituted a new interactive media produce very sensitive social changes nowadays leading people’s actions to be marked by the reality of the cultivation of what is new of renewal and ruptures of some valid social structures. The culture of mobility, flexibility, transition and temporariness, typical of the societies marked by information technology, inputs people the need to act in agreement with the demands created by these societies. It is then judged quite opportune to study the effects of this technological change upon adolescence to shed light on the adaptation of adolescents to the digital technologies and its utilization in the establishment and maintenance of social connections. Therefore, the present work aimed to investigate a few photo logs kept by resident adolescents in the Metropolitan Region of Grande Victoria/ES and has collected information concerning the social changes established through the mediation of the digital media. Six photo logs have been selected, 3 young females ones and three young male ones, and 5 pages from each. The research was performed on thirty pages that have been investigated. The results were analyzed in accordance with Evolutionary Psychology, and have indicated that certain patterns of off-line

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interactions orientated the establishment of on-line relationships and revealed evolutionary patterns typical of sex typed behavior such as the demonstration of affection, praises, the expression of longing and the search for contacts. The digital media was considered an efficient tool in the sociability as it is important in the favoring of aptitude in the life in group.

Key words: 1) Evolutionary Psychology and Digital media; 2) Adolescence and internet; 3) Social relationships and adolescence.

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Resumeè

Souza, F.(2006). Mon flog chéri. Une étude des relations sociales entre adolescents par le moyen du média digital. Thèse de doctorat, Programme de Post-grade en Psychologie, UFES.

Les avancements technologiques et, par conséquent, le développement des apparats digitaux qui se sont constitués en un nouveau média interactif produisent, de nos jours, des transformations sociales très sensibles, ce qui entraîne, chez les gens, des actions marquées par la réalité du culte du nouveau, ainsi que par la réalité du renouvellement et de la rupture des quelques structures sociales en vigueur. La culture de la mobilité, de la flexibilité, de l’ éphémérité et de ce qui est provisoire, typique des sociétés marquées par la technologie de l’information, impute aux gens la nécessité d’agir d’après les demandes créées par ces sociétés. Nous jugeons, alors, assez opportun d’étudier les effets de cette transformation technologique sur l’adocescence pour mieux comprendre d’adaptation des adolescents aux technologies digitales ainsi que leur utilisation pour l’établissement et pour le maintien des attaches sociaux. Ainsi, le présent travail a eu comme objectif la recherche de quelques photologs entretenus par des adolescents domiciliés dans la Région Métropolitaine de la Grande Vitória/ES et a obtenu des informations qui concernent les relations sociales établies par le moyen du média digital. Nous avons sélectionné six photologs: trois appartenant à des jeunes-gens et trois à des jeunes-filles, et, plus précisément, cinq pages de

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chacun. La recherche a été faite à partir d’un total de trente pages sélectionnées. Les résultats ont été analysés d’après les présuppositions de la Psychologie Evolutionniste et ont indiqué que certains modèles d’intéraction off-line ont aussi orienté l’établissement des relations on-line et ont révélé des modèles évolutifs typiques des comportements sexuellement typifiés, telle que la manifestation d’affection, d’éloges, d’ expression de la nostalgie et de recherche des contacts. Le média digital a été considéré comme un outil efficace de sociabilité puisqu’il est important pour favoriser l’aptitude à la vie en groupe.

Mots-clefs: 1) La Psychologie Évolutionniste et le Média digital ; 2) L’adolescence et l’Internet ; 3) Les relations sociales et l’adolescente

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Um barco que veleje nesse infomar Que aproveite a vazante da infomaré Que leve meu e-mail até Calcutá Depois de um hot-link Num site de Helsinque Para abastecer (Gilberto Gil)

Introdução.

A difusão das novas tecnologias digitais apresenta às pessoas novas demandas referentes ao lidar com a tecnologia em si, à velocidade da informação e, acima de tudo, oferece meios que modificam radicalmente as formas de relação até então vigentes.

Diante da criação do espaço de trocas constituído pela rede mundial de computadores, o ciberespaço, Lévy (1999) assinala, enfaticamente, que é necessário reconhecer nele a possibilidade de experiências com diferentes modos de comunicação, e isso exige a exploração das potencialidades mais positivas deste novo espaço em sua interseção com os diferentes âmbitos da vida do homem.

A questão que se impõe extrapola o simples questionamento se é possível ou não, se é boa ou ruim a utilização dessas tecnologias. O que hoje está posto, segundo Carvalho (2000), é uma discussão ética a respeito da concepção de homem que orienta o seu uso. Ainda que haja a desconfiança frente ao seu emprego, não é possível desconsiderar que a tecnologia digital já se constitui fator envolvido no intrincado processo de construção coletiva de identidade. E não cabe à Psicologia, no contexto atual, esquivar-se da investigação das nuances

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presentes na relação do homem com a informática e da reflexão maior acerca do ser e do estar humanos diante do contato com essas novidades tecnológicas.

As ditas relações virtuais, de acordo com Lévy (1999), não devem ser pensadas em termos de substituição. Seria um erro supor que elas ocupariam o lugar dos contatos físicos, dos encontros, das viagens e das demais relações ditas reais. Ambas possuem suas especificidades e as ditas relações virtuais não tornaram obsoletas as chamdadas reais (Eco, 1996).

A troca de e-mail’s, a participação em grupos de discussão na web e a conversa nas salas de bate-papo, analogamente às mídias convencionais, produzem uma sensação de proximidade mesmo que o contato físico não seja possível. E a ausência de contato físico não implica a ausência de contato emocional e cognitivo, mesmo que mediados por um computador (Silveira, 2004).

Por ser um período particularmente sensível às mudanças sociais, assim como gerador dessas mudanças (Dias & La Taille, 2006), a adolescência é uma fase oportuna para o estudo do fenômeno da revolução tecnológica, visto que as interações que os adolescentes estabelecem com seu mundo constituem o espaço de experimentação e reflexão para a construção da imagem de si. Além do mais, a investigação das relações mediadas pela tecnologia digital amplia o espectro da pesquisa sobre essa faixa etária que, em sua grande maioria, como pontuado por Matos, Féres-Carneiro e Jablonski (2005), aborda temas como violência, gravidez, drogas e sexualidade.

No Brasil, a utilização da internet é cada vez mais significativa. O Brasil é o segundo país do mundo em permanência na Web, só ficando atrás dos

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japoneses (...). Cerca de 6% da população das nove principais cidades do Brasil utilizavam o computador para acessar a internet em julho de 1998, sendo que este número passou para 20% em maio de 2001. Além de “navegar” pela rede, enviar e receber e-mails, (...) uma substancial parcela dos usuários também utilizava as salas de bate-papo disponíveis na internet (...) (Dias & La Taille, 2006, p. 44).

De posse dos dados apresentados acima, Dias e La Taille (2006) afirmam a importância da comunicação mediada por computador na vida das pessoas e chamam a atenção para a necessidade de melhor compreender as particularidades desse tipo de comunicação a fim de avaliar suas repercussões sobre os indivíduos, em especial os adolescentes.

Assim, o presente trabalho foi elaborado com a finalidade de investigar as relações que adolescentes residentes na Região Metropolitana da Grande Vitória/ES para obter dados sobre as relações sociais estabelecidas via mídia digital. A análise desses dados foi realizada utilizando os princípios da Psicologia Evolucionista e a utilização da tecnologia digital interpretada como instrumento eficaz na promoção da aptidão para a vida em grupo.

