Tatiane Liberalia; Vania Schmittb; Alline Lam Oruéa; Daiana Novelloa*
Resumo
O comportamento alimentar dos adolescentes geralmente é vinculado ao consumo de alimentos com alto valor energético e pobres em nutrientes, com omissão de refeições e tendência às restrições alimentares, contribuindo, dessa forma, para alterações no estado nutricional, o que pode desencadear futuras patologias como a anorexia e bulimia. O objetivo do presente trabalho foi avaliar o efeito da imagem corporal sobre o estado nutricional e comportamento alimentar de adolescentes do sexo feminino, com faixa etária entre 14 e 17 anos (média de 15,41±1,11 anos), frequentadoras de um Centro Estadual de Educação Profissional no município de Guarapuava-PR. Participaram do estudo 96 adolescentes, regularmente matriculados na Instituição. Foram analisadas questões relativas à percepção da imagem corporal, comportamento alimentar e dados antropométricos. Após a avaliação dos resultados, observou-se uma média de altura de 1,62±0,06m, peso de 56,07±5,21kg e IMC de 21,41±2,24kg/m². A maioria das meninas apresentou IMC adequado (84,4%) e não mostraram riscos para desenvolver transtornos alimentares (72,9%), sendo que a maioria demonstrou distorção da imagem corporal (52,1%). Torna-se necessário maior atenção em relação à alimentação, pois a distorção da imagem corporal pode levar à prática de dietas restritivas e desenvolvimento de transtornos alimentares. Palavras-chave: Adolescente. Estado Nutricional. Percepção.
Abstract
The eating behavior of adolescents is usually associated to the consumption of high-energy foods low in nutrients, meal skipping and a tendency to dietary restrictions, which contributes to changes in nutritional status, causing eating disorder, such as anorexia and bulimia. The objective of this study was to evaluate the effect of body image on the nutritional status and feeding behavior of female adolescents, aged between 14 and 17 years (mean 15.41±1.11 years) who attended a State Professional Education Center in Guarapuava-PR. The study included 96 adolescents, which were evaluated to the perception of body image, eating behavior and demographics. After evaluating the results, the average height was 1.62±0.06 m, weight 56.07±5.21 kg and BMI 21.41±2.24 kg/m². Most of the girls showed adequate BMI (84.4%) and no risk for developing eating disorders (72.9%), and 52.1% showed distorted body image. The study concluded it is necessary to pay attention to nutrition of adolescents, since the distorted body image may lead to the development of restricted diets and eating disorders.
Keywords: Adolescent. Nutritional Status. Perception.
Efeito da Imagem Corporal Sobre o Estado Nutricional e Comportamento Alimentar de
Adolescentes
Effect of Body Image on the Nutritional Status of Food and Adolescent Behavior
aUniversidade Estadual do Centro-Oeste, PR, Brasil
bUniversidade Estadual do Centro-Oeste. Programa Interdisciplinar em Desenvolvimento Comunitário, PR, Brasil
*E-mail: [email protected]
Recebido: 17 de abril de 2012; Aceito: 18 de dezembro de 2012.
1 Introdução
Para os efeitos da Lei Nº 8.069, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, considera-se criança o indivíduo que possui até 12 anos de idade incompletos e, adolescente, aquele entre 12 e 18 anos. Segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS, a adolescência é a etapa da vida que compreende a faixa etária entre 10 e 19 anos, considerando a juventude dos 15 aos 24 anos. Esses conceitos comportam desdobramentos, identificando-se adolescentes jovens de 15 a 19 anos e adultos jovens de 20 a 24 anos1.
A adolescência é uma categoria sociocultural, construída a partir de critérios múltiplos que abrangem, tanto a dimensão bio-psicológica, quanto cronológica e social. Estar na adolescência é viver uma fase em que múltiplas mudanças acontecem e se refletem no corpo físico, pois o crescimento somático e o desenvolvimento em termos de habilidades
psicomotoras se intensificam, sendo que os hormônios atuam de forma muito intensa, levando a mudanças radicais de forma e expressão2.
Durante o período de crescimento, enquanto as adolescentes mais velhas preocupam-se com a aparência, peso e opinião de seus pares, as mais novas não se preocupam tanto com estes fatores. À medida que o peso aumenta, observa-se correspondente aumento no nível de insatisfação com a imagem corporal3.
Devem ser observados atentamente os fatores que possam interferir no consumo alimentar nesta faixa etária, como os ambientais, sociais, preferências individuais e padrão das refeições em família, visto que a inadequação nutricional nesta fase pode repercutir no estado nutricional e na saúde, podendo trazer hábitos alimentares inadequados e, como conseqüência, a obesidade, doenças carenciais e doenças crônicas não transmissíveis (DCNT)4.