A exposição da temática explicitada inicia-se com a discussão a respeito da integração possível entre a Psicologia e a Biologia constituindo a visão sui generis da Psicologia Evolucionista sobre o fenômeno comportamental. Descreve-se, a seguir, a evolução da linguagem enfatizando a importância da vida em grupo na seleção e manutenção dessa habilidade.

Posteriormente às considerações pertinentes envolvendo a constituição lingüística dos ancestrais humanos, a discussão é deslocada da pré-história para

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a atualidade e, ao discorrer acerca da interação social entre adolescentes, a tecnologia digital é considerada uma ferramenta útil na aproximação e na manutenção de vínculos sociais entre os indivíduos.

É apresentado, em seguida, o método empregado na obtenção dos dados pertinentes aos objetivos propostos para as posteriores apresentações de resultados, discussão destes e as devidas considerações finais.

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As ferramentas são importantes na Biologia Evolutiva na medida em que possibilitam uma vida melhor e mais fácil. (Richard Leakey e Roger Lewin)

A

integração entre a Psicologia e a Biologia

:

Uma maneira diferente de

analisar o comportamento.

Rodrigues (1999) mostra que disciplinas afins à Psicologia, estimuladas por estudos desenvolvidos pela Etologia e pela Psicologia Evolutiva, têm manifestado um interesse cada vez maior pela determinação biológica do comportamento. Mas, dizer que há um interesse maior de tais disciplinas pelos determinantes biológicos do comportamento não nos permite afirmar que tenha havido, na Psicologia, uma transformação de princípios, baseada na assunção dos conhecimentos gerados pelos estudos dos determinantes biológicos. Controvérsias conceituais, metodológicas e ideológicas, a despeito do reconhecimento e do caráter revolucionário da Teoria da Evolução, têm contribuído para a impermeabilidade da Psicologia aos princípios evolucionistas (Rodrigues, 2002).

Segundo Crawford (1998), essa impermeabilidade não se fazia notar nas idéias de alguns dos precursores da Psicologia. Citando Dewey e Freud, o autor enfatiza o entusiasmo com que ambos abraçaram o darwinismo. Nesse sentido, Corballis e Lea (1999) escrevem que é no movimento behaviorista, iniciado por J. B. Watson, que o dualismo cartesiano efetivamente dá lugar à noção darwiniana de existência de uma continuidade entre os humanos e os outros animais.

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Mesmo assim, é possível notar, na Psicologia, o interesse na “desbiologização” das atividades psíquicas e que a concepção de tábula rasa ainda é muito presente nos seus círculos (Rodrigues, 2002). A teoria da seleção natural de Darwin constitui-se como pressuposto básico da Etologia, diferentemente da Psicologia, fazendo com que os estudiosos do comportamento sob um enfoque etológico, incrementassem metodologias e recursos técnicos que possibilitavam a investigação de correlatos fisiológicos da atividade psíquica e até mesmo os comportamentos sociais e movimentos expressivos (Rodrigues, 2002).

Advogando o argumento segundo o qual a Psicologia tem sido essencialmente proximista na investigação do fenômeno comportamental, Silverman e Fisher (2001) apresentam quatro argumentos envolvidos na abstenção da Psicologia diante de tópicos que envolviam a teoria da evolução. O adjetivo “proximista” faz menção ao fato de que as tentativas de entender os processos subjacentes ao comportamento são limitadas ao desenvolvimento ontogenético em detrimento do filogenético.

Nas palavras de Silverman e Fisher (2001), exemplificando:

A linguagem humana é outro tópico que atrai considerável atenção na psicologia, mas novamente, as teorias começam e terminam na ontogenia. Psicólogos empenham-se em explicar a progressão do balbucio aos mais complexos níveis de comunicação, mas não atentam para a incorporação de seus conceitos às questões de por que nós temos linguagem. Todas a espécies têm sistemas de comunicação de variadas naturezas e complexidades, e parece-nos crítico para o estudo da linguagem humana saber o como e o porquê nossa particular versão se originou (p. 205).

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É possível perceber que, sob o ponto de vista de Silverman e Fisher (2001), o desenvolvimento filogenético, envolvendo as bases evolucionárias e as predisposições genéticas do comportamento, possui um papel relativamente insignificante nas teorias psicológicas.

Os argumentos que estes autores apresentam para a reduzida importância dada pela Psicologia às variáveis filogenéticas do comportamento dizem respeito à primazia do argumento cultural como determinante, à discussão envolvendo os tópicos de forma e função do comportamento, ao argumento teleológico e aos argumentos colocados por abordagens alternativas.

O argumento cultural refere-se à postura de alguns psicólogos em considerar que a teoria da evolução é mais aplicável ao comportamento de espécies infra-humanas, já que o comportamento humano é amplamente determinado pela cultura. Tal argumento fundamenta-se na premissa de que a função do comportamento decorre da forma deste. Assim, por exemplo, as funções cerebrais apareceram “por alguma razão” e o desenvolvimento cultural seguiu estas últimas, violando as regras da lógica e da parcimônia (Silverman & Fisher, 2001).

Outro argumento explicativo da visão proximista da Psicologia refere-se à aceitação, por parte de alguns teóricos, de que as explicações evolutivas são teleológicas, ou seja, caem na falácia de explicar as causas a partir das conseqüências. O investigador começa seu trabalho baseado na função proposta de um determinado comportamento e cria uma história conveniente para as origens deste (Silverman & Fisher, 2001).

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Por fim, o último argumento apresentado por Silverman e Fisher (2001) mostra que nem todos os psicólogos rejeitam a importância da teoria evolutiva nos estudos do comportamento humano, mantendo a defesa de que as causas próximas e as causas últimas do comportamento constituem abordagens separadas. Entretanto, não é possível assumir que a dicotomia que se estabelece com a defesa desta postura não se dá entre explicações proximais e explicações últimas, mas sim, entre um modelo puramente experimental e um modelo baseado na interação de predisposições inatas e de eventos ambientais.

Não convém, no entanto, diante do exposto acima, reforçar uma discussão que engendre uma dicotomia entre predisposições inatas e aprendizagem. Como ressaltado por Bussab (2002), existem fortes evidências que permitem conceber uma predisposição natural para o desenvolvimento integrado de aspectos sociais, culturais e afetivos, fazendo com que seja plausível afirmar a existência de regulações recíprocas envolvendo os limites da plasticidade e dos efeitos mútuos entre cultura e natureza (ver também Bussab & Ribeiro, 1998; Bussab, 1999 e Bussab, 2000a).

Crawford e Krebs (1998), mesmo diante da resistência apresentada pela Psicologia à adoção das idéias darwinistas, acreditam na possibilidade de a Psicologia assumir sua importância como disciplina integradora entre o pensamento evolucionista e as ciências comportamentais:

A psicologia serve de ponte entre as partes das ciências comportamentais provenientes da sociologia, ao lado da psicologia social, teoria da personalidade, aprendizagem, percepção, motivação e psicologia do desenvolvimento, e as disciplinas biológicas da etologia, genética e

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neurofisiologia. Pelo fato de algumas sub-áreas da psicologia terem pelo menos algumas raízes na biologia, a psicologia está em situação ideal para ajudar a integração do pensamento evolucionista às ciências comportamentais humanas (Crawford & Krebs, 1998, p. ix).

Nesse sentido, Silverman e Fisher (2001), discorrendo sobre o movimento evolucionista contemporâneo na Psicologia, relatam que a permeabilidade ao pensamento evolucionista faz-se mais notável na Psicologia com o movimento neo-darwinista na Biologia Comportamental, com os trabalhos iniciados por Hamilton, com o conceito de aptidão abrangente (inclusive fitness) (Buss, 1999a), e continuados por Williams, Trivers e Wilson, sendo este último responsável pelo que hoje é denominado “nova síntese” ou “moderna síntese”. Tais expressões, como é possível verificar em Rodrigues (2002), referem-se às idéias defendidas no livro publicado em 1975, Sociobiology: The New Synthesis, com a autoria de E. O. Wilson, e que é considerado pelos teóricos evolucionistas um marco diferencial entre as proposições evolucionistas postuladas após a publicação do livro citado e as idéias originalmente postuladas por Darwin.

É possível verificar no trabalho de Buss (1999a) um resumo dos principais fatos que contribuíram para o surgimento da Psicologia Evolucionista. A teoria de Darwin foi anterior à teoria da hereditariedade e foi a partir dos trabalhos de Gregor Mendel que ficou demonstrado que a hereditariedade ocorre com a transmissão do gene intacto de pai para filho. A noção de transmissão de um gene intacto era o que faltava para a complementação da teoria de Darwin.

Influenciados por essas idéias, Konrad Lorenz e Niko Tinbergen fundaram o movimento etológico e estudaram o comportamento animal buscando

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compreender suas origens e suas funções, forçando os psicólogos a reconsiderar o papel da Biologia na determinação do comportamento (Buss, 1999a). O trabalho dos etólogos foi de fundamental importância para a produção de resultados e conclusões diferentes dos que vinham sendo produzidos pela Psicologia (Rodrigues, 2002).

Em 1964, W. D. Hamilton apresenta uma reformulação da teoria da seleção natural advogando em favor de que a produção direta de uma prole não era o único nem o mais importante aspecto a ser considerado. A noção básica, incorporada à teoria da seleção natural, preconizava os efeitos da ação do indivíduo para o sucesso reprodutivo, não só dos filhos, mas dos seus parentes, tais como primos, sobrinhos, garantindo o “investimento no gene” pela via do parentesco (Surbey, 1998; Buss, 1999a; Bjorklund & Pellegrini, 2002). O conceito de aptidão (fitness), utilizado por Darwin, é implementado, assim, pelo conceito de aptidão abrangente (inclusive fitness).

Baseado na noção de inclusive fitness, G. Williams publica seu livro Adapatation and natural Selection, em 1966, tornando o trabalho de Hamilton mais inteligível para a maioria dos biólogos. Conforme Buss (1999a), o livro de Williams contrapôs-se à noção de seleção de grupo, cuja premissa era que a adaptação só se dá por um processo reprodutivo ocorrendo através de diferentes indivíduos para que haja o benefício do grupo.

R. Trivers, em 1972, baseado nos trabalhos de Hamilton e Williams, apresenta o conceito de investimento parental (Buss, 1999a), significando qualquer investimento que os pais fazem em um filho de forma a poder investir também em um outro filho (Surbey, 1998). O investimento parental diz respeito a

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comportamentos que garantam a manutenção e a educação (no sentido de treinamento) dos filhos, incluindo aqueles que necessitam dispêndio de gastos energéticos para o aumento da aptidão desses filhos. Por exemplo, podem ser citados os gastos envolvidos na gestação e na lactação (Surbey, 1998). Outros conceitos importantes apresentados por Trivers são os de altruísmo recíproco e conflito pais-prole (parents-offspring conflict), ambos baseados na idéia de aptidão abrangente.

Foi com a publicação, em 1975, de Sociobiology: The New Synthesis, por Wilson, que pôde ser observada uma síntese dos principais aspectos da Biologia Evolucionista, produzindo, segundo Buss (1999a), uma série de controvérsias devido a afirmações do autor acerca do comportamento humano, para as quais não dispunha de dados empíricos suficientes.

Baseado nesta descrição de fatos que contribuíram para o aparecimento dessa nova disciplina, que é a Psicologia Evolucionista, Buss (1999a) afirma que atualmente já possuímos as ferramentas conceituais necessárias para completar a revolução provocada por Darwin e construir uma psicologia evolucionária da espécie humana.

Para Buss (1999a), a Psicologia Evolucionista pode ser entendida como uma disciplina que tem como objetivo entender os mecanismos cerebrais e mentais humanos sob uma perspectiva evolucionista, dando enfoque a quatro questões que são:

(1) Por que a mente se apresenta da forma que é, ou seja, quais os mecanismos causais que a criaram e lhe concederam um formato e uma performance tipicamente humanos?

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(2) Como a mente humana foi projetada – quais são os seus mecanismos, ou suas partes componentes, e como eles estão organizados?

(3) Quais as funções dos componentes e de sua organização estrutural – ou seja, para que a mente foi projetada?

(4) Como os estímulos provenientes do meio, especialmente do meio social, interagem com o projeto da mente humana para produzir o comportamento observável?

A principal premissa da Psicologia Evolucionista, segundo Buss (1999b), é a de que a principal maneira de identificar, descrever e entender os mecanismos psicológicos é a articulação entre suas funções. Em outras palavras, é conhecer os problemas adaptativos específicos para os quais esses mecanismos foram construídos a partir do processo de seleção natural.

Para isso, a Psicologia Evolucionista vale-se de métodos empíricos, que podem ser utilizados para a avaliação de suas hipóteses e a predição de outras. Tais métodos incluem os experimentais, questionários, análise de documentos públicos, métodos observacionais, técnicas psicofisiológicas, dentre outros. Cada um destes, em particular, assim como em quaisquer outras áreas da Psicologia, são empregados na investigação de uma hipótese específica, e os resultados produzidos por vários métodos conjuntamente são mais bem aceitos quando comparados àqueles produzidos por um único método. Nessa linha de raciocínio, dados coletados em diferentes populações e em diferentes culturas são mais bem avaliados que aqueles obtidos em uma única população e em uma única cultura (Buss, 1999b).

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Tendo como base os princípios apresentados, alguns autores (Bjorklund & Pellegrini, 2000; Bjorklund & Pellegrini, 2002; Parker, 2002) têm estudado o desenvolvimento humano com o objetivo de fazer uso do pensamento evolucionista para adquirir, através das investigações dos porquês, um melhor entendimento do que seja o desenvolvimento e de como este se processa.