O comportamento alimentar dos adolescentes é vinculado aos padrões manifestados pelo grupo etário a que pertencem, pelo consumo de alimentos com alto valor energético e pobres em nutrientes, omissão de refeições, ingestão precoce de bebidas alcoólicas e tendência às restrições alimentares, cujas práticas podem contribuir com alterações no estado nutricional5,6.
Sendo assim, o presente estudo teve como objetivo avaliar o efeito da imagem corporal sobre o estado nutricional e comportamento alimentar de adolescentes do sexo feminino.
2 Material e Métodos
Trata-se de um estudo descritivo transversal, realizado durante os meses de março a outubro de 2011. A coleta de dados foi realizada em um Centro Estadual de Educação Profissional no município de Guarapuava - PR. A Escola funciona nos períodos da manhã e tarde e possui um total de 205 alunos (118 do sexo feminino e 87 do sexo masculino) matriculados nas três séries do ensino médio.
Participaram da pesquisa, 96 meninas adolescentes, pertencentes à faixa etária de 14 a 17 anos.
Toda a coleta de dados foi realizada pelas pesquisadoras responsáveis, em uma sala própria da escola, garantindo-se a privacidade dos indivíduos.
2.1 Percepção da imagem corporal
As investigações da percepção da imagem corporal foram realizadas por meio de questionários autoaplicáveis, respondidos individualmente. Utilizou-se o Questionário sobre a Imagem Corporal, Body Shape Questionnaire (BSQ), sugerido por Cooper et al.7 e traduzido e adaptado por Cordas
e Neves8. Tal instrumento mede as preocupações com a forma
do corpo, auto-depreciação devido à aparência física e a sensação de estar “gordo”.
Cada questão é composta por seis alternativas de resposta, que variam do “sempre” ao “nunca”. Para cada alternativa escolhida, são conferidos pontos que variam de 1 a 6 (sempre = 6; muito frequentemente = 5; frequentemente = 4; às vezes = 3; raramente = 2; nunca = 1). O resultado do teste é a somatória dos 34 itens contidos no questionário e a classificação dos resultados reflete os níveis de preocupação com a imagem corporal. Resultado menor que 70 pontos é considerado padrão de normalidade e tido como ausência de distorção da imagem corporal; resultados entre 70 e 90 pontos são classificados como leve distorção da imagem corporal; entre 91 e 110, como moderada distorção; e acima de 110 pontos a classificação é de presença de grave distorção da imagem corporal9.
2.2 Comportamento alimentar
O comportamento alimentar foi avaliado por intermédio do questionário Eating Attitudes Test (EAT-26), recomendado por Garner e Garfinkel10 e Garner et al.11, sendo
validado no Brasil por Bighetti12. Este questionário identifica
casos clínicos em populações de alto risco e indivíduos com preocupações anormais em relação à alimentação e peso. Cada questão é composta por seis alternativas de resposta que variam do “sempre” ao “nunca”. Para cada alternativa escolhida, são conferidos pontos que variam de 0 a 3 (sempre = 3; muito frequentemente = 2; frequentemente = 1; às vezes = 0; raramente = 0; nunca = 0). A única questão que apresenta pontos em ordem invertida é a 4, sendo que para as respostas mais sintomáticas, como “sempre”, “muito frequentemente” e “frequentemente”, não são dados pontos, e para as alternativas “às vezes”, “raramente” e “nunca” são conferidos 1, 2 e 3 pontos, respectivamente. O resultado do teste é a somatória de todos os pontos dados aos 26 itens, sendo considerado um indicador de risco para o desenvolvimento de transtorno alimentar o número de respostas positivas igual ou superior a 209.
2.3 Antropometria
A aferição do peso e altura das adolescentes foi realizada para classificação do estado nutricional. Os dados antropométricos de peso e estatura foram coletados de acordo com o preconizado pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN)13.
O Índice de Massa Corporal - IMC foi calculado considerando-se o valor do peso atual (kg) dividido pelo quadrado da estatura (m2). A análise dos dados foi feita por
meio das escalas de avaliação dos testes e do IMC para idade14.
2.4 Questões éticas
Inicialmente, o projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COMEP) / UNICENTRO, parecer nº 143/2011, seguindo-se as Normas e Diretrizes Éticas da Resolução CNS 196/96 do Ministério da Saúde.
As alunas foram convidadas a participar da pesquisa na própria escola, de forma voluntária, sendo que todo o procedimento do trabalho foi explicado com antecedência.