Enquanto a Psicologia Evolucionista surge do movimento da Sociobiologia na década de 70, a Psicologia Evolucionista do Desenvolvimento tem suas origens nos anos 90, com a tentativa de incorporar o pensamento evolucionista às teorias do desenvolvimento. Todavia, como assinalado por Bjorklund e Pellegrini (2002), na investigação do desenvolvimento social, a utilização da perspectiva da Psicologia Evolucionista não deve ser encarada com uma troca de paradigmas teóricos, mas como a aquisição da fase “adulta” (Bjorklund & Pellegrini, 2002, p. 44) da Psicologia:

(...) variações genéticas em traços físicos e psicológicos de um indivíduo interagem com o ambiente e, por muitas gerações, esses traços tendem a aumentar em freqüência resultando, eventualmente, em traços difundidos na espécie em uma população como um todo. Assim, através do processo de seleção natural, mudanças adaptativas nos indivíduos, e eventualmente nas espécies, aparecem. (...) A psicologia evolucionista toma esses princípios básicos da teoria de Darwin, e alguns avanços nela incorporados nos últimos cento e quarenta anos (comumente chamados de neo-darwinismo) e os aplica especificamente ao funcionamento psicológico humano. Como em qualquer área do questionamento intelectual, apesar de existirem algumas discordâncias saudáveis sobre a aplicação de alguns

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conteúdos específicos da teoria da evolução aplicados aos humanos, há certos aspectos desse novo paradigma que, de uma forma ou de outra, têm a adesão de muitos profissionais (Bjorklund & Pellegrini, 2000, p. 1688). Bjorklund e Pellegrini (2002) mostram que não apenas os comportamentos e as cognições que caracterizam os adultos são provenientes de um processo de seleção natural operante no curso da evolução, mas que as características apresentadas pelas crianças também o são. Seguindo esse raciocínio, tais autores afirmam que a preocupação básica de uma Psicologia Evolucionista do Desenvolvimento não se restringe à investigação dos universais do comportamento humano, mas ao estudo de como os indivíduos adaptam seus comportamentos às circunstâncias particulares de suas vidas.

Bjorklund & Pellegrini (2002) postulam os seguintes princípios básicos de uma Psicologia Evolucionista do Desenvolvimento:

1- A Psicologia Evolucionista do Desenvolvimento engendra a expressão de programas epigenéticos1 desenvolvidos;

2- É necessária a existência de uma infância estendida para que possa haver a aprendizagem dos mecanismos complexos que envolvem o contato social humano;

3- No decorrer da evolução, foram selecionados alguns aspectos de interações na infância (tais como brincadeiras e agressão), que preparam a criança para a vida adulta;

1

A epigênese consiste na emergência de novas estruturas e funções, no decurso do processo de desenvolvimento, refletindo uma relação bidirecional entre fatores biológicos e experiências fazendo com que, por exemplo, a atividade genética de um organismo influencie e seja influenciada pela maturação estrutural que está bidirecionalmente ligada à função e à atividade de cada nível de influência e dos níveis adjacentes (Bjorklund & Pellegrini 2000, 2002).

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4- Houve diferentes pressões seletivas sobre o organismo em diferentes momentos da ontogênese e algumas características das crianças foram selecionadas para servir a uma função adaptativa para aquele momento específico do desenvolvimento e não para preparar a criança para a vida adulta;

5- A mente humana não consiste de um mecanismo de processamento geral de informações que pode ser aplicado a uma ampla gama de problemas, mas é contemplada como consistindo de uma série de módulos independentes entre si e especializados para lidar com problemas específicos;

6- Nem sempre os mecanismos desenvolvidos no decorrer da evolução são adaptativos para as pessoas de hoje em dia, pois algumas tendências sociais, comportamentais e cognitivas foram adaptativas para nossos ancestrais e não mais o são para os homens modernos.

Um exemplo elucidativo pode ser encontrado em Surbey (1998), analisando o enjôo no período inicial da gravidez:

(...) O aumento da sensibilidade às qualidades odoríferas e gustativas da comida no período de enjôo da gravidez é uma adaptação originada para proteger o feto da exposição a toxinas que naturalmente se faziam presentes na dieta do Pleistoceno. (...) Os sintomas primários de náusea e vômito representam mecanismos para deter a ingestão de comidas que possam conter agentes com efeitos teratogênicos sobre o desenvolvimento do feto. (...) O auge do enjôo ocorre durante a organogênese, o mais vulnerável estágio do desenvolvimento do embrião, e onde as mais

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violentas reações ocorrem frente aos grupos de comidas de sabor amargo e picante – sabores que tendem a estar associados à presença de toxinas. Entretanto, o enjôo também serve para aumentar a aptidão do embrião, e a aptidão materna, por proteger o embrião da exposição a teratogênicos (p. 379).

É importante assinalar que, ao se basear nos princípios expostos, uma Psicologia Evolucionista do Desenvolvimento assume que as explicações funcionais para um dado comportamento terão como foco principal o processo de adaptação do indivíduo às pressões seletivas do ambiente (Bjorklund & Pellegrini, 2000).

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E o verbo se fez carne e habitou entre nós. (Jo 1:14) Não desanimo, penso em Goethe contradizendo o Evangelho de São João. Para o autor de Fausto, no princípio não era o verbo. “No princípio era o sentido. O sentido é tudo que cria e opera?

Deveria dizer: no princípio era a força. Mas também, ao escrever isso, algo me avisa que não pare aqui. O espírito me ajuda. De repente, sei o que fazer; e escrevo seguro:

no princípio era a ação”. (Nogueira, 1997)

A pré-história das trocas de mensagens: o caso do Homo sapiens.

Ao discutir a interação entre fatores genéticos e ambientais na determinação do comportamento, Frota-Pessoa (1987) explica, de maneira bem simplificada, que ameaças sempre estiveram presentes nas condições de vida primitiva dos ancestrais humanos. Além de se protegerem das feras e dos inimigos, “a provisão de frutos, raízes comestíveis e caça rareava periodicamente, tornando indispensáveis perigosas migrações” (p. 53). A diferença entre a vida e a morte era, muitas vezes, representada por pequenas diferenças na resistência à fome e às doenças, no vigor físico ou no nível intelectual.

Exemplificando o processo de seleção natural, Frota-Pessoa (1987) mostra-nos que é possível a suposição de que:

(...) os homens mais altos deviam levar vantagem na luta, na corrida e na caça; e talvez fossem preferidos pelas mulheres, por conseguirem situação de domínio no grupo. O resultado é que, em média, os altos deviam ter vida mais longa e, portanto, deixavam mais filhos, os quais passavam para

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diante os genes de altura. Assim, a freqüência desses genes deve ter aumentado ao longo das gerações, determinando uma elevação da altura média dos indivíduos (p. 53).

Entretanto, o autor aponta que a seleção natural não opera sozinha na produção da evolução (em termos de alterações de freqüências gênicas). Advogando em favor da variabilidade genética, Frota-Pessoa (1987) afirma a necessidade da existência de modalidades opostas de um mesmo atributo genético (determinadas por genes alelos antagônicos), em uma dada população, para que se produza o que é denominado de evolução:

Se todos fossem Rh-negativos, não poderia haver evolução quanto ao sistema de grupos sanguíneos Rh, enquanto não surgissem, por exemplo, por mutação ou por migração, pessoas Rh-positivas. Nas populações reais, os dois tipos existem e as freqüências dos genes que os determinam variam, embora lentamente, por seleção natural (p. 54).

Pode-se inferir, precisamente, a partir do exposto, que a variabilidade genética é peça importante no processo de evolução. Com isso, ao lado da seleção natural, mutações e cruzamentos entre populações diversas, que enriquecessem a variabilidade genética, podem ser citados como fatores da evolução (Frota-Pessoa, 1987).

Bjorklund e Pellegrini (2002), discutindo o processo de seleção natural, pontuam que os indivíduos variam muito de feições fisionômicas e tais feições são herdadas. Algumas dessas feições contribuem para uma melhor adaptação ao ambiente social. Aqueles indivíduos que possuírem tais traços, quando

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comparados àqueles que não os possuam, estarão mais aptos a sobreviver, reproduzir e transmitir esses traços para sua prole.

Partindo da afirmação de tais autores, pode-se assumir que variações nos traços físicos ou psicológicos (estes últimos serão discutidos adiante) herdados pelos indivíduos interagem com o ambiente e, através de numerosas gerações, mudam em freqüência resultando no aumento da presença desses traços na população. Desse modo, o processo de seleção natural faz com que sejam trazidas à tona mudanças adaptativas nos indivíduos e, eventualmente, nas espécies (Bjorcklund & Pellegrini, 2002).

Em resumo, a teoria da seleção natural possui, segundo Buss (1999a), três ingredientes essenciais que são: a variação, a herança genética e a seleção. As variações nos diversos aspectos do organismo constituem a matéria-prima bruta (“raw material”) para a evolução. Algumas dessas variações são passadas dos progenitores à prole durante várias gerações e têm como conseqüência organismos com as mesmas variações herdadas e que gerem filhos, visto que estes atributos herdados favorecem a sobrevivência e a reprodução.

A despeito de sua aceitação quase universal nas ciências biológicas, e da unidade destas em torno do conceito de seleção natural, a teoria de Darwin encontra uma forte resistência quando utilizada nos estudos dos diferentes aspectos do ser humano (Buss, 1999a). Em parte, conforme Buss (1999a), a resistência em aplicar a perspectiva darwiniana ao estudo do ser humano mantém uma controvérsia originada de três objeções feitas a Darwin.

A primeira objeção refere-se ao fato de a teoria da seleção natural não explicar coerentemente a hereditariedade das variações de diversos traços do

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organismo. Outra objeção diz respeito ao não entendimento, por parte de alguns biólogos, de como estágios prévios da evolução de uma adaptação poderiam ser úteis ao organismo. Por fim, uma última objeção decorre da visão criacionista que contempla as diversas espécies como imutáveis e criadas a partir de uma divindade e não através de um processo gradual de evolução ou seleção (Buss, 1999a).

Como é possível concluir para algumas pessoas, é bastante difícil, e até mesmo incômodo, aceitar o fato de que dividimos parte de nossa história evolutiva com outros animais. Como escreve Winston (2006), mesmo que certas pessoas aceitem que nossas estruturas físicas derivem daquelas de outras criaturas, poucas consideram a existência das implicações psicológicas decorrentes deste fato.

Segundo Winston (2006):

O homo sapiens não apenas parece, se move e respira como um macaco: ele também pensa como um macaco. Não apenas temos um corpo da Idade da Pedra, que traz muitos vestígios de nosso passado, como também temos uma mente da Idade da Pedra. As pressões a que fomos expostos durante milênios deixaram um legado mental e emocional. Algumas dessas emoções e reações, derivadas de espécies que nos antecederam, são desnecessárias nos tempos modernos, mas os vestígios de uma existência anterior estão indelevelmente impressos em nós (p. 15).

Pinker (1998) pontua que, durante 99% da existência dos seres humanos, eles estiveram submetidos a um modo de vida de caça e coleta em pequenos grupos nômades. Assim, nosso cérebro encontra-se adaptado a esse estilo de

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vida e não às atuais civilizações agrícolas e industriais e seus correlatos tais como multidões anônimas, escola, linguagem escrita, governo, polícia, tribunais, exércitos, medicina moderna, instituições sociais formais, alta tecnologia, dentre outros.

Mas uma ressalva importante precisa ser explicitada aqui. Nas palavras de Pinker (1998/1997):

Como a mente moderna está adaptada à idade da pedra, e não à era do computador, não há necessidade de forçar explicações adaptativas para tudo o que fazemos. Em nosso meio ancestral não existiam as instituições que hoje nos instigam a escolhas não adaptativas, como ordens religiosas, agências de adoção e indústrias farmacêuticas, e por isso, até bem recentemente, não havia uma pressão da seleção natural para resistir a esses estímulos. (...) Nossa mente é projetada para gerar comportamentos que teriam sido adaptativos, em média, em nosso meio ancestral, mas qualquer ato específico praticado hoje é efeito de dezenas de causas (p. 53).

E é seguindo essa linha do pensamento de Pinker (1998) e Winston (2006) que se apresenta aqui uma informação importante para o início da reflexão que ora se inicia. Embora milênios tenham passado e não mais vivamos na savana, é para ela que devemos dirigir nossa atenção se quisermos entender alguns dos determinantes dos comportamentos que hoje são emitidos por nós humanos.

O homem possui uma capacidade grande para adquirir conhecimento e aprender habilidades. Todavia, ele necessita de um elemento fundamental para

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esse complexo processo de aprendizagem. Do que ele precisa, como pontuado por Winston (2006), é comunicar-se com os outros.

Viver, caçar e colher em grupo significava que todos tinham uma chance maior de comer e, assim, de sobreviver, e esse processo dependia da capacidade do hominídeo de se comunicar e implicava habilidade de saber como os outros reagiriam e de distinguir quem era aliado ou rival. (...) Ainda que não possamos literalmente ler as mentes dos outros, gastamos grande parte de nossas vidas ouvindo o que os outros têm a dizer, observando seus rostos, olhos e linguagem corporal, e tentando entender seu comportamento. (...) O desenvolvimento dessas habilidades, que alguns consideram a essência do ser humano e do pensamento superior, deve ter sido um divisor de águas no crescimento do tamanho do cérebro de nossos ancestrais. Habilidades como planejamento, memória, comunicação, consciência de nós mesmos e dos outros devem, com certeza, ter constituído uma grande mudança na evolução humana que nos separou dos outros animais (Winston, 2006, p. 114).

Nesse sentido, como pode ser inferido baseado na citação apresentada, a natureza social dos hominídeos foi de suma importância porque “(...) eles viviam em grupo, procuravam comida para o grupo, protegiam todo o grupo e se comunicavam uns com os outros” (Winston, 2006/2002, p. 113). No entanto, é importante ressaltar que o ambiente ancestral, para onde se deve voltar a atenção, era constituído, de acordo com Bussab (1998), não somente pelo ambiente físico, mas pelo conjunto de relações estabelecidas em um grupo pequeno e auto-suficiente de caça e coleta onde os ancestrais conviviam

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intensamente com um grupo social estável de aproximadamente 30 pessoas. E é justamente sobre esta constatação que o presente trabalho se firma na tentativa de discutir uma modalidade da comunicação humana moderna, aquela mediada por mídia eletrônica.

Entretanto, não podemos nos enganar achando que as habilidades de planejamento, memória, comunicação, consciência de nós mesmos e dos outros foram os fatores fundamentais que impulsionaram a evolução humana. Como enfatizado por Gould (2004/1989), o aumento do tamanho do cérebro e, conseqüentemente, das capacidades associadas a esse aumento, é um “epifenômeno secundário” (p. 117) de uma transformação geral embutida no padrão geral da espécie humana: o bipedalismo. Para o autor, este é o grande trunfo da evolução humana, e não o aumento do volume cerebral posterior à postura ereta. “Quando nos tornamos eretos como o A. afarensis, o jogo praticamente terminou – a principal mudança na arquitetura fora realizada e o gatilho para a futura mudança já estava armado. O posterior aumento do cérebro foi anatomicamente fácil” (Gould, 2004/1989, p. 118).