Como critérios de exclusão, foram considerados os seguintes fatores: alunas que não trouxeram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) assinado por um representante legal, alunas menores de 14 e maiores de 17 anos de idade e alunas que não se encontravam na escola no período da coleta.
2.5 Análise estatística
Utilizou-se de análise estatística descritiva e qualitativa (frequências). O teste exato de Fisher foi utilizado para análise de frequências de amostras independentes, além do teste de Qui-quadrado de Pearson, com nível de significância de 5%. Foi realizado também o teste de razão de prevalências (OR) com intervalo de confiança (IC) de 95%. Os dados foram avaliados através do Software Statistical Package for the
3 Resultados e Discussão
A Tabela 1 apresenta os dados de idade e antropometria das 96 adolescentes participantes da pesquisa.
Tabela 1: Avaliação de idade, altura, peso e IMC das adolescentes,
Guarapuava-PR
Variáveis Amostra (n=96)média±DP
Idade (anos) 15,41±1,11
Altura (m) 1,62±0,06
Peso (kg) 56,07±5,21
IMC (kg/m²) 21,41±2,24
*IMC: Índice de Massa Corporal; DP: Desvio-padrão da média.
Valores médios classificados como eutrofia foram verificados na Tabela 1, corroborando com Silva15 que
verificou IMC médio de 20,62kg/m².
Na Tabela 2 podem ser observados os resultados obtidos para IMC, distorção da imagem corporal e risco de desenvolver transtorno alimentar entre as adolescentes avaliadas.
Tabela 2: Distribuição das variáveis do estado nutricional
avaliado pelo IMC, percepção da imagem corporal e risco para desenvolver transtornos alimentares das adolescentes, Guarapuava, 2011 Variáveis % (n) IMC Baixo peso 0,0 (0) Eutrofia 84,4 (81) Sobrepeso 14,6 (14) Obesidade 1,0 (1) Imagem Corporal (BSQ) Normalidade 47,9 (46) Leve distorção 32,3 (31) Moderada distorção 15,6 (15) Grave distorção 4,2 (4)
Transtorno alimentar (EAT)
Risco 27,1 (26)
Sem risco 72,9 (50)
*IMC: Índice de Massa Corporal; BSQ: Body Shape Questionnaire; EAT: Eating Attitudes Test.
Maior preocupação com a imagem corporal é uma possível explicação para a pequena prevalência de sobrepeso (14,6%) e obesidade (1%) entre as adolescentes femininas. Corroborando com estes dados, Graup et al.16 constataram
que 13,76% dos pesquisados encontravam-se em sobrepeso, enquanto 2,43% em obesidade. De forma semelhante, French
et al.17 avaliando escolares adolescentes, observaram que
grande parte deles realizava dietas para perda de peso, apesar do IMC estar classificado como eutrófico.
Entretanto, Santos et al.18 estudaram o perfil dos pacientes
de uma clínica de emagrecimento em São Paulo e observaram
que, entre as adolescentes, 49,4% apresentavam sobrepeso ou estavam dentro da faixa de normalidade. No presente estudo, o resultado encontrado foi consideravelmente maior, sendo que o total de adolescentes em eutrofia e sobrepeso foi de 99%.
Um ponto importante a se destacar é que, devido à participação no estudo ser voluntária, algumas adolescentes que apresentavam sobrepeso ou obesidade podem não ter aceitado se submetem à aferição de peso corporal, afetando o resultado geral da pesquisa.
Ressalta-se, também, que a presença de sobrepeso/ obesidade é uma característica negativa na população estudada, pois o receio à obesidade pode criar distorções na imagem corporal, gerar condutas prejudiciais à saúde e risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares. A literatura aponta que, entre mulheres, há a adoção de práticas alimentares e de redução de peso corporal inadequadas quando estão insatisfeitas com sua imagem corporal. Essa insatisfação é manifestada em seu desejo de perder peso32,33. Assim, a distorção da imagem corporal
constitui importante sintoma em relação ao seu peso e sua forma corporal34.
Dessa forma, a Tabela 2 mostra que 52,1% das meninas avaliadas estavam insatisfeitas com seu corpo e 47,9%
satisfeitas. Resultados semelhantes foram observados
por Benedikt et al.20, sendo que 60,7% das adolescentes
participantes da pesquisa apresentaram insatisfação relacionada à imagem corporal.
Trabalhos de Parham21, Bosi e Andrade22 e Conti et al.23 também mencionaram resultados similares quanto à
insatisfação de adolescentes com sua imagem corporal. Os autores afirmam que esta é uma fase de grande preocupação com a aparência corporal, considerando a magreza como a imagem corporal desejada, o que ocorre principalmente nas mulheres e causa uma não aceitação de sua aparência.