Nesse sentido, Winston (2006) ressalta um aspecto importante surgido com o bipedalismo que foi a liberação das mãos tornando possível aos hominídeos ancestrais carregar objetos, segurar alimentos, carregar seus bebês, colher frutas e vegetais de modo mais eficiente.

Embora demorada, cerca de um milhão de anos após a postura ereta e a conseqüente liberação das mãos, uma mudança igualmente importante se concretiza. Na evolução dos hominídeos de Australopithecus para o gênero Homo, as mãos são utilizadas para a fabricação de ferramentas de pedra (Winston,

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2006). Ainda que outros animais possuam a habilidade de utilizar pedaços de pedra e de pau como instrumentos e até fabricar instrumentos, a confecção de ferramentas constituiu-se na habilidade tipicamente humana “de fazer o ambiente trabalhar para nós, de moldá-lo até que esteja talhado para nossa própria sobrevivência” (Winston, 2006, p. 68).

É por isso que Leakey e Lewin (1988) já haviam anteriormente escrito que, devido à interação social e à inovação tecnológica, nossa espécie começou a dar forma ao mundo à sua volta e a impor a ele sua vontade, fazendo com que nos tornássemos verdadeiros animais culturais. Os artefatos fazem parte da constituição humana (Pinker, 1998) e também ajudaram a moldar o que a espécie é hoje. Em resumo, sua importância na Biologia Evolutiva consiste na possibilidade de tornar certos aspectos da vida mais fácil e melhor (Leakey & Lewin, 1988/1978).

Nas palavras de Bickerton (1998), a fabricação da machadinha de pedra parece ter posto fim à suposta idéia de ingenuidade hominida. A afirmação deste autor envolve-se de sentido quando se pensa que a partir da utilização de objetos como instrumentos; e, principalmente, com a fabricação desses instrumentos, foi possível aos estudiosos tecer considerações mais bem elaboradas acerca da intencionalidade dirigida a um fim específico como a caça. Porém, é preciso lembrar que, antes da utilização dos instrumentos de pedra, nossos ancestrais usavam ossos que encontravam, limpavam e guardavam para a caça. E nesse sentido, podemos depreender das palavras de Bickerton (1998) que tais instrumentos eram usados até contra os congêneres.

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Por mais atraente que seja a idéia do Homem Caçador, o consenso é que nós éramos forçados a competir com a força e a velocidade de predadores da savana como os leopardos. A maior parte dos arqueólogos e paleontólogos contemporâneos acredita que o homem primitivo não era um grande caçador. Em termos realistas, ele não tinha nem força nem velocidade para competir com os grandes predadores, os felinos e caninos que caçavam bandos de animais. Nossas pedras voadoras, por mais que exigissem habilidade, eram pouco diante de um dentes-de-sabre (Winston, 2006, p. 69).

Mas, mesmo que nossos ancestrais não dispusessem de toda a habilidade descrita por Winston (2006), é preciso considerar que, por envolver um mecanismo de ensaio e refinamento das intenções, as habilidades na utilização de instrumentos proporcionaram uma mudança significativa no implemento da cultura e de sua difusão (Donald, 1999). Essas habilidades constituem a maior aquisição do Homo sapiens arcaico e requerem a compreensão de que, para fabricar um novo instrumento, é preciso perceber sua necessidade. Além disso, a manufatura de novos instrumentos implica avanços tanto no uso de artefatos quanto nas formas de transmissão de informações sobre esse uso (Donald, 1999).

Leakey e Lewin (1988) afirmam que o domínio da tecnologia nos coloca no ápice do reino animal. Contudo, estes autores alertam para que a análise das condições que propiciaram o surgimento de tal habilidade não seja limitada à questão da inteligência. Em outras palavras, é relativamente fácil argumentar que a espécie humana tornou-se tecnologicamente bem sucedida por ser inteligente. Mas o que deve ser questionado em termos evolutivos é o seguinte: “foi a

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vantagem indiscutível da sofisticada tecnologia a força propulsora primordial que criou o inteligente cérebro humano? Ou nós somos os expoentes tecnológicos do nosso planeta devido a uma conseqüência fortuita da necessidade de ser inteligente por outras razões menos tangíveis?” (Leakey & Lewin, 1988, p. 148).

A inteligência humana tem sido tão evidentemente exaltada na análise da evolução humana que poucos se perguntam o porquê disso. O fato é que existe a chance de que tenhamos tido a necessidade de aguçar nossa astúcia não somente para encarar e superar os desafios tecnológicos encontrados no dia-a-dia; mas, principalmente, para manejar uma vida social especialmente intrincada (Leakey & Lewin, 1988).

Embora não se possa dizer que tenha havido uma única força responsável pelo extremo desenvolvimento do intelecto humano, a evolução raramente funciona dessa maneira monolítica; podemos ter a certeza de que as demandas de intercurso social forneceram uma contribuição muito importante para o crescimento do cérebro humano. As exigências intelectuais da economia de caça e coleta e as vantagens da tecnologia que as acompanha também prestaram sua colaboração. Aquilo que o mundo pode agora criar em nossa cabeça e, porque somos humanos, em cada um dos nossos mundos, apresenta características nitidamente diferentes (Leakey & Lewin, 1988, p. 174).

A vida em grupo também é um dos elementos fundamentais, segundo Pinker (1998), para a análise da evolução das nossas capacidades cognitivas. Na vida em grupo, ter uma informação é ter um bem que, ao mesmo tempo, pode ser dado e mantido e, assim, um membro mais esperto poderia apresentar as

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vantagens de possuir um conhecimento sobre algo e de poder obter alguma coisa em troca do conhecimento. Por outro lado, o próprio convívio grupal é fonte de novos e constantes desafios cognitivos (Pinker, 1998), como por exemplo, o reconhecimento dos indivíduos que pertencem ao mesmo grupo, a suposição sobre o que o outro esteja sentindo a partir das expressões faciais deste, dentre outros.

Em resumo, além da vida em grupo, Pinker (1998) lista ainda o fato de os primatas serem animais visuais, a desenvoltura de suas mãos e a caça dentre os determinantes do desenvolvimento do intelecto humano.

Todas essas possibilidades fizeram com que compartilhássemos com os grandes antropóides algumas habilidades sensoriais de forma a podermos construir uma imagem do mundo. Essa constatação impõe contundentemente a necessidade de analisar um instrumento importante que aprimora, e muito, a imagem perceptiva do mundo, construída pelo Homo sapiens: a linguagem.

A criação e a manipulação mental de imagens é uma forma de explorar o meio ambiente e quanto mais nítidas forem as imagens mentais, maior será o sucesso que teremos como espécie na exploração do ambiente. O instrumento fundamental para aguçar e manipular as imagens na nossa cabeça, e também para evocá-las na cabeça dos outros, é, de acordo com Leakey e Lewin (1988), a palavra. “(...) Livro, nuvens carregadas, garanhão negro, mulher bonita, homem simpático, guerra – todas essas palavras podem fazer brotar imagens na [nossa] mente que diferem de pessoa para pessoa devido tanto à diversidade do mundo como a diversidade da experiência pessoal” (Leakey & Lewin, 1988, p. 184).

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Como o arquivo arqueológico não contém nenhum traço palpável dos sons emitidos por nossos ancestrais, existem duas maneiras básicas para investigar o surgimento da linguagem (Leakey & Lewin, 1988): examinar as mudanças no tamanho e no formato do cérebro hominídeo nos últimos milhões de anos e examinar também os produtos materiais, sejam eles os instrumentos de pedra ou os objetos ritualísticos, no intuito de verificar o que se passava na mente daqueles que os confeccionaram e suas aptidões para o trabalho manual.

Entretanto, no sentido de revisar a idéia de que a linguagem teve função na produção dos instrumentos, uma ressalva deve ser feita antes de prosseguir a discussão. Foley (2003) esclarece que, durante o período de dois milhões até aproximadamente trezentos mil anos atrás, o ritmo das mudanças tecnológicas foi muito lento e mostrou uma estabilidade incrível ao longo de milhares de anos, sugerindo a ausência de caracteres ligados à linguagem e ao pensamento. Uma mudança crítica só veio a ocorrer tardiamente na evolução hominida e foi seguida por uma rápida expansão da inovação cultural (Foley, 2003).

Retomando a discussão, o aparato neural com função de produção e compreensão da fala localiza-se no hemisfério cerebral esquerdo nas áreas de Broca, que coordena os músculos da boca e da garganta; e, na área de Wernicke, responsável pela estrutura e sentido de nossa fala (Leakey & Lewin, 1988).

A área de Wernicke recebe informações dos canais auditivos e visuais, e não é acidentalmente que esta importante peça do equipamento da linguagem está próxima a uma “área de associação” de grande importância do córtex, um grupo de nervos que integram e comparam as informações recebidas através de todos os órgãos dos sentidos. Quando temos algo a

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dizer, a área de Wernicke organiza as palavras de acordo com uma forma gramatical básica, e então envia sinais para a área de Broca ao longo de um feixe nervoso conhecido como fascículo arqueado; a estrutura do circuito, na área de Broca, responde pela coordenação da respiração, pela tensão das cordas vocais e pelo movimento da língua e dos lábios, de forma que os sons corretos sejam emitidos.

O resultado de abrigar toda essa engrenagem no hemisfério esquerdo é que ele, em geral, é ligeiramente maior do que o direito. Além disso, existe uma espécie de protuberância sobre a área de Broca e também uma outra, menos acentuada, sobre a área de Wernicke (Leakey & Lewin, 1988, p. 187).

A citação acima relata parte das funções e da estrutura cerebral ligada à linguagem. No entanto, não serão acrescentados aqui maiores comentários acerca da estrutura cerebral. Para fins alusivos ao presente trabalho, faz-se mais pertinente uma explicação um pouco mais detalhada sobre os produtos materiais deixados por nossos ancestrais.

Poucas vantagens biológicas existiriam na criação de um conjunto especializado de instrumentos. De acordo com essa premissa, Leakey e Lewin (1988) são categóricos ao afirmar que a tecnologia formalizada e ordenada não surgiu apenas para aprimorar as bordas e as superfícies dos instrumentos necessários para a atividade de caça e coleta. Frente ao desenvolvimento da manufatura de instrumentos para esse fim único, o trabalho de seleção natural para moldar cérebros altamente especializados seria evolutivamente muito dispendioso.

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Seguindo esse raciocínio, convém, novamente, atentar para as implicações que uma vida grupal, com uma estrutura social bastante ordenada e formalizada, tem sobre o desenvolvimento da linguagem, já que foi exatamente essa estrutura social que facilitou a existência de um padrão de comportamento tão sofisticado. Com o surgimento de regras para o controle dos problemas inerentes à vida social organizada no modo de vida de caça e coleta também, houve a necessidade de elaboração da tecnologia material (Leakey & Lewin, 1988).

As necessidades de uma organização social, em suas peculiaridades interacionais e com as especificidades de uma atividade de caça e coleta, parecem ter sido bem mais funcionais como determinantes da evolução da linguagem que a pura probabilidade de melhoria na comunicação (Leakey & Lewin, 1988). Nesse sentido, Foley (2003) se opõe ao afirmar que a caça não mais parece ser o gatilho ideal para as características humanas; argumenta que observações diretas de caçadores-coletores, em Botswana, mostraram que a carne praticamente não representa uma parte tão importante da dieta do grupo (figura em torno de 20%) sendo os alimentos de origem vegetal a base da subsistência. E o autor questiona o fato de que se os humanos modernos não conseguem ou preferem não caçar grandes quantidades de carne, por que o fariam nossos ancestrais? E ainda informa que leões e hienas são capacitados para a caça sem uma comunicação sofisticada.

Uma visão muito interessante sobre a evolução da linguagem cabe ser aqui discutida. Pinker e Bloom (1992) defendem o ponto de vista segundo o qual algumas características podem surgir como produtos incidentais do processo de evolução. Para defender esse argumento, eles se basearam na analogia da

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catedral de São Marcos, em Veneza, analogia esta estabelecida por Gould e Lewontin (2006/1979).

Segundo Catania (1999), o teto da catedral é sustentado por vários arcos. Cada dupla de arcos adjacentes se apóia no topo de um pilar comum e formam entre si um espaço triangular acima do pilar de sustentação. Esse espaço é denominado spandrel e foi utilizado para a confecção de um mosaico.

Cada spandrel contém um desenho admiravelmente adaptado em seu espaço decrescente. Um evangelista está sentado na parte superior, ladeado pelas cidades celestes. Abaixo, um homem representando um dos quatro rios bíblicos (o Tigre, o Eufrates, o Indu e o Nilo) derrama água de uma jarra no espaço que se estreita entre seus pés. O desenho é tão elaborado, harmonioso e proposital, que somos levados a vê-lo como o ponto de partida de qualquer análise (Gould & Lewontin, 2006/1979)

Como escreve Catania (1999), a catedral de São Marcos não foi construída para criar os spandrels, já que estes são subprodutos arquitetônicos incidentais e inevitáveis da construção de um teto sustentado por arcos. Analogamente, Pinker e Bloom (1992), ao questionarem a teoria ultra-darwinista baseada no conceito de adaptação, postulam que certas características das populações hodiernas não são produtos diretamente oriundos de um processo de seleção natural, mas sim, subprodutos incidentais de alguns caracteres selecionados naturalmente. Assim, é possível pensar que a evolução da linguagem ocorreu como um produto incidental da evolução da vida em grupo e não uma habilidade diretamente constituída a partir da seleção natural.

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Para aprimorar tal afirmação Buss, Haselton, Shackelford, Bleske e Wakafield (1998) utilizam o conceito de ‘exaptação’ que corresponde ao fato de uma função de um órgão poder ser modificada no decorrer do processo evolutivo. Pinker (1998) apresenta como exemplo de exaptação a modificação na função das penas das asas das aves que foram inicialmente projetadas pela seleção natural para o isolamento térmico e com o decorrer do processo foram assumindo a função, em certas espécies de aves, para o vôo.