A insatisfação corporal pode ser identificada tanto em adolescentes com excesso de peso como nos eutróficos. Além de insatisfeitos, os adolescentes apresentam rejeição da própria
imagem corporal24. Uma percepção da imagem corporal
alterada pode gerar restrição alimentar, principalmente aos alimentos hipercalóricos25,26.
Para Siegel et al.27, a cultura enfoca a magreza, fazendo
com que as meninas tenham crescente aumento da insatisfação conforme seu crescimento, uma vez que os problemas relacionados à imagem corporal iniciam cedo, por volta dos oito anos de idade28.
A literatura afirma que a insatisfação com a imagem corporal pode durar a vida toda e isso é perceptível ao considerar-se que pesquisas com adultos têm resultados semelhantes às realizadas com crianças e adolescentes29.
Na Tabela 2 é possível verificar a análise do Teste de Atitudes Alimentares, sendo que 27,1% das adolescentes avaliadas apresentaram possíveis riscos de transtornos alimentares, enquanto no estudo de Vilela19 verificou-se
porcentagem menor (13,3%). Segundo Cash e Deagle30, o
distúrbio da imagem corporal é um sintoma dos transtornos alimentares, caracterizado por auto avaliação dos indivíduos influenciada pela experiência com seu peso e forma corporal.
Na Tabela 3, observa-se a prevalência de imagem corporal com moderada/grave distorção, risco de transtorno alimentar e do estado nutricional de sobrepeso/obesidade (IMC), correlacionadas entre si e entre a variável idade.
Tabela 3: Prevalência de imagem corporal com moderada/grave distorção, transtorno alimentar e IMC com sobrepeso/
obesidade, correlacionadas entre si e entre a variável idade das estudantes avaliadas no município de Guarapuava, 2011
Avaliações BSQ Moderada/grave distorção Risco de transtorno alimentar IMC sobrepeso/Obesidade
Variáveis N % n % n % Idade (anos) p=0,22* p=0,92* p=0,53* 14 7 36,8 8 30,8 6 40,0 15 4 21,1 5 19,2 4 26,7 16 2 10,5 7 26,9 2 13,3 17 6 31,6 6 23,1 3 20,0 Imagem corporal (BSQ) - p=0,00** p=0,29** Moderada/grave distorção - - 14 53,8 1 6,7 Normalidade/leve distorção - - 12 46,2 14 93,3
Transtorno alimentar (EAT) p=0,00** - p=0,34**
Risco 14 73,7 - - 2 13,3
Sem risco 5 26,3 - - 13 86,7
IMC p=0,29** p=0,34**
-Sobrepeso/obesidade 1 5,3 2 7,7 -
-Magro/eutrófico 18 94,7 24 92,3 -
-*Valor de p relativo ao teste Qui-quadrado de Pearson, com significância de p<0,05; **Valor de p relativo ao teste exato de Fisher, com
significância de p<0,05; BSQ: Body Shape Questionnaire; EAT: Eating Attitudes Test; IMC: Índice de Massa Corporal.
Na Tabela 3, observa-se que houve prevalência significativa apenas entre as variáveis imagem corporal e risco de transtorno alimentar (p<0,05), ou seja, as meninas que apresentam imagem corporal com avaliação de moderada/ grave distorção possuem maiores chances de apresentar risco de transtorno alimentar. Resultado semelhante foi encontrado no estudo de Alves et al.31, avaliando adolescentes do sexo
feminino (p<0,05) na cidade de Florianópolis, SC.
Desta forma, foi realizado o teste de regressão logística (Odds Ratio bruto – OR) e verificou-se que as adolescentes com distorção da imagem corporal moderada/grave apresentam 15,17 (IC95% - 4,60-49,98) vezes mais chances de ter risco de transtorno alimentar do que aquelas em normalidade ou com leve distorção da imagem corporal. Estes resultados corroboram com avaliações de Alves et
al.31, onde as adolescentes com distorção da imagem corporal
apresentaram 14,39 (IC95% - 9,98-20,75) vezes mais chances de apresentar risco de transtorno alimentar.
4 Conclusão
Conclui-se que maioria das adolescentes pesquisadas apresentou um estado nutricional adequado. Entretanto, as meninas avaliadas com moderada/grave distorção da imagem corporal apresentaram maiores chances de apresentar risco de transtorno alimentar.
Dessa forma, ressalta-se a importância da educação nutricional voltada à faixa etária, enfocando o valor de uma alimentação saudável para prevenir futuros déficits nutricionais, que podem vir a causar diversas patologias.
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