No que se refere especificamente à linguagem, Buss et al. (1998) afirmam que a modificação no tamanho do cérebro humano e na sua função de favorecer a fala são um bom exemplo do que seria uma exaptação. O tamanho do cérebro originalmente foi aumentando e permitindo a adaptação de algumas funções no passado ancestral. Mas o elevado grau de complexidade do cérebro permitiu o surgimento alguns subprodutos que não são propriamente considerados como funções cerebrais originais. Isto posto, os autores apontam o que consideram spandrels surgidos a partir da complexidade estrutural do cérebro humano: a leitura, a escrita, a fala, as artes, a religião, as normas de comércio e as práticas de guerra.

É possível concluir que a idéia da linguagem como um spandrel traz em si a constatação de que os pilares básicos da Biologia Evolucionista, a seleção natural e a adaptação não podem ser considerados sem uma devida revisão daquilo que é tido como suas funções principais. Entender a natureza das adaptações responsáveis pelo surgimento dos spandrels não é uma afronta aos princípios norteadores da Biologia Evolucionista; mas, como defendido por Buss et al. (1998), é, antes de tudo, um elemento fundamental para a análise desta

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questão; posto que, associado à noção de adaptação, o conceito de exaptação tornar-se-ia uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento da Psicologia Evolucionista.

Agora fica mais fácil compreender as palavras de Leakey e Lewin (1988) ao afirmarem que “a comunicação mais efetiva através da linguagem falada pode ter sido simplesmente um subproduto casual da necessidade que nossos ancestrais tinham de palavras por outras razões menos óbvias” (p. 177-178).

Defendendo a interação e a mútua determinação entre os fatores biológicos e culturais, Bussab e Ribeiro (1998) advogam que possuir um aparelho fonador específico não é o suficiente para falar. O comportamento vocal, conforme estes autores, requer a existência de outras habilidades no repertório geral do indivíduo, tais como as perceptuais, cognitivas e interacionais, além da necessidade de o comportamento estar inserido em um modo de vida no qual falar seja vantajoso.

Por ser a linguagem uma evidência forte da ação da evolução sobre os comportamentos culturais, é possível considerá-la como sendo essencial à cultura, mas também, ao mesmo tempo, possuindo raízes fortes nas propriedades biológicas ligadas à estrutura do cérebro, às propriedades anatômicas do aparelho fonador e à herança da capacidade lingüística (Bussab & Ribeiro, 1998). Em outras palavras, o que estes autores mostram é que “um cérebro maior permitia novos desenvolvimentos culturais [e] um contexto cultural mais desenvolvido promovia a seleção de nova especialização cerebral” (Bussab & Ribeiro, 1998, p. 181).

Nesse sentido, é possível constatar uma concordância entre o que foi afirmado no parágrafo anterior e as idéias de Pinker (2004). A linguagem não é

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puramente um artefato cultural aprendida da mesma forma como se aprende a dizer as horas:

Ao contrário, é claramente uma peça da constituição biológica do nosso cérebro. A linguagem é uma habilidade complexa e especializada, que se desenvolve espontaneamente na criança, sem qualquer esforço consciente ou instrução formal, que se manifesta sem que se perceba sua lógica subjacente, que é qualitativamente a mesma em todo indivíduo, e que difere de capacidades mais gerais de processamento de informações ou de comportamento inteligente (Pinker, 2004, p. 9).

A essa citação de Pinker (2004), é preciso somar a informação de que o Homo sapiens depende da cultura. O conhecimento acumulado dispensa as novas gerações da aprendizagem por ensaio e permite que novos conhecimentos decorrentes das experiências atuais sejam incorporados aos já existentes. Não é exagero afirmar, então, que essa dependência da cultura favoreceu os genes para o comportamento cultural (Bussab & Ribeiro, 1998) e é, nesse sentido, que a linguagem é entendida como uma peça da constituição biológica do cérebro humano.

E tudo isso faz muito sentido quando se constata que, comprovadamente, a organização social, a cooperação e a coesão foram peças fundamentais para o sucesso do modo de vida de caça e coleta. E foram exatamente esses grupos de estímulos os principais responsáveis pela reorganização e o crescimento dos cérebros de nossos antepassados (Leakey & Lewin, 1988).

Dunbar (1997) apresenta uma hipótese instigante e interessante acerca da natureza da linguagem e sua função para a espécie humana. Sua principal

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hipótese versa sobre a relação existente entre o tamanho do neo-córtex cerebral, a eficiência da troca de informações entre co-específicos e a formação de vínculos sociais.

Proporcionalmente ao tamanho de seus corpos, os primatas possuem cérebros bem grandes. Dunbar (1997) mostra que, quando os cérebros dos primatas são comparados aos de outros animais, é possível constatar que, no decorrer da evolução primata, o seu neo-córtex aumentou de forma mais acentuada que de outras áreas corticais e sub-corticais. O autor também adverte sobre a função desempenhada por essa área por ser o locus da atividade cerebral consciente.

Essas informações ajudam a pensar no fato de que a evolução do neo-córtex dos primatas se deu proporcionalmente à demanda de processamento de informações provenientes do aumento do tamanho de seus grupos. A questão é que, à medida que houve pressões ecológicas para o aumento da quantidade de indivíduos no grupo primata, houve também uma pressão para a seleção de cérebros maiores de forma a facilitar a criação e a manutenção de grupos que contivessem uma maior quantidade de indivíduos (Dunbar, 1997).

Na perspectiva de Dunbar (1997), existem três motivos principais que permitem a relação entre o aumento do volume do neo-córtex e o tamanho do grupo de interação. O primeiro a ser citado é o aprimoramento da necessidade dos indivíduos de reconhecer uns aos outros como membros daquele grupo específico. O segundo motivo é a capacidade de associar determinadas informações a indivíduos particulares no grupo. E o terceiro motivo é a

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possibilidade de melhor utilizar as informações que são trocadas dentro de um subgrupo especial de aliados.

Entretanto, o que realmente importa nessas condições não é puramente a quantidade maior de informações recebidas ou simplesmente lembrar quem é quem. Aquilo que o indivíduo faz com as informações que possui é o que ocupa lugar de interesse na investigação. Com isso, é possível afirmar que a lembrança de informações pontuais não é o essencial do desenvolvimento da habilidade lingüística humana, mas sim, a chance que os indivíduos têm de compreender o que se passa na cabeça de outros indivíduos. Logo, as habilidades sociais envolvidas no gerenciamento de um grupo de relações tornam-se mais importantes que a consciência da existência dessas relações em um grupo (Dunbar, 1997).

A análise de Dunbar (1997) revela uma interessante informação que pode servir de exemplo para as afirmações estabelecidas nos parágrafos anteriores. As investigações realizadas por este autor sugerem que os primatas com neo-córtices maiores podem manejar, proporcionalmente, uma maior quantidade de relações de membros entre si. Esse manejo ocorre principalmente através das alianças estabelecidas durante a atividade de catação (grooming). É nessa atividade, cujas relações engendram estruturas e dinâmicas complexas, que os primatas adquirem a capacidade cognitiva de regular o próprio comportamento baseando-se naquele que pode vir a ser emitido por outro membro. Como eles dependem da ação de outros membros para poderem ter o pêlo livre de sujeiras e parasitas, as alianças estabelecidas na catação visam a garantir que, no futuro, seus companheiros contribuam para essa função. Isso faz com que eles ajam de acordo com uma

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